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domingo, 1 de novembro de 2015

Sidharta - Capítulo 2 - Achando o Time Ideal para essa "Good Vibration" - Por Luiz Domingues

Conhecia bem o Zé Luiz, pois convivemos juntos quase diariamente por cinco anos, quando éramos companheiros de Chave do Sol.
Ele tinha pouca ou nenhuma identidade com a cena Rocker sessenta / setentista. O negócio dele era o Jazz-Rock, quase que exclusivamente. Eu tinha certeza de que seria difícil ele encaixar-se na filosofia do Sidharta, mas arrisquei, pelos seguintes motivos :

1) Estávamos quebrando a cabeça para pensar num baterista, exatamente por estarmos afunilando na condição de ser coadunado com o espírito Woodstockiano. Mas, e se abríssemos exceção nessa rigidez, ao menos nessa escolha do baterista ?
2) Tecnicamente não havia nada a dizer... ele pegaria as baquetas, sairia tocando divinamente, e fim de papo.
3) Pelo aspecto do caráter, a mesma coisa. É o tipo de pessoa que eu assinaria uma procuração em branco para ele movimentar a minha conta bancária.
Honestidade total; força de vontade; trabalho; dedicação; empenho, foco... enfim, todas essas qualidades são inerentes à personalidade dele. Portanto, minha única dúvida era apenas a questão do direcionamento artístico da banda, onde fatalmente haveriam divergências, devido à visão diferente dele.

Então, quando comuniquei ao Rodrigo que o Zé Luiz Dinola havia ligado-me, ele surpreendeu-me, pois antecipando-se, foi logo falando que devíamos convidá-lo, denotando que também pensava nisso etc e tal. Mais uma vez eu lembrei-o que conhecia bem a cabeça do Dinola, e nem Rocker exatamente ele era. E num projeto radical como era o Sidharta, eu tinha sérias dúvidas se ele encaixar-se-ia. Mas o Rodrigo relevava as minhas advertências, dizendo que ele aos poucos integrar-se-ia à proposta, e o que importava é que tocava muito bem, era experiente e gente boa.

Disso eu não tinha dúvida, mas ainda ficava com aquela impressão de que por um detalhe aparentemente ínfimo, porém fundamental para os nossos planos, não daria certo. Eu realmente não achava-o ideal para o projeto e reafirmo, com muito pesar, pois ele é um artista sensacional. Fomos então à casa dele em Pinheiros, numa noite de terça-feira, em fevereiro de 1998, e conversamos detidamente sobre o projeto. O Rodrigo levou um violão e mostrou as músicas que já tínhamos, e ele gostou, sem restrições, pois da parte dele, havia a vontade de tocar, e eu reconheço que sua força de vontade cativou-me.

Independente desse conflito de perfis ideais para com o projeto, eu também gostei, claro, pois iria tocar com ele novamente, e afinal de contas, não tocávamos juntos oficialmente desde maio de 1987.
Quase 11 anos, e não estou contando um show que ele fez em janeiro de 1988, em título de ajuda fraternal, na fundação de uma banda dissidente d'A Chave do Sol (A Chave / The Key) e que teve que passar as pressas, mas isso é assunto de outro capítulo, naturalmente. Então, fizemos um ou dois ensaios acústicos só para ele conhecer o mapa das músicas, e marcamos o primeiro ensaio para o final de fevereiro, num estúdio na Vila Mariana, onde o Zé Luiz já havia usado em trabalhos cover, anteriores. Eu estava ansioso por esse ensaio, pois de certa forma, era como se estivesse reatando o fio da meada do meu primórdio na música, visto que era um trabalho iniciado por eu mesmo, após anos do fim da Chave do Sol, e com o Pitbulls on Crack, no meio do caminho.

Eu cheguei nesse primeiro ensaio, muito animado, claro. Eu estava cada vez mais confiante no Rodrigo, e mais animado com a presença do Zé Luiz, visto que seu entusiasmo em trabalhar, contagiou-me, e suas demais qualidades óbvias como músico e pessoa, eu já conhecia de longa data.

O ensaio foi meio improvisado, pois era a primeira vez que tocávamos de fato, de forma elétrica. E deu para notar uma certa tensão no ar entre o Zé e o Deca, visto que um não havia simpatizado com o outro, infelizmente. Conhecendo os dois bem como eu conhecia, de trabalhos longos, percebi que um clima aconteceu logo de imediato nas primeiras músicas, pois o Deca gosta de tocar muito alto, e o Zé Luiz gosta de volume baixo, para melhor avaliar as músicas, prestar atenção em arranjos etc. O Deca ensaia como se estivesse ao vivo num show.

Esse clima, acentuar-se-ia, e precipitaria um rompimento pouco tempo depois. Não seria só por isso, claro, mas além de outros motivos mais importantes, esse também pesaria. Na hora achei que havia sido somente uma indisposição sem importância. Eu enxergo o sinal agora, com a devida distância que o tempo permite-me, para ter essa visão macro da história. Portanto, foi ficando mais evidente nos ensaios seguintes, e motivou o Deca a abandonar o projeto.

Quebrado esse gelo inicial, fomos marcando novos ensaios elétricos, e intercalando com acústicos na casa do Zé Luiz. Novas músicas iam surgindo, e as primeiras, ganhando corpo com arranjos.
Devo enaltecer o Zé Luiz nesse aspecto, pois ele sempre foi bom em dar boas sugestões de arranjos no nosso tempo d' A Chave do Sol, mas esse Zé Luiz onze anos mais velho, com quem eu estava lidando agora, tinha ficado ainda melhor.

O meu temor pela incompatibilidade estética dele com o trabalho ainda existia, mas estava apequenando-se, ao deparar-se com o entusiasmo dele com o projeto, e sua participação ativa, criando ótimas sugestões de arranjos, e participando ativamente de todos os aspectos extra musicais. O que não ia bem era o desânimo do Deca, pois nitidamente não estava com o mesmo entusiasmo. Então, ainda ao final de fevereiro de 1998, ligou-me e pediu uma reunião extra, onde comunicou que o Sidharta não era exatamente o que esperava.

Disse-me que quando eu convidei-o em 1997, pensava em algo mais centrado no Rock'n Roll, e o rumo que estávamos adotando era o de um leque muito mais aberto. Mas essa interpretação dele estava equivocada, pois desde o início, havia deixado muito claro que o objetivo era evocar diversos estilos e não fechar-se num único.

Se a ideia era buscar inspiração nas décadas de sessenta e setenta, o que havia de mais genial nelas ? A diversidade, ora...
A despeito disso, eu e Rodrigo, ficamos chateados com a saída dele, mas apreciamos a honestidade, e transparência com a qual ocorreu.

Zé Luiz não lamentou, pois definitivamente, não havia entendido-se com ele e vice-versa. Nos ensaios subsequentes ao primeiro, o clima acirrou-se, indo além da questão da dinâmica. Nessa altura, já discutiam por conta de divergências de arranjos. E confidencialmente, havia dito-me que não havia apreciado o estilo dele como guitarrista, suas escolhas de timbres, e uso de pedais.
Nesses termos, foi o melhor para o Sidharta, e para ele Deca, pois a seguir, começou no Baranga, 100% Rock'n Roll, como gosta.

Agradável não foi, pois a minha expectativa nessa banda era cumprir todas as etapas sem repetir os erros do passado, portanto, uma troca de membros logo de início, não estava nos planos. Mas diante da insatisfação do Deca quanto ao rumo da banda num leque muito mais aberto do que ele supunha, não havia mesmo o que fazer. E de fato, ele não havia compreendido o espírito da banda, e daí, sua saída acabou sendo o ideal para ambos.

Ficamos apreensivos eu e Rodrigo. O Zé Luiz nem tanto, pois não tinha na cabeça essa questão de comprometimento com um ideal, portanto, qualquer guitarrista seria bem vindo, desde que tivesse nível técnico bom. Eu e Rodrigo conversamos bastante e chegamos a conclusão de que um nome excepcional para o projeto seria o de Marcello Schevano.

Da esquerda para a direita, Marcelo "Pepe" Bueno; Ricardo Schevano, e Marcello Schevano, na minha sala de aulas, em algum momento de 1996

Irmão de meu aluno Ricardo Schevano, e ainda mais novo que o Rodrigo, mas tocando uma guitarra "redonda"; desenvolvendo muita habilidade nos teclados, e em breve, agregando mais um instrumento que abrilhantaria demais o som do Sidharta, e posteriormente da Patrulha do Espaço : a flauta transversal. Mas não era tão simples convidá-lo e pronto. Isso porque a época, ele estava tocando com uma banda chamada "Soulshine", com meu também aluno, Marcelo "Pepe" Bueno. Apesar de tocarem mais covers do que material próprio, e ser uma banda de garotos praticamente, seria incorreto tirá-lo de lá, assim, abruptamente.

Conversamos então com ele e propusemos-lhe que ficasse nas duas bandas, mesmo porque a nossa demoraria para pensar em atuar ao vivo ou gravar. Sei que o pessoal do Soulshine ficou um pouco triste, mas eles também teriam que galgar um longo caminho até tornar-se o "Tomada", enfim. O Marcello aceitou imediatamente, e como eu conhecia-o, apesar de sua extrema juventude, sabia que seu talento e sua mentalidade 100 % calcada em Rock retrô, cairia como uma luva no projeto, e assim foi, de forma instantânea.

Continua... 

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