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domingo, 1 de novembro de 2015

Sidharta - Capítulo 3 - Criatividade & Euforia - Por Luiz Domingues

O primeiro ensaio do Marcello na banda foi num terça-feira, de forma acústica na casa do Zé Luiz. Nesses ensaios acústicos, trabalhávamos arranjos, vocalizações etc. Logo no primeiro ensaio, a simpatia entre ambos (Zé Luiz e Marcello), foi automática.
O Zé Luiz ficou de queixo caído com a técnica do Marcello ao violão e teclados. E logo no primeiro ensaio elétrico, ficou muito entusiasmado com a performance dele à guitarra e teclados.

Esses primeiros ensaios da formação ideal e definitiva do Sidharta aconteceram nos primeiros dias de março de 1998, e por sugestão do Zé Luiz, passamos a ensaiar eletricamente num estúdio em Pinheiros, próximo à estação Clínicas do Metrô, e perto da casa dele. Nossa rotina a partir daí, passou a ser : ensaios acústicos as terças na casa dele, e elétricos as sextas, nesse estúdio. Novas músicas surgiam, e o Marcello também trazia ideias, mostrando que tornar-se-ia fatalmente um grande compositor.


Nessa altura, já ensaiávamos músicas como : "Alma Mutante"; "Retomada"; "Sistema Solar"; "Sonhos Astrais"; "O Pote de Pokst"; "Abstrato Concreto"; "Sr. Barinsky", e começávamos a criar "Céu Elétrico", com um novo arranjo, pois o Marcello traria um novo instrumento em breve, abrindo uma nova possibilidade. E foi assim... do nada, ele teve um impulso, foi à Rua Teodoro Sampaio (para quem não conhece São Paulo, é a rua com maior concentração de lojas de instrumentos e equipamentos musicais da cidade), e comprou uma flauta transversal...

Sem fazer nenhuma aula, sem ter noção, apenas descobriu a escala no instrumento, e começou a soprar, sem nenhuma técnica de embocadura. Poucos dias depois, pulando a fase de ficar "tonto" pela oxigenação cerebral, o que demora para qualquer estudante normal, ele já fazia solos muito legais. Com essa possibilidade, já incorporamos a flauta à banda, e na música "Céu Elétrico, ele passou a fazer essas belas intervenções, que depois foram imortalizadas no disco "Chronophagia", da Patrulha do Espaço.
E nos teclados, foi o mesmo. Volto um pouco na cronologia para contar esse fato.

Da esquerda para a direita : Marcelo Bueno e os irmãos Schevano, Ricardo e Marcello, em minha sala de aulas, no ano de 1996

O Marcello foi ouvinte nas aulas do seu irmão, Ricardo, entre 1994 e 1998. Logo notei que ele ficava quieto olhando, e nas brechas das aulas, pegava o baixo e tocava perfeitamente o que eu acabara de ensinar ao seu irmão. Era óbvio que ele tinha um ouvido excepcional, que dava-lhe uma condição de percepção musical acima da média. Mais ou menos em 1997, disse que estava pensando em comprar um teclado. E quando o fez, contou-me imediatamente. OK, pensei, vai começar a fazer aulas e demorar para desenvolver, sendo que no violão; guitarra e baixo, já estava tocando muito bem.

Então, numa questão de uma semana, entre uma aula do Ricardo e a próxima, ele trouxe o teclado à minha sala de aulas e com as duas mãos, tocou um longo trecho de "Karn Evil 9" do Emerson, Lake and Palmer. Tocando aquelas coisas complexas do Keith Emerson em uma semana ???  Então, quando apareceu com uma flauta, não duvidei de sua capacidade incrível de desenvolver-se num tempo assombrosamente rápido, muito maior do que um aluno normal.



Com essa rotina estabelecida de ensaios as terças e sextas, entramos num período maravilhoso de desenvolvimento e companheirismo. Lembro-me desses meses de março a julho de 1998, com muito carinho, por sentir novamente dentro de meus anseios, a velha energia de animação que eu tinha nos tempos do Boca do Céu, e no início da Chave do Sol...

Finalmente estava montando uma banda de Rock sem concessões, fazendo o som do coração, sem importar-me com mercado; mídia; modismos, e qualquer outro fator desalentador, incluso guerra de estéticas. E chegado o momento inevitável de escolher um nome, elaborei uma lista com mais de 50 sugestões de opções possíveis.
Todos tinham comprometimento com a cultura Rocker 1960 / 1970.

Como os outros não tinham muitas sugestões, a minha lista foi usada como a base de escolha. Fiz cópias e deixei para cada um analisar e votar posteriormente. Então, a escolha foi "Sidharta", um nome que tinha sonoridade; era pomposo, e de conotação esotérica, por ser o nome do príncipe Sidharta Gautama, que abandonou sua vida de luxos para buscar o nirvana, o ideal da libertação espiritual, tornando-se aí, o Budha.

Um nome forte para resgatar as tradições do Rock sessentista que tanto aproximou as vertentes esotéricas do oriente, aos Rockers, Hippies & Freaks. E a medida que as músicas iam sendo compostas, todos colaboravam no quesito letras, mas surgiu a ideia de colocarmos no nosso rol de parcerias, a presença de um velho amigo meu e de Zé Luiz, colaborador dos tempos de A Chave do Sol. 

O poeta Julio Revoredo, com o compacto da Chave do Sol em mãos, numa ocasião em que acompanhou-nos à sede da Rádio e TV Cultura, em julho de 1984. Foto de seu acervo pessoal.

Convidamos o poeta Julio Revoredo a fornecer-nos alguns de seus poemas. Levei os dois garotos para conhecê-lo em sua casa no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo, e lá, ele selecionou algum material para que pudéssemos trabalhar. Desses poemas dele, cheios de erudição, escolhemos "Nave Ave"; "O Futuro é já"; e "Terra de Mutantes", de imediato, e mais para frente, trabalhamos mais uma. Agora com o Marcello revezando-se aos teclados com o Rodrigo, a banda ia ficando sensacional. Zé Luiz estava a mil por hora, entusiasmado com os garotos.

Minha euforia era muito grande, pois após anos de dissabores e muitas concessões ao plano de vida primordial, achava ter conseguido resgata-lo, finalmente. E nesse euforia juvenil, eu vibrava na mesma energia que eu tinha nos anos setenta, quando mergulhei na música, ainda adolescente. Minha euforia avolumava-se ao ver que tinha duas joias preciosas em mãos.

Rodrigo e Marcello, em foto do primeiro show da Patrulha do Espaço em agosto de 1999, onde minha projeção feita nos tempos do Sidharta, começou a concretizar-se de fato, sobre a explosão do talento assombroso de ambos

Rodrigo e Marcello eram geniais, por serem ambos, multi-instrumentistas; vocalistas; compositores; letristas, e extremamente jovens e bem apessoados. Tinham tudo para explodir na carreira.
Não é fácil formar uma banda com dois talentos desse porte. E o Zé Luiz, apesar de não vibrar com essa mesma intensidade que nós na questão do resgate retrô que a banda propunha, compensava com sua animação pela banda em si. Estava louco para tocar, e empolgado com os garotos.

E convenhamos, era um grande músico, que eu também estava gostando muito em ter como sócio novamente, pois seu caráter é irretocável, e como músico, se achava-o excelente no tempo da Chave do Sol, agora, 11 anos depois, estava ainda mais técnico e experiente. Portanto, também não é fácil arrumar um baterista desse altíssimo nível, para integrar-se a uma nova banda. Foi uma época muito bonita, que realmente guardo com muita força, pois a rigor, foi o meu "religare" na determinação de seguir meu plano inicial traçado em 1976. A cada nova música que surgia; a cada letra; a cada arranjo que enriquecia as canções, sentia arrepios de euforia !


Eu não tinha uma música predileta. Cada uma tinha o seu encanto, mesmo as que eu não tinha nenhuma participação como compositor ou letrista. Sentia que cada música era um filho nascendo desse projeto tão bonito.
Lembro-me que cada uma tinha as suas particularidades e todas tinham ligação com o espírito do projeto. Por exemplo, "Retomada" lembrava-me o Rock brasileiro dos anos setenta. Lembrava demais "O Peso"; "Bixo da Seda", "A Bolha"...

Donovan, o grande menestrel hippie do Folk-Rock britânico sessentista
 
"Céu Elétrico"era folk sessentista / psicodélico e lembrava-me "Donovan"; "Procol Harum", "Jethro Tull". "Nave Ave" era "Traffic" puro, com aquela linda introdução de acordes que o Marcello criou, e no fim, ficava épica, parecia Prog-Rock, ao estilo do "Focus".

                     Martha, my Dear, Don't forget me...

"Abstrato Concreto" e "Sr. Barisnky" eram "canções Beatle". Podiam estar nos LP's "Sgt° Peppers", ou "White Album"...

"Ser" era uma paulada que remetia ao "Grand Funk" dos primeiros trabalhos, o mítico LP da "capa vermelha", "Closer to Home"...

"Tudo Vai Mudar" e "Sistema Solar" eram "Southern" Rocks na pegada dos "Allman Brothers"...
"Sonhos Siderais" lembrava-me o "King Crimson" na primeira parte, e no final da música, lembrava demais o "Yes". E assim por diante. Cada referência dessas preenchiam-me de motivação e alegria por estar retomando o meu plano primordial de carreira.
E o que motivava-me ainda mais, era saber que os dois garotos vibravam nessa mesma linha, pois apesar de não terem vivido essa época, tinham essa cultura toda, sabiam de onde vinham as ideias e gostavam de soar assim, fora a questão da temática das letras, o visual que queríamos implantar, e a produção de estúdio onde queríamos seguir os passos de artistas de complexidade retrô como "Black Crowes"; "Lenny Kravitz", e outros, que esmeravam-se para ter essa sonoridade vintage em seus discos. E já pensávamos nessa possibilidade de começar a gravar. Tanto é assim, que marcamos para gravar uma demo ao vivo no estúdio de ensaio, para começarmos a ver como as músicas estavam soando nesses primeiros esforços de nossa parte.

Essa primeira demo foi gravada de forma muito simples. Era um ensaio gravado ao vivo, sem nenhum retoque especial, apenas o advento de mais microfones fazendo o papel de "overall", ou seja, uma captação generalizada e sem apuro técnico. Feita essa ressalva, digo que serviu ao seu propósito, pois o objetivo era ouvir, mesmo que de forma tosca, como estavam soando as primeiras músicas compostas e arranjadas. Ouvimos juntos na casa do Zé Luiz, e depois fizemos cópias para ouvir individualmente em casa. Os meninos estavam tranquilos. Contentes, mas serenos, sem nenhuma excitação especial pela gravação desse ensaio. Mesmo porque, gravávamos todos os ensaios normalmente, só que com um pequeno gravador portátil que eu levava sempre. Acompanhar a evolução das músicas, auxiliava-nos muito no processo de apuro delas.

 
Nessa altura, já havíamos composto "O Novo Sim", uma música minha que o Zé Luiz acabou fazendo parceria, escrevendo a letra.
Essa música, lembrava demais o som do "Peter Frampton", e também o "Tutti-Frutti" dos bons tempos. Como o Marcello já estava melhorando muito na flauta, acabamos criando um arranjo final diferente, com uma parte adicional para ele fazer um novo solo de flauta. Ficou sensacional, e essa música acabou entrando no CD "Chronophagia", da Patrulha do Espaço.

Dessa forma, ficou inusitado num disco da Patrulha do Espaço, haver uma parceria com o Zé Luiz Dinola, visto que o membro original e condutor ativo daquela banda é o baterista...
E nos shows da Patrulha, ela foi executada muitas vezes, e em algumas ocasiões, chegou a provocar uivos da plateia, por ver o Marcello pular do piano para engatar um lindo solo de flauta, enquanto eu e o Rodrigo sustentávamos um Riff, bem no estilo do "Jethro Tull".  Uma vez, num show da Patrulha do Espaço em 2002, numa cidade de Santa Catarina, chamada Concórdia, tivemos uma surpresa incrível do público com essa música, mas isso eu conto no capítulo da Patrulha, evidentemente. Claro que lembrei do Sidharta nesse momento, e do Zé Luiz Dinola. Lembrei imediatamente daquelas prazerosas noites de terça, onde fazíamos músicas com tanta vibração positiva, e como ele ficaria orgulhoso de ver aquele monte de jovens cantando a letra que ele escreveu numa noite dessas de terça, de 1998. Continuamos criando, e agora já tínhamos "Terra de Mutantes", que lembrava demais o "Joe Cocker" da época do LP "Mad Dogs and the English Man". A letra, como já havia dito anteriormente, era do poeta Julio Revoredo.

O poeta Julio Revoredo, em foto de seu acervo pessoal, dos anos 2000

O Julio trabalhando conosco, como nos velhos tempos da Chave do Sol, era um reforço e tanto para o projeto. Suas letras complexas, ricas em imagens, sempre destoaram das letras comuns em geral que ouvimos por aí. Tinha saudade de poder contar com ele, e estava feliz por ele ser colaborador do projeto. E assim encerramos o primeiro semestre de 1998, com um trabalho já concreto em mãos, e novidades saindo do forno.

 
Assim que começamos a ensaiar de forma elétrica em estúdios, com a nova formação com o Marcello, nossos ensaios ficaram disputados. Como era impossível acomodar muitas pessoas dentro do pequeno estúdio que alugávamos em Pinheiros (na Rua Arruda Alvim, bem próximo da estação Clínicas do Metrô), nós organizamos um rodízio de convidados.

Dali em diante, os ensaios passaram a ter público. Muitos amigos acompanhavam com entusiasmo os nossos passos iniciais, sendo testemunhas do nosso processo de criação, e dos nossos progressos.
Percebendo que aquele pequeno estúdio de Pinheiros não comportava mais essa visitação, resolvemos ir a um lugar mais espaçoso, e aí surgiu a ideia de ensaiarmos no estúdio / casa do Paulo "P.A." Pagni, ex-baterista do RPM, e ex-vocalista do Neanderthal. Sua casa ficava na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e curiosamente, paralela à rua da residência / estúdio do Xando Zupo, onde alguns anos depois, o Pedra daria seus primeiros passos.

O P.A. tinha transformado a sua casa e seu estúdio, num recanto hippie, muito doido. O estúdio mais parecia uma caverna, com mil adereços louquíssimos espalhados por todos os lados. No meio da caótica bagunça, ele parecia aconchegante, e de certa forma condizente com o espírito que queríamos para o Sidharta, sempre evocando a vibe sessentista. Mas os ensaios na nova casa do Sidharta só aconteceriam para valer a partir de agosto, pois no mês de julho, fizemos uma pausa forçada. Os dois garotos, acompanhados de amigos, lotaram dois carros, e viajaram para a Argentina, numa aventura maluca.

Fiquei chateado com essa resolução deles, pois achei que nas férias dobraríamos os ensaios, mas ocorreu o contrário, com o cancelamento total e compulsório. O Zé Luiz acabou sendo mais compreensivo e persuadiu-me a não chatear-me, usando o argumento óbvio de que eles eram garotos e dessa forma, não poderíamos esperar seriedade e foco da parte deles, o tempo todo. Ele tinha razão, pois não custava nada dar-lhes uma pausa, mesmo porque, o trabalho estava rendendo bem. Assim que voltaram, reiniciamos os trabalhos com força total e naquele estúdio maluco do P.A.

A primeira foto, é mesmo do velho estúdio do "PA", a na foto abaixo, o grande Bill Graham posa no palco do seu mítico auditório "Fillmore West", um dos maiores templos do Rock sessenta / setentista

Eu projetava a banda atuando ao vivo, e a reação que produziria
O impacto seria tremendo. Na minha expectativa, o Marcello, por exemplo, começaria o show destruindo na guitarra. Algum tempo depois dirigir-se-ia para os teclados, e pilotava-os como tecladista de anos setenta, rodeado de instrumentos, e destruindo nas bases e solos, aí, de repente, fazia um solo de flauta, sem contar que era lead vocals em várias músicas...

Como se não bastasse tudo isso, o Rodrigo era igualmente habilitado para fazer esses voos brilhantes, o que deixaria o público boquiaberto. Zé Luiz estava ainda mais técnico em se comparando ao tempo em que nós trabalhávamos juntos nos anos oitenta, com A Chave do Sol, portanto, arrancaria suspiros com sua técnica refinada. Em suma, que banda forjava-se ali... e quando tudo virou Patrulha do Espaço, de fato, testemunhei diversas reações de euforia do público vendo essa versatilidade toda do Marcello e do Rodrigo. Mas aqui o assunto é Sidharta, logicamente...

Se o Sidharta estaria na ativa hoje ? Bem, não tenho esse pensamento, pois o Sidharta não acabou, ele prosseguiu, tornando-se uma simbiose da Patrulha. Nesse caso, não dá para desassociar o Sidharta da Patrulha, como se fossem coisas diferentes, pois houve uma fusão de bandas, na verdade.

O Sidharta não morreu, portanto, mas simplesmente fundiu-se à outra banda que tinha já uma história longa. Nessa mescla de passado e tradição, com juventude e sangue novo, ambas lucraram com a fusão, portanto, não tenho como arrepender-me. E rejeito assim, a ideia de que se o Sidharta não tivesse unido-se a Patrulha, poderia ter tido outro destino, pois seria mera especulação. Vamos supor que sim, se tivéssemos seguido com nossas próprias forças, o que teria acontecido ? Muito provavelmente, teríamos demorado uma eternidade para fazer shows; aparecer na mídia; gravar um CD; mas chegaríamos nesse ponto de alguma forma, ainda que percorrendo um caminho mais espinhoso...
Portanto, é melhor nem perder tempo com especulações vazias. 

Acima, mais uma foto do estúdio do PA que o Sidharta tanto usou e a Patrulha do Espaço, posteriormente, também
 
O estúdio do P.A. tinha um equipamento legal, mas o som de voz poderia ser melhor. Essa é uma falha que quase toda sala de ensaios tem. E a vedação não era 100%. Tanto é verdade, que o P.A. não alugava o estúdio após as 22:00 h., justamente para não ter problemas com os vizinhos. A questão da viagem dos garotos à Argentina, também foi rapidamente absorvida.

Na época, eu estava com um gás incrível para o projeto, e não passava pela minha cabeça que os outros também não tivessem a mesma energia, daí a minha estupefação inicial com o fato deles não estarem na mesma vibração, e terem optado assim por aproveitarem as férias, ao invés de intensificar os ensaios em julho.
Eles estavam empolgados, mas certamente em grau mais baixo, ou melhor explicando, com outra visão e percepção. E outra, o Zé Luiz observou bem: eram garotos e ainda imaturos. Terminadas as aulas, entraram na influência dos amigos, e a viagem tomou proporção de aventura para eles. Natural que nem cogitassem outra hipótese, a não ser ficar 20 dias aventurando-se numa viagem tão longa. Logo que retornaram, e nós retomamos à rotina de ensaios, tudo voltou ao normal. Assumo, que exagerei na minha expectativa...

A terceira foto acima, também é do estúdio do PA, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo
 
Sim, os ensaios voltaram ao normal e iniciamos uma nova "Era" no Sidharta, ensaiando doravante no estúdio / casa do P.A. (Paulo Antonio, ex-baterista do "RPM" e ex-vocalista do "Neanderthal"). Os ensaios na casa do P.A. eram muito descontraídos, pois seu estúdio mais parecia uma caverna Hippie. Queimávamos incensos a vontade e não havia restrição quanto ao número de visitantes. Havia até um mezanino onde havia um sofá, e várias almofadas para acomodar visitantes. Lembro-me de ensaios tumultuados, com a presença de até 25 amigos ! Nesta altura, já tínhamos mais de 15 músicas compostas, e estávamos polindo as mais velhas que estavam ficando cada vez melhor.

Pensávamos naquela época em gravar o material, mas com a verba curta, nossas posses dariam só para um compacto, quando muito. E numa Era do CD, isso era algo inviável, pois o custo para prensar duas músicas era o mesmo que 15...

Sim, a ideia era gravar um disco, mas os nossos parcos recursos não permitiam tomar essa dianteira de já planejar com contundência tais providências. Naquele momento era ainda só especulação e acima de tudo, constatação de uma necessidade premente. Quanto a uma possível sanha por shows, não existia nesse nível e não preocupava-me. Os garotos estavam focados com a ala velha da banda (eu e Zé Luiz), e nesse sentido, o foco era compor, arranjar e afiar o repertório. A mentalidade era a de só tocar com um padrão de qualidade elevado. A partir do segundo semestre, quando começamos a ensaiar no estúdio do P.A., já tínhamos um repertório inicial significativo. E ainda tivemos fôlego para continuar compondo. Nesta altura, já contávamos com "Abstrato Concreto"; "Sistema Solar"; O Futuro é já"; "Estar Feliz Consigo"; "Sr. Barinsky"; "Sonhos Siderais"; "Céu Elétrico"; "Nave Ave", "Terra de Mutantes"; "O Mesmo Fim" (depois mudou de nome para "O Novo Sim" e foi gravada pela Patrulha do Espaço); "Ser"; "Retomada"; "O Pote de Pokst"; "Tudo vai Mudar", e "Do Começo ao final". Logo, nos ensaios no estúdio /casa do P.A., sairiam as novas.

Uma que estava amadurecendo era uma viagem psicodélica, chamada "Eu nunca Existi". Tive a ideia inicial dessa música, assistindo (pela enésima vez...), o filme "The Party" do Peter Sellers. Aquela cena final, anárquica, com todo mundo dançando uma canção psicodélica com um elefante todo pintado numa piscina, sempre impressionou-me muito por ter uma vibração única, como se tivesse congelado o astral de 1968. A ideia que criei no baixo, não é cópia, nem parece-se, mas é inspirada naquela onda.
Mostrei a ideia ao Rodrigo que adorou e trabalhou junto, trazendo outros elementos.

A letra, cheia de questionamentos psicanalíticos, casou-se perfeitamente com a psicodelia. E foi mais uma colaboração brilhante do poeta Julio Revoredo. Assim, surgiu "Eu nunca Existi", nossa incursão na psicodelia sessentista. Essa música foi gravada também pela Patrulha do Espaço, no disco "Chronophagia".

Com o avançar do segundo semestre de 1998, as primeiras músicas estavam cada vez mais azeitadas e a qualidade das novas que iam surgindo, melhorava, pois o entrosamento ia sendo conquistado.
Eu estava plenamente satisfeito com os rumos da banda, artisticamente falando, mas começaram a surgir discordâncias por parte do Zé Luiz. E de certa forma, conforme já esclareci aqui neste capítulo, logo no começo, eu sabia que a despeito de todas as qualidades dele como músico; artista e pessoa, esse conflito poderia vir à tona mais cedo ou mais tarde, pois o projeto era fora do contexto natural de preferências estéticas dele.

E não foi por falta de aviso. Eu adverti os garotos desde que surgiu a ideia, e quando ele engajou-se, deixei muito claro que a intenção da banda era fechar numa estética retrô radical. Ele aceitou e cativou-me por sua força de vontade inicial, mas essa força nada tinha a ver com esse foco em si. Que ele era / é um profissional exemplar e tem no esforço pessoal uma de suas melhores características, eu sabia desde o tempo da Chave do Sol. A questão aqui era : ele encaixar-se-ia numa proposta de banda como era a do Sidharta ? Ele disse que sim, e os meninos que não eram nada experientes nessa época, acreditaram, mas eu que era rodado e conhecia muito bem o temperamento do Zé Luiz, sabia no fundo, que não. E esse "não", doía-me na alma, pois trabalhar com o Zé era extremamente prazeroso pelo grande músico que ele é, e no quesito extra musical também, pelo seu caráter e força de trabalho, incansável. E que sinais começaram a aparecer ? Ele começou a falar em querer certas influências musicais modernas (modernas nos anos noventa, bem entendido), para buscar timbres de bateria num suposto CD do Sidharta. Claro, na questão da escolha pessoal do timbre do seu instrumento, o músico dá a palavra final. Mas desde que haja uma unidade compatível com o bojo do trabalho, claro.
E se a banda evocava os Deuses do Rock 1960 / 1970, aonde entraria o "Prodigy", que ele citava constantemente ?

Olhando para essa foto acima, do vocalista da banda noventista "moderninha" que citei anteriormente, mais uma vez eu recorro a uma pergunta clichê, porém realista na minha autobiografia : passados alguns anos, diga-me caro leitor, qual a relevância desse tal de "Prodigy" para a história da música ? Por isso eu nunca precipito-me em esticar um tapete vermelho para quem está na crista da onda, "hypado" pelos famigerados "formadores de opinião", essas verdadeiras bestas apocalípticas a serviço do marketing, e contra a arte... sempre !

Eu pescava tais sinais, que não surpreendiam-me, conforme já expliquei inúmeras vezes, mas ainda achava que essas incompatibilidades eram contornáveis. Os meninos não percebiam essas sutilezas, pois fora do foco da banda, levavam suas vidas como estudantes e suas distrações sociais a todo vapor com "baladas" nos finais de semana, portanto, essa preocupação de ter que administrar uma futura possível turbulência, era só minha.

Mas infelizmente, dava para notar no Zé Luiz, que ele estava começando a ficar insatisfeito. Eu conhecia-o muito bem, e sabia que quando ele começava a ficar quieto, e tocar meio carrancudo, é porque não estava gostando dos arranjos. Diferente do início, onde mostrava-se super participativo e criando vários arranjos. Fora isso, que ainda era só um sinal sutil e não gritante, tudo ia bem, pois as músicas mais antigas continuavam sendo buriladas e ficando cada vez melhores.

"Nave Ave" executada num ensaio realizado em algum momento do segundo semestre de 1998, no estúdio de Paulo P.A. Pagni, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo

Eis o Link para assistir no You Tube :



Nessa altura, agosto / setembro / outubro de 1998, se houvesse uma oportunidade de tocar ao vivo, creio que já teríamos condições de fazer ao menos um set curto, ou recheando com covers para tocar eventualmente num bar, ou num espaço de pequeno porte. Estávamos fechados na ideia de criar o material para depois tocar ao vivo e portanto, o Sidharta nunca tocou ao vivo. Mas visto hoje, dezenove anos depois (2016), creio que talvez essa estratégia não tenha sido a melhor. Se tivéssemos marcado pequenas apresentações em bares, considerando que mesmo desconhecidos, arrastaríamos um bom público (só os meus alunos e agregados do exército de Neo-Hippies garantiriam um mínimo de 80 a 100 pessoas, sem dúvida). Talvez (sempre o "talvez"...), o Sidharta tivesse consumado outro destino, com o Zé Luiz animando-se mais, vendo o resultado ao vivo, quem sabe ? Certamente teria mudado o futuro, talvez não houvesse tido a fusão com a Patrulha do Espaço, talvez... talvez...

O público alvo do som que o Sidharta almejava, logicamente era o de apreciadores de som das décadas de 1960 / 1970. Mas se por um lado realmente parecia ser um público envelhecido, a minha percepção era outra, muito diferente. Isso porque eu já vinha de anos e anos, observando a ascensão de um público renovado e muito jovem, portanto, a minha própria sala de aulas era um balão de ensaio dessa efervescência Neo-Hippie.

O Brit-Pop dos anos noventa era um agente motivacional nesse sentido também, pois quase todas as bandas desse movimento inspiravam-se explicitamente no som dos anos sessenta. Então, eu tinha muita esperança de acessar esse público alvo de jovens antenados que crescia em progressão geométrica naqueles anos.

E a prova de que estava certo na minha avaliação, veio a seguir, com o Sidharta metamorfoseando-se na Patrulha do Espaço, e nas nossas andanças pelo interior de São Paulo e estados do sul, principalmente, tivemos essa constatação muitas vezes !! Se consideramos a jornada com a Patrulha o prolongamento do projeto Sidharta, logramos êxito. Talvez não como sonhávamos, em grande escala, mas em diversas manifestações ocorridas principalmente em cidades interioranas paulistas, e dos três estados sulistas.

Marcello Schevano gravando flauta no álbum "Chronophagia", da Patrulha do Espaço, em 2000

Isso veio à minha mente inúmeras vezes, sempre que vi-me diante de situações dessa natureza, nos shows da Patrulha, e com as músicas do Sidharta encantando esse tipo de público jovem e antenado nos anos 1960 / 1970. E não foram poucas, conforme relatarei nos capítulos da Patrulha do Espaço. O nosso trabalho de resgate da sonoridade 1960 / 1970 era muito incisivo e determinado. Havia outras bandas com proposta semelhante no final da década de 1990, mas não tão centradas nesse objetivo.
Nessa época tinha muita gente nessa "vibe", mas todas no underground.

A única banda que eu lembro-me que tinha abertura na mídia grande era o "Júpiter Maçã". O "Cachorro Grande" só viria à tona alguns anos depois, como dissidência do próprio Júpiter Maçã.
Lembro-me do lançamento do disco deles (Júpiter Maçã), todo psicodélico, e ter badalação na MTV, e até uma matéria de página inteira no Folha de São Paulo, que notoriamente tem uma postura monolítica pró-punk'1977, há décadas. Lembro-me de ter levado essa página para os companheiros verem que havia esperança etc e tal. No mais, muitas no underground : "The Tea House Band"; "The Charts"; "Relespública" (esta, há mais tempo na labuta, é verdade); "Feicheclears" etc etc. Perto da nossa "órbita", tinha o "Soulshine" que nada mais era do que o embrião do "Tomada"; o "Supernova"do Carlos Fazano; e "Tomate Inglês", embrião do atual "Klatu".

Ainda nesses últimos meses de 1998, os ensaios ficaram incrivelmente povoados. Chegou a ter ocasião onde eu contei 25 pessoas dentro do louco estúdio do P.A., que mais parecia uma caverna hippie. Fora os cachorros dele que eram figuras...

Ele tinha uma meia / dúzia de Sheep Dogs com nomes como "Lua"; Estrela", "Sol"... até os cães eram freaks ali...
Enchíamos a caverna de incensos, e o astral era sensacional. Claro, esse excesso de convidados atrapalhava um pouco, mas no cômputo geral, era um clima muito gostoso que só contribuía para inspirar-nos mais ainda na "vibe" que queríamos evocar. E da parte do P.A., quem não saia de sua casa eram seus amigos fiéis, Nobuga (percussionista), e o grande guitarrista Hélcio Aguirra, que praticamente estavam lá o tempo todo, em animadas partidas de vídeo game de corridas de F1.

Foto promocional da banda Mobilis Stabilis, onde o Nobuga era integrante. Ele é o primeiro, da esquerda para a direita.

O Nobuga tocava bem a tabla indiana, e muitas vezes deixou-me tocar, claro, eu não tenho técnica alguma, mas adoro o timbre desse instrumento maravilhoso. No fim, estávamos com quase vinte músicas prontas, arranjadas e ficando muito bem ensaiadas. O Sidharta nunca tocou ao vivo, mas poderia ter tocado pelo padrão de execução que alcançamos. Em "Céu Elétrico", por exemplo, o arranjo do Sidharta era diferente do que ficou com a Patrulha, posteriormente na gravação do CD Chronophagia.
Naquela época, eu tocava guitarra, e o Rodrigo ficava no órgão. O Marcello tocava flauta, e mesclava um pouco de guitarra em algumas partes. A ideia era gravarmos violões no disco, deixando-a mais leve.

O grande "Fairport Convention", grande baluarte do Folk-Prog britânico nas décadas de sessenta e setenta
 
No disco da Patrulha, o Júnior veio com aquele peso na bateria, inviabilizando a ausência do baixo, e daí ficou mais com jeito de "Procol Harum" do que "Fairport Convention", ou "Donovan", como queiram...
E paralelamente a tudo isso que envolvia o Sidharta, estava ocorrendo desde meados desse ano de 1998, um movimento dentro da minha sala de aulas, que estava dando ótimos resultados. Já contei essa história no capítulo "Sala de Aulas", mas o Sidharta tinha tudo a ver com isso. Era o movimento de cartas à mídia...

 
Chegando ao final do ano de 1998, tínhamos o seguinte repertório disponível :

1) Abstrato Concreto

2) Sistema Solar

3) O Futuro

4) Estar Feliz Consigo

5) Sonhos Siderais

6) Céu Elétrico

7) Nave Ave

8) Sr. Barinsky (Admirável Sonhador)

9) Terra de Mutantes

10) O Mesmo Fim

11) Ser

12) Retomada

13) O Pote de Pokst

14) Eu Nunca Existi

15) Tudo Vai Mudar

16) Alma Mutante

17) Cosmo Ego

18) Do Começo ao Final

19) O Ritual

20) Emon

21) Fogueira das Vaidades

Uma vigésima segunda música ainda foi composta no início de 1999, mas não foi finalizada. Isso porque logo tivemos a saída do Zé Luiz Dinola, e a seguir, o projeto acabou fundindo-se a Patrulha do Espaço.

Com a chegada do final do ano, ficavam mais visíveis os sinais da insatisfação do Zé Luiz, que já não tinha aquele bom humor que caracteriza-o. Ele não exteriorizava, contudo, e só mesmo em 1999, foi que abriu o jogo. Chegando ao final do ano, apesar dessa mudança de humor do Zé Luiz, estávamos felizes pela produção do ano inteiro, e pela qualidade das músicas, sobretudo.

Continua...

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