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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Kim Kehl & Os Kurandeiros - Capítulo 1 - Blues; Rock'n Roll Básico; Muito Improviso e uma Boa Dose de Loucura - Por Luiz Domingues

                                                         Foto : Grace Lagôa

Quando comecei a escrever a minha autobiografia na extinta Rede Social Orkut (comunidade "Luiz Domingues", de propriedade de Luiz Albano, um grande amigo e incentivador), o Pedra tinha acabado de anunciar o fim de suas atividades e durante três meses, fiquei sem banda, oficialmente. Alguns convites surgiram, inclusive o de uma emergente banda que eu gosto muito, e que estava para ficar sem baixista naquela mesma ocasião. Eu teria entrado tranquilamente pela sua qualidade técnica e artística, mas o destino levou-me para outro lado. Foi em agosto de 2011 que recebi um recado via Facebook, do guitarrista Kim Kehl, e daí em diante, já começava mais uma história para contar...
O Pedra vinha arrastando-se num processo estressante, há bastante tempo, e quando iniciou-se o ano de 2011, os outros três membros decidiram encerrar as atividades da banda, definitivamente. Apesar de concordar que a carreira da banda definhava, fui contra a decisão, acreditando (e ainda penso igual), que um período sabático poderia acontecer, mas não necessariamente dando a entender publicamente que a banda acabara. Fui voto vencido e tive que acatar a decisão dos demais em encerrar as atividades da banda.
Fiquei muito chateado com isso, mas nem um pouco preocupado com o meu futuro, pois àquela altura, beirando os 51 anos de idade, sabia que tinha um nome consolidado, e que seria questão de tempo para surgirem novos convites de trabalho. Por favor não tomem-me como pedante por estar dizendo isso e faltando com a modéstia, mas sendo realista, eu sabia que por estar nesse patamar de idade, e ostentando uma longa carreira, teria novas chances a qualquer momento. Então, com o anúncio oficial do fim das atividades do Pedra saindo em abril de 2011, eu estava muito tranquilo nesse sentido. E para colaborar com o meu estado de espírito de bom astral, foi nessa mesma época que surgiu um convite para eu publicar uma matéria num Blog. Tal convite vinha da parte de um amigo de Campo Mourão / PR, que conheci também no Orkut, chamado João Marcos Durski, popular Juma.

Engenheiro agrônomo; Rocker & Blogueiro da pesada : Juma Durski

Ele acabara de colocar no ar um Blog, e convidou-me a colaborar com textos, periodicamente. Esta porta abriu-se para dar vazão à uma faceta minha obscurecida até então, de forma surpreendente, pois minhas matérias no "Blog do Juma" (no futuro, "Rádio Rock do Juma"), repercutiram fortemente nas redes sociais, e com uma enxurrada de comentários, animei-me ainda mais. Logo surgiram outros convites de outros Blogs e assim, esse meu lado escritor, aflorou, dando-me um prazer incrível, pois sempre gostei de escrever, desde criança, mas só ali, em pleno 2011, isso concretizou-se, pelo uso dos Blogs, e redes sociais da Internet.

No Blog do Juma, iniciei uma série de resenhas sobre filmes com conexão direta ou indireta com o Rock, e isso fez enorme sucesso.
Mas também publiquei muitos textos sobre política; comportamento; economia; futebol; e cinema, em muitos outros Blogs. E na mesma época, surgiu a oportunidade de iniciar esta autobiografia, graças à ação concedida pelo Luiz Albano, dono da comunidade do Orkut que já mencionei, e também do amigo Marinho "Rocker", de Lavras-MG, que sempre incentivou-me a escrever minhas memórias, fora outros amigos que manifestaram-se diversas vezes nesse sentido, também. Portanto, entre abril e julho de 2011, estive super ocupado com essas duas atividades como escritor; blogueiro, e cuidando dos passos iniciais da minha autobiografia.

Estava mesmo tranquilo, confiante e sobretudo ocupado com essa atividade como escritor / blogueiro e autobiógrafo, quando surgiram as primeiras sondagens de bandas e músicos interessados em meus serviços, como músico. O primeiro sinal nesse sentido, entre abril e julho de 2011, deu-se quando fui sondado por uma jovem banda em início de carreira. Em conversa pelo inbox do Facebook, ouvi o som deles, e não gostei, por acha-lo pesado demais para o meu gosto.


Era um som influenciado pelo Hard-Rock oitentista, e com ares "modernosos". Para quem conhece-me bem, e nesta autobiografia deixo muito claro qual é a minha formação musical básica, é claro que esses dois fatores não agradam-me em nada. Independente disso, creio que o outro fator que pesou para eu declinar do convite, foi por sentir a inexperiência dos rapazes. Não teria nenhum problema em trabalhar com músicos bem mais novos do que eu, porém, nesse caso, achei-os imaturos, mesmo. Portanto, além de não gostar da proposta artística, pesava o fato deles serem bastante imaturos, e convenhamos, nesse caso, seria um sacrifício para um sujeito com a minha vivência (e do alto de meus então, 51 anos de idade), e dessa forma, não teria nenhum motivo para encarar um negócio desses.

Não revelarei o nome da banda, mas achei-os animados, e extremamente simpáticos, portanto, desejei-lhes boa sorte, e estou na torcida por eles alcançarem seus objetivos, pois são garotos "do bem", e merecem o êxito na carreira. Outra sondagem foi a de uma banda já consolidada, com discos lançados etc. Mas essa sondagem foi sutil, não explicitando-se.

Ficou só nas insinuações, mas eu não dei muita vazão, pois os próprios membros da banda davam a entender que o trabalho caminhava para a dissolução, desencantados com as dificuldades do mercado etc. Não faria sentido entrar numa banda em vias de extinção, tendo recentemente passado pelo mesmo processo com o Pedra. Uma terceira oportunidade revelou-se também insípida.
Era um músico, muito gente boa, aliás, mas que convidou-me apenas para unir forças, talvez gravarmos algo juntos. Não era nem uma proposta concreta de formar uma nova banda, ou projeto que fosse. Era muito "aéreo" demais, apesar dele ser gente boa.
Prefiro não revelar nem o nome da banda que citei acima (que aliás encerrou atividades, de fato), e nem o desse músico do qual falei no parágrafo acima.


Tampouco revelarei do próximo... mas essa quarta oportunidade foi a mais tentadora nesse período. Tratava-se de uma banda jovem e super talentosa que eu admirava muito. Estava acostumado a incentivá-los, e divulgar o seu trabalho pelas redes sociais, com enorme prazer, inclusive. Foi então que recebi uma sondagem de dois de seus membros, sabedores que o Pedra havia encerrado atividades.  Fiquei surpreendido, pois não imaginava que estariam perdendo seu ótimo baixista. Mas, parecia que o rapaz iria sair, e eles lembraram-se de minha pessoa.

Eu teria entrado com muito prazer nessa ótima banda, apesar deles serem bem novos. E não importaria-me em vestir a camisa, mesmo sabedor de que era uma banda sem produção; dinheiro, e tampouco contatos. Seria um começar de novo, com uma banda zero Km, fazendo a inevitável "via crucis" dos iniciantes, mas isso não incomodar-me-ia, a grosso modo. Mas acabei não aceitando o gentil convite dos rapazes, porque simultaneamente, recebi um recado no Facebook, e no Orkut, de um guitarrista muito conhecido no meio Rocker paulistano, e era uma proposta dupla de trabalho, bastante interessante. O nome desse guitarrista...Kim Kehl !

Nesse recado, o Kim foi direto, e deu-me seus telefones, convidando-me a ligar, e assim conversarmos mais detalhadamente sobre seus planos imediatos. Um dos trabalhos, era obviamente integrar a sua banda, chamada Kim Kehl & Os Kurandeiros, com dois CD's lançados oficialmente, e uma infinidade de promos pela internet. Seguindo na linha básica do Rock'n Roll e do Blues, o som dos Kurandeiros também passeava pelo R'n'B; Soul; Pop; Country; Gospel; Folk, e demais derivados da raiz negra, norteamericana.
Na ativa desde 1992, os Kurandeiros de Kim Kehl tinham bastante estrada & histórias. E a outra proposta, surpreendeu-me : o Kim estava na banda de apoio do cantor / compositor Ciro Pessoa, um ex-Titãs, e Ex- Cabine C, bandas oitentistas, e egressas da cena do Pós-Punk.

Em princípio, achei exótico lidar com alguém dessa cena que sempre julguei ser antagônica aos meus ideais, mas claro que deixei preconceitos de lado, e aceitei conhecer o trabalho, e certamente entrar nele. Logo mais falo sobre a surpresa agradável que eu teria nesse contato com o Ciro, e muito pelo contrário, estabeleceria amizade instantânea com ele, e passaria a apreciar muito o seu trabalho solo, contido nos seus discos pós Titãs e Cabine C. Já contei essa história paralela sobre minha a participação na banda do Ciro Pessoa, aqui no Blog 3, inclusive.

Voltando a falar do "KK & K", minha conversa com o Kim foi muito bacana pelo telefone, e logo aceitei entrar na banda e trabalhar com ele. O baterista do KK & K era um velho amigo, que conhecia desde o início dos anos noventa, o Carlinhos Machado, um artista sensacional. Um dos sujeitos mais bacanas do métier do Rock paulistano, com mil histórias sobre os anos setenta etc etc.


Eu conhecera-o na loja do baixista Sérgio Takara, quando ele também tinha loja na mesma galeria da Rua Teodoro Sampaio. O Takara fora baixista dos Kurandeiros por muitos anos e lá também conheci o Kim nos anos noventa, embora conhecesse-o de vista desde os anos oitenta. Portanto, entrar para o KK & K seria (e foi), muito agradável nesse aspecto, pois sabia de antemão que não haveria nenhum problema de adaptação, sentindo-me entre amigos, desde o início. E tinha mais !Naquele momento, o baixista em ação na banda, era o Glauco Teixeira, meu ex-aluno e um grande amigo, que citei no capítulo "Sala de Aulas".
  "KK&K" na Feira da Vila Pompeia em maio de 2011, três meses antes de eu entrar na banda, e com Glauco Teixeira no baixo

Eu mesmo havia sugerido que ele entrasse nos Kurandeiros tempos antes, fazendo uma ponte, e agora entraria no seu lugar, pois a agenda dele em sua outra atividade profissional, não estava ajustando-se adequadamente à agenda dos Kurandeiros. Portanto, o KK & K tinha (e tem), um clima de irmandade muito grande na minha percepção e não só por esses músicos citados, mas por outros que citarei neste relato.

Esse contato telefônico ocorreu mais ou menos na metade de agosto de 2011. O Kim mandou-me arquivos via E-Mail, de músicas para eu ir tirando, mas com calma, sem previsão de estreia a curto prazo. O repertório inicial que recebi era de Rocks e Blues, com pegada rítmica e harmônica tradicionais. Aparentemente era simples para executar, mas eu sabia bem que no caso dos Blues, engana-se o músico desinformado, que seja "fácil" tocar, por conta da simplicidade harmônica. Na verdade, um Bluesman experiente, sabe bem quando alguém mete-se a tocar blues, e não é do ramo...
Por isso, apesar de tirar o grosso das músicas, sabia que na "hora H", haveriam macetes aos quais, eu não tinha familiaridade para lidar com desenvoltura, e todo cuidado era pouco. Mas tudo ficou mais assustador, quando recebi o telefonema do Kim numa segunda-feira, dia 22 de agosto de 2011!  De súbito, disse-me que o Glauco já não poderia estar presente no próximo show, e pediu-me para fazer o "sacrifício" de encarar essa apresentação, já na quarta-feira subsequente, dia 24 de agosto...
-"OK, vamos lá"... respondi-lhe. Muito experiente e compreensivo, o Kim agradeceu e tranquilizou-me, dizendo que ajudar-me-ia, e que falhas seriam relevadas, para eu tocar tranquilo. E assim, sem ensaios, fui para o meu primeiro show com os Kurandeiros de Kim Kehl...

Mesmo experiente, e no alto de meus 51 anos de idade completos naquela ocasião, além de respaldado pelo fato de que estaria entre amigos, fui para o local da apresentação, com ressalvas internas.
Sabia que erraria, mandando várias "bolas na trave", e eventualmente, algumas na bandeira do escanteio, também, naquela noite...

O local em questão era o Magnólia Villa Bar, uma casa que eu não conhecia pessoalmente, mas havia ouvido falar bastante, por comentários de muitos amigos músicos que lá costumavam tocar e até por saber que os Kurandeiros ali apresentavam-se regularmente, pois via manifestações de divulgação nas redes sociais, e até E-Mails que recebia do amigo Carlinhos Machado. Cheguei com facilidade ao local, e tratava-se de uma quarta-feira fria em São Paulo, finzinho de inverno. Assim que entrei no recinto, o Carlinhos veio cumprimentar-me efusivamente.

Fachada do Magnólia Villa Bar, localizado no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo

O Kim avistou-me e também recebeu-me com muita festa. Conhecíamo-nos desde os anos oitenta, mas na verdade nunca havíamos conversado com maior profundidade. E nem mesmo quando encontrei-o inúmeras vezes na loja de nosso amigo em comum, o baixista Sergio Takara, havíamos engatado uma conversa mais profunda. Contudo, só pela recepção, notei que o Kim seria um daqueles amigos que parecia ser de infância, tamanha a sincronia que estabelecemos desde daí.

Nesse dia, haveriam também outras surpresas. Eu sabia que uma cantora estava fixa no time dos Kurandeiros, e mesmo não a conhecendo pessoalmente, sabia que era muito amiga de muitos amigos meus em comum, e seu conceito entre eles, era o melhor possível, tanto como cantora, quanto pessoa. Tratava-se de Renata Martinelli, popularmente conhecida como "Tata". De fato, logo vi que ela era extremamente simpática e dessa forma, tornou-se uma amizade instantânea, também.

O tecladista Nelson Ferraresso, membro oficial dos Kurandeiros não estava presente por motivos particulares, mas nessa noite, um tecladista substituto estaria conosco, Tratava-se de um músico super experiente na noite paulistana, chamado Dimas Ricchi.



 

Dimas Ricchi na primeira foto e Ivani Venâncio na segunda foto. Nas duas fotos imediatamente acima, aí sim, do meu show de estreia com Os Kurandeiros. Fotos dos Kurandeiros : Lara Pap
 
Sua esposa, Ivani Venâncio, também uma cantora excelente e experiente, estava presente, e no meio da apresentação subiu ao palco para cantar algumas músicas conosco. Soube no dia, ela era muito amiga da Renata, e ambas estavam acostumadas a cantar juntas em muitas circunstâncias, de bandas de Rock à orquestras, bandas de bailes, gravações etc.

Outro convidado da noite era o saxofonista André Knobl. Contato da Renata, estava indo também pela primeira vez. Rapaz novo, mas com forte bagagem técnica e teórica, revelou-se um músico excepcional, agregando muito com seus solos e intervenções muito criativas.

Acima, Ciro Pessoa que fez participação especial e a quem conheci nessa mesma noite de 24 de agosto de 2011. Foto : Lara Pap
 
E finalmente, outra presença que não esperava encontrar naquela noite, mas gostei bastante de conhecer, foi o Ciro Pessoa. Prefiro esmiuçar nossa conversa inicial no capítulo próprio, quando relato o início de meu trabalho como baixista de sua banda de apoio, com detalhes. Só para ilustrar aqui, em relação à isso, digo que uma frase que ele disse-me foi emblemática para eu tranquilizar-me em relação ao trabalho dele, e muito pelo contrário, ficar muito animado para tocar com ele : "o Futuro é Pink Floyd"...bem, se eu tinha alguma reserva por ele ser egresso do universo do pós-punk oitentista, o muro de apreensão ruiu imediatamente...

         O Ciro também deu uma canja no meio da apresentação

Tocamos "Ruby Tuesday" dos Rolling Stones, por sugestão dele e "Ando Meio Desligado" dos Mutantes, também. Ok, estava "em casa" em relação às minhas expectativas sobre o trabalho dele...

         Esposa do Kim e produtora dos Kurandeiros, Lara Pap
 

Lembro-me também de ter nutrido simpatia imediata pela Lara Pap, esposa do Kim. Figura sensacional como pessoa, e que acumula a função de produtora dos Kurandeiros. Hoje (2016), digo que o Kim tem mais que uma esposa dedicada, mas sim um anjo da guarda.


Mais fotos do show de estreia. E com a presença da cantora Ivani Venâncio que cantou conosco em participação especial

Enfim, com essa acolhida, senti-me em casa com os Kurandeiros, animando-me em relação ao futuro.

Quanto ao show em si, a dinâmica da banda girava em torno do Kim, obviamente. Mas ao contrário do que isso possa sugerir, de uma forma absolutamente leve, com muito bom humor, astral legal.
Sim, tudo girava em torno dele, suas escolhas de repertório na hora, sem um set list pré-determinado, mas sem nenhum tipo de constrangimento, aborrecimento ou incômodo da parte de ninguém.
Percebi que era uma liderança natural, e sem nenhum resquício de nada pesado, negativo. Pelo contrário, adorei o astral da banda em todos os sentidos, até nessa forma despojada de imprimir "timing" de apresentação. 

Outra característica bacana, era a performance pessoal do Kim. O Glauco Teixeira já havia falado-me por E-Mail que o Kim era uma figura super divertida nos shows. De fato, apesar de ser um excelente guitarrista, e super versado no Blues; Rock tradicional; R'n'B; Soul; Country e derivados, sua performance estava longe da figura sisuda de um virtuose. Pelo contrário, sua comunicação com o público era muito boa, com brincadeiras espirituosas, muito improviso e interação, como contarei posteriormente. O repertório foi baseado nos dois CD's oficiais da banda, mais diversas músicas lançadas na internet, e muitos clássicos do Rock e do Blues.

Cerca de 50 pessoas estiveram presentes nesse dia nas dependências do Magnólia Villa Bar, aliás, uma casa bastante agradável de apresentar-se. E registro ainda a visita ilustre nesse dia do meu amigo Glauco Teixeira, que mesmo tendo que sair cedo, foi assistir um pouco, e prestigiar minha estreia, e justamente substituindo-o na banda. E também as presenças da Reviane "Joplin", dona da loja "Kozmic Blues", a loja mais Hippie Chic do Brasil, que vende roupas incríveis para quem gosta de visual rocker sessentista, e seu namorado, o famoso Osvaldo Malagutti, ex-baixista dos Pholhas, e dono do estúdio Mosh, onde inclusive eu gravei o primeiro disco da Chave do Sol.

Foi uma noitada prazerosa entre amigos, e o início de uma nova etapa na minha longa carreira musical. Aconteceu em 24 de agosto de 2011, no Magnólia Villa Bar, no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo, sob o frio da noite paulistana de inverno, e perante 50 pessoas, aproximadamente...



Passada essa primeira apresentação, sabia que teria um pouco mais de tempo para ouvir o material e de fato, o Kim entregou-me ainda nas dependências do Magnólia Villa Bar, os CD's da banda, e dois CDR's com diversas músicas prontas, mas ainda não gravadas oficialmente. Contudo, o tempo não estava tão elástico assim.
Comprometido com o trabalho dos Blogs, e uma atividade de voluntariado assistencial com o qual estava ligado desde 2009, sabia que precisava otimizar os momentos onde poderia dedicar-me à tarefa de tirar os sons dos Kurandeiros. E logo mais teria um trabalho extra, pois em breve seriam marcados ensaios com o Ciro Pessoa, também.

Para agravar esse quadro, o Kim anunciou um ensaio emergencial na casa dele, para tirar dúvidas de harmonias. O fato de ter baixista e tecladista novos, motivou-o a tomar essa atitude, visto que acabara de marcar um novo show, em outra casa noturna e para muito breve. Claro que era legal essa perspectiva, mas havia outro elemento para essa nova data : o repertório deveria ser maior, pois nessa apresentação, o combinado seria tocar das 22:00 às 4:00 h. da manhã. Se o repertório do Magnólia Villa Bar já tinha sido grande, gerando-me dúvidas, desta vez, eu teria motivo para preocupar-me ainda mais...

Conheci o Ciro, pessoalmente, no dia em que toquei pela primeira vez com os Kurandeiros de Kim Kehl, no Magnólia Villa Bar, em 24 de agosto de 2011. Era tudo novidade para minha vivência naquela noite, tocando pela primeira vez com uma nova banda de longa carreira, mas cujo repertório, eu pouco conhecia. E foi uma novidade também, conhecer o Ciro.

Já estava ciente da proposta de tocar com o Ciro, e também de como era o som dele, naquela ocasião, mas faltava conhecê-lo pessoalmente. O Kim não tinha certeza, mas disse-me que possivelmente o Ciro apareceria naquela noite, e que talvez fizesse uma participação conosco. E de fato, ele apareceu e numa oportunidade que surgiu, subiu ao palco do Magnólia e cantou uma versão muito improvisada de "Ruby Tuesday", dos Rolling Stones, e "Ando Meio Desligado", dos Mutantes, duas escolhas dele, na hora.
Depois do show, conversei enfim, mais detalhadamente com ele, sendo apresentado pelo Kim, formalmente.


Na conversa que tivemos, falamos sobre o seu trabalho, e muitas coisas animaram-me mais ainda. Ele queixou-se de que estava cansado de trabalhar com músicos oriundos da cena do pós-punk, e do mundo indie "moderninho", pois essa garotada não entendia a psicodelia sessentista como deveria ser executada. De fato, eu tinha visto alguns vídeos dele no You Tube, e também ficara com essa impressão.Palavras dele mesmo, eram "moleques de braço duro", e ele sonhava em ter uma banda com músicos que soassem como o Pink Floyd.



Bem, essa afirmação, encheu-me de ânimo, por motivos óbvios, e claro que se dependesse de meus esforços, ele teria o som do Roger Waters doravante, sem dúvida. Fora essas considerações estéticas, adorei o astral dele. Uma sujeito extremamente descontraído e despachado, muito brincalhão e que num certo aspecto, lembrou-me o Chris Skepis, meu velho companheiro do Pitbulls on Crack (mal sabia eu, mundo muito pequeno, Ciro e Chris Skepis eram amigos desde 1973...). E, a conversa derivou para outros aspectos. Falamos também sobre outros artistas dos anos sessenta, e artistas plásticos como Salvador Dali e René Magritte. Algumas frases de efeito que ele gostava de repetir, impressionaram-me, pois revelavam que seu apreço pelo Rock sessenta / setentista era real, e não ocasional. Uma delas, martelou diversas vezes durante a conversa, e impressionou-me bastante por seu caráter de lema, muito forte : "o futuro é Pink Floyd"...


Dessa forma, fiquei bastante contente com esse primeiro contato, e motivado para tirar as músicas e começar a ensaiar. O Kim levou-me nesse mesmo dia, o material do Ciro. Seriam 13 ou 14 músicas para começar a tirar. As letras eram loucas, muito calcadas no surrealismo, e claro, encaixando-se como uma luva na psicodelia proposta.

 
Voltando ao âmago desta história, esse ensaio emergencial dos Kurandeiros foi marcado para a noite de quarta-feira, dia 14 de setembro de 2011. Não era comum marcar ensaios para os Kurandeiros, pois a dinâmica da banda era a de "atitude jazzística", conforme o Kim sempre salientou, textualmente. Contudo, a estrutura harmônica da banda estava bem modificada com baixista e tecladista novos, e era também o caso do saxofonista André Knobl, que apesar de ser um grande músico e com forte poder improvisador, também era um novato com os Kurandeiros. 


O ensaio em questão foi mais uma reunião na casa do Kim, onde fui pela primeira vez conhecer o seu QG. Sendo assim, o objetivo era mais tirar algumas dúvidas básicas e a preocupação do Kim com essa reunião / ensaio, devia-se ao fato de que a próxima data marcada, seria numa casa onde os Kurandeiros jamais haviam tocado, e a proposta ali, seria a de tocar pela madrugada adentro, portanto, tendo que ter um longo repertório em mãos. Confesso que preocupei-me um pouco, pois mal havia dominado o repertório, e agora ele seria estendido de forma muito elástica, e dessa forma, haveria a possibilidade de errar em profusão, na noitada de tal casa noturna...
O ensaio foi uma confraternização bacana. Serviu para entrosar-me melhor com minha nova banda, e esse convívio só serviu para eu ter a convicção que estava cercado de pessoas bacanas. 


Achei a casa do Kim incrível, um sobradão dos anos vinte ou trinta, talvez, com um amplo quintal arborizado e raro na São Paulo dos dias atuais. O estúdio onde ele costuma gravar suas demos e armazenar seu equipamento, muito louco, lembrando bem os famosos "basement" norte-americanos e com um quê de laboratório eletrônico de filmes "Sci-Fi" dos anos cinquenta, com diversos artefatos que segundo o Kim contou-me, pertencem ao seu pai, que tem o hobby de montar equipamentos eletrônicos caseiros. Foi uma noite agradável, com a presença de Carlinhos Machado; Renata Martinelli; André Knobl; Dimas Ricchi; Ivani Venâncio, e Lara Pap, esposa do Kim, além do anfitrião, naturalmente...



Três dias depois, estávamos reunidos novamente para tocar na tal casa noturna. Era uma casa localizada na Rua Augusta, sentido centro e chamada "The Pub". De fato, por ser um notívago, mas jamais boêmio, eu não fazia ideia do que a Rua Augusta, nesse sentido do centro, havia transformado-se. 

Eu havia ouvido falar, mas não tinha nenhum contato com essa realidade e de fato, quando ali cheguei, espantei-me com a enorme profusão de gente caminhando pela rua, e na quantidade de casas noturnas existentes, com muitas bandas tocando ao vivo. O volume de gente circulando, era igual ou superior ao da Rua Treze de maio, quando essa rua da Bela Vista era um ponto de freaks no fim dos anos setenta, e pelo menos até a metade dos anos oitenta.

O "The Pub" era uma casa rústica, mas bem "arrumada" dentro dessa proposta. Seu dono, um rapaz  jovem chamado Phil, um inglês, mas falando bem o português, embora tivesse o hábito de misturar os idiomas no meio da conversa, comumente, começando ou encerrando a frase em inglês e com sotaque de nortista de Liverpool...
Nesse dia, havia uma banda tocando antes de nós e segundo apuramos, tocariam até às 22:00 h., quando passariam o bastão para nós. A casa estava bem cheia e o seu público era de jovens predominantemente, mas notei que pareciam não estarem preocupados com o repertório da banda em questão, e denotava que também ficariam alheios ao nosso. E a banda era boa (esqueci-me de anotar seu nome, mas lembro-me que haviam duas garotas tocando na formação, e seu repertório, apesar de "modernoso" para o meu gosto, era bem tocado, e abrangia anos 1980, 1990 e 2000, predominantemente). O objetivo do Kim, era mesclar o repertório autoral, com muitos covers de Rock, Blues, Soul , R'n'B, Folk e Country-Rock, ou seja, dentro do espectro dos Kurandeiros. Na porta, aguardamos por um bom tempo para entrar, pois estava complicado adentrar o recinto, devido ao grande contingente presente. Foram minutos prazerosos conversando numa rodinha animada com Kim Kehl; Renata Martinelli; Lara Pap, e Carlinhos Machado, num momento inicial. Fiquei muito contente quando a conversa enveredou para as minhas matérias sobre filmes de Rock, que naquela ocasião estavam sendo publicadas no Blog do Juma. Foi muito gratificante saber que todos estavam acompanhando e apreciando o teor delas.

Lembro-me claramente que falamos bastante sobre uma em especial, tratando-se de uma resenha do filme "That Thing You Do", uma obra adorável sobre uma banda de Rock em ascensão nos anos 1960. A mudança de bandas foi um pouco problemática, pois o espaço era exíguo. No palco, lembro-me de ilustrações de Bob Dylan e The Beatles, dando um clima favorável, claro...
Mas por ser um pub propriamente dito, claro que era bem pequeno o seu tamanho e dessa forma, o tecladista Dimas Ricchi só conseguiu acomodar-se tocando fora do palco, praticamente.

Na parede, a figura inspiradora de John Lennon e eu, Luiz Domingues compenetrado, olhando para o "nada"

Eu fiquei num cantinho, quase sem espaço para mexer-me, e a Renata ocupou a minha frente. Claro, dei-lhe essa primazia por ser vocalista e ter que estar na frente, naturalmente. O Kim dominava a atenção, como sempre. Sua performance era / é bastante carismática e simpática.

Kim já afastando-se do palco para caminhar pelo bar, surpreendendo as pessoas, e certamente tomando o caminho da rua, onde costumava fazer longos solos em plena Rua Augusta, naquela balbúrdia típica das madrugadas... ao fundo, da esquerda para a direita : Renata Martinelli; eu, Luiz Domingues e Dimas Ricchi. Na parede, a capa do LP "With the Beatles"...

Além de ser o esteio da banda, ele tem bastante carisma com o público e por várias vezes divertiu-o ao sair do palco para fazer seus solos, caminhando pela casa e até saiu à rua, surpreendendo pedestres da Rua Augusta, com tal performance inusitada. Bem, apesar de alguns momentos de insegurança, principalmente de minha parte e do tecladista Dimas, que éramos novatos na banda, foi uma boa apresentação.


Justiça seja feita, o Dimas errou muito menos, devido à sua experiência muito maior que a minha em tocar em bandas pela noite. Eu estava muito fora de forma nesse sentido, pois a maior parte da minha carreira foi centrada no trabalho autoral, e a rigor, só toquei em uma única banda cover, o Terra no Asfalto, e no longínquo período de 1979 /1982. Os Kurandeiros na verdade tinham sólido trabalho autoral, mas na noite, atuavam de forma híbrida, tocando muitos covers de clássicos do Rock e do Blues predominantemente, mas passeando pelas baladas pop; soul; r'n'b; folk; country; e até o jazz. E a apresentação foi bastante longa, pois creio termos feito 4 entradas ao encerramos por volta das 4:00 h da manhã, e com a rua Augusta ainda fervendo...
O show no The Pub, ocorreu em 17 de setembro de 2011, com cerca de 50 pessoas no ambiente.


Após essa apresentação no The Pub da Rua Augusta, a banda voltou ao palco do Magnólia Villa Bar. Na verdade, o Magnólia tinha uma quarta fixa para os Kurandeiros, por mês, há bastante tempo, fazendo com que esse estabelecimento praticamente fosse uma casa da banda, tamanha a maneira hospitaleira com a qual a recebia


Nelson Ferraresso, tecladista original dos Kurandeiros 



Desta feita, o tecladista original dos Kurandeiros, Nelson Ferraresso, voltou para ocupar seu lugar na banda e Dimas Ricchi não apareceu mais.


Mais familiarizado com o repertório, começava a habituar-me com a banda e absorver a postura sempre observada pelo Kim, quando repetia : "atitude jazzística". Não é a "minha praia", certamente, pois sou o tipo de músico que gosta de ensaiar e subir ao palco com o repertório na ponta da língua. Não tenho medo de improvisar, desde que conheça e bem o mapa e a harmonia das canções. Agora, improvisar a esmo, é algo que não gosto, definitivamente. Mas claro, respeitava inteiramente a postura da banda e entrando num time com essa regra estabelecida e considerando que tratava-se de uma banda com quase vinte anos de atividade, é óbvio que eu precisava adequar-me. Fora o fato de ter sido super bem recebido e instantaneamente estabelecer um vínculo de camaradagem muito grande com todos os membros.

Por falar nisso, o Nelson logo que viu-me nesse terceiro show com os Kurandeiros, mas primeiro com sua presença, lembrou-se de uma passagem interessante, onde conhecemo-nos, no remoto ano de 1986. De fato, eu fui a um ensaio de sua banda ("Leito de Pedra" / "Sigma"), nesse ano, de forma totalmente inesperada. Eu namorava uma garota que morava no bairro da Freguesia do Ó, zona noroeste de São Paulo. No dia em que fui conhecer sua casa e sua família, ela sugeriu que visitássemos o ensaio de uma banda de amigos seus do bairro, e e lá fui eu parar no ensaio onde os irmãos Ferraresso ensaiavam com sua banda. Nessa ocasião, conheci também o baixista Izal de Oliveira, que era membro, também. Não tive mais contatos com eles, a não ser o Izal que anos depois integraria o "Caça Níqueis", uma banda que chegou a lançar CD's de material próprio, mas que ficou famosa mesmo, no circuito de motoclubes, principalmente.

Em 2012, tive o prazer de publicar em meu Blog, uma resenha do CD "Cantos da Estrada" (confira : http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/12/cantos-da-estrada-por-luiz-domingues.html ), um projeto dos irmãos Ferraresso (além do Nelson aos teclados, com seu irmão, o guitarrista / vocalista, João Carlos Ferraresso), que o Kim mostrou-me e encantou-me pela qualidade muito acentuada. Nesse disco, algumas canções do tempo dessa banda iniciante, cujo ensaio do "Leito de Pedra", assisti numa tarde de sábado de 1986, estavam gravadas e muito bem executadas. Sabia que o Nelson estava nos Kurandeiros desde o início da banda e que era muito amigo do Kim e do Carlinhos, mas não sabia da carreira vitoriosa como side man que o Nelson construira nesses anos todos.

Pesquisando para escrever a resenha, descobri no Blog do amigo Cesar Gavin ("Vitrola Verde"), que o Nelson gravara mais de 20 discos de diversos artistas do Rock; Blues; Reggae, MPB etc.

Tornou-se um requisitado e muito competente tecladista, o que impressionou-me, positivamente. E, era / é extremamente gente boa e humilde, cativando-me e ratificando a impressão de que os Kurandeiros de Kim Kehl eram sobretudo, uma banda de pessoas muito gente boa. Segunda apresentação no Magnólia Villa Bar, no dia 21 de setembro de 2011, com 20 pessoas na plateia.

Acima, foto da segunda apresentação dos Kurandeiros comigo na formação. Na linha de frente, da esquerda para a direita : Kim Kehl; Renata "Tata" Martinelli e Nelson Ferraresso. Atrás e encobertos : Carlinhos Machado e Luiz Domingues. 15 de outubro de 2011. Foto : Lara Pap
 
A ideia do Kim era tocar ao máximo o repertório autoral, mesmo em apresentações de casas noturnas centradas nas ditas "baladas".
Isso era muito salutar, e claro que tinha o meu apoio.

 
Veja abaico, filmagem do amigo Kico Stone, para a música "Deixe Tudo", no The Pub. Na boa companhia de Bob Dylan e dos Beatles pelas paredes...

Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=laixVFLjofk


Mas numa casa como o The Pub, era imprescindível tocar bastante covers, pois tratava-se de um típico bar com público interessado em diversão e nunca em apreciar a arte de um artista autoral.

Desta vez , voltando ao The Pub, tocamos muito mais, fazendo muitas entradas, esticando quase até o sol raiar. Aconteceu no dia 15 de outubro de 2011 e cerca de 100 pessoas nos assistiram.

 
"Pro Raul",outra canção autoral do KK & K, executada nessa noite no The Pub

O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=i6HME59osqs

Novamente tivemos a presença do tecladista Nelson Ferraresso, mas não contamos com o ótimo saxofonista André Knobl, desta feita. 

Com as bênçãos de Bob Dylan na parede, uma versão de seu clássico "Knocking on Heaven's Door"...


O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=lFj1Z3FoFdo

 
Um pequeno trecho de "Free Falling" do Tom Petty, na voz de Renata "Tata" Martinelli

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=f6F1jBTXCXw


O Kim reviveu sua performance de caminhar entre as mesas e surpreender o público, além de sair da casa e fazer solos em plena Rua Augusta, no meio daquela multidão de baladeiros que forram-na nas noites de sábado. Muito divertido.


Cerca de 100 pessoas nos assistiram nesse dia. Novas investidas no simpático Magnólia Villa Bar, viriam a seguir. A próxima data ocorreu no dia 19 de outubro de 2011. Desta feita, sem a presença dos ótimos Nelson Ferraresso e André Knobl. Com Renata Martinelli nos vocais e o trio primordial apenas (Kim, Carlinhos e eu), tocamos em mais uma noitada de Blues e Rock. E o show posterior, foi também no Magnólia.  Ocorreu em 9 de novembro de 2011, mas desta vez, foi diferente de uma apresentação corriqueira dos Kurandeiros, pois o Kim convidou diversos guitarristas do circuito de Blues da cidade, para uma grande Jam-Session. Dessa maneira, mesmo eu não sendo um grande entusiasta do gênero, senti-me honrado em tocar com várias feras muito respeitadas desse mundo do Blues. Sem Renata Martinelli e André Knobl, o trio básico dos Kurandeiros foi reforçado do tecladista original da banda, Nelson Ferraresso.
 
Assista abaixo, a noite memorável com os convidados especiais :Amleto Barboni; Marcos Ottaviano; e Rico nas guitarras. "Blues do Trabalhador" é a música, do repertório dos Kurandeiros  

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=E0mJwBr0xZc


E as presenças daquelas feras do Blues, abrilhantou a noitada. Eram quatro guitarristas, que na maior parte da noite tocaram simultaneamente conosco, fazendo uma massa sonora e tanto. Todavia, com muita experiência, o que fizeram mesmo, foram solos num revezamento muito concatenado e todos segurando bem a dinâmica nos momentos de solos de um em relação aos outros. Figuras sensacionais da cena blues brasileira apresentaram-se conosco, como Marcos Ottaviano; Amleto Barboni; o hoje saudoso Claudio Camargo, e Rico. Não tivemos um grande público, infelizmente. Mas aquelas 20 e poucas pessoas que assistiram, divertiram-se demais com a noitada.

 

Abaixo, a versão dos Kurandeiros "Problemas", para o clássico "Stormy Monday" , com a presença dos convidados Marcos Ottaviano; Rico e Claudio Camargo nas guitarras, e o Kim só cantando mais uma vez

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=0O-WkmOMArg


Nessa performance, o Kim aparece apenas cantando, mas ele tocou bastante, também, aliás, quase o tempo todo.

O próximo compromisso dos Kurandeiros animou-me bastante.
Isso porque seria a rigor, um show de fato, e não uma performance de bar, onde inevitavelmente teríamos que tocar muitos covers.
Fiquei animado com essa perspectiva, pois fazia tempo que não participava de um show autoral, de fato, desde o final das atividades do Pedra.

O palco do Centro Cultural Gambalaia antes do show, com o Backline dos Kurandeiros pronto para a ação !

O local seria um mini centro cultural localizado na cidade de Santo André, no ABC paulista, e chamado "Gambalaia". Bem localizado, entre o Bairro Jardim e o centro da cidade, costumava abrir seu espaço para bandas independentes e autorais, e tinha a nobre determinação de evitar apresentações de bandas cover. Era na verdade uma ex-moradia de família, uma residência adaptada, portanto, e seu espaço era bem limitado fisicamente, porém bastante aconchegante. Na parte inferior do sobrado de esquina, ficava um bar e um espaço para exposições de artes plásticas; e na superior, o espaço de shows e / ou dramaturgia; saraus literários & palestras, mas que também era reversível para um cine-clube.

Nessa apresentação, tocamos com um ótimo line-up dos Kurandeiros, com o Kim no comando; Carlinhos na bateria; eu no baixo; Nelson Ferraresso nos teclados, e Renata Martinelli nos vocais. Foi uma apresentação muito gostosa, só com o trabalho autoral dos Kurandeiros, e portanto dando ao show, um verniz de show de Rock, com muita qualidade.



 

Sequência de fotos com o Kim brincando com o público. Na foto do meio, a presença do guitarrista Caio Rossi, da banda "O Livro Ata", de Santo André, e abaixo, Samuel Wagner, lendário roadie da Patrulha do Espaço, com quem trabalhei por muitos anos, e figura carimbada nos agitos culturais na cidade de Santo André   

O público, infelizmente não foi bom. E gerou até uma revolta dos poucos e abnegados rockers presentes, pois segundo alegavam, muita gente que esperava pelo show, acabou não aparecendo.




 
Entre os poucos presentes, o velho discurso da desunião, "mimimi" e blábláblá, na saída, mas que particularmente, eu relevei, talvez por ter 51 anos de idade naquele instante, e esse tipo de constatação, além de não ser nenhuma novidade para a minha avaliação, não levava a nada.

O importante pensando na prática, foi que tratou-se de um show muito legal, num local aconchegante e aquela pouca quantidade de pessoas ali presentes, estava bem animada e disposta a ouvir os Rocks e Blues dos Kurandeiros de Kim Kehl, e no meu caso, o prazer de estar numa banda de Rock, sobre um palco, determinação que trago desde os 14 anos de idade...


Um pequeno trecho da balada "Eu vi um Anjo", nesse show do Gambalaia 


O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=J0T7gwBDan4


O show ocorreu no dia 18 de novembro de 2011, no Gambalaia, de Santo André, cidade grande do grande ABC...


Todas as fotos de Lara Pap, com exceção dessa última acima, de Natália Eidt

 
O próximo compromisso foi uma volta ao "The Pub", da Rua Augusta, onde uma longa jornada permeada por covers nos aguardava. Não era a melhor maneira de apresentar-se com os Kurandeiros, mas todos encaravam essas jornadas nessa casa, como uma dura labuta, pois a despeito de sermos sempre bem tratados pelo dono, o britânico, Phil, e todos os funcionários, a jornada ali era dura, com quatro, às vezes cinco entradas. E claro, na minha ótica era chato tocar aquela quantidade além do razoável de covers, em detrimento do material próprio dos Kurandeiros.


"Problemas" nessa apresentação do The Pub, em 26 de novembro de 2011 


O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=UvqxjK52vns


Outro aspecto que cansava nas noitadas do The Pub, era o processo de carregar / montar / desmontar, e recarregar de novo ao automóvel. A despeito de haver um estacionamento próximo, esse processo, sem apoio de roadies, era bem cansativo, pois a rua estava sempre cheíssima de pessoas circulando, independente do horário, e essa tarefa tornava-se penosa. O lado bom, além de um cachet razoável, logicamente era o convívio com os amigos, sempre prazeroso, com essas pessoas envolvidas com os Kurandeiros.
Nessa noite em específico, dividimos a noite com o ótimo trio, "The Suman Brothers Band". Com um repertório sensacional de Rock, Blues, Country-Rock, Folk e Soft Rock, essa banda fazia-me lembrar muito a versatilidade da "The Band", uma banda que adoro, e que sei que trata-se de uma predileção deles, também.
Lembro-me de ter ficado impressionado com uma entrada de Rocks cinquentistas que fizeram, que foi espetacular, trazendo grandes nomes daquela década à tona. Mesmo eu, que sou muito crítico da ação de bandas cover, rendi-me à versatilidade e qualidade dos irmãos Suman. Nessa noite, Os Kurandeiros atacaram como um quarteto, com Kim; Carlinhos; Renata Martinelli e eu, Luiz Domingues. Era o dia 26 de novembro de 2011, um sábado quente, e com cerca de 100 pessoas no recinto, o que era um bom público e fator de aquecimento interno da casa que estava bem abafada, a despeito do ar condicionado que não dava conta...

Da esquerda para a direita : Vitor Suman (baixista do The Suman Brothers Band); Luiz Rico (gaitista e amigo dos Kurandeiros); Kim Kehl; Isabela Johansen (futura vocalista do Nu Descendo a Escada, banda de Ciro Pessoa); Renata Martinelli; Carlinhos Machado, e eu, Luiz Domingues

Pouco tempo depois, estava novamente vendo os amigos, numa nova noitada no Magnólia Villa Bar. Desta feita, tocaríamos em trio, sem a presença da Renata Martinelli, tampouco Nelson Ferraresso, e André Knobl. Contudo, por ser um trio fundamental de Blues Rock, claro que dava para levar numa boa. Meu único receio era pelo fato de ainda ter muitas dúvidas de harmonia, decorrentes do repertório ser muito grande, portanto ser difícil decorar tudo.
Mas independente de um erro ou outro, tudo correu bem nessa noite de 30 de novembro de 2011, mais uma Quarta-Blues no Magnólia...
E outra coisa, num futuro não muito distante, os Kurandeiros fechar-se-iam mais como Power Trio, e participações de membros adicionais seriam tratadas como ocasiões sazonais na carreira da banda, portanto, era um preâmbulo do porvir.

Dois dias depois, estaríamos no Tabasco Beer, uma casa noturna localizada em Santana, zona norte de São Paulo, desta vez contando com a presença da Renata Martinelli, como reforço. Quando cheguei na casa, achei curioso o fato de que o Kim estava a todo vapor esperando-me, para começarmos imediatamente, visto que o gerente da mesma, queria som, rápido...

O motivo, era que a concorrência de casas noturnas ali era grande, e as pessoas tendiam a procurar sempre o lugar onde uma banda já estivesse em ação. Foi um show estranho, pois contrariando a habitual resistência de gerentes de casas noturnas em relação ao volume com o qual a banda toca no palco, nesse caso, o sujeito, queria mais e mais energia, sendo que o público presente parecia ameno, de não-rockers.

Eram casais de namorados e até famílias comemorado festas de aniversário, e não parecia propício à um show de Rock, ficando muito mais para uma seleção de baladas e Blues. Foi o que o Kim puxou, mas parece que o sujeito ficou meio aborrecido, querendo que tocássemos mais Rocks vigorosos. Enfim...
Isso ocorreu no dia 2 de dezembro de 2011, uma sexta-feira.


"Eu vi um Anjo", ao vivo no Tabasco Beer, na data citada acima  


O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=66iK-5DCK_g


Depois de encerrado, voltar para casa foi um martírio, porque a polícia militar tradicionalmente faz blitz de bafômetro naquela avenida, próxima à estação do Metrô Parada Inglesa, pois é enorme a profusão de bares naquela região. 


"Baby, I Love Your Way", do Peter Frampton, na bela voz de Renata Martinelli  


O vídeo para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=BzoTtYV0pck


Mas cheguei tranquilo, apesar da canseira, mesmo porque, se parado pela fiscalização, sou o tipo de pessoa que não tenho nenhum temor por esse tipo de teste, e quem conhece-me pessoalmente, sabe bem o motivo...

Os Kurandeiros confraternizando-se com os amigos Sandra Marques (produtora de shows), e o guitarrista Roger Bacelli, da banda Nacionarquia, após a apresentação no Tabasco Beer. Da esquerda para a direita : Kim Kehl; Renata Martinelli; Sandra Marques; Luiz Domingues; Carlinhos Machado, e Roger Bacelli 

 
Após dois compromissos com o Ciro Pessoa, onde eu e Kim Kehl estivemos juntos na banda "Nu Descendo a Escada", que acompanha-o, voltamos à carga com os Kurandeiros para mais duas apresentações no Magnólia Villa Bar, encerrando o ano de 2011.
Foram apresentações animadas, talvez pelo fato do espírito natalino, e de Reveillon rondando-nos...

No dia 21 de dezembro de 2011, a banda base teve o acréscimo do ótimo tecladista Nelson Ferraresso, que sempre abrilhantava muito o som da banda, logicamente. E repetimos a dose no dia 28 de dezembro de 2011, desta feita, sem o Nelson, infelizmente.


No show do dia 28, uma particularidade engraçada deu-se, quando um grupo de jovens estrangeiros apareceu repentinamente, e divertiu-se para valer, dançando muito ao som dos nossos Rocks, principalmente. 


"Sou Duro" no dia 28 de dezembro de 2011, com direito ao tradicional solo do Kim, "passeando" pelo público  

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=62u-zp13Ih8


O ano de 2011 findava-se, e sob o luar da madrugada do dia 29 já avançando, despedimo-nos na porta do Magnólia, acreditando que teríamos um 2012, muito legal.

Particularmente, estava agradecido por ter sido lembrado pelo Kim, para mais um trabalho na minha longa carreira já naquela ocasião, e assim, desde agosto de 2011, estar com os Kurandeiros. Era (é), uma banda de amigos, e sem frescuras, tornando o ambiente sempre amistoso, e sem nenhuma possibilidade de haver tensões. Assim encerrou-se 2011...

O ano de 2012 começou com uma esperança boa de que a banda teria uma maior profusão de shows. O embalo alcançado no final de 2011, houvera sido positivo, e levava-nos a crer que criara uma onda progressiva para o ano novo.



"Baby I'm Want You", do Bread, na noite de 4 de janeiro de 2012, no Magnólia Villa Bar

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Zd-O8Y_BKwM  




Logo no início do ano, emendamos três datas no Magnólia Villa Bar, uma tradicional casa para os Kurandeiros.

Nesta foto, canja do tecladista Alexandre Rioli na noite de 4 de janeiro de 2012

Em 28 de janeiro, com a presença do saxofonista André Knobl

Os shows ocorreram nos dias 4, 18 e 25 de janeiro de 2012. Nas duas primeiras datas, tocamos como um trio : Kim, eu, Luiz Domingues, e Carlinhos Machado.



As três fotos acima são da apresentação do dia 25 de janeiro de 2012, com a presença de André Knobl no sax e Renata Martinelli, no vocal

No show do dia 25, feriado municipal de aniversário de São Paulo,  tivemos os reforços de Renata Martinelli e André Knobl.
A próxima data ocorreria em 3 de fevereiro de 2012, numa casa chamada Lolla Paloosa, em Santo André, na região do ABC.
Com o mesmo time em quinteto, citado acima, tocamos sob condições muito ruins de áudio, pois o equipamento disponível na casa era terrível, e o tratamento dispensado, idem, onde posso afirmar sem medo de errar, que tenha sido o pior show que fizemos nessa fase comigo na banda, e um dos piores da minha carreira, infelizmente. Ficamos todos chateados por esse resultado, e claro que dispostos a nunca mais voltar ao tal estabelecimento, pois realmente ali era "jogo duro", em todos os sentidos. Para completar o baixo astral, o clima na porta da casa era pesado. Foi apreensiva a saída, onde até sinais de tentativa de arrombamento do carro do Kim, aconteceu. Creio que a única lembrança engraçada dessa noite difícil, foi no final da apresentação, quando um grupo de adolescentes bêbados e muito loucos, apareceu e agitaram a casa, dentro de sua loucura. Eram três garotas e dois rapazes, sendo que as meninas estavam alucinadas, e os rapazes pareciam estar bem menos doidos, e até constrangidos com o comportamento exagerado das meninas. Sei que na verdade foi triste, mas no auge da loucura desmedida dessas meninas, elas tiveram a proeza de mexer com todo mundo dentro do bar, atiçando as pessoas a dançar, e de certa forma, amenizaram o baixo astral do ambiente com o péssimo som, e o tratamento rude com o qual os funcionários da casa dispensavam à todos, incluso clientes. E foi engraçado como interagiram com a banda, quando estigmatizaram o Kim e o Carlinhos...

As garotas cismaram em puxar um coro infame, dizendo que o Kim era um "Tio Guitar Hero", e o Carlinhos, chamaram-no de "INRI", fazendo alusão àquele personagem midiático, que insiste em autoproclamar-se, como uma reencarnação de Jesus Cristo, etc e tal. Era infame, claro, e triste por serem meninas bem novinhas, bonitas e bem vestidas, naquele estado lamentável, mas por outro lado, foi engraçado e deu-nos alguns momentos de descontração numa noite de muitos dissabores. O próximo compromisso, seria uma semana depois, e na mesma cidade de Santo André, mas numa circunstância muito mais agradável para a banda, sem dúvida.

Bem, o próximo e bem mais agradável compromisso, deu-se no Espaço Cultural Gambalaia, de Santo André, em 11 de fevereiro de 2013. Muito bem recebidos pela direção da casa, fizemos um apresentação bem animada, com a presença da Renata Martinelli e André Knobl, reforçando o time, mas infelizmente sem o ótimo Nelson Ferraresso, nos teclados.

Uma banda de abertura chamada "O Livro Ata", apresentou-se. Eram rapazes com orientação rocker 1960 / 1970, e lembrou-me bastante de meus tempos de Patrulha do Espaço, onde conheci muitas bandas dessas características, principalmente no interior de São Paulo e pelos três estados do sul. Estavam entusiasmados com a oportunidade de abrir os Kurandeiros e dessa forma, empenharam-se para divulgar o espetáculo na cidade de Santo André. O show foi ótimo, com 60 pessoas presentes, mas em se considerando as dimensões diminutas do espaço, naturalmente.
E assim foi a nossa segunda passagem pelo Espaço Cultural Gambalaia, em 11 de fevereiro de 2012. Ainda nesse mês de fevereiro de 2012, os Kurandeiros de Kim Kehl apresentaram-se mais duas vezes.

No dia 15, ou seja, a quarta-feira posterior ao show no Gambalaia, voltamos à tradicional apresentação mensal no Magnólia Villa Bar, da Lapa. Com a presença de Renata Martinelli e André Knobl, reforçando o trio original, tocamos em mais uma noitada de Blues e Rock'n Roll.


Na segunda foto, vê-se a presença do guitarrista Claudio "Urso" Camargo (ao fundo, usando camiseta branca), que apareceu para dar uma canja. Lamentavelmente, ele viria a falecer pouco tempo depois, vitimado por um ataque cardíaco fulminante 

Dessa data em específico, lembro-me de termos posado para uma foto, que acabou sendo usada como promocional, com essa simpática formação de quinteto, com a presença dos ótimos André e Renata. Só faltou o excelente tecladista Nelson Ferraresso.
E três dias depois, estávamos de volta ao palco do The Pub, da Rua Augusta. 

Com o mesmo quinteto, encaramos a longa noite do The Pub, uma casa sempre com um público bom, mas onde era necessário tocar bastante, para entreter a noite inteira. Inevitavelmente, fazíamos no mínimo quatro entradas, às vezes cinco, o que tornava a apresentação, bem cansativa.


"O Jogador" nessa apresentação no The Pub, em 18 de fevereiro de 2012


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=05kTKWntFEI

Mas, havia a compensação, que vinha na forma de um tratamento bom, e um cachet legal.


"Little Red Rooster" nessa noite do The Pub


O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=U-4sTHc6jDc


O próximo show, seria mais animador, em tese pelo menos... 

Por intermédio da produtora Sandra Marques, estávamos agendados para um show 100% autoral, numa outra casa localizada na cidade de Santo André, no ABC paulista.

Foto pós-show, no Central Rock Bar de Santo André, em 14 de abril de 2012. Da esquerda para a direita : rapaz não identificado; Kacau Leão (fotógrafa); Kim Kehl; Sandra Marques (produtora do show); Carlinhos Machado e eu, Luiz Domingues

Foi marcado então mais um show de características eminentemente autorais, um bálsamo para os Kurandeiros de Kim Kehl, apesar da resignação da companhia em relação às atuações híbridas, com os inevitáveis covers em casas noturnas.

Outra foto pós-Show, com os componentes da banda Capitão Bourbon que tocaram na abertura da noite 

O show realizou-se no Central Rock Bar, em Santo André, no ABC paulista, e haveria uma banda de abertura, chamada "Capitão Bourbon". O show ocorreu no dia 14 de abril de 2012, um sábado, e foi intenso por acontecimentos no palco e nos bastidores. No camarim, o Kim falou comigo e Carlinhos Machado (tocamos como trio naquela noite), sobre um assunto muito chato. 

Ele estava enfrentando um problema de saúde, e dessa forma, avisou-nos que mediante conselhos médicos, teria que submeter-se à uma intervenção cirúrgica, e que o pós-operatório seria de repouso absoluto, fazendo com que as atividades dos Kurandeiros observassem tal questão. Ficamos chateados, pois sabíamos que ele estava com esse problema, mas não suspeitávamos que seria tão grave, ao ponto que requeresse intervenção cirúrgica e tratamento rigoroso a posteriori. Claro, demos todo o apoio moral possível naquele momento, mas o nosso sentimento de impotência diante da situação era inevitável, pois nada podíamos fazer para amenizar a situação do nosso amigo. Enfim, subimos ao palco para fazer o melhor show possível, apesar de termos ficado muito chateados com a notícia. A banda de abertura tocou muitos clássicos do Rock dos anos cinquenta, surpreendendo-nos positivamente. E os seus membros eram rapazes novos e muito entusiasmados com a nossa presença, numa reverência que alegrou-nos bastante, amenizando um pouco o dissabor pela notícia que o Kim passara-nos momentos antes no camarim. O show deles foi bem energético e sem dúvida que criou uma atmosfera legal para a nossa apresentação.

De fato, apesar de chateados pelo aspecto já citado, fizemos um show muito legal, 100 % autoral, o que sempre animava-nos mais.
O Kim, tocou, cantou e fez sua habitual performance de entertainer, muito divertida, como sempre. Outra ocorrência digna de nota, foi por conta do público. Era uma plateia bastante reduzida, infelizmente, que chateou a produtora Sandra Marques, super solícita e sempre animada, mas mesmo com seus esforços de divulgação, o público rocker do ABC, não compareceu no número que desejávamos. Mas um fato curioso ocorreu, mesmo com apenas 15 pessoas na plateia. Três sujeitos com atitude meio agressiva entraram na casa, já com o show em andamento. Num dado instante, encaravam-nos de uma forma acintosa, quase numa postura ofensiva, quando aproximaram-se e tiveram a atitude de bem perto do palco, ficarem encarando-nos de braços cruzados e cara de poucos amigos. Fiquei em alerta, pensando ser uma provocação explícita, e na minha cabeça, lembrava-me da fama das cidades do ABC terem com gangs de diversas vertentes e tribos, em épocas passadas, e quem sabe aquilo sinalizasse algo do gênero.
Paralelamente, Também ponderei ser um exagero da minha parte, pois o Kim continuava a tocar e cantar sem aparentar nenhuma preocupação, e tampouco o Carlinhos sinalizava algo nesse sentido.
Então, continuamos tocando sem nenhum problema, apesar desse tipo de manifestação estranha desses rapazes. Ao final do show, uma surpresa e tanto. Os três sujeitos, foram os que mais aplaudiram, demonstrando terem apreciado o show, e não era deboche, de forma alguma. Conclusão : as aparências enganam...
Foi no dia 14 de abril de 2012 e daí, um novo show dos Kurandeiros demoraria bastante para acontecer, devido aos problemas de saúde que o Kim enfrentou. Mas nesse ínterim, mesmo ainda debilitado, ele produziu para a banda, e eu tive o prazer de colaborar, efetuando minhas primeiras gravações como membro dos Kurandeiros, fato que comentarei a seguir.

Infelizmente, o estado de saúde do Kim era mais grave do que supúnhamos inicialmente. Desta forma, o pós-operatório colocou-o em uma situação de repouso absoluto, por algumas semanas. Fui visitá-lo e fiquei bastante admirado por sua incrível capacidade de enfrentar a dificuldade com extrema bravura e otimismo. Confesso, diante de uma adversidade dessa gravidade, não sei se teria essa coragem toda com a qual ele enfrentou, e venceu-a, merecidamente aquela questão. Enfim, apesar dessa tenacidade e grandeza de espírito, não seria a única batalha que enfrentaria nesse ano de 2012. 

Foi de fato, um ano difícil para os Kurandeiros, porque com a perspectiva de uma segunda intervenção cirúrgica (e no cômputo geral, ele enfrentou quatro cirurgias), uma nova etapa de repouso avistava-se, e dessa forma, o Kim foi aconselhado pelos médicos a cancelar compromissos, e sobretudo, não firmar outros, até segunda ordem. Bem, super ativo como ele é, claro que obedeceu os médicos parcialmente, apenas. Se realmente teve que cancelar apresentações, no seu home studio, adiantou muitas coisas para os Kurandeiros, criando promos de internet, mixando músicas já gravadas, e compondo novo material.

Nesses termos, mandou-me 3 temas pela internet, convidando-me a gravar o baixo dessas canções. Tirei as harmonias, criei linhas de baixo e numa tarde, fui à sua casa para gravar, com muito prazer.
Dessas três músicas, uma foi promovida na internet, como um promo de visual bem psicodélico, e fez um bom barulho nas redes sociais. Falo disso, a seguir... 
Foi um baita prazer comparecer à casa do Kim, no bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo. O QG do Kurandeiro-Mor é um conjugado de dois cômodos, na parte baixa da casa, isolado da residência ampla, e com a charmosa arquitetura dos anos vinte, acredito.

Nesse compartimento da residência, ele está cercado de aparelhos eletrônicos que seu pai tem como Hobby montar, fazendo com que a decoração seja muito louca, ao estilo de laboratórios de cientistas de filmes de Sci-Fi ou Terror, antigos, da Universal, ou mesmo da Hammer...
Bem, como cinéfilo que sou, nem preciso dizer o quanto achei incrível tudo aquilo. O Kim grava no seu port-estúdio, com muita tranquilidade, usando tecnologia digital, pro-tools etc. Portanto, apenas pluguei o meu Fender Precision, e mandamos ver nas três canções. Numa delas, eu criei uma linha bem inspirada no Gary Thain, baixista que passou pelo "Uriah Heep", e é uma grande influência na minha formação musical.

Ocorre, que o tema era instrumental, e a linha mestra da melodia executada pela guitarra, era feita pelo slide e lembrava muito o trabalho do Ken Kensley no Uriah Heep. Portanto, estava convencido que se seguisse essa linha do Gary Thain, o baixo ornaria de uma forma bem adequada à canção e foi assim que ocorreu.


Abaixo, o vídeo-promo de "Sliding in the Stratosphere", canção que descrevi no parágrafo acima.

Eis o Link para assistir no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=D-YvJ6evWME



O período que seguiu-se, foi de apreensão para os Kurandeiros.
A recuperação do Kim era lenta, e exigia-lhe repouso absoluto, o que definitivamente impedia-o de agendar shows. Se dependesse dele, certamente que queria trabalhar, mas os médicos haviam sido incisivos com ele, no sentido de que não poderia esforçar-se fisicamente, e assim, tocar guitarra e cantar ao vivo, estava fora de cogitação, naquele instante. Dessa forma, ele foi recuperando-se, até que mediante novos exames, os médicos decidiram por mais uma cirurgia. 

Confesso, estou para ver uma pessoa com tanta resignação e força, pois qualquer outra, incluso eu, mesmo, teria esmorecido com tal notícia, mas ele encarou com uma tremenda determinação de submeter-se o quanto antes, e vencer a dificuldade, que para eu mesmo foi / é um exemplo de coragem e amor à vida. Enfim, uma nova intervenção nos mesmos moldes da anterior, subentendia um longo período de recuperação a posteriori, certamente, tudo de novo. E sendo assim, ele apressou-se em comunicar aos Kurandeiros, que contava com nossa paciência nesse período, e pediu desculpas pela banda dar uma parada, e assim comprometer o decorrente movimento de cachets para os demais.

Ora, a nobreza de caráter da parte dele, era notável em ter esse tipo de preocupação, porém, nossa preocupação não era essa, mas sim o restabelecimento do amigo, dando a volta por cima nessa questão de saúde. Infelizmente, a situação de saúde dele era difícil, e o tempo de recuperação decorrente da segunda intervenção cirúrgica a que submeteu-se, não trouxe perspectivas concretas de solução para o seu problema de saúde, e dessa forma, uma terceira intervenção foi sugerida pelos médicos, com consequente novo período de repouso absoluto. E, uma quarta intervenção foi prescrita, gerando novo período de convalescença. Desta feita, apesar do sofrimento todo, foi a última intervenção, dando um basta à essa situação e levando o tratamento, doravante, à um patamar mais ameno, com medicamentos e exames periódicos de acompanhamento ambulatorial. Nesse ínterim, surgiu uma data para o Ciro Pessoa, e como eu e Kim éramos de sua banda de apoio, independente dos Kurandeiros voltarem à ação, foi a perspectiva concreta dele retomar as suas atividades profissionais, ao menos em se considerando apresentações ao vivo, pois mesmo sem forças, nunca deixou de trabalhar em seu estúdio.

Sobre a apresentação que o Kim fez comigo, acompanhando o Ciro Pessoa, narro no capítulo adequado, naturalmente. Com os Kurandeiros, a volta do Kim demorou mais dois meses, vindo a ocorrer no dia 17 de outubro de 2012, no Magnólia Villa Bar.


Se em agosto, o Kim tocara comigo e outros companheiros, acompanhando o Ciro Pessoa num show realizado em São Carlos, no interior de São Paulo, mas ainda inspirando cuidados na sua condição física pós-operatória, desta feita, ele demonstrava estar muito melhor. Assim, com as presenças de Carlinhos Machado na bateria, Renata Martinelli aos vocais, Phil Rendeiro na guitarra base, Alexandre Rioli aos teclados, e eu no baixo, os Kurandeiros tocaram com bastante alegria naquela noite quente de primavera, pois o Kurandeiro-mor estava de volta em grande estilo, mostrando sua superação.



Não tivemos um grande público, mas foi muito gratificante tocar e ver o Kim pilotando a guitarra, cantando e fazendo as suas costumeiras brincadeiras performáticas. Comeback, Kim Kehl !!


"Cocada Preta", executada nesse show citado acima.
Dia 17 de outubro de 2012 - Magnólia Villa Bar


Eis o link para assistir no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=fQwZXSg72ds


Aí sim, a próxima parada seria só em janeiro de 2013...
Os Kurandeiros, efetivamente, só voltariam à ativa no início de 2013.

Continua...

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