Pesquisar este blog

terça-feira, 1 de março de 2016

Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada - Capítulo 3 - Relatos da Existência Caótica - Por Luiz Domingues

Conforme relatei no final do último capítulo, infelizmente no ano de 2013, reunimo-nos só no aniversário da Isabela Johansen, em janeiro. Após essa festa, agradabilíssima, por sinal, só tive contatos virtuais com o Ciro; Caleb, e Paulo Pires, os membros dos "Nudes", fora o Kim, com o qual o contato era constante por conta das atividades dos Kurandeiros, e agora somado a recente criação da Magnólia Blues Band, logicamente. Vez por outra também conversei virtualmente com a Luciana Andrade, mesmo com ela não fazendo mais parte da banda e tocando sua carreira solo com sucesso, pelo que pude acompanhar.

Mas por volta de fevereiro de 2014, uma notícia boa apareceu na minha caixa de E-mails, vinda do Ciro : "show em Piracicaba"...
Abri o E-mail com entusiasmo, porque sempre gostei do trabalho, a loucura toda que envolve o Ciro, e sua bagagem extramusical evocando o surrealismo, tanto na música quanto na literatura, mas com respingos múltiplos, naturalmente. Ouso dizer que apesar de parecer uma obviedade, não é todo mundo que estabelece uma ligação direta e reta entre a psicodelia sessentista no Rock & contracultura em geral, com o surrealismo propriamente dito.

E o Ciro o faz de forma franca e absolutamente natural, portanto era evidente que eu afeiçoara-me ao trabalho de uma forma entusiasmada. No caso do E-mail em si, o seu teor era animador : um show havia sido fechado para o "Nudes" na cidade de Piracicaba, na unidade do Sesc local. Seria parte de um evento temático sobre surrealismo, englobando exposições e palestras de escritores, inclusive de renome e peso, caso de Claudio Willer.
Nada mais animador para uma retomada do trabalho, e com a certeza de que haveria, como sempre há na Rede Sesc, uma estrutura bacana de som e luz, além de camarim, cenotécnica e um cachet digno, certamente. Claro que respondi animadamente ao Ciro que estava a postos, e aguardando a marcação de ensaios.

Meu amigo Carlinhos Machado, baterista dos Kurandeiros e do Magnólia Blues Band, que em 2014 também integrou o Nudes

Logo surgiu uma resposta, e soube que haveria novidades na formação dos Nudes, e muito bacanas para nós, diga-se de passagem, ainda que seja cabível um esclarecimento sobre esse fato. Bem, o Ciro havia cogitado com o Kim, a possibilidade do baterista dos Kurandeiros e da Magnólia Blues Band, Carlinhos Machado, entrar para os Nudes, também. Claro que achei sensacional a ideia de ter um amigo a mais na banda, tornando o convívio, ainda mais prazeroso. Mas cabe a ressalva de que eu não tinha nada contra Paulo Pires e Caleb Luporini baterista e tecladista que faziam parte da banda assim que ingressei no trabalho em 2011.
Aliás, muito pelo contrário, achava-os bons músicos e nosso relacionamento foi ótimo, nos três shows que fizemos anteriormente.

Mas a ideia de ter Carlinhos na banda, era excelente, pela nossa amizade de muitos anos, e nada contra os demais que não fariam parte da banda doravante. Outra novidade, seria a inclusão da esposa do Ciro, Isabela Johansen, nos vocais, suprindo a ausência da ótima Luciana Andrade, que deixara a banda.

       Isabela Johansen, cantora / guitarrista e compositora 

De fato, Isabela tinha dotes musicais e uma experiência pregressa como vocalista de bandas de Rock anteriormente, portanto, não seria uma Linda McCartney goela abaixo de todos, mas muito pelo contrário, um acréscimo bastante positivo à estrutura da banda.
Com essa perspectiva de reformulação total, ensaios foram marcados, e o Ciro passou uma incumbência pessoal para o Kim e eu...


Mediante E-mail recebido do Ciro, soube que ele solicitava que eu e Kim musicássemos dois textos de sua autoria. Um deles seria a introdução do novo show. Ambos eram louquíssimos, bastante influenciados pela literatura Beatnick, e evocando imagens fantásticas, sob surrealismo total.


O Kim criou um tema de climas incríveis, numa sequência de acordes que trazia uma melancolia soturna, porém com uma doçura subliminar e dramática. Nos ensaios, ficamos muito animados com o resultado, pois mesmo sendo um tema esvoaçante, sem pulsação definida, e com o baixo e a bateria só fazendo efeitos, praticamente, ficou muito bonito, emoldurando de maneira muito efusiva a locução performática que o Ciro desejava para esse início de show.
Indo além, tal tema caiu como uma luva para ser o início de show, e em se considerando que o Ciro planejava uma entrada em cena evocando René Magritte, ficou realmente esplêndido. Tal tema inicial recebeu  título de "Evacuando Ideias na Selva do Improvável", e apesar de um certo tom escatológico que possa denotar, tal nome queria expressar mais o sentido da catarse do que qualquer outra coisa, evidentemente.

No meu caso, a incumbência que ele passara-me fora semelhante. Tratava-se de um outro texto bruto, ao estilo Beatnick, denominada "As Nuvens Enjauladas do Zoo". Pensei inicialmente em um tema sob "looping", trazendo uma certa lembrança do The Doors, ou algo estritamente psicodélico, no estilo meio jazzístico do "Love". Contudo, no primeiro ensaio que fizemos, visando o show do Sesc Piracicaba, a ideia ganhou outro contorno, não muito diferente do que eu imaginei inicialmente, porém mais "tenso", eu diria...

Bem, o que ocorreu no desenvolvimento desse tema, foi que ele tornou-se muito nervoso, dando-lhe uma ambientação "esquizoide", lembrando o King Crimson dos primeiros tempos, e dessa forma, a interpretação do Ciro para declamar seu texto, ganhou tal amplitude de uma loucura desesperada, e claro que ficou muito intenso e entusiasmou a todos, principalmente o Ciro, é claro. Não era exatamente o que eu estava imaginando, mas confesso que tal intensidade de um surto psicótico, agradou-me, pois era evidente que o Ciro usaria e abusaria desse tema para intensificar sua performance ao vivo.

E isso foi graças ao Carlinhos Machado, pois quando propus mostrar a ideia para ele, visto que fomos os primeiros a chegar ao estúdio para o ensaio, ele puxou-a num andamento muito além do que eu havia concebido, e dessa forma, mudou sua característica e deu-lhe ainda mais dramaticidade. Os ensaios portanto, corriam num clima de acrescentar músicas novas sendo compostas ali no calor da ocasião e com interatividade coletiva.

Rara foto de um dos ensaios para o show do Sesc Piracicaba, de março de 2014, click da própria Isabela, que ficou fora do quadro. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Carlinhos Machado; Ciro Pessoa (de costas), e Kim Kehl

Por exemplo, fora tais temas que já observei, havia uma canção composta ao violão pela Isabela, que estava semipronta com uma letra usando um poema de Manoel de Barros. Parecia uma canção Folk bem sessentista, lembrando coisas como "The Mamas and the Papas"; "Peter, Paul & Mary", e outros artistas similares, com uma certa docilidade. Lembrava de certa forma também, Mutantes, nos seus tempos psicodélicos, e com a Rita Lee transitando entre a loucura explícita, e a docilidade ingênua, "Pollyanesca". A adaptação do Carlinhos Machado à banda estava excelente. Ele sentia-se preocupado em ter que decorar tantas músicas novas para ele em poucos ensaios, mas absolutamente ambientado e integrado, brincando nos ensaios. Haveria mais dois ensaios, mas com a inclusão de novas músicas, acho que o Carlinhos tinha certa razão para ficar apreensivo.

De fato, creio que mais um ensaio teria sido mais adequado para o Carlinhos, principalmente, cuja entrada na banda estava iniciando-se. Mas mesmo lidando com essa realidade, creio que acertamo-nos com apenas mais dois ensaios, e fomos para Piracicaba bastante animados com a perspectiva de uma boa performance naquele palco interiorano.

Em clima de descontração dentro da van da produtora, indo para a cidade de Piracicaba / SP, em abril de 2014

A viagem foi agradabilíssima, em clima de grande camaradagem, com descontração e brincadeiras sobre tudo e todos, conforme as conversas evoluíam dentro da van. Chegando em Piracicaba, chamou-me a atenção como o volume de água do famoso rio homônimo, estava muito abaixo de seu normal. 

Eu havia visitado aquela simpática cidade interiorana pela última vez em 2008, quando fora apresentar-me com o Pedra, no mesmo Sesc. Estacionamos na porta do Sesc, e a movimentação normal do cotidiano daquela unidade era total. Muitas crianças e adolescentes usando as instalações esportivas; idosos nas atividades de terceira idade; lanchonete lotada, pessoas usando as dependências etc.
Bonito de ver como o Sesc cumpre sua função social com galhardia, e numa cidade interiorana do porte de Piracicaba, isso amplificava-se.


O show do Ciro era mais uma peça na semana temática sobre surrealismo que o Sesc Piracicaba promovia, onde já houveram ocorridos debates sensacionais, entre os quais um com Claudio Willer, um dos grandes "Papas" da literatura beat, e um especialista em surrealismo. Willer estava naquele instante, muito entusiasmado com o trabalho literário do próprio Ciro, e já havia inclusive assinado o prefácio do seu livro, que estava no prelo. Portanto, a ambientação para o nosso show era a mais favorável possível.


Como cenário, usamos projeções simples no telão, mas que outorgaram uma ambientação fantástica e muito condizente com o espírito do show.

As imagens eram de nuvens passando, o tempo todo, dando uma caráter onírico ao espetáculo. Era de uma simplicidade total, ao contrário de outros shows que o Ciro fizera anteriormente, inclusive com cenários sofisticados, de extrema ambientação psicodélica e surrealista.




Desta feita, a ideia era a simplicidade, contudo, evocando o aspecto onírico. Outro fator conceitual dava-se nos figurinos e instrumentos.
Para quebrar o extremo uso de cores psicodélicas de shows anteriores, a Isabela deu a ideia de um conceito de branco e preto generalizado.




Clima agradável no camarim, nas fotos acima... Nudes em preparação para o show !
 
Usamos todos, portanto, roupas combinado os dois tons básicos e também estendemos o conceito aos instrumentos. Enquanto conceito, achei boa a ideia e acatei a decisão geral sem problemas, mas claro, fica a ressalva óbvia, de que se depender de meu gosto pessoal, afogamo-nos em cores caleidoscópicas, e absolutamente psicodélicas e lisérgicas, sempre...



O Kim levou duas guitarras, uma Gibson Les Paul preta e uma Fender Stratocaster branca, e eu levei meu Fender Jazz Bass preto.
O Carlinhos tem uma bateria preta, mas por conveniência logística, acabou usando a bateria disponibilizada pelo Sesc, uma carcaça "cherry", mas sem maior prejuízo ao conceito estético proposto.

As nuvens passando no telão, reforçavam e muito o conceito proposto para esse show.





Tudo foi muito tranquilo no soundcheck, com os técnicos de som e luz atendendo-nos com simpatia. O background de apoio do Sesc funcionou no padrão da instituição, e estávamos animados para fazer o show.

Relaxando no camarim, alimentamo-nos e arrumamo-nos para entrar em cena. O Ciro usou um terno, com apoio de acessórios como um belo chapéu coco e um guarda chuva enorme, dando-lhe incrível semelhança com a figura de René Magritte. Era proposital, logicamente, e sua entrada em cena, foi sensacional com esse figurino e performance minimalista e surreal.

Antecipei-me um pouco... hora de falar do show, portanto...

Tudo pronto, os três sinais do teatro tocaram... como é bom para um artista apresentar-se num teatro, nunca canso-me de exaltar isso, e reforçar o conceito de que tocamos onde é possível, mas o ideal, sempre, é um ambiente adequado para a prática da arte com todo o conforto para todos, incluso o público, naturalmente.

O Ciro entrou em cena vagarosamente, ostentando um enorme guarda-chuva, reforçando o conceito da vinheta de áudio, imitando o ruído de raios; trovões e chuvas, e também das imagens no telão, a mostrar nuvens carregadas.

                                 O genial, René Magritte

Seu visual, incluso um estratégico chapéu coco, remetia a René Magritte, e no gestual, fazia referência a sua figura surreal.
Muito lentamente, acompanhando a mudança sonora no áudio, começou a declamar seu poema novo, "Evacuando Ideias na Selva do Improvável", que o Kim havia musicado, mas não como música pop cantada, mas apenas fazendo uma ambientação climática.

A banda foi entrando e fazendo aquele clima sonoro, que aliás, ficou muito bonito. E o show seguiu, mesclando mais canções novas ("Ecos da Tagarelice Mental"; "Borboletas", esta baseada num poema de Manuel de Barros, numa canção doce e bonita composta pela Isabela), e canções tradicionais dos discos solo do Ciro, além de material dos Titãs e Cabine C.

Uma releitura diferente também foi executada ao vivo nesse dia. Numa escolha de Ciro & Isa, tocamos "Mágica" dos Mutantes, uma música não muito lembrada do repertório dessa celebrada banda, mas que tinha tudo a ver com a atmosfera de surrealismo total que o Ciro queria imprimir nesse show.


Outro conceito, mas desta feita numa ideia da Isabela, todos tocamos de preto e branco no figurino e até nos instrumentos tentamos fazer valer essa ideia estética, conforme já havia dito anteriormente.

Apreciamos muito fazer o show, embora o teatro não tenha lotado, infelizmente. Acho que pela performance toda, merecíamos ter casa com lotação esgotada, mas psicodelia e surrealismo com direito a loucura total, não estava na crista da onda em 2014...

Pena, perderam uma dose maciça de um show completamente louco, em todos os aspectos.

E como gosto de estar num espetáculo com esses componentes...
Só faltou o colorido mesmo para ser perfeito, embora eu ache que o conceito P & B que a Isabela idealizou, funcionou e foi bacana pela sobriedade.

No camarim do pós-show, tivemos assédio, apesar da baixa frequência no teatro. Uma fã do Ciro (na foto acima, em pé entre eu e o próprio Ciro); viajara de uma cidade próxima, só para ver-nos em ação, e estava eufórica pela performance. Dia 10 de abril de 2014, quinta-feira, no Sesc Piracicaba. 

Saindo do Sesc, voltamos para São Paulo imediatamente, pois a distância entre Piracicaba e São Paulo é relativamente curta (188 Km), e tudo foi muito divertido na van; nas paradas na estrada para pitstop, e a chegada em São Paulo já na madrugada. Ao lado da casa do Ciro tem uma fábrica (sim, fábrica e não padaria), de pães. Trabalham na madrugada e costumam atender pessoas, mesmo não sendo um comércio propriamente dito, mas uma indústria e assim, vendem informalmente no varejo. Com aquele cheiro de pão quente inebriando-nos, terminamos a noite arrematando pacotes de pães saídos na hora do forno, e sob um preço absurdamente barato.
Poucos dias depois, o Ciro comunicou-nos que havia fechado um show num tradicional teatro do centro de São Paulo, e claro que apreciamos muito a perspectiva.

Quando recebemos a notícia que o Ciro negociava com o Teatro Parlapatões, para a realização do nosso show ali, ficamos contentes, é claro. Primeiro pela sequência de shows mais ou menos próximos, visto que havíamos apresentado-nos em abril na unidade do Sesc Piracicaba, e ter uma perspectiva de continuidade era tudo o que queríamos. Segundo, pelo fato de que tocar num teatro novamente, como ocorrera em Piracicaba, seria o ambiente ideal para o show performático e pleno de textos que estávamos fazendo, além de que, numa casa noturna não havia uma ambientação adequada para um tipo de espetáculo tão intenso, nessas características. Portanto, gostamos muito de saber que havia essa oportunidade.

Mas dependia, outrossim, de uma verificação prévia, em termos técnicos, pois não obstante ser um teatro bonitinho; tradicional e super bem localizado, era na verdade um teatro focado nas apresentações teatrais e não tinha quase ou nenhuma, tradição com shows musicais.

O que acontecia ali em termos musicais, costumava ser produções simples, intimistas mesmo e não um show de Rock com sua eletricidade e volúpia, portanto, com suas necessidades técnicas inerentes, e que são muitas...
Encontramo-nos ali no teatro para uma verificação prévia. De fato, o pequeno P.A. oferecido era adaptado para dar apoio de sonoplastia para peças teatrais, e jamais suportar a carga de um show de Rock, como deve-se.


Fora isso, notamos que se levássemos um backline pesado, ficaria impossível tocar, pois massacraríamos o pequenino P.A., afastando completamente a chance das vozes serem ouvidas, portanto, num tipo de espetáculo que estávamos fazendo, onde o Ciro declamava longos poemas com a banda fazendo climas, isso aniquilaria o espetáculo. Alugar um P.A. como reforço, além de ser fora de cogitação pela questão monetária, era impossível também ali pelas características do teatro, o que tornaria o show ensurdecedor e acarretaria problemas com a vizinhança, fora torturar nosso próprio público.

Então, o que nos restava ali, analisando tecnicamente a situação eram duas hipóteses :
1) Cancelar a apresentação;
2) Tocar com uma amplificação reduzida e fazendo uma dinâmica muito disciplinada para usar o parco P.A. do Teatro e sem microfonar a bateria e os amplificadores, evidentemente.
Optamos por manter a data marcada e fazer essa verdadeira loucura, sob o ponto de vista técnico...

Divulgação indo para a rua, animamo-nos em ter o show, mas sabíamos de antemão que seria um exercício de resiliência sonora e performática. Como loucura pouca é bobagem, havia um outro empecilho, desta feita perpetrado pela administração do teatro : eles tinham marcado uma outra apresentação musical para o mesmo dia, e assim, na sua ingenuidade de não saber lidar com o universo musical, achavam que uma apresentação marcada para as 21:00 h, com o nosso show para as 23:00 h, não atrapalhar-nos-ia...
É o tal negócio : apesar de lidarem com produção artística, o mundo teatral tem outras características, pois música demanda outras necessidades prévias, por exemplo o soundcheck, que denota horas para ser acertado, antes do artista subir ao palco e dar início num show. Alegando ser uma dupla intimista de voz e violão, não incomodar-nos-ia que apresentassem-se antes, desde que fizéssemos um soundcheck no período da tarde, deixando nosso "set up" arrumado previamente. Mas o pessoal do Teatro não entendia isso, e achavam que se chegássemos com o show dessa dupla em andamento, com 20 minutos ou até menos, seria o suficiente para deixarmos o nosso palco preparado...
Enfim, eram o tipo de pessoas que acham que um show depende de ligar-se um plug na tomada apenas, como aciona-se um eletrodoméstico na cozinha de casa...
Argumentamos que o mínimo que queríamos por necessidade, era poder chegar mais cedo, antes do show desses artistas e arrumar nosso palco. Já que era um duo de voz e violão, não os atrapalharia em nada que nossa bateria, amplificadores, guitarra e baixo ficassem no palco, preparados, com soundcheck realizado previamente e set up pronto para nós, mediante ajustes simples, para que o duo deles tocasse antes. Convencidos, deixaram-nos fazer isso, ufa...
Mas no dia do show, eu fui o primeiro a chegar ao Teatro e tive uma boa nova : o show do duo fora cancelado, e nós poderíamos ter o palco só para nós. Melhor ainda, portanto...

Foto bem do início do show, com o Ciro ainda usando o guarda-chuva com o qual entrara em cena... click de Lara Pap

Com o som acertado e por incrível que pareça numa situação bizarra de não haver nada acoplado ao P.A. do teatro, agora era só aguardar os três sinais do teatro e começar o espetáculo. No camarim, o clima de confraternização entre os Nudes era ótimo, dando-nos a confiança de que faríamos um bom show, apesar da condição técnica estranhíssima, já descrita.





Camarim descontraído, só aguardando o momento para exercer a doce psicodelia. Quando recebemos o sinal de que as portas abrir-se-iam para o público, já estávamos prontos e só restava esperar pelos sinais tradicionais.

            Vista do camarim para o palco do Teatro Parlapatões

Ali, no improviso total, o Ciro teve uma ideia maluca, e que no âmago do trabalho todo amalgamado pela loucura que permeia-o naturalmente, seria plausível e impactante. Como o camarim ficava num patamar acima do palco, bem alto por sinal, o acesso para o palco fazia-se por uma escada íngreme e com uma certa periculosidade até, ao fundo, quebrando um pouco a ideia de um palco italiano tradicional, com saídas laterais de coxias etc etc.

Na verdade, a coxia ali era bem pequena, praticamente um pequeno biombo onde os atores podiam aguardar deixa de entrada em cena, mas sem muita margem de invisibilidade. Em suma, um palco para apresentações teatrais cruas, sem muita possibilidade cenotécnica e mais baseada em texto, e expressividade dos atores. No nosso caso, como o show tinha bastante presença de texto, logicamente que as coxias poderiam auxiliar em entrada e saída de cena, principalmente do Ciro e da Isabela, mas ao mesmo tempo que o espetáculo tinha essa carga surreal / psicodélica, tinha também o elemento Rock forte e nesse caso, nada poderia deter-nos, e nem mesmo a ausência de um P.A. adequado.

               "Nu Descendo a Escada", obra de Marcel Duchamp

Sobre a ideia extravagante que o Ciro propôs, como é sabido, o nome da banda era "Nu Descendo a Escada" (tal nome, aliás, era baseado numa pintura assinada por Marcel Duchamp, no ano de 1912), portanto, vendo a escada íngreme e com a projeção que havíamos programado para passar na hora do show, na própria parede e portanto, com a escada fazendo parte involuntária de tal parede, Ciro de pronto sugeriu que despíssemo-nos e entrássemos em cena inteiramente nus para impactar e fazer jus a loucura que permeia o trabalho.

Bem, ninguém ficou chocado ou ultrajado em princípio, mas ali, no calor da iminência de entrar em cena, ponderamos que seria uma loucura, mas posteriormente seria ridículo fazermos o show despidos e igualmente vestirmo-nos em cena para dar tal prosseguimento.




                             Momentos do soundcheck       

Rimos muito, mas seria exagerado e embaraçoso num segundo instante, fora que apesar do teatro ser bastante acostumado a lidar com encenações bem alternativas, com grupos teatrais experimentais etc e tal, talvez gerasse um problema ali, além de tudo.




Bem, descartada a ideia, isso não impediu que a entrada em cena fosse performática, com o Ciro a frente descendo a escada e portando um guarda chuva enorme e caracterizado como René Magritte, seguido da banda, também descendo lentamente, seguindo o padrão e sob as imagens de nuvens transpassando-nos e o áudio de uma chuva com trovões. Tocamos basicamente o set list que havíamos apresentado em abril último, no Sesc de Piracicaba.



Era um misto dos dois discos solos do Ciro, mais algumas músicas novas, que já eram fruto da nova fase da banda e em parceria com Isabela; eu; Kim e Carlinhos. 

"Evacuando Ideias na Selva do Improvável" + "Praia de Marfim", com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada, no Teatro Parlapatões em 5 de junho de 2014

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=G3jPO8c76Js  


Logo na primeira música, um sujeito entrou no teatro, vindo da rua e invadiu o palco, quase tocando no Ciro, mas os seguranças do teatro estavam no seu encalço e detiveram-no rapidamente, levando-o para fora. Aquilo foi tão rápido que não chegou a tirar-nos a concentração, e nem mesmo assustou-nos, visto que ele foi rapidamente retirado do palco, mas o público ficou sem entender nada e talvez tenham pensado tratar-se de alguma intervenção cênica com atores, para causar impacto, proposital, portanto.


Após o show, comemoramos isso, pois essa intervenção inusitada pode ter reforçado todo o conceito de loucura que caracterizava o show.

 
Um rápido "teaser" com um trecho da música "Ecos da Tagarelice Mental"  
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=H0cuk3OmGJ4 


O show foi filmado pelo irmão de Isabela, Gustavo Johansen e com apoio de Carlos Augusto Nascimento, mas não disponibilizado em versão full, ao menos por enquanto, escrevendo este trecho em fevereiro de 2016. 
Outro breve "teaser", com um trecho da música "Planos"

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=BAtwD4ZnKcI

Apenas alguns trechos estão no You Tube, mas espero que um dia tal material seja postado na íntegra. O pós-show foi bastante festivo. Não havia um grande público presente, mas quem ali compareceu foi bastante carinhoso conosco.

                   Grace Gianoukas & Kim Kehl no pós show

A atriz Grace Gianoukas, famosa criadora do "Terça Insana", um dos mais famosos espetáculos de Stand Up Comedy do Brasil, compareceu. Era amiga de longa data do Kim, pelo fato de ter sido casada com o Abrão, um cantor com o qual o Kim teve uma banda no final dos anos oitenta : "Abrão & Os Lincolns".

Foi um ótimo show, pois além da performance ter sido muito boa, ficamos muito surpreendidos em como conseguimos fazer um show com um P.A. tão inadequado e só suprindo as vozes. Claro que tivemos dificuldades inevitáveis nessas condições, principalmente o Carlinhos que guiou-se o show inteiro apenas pelo som dos amplificadores de baixo e guitarra. Mas no cômputo geral, foi bem satisfatória a apresentação e agora queríamos uma boa sequência, para firmar bem essa formação da banda.


Tínhamos uma animação muito grande após o show no Teatro Parlapatões, esperando dias ótimos para os "Nudes". Músicas novas surgindo em parceria direta conosco; a entrada do Carlinhos na formação oficial da banda; a boa participação da Isabela na banda, com boa voz; ideias; composições, e ótima presença de palco, eram enfim, bons indícios que credenciava-nos a pensar que boas novas chegariam. Mas havia fatores alheios a nossa vontade para minar tais boas perspectivas que eram enxergadas somente pelo prisma artístico.

Uma questão e não pode ser computada como um problema propriamente dito, mas era uma realidade, era que o casal Ciro & Isa estava com uma filha muito pequena e claro, apesar de contarem com apoio de vovós e outros familiares, demandava cuidados básicos e limitação para assumir compromissos; cumprir horários etc. O outro ponto é que o Ciro havia engajado-se de corpo e alma em manifestações públicas de repúdio ao governo federal, leia-se Dilma Rousseff; Lula & PT.

Indo além e usando de seu prestígio artístico, realizou diversos "hangouts" debatendo com o Lobão, outro artista que engajou-se na mesma causa e com outros pensadores, angariando simpatias e antipatias, conforme o sabor de cada torcida uniformizada nessa discussão. Não entrarei no mérito de explicitar isso em questão, no entanto, o que cabe dizer aqui é que o foco dele foi desviado bastante e aquele "momentum" bom que desenhava-se a nossa frente, foi diluindo-se por conta dessa militância (e não falo isso em tom de crítica, mas apenas relatando como fato histórico no que concernia-nos). Perdendo terreno, não tivemos mais atividades oficiais em 2014, limitando-nos a conversas internas por E-mails nesse período.

Em 2015, passei por um problema sério de saúde que consumiu-me um tempo longo de internação; duas cirurgias, e uma lenta recuperação, que estende-se aos dias atuais, 2016, quando escrevo este trecho. Já comentei mais detalhadamente sobre o que ocorreu-me pessoalmente, no capítulo sobre minha trajetória com Kim Kehl & Os Kurandeiros, cobrindo o mesmo período do tempo, não vou repetir aqui, portanto. Deixo no entanto, novamente o link de uma matéria que escrevi, como forma de agradecimentos aos profissionais do Hospital São Paulo, que salvaram a minha vida. Nessa matéria publicada no meu Blog 1, mas não anunciada como outras matérias em redes sociais, tem uma explicação detalhada sobre a minha doença e o período hospitalar pelo qual passei :

Blog Luiz Domingues 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/10/nao-e-por-ma-vontade-dos-profissionais.html


A partir do final de maio, voltei a apresentar-me com os Kurandeiros, e também com a Magnólia Blues Band, mas com bastante cuidado e limitações físicas visíveis. Como as atividades com o Nudes estavam paralisadas naquele instante, minha doença e convalescença não prejudicou o andamento dos trabalhos, diretamente. Nessa época em que estava voltando a normalizar a minha vida, Ciro comunicou-nos que estava articulando um evento numa casa noturna onde curiosamente os Kurandeiros já haviam  apresentado-se várias vezes, chamada Bierboxx, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.

Ciro Pessoa & Nudes no Bierboxx em 28 de junho de 2015. Foto do acervo dos Blues Riders
 
Tal evento teve cunho político, como um ato contra o governo federal de então / gestão Dilma Rousseff e nasceu graças aos esforços que o Ciro estava engajado para denunciar fatos além das falcatruas perpetradas pelo governo federal, que estavam na pauta do jornalismo mainstream, em termos de PT / Lula / Dilma Rousseff, portanto focando nos aspectos culturais da mentalidade socialista. Chamado de "artivismo", tal evento teve a participação de alguns artistas que engajaram-se na causa, entre poetas e músicos. Não anotei o nome dos artistas que apresentaram-se de forma intimista, na base da voz & violão, mas foram alguns, além de poetas e alguns que discursaram em tom de desabafo político.
De bandas, além dos Nudes, teve também um show de choque dos Blues Riders, uma ótima banda formada por ótimas pessoas como costumo sempre dizer. Admiro muito a batalha deles que tem como marca registrada a persistência impressionante, lutando por anos a fio em meio a uma cena sempre hostil para bandas desse tipo de sonoridade. O show dos Blues Riders foi ótimo, com aquela energia habitual, desfilando seus Blues Rock que esbarram no Hard-Rock muitas vezes. Gentis como sempre, emprestaram-nos seu backline e de fato, se o show dos Blues Riders fora de choque, o nosso foi ainda mais curto, uma mera aparição fortuita, pois a intenção do Ciro era mais produzir o evento e discursar politicamente do que inserir nossa apresentação formal.


Ciro & Nudes + Blues Riders na confraternização final... acervo e cortesia dos Blues Riders

Por ser curto, eu não senti em demasiado, mas o fato era que estava ainda bastante debilitado, infelizmente. Aconteceu em 28 de junho de 2015, um domingo ao final da tarde, com cerca de 50 pessoas presentes e clima exaltado pelos discursos de desagrado em relação ao então governo federal. Algum tempo depois, recebi o convite para comparecer ao aniversário da pequena Antonia, filha de Ciro & Isabela.

Fui com muito prazer prestigiar a festa pelo natalício da pequena Antonia Pessoa, e só não fiquei muito tempo, pois ainda não sentia-me 100% bem.

Com Ciro Pessoa, na festa de aniversário de dois anos de sua linda filha, Antonia, em 2015

Mas sabia nesse dia da festa infantil (na verdade, desde antes), que o livro do Ciro, estava na gráfica, esperando apenas o processo industrial, portanto, havia a intenção de fazer-se uma noite de autógrafos, e acoplada a um show, para reforçar tal lançamento.
Mais que isso, algumas músicas novas tinham suas respectivas letras baseadas em poemas desse livro, portanto, era mais do que necessário haver uma apresentação musical nesse lançamento do livro. Portanto, em breve começaríamos a ensaiar visando esse compromisso para 2015.

Comunicados pelo Ciro que seu livro estava chegando da gráfica, e que uma noite de autógrafos estava marcada para ser realizada em outubro, numa casa noturna no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, voltamos a conversar com bastante frequência por E-mail e inbox de Facebook, entre setembro e outubro de 2015.
Discutido um repertório básico de show, havia uma proposta do Ciro para intensificar o esforço de que novas músicas surgissem e com letras baseadas em poemas que faziam parte do livro que seria lançado. Ele mandou duas letras para o Kim e duas para que eu o fizesse também.

No meu caso, recebi dois poemas, denominados : "Planície dos Sonhos" e "Xadrez Cósmico". Trabalhei primeiro com um riff que já tinha em mente há muitos anos, e que reiteradas vezes tentei colocar à disposição do Pedra, mas ali nunca foi aproveitado, e de fato, colocar ideias para o Pedra era uma questão muito difícil pela maneira em que aquela banda portou-se ao longo de sua história e não cabe aqui tecer nenhum comentário a mais. Agora, livre de crivos alheios e intimidadores, o riff poderia ser aproveitado sem problemas e foi o que fiz para musicar o poema "Planície dos Sonhos". Não foi fácil no entanto encaixar a métrica da melodia cantada ao poema, pois é notório que é muito mais difícil para qualquer compositor, criar a música para uma letra pronta, sendo o processo inverso, pensar na letra com harmonia, ritmo e melodia definidos, muito mais fácil.

Mesmo tendo que fazer algumas modificações a posteriori e com apoio do próprio Ciro que também estabeleceu algumas mudanças nos versos do poema, o resultado ficou ótimo. Fiquei bastante contente em ver a ideia prosperar e tornar-se uma canção com forte apelo psicodélico sessentista, uma das minhas paixões em termos de vertentes dentro do Rock. Já a outra canção, foi fruto de uma melodia que por incrível que pareça veio à minha mente no período em que fiquei internado no hospital. Tratando-se de um Rock'n Roll bem ao sabor glitter setentista, ganhou co-parceria com o Kim, que criou um riff de introdução e outro de intermezzo, bem bacanas, enriquecendo a composição. Um ensaio acústico foi marcado na residência dos Pessoa, e onde foi possível mostrar as músicas e estabelecer os seus arranjos.

Da parte do Kim, sua contribuição com novas músicas deu-se com "Biscoitos & Mariposas" e "La la la". Sobre "Biscoitos & Mariposas", Kim trouxe-nos também um Rock básico, mas com uma melodia absolutamente inusitada. Tratando-se de algo inspirado no canto lírico e considerando que o Kim adora música erudita e tem amplo conhecimento na área, tal ideia que trouxe-nos foi uma sacada genial e que casou-se de uma forma louquíssima com a letra surreal escrita pelo Ciro...

                     "Selfie" do ensaio, em 6 de outubro de 2015

A outra canção que criou, "La la la", é um bubblegum sessentista sensacional e com um potencial pop extraordinário. Mas no momento crucial, acabou ficando fora do set list do show.
Mais um ensaio acústico foi marcado e a seguir, dois ensaios elétricos para firmar o show.







                     Fotos do ensaio de 15 de outubro de 2015

Por outro lado, considerando-se que o show não era o foco em si, mas um reforço ao lançamento do livro e noite de autógrafos, a divulgação estava atingindo frentes diferentes, do mundo literário, inclusive. O poeta Claudio Willer havia confirmado presença, e ele havia assinado o prefácio do livro, portanto, era uma super honra para o Ciro e todos nós, ter a presença de um grande artista e pensador prestigiando o evento. E assim chegou o dia da noite de autógrafos / show...

A casa noturna onde o evento transcorreria, chamava-se "Delirium Café". Bem montado e localizado, parecia atender um tipo de público classe média alta em essência, pela ambientação, mas sobretudo por ser uma casa especializada em bebidas alcoólicas estrangeiras e caras na sua carta habitual.

O palco era de um porte até razoável em se considerando que a casa não tinha o costume de promover shows musicais regularmente, mas apenas de forma sazonal. Contudo, havia um problema grande ali : não havia P.A.; iluminação e a estrutura de energia era pífia, portanto preocupante para nós. Bem, sobrou para o Kim que teve mais uma vez que pensar em levar seu P.A., o que dava-lhe uma tremenda dor de cabeça extra.

De minha parte, como já estava tocando com os Kurandeiros e a Magnólia Blues Band regularmente, estava incomodando os amigos em ter que carregar meu backline, portanto, mais uma vez teria que contar com a boa vontade deles. Cheguei ao estabelecimento antes de todos. Fui bem recebido pela "hostess" da casa, mas notei o despreparo para lidar com espetáculos musicais, assim que cheguei ao palco, pois haviam sofás colocados ali e a moça mostrou-se surpresa quando pedi-lhe que eles fossem retirados, pois era óbvio que não caberia nosso equipamento e nem nós...


Os companheiros chegaram e com os sofás desobstruindo o palco, montamos tudo e fizemos o chamado "autosoundcheck", comprovando que conseguimos imprimir uma qualidade sonora mínima, e assim ficamos mais seguros de que o show teria um áudio legal. A casa foi recebendo o seu público, e muita gente interessada no show ou no livro do Ciro, também foi aproximando-se. Num dado instante, o Ciro foi para a mesa de autógrafos e foi bastante procurado por seus fãs que compraram seu livro e aproveitaram o ensejo para garantir suas dedicatórias.

                    Ciro e sua bela assistente, Antonia Pessoa

Vi muitos jornalistas presentes e Claudio Willer veio sim, uma grande honra para todos nós.

Encontro de poetas surrealistas : Ciro Pessoa e Claudio Willer

O lado mau disso tudo é que a casa queria que o show começasse tarde, o que tornou a espera cansativa, e na ausência de um camarim, ficar ali na multidão com o som mecânico relativamente alto, gerou um certo stress mental para todos.

Dois psicodélicos inveterados : Ciro Pessoa & Luiz Domingues

Eu particularmente detesto ambientes barulhentos, por natureza. Sei que as pessoas acham isso engraçado e de certa forma paradoxal por eu ser Rocker, e estar acostumado a fazer shows de Rock, porém, eu na verdade detesto barulho, e jamais frequento casas noturnas por esse motivo, e também por ser abstêmio, portanto, tendo a cansar rapidamente em ficar em lugares assim. Mas enfim chegou a hora e lá fomos nós...

A sonoridade e o "punch" do show foram muitos bons, embora tenhamos todos cometidos errinhos bobos cada um individualmente, mas facilmente contornáveis. O fato de eu; Kim, e Carlinhos tocarmos em outras duas bandas que tem o Blues e o Rock como pilares, e o improviso total como modus operandi, fez com que nosso entrosamento natural ficasse a favor dos Nudes, também.

Muitos fãs dos trabalhos do Ciro com Titãs e Cabine C; e também de seus discos solo estava ali presente, mas havia também fãs que admiravam-nos por nossos trabalhos em outras bandas. Um rapaz em específico, chamado Raphael Rodrigues, que costumava aparecer em shows dos Kurandeiros e já o havia visto em shows do Pedra. Nesse dia, levou muitos discos para eu autografar de trabalhos que fiz com outras bandas. Havia na mesa em que sentou-se, discos da Patrulha do Espaço; A Chave do Sol; Pedra; Kim Kehl & Os Kurandeiros, e até do Pitbulls on Crack...
Mais que isso, esse rapaz mostrava-se fã dos trabalhos do Ciro também, e pediu várias músicas para tocarmos de seus discos solo, além dos trabalhos dele com os Titãs e o Cabine C.

Lembrando foto do LP do Festival de Woodstock, a pequena Antonia Pessoa passeia pelo palco, antes do show

Apesar da psicodelia e das letras surreais, o público gostou e não houve nenhum sinal de rejeição da parte dos habitues que estavam ali alheios ao lançamento do livro "Relatos da Existência Caótica" ou do show de Ciro & Nudes.

Pelo contrário, se não houve uma ovação, eu diria que da parte de quem estava ali alheio até a entender quem era o Ciro, e muito menos nós, a reação foi bastante respeitosa, com aplausos.

 

Um resumo do show de Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada no Delirium Café, em 23 de outubro de 2015. Filmagem de Jani Santana Morales

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=cBvVCf5wF6A 


Missão cumprida, agora era aguardar por novas oportunidades e logo teríamos a novidade de começar-se a cogitar a gravação de um álbum. Mas na prática, novidades só viriam mesmo no início de 2016, e seria uma oportunidade de usar o clichê : temos duas notícias, uma boa e outra ruim... qual você quer ouvir primeiro ?

Passado o show de lançamento do livro "Relatos da Existência Caótica", em outubro de 2015, havia perspectivas para shows fixos, como temporada, no próprio Delirium Café, além de consultas para shows em outras casas noturnas e teatros. Mas com a virada do ano de 2015 para 2016, tivemos uma má notícia que acabou respingando em nossa banda, quando soubemos que o casal Ciro & Isabela separou-se, e assim, inviabilizou-se a presença da Isabela na banda, doravante.  

Claro que não vou comentar absolutamente nada sobre questões pessoais do casal aqui, e nem em off o faria com ninguém, mas cabe registrar que lastimei a situação pelos dois, como casal e individualmente, e claro que também pelo prejuízo à banda, com a perda da Isabela, que provou-nos seu valor como cantora / performer e compositora. Agora, teríamos que encarar sem ela, e foi o que fizemos.

Ciro Pessoa no show dos Kurandeiros no Santa Sede Rock Bar, em 15 de janeiro de 2016

Entre janeiro e fevereiro, o Ciro compareceu a vários shows dos Kurandeiros, e do Magnólia Blues Band, onde fez aparições cantando conosco.

Foi uma espécie de preparação, pois em fevereiro anunciou-nos ter fechado um show novamente no Delirium Café, e assim, fizemos dois ensaios acústicos na sua residência, e um elétrico na semana do show. A ideia era dar uma mexida no set list base do show e músicas que não tocávamos há tempos, foram reincorporadas ao repertório. Ciro também convidou o baterista do Ultraje a Rigor, o Marco "Bacalhau" Aurélio, para tocar uma música conosco, como convidado especial.

Eis acima uma cópia do filme "La Follie Du Docteur Tube", de Abel Gance

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=fN4he9MJ38A

Ciro deu a ideia de usarmos imagens de filmes surrealistas e dadaístas como projeção de fundo e de minha parte, lembrei-me que havia enviado aos Nudes ainda em 2014, a ideia de usar um curta metragem de 1915, denominado "La Follie Du Docteur Tube", do cineasta francês, Abel Gance, para um futuro promo da banda, visto que tal material caíra em domínio público, ao completar 99 anos de lançado. Tratando-se de um filme louquíssimo, absolutamente psicodélico, com lisergia incrivelmente futurista para os padrões de 1915, cairia como uma luva para ser promo de uma música dos Nudes. Portanto, assim que ventilou-se a ideia da projeção, eu lembrei-lhes desse curta, e de pronto eles aceitaram a sugestão.
O Kim fez uma edição com trechos de alguns filmes desse teor ("Un Chien Andaluz", de Buñuel & Dali, naturalmente incluso), e haveria de ser um atrativo a mais para o show. Usamos esse fato no release do show e a divulgação foi incrível, fazendo-me lembrar do padrão de trabalhos de divulgação em que participei em bandas anteriores onde atuei, considerando o período pré-internet, com apoio da mídia mainstream tradicional, notadamente a impressa.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/02/1740461-ciro-pessoa-usa-cenas-surrealistas-de-bunel-em-show-gratuito-em-sp.shtml

Acima, o link com matéria na Folha de São Paulo em seu caderno "Ilustrada", no dia do show

Nesses termos, até matéria na Folha de São Paulo conseguimos e com destaque para o fato de que o show teria esse apoio de imagens sensacionais evocando o surrealismo; a psicodelia e o dadaismo. 
Convalescendo ainda e nesse ponto tendo sintomas desagradáveis decorrentes de uma hérnia abdominal decorrente das cirurgias que realizei em 2015, no dia do show, eu não estava muito bem.

                                         Foto : Lara Pap

Mas com apoio dos amigos que não deixaram-me fazer nada e de fato eu não podia nem pensar em fazer esforços desmedidos, até um pouco antes do show estava sentindo-me desconfortável pelo esforço vespertino em ter que dirigir etc e tal. Todavia, deu tudo certo.




                              Fotos : Jani Santana Morales 

Muitos amigos prestigiaram o evento e a casa lotou. Nem todo mundo ali estava pelo show, a casa tinha seu público habitue e baseado na jovem burguesia paulistana, é bem verdade. O "Bacalhau" apareceu bem antes do show começar, com sua namorada, e emendamos uma animada conversa sobre vários assuntos, incluso a minha exótica contribuição vocal na gravação de uma música de sua ex-banda, "Little Quail and the Mad Birds", em 1993, por conta da gravação do LP coletânea, "A Vez do Brasil" da gravadora Eldorado, onde também participei com minha então banda, Pitbulls on Crack. Essa história está contada em detalhes no capítulo do Pitbulls on Crack, no ponto em que analiso os fatos decorrentes dessa cronologia citada.  

Bacalhau tocando bateria e Carlinhos na frente fazendo backing vocals com o Ciro. Foto : Jani Santana Morales

Tanto ele, quanto sua namorada foram extremamente simpáticos, e eu apreciei conversar com ambos naqueles momentos pré-show.
Mas havia muita gente atraída pelo trabalho do Ciro & Nudes, sim, e foi um belo show, com muita energia e uma performance muito inspirada da parte do Ciro, que usou e abusou da loucura em seus trejeitos e improvisos.



                                      Fotos : Kico Stone 

Apesar das dificuldades em tocar com um P.A, inadequado para o tamanho da casa, e ainda por cima só possível graças aos esforços do Kim Kehl, que foram extraordinários em providenciar levar backline e seu P.A. para suprir o show, visto que a casa não apresentava equipamento algum. Pelo fato de ter saído matéria grande na Folha do São Paulo, muitos fotógrafos e filmmakers apareceram e cheguei a surpreender-me pela quantidade de gente fotografando e filmando, mais usual em shows realizados em teatros, e não em casas noturnas.

 
"Biscoitos e Mariposas" com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada no Delirium café em 18 de fevereiro de 2016. Filmagem de Lara Pap



Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=JS223cizVoA

"As Formigas estão vendo tudo", com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada em 18 de fevereiro de 2016, no Delirium Café. Filmagem de Kico Stone.

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=COHdYt74l-c 

Muitas propostas para shows; aparições na TV; entrevistas e outras ações, incluso a gravação de um novo álbum, ocorreram dali em diante, animando-nos sobre as perspectivas que o trabalho poderia alcançar doravante. Fechados como um quarteto, éramos Athos; Porthos; Aramis & D'Artagnan doravante, embora a possibilidade de incorporar um tecladista entrasse na lista de medidas futuras. 

"Vertigem & Colapso" com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada no Delirium Café, em 18 de fevereiro de 2016, Filmagem de Kico Stone

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Q6miM3rZNgE

Dali, até abril de 2016, infelizmente não tivemos mais atividades. Portanto, chego neste ponto da minha história com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada, onde alcancei a absoluta sincronia com o tempo limite dessa biografia, na conta dos quarenta anos iniciais da minha carreira artística. Dessa maneira, dou por encerrado parcialmente o meu relato sobre minha trajetória com este trabalho, deixando a ressalva óbvia de que trata-se de uma história viva, e em plena construção.  

                                      Foto : Kico Stone
 
Portanto, deixarei acumular os fatos doravante, para dar chance ao tempo, estabelecendo assim a devida observação do distanciamento histórico a evitar escrever precipitadamente e mudar o teor dos fatos, perdendo o poder da análise, que só o tempo pode dar-me.

Por enquanto, está encerrada esta parte da minha autobiografia com Ciro Pessoa & Nu Descendo a Escada. Daqui em diante, fique com a história da Magnólia Blues Band.

Aguarde novos capítulos dos "Nudes" para o futuro. Grato por ler esta parte da minha trajetória na música, amigo leitor !

 
Até logo !

Nenhum comentário:

Postar um comentário