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quinta-feira, 7 de julho de 2016

1972, Eu Quero uma Casa no Campo... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues


1972 chegou, e a explosão musical era total.

Mesmo sendo apenas um pré-adolescente com pouco menos de 11 anos e meio, vivendo ainda sob a ambientação familiar prosaica, recebendo signos antagônicos como valores, incluindo-se aí a carga escolar formal e com o devido azar de viver tempos sombrios de ditadura no país e inerente mão pesada da doutrinação direitista a enxergar escola como quartel, e mesmo assim, com tanta força contrária, ainda que não quisesse sofrer a carga contracultural do desbunde, isso seria impossível, eu acredito.  
Não tenho material pessoal de 1972, como gostaria. Essa é uma rara foto com minha presença, Luiz Domingues, desse ano, e não tem muita qualidade, lastimo. Acervo familiar.
  
E muito pelo contrário, eu já estava pendendo voluntária e prazerosamente para esse lado, desde 1968, ainda que em passo paulatino, sob discrição inerente de um reles molequinho que era, sem autonomia alguma. Logo no início do ano, além da mudança de patamar escolar, que daria entrada para a minha adolescência que chegava, ao ingressar no "curso ginasial", tive uma notícia nada agradável vinda do meu pai, que vislumbrara uma oportunidade de vida e perguntou à família se aceitaríamos mudarmo-nos para uma cidade do interior.

                            São Paulo, em foto mais atual

Além do trauma de ter que enfrentar uma nova mudança de escola, coisa que eu abominava, a perspectiva de sair de São Paulo, que eu adoro com todas as minhas forças, causou-me calafrios. Nada contra as cidades interioranas e no caso, a ideia era mudarmo-nos para Ribeirão Preto, terra natal da minha mãe e onde meus avós maternos moraram várias vezes e entre idas e vindas, estavam lá novamente desde 1969. Eu gostava bastante da cidade, onde tinha também tios e primos queridos, e desde 1966, frequentava-a com certa regularidade para visitas em feriados prolongados e até períodos mais extensos de férias.

A ideia de ficar mais próximo desses familiares queridos, agradava-me, mas analisando friamente, sair de São Paulo era uma tragédia pessoal, ultra paulistano que sou. Todavia, com a idade que tinha, a pergunta do meu pai era meramente formal, pois na realidade, ele já estava decidido, empolgado com a perspectiva de abrir um negócio naquela cidade, e com as condições gerais bem mais em conta de que na capital, de fato, só dava para imaginar aventurar-se assim, numa cidade interiorana onde o custo de vida era mais barato.
Ribeirão Preto em foto do final dos anos sessenta. Acervo de Francisco Amêndola.
 
Mudamo-nos ao final de janeiro de 1972, para Ribeirão Preto e essa aventura interiorana duraria um pouco menos de um ano praticamente, pois já em 1973, estaríamos de volta em São Paulo, ainda bem, e sem nenhum demérito para o interior, apenas uma constatação de um paulistano fanático pela sua cidade. E mesmo vivendo esse ano lá no interior, nunca perdi o contato, tendo vindo várias vezes para a capital, para visitar familiares e passei as férias de julho, quase toda na Pauliceia.  

Certamente que hoje em dia com internet, telefonia móvel e TV a cabo, não há desfasagem alguma. Mas naquela época, ainda havia entre São Paulo e cidades interioranas, mesmo para uma de grande porte como Ribeirão Preto, que já era grande e rica naquela época.

Não tenho dúvida de que se a vida tivesse transcorrido normalmente vivendo em São Paulo, eu teria impactado-me ainda mais com a carga contracultural que 1972 ofereceu. Todavia, apesar desse aspecto, absorvi muita coisa, mesmo vivendo no interior nesse ano. 

 Destaco dois aspectos interessantes naquela cidade, sob esse ponto de vista : 
1) Por ser uma cidade universitária, inclusive com campus avançado da Medicina da USP ali instalado, a cidade atraia um enorme contingente de estudantes de cidades interioranas menores, inclusive de outros estados, com mineiros em predominância, mas muitos sul-matogrossenses, goianos e paranaenses, também. E por ter muitas pensões e repúblicas de estudantes, havia uma atmosfera jovem e em meio a todo tipo de gente, muitos desses estudantes eram freaks ou simpatizantes da causa.
2) Pelo seu porte que já era avantajado, sendo inclusive sede regional no âmbito estadual, Ribeirão Preto mantinha uma certa frequência de passagem de artistas importantes por lá, em turnê, visitando principalmente o seu famoso Teatro de Arena, caso dos Mutantes, que lá tocaram inúmeras vezes.  

Foto do Teatro de Arena de Ribeirão Preto, que foi fundado em 1969. Como dá para ver, ele fica ao ar livre num bosque público de uma área mais alta da cidade, chamada "Cava do Bosque" e foi construído nos moldes das antigas arenas gregas e romanas.

Então, por esses dois aspectos, eu não estava tão isolado assim e pior seria ter ido morar numa cidade de pequeno porte, onde o meu prejuízo sob o aspecto cultural teria sido enorme e com a agravante que hoje eu sei que essa aventura interiorana durou menos de um ano, mas na cabeça do meu pai, era para nós termos ficado para sempre, visto que é óbvio que ele queria que o seu negócio tivesse dado certo, trazendo prosperidade para a família. E a defasagem que insinuei parágrafos atrás, era pelo fato de que a TV era transmitida com lapsos ainda nessa época, portanto, nem tudo o que passava era simultâneo como acontece nos dias atuais. A grade da TV tinha alguma coisa nesse sentido, mas ainda muitos programas exibidos posteriormente em relação à capital. As emissoras de rádio locais eram bem devagar e a mídia impressa, mais parecia com a de jornais de bairro de São Paulo. Claro, os jornais de grande porte da capital estavam disponíveis nas bancas bem cedinho, meno male.  

A telefonia estava começando a melhorar, pois até bem pouco tempo antes, para ligar interurbano para a capital, era necessário pedir linha para a telefonista. Mudamo-nos para uma casa situada num conjunto habitacional que estava sendo recém ocupado por famílias. Naquela época, era um bairro longínquo, deserto e construído numa imensa área que devia ser rural anteriormente. As casas eram simples, mas bem feitas. Havia uma infraestrutura que a prefeitura havia pensado para suprir as necessidades básicas desse novo bairro, mas haviam pendências.  
Uma foto bem mais atual de um termômetro de rua em Ribeirão Preto, com uma temperatura de verão que é dura de suportar-se...

Se por um lado as ruas eram largas, bem asfaltados e com iluminação pública providenciada, por outro, a falta do plantio de árvores transformou esse bairro, ao menos nesses seus primeiros anos de vida, numa verdadeira estufa, visto que o calor habitual da cidade, com temperatura média entre 35 e 40 graus Celsius o ano inteiro praticamente, com o advento das casas mais o asfalto e sem árvores para refrescar minimamente que fosse... E sem carro, com aquele calor absurdo, as pessoas que precisavam ir ao centro da cidade para trabalhar ou fazer compras, sofriam, pois só havia uma condução, uma linha urbana que fazia o trajeto entre esse bairro, o Jardim Independência e a Praça XV de Novembro, no centro da cidade e não havia uma frota muito grande, portanto, quando perdia-se o ônibus, era amargar no ponto e sem cobertura, por pelo menos 40 minutos sob o sol do "Saara", para esperar pelo próximo.
Foto bem mais atual da escola onde estudei em Ribeirão Preto, cumprindo a 5ª série. Na minha época, não tinha essa vegetação toda e certamente que agora ajuda a refrescar o prédio nos picos de calor, típicos da cidade.
 
Fui matriculado numa escola estadual que era recém construída para atender a demanda desse bairro novo que construiram. Chamava-se "E.E. Cid de Oliveira Leite".
Foi um ano escolar que cumpri ligado no piloto automático, eu diria. Além da minha tradicional timidez e dificuldade de socializar-me, parecia que algo instintivamente dizia-me que ali não ficaria e que voltaria para São Paulo. Claro que não era intenção dos meus pais e nem de longe que eu torceria para as coisas não darem certo no negócio que meu pai estava montando, só para satisfazer minha vontade egoísta. E pelo contrário, apesar de nunca querer ter ido morar lá, havia o lado bom de ter mais convívio com meus avós maternos e eu apreciava bastante ter a companhia de tios e primos, também.

Meu tio, irmão da minha mãe, já era instrutor de Raja Yoga há muitos anos e mantinha um "Ashram" na cidade. Nesse ano de 1972, hospedou na sua residência alguns instrutores vindos da Índia, e que proferiram palestras. Foi bacana portanto, estar ali em 1972, e ter tido esse prazer de vivenciar isso, familiarizado que eu já estava ficando com a cultura oriental, já gostando há tempos da cítara de Ravi Shankar, devidamente apresentado pelo George Harrison.

Na escola, apesar de não ter fixado raiz alguma ali, tenho algumas lembranças. Primeiro pelo horário alternativo das aulas, que numa determinação maluca, começavam às 15 Horas, estendo-se até às 19:00 H. O lado bom é que com isso amenizava-se o calor. Até as cinco da tarde era um sufoco, mas depois na parte final do período, a chegada da noite deixava o clima mais ameno um pouco.
Outro aspecto, foi que sofri um bullying "de leve", digamos, pois apelidaram-me de "paulista", quando correu a notícia de que eu era de São Paulo. E de nada adiantava argumentar que todos ali eram "paulistas" também, e que a diferença era que eu igualmente era paulistano, enquanto eles, ribeirãopretanos. Essa sutileza de condição gentílica entre estado e município não entra na cabeça da maioria das pessoas, infelizmente. Outro aspecto positivo do interior, era que principalmente naquele bairro distante, a liberdade da criançada e adolescentes para ficar na rua, era total. Portanto, se em 1971 eu havia esforçado-me bastante para dominar os fundamentos da bola, dando muito chute na parede de casa, agora com essa liberdade interiorana, jogava bola na rua quase todo dia e assim, desenvolvi outros aspectos do futebol, além do controle da bola. Melhorei muito o meu desempenho, desenvolvendo visão de jogo, repertório de dribles e ali percebi que nunca seria um velocista pela minha pouca arrancada e tampouco centroavante pela baixa estatura, mas meu negócio seria o meio de campo, com o prazer que descobri em armar jogadas e passar a bola com precisão para a conclusão de outros jogadores.  

Já que falo de futebol, 1972 foi o ano que a ditadura militar quis explorar ao máximo a efeméride do sesquicentenário da independência do Brasil e assim, organizou um torneio em ritmo de Copa do Mundo, a "Taça Independência", chamado informalmente de "Mini Copa". Acompanhei com interesse tal torneio que era na verdade bem esvaziado, com a desistência de várias nações que não quiseram participar e de fato, era apenas um torneio amistoso sem importância. E o Brasil foi campeão, vencendo Portugal na final realizada no Maracanã, com um gol de Jairzinho, aos 44 minutos do segundo tempo...

Fotos meramente ilustrativas de como eram os cartões de apostas e os comprovantes cedidos pela Caixa Econômica, nos primórdios da Loteria Esportiva, e no caso, achei esses dois exemplos do ano de 1972, mas com jogos do campeonato brasileiro e não da Mini Copa que estou citando.

Elaborei até um jogo de loteria onde meu pai e alguns parentes de minha mãe participaram num "bolão", e naquela época, a Loteria Esportiva era a "bola da vez" que movimentava todo o Brasil. 

Lembro-me que nesse teste onde quase todos os jogos eram desse torneio, conseguimos acertar 12 pontos e só uma partida foi marcada para o domingo a noite. Com 12 pontos já assegurados e só faltando o resultado de Iugoslávia x Bolívia, os adultos já comemoravam a vitória, mas quando acabou o jogo, num surpreendente 2 x 2, a frustração foi total e ainda tive que ouvir críticas, pois confiaram num "moleque" que dizia ser impossível a Iugoslávia não vencer aquele jogo, mas... o futebol é assim mesmo...

E nem preciso discorrer muito sobre o que 1972 representou para um jovem palmeirense como eu era nesse ano. Uma máquina de jogar bonito e campeão de tudo o que disputou. Antes mesmo de mudar-me para o interior, em 9 de janeiro de 1972, conheci finalmente o Estádio Palestra Itália, em São Paulo, como ele era na época, e na verdade, desde a reforma de 1964, com o campo elevado, daí ser chamado de "jardim suspenso" pelos locutores esportivos. Foi numa tarde de sábado, era um amistoso, primeiro jogo do ano, mas a chamada 'Academia II" deu uma amostra do que seria nos anos setenta, com uma exibição de gala, vencendo o Santos com um sonoro 4 x 0, e ainda tive a visão bem perto de onde estava, na curva do antigo gol do placar, ao ver Pelé simular um pênalti ridículo e ser advertido com um cartão amarelo, para delírio da torcida verde, que agraciou-o com impropérios típicos de estádios. Mas quando os campeonatos começaram para valer, acompanhei tudo pelo radinho; TV; jornais e revista Placar, mas numa das escapadas que fiz para visitar São Paulo, acabei assistindo uma das finais, no caso do Torneio "Governador do Estado", também conhecido como "Torneio Laudo Natel", referindo-se ao governador de São Paulo na época, não eleito pelo povo, mas imposto pela ditadura militar em voga na época.
Foto do dia dessa final que cito, não jogou o César "Maluco", e sim, Fedato, hoje saudoso, infelizmente. 

Assisti a final desse torneio no Pacaembu, no dia bissexto de 29 de fevereiro de 1972, com o resultado de Palmeiras 3 x 1 Portuguesa, fora a sinfonia da orquestra conduzida por Ademir da Guia & Cia.  

Campeão Paulista e Brasileiro, mais o Torneio Governador do Estado e Torneio Mar del Plata, na Argentina, fez com que eu e todo palmeirense que viveu essa década decorasse para sempre, a escalação base desse time : Leão; Eurico; Luis Pereira; Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu; Leivinha; César "Maluco" e Nei. Entre os reservas, muitos que jogaram sazonalmente, mas destaco Fedato, que era um talismã da torcida e fez gols decisivos muitas vezes, além de Ronaldo, um jogador muito eficiente e que era primo do Tostão, além do argentino Madurga, que tiveram importância muito grande, sendo titulares algumas vezes.


Resumindo, que época boa para ser um recém ingresso na adolescência, acompanhando futebol e sendo palmeirense fanático...

Mudando de assunto, ir morar no interior não era algo que eu gostaria de fazer se dependesse de minha vontade, mas não nego, o convívio com meus primos que lá moravam foi um aspecto muito bom, fora o prazer de ter um contato mais regular com meu tio Sérgio que era / é um estudioso de filosofia e espiritualidade, portanto, foi importante poder absorver mais sua cultura que já era muito grande nessa época. Mesmo caso do convívio com meu avô materno e melhor ainda, com ele disponibilizando-me sua imensa biblioteca particular, que era incrível. 

Li muita literatura clássica nacional e internacional ali em velhos tomos que ele tinha há décadas, em suas estantes. De Julio Verne a Machado de Assis; Monteiro Lobato; Homero e Vitor Hugo... tudo junto e misturado...
Meu avô tinha muitos livros de história e política também. E ali era um prato cheio para alargar meus conhecimentos em assuntos que apreciava desde muito pequeno. Guardo com orgulho um dicionário com o qual ele presenteou-me, tratando-se de uma edição dos anos quarenta do século passado, que obviamente está ultrapassado, mas do qual jamais desfarei-me enquanto viver, pela carinhosa e valiosa dedicatória que ali deixou-me de punho.  

Sobre a carga cultural de 1972, claro que não recebi-a como gostaria, vendo hoje com a maturidade que tenho e sobretudo pela visão cultural macro da história. Fosse um pouquinho mais velho apenas e morando em São Paulo, teria absorvido o impacto no meio do peito, mas tudo bem, foi como aconteceu e mesmo diluída e tardiamente, anos depois eu pude entender e absorver tudo o que o ano de 1972 pode oferecer e foi muita coisa, naturalmente.
Tudo o que eu já vinha recebendo da contracultura, desde 1965, 1966 e muito mais atentamente a partir de 1968, foi intensificando-se conforme já relatei em capítulos anteriores e claro, com meu crescimento, entrando na adolescência e tendo mais discernimento, cultura acumulada e instrução escolar mais avantajada, a tendência era absorver ainda mais, e foi o que ocorreu.

Logo de início, já vivendo esse período sabático no interior, descobri o Jethro Tull, e foi pela via mais improvável possível. Como é sabido, a Igreja Católica lança a sua Campanha da Fraternidade todo ano, na quarta-feira de cinzas, e nesse ano, a propaganda que usaram no rádio e TV, tinha como trilha um trecho do disco "Thick as a Brick", recém lançado. Aquele trecho de uma música única, conceitual e suíte a moda de peças da música erudita, enlouqueceu-me. O glissando do baixo abrindo caminho para o solo ultra melodioso da flauta, e permeado por uma base magnífica de teclados, guitarra e bateria... claro que eu não tinha esse conhecimento musical avantajado para analisar dessa forma naquela época, mas mesmo sem saber nada de música, tudo aquilo soava-me lindo. Desde 1970, através da TV, também, adorava trechos da música "Summer' 68" do Pink Floyd, que soava-me incrivelmente bela. Dali para começar a procurar informações sobre a banda e passar a acompanhá-la, foi um pulo.

Escrevi uma matéria falando sobre as trilhas de jornalismo da TV Globo nos anos setenta, que utilizaram obras oriundas de bandas de Rock famosas. Cito essa canção do Pink Floyd. Eis o link abaixo que direciona à matéria publicada em meu Blog 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2016/05/jornalismo-da-rede-globo-ja-foi.html 

Vizinha da nossa casa, havia uma família com três filhos adolescentes, mais velhos e que gostavam de Rock. Dali soava T.Rex; Slade; Neil Young; America; Creedence Clearwater Revival; Pink Floyd e muitos outros artistas. No rádio, não estava mais podendo ouvir a Excelsior, mas mesmo as emissoras interioranas sendo bem mais devagar na difusão musical de qualidade nessa época, claro que muitas coisas interessantes tocaram. "Águas de Março" com Elis Regina / Tom Jobim não era exatamente algo contracultural, mas tocou bastante e eu apreciei aquela quebradeira rítmica e letra com um jogo de palavras bem interessante.

Gostei muito do som de Sérgio Sampaio que explodiu em 1972, com "Quero Botar meu Bloco na Rua", que ali eu já percebia, posso dizer, havia um deboche contra o sistema, bastante acentuado. E claro, tornei-me seu fã doravante. Mas creio que o grande desbunde que eu tive nesse ano, foi com "Casa no Campo", que além de ser um blues lindíssimo e com a interpretação da Elis Regina que nada devia a qualquer Diva do Blues americano (ouso dizer que era como se Etta James estivesse cantando em português), tinha um componente a mais e que é muito significativo : a letra.
Ouça acima a canção "Casa no Campo", na interpretação de Elis Regina, para um especial gravado na Alemanha.
 
Entra tantas coisas magistrais que Zé Rodrix e Tavito compuseram nas suas carreiras, essa canção e essa letra em específico, sintetiza muito o que foi o espírito hippie, que chegava com atraso no Brasil, essa é que é a verdade, e numa época péssima sob o ponto de vista sociopolítico, com uma ditadura de direita dura, antagônica aos ideais de liberdade, em todos os sentidos.

A ideia de morar numa casa no campo, só tendo discos e livros como companhia, numa vida frugal, tranquila, sob paz e amor, com o exercício de ideais fraternais, era a suprema descrição do desbunde hippie. Ou seja, ao contrário de outros movimentos que mostram-se raivosos ao sistema, o ideal hippie não visava destrui-lo, mas simplesmente ignorá-lo, por mais utópico que isso fosse. E um elemento particular na minha visão, e não era o caso, pois eu era só um recém ingresso na adolescência, e não havia tornado-me um hippie sobrevivendo de artesanato nas ruas, e tampouco Ribeirão Preto era uma cidadezinha remota, pelo contrário, já era uma cidade bem urbanizada, com infra estrutura e portanto, eu não estava morando numa casa de sítio, mas dentro de uma urbanidade normal, contudo, "Casa no Campo" associava-me também à ideia de não estar mais morando na cidade grande e vivendo uma realidade diferente, interiorana.

Posso acrescentar que Milton Nascimento, que eu já conhecia por vê-lo em festivais de MPB anos antes, entrou mais decisivamente na minha vida, trazendo junto a si, aqueles seus amigos freaks cabeludos, e todos sensacionais. O "Clube da Esquina" chegou forte e não saiu mais da minha audição, certamente.

Na TV, apreciei muito uma safra de seriados americanos policiais que via na antiga TV Tupi. "Columbo" era o meu predileto, com aquele personagem título sendo interpretado magistralmente pelo ator, Peter Falk. Tal seriado tinha um mote previsível, do crime quase perfeito que era desvendado ao final pela inteligência fora do comum do detetive Columbo, graças a um detalhe imperceptível para o espectador, mesmo os mais atentos. Portanto, graças a genialidade dos roteiros bem engendrados, eu (e muita gente), assistia com atenção até o fim cada episódio, mesmo sendo um desfecho esperado. A clássica pergunta que ele fazia aos criminosos no finzinho do episódio e que sempre irritava-os, não sai da minha cabeça : -"Posso fazer só mais uma perguntinha, por favor" ? ("Just one more thing"...). Era ali que ele pegava os safados na contradição. Genial !!

Gostava também de "McLoud", um detetive caipira que foi trabalhar em Nova York, com chapelão de cowboy sulista e muitas vezes andando a cavalo em meio ao trânsito caótico e mega urbano da metrópole. E também do casal "McMillan" (McMillan & Wife), com o galã do cinema, Rock Hudson ainda bem escondido no armário e arrancando suspiros das mulheres, sem saberem que ele não era muito chegado no gênero feminino... mas tudo bem, pois Susan Saint James valia muito a pena para quem pensava o contrário...

Gostava também de "The Rookies", mas confesso, nunca fui fã de "The Waltons", apesar desse seriado ter caído nas graças de quase todo mundo. Não pelo fato de ser extremamente adocicado, pois gosto de outros seriados com tal característica, mas simplesmente por não ter cativado-me, assim como "The Brady Bunch", que achava bem bobo, muito mais que a "A Família Dó-Ré-Mi" ("The Partridge Family"), que eu aturava numa boa.
O casal Ayrton e Lolita Rodrigues, apresentadores do programa "Clube dos Artistas" e que também tinham outro clássico Kitsch na TV Tupi aos sábados, chamado "Almoço com as Estrelas", onde artistas almoçavam e eram entrevistados numa grande mesa, entremeados por números musicais e onde quem frequentou-o sabe bem que por conta dos holofotes do estúdio, a maionese azedava rapidamente e o guaraná ficava morno...

Cafonália máxima, o programa "Clube dos Artistas" na TV Tupi, era de uma boçalidade indecente, eu diria. Mas mesmo em meio àquele clima de clube suburbano decadente, com pessoas mal trajadas (mas pensando estarem bem "arrumadas"), sentadas em mesinhas, fingindo estar num salão de festas, assistindo entrevistas insípidas com subpersonalidades da TV; artistas bregas dublando seus sucessos radiofônicos, e eventualmente socialites deslumbrados por acharem-se "famosos", vez por outra alguma figura destoante daquela atmosfera Kitsch aparecia. O normal eram cantores de boleros, música dita "romântica" ou artistas decadentes da velha guarda da MPB ou mesmo da já envelhecida e brega Jovem Guarda baterem o ponto ali, mas de vez em quando um lampejo de vida inteligente aparecia, como atores de novelas da casa, mas com carreiras super dignas no teatro, divulgando suas peças e artistas musicais de outro patamar artístico, apresentando-se, casos de Ivan Lins; Sérgio Sampaio e Raul Seixas, que ali vi e que lógico, causavam estranheza dos apresentadores, que tentavam ser respeitosos, mas sempre soltavam uma piada descabida, principalmente no caso de artistas com visual de Rockers, cabeludos e que destoavam completamente dos artistas que normalmente ali apresentavam-se, trajados de smoking, à moda antiga, bem antiga, por sinal.

Um ciclo de filmes do diretor Alfred Hitchcock que a TV Tupi exibiu nesse ano, foi sensacional. Bem mesclado, apresentou um pouco da sua filmografia de cada década de sua atuação, dos anos vinte aos sessenta. Hitchcock estava idoso nessa época, e seu mais recente filme havia sido lançado em 1971, mas ainda realizaria mais um, o seu derradeiro, em 1974. Foram noites de arrepiar, assistindo na tela PB de um velho aparelho sessentista. E teve um ciclo, na mesma TV Tupi, com os filmes dos Beatles, que claro, foi genial.

No cinema, apesar da cidade ser bem servida de salas de rua, não fui muito frequentador nesse ano. Lembro-me de ter visto num daqueles cinemas da praça XV de Novembro, um documentário do Elvis, cobrindo bastidores da sua turnê de 1970, chamado : "That's the Way It Is". Assim como o filme dos Beatles, "Let It Be", que cobria bastidores e ensaios, eu gostei muito e gosto até hoje desse documentário, por mostrar ensaios e apesar de ser meio forçado de certa maneira e não mostrar os bastidores com 100% de autenticidade, aquele clima da vida do artista extra / palco encantou-me. Eu já estava num processo de querer entender mais os meandros da música, portanto, ver o Elvis ensaiando com sua banda, e observando as paradas que faziam para tratar de erros e detalhes de arranjos, achei incrível. 

Outro filme que assisti na cidade, foi o lançamento da produção nacional, "Independência ou Morte", que foi bastante alardeada na época e com apoio total dos militares que queriam mais do que nunca incutir nas crianças e adolescentes, valores cívicos baseados em aspectos monárquicos.

Tratando dos momentos que antecederam o ato da independência, através de Dom Pedro I, trata-se de uma boa produção para o padrão da época, e com elenco recheado de bons atores, a maioria astros globais da ocasião, e muitos veteranos do cinema nacional. O engraçado, é que meu pai arrumou ingressos para a avant-premiere na cidade e portanto, todas as autoridades do município e figuras proeminentes do empresariado local estavam presentes, tornando a sessão, algo pomposo e isso foi muito engraçado.

Voltando a falar de música, o "Bread" com seu pop soft Rock também entrou no espectro da minha percepção, assim como o "The Doobie Brothers", e foi também através da audição "por tabela" dos meus vizinhos que já citei.
Foi desse som "roubado" do outro lado do muro que ouvi pela primeira vez, "Listen to the Music" do Doobie Brothers e fiquei maluco com aquele flanger na guitarra e as harmonias vocais que os rapazes faziam. Foi nessa época também que vi pela primeira vez um exemplar da Revista Rolling Stone brasileira. Mas não tive a oportunidade de segui-la na época, pois o exemplar que vi era bem naquela coisa de ser do "amigo do amigo da minha prima", e no interior a distribuição em bancas deixava a desejar em alguns aspectos.

Escrevi uma matéria falando sobre a Rolling Stone brasileira, no meu Blog 1. Eis abaixo o Link para vê-la :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/07/rolling-stone-brazuca-setentista-por.html  
Ouça acima o LP "Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets", que saiu em 1972.
 
E o novo disco dos Mutantes, estava na crista da onda. Tocava bastante no rádio, músicas como "Balada do Louco"; "Vida de Cachorro" e "Dune Buggy". Vi-os também em vários programas de TV naquele ano e uma vez, soube que viriam à Ribeirão Preto para tocar no Teatro de Arena, mas apesar de ouvir minhas primas mais velhas, que já tinham 16 e 14 anos respectivamente, que tencionavam ir, meu pai nem cogitou deixar-me embarcar nessa aventura aos 12 anos, e ainda mais com todas as opiniões contrárias da parte de adultos e seus preconceitos, falando que aquilo seria um perigo com aquele bando de hippies doidões oferecendo "bolinhas" a esmo para incautos infantojuvenis a fim de "viciar novos adeptos nessa perdição" etc etc. Puxa, perdi a última oportunidade de ver os Mutantes na formação clássica como quinteto, com Rita Lee na banda ainda, e nessa altura, estava por um triz a saída dela da banda.

No meu aniversário de 12 anos, ganhei um gravador portátil, mono, naturalmente. Empolgado, passei a gravar pequenas entrevistas com meu avô, que tinha uma memória mastodôntica ali no alto de seus recém completados 80 anos de vida. Arrependo-me amargamente de não ter guardado com o devido cuidado tal material, pois ali ele falou sobre suas memórias dos acontecimentos gerais que presenciou desde a infância, cobrindo a política e cultura em geral. Tais depoimentos hoje em dia teriam um valor inestimável. Meu avô falou muito das suas lembranças da infância ainda no século XIX; a passagem do Cometa de Halley em 1910; das duas guerras mundiais; do crash da Bolsa de Nova York em 1929, e o quanto isso impactou a economia e como ele era contabilista por profissão, tinha bom conhecimento de economia. 

Meu pai abriu um restaurante na cidade, era esse o negócio que ele arriscou montar. No começo, deu uma sorte danada, pois teve sucesso imediato. Era um restaurante focado no público jovem, tentando atrair a grande carga de estudantes que a cidade tinha, e de fato, pelo jeito em que ele foi montado, isso ocorreu com resposta muito rápida. Participei com ele de seus esforços para divulgar o estabelecimento e posso afirmar, ele tinha uma experiência boa nisso, pelo fato de ter trabalhado várias vezes em comitês de candidatos a cargos políticos, cheguei a citar isso no capítulo sobre 1965, portanto, se o leitor quiser, basta consultar ali.
E assim, encomendou "spots" nas emissoras de rádio; tijolos nos jornais locais; e muitos cartazes e filipetas, além das faixas de rua, uma típica mídia interiorana que sempre funcionou bem. Até chamada na TV local, que era uma afiliada da TV Tupi na época, ele bancou. Lembro-me bem, a filipeta que ele encomendou era toda estilizada como algo "jovem", criada pelo artefinalista da gráfica que ele contratou e que devia ser bem antenado, pois era óbvio que meu pai não dominava nada sobre tal realidade contracultural. O recado era dado por um desenho de um jovem estilizado como "hippie", que falando através de gírias da época, recomendava o restaurante. Parecia o personagem do Chico Anysio, "Lingote", o hippie que estava sempre doidão e que repetia o monossílabo "Só", como sua única forma de comunicação.

Mas no caso dessa filipeta, o personagem fazia um discurso maior, falando uma frase cheia de gírias. Não lembro-me exatamente do teor, mas era algo como : "E aí amizade, qual o grilo ? Não está curtindo o rango que come por aí ? Bicho, você vai achar o maior barato o Restaurante do Estudante"...

Infelizmente, não tenho uma única filipeta guardada e acredite, hoje faz-me muita falta para ilustrar este capítulo, mas paciência...  
Nas paredes do restaurante, meu pai colocou posters com motivação na cultura pop, que comprou mesmo sem entender nada do assunto e nem cogitar perguntar-me o que eu achava, pois não percebia que eu estava envolvendo-me com tudo isso. Simplesmente entrou numa loja de posters em São Paulo e perguntou para a balconista se ela poderia separar-lhe uns trinta posters de coisas que jovens gostavam, e ali, a moça separou um monte de coisas a esmo. Bem, não posso reclamar e daria tudo para reaver aquele material se pudesse hoje em dia, pois tinham vários posters relacionados ao cinema e música sessentista, principalmente.  

Entre tantos, tinha Jane Fonda caracterizada como "Barbarella" (que espetáculo !!); Ursula Andress na sua cena clássica de bikini, do James Bond de 1962 ("Dr No", e convenhamos, outro espetáculo...); Charlton Heston e o casal de macacos cientistas do "Planeta dos Macacos" de 1968; o casal de Romeu e Julieta do Zeffirelli de 1969; Beatles; Stones & Elvis; o astronauta americano pisando na Lua em 1969 etc etc.

Meu pai mandou também colocar caixas de som espalhadas pelos diversos ambientes, visto que era uma residência adaptada para restaurante, comprou uma pick-up e diversos discos, também na mesma prerrogativa dos posters, passando numa loja e pedindo para um balconista separar material de "música jovem". O que ele trouxe foram diversas coletâneas com sucessos radiofônicos do momento e se não fora uma escolha nada criteriosa e eu não tivera nenhuma interferência nesse processo, embora nessa altura já tivesse um pequeno conhecimento do assunto, até que não posso queixar-me, pois embora houvessem algumas coisas não tão boas no meio do
caminho, em se tratando de 1972, até a música pop enlatada tinha uma qualidade máxima, milhas longe do pop da atualidade que é de plástico descartável.
"Rock and Roll Lullaby" tocou bastante no restaurante, ajudando a comida a descer esôfago abaixo...
 
Indo além, misturados aos artistas insípidos do mainstream pop internacional, havia coisa boa. Muito Soft Rock de qualidade embalou o almoço daquela estudantada que frequentou o restaurante, e no embalo, ouvi muito James Taylor, Carly Simon; America; B.J. Thomas; Golden Earring etc etc.
Tudo ia bem, mas meu pai cometeu um erro. Ao ver o restaurante formando filas na rua, ao invés de esperar mais um pouco para ele solidificar-se e ter uma reserva de capital maior para uma possível ampliação, não quis saber dos conselhos de seus sócios, e alugou a casa vizinha, chamou pedreiros, quebrou o muro e montou a ampliação, tendo que gastar mais uma "bala" violenta, aliás muito mais do que gastara antes na primeira investida num imóvel menor, pois a casa vizinha que pertencia à um imigrante chinês, tinha tamanho mais do que o dobro da primeira que o restaurante ocupava e assim, foi uma sangria desatada.

Eram cinco funcionários inicialmente, e com a demanda da ampliação, chegou-se a ter 35 funcionários com carteira assinada.
Os sócios pularam fora e mesmo ainda atraindo bastante clientela, o fôlego inicial não era compatível com as despesas adicionais e a situação foi ficando insustentável. Tal derrocada foi triste para o meu pai que enfrentou uma barra com dívidas, passou muito nervoso, estremeceu a relação familiar com vários parentes da minha mãe, que haviam envolvido-se no projeto inicial, e diante desse quadro, decretou o fim da nossa aventura interiorana no âmbito familiar.  É horrível admitir isso, mas mesmo sabendo que meu pai enfrentou essa barra toda, fora a frustração de ver seu negócio naufragar, tal viés foi uma virada de história importante para a família e para o desenrolar da minha vida, é claro.
Talvez, se o negócio tivesse prosperado, eu estivesse feliz como um possível homem de negócios bem sucedido no interior, apenas mantendo, quiçá ampliando o patrimônio que meu pai criara, e jamais tivesse voltado para São Paulo e envolvido-me diretamente com a música, tendo herdado o restaurante e tudo o mais que ele planejava montar naquela cidade, se o restaurante tivesse consolidado-se. Mas tal fato desagradável para a nossa família e para ele em particular, determinou uma guinada forçada, e em 1973, eu estaria de volta em São Paulo, retomando o curso normal da minha vida e adolescente, pronto para envolver-me cada dia mais com a música, ao ponto de em 1976, dar o primeiro passo concreto para tal. Então, em dezembro de 1972, deixamos a cidade, definitivamente.

                         São Paulo no início dos anos setenta


Em 1973 eu partiria para a sexta série e de volta para São Paulo, apesar de chateado com a fase financeira ruim que adveio à nossa família, por conta do fechamento abrupto do restaurante, mas também por esfriar o contato com avós maternos; tios e primos, estava ainda assim feliz por voltar à minha cidade. E isso selaria, hoje eu sei, a minha oportunidade de abrir um caminho diferente, portanto, pois se nada disso tivesse ocorrido em 1972, muito provavelmente este relato; autobiografia na música e até este Blog não existiriam...

Portanto representou na prática a oportunidade para que em 1973, eu entrasse nos anos setenta, definitivamente...

Let's Rock !
Continua...

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