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domingo, 17 de julho de 2016

1974, Might Just Take Your Life... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e na Adolescência - Por Luiz Domingues

A energia nuclear era a solução para a crise do petróleo que começara no ano anterior, segundo disse Shigeaki Ueki, um nipo descendente que ocuparia o cargo de Ministro das Minas e Energia do governo militar que assumiria em 1974.

Em época de cinema catástrofe, o edifício Joelma, no centro velho de São Paulo, queima de verdade e provoca cenas horripilantes ao vivo e em cores pela TV. 

Zé do Caixão faz propaganda na fila das pessoas que querem ver "O Exorcista"em cinemas paulistanos, e aos berros, tenta convencê-las que aquele "Diabo" americano de tal filme era "fajuto" e o "seu", 100% nacional, do recém lançado filme "Exorcismo Negro", era muito mais assustador...

O clamor na imprensa esportiva e por parte do povo era um só : -"Pelé, volte para a seleção na Copa da Alemanha".

"Watergate" seria a bola da vez nos notíciários internacionais, mas a Revolução dos Cravos, libertando Portugal da ditadura Salazarista, também tornaria-se destaque. 

Metrô de São Paulo inaugura finalmente a sua primeira linha...

Bem, eu poderia arrolar muito mais dados sobre 1974, para iniciar este capítulo, mas creio ser suficiente para dar um panorama prévio, ainda mais em se considerando que claro que falarei de muito mais coisas no seu decorrer.

Indo para o meu mundinho...

Carteirinha escolar de Luiz Domingues em 1974, aluno da Sétima Série, antigo terceiro ano ginasial.

Sétima série; penugem no rosto já insinuando-se como barba e bigode; e cada dia desse ano que começava, com mais artistas sendo descobertos, através dos discos; ondas radiofônicas & TV; jornais & revistas, além das fitas K7, o melhor aliado dos Rockers tupiniquins na década de setenta, principalmente os "duros", onde eu me incluía...

Mas também havia um elemento novo nessa equação : daí em diante, fora tudo o que citei anteriormente, havia também o apoio de meus primos mais velhos e consequente contato com os amigos deles, e todo mundo acompanhando junto, criando uma rede de compartilhamento de informações e materiais, e nessa época nossa arma de solidariedade eram as providenciais fitas K7...

Acrescento mais um dado positivo nisso tudo : em 1974, eu encontraria mais apoio em colegas de escola. Os freaks da escola agrupavam-se, e isso só fortalecia tudo para mim.

Mais dados...

Logo que 1974 chegou, os boatos tornaram-se realidade : Alice Cooper havia confirmado shows no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, incluindo tais datas na tour do novo disco, recém lançado, "Muscle of Love". 
Aquilo era tão inacreditável numa época onde o Brasil era completamente fora do esquadro dos grandes shows internacionais, e sendo assim, tal novidade deixou-nos boquiabertos.
Comitiva de Alice Cooper chegando em vários carros comuns, e atraindo a a atenção de populares nas ruas do centro velho de São Paulo, rumando para o Hotel. Foto do arquivo do jornal O Estado de São Paulo
 
Do anúncio da confirmação, em janeiro mais ou menos, até março, quando vimos fotos de Tia Alice e sua banda andando pelas  imediações da avenida Ipiranga, hospedados no Hilton Hotel onde ficaram, foi uma contagem regressiva e muito estimulante para Rockers tupiniquins, absolutamente carentes e alheios às grandes estrelas do Rock internacional.

Sei que houveram sazonais exceções antes (Ray Charles; Steve Wonder; Santana; Ravi Shankar e Herman's Hermits haviam vindo aqui para shows entre 1963 e 1972), mas foram poucos artistas e não sinalizando jamais que o Brasil entraria na rota dos shows internacionais, coisa que só aconteceria muitos anos depois, nos anos oitenta, e aí já vivendo uma fase no Rock onde nem de longe poderia comparar-se à magnitude dos artistas das décadas de sessenta e setenta. Portanto, a verdade é uma só : no auge dos anos de ouro do Rock, estávamos alijados de acompanhar de perto os seus mais geniais artistas. 

Eu acabei não indo assistir Alice Cooper, infelizmente, e não tenho vergonha de dizer que meu pai vetou minha ida. Com treze anos e oito meses de idade em março de 1974, e em se considerando que era uma outra época, com toda aquela pressão social anti-Rock / anti-contracultura / anti-cabeludos e os inevitáveis boatos dando conta da "perdição" das drogas etc etc, era natural que houvesse resistência paterna para deixar-me ir numa "baderna" dessas. Um primo meu mais velho foi e hoje em dia tenho muitos amigos que foram e tem ótimas histórias pessoais sobre esses dois shows em São Paulo.
Dados extraoficiais contabilizam cerca de 100 mil pessoas no show do Parque de Exposições do Anhembi. Acho o número exagerado, mas que foi um número gigantesco, não tenho dúvida. E foi histórico o tumulto, com Alice Cooper e banda saindo do palco num dado instante, assustados com a multidão sendo esmagada e interpretando isso como tentativa das pessoas em chegar até eles etc etc
 
E claro, ditadura pegando fogo e sempre pairava a possibilidade de batidas monstruosas com prisões em massa, afinal de contas, cabeludos e ditadores que queriam uma juventude obediente, fazendo ordem unida no pátio das escolas, não combinavam exatamente.

Mas quando o show aconteceu enfim, teve barulho na mídia e claro, a imprensa "careta" desceu a lenha em Alice Cooper, com seu show cheio de teatralizações com morbidez etc.

Um especial na TV, gravado e exibido pela Rede Globo dias depois, foi um desbunde para os Rockers, mas prato cheio para o público avesso ao Rock, que arvorou-se de paladino da moralidade, a vilipendiar as guilhotinas, e demais posturas cênicas de Tia Alice & banda, fora as reclamações de sempre sobre a estridência das guitarras e visual, com os cabelos longos sempre incomodando os "bons cristãos", aliás em contradição sempre, por serem seguidores de um cabeludo que foi um contumaz pacifista...

Uma matéria sensacional, escrita pelo jornalista Bento Araújo, para a sua revista Poeira Zine, retratou com muitos detalhes esses shows de Alice Cooper no Brasil em 1974, e contando com o acervo de fotos de uma das apresentações de São Paulo, no Teatro do Anhembi (o outro foi no complexo de exposições do próprio Anhembi, com quase 100 mil pessoas presentes), da fotógrafa Grace Lagôa, minha amiga e esposa do Xando Zupo, guitarrista como qual trabalhei no Pedra, uma das bandas por onde atuei. 

Dois meses depois da vinda do Alice Cooper ao Brasil, uma teatralização grotesca, mas bem intencionada, foi feita por parte de alguns freaks da minha escola, no velho teatro que havia no pátio. 

Eu não conhecia-os, deviam ser de outro período. De fato, aquela instalação onde funcionava o teatro da escola, estava sendo pouco usada e subitamente cartazes surgiram pelos corredores, anunciando a performance. Uma encenação ridícula, com cinco cabeludos fingindo tocar e cantar (numa espécie de pré-Karaokê setentista), fizeram uma imitação grotesca do Alice Cooper & banda, mas foi divertido assim mesmo e muito melhor que aturar as aulas maçantes de ciências da Dona Sônia, ou geografia com a Dona Carlota, foi ver essa performance constrangedora, mas com pelo menos o som de "Dead Babies" rolando alto na escola e uma boneca velha que o sujeito que imitou Alice Cooper deve ter roubado da irmãzinha, sendo degolada...ha ha ha !!  

Outro fator que foi assombroso nesse início de 1974, foi a estreia do programa "Sábado Som", na Rede Globo de Televisão. Estupefatos, na segunda-feira posterior à exibição do primeiro programa, num sábado de abril desse ano, a conversa entre os rockers da escola era uma só : -"Você viu o Pink Floyd tocando nas ruínas de Pompeia" ?
Absolutamente incrível, não era algo novo, mas um documentário filmado em 1971, nesse impressionante cenário da antiguidade romana, mas para nós, era inédito, e foi um desbunde sem tamanho.

Ver o Floyd executando "Echoes" em meio àquele cenário, sem público, só tocando ao ar livre no meio das ruínas... Roger Waters parecendo um sacerdote de "Júpiter", batendo com ênfase naquele gongo sob o por do sol, enfim, lá estava eu de queixo caído na frente da TV, que já era colorida e realçou a magia, portanto.

Mais promissora que essa exibição do especial do Pink Floyd na íntegra, foi a certeza que o programa chegara para ficar, sendo uma atração definitiva na grade da emissora, pelo menos durante alguns meses e dali em diante, abril de 1974, até meados de 1975, grudei meus olhos nessa atração televisiva, Rocker.

Bandas como o Focus, cuja performance de sua música emblemática, "Hocus Pocus" num tape gravado de 1973, assombrou-nos; Poco; Faces; The Allman Brothers Band; Bad Company; Edgar Winter Band; Utopia; Uriah Heep; New York Dolls e tantas e tantas outras atrações de alto padrão...

Foi através desse programa que descobri o Jazz-Rock. O desbunde absoluto de ver a Mahavishnu Orquestra foi demais para um Rocker de 14 anos de idade. Era diferente do Prog Rock, pelo fato dos seus músicos terem formação jazzistica ao invés da erudita da outra vertente, mas um ponto havia em comum : a absurda excelência musical, com músicos virtuoses e melhor ainda, usando a sua técnica avassaladora a serviço da música e não o contrário.
No final de 1974, tapes dos shows do Deep Purple; Black Sabbath; Emerson; Lake & Palmer e Earth; Wind & Fire foram anunciados na programação do "Sábado Som". Eram "fresquinhos", correspondendo às suas respectivas apresentações no Festival California Jam' 74. Não acreditava que via bandas que adorava em performances tão próximas da sua contemporaneidade. O "funkão" ultra preciso do Earth; Wind & Fire, antes de mergulhar nos excessos pasteurizados da Disco Music; O Deep Purple vivendo sua fase Mark III, com Ritchie Blackmore ensandecido, colocando fogo nos amplificadores e estraçalhando sua Fender Stratocaster na câmera de TV; Keith Emerson tocando num piano de calda, suspenso no ar e dando piruetas com o instrumento e tudo, e o Black Sabbath vivendo boa fase, mandando "Children of The Grave" numa pegada incrível...  

E ainda teve o southern Rock de respeito do Black Oak Arkansas, com Jim Dandy & Cia. Rare Earth; Eagles e Seals & Croft também participaram do festival, mas não recordo-me se suas performances foram exibidas no "Sábado Som".

Escrevi uma matéria falando sobre o programa "Sábado Som". Veja mais detalhes sobre isso, indo ao meu Blog. Eis o Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/01/sabado-som-por-luiz-domingues.html   


Em 1974, com menos barulho, mas igualmente sensacional a meu ver, o Jackson Five aportou em Terra Brasilis. Fizeram cinco shows no Brasil, e em São Paulo foi no Anhembi. Inacreditável, Jermaine Jackson tocou seu baixo Fender super classudo nos estúdios da TV Tupi de São Paulo, também...
Só um trechinho do especial da Rede Tupi com o Jackson Five, exibido muitos anos depois no "Vídeo Show" da Rede Globo e com a inserção de alguns comentários interessantes sobre como processou-se isso na TV Tupi de 1974, através do depoimento do produtor Solano Ribeiro. 


Aproveitando para falar de TV, fora os programas musicais como "Sabado Som" e "TV 2 Pop Show" que tinham a minha máxima atenção, continuei normalmente recebendo cargas culturais através do jornalismo; seriados e filmes.

Em termos de seriados, "Kolchak e os Demônios da Noite" ("Kolchak The Night Stalker"), contando a saga de um jornalista que tenta provar a existência de monstros e demônios (e claro, não conseguindo-o, apesar de lidar com eles o tempo todo e sendo desacreditado pelo seu editor e questionado pela polícia), era / é muito legal. Acredito que seja uma espécie de avô do "X-Files" ("Arquivo X"), que tanto sucesso fez nos anos noventa.

E claro, a cobertura esportiva da Copa da Alemanha, e num tempo onde a seleção causava comoção e debates acalorados em meio ao bairrismo que era enorme e certamente ultra polarizado entre São Paulo e Rio.

Eu ainda não tinha as restrições que tenho hoje em dia à seleção brasileira e torcia muito pelo seu sucesso e mais ainda para que convocassem jogadores do meu time, e que eles tivessem o melhor desempenho possível. Que garoto tolinho que eu era, e essa discussão eu nem vou esticar aqui e deixo para debater em matérias específicas que publico sobre futebol em diversos blogs. 
Mas, enfim, o Brasil foi aos trancos e barrancos, apesar de todos aqueles talentos reconhecidos em suas fileiras, e perdeu a vaga para as finais para um time que tinha um sistema de jogo considerado moderníssimo para a época e que encantou o mundo. A Holanda de Cruijff & Cia. colocou todo mundo na roda, mas ironia do futebol, acabou perdendo a final para a pragmática Alemanha de Beckenbauer; Gerd Müller; Sepp Mayer, Paul Breitner & asseclas.

A Copa de 1974 foi marcada por alguns emblemas :

1) O clamor público para que Pelé voltasse a servir a seleção. Irredutível, abandonou a seleção em 1971, com dois jogos de despedida (Morumbi e Maracanã), e apesar de toda súplica do povo e dos jornalistas, mais pressão dos militares, ele disse não e acho que fez bem, tendo parado no auge, em 1970, como campeão. Ainda jogava no Santos em 1974, e encerraria a carreira só em outubro daquele ano. Depois foi jogar nos Estados Unidos, promovendo o esporte por lá, mas na prática, na condição de ex-jogador em atividade, destacando-se muito é verdade, mas em meio à uma Liga insípida.


2) Foi a Copa do Mundo do Rock setentista, como nunca...e basta ver os tapes de jogos dessa competição e nas arquibancadas das partidas, vê-se uma quantidade enorme de jovens cabeludos que deviam assistir tudo quanto era banda da época ali na Alemanha e acompanhavam futebol, também. E a quantidade de jogadores cabeludos também impressionou.

3) Expôs o Brasil à sua realidade de ser um país com a capacidade incrível de revelar jogadores de técnica estratosférica, mas ao mesmo tempo, tendo uma infra estrutura arcaica; simplória; coisa de Jeca Tatu assumido, diante da organização dos europeus.

Ainda falando do futebol, mais algumas considerações de minha parte.

Pouco menos de um mês depois da Copa, o Palmeiras foi campeão do famoso Torneio Ramón de Carranza na Espanha, que é um dos mais tradicionais torneios de verão da Europa e vencendo o Barcelona por 2 x 0, na final, com um show de Ademir da Guia. Os europeus atônitos perguntavam : "como um jogador desse não foi titular do time do Brasil na Copa e pelo contrário, tenha jogado só meio tempo e sacado do time quando reconhecidamente havia sido o melhor em campo ? E nesse time do Barcelona jogava Cruijff e mais um monte de jogadores da seleção da Holanda.

E no final de 1974, a imprensa dava a entender que o Corinthians era favorito ao título paulista na final desse ano, e lendo as matérias e vendo ouvindo o que falavam na TV / Rádio, era inacreditável que tenham formado tal opinião, em se considerando que o adversário era o Palmeiras vivendo ainda tempos de sua Academia II, ou seja, um time infinitamente melhor. Diante do esquadrão verde, o adversário incensado pela imprensa tinha só o Rivellino como grande jogador em seu time, portanto, tal abordagem da imprensa era muito equivocada, assim como foi a cobertura do pós resultado do jogo final, com o Palmeiras campeão e a imprensa tratando isso como a uma "surpresa". Ridículo...

Outro dado, em junho de 1974, eu e alguns colegas de classe fundamos um time de futebol de salão, e o batizamos como "Associação Futebolística Universal". Nossa ideia era fugir de nomes que já usavam a alcunha de "Nacional" e "Internacional", nomes comuns para muitos times no futebol, e usar assim algo ainda mais pomposo. Nada tinha a ver com a igreja evangélica que seria fundada com tal denominação, ainda bem mais tarde do que isso.

Com esse time, jogamos muito na escola, e muito nos campinhos da Vila Olímpia, chegando a arrolar súmula dos jogos, com resultados, escalações e autoria de gols. Nosso maior rival no bairro, era o "Zaire", um time formado só por meninos negros, e cujo nome fora inspirado na exótica seleção desse país africano e que enfrentara o Brasil na Copa de 1974.

Nessa altura, campeonatos de futebol de mesa, o popular "botão", eram praxe nos momentos de lazer entre amigos. E com meu "Estrelão" e muitos times, dava para promover campeonatos os mais diversos. Paulista e Brasileiro eram os mais requisitados, é claro, mas dava para fazer outros regionais e Copa do Mundo, porque eu tinha times de seleções nacionais, também.

E mais um aspecto, foi em 1974 que comecei a frequentar estádios sozinho, ou melhor, acompanhado de amigos da escola. Fui a muitos jogos do Palmeiras, no Pacaembu; Palestra Itália e Morumbi. Foi nesse ano inclusive que vi pela primeira vez um jogo internacional, valendo pela Libertadores da América de 1974, com o Palmeiras vencendo facilmente por 3 x 0, uma equipe boliviana chamada "Municipal", no estádio Palestra Itália.

Sobre filmes, a TV Tupi tinha uma grade de filmes noturnos maravilhosa e a Rede Globo também, com sua já existente "Sessão Coruja". Ali assisti muito filmes clássicos e até filmes de arte que se pensarmos nos tempos atuais, onde a grade de filmes na TV aberta é insípida, fora o fato de que prima pelo gosto popularesco, ver obras de Roberto Rossellini; John Frankenheimer; Monte Hellman; François Traffaut e tantos outros diretores desse naipe, em plena madrugada na TV, foi um privilégio para cinéfilos como eu.
A TV Bandeirantes também tinha seus lampejos. Além do "Cine Mistério", uma sessão das sextas, que exibiu quase todo o acervo da produtora britânica Hammer, algumas pérolas sessentistas ali passaram. Foi ali que vi "To Sir With Love", entre outros filmes do ator Sidney Poitier, que tinham muito apelo libertário, apesar de serem peças do cinemão comercial e não necessariamente filmes off do circuito de arte. Um que assisti em 1974, e que gostei muito, tem o curioso nome de "O Lucky Man" (lançado em 1973). Produção britânica e tendo o ator performático Malcolm McDowell como protagonista, mostra um pouco da loucura sessenta / setentista em Londres. Tem muita gente que confunde-o, achando que tem algo a ver com a música quase homônima do ELP (Emerson; Lake & Palmer"), "Lucky Man", mas não tem nada a ver.  

Outro que vi em 1974, e revisitaria muitas vezes em ocasiões futuras, foi um filme chamado "Billy Jack". Lançado em 1971, é um libelo hippie pacifista e contra a intolerância racial. Narra a história de um índio norteamericano que serviu o exército, tendo sido "boina verde" na guerra do Vietnã, e quando volta para casa, vê que sua comunidade está sendo violentamente incomodada por reacionários que odeiam índios; hippies e negros. Essa gentalha está atormentando os alunos de uma escola de mentalidade progressista que acolhe tais minorias citadas, e ele entra na briga para defendê-los do vilipêndio todo, usando toda a sua técnica militar adquirida, acrescentando a sua sabedoria das tradições indígenas de suas origens. Tal filme não tem grande repercussão no meio dos cultuadores de cinema, mas é muito reverenciado entre hippies e seguidores entusiastas da contracultura, pegando-me portanto em cheio em 1974, quando só reforçou ainda mais a minha simpatia pelos ideais aquarianos ali expressos. 

Não era nenhuma novidade, e pelo contrário, o filme era de 1968, mas foi em 1974 que assisti pela primeira vez a obra "O Planeta dos Macacos". E foi com barulho, pois a Rede Globo anunciou com ênfase a sua exibição, como grande novidade inédita na TV brasileira e o barulho foi tanto que até foi citado em sala de aula, com a professora de português propondo um trabalho valendo nota, se na segunda feira posterior à exibição na Sessão "Super Cine" do sábado (que na época começava religiosamente às 21 horas, logo após a novela das oito que começava de fato às oito...), entregássemos uma redação falando de nossas impressões sobre o filme. Provavelmente foi a primeira resenha de filme que escrevi e sim, ganhei 0,5 de bônus na minha nota bimestral...

Muitas propagandas de TV faziam referência à contracultura hippie. Eram comuns comerciais de roupas destinadas ao público consumidor jovem, que usassem o mote do movimento hippie ou do Rock, como chamariz de seus produtos.Lógico, tudo sob visão distorcida, no limite do escárnio ou no mínimo, diluído.

Se eu soubesse que as calças boca de sino cairiam em desgraça alguns anos depois, juro que teria comprado um lote enorme em 1974, para garantir meu estoque...eu usava-as diariamente, além do sapato de plataforma que era Rocker "pacas". Cheguei a ir para a escola usando um sapato roxo desses, muitas vezes e sentia-me um Rock Star.  

Acima, o promo oficial da música "Elected", cujas imagens foram usadas na propaganda da Rádio Excelsior, "A Máquina do Som", em campanha publicitária para a TV.
 
E claro, em 1974, a propaganda da Rádio Excelsior na TV, usando imagens do promo de Alice Cooper para a música "Elected", gerava-me fascínio. Aquele deboche todo em torno da figura do político corrupto, é sensacional. O chimpanzé como assessor do político interpretado por Tia Alice, é impagável, fora as notas de dólares sendo jogadas para cima, em meio ao frenesi de puro escárnio por parte do corrupto típico da política. 

Falando de publicações, além dos jornais tradicionais e da revista "Placar" que eu sentia ser antagônica ao Rock, mas não tinha vergonha de ler assim mesmo, claro que a Revista "Pop" entrou na minha vida com força.  

Gostava muito das matérias sobre música e cinema, sobretudo, mas ao mesmo tempo, achava-a híbrida, e no mau sentido do termo. Havia pois um lado careta na sua abordagem que desagradava-me. Entendo que seus editores tinham a intenção de alcançar várias camadas da juventude e não só freaks antenados em arte & contracultura, mas as matérias sobre moda e demais signos femininos inerentes, ainda que evocando os supostos valores "jovens" soavam-me caretas. Era nítido e mesmo aos 14 anos de idade eu já percebia isso, que a intenção ali era adaptar a editoria da Revista Claudia, que inclusive era propriedade do mesmo grupo empresarial, à realidade "jovem" para "falar" com as adolescentes e futuras consumidoras da Claudia.

Era salutar a intenção em ser multiuso, dando dicas sobre sexualidade e comportamento; falando de questões sobre relação pais e filhos e tratando de assuntos inerentes ao universo dos adolescentes, ao abordar escolha de profissão e vestibular, entre outros tópicos, mas toda essa salada "encaretava" a publicação, a meu ver.

Memoráveis eram os posters com grande predominância de bandas de Rock, mas também trazendo coisas de cinema.

Foi na Pop que vi matérias cobrindo o making off de filmes que estavam sendo produzidos naquele instante e que eu assistiria no cinema, logo a seguir. Adorava tais matérias não só pelo seu conteúdo, mas também pela escrita.

Escrevi uma matéria falando sobre a Revista Pop. Eis abaixo o Link que direciona ao meu Blog e onde o leitor pode aprofundar tal impressão de minha parte :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/08/revista-pop-por-luiz-domingues.html

Em 1974, houve uma gravíssima epidemia de meningite no estado de São Paulo. Com atitude de evitar o pânico, mas certamente para evitar desgaste político, as autoridades esconderam a verdade da população com mão de ferro. As aulas foram suspensas na rede estadual pública e creio que também na municipal e em escolas particulares. Mas negavam que a suspensão das aulas tinha tal motivação. Atitude abominável, diga-se de passagem.

Foram semanas sem aulas e claro que adolescentes que éramos, aproveitamos muito, mas lógico que teve o lado mau disso, com a reposição das aulas perdidas, "comendo" boa parte das férias.

Uma vez na escola, uma coleguinha apareceu com uma revista "Circus" na nossa classe. Era uma revista americana cobrindo o Rock americano e britânico principalmente, muito famosa nos anos setenta e com aquele padrão gráfico americano que nós não tínhamos ainda no Brasil. Vendo aquela revista com papel couchê brilhante de alto padrão, e aquelas fotos inacreditáveis, claro que "babei".

A dona do exemplar dessa revista andava com os freaks mais velhos da escola e subestimava-me, pois achava que eu era um molequinho alheio à tudo isso e só interessava-me por futebol. Ouvindo minhas observações entusiasmadas sobre as reportagens ali contidas, perguntou à um freak (que era aquele sujeito que já citei anteriormente e que parecia-se com o baixista Dennis Dunaway da banda do Alice Cooper, e que repetente, estava na sétima série de novo...) : -"ele (referindo-se à minha pessoa), entende de som" ? Vendo que eu tecia elogios ao Leon Russell, objeto de uma das reportagens, respondeu-lhe : -"o cara sabe"...
Daí em diante, ganhei o respeito deles e muito intercâmbio legal aconteceu nesse ano e no posterior, 1975, com esses amigos. 


Foi em 1974 que ouvi falar pela primeira vez de alguns filósofos e escritores importantes para a contracultura. Herbert Marcuse; Tim Leary; Aldous Huxley e Carlos Castañeda. Mas só começaria a conhecê-los de fato, de 1975 para frente.

Acompanhei com muito interesse a eleição para deputados e senadores em 1974. Cheguei a ir com meu pai para assistirmos a marcha das apurações, revivendo algo que fazíamos bastante nos anos sessenta, quando eu era criança. Lembro-me de termos encontrado o então deputado, Ulisses Guimarães no Ginásio do Ibirapuera e ele ter lembrado-se que cumprimentara-me pequeno certa vez, e que eu agora já estava grande...tirante a obviedade da colocação, era verdade...  

Mais ou menos em novembro, começou a passar na Rede Globo, propagandas do lançamento do novo disco dos Mutantes, que chamava-se "Tudo Foi Feito pelo Sol". Aquela propaganda enlouquecia-me. Eu já acompanhava os Mutantes, desde os festivais de MPB da TV Record, nos anos sessenta, mas agora sentia-me em ebulição para finalmente vê-los ao vivo e olhando os cartazes Lambe-Lambe pelas ruas e anúncios em jornais e revistas, estavam sempre por perto, e eu precisava ter esse contato.

Absolutamente arrebatado pelo Rock, não via a hora de sair do meu mundinho de observação e audiência à distância e dar um passo além, sentindo essa energia ao vivo. E se meus pais haviam liberado-me para frequentar estádios de futebol sozinho, ir a shows de Rock seria certamente o próximo passo.

E assim, meu primeiro show de Rock foi em grande estilo. Teatro Bandeirantes, um templo do Rock setentista brasuca, onde muitos shows importantes aconteceram. E nessa noite, toda a magia progressiva dos Mutantes em sua formação pós Rita e Arnaldo, com o LP "Tudo Foi Feito pelo Sol". 

Dali em diante, ter contato com esse clima tornou-se uma necessidade, mais que um prazer. Os shows começavam na porta, antes mesmo de entrar num teatro ou arena de esportes / estádio. Só de ver aquele monte de freaks e o aroma de patchouly (peculiar entre todos, esmagadoramente), já dava um prazer incrível de sentir-me ali inserido nessa egrégora aquariana.

Entrar no recinto e ver o equipamento todo montado, já valia o ingresso. E quando começava o "Concerto de Rock", a magia já estava funcionando e você voando...

As luzes; a performance e mise-en-scene da banda; o visual; figurinos e adereços do cenário; as luzes, e...o gelo seco.

Depois que tornei-me músico e fiz centenas de shows de Rock, uma das minhas grandes frustrações é que não tive / tenho esse privilégio de usar tal recurso. Como efeito similar, era e tem sido, sempre a famigerada máquina de fumaça, a tal de "Smoke Mary" a expelir aquela fumacinha fétida e medíocre. Caramba, que saudade que tenho de shows de Rock setentistas sob brumas de verdade e gélidas !! Aquilo era magia pura, 100% Tolkien, se é que entendem-me !!
              Foto de Luiz Domingues em 1974. Acervo familiar

Apesar da euforia, meus pais ainda não estavam percebendo a transformações  pelas quais eu estava passando e de fato, demorariam a perceber tudo isso. Tratavam só como um lazer motivado pela passagem efêmera da juventude. Portanto, apesar de todas as lendas urbanas sobre os perigos oriundos de shows de Rock, esse negócio de Rock e hippies cabeludos não faria-me mal na percepção deles, e além do mais, confiavam no meu temperamento, que sempre foi zen, quase o de um monge trapista, só que cabeludo e acompanhando The Who, e esse detalhe eles não computavam...

Hora de falar sobre discos e bandas que impactaram-me em 1974 : 

O LP "Stormbringer" era a última novidade do Deep Purple, mas eu só compraria-o em janeiro de 1975, portanto, em 1974, era "Burn", o anterior, que eu estourei de tanto ouvir, mas também havia comprado o LP "Deep Purple in Rock", de 1970, e logo na primeira faixa, que começa com uma tremenda "ruideira" homérica, com direito a muitas microfonias devidamente exploradas pela alavanca da Fender Stratocaster de Ritchie Blackmore, nunca esqueço-me da minha avó materna, que ao contrário de todos os outros adultos que cercavam-me, e que odiavam aquilo, ao contrário, ela dizia não incomodar-se com aquela barulheira fenomenal de introdução e acrescentava que gostava da gargalhada que Ian Gillan dava em meio à canção "Speed King"...valeu, vó !

"Warchild" foi o primeiro disco do Jethro Tull que eu comprei. Já conhecia outros pelas "salvadoras" fitas K7, mas essa foi a primeira bolacha de Anderson & Cia. que eu trouxe para a casa. 

Adoro o sabor super Folk que ele tem. Sou fã de todas as faixas, sem exceção. Skating away...

Os cinco primeiros discos do Led Zeppelin alegraram meus dias de 1974, não tenho dúvida. Ouvia tudo em fitas K7, mas foi "Houses of the Holy" o primeiro vinil que comprei dessa banda.

"Nós somos uma banda americana"...de fato, em meio a uma maioria esmagadora de bandas britânicas, o Grand Funk tinha lá seus motivos para bradar sua nacionalidade em plenos pulmões. "We're an American Band" foi o meu primeiro disco dessa magnífica banda, mas na fita K7, já conhecia álbuns anteriores deles, há algum tempo.

Por incrível que pareça, o primeiro disco oficial que comprei do Pink Floyd, foi uma coletânea e não um álbum de estúdio com inéditas. Tratou-se de "Relics", uma coletânea de compactos dos anos sessenta e contendo muitas músicas que não entraram nos discos de estúdio. Adoro esse álbum pela lembrança boa de 1974, e também pelo que hoje considero um investimento bom, pois entrei em contato com o universo mais psicodélico da banda, com Syd Barrett ainda em suas fileiras.

Uma colega de minha classe, cuja família era abastada, tinha muito mais acesso às novidades internacionais do que qualquer outro coleguinha, pelo fato de sua família estar sempre viajando à Europa e Estados Unidos. Essa garota colecionava revistas internacionais de Rock como "Circus" e "Melody Maker", por exemplo, e além disso, sempre trazia fitas K7 de discos novos de bandas consagradas ou não. E foi assim que conheci e fiquei entusiasmado por uma banda que segundo ela, estava deslumbrando a Inglaterra naquele instante, chamada "Queen". Ouvi os dois discos iniciais através de fitas e passei a acompanhar com muito interesse tal banda, só vindo a comprar um disco deles em 1975, quando o terceiro álbum, "Sheer Heart Attack", saiu no Brasil.  Em minha opinião, são os três melhores discos dessa banda, e acho graça ao constatar que no imaginário da maioria das pessoas, a impressão que tem sobre o Queen é baseada nos seus discos posteriores e cada um mais perto do pop comercial que o anterior. O poder da mídia é avassalador mesmo, ao criar paradigmas na formação de opinião...

Em 1974 foi o ano em que definitivamente passei a adorar o Rock Progressivo. Toda a discografia de bandas clássicas dessa vertente, foi-me apresentada, via fitas K7, e logo passei a colecionar seus discos. Ouvia alucinadamente o triplo ao vivo do "Yes", chamado "Yessongs", e aquela complexidade musical fascinava-me, mas ia muito além, pois fiquei muito impressionado pelo astral da obra, evocando aspectos espiritualistas e transcendentais, fora a atmosfera ufológica e extra dimensional da obra, tanto pelo teor das letras, quanto pelo aparato visual, com as capas de quase todos os discos dessa banda sendo produzidas pelo genial artista plástico, Roger Dean.


Aliás, sobre Roger Dean, escrevi uma matéria, onde esmiúço a sua obra e o quanto foi importante para a geração que acompanhou o Rock setentista, sobretudo a vertente do Rock Progressivo. Eis abaixo, o link para ler tal apreciação :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/12/roger-dean-e-sua-pintura-intergalatica.html 

Tornei-me fã incondicional do "Genesis", cuja delicadeza dos arranjos certamente remete à compositores clássicos como Debussy; Liszt e Berlioz, para ficar em alguns poucos. "Emerson, Lake & Palmer", que demonstrava ter complexidade e virtuosismo que eram evidentes, mas eu apreciava / aprecio a capacidade de criação de suas melodias belíssimas. Sobre o "King Crimson" acho que já falei anteriormente e outras bandas eu ia conhecendo e apreciando cada vez mais.

Caso do "Gentle Giant", cuja fita K7 contendo o LP "Acquiring the Taste" (de 1971), com todo aquele experimentalismo, eu adorei de imediato, por mais inusitado que possa parecer, pois a tendência é demorar para gostar-se de algo assim tão complexo e inusitado.

E uma marca registrada dos anos setenta : não havia nenhum sectarismo !! 

Todos os gêneros e vertentes do Rock, denotando escolas de influências díspares entre si, eram amadas igualmente, sem preconceitos, sem sentimento de ser exclusivo à tribo A, B ou C.

Gostávamos de tudo e tudo era Rock, inclusive diversas matizes da MPB, do Folk em geral, Blues, vertentes do Jazz, dos vários galhos da árvore da Black Music e até da fechada e elitista música erudita, que pelo contrário, aos nossos olhos e ouvidos rockers, soava-nos raiz natural de diversos segmentos, seguramente o Rock Progressivo cujas sonoridades e riqueza harmônica eram muito calcadas na estrutura da dita música "clássica". 

E de 1974 em diante, muita coisa dos anos sessenta que eu já tinha familiaridade e até gostava assumidamente, passei a gostar mais ainda. Não era por estar deslumbrado com a adolescência em meio à riqueza dos anos setenta, que ignorava as tradições sessentistas e muito pelo contrário, comecei a investigar ainda mais o passado recente do Rock e apreciá-lo cada vez mais.

As décadas de 60 e 70 são na verdade irmãs. Não existe divisão, pelo contrário, uma é decorrência direta da outra e não pensávamos como convencionou-se na década de oitenta, que foi marcada por ser uma época fortemente comprometida com o radicalismo (muitíssimo errôneo por sinal), de rompimento com o passado, em favor de bandeiras niilistas desfraldadas pelo movimento punk. Mas isso só aconteceria depois de 1977, portanto não vou esticar essa análise neste momento, apenas comento en passant.

Outro disco que gostei muito em 1974, foi "It's Only Rock'n Roll" dos Rolling Stones que tornou-se icônico e eterno em minha vida. O promo da canção homônima, com os Stones tocando e sendo engolidos por uma enorme inundação de bolhas de sabão, é divertido ao extremo.

Nessa altura, Johnny Winter e Robin Trower já eram guitarristas cujas carreiras eu acompanhava com entusiasmo. Claro, Edgar Winter era querido e seguido, também. O LP "EC Was Here", do Eric Clapton, que meu primo Marco Turci comprou nesse ano e muitas vezes foi-me emprestado, eu gastei a agulha de tanto escutar.
"Traffic"; "Ufo"; "Nazareth"...e mais uma série de bandas britânicas que ia afeiçoando-me cada vez mais. O "Traffic", como disse um amigo meu muitos anos depois, "é uma caixa de bombons finos"...penso igual, é a pura verdade.  

Sobre o "Humble Pie", tenho saudade de uma história para lá de prosaica, mas que demonstra o quanto era difícil ser pobre e terceiro mundista...

Entre 1974 e 1975, eu e um dos meus primos mais velhos, o Marco Turci, revezávamo-nos numa pequena traquinagem maquiavélica. Havia uma pequena loja de discos de bairro, bem perto da casa dele, no Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Ele comprou muitos discos ali, mas não tantos quanto gostaria, pela "nota preta" que custavam.

Então, ele achou o disco "Thunderbox" do Humble Pie na tal lojinha (que chamava-se "Biboka", e quem frequentou o bairro do Tatuapé nos anos setenta, há de lembrar-se dela na avenida Celso Garcia, bem perto do antigo Cine São Jorge), e disfarçadamente, colocava-o bem para trás na gôndola, para não chamar a atenção de outros possíveis compradores. O objetivo era evitar que fosse vendido, até que ele ou eu, reuníssemos condições de adquiri-lo...

Vez por outra, para não chamar a atenção, eu é que fazia-o, quando ia visitá-lo. E tal ato de sabotagem "light" durou meses, até meados de 1975, quando para a nossa frustração o disco sumiu, tendo sido vendido, enfim. E é um tremendo disco, devo registrar...
Lastimavelmente, só fui tê-lo na minha estante, nos anos noventa e já em formato CD...

E começando a descobrir o "Krautrock", a espetacular escola do Rock alemão a entrar na minha vida, quando as coletâneas do "Nektar", "Sound Like This", volumes 1 e 2, chegaram em casa, e daí a conhecer outras bandas, foi mera consequência.

Nessa altura, eu já adorava o "Joe Cocker", havia conhecido a "Maggie Bell" e seu "Stone the Crows", e estava bastante interessado no "BTO" (Bachman Turner Overdrive). 

Do pessoal do "Glitter Rock", além de todos que já citei em capítulos anteriores, aprendi a gostar do "Mott the Hoople", e falando de Hard-Rock, quando tomei conhecimento da existência do "Bad Company", claro que foi ponte natural para chegar no "Free".  

Comprei meu primeiro disco do Uriah Heep, em 1974 : "Wonderworld", novinho, último trabalho da banda. E o meu primeiro do "Black Sabbath", "Volume 4" (de 1972), embora a K7 com "Sabbath Bloody Sabbath" tivesse gasto bem a cabeça do gravador...  

Encantei-me pelo som do "Allman Brothers Band", e daí foi fácil virar fã do "Southern Rock" em geral. Vertente maravilhosa de bandas genuinamente americanas do sul daquele país.  

Foi em 1974, também que passei a acompanhar os "Faces", que alguns mal informados tendiam a confundir com o "Bay City Rollers", numa heresia sem tamanho, eu diria. Faces vinha de uma nobre estirpe, o "Small Faces" sessentista, já a outra banda citada, era apenas uma banda pop insípida e assim, tal comparação era descabida, portanto.

O LP "Diamond Dogs", do "David Bowie", encantava-me. Ouvia-o alucinadamente em 1974, e claro, por conta de uma alma generosa que emprestou para alguém...que emprestou para alguém...que copiou para o "cunhado do vizinho do amigo do meu primo"...enfim, essa cadeia de solidariedade era incrível e décadas antes das pessoas sonharem com Redes Sociais da Internet.

E nesse ano, foi quando aproximei-me para valer do "The Who", abrindo caminho para conhecer sua discografia e história com muito maior propriedade. Em 1975, essa banda tornaria-se icônica para o meu deleite. Estou chegando lá...

Já apreciando o Rock nacional com o mesmo entusiasmo, via no "Fantástico" sempre promos produzidos pelo próprio programa e eram bem legais para os padrões da época.

Foram incríveis as participações de artistas nacionais nesse sentido. Ali vi os Mutantes, Secos & Molhados; O Terço; Erasmo Carlos numa fase super Rocker; Raul Seixas; Made in Brazil etc etc.

E continuava gostando do Tim Maia e vários artistas que vibravam na onda da Black Music brasuca, casos de Cassiano; Dafé e outros. Toni Tornado havia dado uma sumida, mas hoje eu sei, ele era ator e defendia o seu lado, é claro.

Em 1974, foi o ano em que descobri e passei a acompanhar o som de Hermeto Paschoal. Ele não podia ser classificado como "Rocker", nem "Jazzista", tampouco alguém da "MPB", mas aí é o que já disse, não haviam preconceitos. Rótulos só serviam para efeito de classificação, para situar um artista, mas jamais determinava que seu acesso fosse restrito à sua "turminha" apenas.

Continuava acompanhando vários artistas da MPB e muitos deles eram super freaks.

O Fenômeno dos Secos & Molhados tornou-se ultra popular, lotou o Maracanãzinho e esvaiu-se precocemente em 1974. Uma grande pena, pois adorava aquela banda, com aquela sonoridade Folk, toda cheia de coloridos musicais e muita poesia. Isso sem contar que o trio vocal que formava-a, que era ótimo e a banda de apoio, espetacular. Daí em diante, fui mergulhando mais e mais nessa MPB com um pé no movimento Hippie. Então, 1974 foi isso...um ano onde eu dei um mergulho e comecei a nadar, dando as primeiras braçadas mais firmes. Já com um monte de artistas na ponta da língua e acessando informações por todos os meios que podia, creio que o processo revelava-se irreversível. 

Meu entusiasmo com a música e o Rock em específico, levou-me a sonhar com a realização de uma revista, que tranquilamente poderia ter concretizado-se como "fanzine", daqueles bem setentistas que corriam em portas de teatros e arenas onde realizavam-se shows de Rock, mimeografadas e com tipologia de máquinas datilográficas. Mas ainda não era o momento, logicamente, porque eu não tinha os meios. Foi só um sonho que esbocei num "boneco"(no jargão do jornalismo e do mundo gráfico em geral "boneco" é um protótipo de uma publicação, onde monta-se um formato como piloto, para experimentar a viabilidade da sua formatação como jornal, revista ou livro. Serve também para outras coisas, experiência com capa de disco, por exemplo). Claro, no meu caso, era uma folha de papel sulfite dobrada para dar formato de revista e onde montei cabeçalho, e manchetes, tudo bem simples, apenas escrito a mão com caneta esferográfica. Já era o meu lado jornalista que acabei nunca concretizando de verdade, mas denotando que eu já começava a dar sinais que a música não seria apenas uma distração passageira na minha vida, assim como o era para quase todo adolescente da minha idade, ficando de lado em questão de mais três ou quatro anos, quando começaria a fase de alistamento militar / vestibular e pressões sociofamiliares por entrada no mercado de trabalho "careta", escolha de profissão etc etc. Ou seja, fechei 1974 já borbulhando alguma coisa diferente na minha cabeça e que não era ainda a vontade de envolver-me diretamente, buscando ser músico e fazer parte de uma banda de Rock etc e tal. Mas já era um sinal de querer desfrutar mais perto dessa energia que arrebatava-me cada vez mais.

E um fato inusitado, porque eu nunca fui rebelde, ocorreu-me no âmbito escolar e tal situação poderia ter atrapalhado o ritmo das coisas na minha vida. Eu estava mal de notas e não alcancei a aprovação automática para a oitava série. Pela primeira vez na vida, estava ameaçado de repetência, e não era por rebeldia, como já mencionei, tampouco "vagabundagem". Portanto, não era o futebol e muito menos a música que estava atrapalhando-me ao ponto de eu ter ficado relapso e não ter feito uma boa média ao longo do ano.
        Carteirinha escolar de 1974, mas com a foto 3/4 de 1970...

Simplesmente estava mal em matérias como matemática e desenho, cujo conteúdo nesse ano, era desenho geométrico (sempre fui péssimo em matérias exatas, meu lado imaginativo é muito mais forte que o racional / lógico), e assim, quando o ano encerrou-se, eu fui conduzido para a "segunda época", uma espécie de "repescagem", com aulas suplementares no período de férias e no final de janeiro do ano seguinte, haveria uma prova definitiva, como última chance...

Um clima meio tenso instaurou-se em casa. Meus pais eram bem liberais, mas por força das circunstâncias, freei um pouco o futebol; os campeonatos de botão, e sobretudo a atenção aos discos e leituras sobre música, para estudar e aproveitar a última chance de salvar o ano. 
"Might Just Take Your Life"..."só poderia tirar a sua vida"...Tal título de música soa como um bom aforismo sobre como o Rock impactou-me em 1974. Ouça acima a canção do Deep Purple, que certamente ouvi bastante nesse ano.
 
Com esse clima, fechei o ano de 1974, super empolgado com tudo o que estava absorvendo, mas com essa pendência escolar chata para resolver logo no início do ano posterior. Que viesse 1975 : o meio da década; o cabelo crescendo; a música enlouquecendo-me, e que eu concluísse a oitava série...

Continua...  

2 comentários:

  1. Sempre super interessante seus relatos, uma viagem...vc era bonito pacas pelas fotos, imagina com essa voz de locutor? as meninas do colégio caiam em cima com certeza rs...lí e vou reler novamente, gostaria de ter te conhecido, já pensou dois doidões no tempo da escola? legal! :))

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    1. Que legal que curtiu, Kim !! São tantas lembranças que mesmo essas versões de cada ano sendo super resumidas, ficam enormes, na verdade. Essa das meninas, quisera eu, hein ? Nem de longe era o tipo galã, mas agradeço o elogio. Pois é, se fôssemos amigos naquela época, teria sido um barato mesmo pela nossa similaridade de ideias e ideais; Fora o intercâmbio de Lp's e fitas K7 !! Abração !!

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