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domingo, 17 de julho de 2016

1974, Might Just Take Your Life... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e na Adolescência - Por Luiz Domingues

A energia nuclear seria a solução para a crise do petróleo que começara no ano anterior, segundo afirmara, Shigeaki Ueki, um nipo-descendente que ocuparia o cargo de Ministro das Minas e Energia do novo governo militar que assumiria em 1974.

Em época de cinema catástrofe, o edifício Joelma, no centro velho de São Paulo, queima, verdadeiramente e provoca cenas horripilantes, ao vivo e em cores pela TV. 

Zé do Caixão faz propaganda na fila das pessoas que querem ver "O Exorcista", em cinemas paulistanos, e aos berros, tenta convencê-las que aquele "Diabo" norteamericano de tal filme, era "fajuto" e o "seu Diabo", que era 100% nacional, do seu recém lançado filme, "Exorcismo Negro", era muito mais assustador...

O clamor na imprensa esportiva e por parte do povo foi um só : -"Pelé, volte para a seleção, e dispute a Copa da Alemanha".

"Watergate" seria a bola da vez nos noticiários internacionais, mas a "Revolução dos Cravos", ao libertar Portugal da ditadura Salazarista, também tornar-se-ia destaque. 

O Metrô de São Paulo inaugura finalmente a sua primeira linha...

Bem, eu poderia arrolar muito mais dados sobre 1974, para iniciar este capítulo, mas creio ser o suficiente para dar um panorama prévio, ainda mais em ao considerar-se que que falarei de muito mais coisas em seu decorrer. Ao partir agora para o meu pequeno mundo particular...

Carteirinha escolar de Luiz Domingues em 1974, aluno da Sétima Série, antigo terceiro ano ginasial.

Sétima série; penugem no rosto já a insinuar-se como barba e bigode; e cada dia desse ano que começava, com mais artistas a ser descobertos, através dos discos; ondas radiofônicas & TV; jornais & revistas, além das fitas K7, o melhor aliado dos Rockers tupiniquins na década de setenta, principalmente os pouco abonados, categoria na qual eu incluía-me...

Mas também havia um elemento novo nessa equação : daí em diante, tirante tudo o que já citei anteriormente, havia também o apoio de meus primos mais velhos e consequente contato com os amigos deles, e todo mundo a acompanhar junto, criou-se sob absoluta naturalidade, uma rede de compartilhamento de informações e materiais, que tornou-se nessa época, a nossa ferramenta de pura solidariedade, as providenciais fitas K7...

Acrescento mais um dado positivo nisso tudo : em 1974, eu encontraria mais apoio em colegas de escola. Os freaks da escola agrupavam-se, e isso só fortalecia-me em vários aspectos sob a ótica contracultural, nessa época. Mais dados...

Logo que 1974 chegou, o boato tornou-se realidade : Alice Cooper havia confirmado shows no Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro, por incluir tais datas na turnê do seu novo disco, recém lançado, "Muscle of Love". 
Aquilo foi tão inacreditável em uma época onde o Brasil colocava-se como um país completamente fora do esquadro dos grandes shows internacionais, que dessa forma, tal novidade deixou-nos boquiabertos.
Comitiva de Alice Cooper a chegar em vários carros comuns, e assim a atrair a atenção de populares, pelas ruas do centro velho de São Paulo, quando rumavam para o Hotel. A ilustração dá a medida exata do quanto éramos provincianos, só por essa visão prosaica, ao revelar uma autêntica aglomeração perpetrada por essa multidão de "Jecas" inebriados pela visão da chegada de seres alienígenas. Foto do arquivo do jornal : O Estado de São Paulo
 
Do anúncio da confirmação, em janeiro mais ou menos, até março, quando vimos fotos de Tia Alice e sua banda a caminhar pelas  imediações da Avenida Ipiranga, hospedados no Hilton Hotel onde ficaram, foi uma contagem regressiva e muito estimulante para Rockers tupiniquins, absolutamente carentes e alheios às grandes estrelas do Rock internacional.

Sei que houvera sazonais exceções, anteriormente (Ray Charles; Stevie Wonder; Santana; Ravi Shankar e Herman's Hermits visitam o Brasil, para realizar shows entre 1963 e 1972), mas foram poucos artistas sazonais e isso não sinalizara que o Brasil entraria na rota dos shows internacionais, de uma maneira regular, fato que só aconteceria muitos anos depois, nos anos oitenta, e aí já a viver-se uma fase no Rock onde nem de longe poderia comparar-se à magnitude dos artistas das décadas de sessenta e setenta. Portanto, a verdade foi uma só : no auge dos anos de ouro do Rock, estávamos alijados da possibilidade em acompanhar de perto os seus mais geniais artistas. Eu não fui assistir o Alice Cooper, infelizmente, e não tenho vergonha em dizer que meu pai vetou a minha ida. Com treze anos e oito meses de idade, em março de 1974, e por considerar-se que era uma outra época, com toda aquela pressão social anti-Rock / anti-contracultura / anti-cabeludos e os inevitáveis boatos a dar conta da "perdição" das drogas, foi natural que houvesse resistência paterna para deixar-me ir em um evento dessa magnitude, ou na visão dele, em uma "baderna" dessas. Um primo meu, mais velho, foi ao show e hoje em dia tenho muitos amigos que também foram e todos tem ótimas histórias pessoais sobre esses dois shows em São Paulo.
Dados extraoficiais contabilizam cerca de cem mil pessoas no show do Parque de Exposições do Anhembi. Acho o número exagerado, mas que foi um número gigantesco, não tenho dúvida. E foi histórico o tumulto, com Alice Cooper e banda a evadir-se do palco em um dado instante, assustados com a multidão sendo esmagada e a interpretar isso, como uma tentativa das pessoas em chegar até eles com más intenções etc
 
E claro, com o clima político pesado dessa época, sempre pairava a possibilidade da repressão oficial acontecer, afinal de contas, cabeludos sempre seriam estigmatizados e perseguidos, em via de regra.

Mas quando o show aconteceu enfim, teve muita repercussão na mídia e claro, a imprensa tradicional criticou com contundência a figura de Alice Cooper, com seu show repleto por teatralizações plenas em morbidez etc. Um especial na TV, gravado e exibido pela Rede Globo, dias depois, foi um "desbunde" para os Rockers, porém, foi também motivo para que o público avesso ao Rock, poder arvorar-se como "paladino da moralidade", a vilipendiar as guilhotinas, e demais posturas cênicas de Tia Alice & banda, fora as reclamações de sempre sobre a estridência das guitarras e visual, com os cabelos longos sempre a incomodar os "bons cristãos", aliás em contradição, sempre, por supostamente ser seguidores de um cabeludo que fora um contumaz pacifista...

Uma matéria sensacional, escrita pelo jornalista, Bento Araújo, para a sua revista, "Poeira Zine" (saiu em 2004), retratou com muitos detalhes esses shows de Alice Cooper no Brasil, em 1974, e tal material conta com o acervo de fotos raras, de uma das apresentações de São Paulo, no Teatro do Anhembi (o outro foi no complexo de exposições do próprio, Anhembi, com quase cem mil pessoas presentes), da autoria da fotógrafa, Grace Lagôa, minha amiga e esposa do Xando Zupo, guitarrista como qual trabalhei no "Pedra", uma das bandas por onde atuei. 

Dois meses depois da vinda do Alice Cooper ao Brasil, uma teatralização grotesca, mas bem intencionada, foi feita por parte de alguns freaks da minha escola, no velho teatro que havia no pátio. Eu não os conhecia, deviam ser de outro período. De fato, aquela instalação onde funcionava o teatro da escola, estava a ser pouco usada e subitamente cartazes surgiram pelos corredores, para anunciar a performance. Tratou-se de uma encenação ridícula, com cinco cabeludos a fingir tocar e cantar (em uma espécie de pré-Karaokê, setentista), e assim fizeram uma imitação grotesca do Alice Cooper & banda, mas foi divertido assim mesmo e muito melhor que aturar as aulas maçantes de ciências da Dona Sônia, ou geografia com a Dona Carlota, foi ver essa performance constrangedora, mas com pelo menos o som de "Dead Babies" a ecoar alto dentro da escola e uma boneca velha que o sujeito que imitou Alice Cooper (deve ter emprestado da sua irmãzinha), para ser degolada... ha ha ha ! 


Outro fator que foi assombroso nesse início de 1974, foi a estreia do programa "Sábado Som", na Rede Globo de Televisão. Estupefatos, na segunda-feira posterior à exibição do primeiro programa, em um sábado de abril desse ano, a conversa entre os Rockers da escola fora uma só : -"você viu o Pink Floyd a tocar nas ruínas de Pompeia" ? Absolutamente incrível, não fora algo novo, mas um documentário filmado em 1971, nesse impressionante cenário da antiguidade romana, mas para nós, revelou-se como algo inédito, e foi um "desbunde" sem tamanho.

Ver o Pink Floyd a executar, "Echoes", em meio àquele cenário, sem público, somente a tocar ao ar livre, no meio das ruínas... Roger Waters a parecer-se com um sacerdote de "Júpiter", ao bater com ênfase naquele gongo sob o pôr-do-sol, enfim, lá estava eu com o meu queixo adolescente, caído em frente à TV, que já era colorida e realçou a magia, portanto. Mais promissora que essa exibição do especial do Pink Floyd, na íntegra, foi a certeza que o programa chegara para ficar, ao constituir-se em uma atração definitiva, na grade da emissora, pelo menos durante alguns meses, e dali em diante, abril de 1974, até meados de 1975, tornou-se uma oportunidade de ouro, assistir aqueles artistas todos em performances ao vivo, possibilitadas por tal atração televisiva, e 100 % Rocker.

Bandas como o Focus, cuja performance de sua música emblemática, "Hocus Pocus" sob um tape gravado em 1973, assombrou-nos; Poco; Faces; The Allman Brothers Band; Bad Company; Edgar Winter Band; Ufo; Average White Band; Utopia; Uriah Heep; New York Dolls e tantas e tantas outras atrações de alto padrão...

Foi através desse programa que descobri o Jazz-Rock. O "desbunde" absoluto em ver a Mahavishnu Orchestra, em ação, foi demais para um Rocker com apenas 14 anos de idade. Tal escola estilística era diferente do Prog Rock, pelo fato dos seus músicos ter formação jazzistica ao invés da erudita, base da outra vertente, mas um ponto havia em comum : a absurda excelência musical, com músicos virtuoses e melhor ainda, a usar a sua técnica avassaladora, a serviço da música e não o contrário.
Ao final de 1974, vídeo-tapes dos shows do Deep Purple; Black Sabbath; Emerson; Lake & Palmer e Earth; Wind & Fire foram anunciados na programação do "Sábado Som". Eram muito recentes, ao corresponder às suas respectivas apresentações no Festival California Jam' 74. Não acreditava que estava a assistir bandas que eu adorava, em performances tão próximas da sua contemporaneidade. O "funkão" ultra preciso do Earth; Wind & Fire (antes dessa banda mergulhar nos excessos pasteurizados da Disco Music); O Deep Purple a viver sua fase, "Mark III", com Ritchie Blackmore ensandecido, a colocar fogo nos amplificadores e estraçalhar a sua Fender Stratocaster na câmera de TV; Keith Emerson a tocando em um piano de calda, suspenso no ar e a dar piruetas com o instrumento e tudo, e o Black Sabbath, que vivia uma boa fase, a executar, "Children of The Grave" sob uma pegada incrível...  

E ainda teve o Southern Rock de respeito do Black Oak Arkansas, com Jim Dandy & Cia. Rare Earth; Eagles e Seals & Croft também participaram do festival, mas não recordo-me se suas performances foram exibidas no "Sábado Som".

Escrevi uma matéria para descrever o programa,"Sábado Som". Veja mais detalhes sobre isso, ao visitar o meu Blog 1. Eis o Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/01/sabado-som-por-luiz-domingues.html   


Em 1974, com menos estardalhaço, mas igualmente sensacional ao meu ver, o Jackson Five aportou em Terra Brasilis. Fizeram cinco shows no Brasil, e em São Paulo ocorreu no Anhembi, assim como Alice Cooper o fizera, recentemente. Inacreditável, Jermaine Jackson tocou seu baixo Fender, super "classudo" nos estúdios da TV Tupi de São Paulo, também...
Só um pequeno trecho do especial da extinta, Rede Tupi, com o Jackson Five, exibido muitos anos depois no programa : "Vídeo Show", da Rede Globo e com a inserção de alguns comentários interessantes sobre como processou-se isso na TV Tupi em 1974, através do depoimento do produtor, Solano Ribeiro. 


Aproveito para falar de mais sobre TV. Tirante os programas musicais como "Sábado Som" e "TV 2 Pop Show" que tinham a minha máxima atenção, continuei normalmente a receber cargas culturais, através do jornalismo; seriados e filmes.

Em termos de seriados, "Kolchak e os Demônios da Noite" ("Kolchak : The Night Stalker"), conta a saga de um jornalista que tenta provar a existência de monstros e demônios (e claro, por não conseguir seu intento, apesar de lidar com tais aberrações o tempo todo e também por ser desacreditado pelo seu editor e questionado pela polícia), era / é muito bom. Acredito que seja uma espécie de avô do "X-Files" ("Arquivo X"), que tanto sucesso fez nos anos noventa.

E claro, a cobertura esportiva da Copa da Alemanha, em uma época onde a seleção causava comoção e debates acalorados em meio ao bairrismo que era enorme e certamente ultra polarizado entre São Paulo e Rio.

Eu ainda não tinha as restrições que tenho hoje em dia à seleção brasileira e torcia muito pelo seu sucesso e mais ainda para que convocassem jogadores do meu time, e que eles tivessem o melhor desempenho possível. Que garoto tolinho que eu era, e essa discussão eu nem vou esticar aqui e deixo para debater em matérias específicas que publico sobre futebol em diversos blogs. 
Mas, enfim, o Brasil avançou com dificuldades, apesar de todos aqueles talentos reconhecidos em suas fileiras, e perdeu a vaga às finais, para um time que tinha um sistema de jogo considerado muito moderno para a época e que encantou o mundo. A Holanda de Cruijff & Cia. colocou todo mundo na roda, literalmente, com seu decantado "Carrossel Holandês", mas ironia do futebol, culminou em perder a final para a pragmática, Alemanha, de Beckenbauer; Gerd Müller; Sepp Mayer, Paul Breitner & asseclas.

A Copa de 1974 foi marcada por alguns emblemas :

1) O clamor público para que Pelé voltasse a servir a seleção. Irredutível, abandonara a seleção em 1971, com dois jogos de despedida (Morumbi e Maracanã), e apesar de toda súplica do povo e dos jornalistas, mais pressão dos agentes governamentais, ele disse "não" e acho que fez bem, por ter parado no auge, em 1970, como campeão. Ainda jogava no Santos em 1974, e encerraria a carreira só em outubro daquele ano. Depois foi jogar nos Estados Unidos, a promover o futebol por lá, mas na prática, na condição de ex-jogador em atividade, ao destacar-se muito é verdade, mas em meio à uma Liga insípida, amadorística. 

2) Foi a Copa do Mundo do Rock setentista, como nunca... e basta ver os tapes de jogos dessa competição e nas arquibancadas das partidas, vê-se uma quantidade enorme de jovens cabeludos que deviam assistir tudo quanto era banda da época ,ali na Alemanha e acompanhavam futebol, também. E a quantidade de jogadores cabeludos também impressionou. 

3) Expôs o Brasil à sua realidade em ser um país com uma capacidade incrível para revelar jogadores com técnica estratosférica e absolutamente natural, sem metodologia científica para forjar isso, portanto, a possuir uma infra estrutura arcaica; simplória; coisa de Jeca Tatu assumido, diante da organização dos europeus.

Ainda a falar sobre o futebol, mais algumas considerações de minha parte.

Pouco menos de um mês depois da Copa, o Palmeiras foi campeão do famoso Torneio Ramón de Carranza na Espanha, que era / é, um dos mais tradicionais torneios de verão da Europa e ao vencer o decantado Barcelona, por 2 x 0, na final, com um show de Ademir da Guia. Os europeus atônitos perguntavam : "como um jogador desse quilate não foi titular do time do Brasil na Copa e pelo contrário, tenha jogado só meio tempo e sacado do time quando reconhecidamente havia sido o melhor em campo" ? E nesse time do Barcelona jogava Cruijff e mais alguns jogadores da seleção da Holanda.

E ao final de 1974, a imprensa dava a entender que o Corinthians seria favorito ao título paulista na final desse ano, e ao ler as matérias e ver e ouvir o que falavam na TV / Rádio, foi inacreditável que tenham formado tal opinião, ao considerar-se que o adversário seria o Palmeiras, a viver ainda tempos de sua Academia II, ou seja, um time infinitamente melhor. Diante do esquadrão verde, o adversário incensado pela imprensa tinha só o Rivellino como grande jogador em seu time, portanto, tal abordagem da imprensa revela-se muito equivocada (e claramente tendenciosa, essa é que é a verdade), assim como foi a cobertura do pós resultado do jogo final, com o Palmeiras campeão e a imprensa a tratar isso como a uma "surpresa". Ridículo...

Outro dado (aí da minha alçada), em junho de 1974, eu e alguns colegas de classe fundamos um time de futebol de salão, e o batizamos como : "Associação Futebolística Universal". Nossa ideia foi fugir de nomes que já usavam a alcunha de "Nacional" e "Internacional", denominações comuns para muitos times no futebol, e usar assim algo ainda mais pomposo. Nada tinha a ver com a igreja evangélica que seria fundada com tal denominação, ainda bem mais tarde do que isso.

Com esse time, jogamos muito na escola, e muito nos campinhos da Vila Olímpia, ao chegar a arrolar súmula dos jogos, com resultados, escalações e autoria de gols. Nosso maior rival no bairro, fora o "Zaire", um time formado só por meninos negros, e cujo nome fora inspirado na exótica seleção desse país africano e que enfrentara o Brasil na Copa de 1974, portanto tratou-se de um nome exótico e "na moda". Nessa altura, campeonatos de futebol de mesa, o popular "botão", tornara-se uma praxe nos momentos de lazer entre amigos. E com meu "Estrelão" e muitos times, dava para promover campeonatos os mais diversos. Paulista e Brasileiro eram os mais requisitados, é claro, mas dava para fazer outros regionais e Copa do Mundo, porque eu tinha times com seleções nacionais, também.

E mais um aspecto, foi em 1974 que comecei a frequentar estádios sozinho, ou melhor, acompanhado de amigos da escola. Fui a muitos jogos do Palmeiras, no Pacaembu; Palestra Itália e Morumbi. Foi nesse ano inclusive que vi pela primeira vez um jogo internacional, pela Taça Libertadores da América de 1974, com o Palmeiras a vencer facilmente, por 3 x 0, uma equipe boliviana chamada, "Municipal", no estádio Palestra Itália.

Sobre filmes, a TV Tupi exibia uma grade com filmes, no período noturno, maravilhosa e a Rede Globo também, com sua já existente "Sessão Coruja". Ali assisti muito filmes clássicos e até filmes de arte que se pensarmos nos tempos atuais, onde a grade de filmes na TV aberta é insípida, além do fato de que prima pelo gosto popularesco, ver obras de diretores como : Roberto Rossellini; John Frankenheimer; Monte Hellman; François Traffaut e tantos outros gênios dessa estirpe, em plena madrugada, pela TV, foi um privilégio para cinéfilos, como eu.
A TV Bandeirantes também tinha seus lampejos. Além do "Cine Mistério", uma sessão que ocorria às sextas, e que exibiu quase todo o acervo da produtora britânica, Hammer, algumas pérolas sessentistas ali passaram. Foi ali que vi "To Sir With Love", entre outros filmes do ator, Sidney Poitier, que tinha muito apelo libertário, apesar de ser peças do cinema comercial e não necessariamente filmes underground, do circuito de arte. Um que assisti em 1974, e que gostei muito, tem o curioso nome de "O Lucky Man" (lançado em 1973). Produção britânica e a apresentar o ator performático, Malcolm McDowell, como protagonista, mostra um pouco da loucura sessenta / setentista em Londres. Tem muita gente que confunde-o, por achar que tem algo a ver com a música quase homônima do ELP ("Emerson; Lake & Palmer"), "Lucky Man", mas não tem nada a ver.  

Mais um que vi em 1974, e revisitaria muitas vezes em ocasiões futuras, foi um filme americano chamado : "Billy Jack". Lançado em 1971, é um libelo hippie / pacifista e contra a intolerância racial. Narra a história de um índio norteamericano que servira o exército, tendo sido "boina verde" na guerra do Vietnã, e quando volta para casa, vê que sua comunidade está a ser violentamente incomodada por reacionários que odeiam índios; hippies e negros. Essa gentalha está a atormentar os alunos de uma escola de mentalidade progressista que acolhe tais minorias citadas, e ele entra na briga para defendê-los do vilipêndio todo, ao usar toda a sua técnica militar adquirida, a acrescentar a sua sabedoria oriunda de suas tradições indígenas via shamanismo. Tal filme não tem grande repercussão no meio dos cultuadores de cinema, mas é muito reverenciado entre hippies e seguidores entusiastas da contracultura, portanto, pegou-me em cheio, no ano de 1974, quando só reforçou ainda mais a minha simpatia pelos ideais aquarianos, ali expressos. 

Não foi nenhuma novidade, e pelo contrário, o filme era de 1968, mas foi em 1974 que assisti pela primeira vez a obra : "O Planeta dos Macacos". E foi com grande esforço de divulgação, pois a Rede Globo anunciou com ênfase a sua exibição, como grande novidade inédita na TV brasileira e a repercussão foi tanta que até foi citado em sala de aula, com a professora de português a propor-nos um trabalho que valeu nota, se na segunda feira posterior à exibição na Sessão "Super Cine" do sábado (que na época começava religiosamente às 21 horas, logo após a novela das oito, que começava de fato, às oito...), entregássemos uma redação para falar de nossas impressões sobre o filme. Provavelmente foi a primeira resenha de filme que escrevi e sim, ganhei 0,5 como bônus, na minha nota bimestral...

Muitas propagandas de TV, faziam referência à contracultura hippie. Eram comuns comerciais com roupas destinadas ao público consumidor jovem, que usassem o mote do movimento hippie ou do Rock, como chamariz de seus produtos. Lógico, tudo sob visão distorcida, no limite do escárnio ou no mínimo, diluído e / ou equivocado na avaliação dos publicitários e formadores de opinião.

Se eu soubesse que as calças boca de sino cairiam em desgraça alguns anos depois, juro que teria comprado um lote enorme em 1974, para garantir meu estoque... eu usava-as diariamente, além do sapato de plataforma que era Rocker ao extremo. Cheguei a ir para a escola usando um sapato roxo desses, muitas vezes e sentia-me um "Rock Star".  


Acima, o promo oficial da música "Elected", cujas imagens foram usadas na propaganda da Rádio Excelsior, "A Máquina do Som", em campanha publicitária para a TV.
 
E claro, em 1974, a propaganda da Rádio Excelsior na TV, ao usar imagens do promo de Alice Cooper para a música, "Elected", gerava-me fascínio. Aquele deboche todo em torno da figura do político corrupto, é sensacional. O chimpanzé como assessor do político interpretado por Tia Alice, é impagável, além das notas de dólares sendo jogadas para cima, em meio ao frenesi de puro escárnio por parte do corrupto típico da política. 

Ao falar sobre publicações, além dos jornais tradicionais e da revista "Placar" que eu sentia ser antagônica ao Rock, mas não tinha vergonha em ler assiduamente, assim mesmo, claro que a Revista "Pop" entrou na minha vida, com força.  

Gostava muito das matérias sobre música e cinema, sobretudo, mas ao mesmo tempo, achava-a híbrida, e no mau sentido do termo. Havia pois um lado "careta" na sua abordagem, que desagradava-me. Entendo que seus editores tinham a intenção em alcançar várias camadas da juventude e não somente os freaks antenados em arte & contracultura, mas as matérias sobre moda e demais signos femininos inerentes, ainda que a evocar os supostos valores "jovens", soavam-me caretas. Foi nítido e mesmo aos 14 anos de idade eu já percebia isso, ou seja, que a intenção ali era adaptar a editoria da Revista Claudia, que inclusive era propriedade do mesmo grupo empresarial, à realidade "jovem" para "falar" com as adolescentes e futuras consumidoras da "Claudia".

Era salutar a intenção em ser multiuso, ao dar dicas sobre sexualidade e comportamento; falar sobre questões como a relação pais e filhos e tratar de assuntos inerentes ao universo dos adolescentes, ao abordar escolha de profissão e vestibular, entre outros tópicos, mas toda essa salada diluía a publicação, ao meu ver.

Memoráveis foram os posters, com grande predominância de bandas de Rock, mas também a trazer elementos oriundos do cinema. Foi na revista "Pop" que li matérias a cobrir o making of de filmes que estavam por ser produzidos naquele instante e que eu assistiria no cinema, logo a seguir. Predominava a escolha por filmes com sentido contracultural em essência e eu adorava tais matérias, não só pelo seu conteúdo, mas também pelo teor da escrita, a denotar sempre haver o deslumbre pelo "desbunde" setentista, em meio à carga contracultural e o sentido das descobertas.

Escrevi uma matéria a falar sobre a Revista Pop. Eis abaixo o Link que direciona ao meu Blog e onde o leitor pode aprofundar tal impressão de minha parte :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/08/revista-pop-por-luiz-domingues.html

Em 1974, houve uma gravíssima epidemia de meningite no estado de São Paulo. Com a intenção deliberada em evitar-se o pânico, mas certamente para coibir desgaste político, as autoridades esconderam a verdade da população com mão de ferro. As aulas foram suspensas na rede estadual pública (onde eu estudava), e creio que também na municipal e em escolas particulares. Mas o governo negou que a suspensão das aulas tenha tido tal motivação. Atitude abominável, diga-se de passagem. Foram semanas sem aulas e claro que adolescentes que éramos, aproveitamos muito, mas lógico também, que teve o lado mau disso, com a reposição das aulas perdidas, a ocupar boa parte das férias, a posteriori.
Uma vez na escola, uma colega apareceu com uma revista, "Circus", em nossa classe. Tratava-se de uma revista norteamericana a cobrir o Rock norteamericano e britânico principalmente, muito famosa nos anos setenta e com aquele padrão gráfico internacional que nós não tínhamos ainda no Brasil. Quando vi aquela revista com papel couchê brilhante em alto padrão, e dotada daquelas fotos inacreditáveis, claro que enlouqueci.

A dona do exemplar dessa revista andava com os freaks mais velhos da escola e subestimava-me, pois achava que eu era um reles garoto alheio à tudo isso e só interessava-me por futebol, portanto, havia da parte dela um desprezo pela via da soberba. Ao ouvir as minhas observações entusiasmadas sobre as reportagens ali contidas, perguntou à um freak (que era aquele sujeito que já citei anteriormente e que parecia-se com o baixista, Dennis Dunaway da banda do Alice Cooper, e que repetente, estava na sétima série de novo...) : -"ele (ao referir-se à minha pessoa), entende de som" ? Ao verificar que eu tecia elogios ao Leon Russell, objeto de uma das reportagens ali contidas, respondeu-lhe : -"o cara sabe"...
Daí em diante, ganhei o respeito deles e muito intercâmbio bom aconteceu nesse ano e no posterior, 1975, com esses amigos. 


Foi em 1974 que ouvi falar pela primeira vez de alguns filósofos e escritores importantes para a contracultura. Herbert Marcuse; Tim Leary; Aldous Huxley; Allen Ginsberg; Hermann Hesse e Carlos Castañeda. Mas só começaria a conhecê-los de fato, de 1975 para frente.

Acompanhei com muito interesse a eleição para deputados e senadores em 1974. Cheguei a ir com meu pai para assistirmos a marcha das apurações, ao revivermos algo que fazíamos bastante nos anos sessenta, quando eu fui criança. Lembro-me de termos encontrado o então deputado, Ulisses Guimarães, no Ginásio do Ibirapuera e ele ter lembrado-se que cumprimentara-me pequeno, certa vez, e que eu agora já estava grande... tirante a obviedade da colocação, fora verdade sobre ter conhecido-me em minha tenra infância....  
Mais ou menos em novembro, começou a passar na Rede Globo, propagandas do lançamento do novo disco dos Mutantes, que chamava-se : "Tudo Foi Feito pelo Sol". Aquela propaganda enlouquecia-me. Eu já acompanhava os Mutantes, desde os festivais de MPB da TV Record, nos anos sessenta, mas agora sentia-me em ebulição para finalmente vê-los ao vivo e ao olhar os cartazes Lambe-Lambe pelas ruas e anúncios em jornais e revistas, a dar conta de que estavam sempre por perto, eu precisava ter esse contato direto com tal vibração. Absolutamente arrebatado pelo Rock, não via a hora em sair do meu "restrito mundo", pautado pela observação e audiência à distância, para dar um passo além, ao sentir essa energia ao vivo. E se meus pais haviam liberado-me para frequentar estádios de futebol sozinho, ir a shows de Rock seria certamente o próximo passo.

E assim, meu primeiro show de Rock foi em grande estilo. Teatro Bandeirantes, um templo do Rock setentista brasuca, onde muitos shows importantes aconteceram. E nessa noite, toda a magia progressiva dos Mutantes em sua formação pós Rita e Arnaldo, com o LP "Tudo Foi Feito pelo Sol". Dali em diante, ter contato com esse clima tornou-se uma necessidade, mais que um prazer. Os shows começavam na porta, antes mesmo de entrar-se em um teatro ou arena de esportes / estádio. Só por ver aquele contingente formado por freaks e o aroma de patchouly no ar (peculiar entre todos, esmagadoramente), já dava-me um prazer incrível, por sentir-me ali inserido nessa egrégora, aquariana. Entrar no recinto e ver o equipamento todo montado, já valia o preço do ingresso. E quando começava o "Concerto de Rock", a magia já estava funcionando e você / eu e todo mundo em uma pessoa só... a voar... as luzes; a performance e mise-en-scenè da banda; o visual; figurinos e adereços do cenário; as luzes, e... o gelo seco !
Depois que tornei-me músico e fiz centenas de shows de Rock, uma das minhas grandes frustrações foi que não tive / tenho esse privilégio em usar tal recurso. Como efeito similar que passou-se a usar nos anos oitenta para frente, surgiu a famigerada máquina de fumaça, a tal de "Smoke Mary" a expelir aquela fumaça fétida e medíocre. Cáspite, que saudade que tenho de shows de Rock setentistas sob brumas de verdade e gélidas ! Aquilo era magia pura, 100% Tolkien, se é que entendem-me !
              Foto de Luiz Domingues em 1974. Acervo familiar

Apesar da euforia, meus pais ainda não estavam a perceber as transformações pelas quais eu estava a passar e de fato, demorariam a perceber tudo isso. Tratavam só como um lazer motivado pela passagem efêmera da juventude. Portanto, apesar de todas as lendas urbanas sobre os perigos oriundos de shows de Rock, esse negócio de Rock e Hippies cabeludos não haveria de gerar-me algum mal, na percepção deles, e além do mais, confiavam no meu temperamento, que sempre foi "zen", quase como o de um monge trapista, só que agora, cabeludo e a acompanhar o The Who, e esse detalhe eles não computavam... hora de falar sobre discos e bandas que impactaram-me em 1974 : 

O LP "Stormbringer" era a última novidade do Deep Purple, mas eu só o compraria em janeiro de 1975, portanto, em 1974, foi "Burn", o anterior, que eu estourei de tanto ouvir, mas também havia comprado o LP "Deep Purple in Rock", de 1970, e logo na primeira faixa, que começa com uma tremenda "ruideira" homérica, com direito a muitas microfonias devidamente exploradas pela alavanca da guitarra Fender Stratocaster de Ritchie Blackmore, nunca esqueço-me da minha avó materna, que ao contrário de todos os outros adultos que cercavam-me, e que odiavam aquilo, ao contrário dos demais, ela dizia-me não incomodar-se com aquela barulheira fenomenal de introdução e acrescentava que gostava da gargalhada que Ian Gillan dava em meio à canção, "Speed King"... que bom, vó !

"Warchild" foi o primeiro disco do Jethro Tull que eu comprei. Já conhecia outros pelas "salvadoras" fitas K7, mas essa foi a primeira bolacha de Anderson & Cia. que eu trouxe para a casa. Adoro o sabor super Folk que ele tem. Sou fã de todas as faixas, sem exceção. Skating away...
Os cinco primeiros discos do Led Zeppelin alegraram meus dias de 1974, não tenho dúvida. Ouvia tudo em fitas K7, mas foi "Houses of the Holy" o primeiro vinil que comprei dessa banda.

"Nós somos uma banda americana"... de fato, em meio a uma maioria esmagadora formada pelas bandas britânicas, o Grand Funk tinha lá seus motivos para bradar sua nacionalidade em plenos pulmões. "We're an American Band" foi o meu primeiro disco desse magnífico grupo, mas na fita K7, já conhecia álbuns anteriores deles, há algum tempo.
Por incrível que pareça, o primeiro disco oficial que comprei do Pink Floyd, foi uma coletânea e não um álbum de estúdio com inéditas. Tratou-se de "Relics", uma coletânea de compactos dos anos sessenta e a conter muitas músicas que não entraram nos discos de estúdio. Adoro esse álbum pela lembrança boa de 1974, e também pelo que hoje considero ter sido um investimento bom, pois entrei em contato com o universo mais psicodélico da banda, com Syd Barrett, ainda em suas fileiras.

Uma colega de minha classe, cuja família era abastada, tinha muito mais acesso às novidades internacionais do que qualquer outro colega, pelo fato de sua família estar sempre a viajar à Europa e Estados Unidos. Essa garota colecionava revistas internacionais de Rock, como "Circus" e "Melody Maker", por exemplo, e além disso, sempre trazia fitas K7 a conter discos novos de bandas consagradas ou não. E foi assim que conheci e fiquei entusiasmado por uma banda que segundo ela, estava a deslumbrar a Inglaterra naquele instante, chamada : "Queen". Ouvi os dois discos iniciais através de fitas e passei a acompanhar com muito interesse tal banda, mas só pude comprar um disco deles, em 1975, quando o terceiro álbum, "Sheer Heart Attack", saiu no Brasil.  Em minha opinião, são os três melhores discos dessa banda, e acho graça ao constatar que no imaginário da maioria das pessoas, a impressão que tem sobre o Queen é baseada nos seus discos posteriores e cada um mais perto do Pop comercial que o anterior. O poder da mídia é avassalador mesmo, ao criar paradigmas na formação de opinião...

Em 1974 foi o ano em que definitivamente passei a adorar o Rock Progressivo. Toda a discografia das bandas clássicas dessa vertente, foi apresentada-me, via fitas K7, e logo passei a colecionar seus discos. Ouvia alucinadamente o triplo ao vivo do "Yes", chamado "Yessongs", e aquela complexidade musical fascinava-me, mas ia muito além, pois fiquei muito impressionado pelo astral da obra, ao evocar aspectos espiritualistas e transcendentais, fora a atmosfera ufológica e extra dimensional da obra, tanto pelo teor das letras, quanto pelo aparato visual, com as capas de quase todos os discos dessa banda sendo produzidas pelo genial artista plástico, Roger Dean.


Aliás, sobre Roger Dean, escrevi uma matéria, onde esmiúço a sua obra e o quanto foi importante para a geração que acompanhou o Rock setentista, sobretudo a vertente do Rock Progressivo. Eis abaixo, o link para ler tal apreciação :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/12/roger-dean-e-sua-pintura-intergalatica.html 

Tornei-me fã incondicional do "Genesis", cuja delicadeza dos arranjos certamente remete à compositores clássicos como Debussy; Liszt e Berlioz, para ficar em alguns poucos. "Emerson, Lake & Palmer", que demonstrava ter complexidade e virtuosismo que eram evidentes, mas eu apreciava / aprecio a capacidade de criação de suas melodias belíssimas. Sobre o "King Crimson" acho que já falei anteriormente e outras bandas busquei conhecer e apreciar cada vez mais.

Caso do "Gentle Giant", cuja fita K7, a contero o LP "Acquiring the Taste" (de 1971), com todo aquele experimentalismo, eu adorei de imediato, por mais inusitado que possa parecer, pois a tendência é demorar para gostar-se de algo assim tão complexo e inusitado.

E uma marca registrada dos anos setenta : não havia nenhum sectarismo ! Todos os gêneros e vertentes do Rock, a denotar escolas sob influências díspares entre si, eram amadas, igualmente, sem preconceitos, sem sentimento em ser exclusivo à tribo A, B ou C.

Gostávamos de tudo e tudo era Rock, inclusive diversas matizes da MPB, do Folk em geral, Blues, vertentes do Jazz, dos vários galhos da árvore da Black Music e até da fechada e elitista música erudita, que pelo contrário, aos nossos olhos e ouvidos Rockers, soava-nos como a raiz natural de diversos segmentos, seguramente o Rock Progressivo cujas sonoridades e riqueza harmônica foi muito calcadas na estrutura da dita música "clássica". 

E de 1974 em diante, muita coisa dos anos sessenta que eu já tinha familiaridade e até gostava assumidamente, passei a gostar mais ainda. Não era por estar deslumbrado com a adolescência em meio à riqueza dos anos setenta, que ignorava as tradições sessentistas e muito pelo contrário, comecei a investigar ainda mais o passado então recente do Rock e apreciá-lo cada vez mais.

As décadas de 1960 e 1970 são na verdade, irmãs. Não existe divisão, pelo contrário, uma é decorrência direta da outra e não pensávamos, como convencionou-se na década de oitenta, que foi marcada por ser uma época fortemente comprometida com o radicalismo (muitíssimo errôneo por sinal), através do conceito de rompimento com o passado, em favor de bandeiras niilistas e desfraldadas pelo movimento punk. Mas isso só aconteceria depois de 1977, portanto não vou esticar essa análise neste momento, apenas comento en passant.

Outro disco que gostei muito em 1974, foi "It's Only Rock'n Roll" dos Rolling Stones, que tornou-se icônico e eterno em minha vida. O promo da canção homônima, com os Stones a tocar e ser engolidos por uma enorme inundação formada por bolhas de sabão, é divertido ao extremo.

Nessa altura, Johnny Winter e Robin Trower já eram guitarristas cujas carreiras eu acompanhava com entusiasmo. Claro, Edgar Winter era querido e seguido, também. O LP "EC Was Here", do Eric Clapton, que meu primo, Marco Turci, comprou nesse ano e muitas vezes fora emprestado-me, eu gastei a agulha por tanto escutar.
"Traffic"; "Ufo"; "Nazareth"... e mais uma série de bandas britânicas que afeiçoava-me cada vez mais. O "Traffic", como disse um amigo meu, muitos anos depois, "é uma caixa de bombons finos"... penso igual, é a pura verdade. Sobre o "Humble Pie", tenho saudade de uma história para lá de prosaica, mas que demonstra o quanto era difícil ser um Rocker pobre e terceiro-mundista. Entre 1974 e 1975, eu e um dos meus primos mais velhos, o Marco Turci, revezávamo-nos em uma pequena traquinagem maquiavélica. Havia uma pequena loja de discos, bem perto da casa dele, no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Ele comprou muitos discos ali, mas não tantos quanto gostaria, pela fortuna que custavam ("disco é caro", como dizia o Laert Sarrumor...).

Então, ele achou o LP "Thunderbox", do Humble Pie na tal loja (que chamava-se "Biboka", e quem frequentou o bairro do Tatuapé nos anos setenta, há de lembrar-se dela, localizada na Avenida Celso Garcia, bem perto do antigo Cine São Jorge e bem em frente à padaria Vera Cruz), e disfarçadamente, colocava-o bem para trás na gôndola, para não chamar a atenção de outros possíveis compradores. O objetivo foi evitar que fosse vendido, até que ele ou eu, reuníssemos condições em adquiri-lo. Vez por outra, para não chamar a atenção, eu é que fazia tal operação, quando ia visitá-lo. E tal ato de sabotagem casual, durou meses, até meados de 1975, quando para a nossa frustração o disco sumiu, tendo sido vendido, enfim. E é um tremendo disco, devo registrar...
Lastimavelmente, só fui tê-lo na minha estante, nos anos noventa e já em formato CD...

E foi em 1974 que comecei a descobrir o "Krautrock", a espetacular escola do Rock alemão, a entrar em minha vida, quando as coletâneas do "Nektar", "Sound Like This", volumes 1 e 2, chegaram em casa, e daí a conhecer outras bandas, foi mera consequência.

Nessa altura, eu já adorava o "Joe Cocker", havia conhecido a "Maggie Bell" e seu "Stone the Crows", e estava bastante interessado no "BTO" (Bachman Turner Overdrive), quando a investigação natural de suas raízes levou-me ao "Guess Who". 

Do pessoal do "Glitter Rock", além de todos que já citei em capítulos anteriores, aprendi a gostar do "Mott the Hoople", e a falar de Hard-Rock, quando tomei conhecimento da existência do "Bad Company", claro que foi ponte natural para retroceder ao "Free".  

Comprei meu primeiro disco do Uriah Heep, em 1974 : "Wonderworld", novo em folha, último trabalho da banda na ocasião, mas já adorava a banda, há tempos. E o meu primeiro do "Black Sabbath", "Volume 4" (de 1972), embora a K7 com "Sabbath Bloody Sabbath", posterior de 1973, tivesse gasto bem a cabeça do gravador...  

Encantei-me pelo som do "Allman Brothers Band", e daí foi fácil tornar-me um fã da escola do "Southern Rock" em geral. Vertente maravilhosa de bandas genuinamente norteamericanas do sul daquele país, versadas no Blues e na Country Music, com pegada Rocker.  

Foi em 1974, também que passei a acompanhar os "Faces", que alguns mal informados tendiam a confundir com o "Bay City Rollers", sob uma heresia sem tamanho, eu diria. Faces vinha de uma nobre estirpe, o "Small Faces" sessentista, já a outra banda citada, era apenas um grupo a fazer um pastiche Pop, insípido e assim, tal comparação mostrara-se descabida, portanto.

O LP "Diamond Dogs", do "David Bowie", encantava-me. Ouvia-o alucinadamente em 1974, e claro, por conta de uma alma generosa que emprestou para alguém... que emprestou para alguém...que copiou para o "cunhado do vizinho do amigo do meu primo"... enfim, essa cadeia de solidariedade era incrível e décadas antes das pessoas sonharem com Redes Sociais da Internet. Rebel Rebel !

E nesse ano, foi quando aproximei-me para valer do "The Who", ao abrir caminho para conhecer sua discografia e história com muito maior propriedade. Em 1975, essa banda tornar-se-ia icônica na minha vida e para o meu deleite. Estou chegando lá...

Já a apreciar o Rock nacional com o mesmo entusiasmo, via no programa "Fantástico", da Rede Globo, sempre "promos" produzidos pela própria atração e eram bem feitos para os padrões da época.

Foram incríveis as participações de artistas nacionais nesse sentido. Ali vi os Mutantes, Secos & Molhados; O Terço; Erasmo Carlos sob uma fase super Rocker; Raul Seixas; Made in Brazil etc. E continuava a gostar do Tim Maia e vários artistas que vibravam na onda da Black Music brasuca, casos de Cassiano; Dafé e outros. Toni Tornado havia sumido momentaneamente, mas hoje eu sei, ele era ator e defendia o seu lado, é claro.

Em 1974, foi o ano em que descobri e passei a acompanhar o som de Hermeto Paschoal. Ele não podia ser classificado como "Rocker", nem "Jazzista", tampouco alguém da "MPB", mas aí vale o que eu já disse, anteriormente, ou seja, não havia preconceitos. Rótulos só serviam para efeito de classificação, para situar um artista, mas jamais determinava que seu acesso fosse restrito à sua turma, apenas. Continuava a acompanhar vários artistas da MPB e muitos deles eram super freaks.

O Fenômeno dos Secos & Molhados tornou-se ultra popular, lotou o Maracanãzinho e esvaiu-se precocemente em 1974. Uma grande pena, pois adorava aquela banda, com aquela sonoridade Folk, toda cheia de coloridos musicais e muita poesia. Isso sem contar que o trio vocal que a formava, que era ótimo e a banda de apoio, espetacular. Daí em diante, debrucei-me mais e mais nessa MPB com um pé no movimento Hippie. Então, 1974 foi isso... um ano onde eu dei um mergulho e comecei a nadar, ao dar as primeiras braçadas mais firmes. Já com uma série de artistas na ponta da língua e ao acessar informações por todos os meios que podia, creio que o processo revelara-se irreversível. 

Meu entusiasmo com a música e o Rock em específico, levou-me a sonhar com a realização de uma revista, que tranquilamente poderia ter concretizado-se como "fanzine", daqueles bem setentistas que corriam em portas de teatros e arenas onde realizavam-se shows de Rock, mimeografadas e com tipologia de máquinas datilográficas. Mas ainda não foi o momento, logicamente, porque eu não tinha os meios. Foi só um sonho que esbocei ao elaborar um "boneco" (no jargão do jornalismo e do mundo gráfico em geral, "boneco" é um protótipo de uma publicação, onde monta-se um exemplar no formato como piloto, para experimentar a viabilidade da sua formatação como jornal, revista ou livro. Serve também para outras coisas, experiência com capa de disco, por exemplo). Claro, no meu caso, tratou-se de uma folha de papel sulfite dobrada para dar formato de revista e onde montei cabeçalho, e manchetes, tudo bem simples, apenas escrito a mão com caneta esferográfica. Já seria o meu lado jornalista que nunca concretizou-se verdadeiramente, mas a denotar que eu já começava a dar sinais que a música não seria apenas uma distração passageira em minha vida, assim como o seria para quase todo adolescente da minha idade, para ficar de lado em questão de mais três ou quatro anos, quando começaria a fase de alistamento militar / vestibular e pressões sócio-familiares em torno da entrada no mercado de trabalho tradicional, escolha de profissão etc. Ou seja, fechei 1974, já a borbulhar alguma coisa diferente na minha cabeça e que não era ainda a vontade em envolver-me diretamente, ao buscar ser músico e fazer parte de uma banda de Rock etc e tal. Mas já seria um sinal em querer desfrutar mais perto dessa energia que arrebatava-me cada vez mais.

E um fato inusitado, porque eu nunca fui rebelde, ocorreu-me no âmbito escolar e tal situação poderia ter atrapalhado o desencadear dos futuros passos a ser dados em minha vida. Eu estava mal de notas e não alcancei a aprovação automática para a oitava série. Pela primeira vez na vida, estive ameaçado pela repetência, e não fora por rebeldia, como já mencionei, tampouco vadiagem. Portanto, não fora o futebol e muito menos a música que estava a atrapalhar-me, ao ponto de eu ter ficado relapso e não ter feito uma boa média ao longo do ano.
        Carteirinha escolar de 1974, mas com a foto 3/4 de 1970...

Simplesmente estava mal em matérias como matemática e desenho, cujo conteúdo pedagógico nesse ano, fora desenho geométrico (sempre fui péssimo em matérias exatas, meu lado imaginativo é muito mais forte que o racional / lógico), e assim, quando o ano encerrou-se, eu fui conduzido para a "segunda época", uma espécie de "repescagem", com aulas suplementares no período de férias e ao final de janeiro do ano seguinte, haveria uma prova definitiva, como última chance. Um clima tenso instaurou-se em casa. Meus pais eram bem liberais, mas por força das circunstâncias, freei um pouco o futebol; os campeonatos de botão, e sobretudo a atenção aos discos e leituras sobre música, para estudar e aproveitar a última chance para salvar o ano. 
"Might Just Take Your Life"..."só poderia tirar a sua vida"... Tal título de música soa como um bom aforismo sobre como o Rock impactou-me em 1974. Ouça acima a canção do Deep Purple, que certamente ouvi bastante nesse ano. 

Com esse clima, fechei o ano de 1974, super empolgado com tudo o que estava a absorver no campo cultural, mas com essa pendência escolar desagradável para resolver, logo no início do ano posterior. Que viesse 1975 : o meio da década; o cabelo a crescer; a música a enlouquecer-me, e que eu concluísse a oitava série...

Continua...  

2 comentários:

  1. Sempre super interessante seus relatos, uma viagem...vc era bonito pacas pelas fotos, imagina com essa voz de locutor? as meninas do colégio caiam em cima com certeza rs...lí e vou reler novamente, gostaria de ter te conhecido, já pensou dois doidões no tempo da escola? legal! :))

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    1. Que legal que curtiu, Kim !! São tantas lembranças que mesmo essas versões de cada ano sendo super resumidas, ficam enormes, na verdade. Essa das meninas, quisera eu, hein ? Nem de longe era o tipo galã, mas agradeço o elogio. Pois é, se fôssemos amigos naquela época, teria sido um barato mesmo pela nossa similaridade de ideias e ideais; Fora o intercâmbio de Lp's e fitas K7 !! Abração !!

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