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terça-feira, 12 de julho de 2016

1973, The Great Gig in the Sky... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues


As mudanças estavam chegando junto com o crescimento do corpo físico, e diante da inerente ebulição dos hormônios, trazendo no seu bojo as transformações físicas típicas dessa fase da vida, que é igual para todo mundo. Mas ao mesmo, trazendo o apuro em relação à maturidade que iniciava sua paulatina evolução (e afinal de contas, a adolescência serve para isso mesmo), ou seja, promover a transição entre a infância e a chegada da vida adulta.  

Em se tratando de 1973, era um momento bom para ter-se treze anos de idade e colocar-se pronto para receber o melhor que esse ano memorável em termos de produção musical e cultural em geral, tinha para oferecer e dentro das possibilidades que eu tinha, posso afirmar que absorvi bastante coisa.
Luiz Domingues em foto 3/4 para a carteirinha escolar, em 1973, já ficando mais cabeludo, "meio David Bowie" no penteado...
 
Era a "fome unindo-se à vontade de comer" como diz-se no ditado popular, e alheio às possíveis dificuldades inerentes (ser brasileiro terceiromundista; estar subjugado por uma ditadura militar de mentalidade de direita; não ter autonomia total ainda; e ser membro de uma família classe média e vivendo momento de dificuldade financeira), foi nesse ano que dei um primeiro mergulho consciente nessa euforia toda em torno da contracultura e do Rock, visto que nos anos anteriores, tal processo veio num crescente, mas sem o caráter incisivo de minha parte.

Bem, antes de discorrer sobre a vida escolar e a carga que recebi em 1973, falarei da logística familiar que por conta das circunstâncias desagradáveis pelas quais nossa estada na cidade de Ribeirão Preto tivesse sido abreviada, houve um breve interlúdio ainda interiorano, antes que voltássemos definitivamente para São Paulo. Com meu pai tendo que assumir responsabilidades desagradáveis decorrentes do fechamento abrupto do restaurante que montara em Ribeirão Preto no ano anterior, e aproveitando o fato de que eu acabara de entrar em férias escolares, a solução imediata foi passarmos uma temporada na fazenda que outro irmão de minha mãe possuía, na cidade de Franca, ali na mesma região de Ribeirão Preto. 

Eu, como um paulistano mega urbano que sempre fui, nunca interessei-me pelos atributos bucólicos da vida rural, mas, até que apreciei passar os meses de dezembro de 1972, e janeiro de 1973, numa fazenda, longe do perímetro urbano da cidade. Embora com todo o conforto das instalações para hóspedes, ali não era exatamente uma fazenda de recreação, mas de produção, com meu tio tendo vários funcionários a cuidar de sua cafeicultura. Meu tio e sua família mesmo, não moravam ali, mas com todo o conforto da urbanidade da cidade de Franca, e só ia ali para conversar com o administrador e os demais funcionários, com o intuito de checar assim os trabalhos regulares por eles realizados. Relativamente grande, sua fazenda tinha pequenos lagos naturais; formações rochosas, e até um pequeno bosque natural preservado, onde não havia planos de plantar-se nada. Foi uma rara oportunidade de conviver com primos que eu não tinha muito contato anteriormente, além desse tio, que também admiro pela capacidade de expressão e cultura avantajada, sendo um escritor com livros publicados, e colaborador em jornais locais, além de que nos dias atuais, apesar da idade, é muito ativo na internet com seus artigos sobre assuntos diversos, versando sobre política & gestão pública; economia; aspectos sociais; artes & esportes, e espiritualidade, sobretudo.
Quando janeiro estava a encerrar-se, o dilema da minha situação escolar veio à tona. Não era intenção de meus pais viverem em Franca, e com aquela passagem sendo encarada como férias estratégicas, portanto, nem cogitaram matricular-me numa escola estadual naquela cidade.

Mas tampouco a família estava pronta para voltar definitivamente para São Paulo, pois com meu pai tendo pendências em Ribeirão Preto, não tinha tempo para vir à São Paulo, a fim de procurar imóvel para a família habitar e reassumir seu emprego fixo na capital, do qual licenciara-se no ano de 1972, que usou  sabaticamente para tentar aventurar-se num negócio próprio, e assim, de Franca fomos para Caçapava, outra cidade interiorana, mas muito distante dali, em outro quadrante do estado, onde morava outro irmão de minha mãe e que ofereceu sua casa provisoriamente para nós, por conta dele mesmo estar de saída, visto que estava programando mudança com sua família para a cidade de Ribeirão Preto, e assim, num encaixe de ajuda mútua, enquanto a nossa volta para São Paulo não estava organizada ainda, não tive alternativa a não ser iniciar o meu ano letivo na escola estadual no centro daquela cidade, ainda conhecido pelo seu nome antigo de "Ginásio Estadual de Caçapava".
Mais conformado com a rotina de muitas mudanças de escola, que vinha enfrentando desde 1971, digo que não senti muito dessa vez a readaptação. Mas claro, era um mundo inteiramente diferente, no sentido de que nunca na minha vida, imaginei que estudaria numa escola de uma cidade onde não tinha nenhuma raiz. O fato de meu tio morar ali com a família, era ocasional para ele também, visto ter sido por força de uma transferência no seu trabalho.
Foto bem mais atual da Praça central de Caçapava, onde a escola estadual onde estudei por pouco tempo, ficava ali perto

O colégio era bem no centro da cidade e ostentava uma edificação antiga. Não criei vínculo algum, ainda menos que em Ribeirão Preto, pois minha estada ali foi breve, pouco menos de dois meses. Foi o tempo apenas para fazer as primeiras provas bimestrais e ter boas notas, com exceção da matéria "educação musical", onde tive nota "cinco", denotando que realmente eu não tinha aptidão alguma para isso, e não estou ironizando, pois penso mesmo dessa forma e se envolvi-me com a música, foi por uma força de vontade muito grande, porque realmente, o resultado dessa avaliação condizia com a verdade sobre o caso.
Eu, Luiz Domingues, em 1973, pronto para voltar para São Paulo e começar uma aventura Rocker que nem imaginava que teria, aí nesse fugaz momento em que posei para essa singela foto...acervo familiar   

Bem, o pouco que absorvi dessa cidade, foi que apesar de ter signos culturais típicos de qualquer cidade interiorana paulista, era nítida a diferenciação em alguns aspectos, em relação à outras cidades que eu conhecia melhor e tinha laços culturais e familiares mais fortes.
Isso, apesar de efêmero, foi bacana de verificar-se. Uma característica da cidade, por exemplo, era que por ter quartel do exército ali (além de que toda aquela região do estado, o chamado Vale do Paraíba, por conta do rio Paraíba do Sul, ter forte militarização em todo o percurso entre São Paulo e Rio de Janeiro), era muito comum ver muitos militares e veículos blindados passando pelas ruas.

O lado mau disso, era que em 1973, com a ditadura pegando fogo, a escola recebia forte pressão doutrinária e a "ordem unida" era um padrão ali, militarizando a disciplina interna. Mas como já disse, não deu tempo para envolver-me em demasia com a escola e assim, esses pouco menos de 60 dias que frequentei tal escola não deixaram-me muitas lembranças além disso. Por volta da Semana Santa de 1973, eu já estava matriculado numa escola estadual paulistana e mudando-me para um bairro que eu conhecia muito bem.  

Quando meu pai comunicou-nos que achara uma casa em Moema, na zona sul de São Paulo e que ficava num quadrante do bairro que era super familiar para minhas lembranças, mais que isso, fiquei muito feliz pois ali era divisa de bairro com a Vila Olímpia, portanto, estava matriculado para continuar meus estudos na escola onde iniciei-os em 1968. Além do mais, eu conhecia muito bem aquele lado de Moema, onde moravam meus tios / padrinhos desde 1963, e minha avó paterna também morava com eles. Frequentava aquela casa deles, desde o natal de 1963, portanto. E a nossa nova casa seria na primeira travessa, distante por uma mera caminhada de dois minutos, talvez nem isso.  

Mudamo-nos para a Rua Tuim, entre os quarteirões das avenidas Pavão e Cotovia e apesar do bairro estar começando a verticalizar-se, com muitas construções de edifícios surgindo, aquele lado de Moema ainda tinha uma predominância de residências de alto padrão, mas a casa onde fomos morar era bem simples, ainda uma das últimas de uma época menos próspera desse bairro (que nessa altura estava bem sofisticado, tendo uma população classe média alta), com um quintal arborizado, parecendo casa interiorana. O fato de conhecer muitíssimo bem aquele pedaço e morar perto dos meus tios; primos, e avó paterna, também agradou-me bastante, pois estava com saudade desse convívio que fora o mais forte na minha formação, em meus primeiros anos de vida. E outro fato que animou-me : ali ficava a três quarteirões apenas do colégio onde eu tinha vínculos e também do bairro onde morei ao final da década de sessenta, e do qual guardava lembranças ótimas.  
Minha carteirinha escolar de 1973, de volta finalmente à escola onde tinha laços e lembranças desde 1968...
 
No meu primeiro dia de aulas na minha velha escola, foi um momento de reencontros e muita nostalgia. As salas de aulas; o velho corredor, e o aroma das árvores do entorno, que era tão peculiar daquela escola, fora o barulho ensurdecedor da passagem dos aviões...era como estar retomando o fio da meada perdido no início de 1971.  Em suma, por conta de fatores sociofamiliares, passara dois anos quase "errantes" e agora estava ali de novo e tal reencontro passava-me a impressão que nada mudara e que doravante, meus laços afetivos com aquela escola estavam reatados, mas como se na verdade, nunca tivessem sido rompidos.
Mas haviam diferenças, é claro. A construção da escola vizinha, que eu vira ser feita pelas janelas da minha classe em 1970, estava obviamente construída e funcionando a todo vapor. Em tal escola, agora funcionava o curso primário, que com as mudanças pedagógicas promovidas em 1971 no Brasil, equivalia a dizer que abrigavam as crianças pequenas da 1ª a 4ª série. Portanto, agora eu era um adolescente "ginasiano".

O espaço da velha escola havia sofrido algumas transformações também. O velho teatro estava preservado, mas haviam construído uma quadra poliesportiva que ficava na face da Rua Baluarte. Segundo contaram-me, tal novidade fora construída em 1972.
E creio que a melhor parte ficou por conta dos reencontros. A maioria dos colegas eram velhos conhecidos das turmas de 1968 a 1970. Nem todos estavam nessa classe onde fui colocado, alguns estavam espalhados por outras salas. Fui muito bem recebido, saudado e a expressão que mais ouvi nesse dia qualquer de abril de 1973, foi : -"você sumiu do mapa"...referindo-se ao fato de que no início de 1971, eu simplesmente não apareci mais naquela escola...pois é, não por minha vontade, certamente.

Engraçado, apesar da pouca desfasagem e convenhamos, dois anos não é nada em tese, eram os mesmo rostos, mas com todo mundo adolescente da mesma faixa etária, mudanças brutais haviam acontecido, pela força óbvia da natureza. Estávamos todos "espichados" e mesmo ainda com traços infantis misturando-se aos sinais da maturidade chegando, era engraçado ver os meus coleguinhas ostentando penugens na face, já insinuando a chegada da barba, eu incluso. E sobre as meninas, nem se fala, as transformações eram ainda maiores... crianças de outrora, que subitamente ficaram com corpos torneados de mulheres e passaram a atrapalhar nossa concentração nas aulas.
Por falar nisso, logo de início, deparei-me com um professor de História que em sua aula mudava completamente a ordem dos alunos nas carteiras. Seu objetivo só não era tão descarado quanto a imprudência em subestimar a nossa inteligência. Colocando as meninas mais bonitas na frente e em se considerando que o uniforme padrão dos colégios estaduais previa saias curtas e prendadas para as meninas, a cada cruzada de pernas que aquelas três beldades davam, ele mal disfarçava que ficava vesgo...ha ha ha. E quando as notas bimestrais saiam, as notas altas que elas tinham, destoavam das demais matérias onde iam mal e aí, os boatos corriam...que careca safado !!

Outro professor, este de "Educação Moral e Cívica", era outra figura. Um sujeito enorme, com cabeleira surpreendente para um professor, barba longa e que usava um casaco ao estilo "sobretudo" pesado, como se vivêssemos num país de inverno glacial, não chamava a atenção só pelo visual inusitado, mas pelas atitudes. Era gente boa no cômputo final, apesar da matéria ufanista que lecionava e típica de doutrinação direitista, mas sua voz e trejeitos eram engraçados. Falava com uma impostação vocal tremenda, sempre em tom solene, como se estivesse declamando e não suportava sinais de desinteresse em sua aula. Bastava uma expressão facial de tédio e ele irrompia com tudo para cima da sua vítima aos gritos de :  -"Está morrendo, ô meu" ?

Ninguém ficava temeroso com suas advertências, mas tampouco haviam desafiadores de sua autoridade. Limitavam-se a debochar de seus trejeitos e voz, imitando-o fora das aulas.

Bem, chegando aos treze anos e considerando que agora a ambientação escolar era outra, com todo mundo crescendo junto e nutrindo interesses em comum, logo fiquei amigo dos freaks pelas questões contraculturais e dos futebolistas, envolvendo-me em animadas discussões sobre as rodadas dos campeonatos e logo partindo para jogar com eles. E foi ali, de 1973 até 1976, que esse lado futebol aflorou também, pois joguei muito na escola, em campinhos pelo bairro e também em outras escolas. Usei muito aquela quadra, em ocasiões curriculares das aulas de educação física e informalmente, muitas vezes, em sábados e domingos com a escola fechada e indo lá, pulando o muro para usá-la a vontade com os amigos.

Nessa altura, já haviam muitos cabeludos na escola. Havia uma turminha de freaks mais velhos que pareciam serem os donos da escola, mas não tinham comportamento exatamente de gangsters, não praticavam bullying com os nerds, e nem afrontavam professores e direção da escola. Eu não tinha nem meios de ficar amigo deles, mas vendo-os de longe, vi que pareciam Rock Stars, sendo endeusados pelas meninas mais bonitas. O suposto líder deles era um tipo loiro, com cabelo pela cintura e que parecia o vocalista do Black Oak Arkansas, Jim Dandy. Vivia com garotas lindas penduradas no seu pescoço e claro que despertava a inveja de muitos moleques ali. Só em 1974 fiquei amigo de um desses freaks dessa turminha, um sujeito enorme, que parecia o baixista da banda do Alice Cooper, Dennis Dunaway, e que era meu xará, chamando-se Luiz. 

Por volta de agosto ou setembro de 1973, os Secos & Molhados apareceram pela primeira vez ao grande público brasileiro, através da TV. Na verdade, a banda já existia e fazia shows desde meados de 1971, mas somente freaks muito antenados estavam ligados no som dessa banda e aos olhos do grande público, a aparição que fizeram para o recém inaugurado programa "Fantástico", foi o grande debut dessa ótima banda do Rock brasileiro setentista.  

Na segunda feira posterior, o assunto no pátio da escola era só esse, com todo mundo estupefato pela performance ultra glitter da banda. Os freaks mais antenados, rapidamente associaram tal aparição aos ícones do Glitter Rock Britânico em seu auge na época, citando David Bowie; T.Rex; Mott The Hoople; Slade; Roxy Music e outros nomes dessa vertente.
Pouco tempo depois, e numa ocorrência que eu nunca entendi ao certo o que significou, uma figura estranha ao meio escolar apareceu em pleno horário do recreio de um dia qualquer e era tão glitter e afeminado quanto qualquer desses artistas dessa vertente. Trajava uma roupa de cores berrantes, com tecido de cetim; botas de plataforma e cano longo, e usava uma maquiagem feminina. Passeou e rebolou entre os estudantes, provocando gritinhos, impropérios e muitas crises de riso, mas eu nunca soube quem era e com qual propósito estava ali. Pensando hoje em dia, se estava ali fora por permissão da direção, portanto, havia um motivo plausível. Mas qual ? 

Seria um ator fazendo um laboratório para compor uma personagem ? Talvez um bailarino da trupe dos Dzi Croquettes ? Um músico de uma banda glitter ?  Parente de algum aluno esperando para falar com seu ente querido ? Ou simplesmente um ET andrógino vindo de Marte e que por engano, ao invés de descer no palco do Hammersmith Odeon de Londres em meio à um show de David Bowie, foi teletransportado por engano para o pátio da nossa escola ? Só sei que chamou muito a atenção e era glitter "pacas"...

Em 1973, foi o ano em que pela primeira vez no ambiente escolar eu passaria a ter contato com amigos e colegas que estavam absorvendo a mesma carga contracultural. Passou a ser rotina ter tal contato, embora em 1973, ainda fosse um tanto quanto tímido. Em 1974 e 1975, é que isso intensificaria-se.

Todavia, marca indelével da época, eu e alguns colegas, já estávamos naquele processo de escrever nomes e logotipos de bandas de Rock nas folhas dos cadernos escolares, nos momentos de tédio das chatésimas aulas, e como bem observou o guitarrista Eddie Van Halen alguns anos depois, "logotipo bom para banda de Rock, é aquele onde moleques de 12 anos conseguem reproduzi-lo facilmente em cadernos, livros e nas próprias calças, com o uso de uma caneta esferográfica"...  

Falando do ano letivo / desempenho escolar, sofri um pouco no início, pois o padrão da nova escola estava um pouco acima do que eu estava estudando na escola interiorana onde iniciei a sexta série. Não entendo isso, por que sendo escola estadual e supostamente a carga curricular era a mesma, unificada, mas o fato é que nas provas do segundo bimestre, meu rendimento caiu bastante e assim, tive que esforçar-me mais no segundo semestre, para nivelar as notas e alcançar a aprovação.
Na aula de ciências, o professor tinha o costume de basear sua didática na leitura do capítulo da lição do dia, mediante o livro da matéria. Na sexta série, o seu conteúdo foi o funcionamento do corpo humano. Só que esperto, ele convocava um aluno a cada vez para ler em voz alta, para não desgastar sua própria garganta. Portanto, tornou-se uma loteria saber quem ele chamaria a cada lição. -"Aluno do número tal, por favor, página dez, comece a ler o capítulo sobre o estômago"...e assim por diante.
Dessa maneira, e sabendo como funciona a cabeça de adolescentes dessa idade, começou uma rodada de apostas para tentar adivinhar com quem ele cismaria para ler os capítulos referentes aos órgãos sexuais masculino e feminino. Geralmente ele escolhia pelo número, mas quando chegou o esperado dia desse capítulo, ele veio com uma outra conversa : -"hoje eu vou querer um menino com voz de locutor de rádio, porque o capítulo é delicado e precisa ser bem ouvido"...é você, Luiz Antonio...

Bem, com toda a expectativa gerada por meses, claro que fiquei enrubescido, gaguejei no começo e ouvindo aquele monte de meninos e meninas tentando conter o riso, só inibia-me ainda mais...ha ha ha !! Fora disso, foi um ano tranquilo e feliz no sentido de que estava na minha velha escola e readaptado de forma instantânea.  


Sobre a carga contracultural de 1973, foi imensa. Não falarei de tudo, porque este capítulo ficaria enorme. Conforme já anunciei previamente neste Blog, lançarei crônicas em adendo à minha autobiografia e aí terei a oportunidade de explorar bem o tema. Sendo assim, citarei alguns exemplos apenas, neste capítulo. 

Subvertendo o óbvio, começo falando sobre a MPB e não o Rock. Desde os festivais de MPB sessentistas que comecei a acompanhar naquela década, eu nutria interesse por tal vertente nacional. Depois veio o tropicalismo e por volta de 1970, a Black Music brasuca de Tim Maia; Toni Tornado & Cia. entrara no meu radar, igualmente. E a partir de 1971 / 1972, a "MPB hippie" entrara com tudo.

Nessa altura, muitos artistas que militavam na MPB, apesar de seus acentos regionalistas, soavam Rock para a minha percepção e analisando friamente, a maioria deles eram na verdade representantes de uma vertente "Folk" internacionalista no sentido de que sua música era universal de fato, apesar dos seus regionalismos propositais e assim, Caetano Veloso; Gilberto Gil; e tantos outros que vinham militando desde os anos sessenta, eram iguais ao Bob Dylan; Donovan, Cat Stevens etc etc, de uma maneira geral.
Fora isso, já estava consolidada a turma de mineiros agrupados em torno do projeto do "Clube da Esquina", e que faziam isso mesmo, música folk brasileira de extrema qualidade harmônica, melódica e também no quesito das letras, usando e abusando de sonoridades do Rock internacional, notadamente o Rock Progressivo sofisticado e super em voga naquele momento.

Outra vertente que explodia, era dos ditos compositores "malditos". Já tinha visto o Raul Seixas na TV em 1972, mas quando suas canções "Ouro de Tolo" e "Mosca na Sopa" explodiram nas rádios, foi que prestei atenção na sua obra. Dali para descobrir o LP "Krig-Ha Bandolo", foi um pulo. Já gostava do Sérgio Sampaio e logo liguei-me no Walter Franco e aquele experimentalismo todo, muito louco. Jards Macalé e Jorge Mautner vieram por tabela.

O tal do Rock rural do Sá; Rodrix & Guarabyra, pegou-me de jeito. "Mestre Jonas" com aquele órgão Hammond pontuando o riff principal e mais aquele refrão dramático, além de um monte de outras canções mega hippies e sensacionais que eles tinham, remetiam-me ao som do Crosby; Stills; Nash & Young que nessa altura eu já havia descoberto também, e apreciava muito. 

Gal Costa era sensacional, já sabia disso há tempos, e quando tive contato com o LP dos Secos e Molhados que meus primos mais velhos por parte de mãe haviam comprado recentemente, decorei-o, praticamente.

Sobre a MPB setentista ser sensacional pelo fato de ter amalgamado-se aos ideais do movimento Hippie, escrevi uma matéria sobre o assunto. Eis abaixo, o link que direciona para ela :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/09/anos-de-desbunde-quando-mpb-era-hippie.html 

Aliás, foi na casa desses primos que luzes abriram-se. Mais velhos e antenados nos amigos de sua idade, através deles, uma infinidade de discos e fitas K7 vieram parar nas minhas mãos.

Foi em 1973 que o Alice Cooper entrou com tudo na minha vida, através do seu mais recente LP, "Billion Dollar Babies", mas também aprofundei-me em sua obra, revisitando seus discos anteriores. Fiquei encantado por aquela banda, que tinha um grau de sofisticação, hoje eu sei, e apesar de toda a morbidez e deboche da proposta artística de Alice e seus asseclas, um dado subliminar ajudou-me a tornar seu fervoroso fã : as múltiplas citações ao cinema que sua música continha. Como fã de trilhas de filmes que eu era desde criança, por influência de meu pai, rapidamente identifiquei nas músicas do Alice Cooper esse quinhão, às vezes explícito ("Gutter Cat vs. The Jets", do LP "Schools Out", remete à "West Side Story", por exemplo).  

O mesmo ocorreu com David Bowie e T.Rex. Já sabia da existência de ambos há mais tempo, mas em 1973 foi que mergulhei nas obras de Bowie & Bolan e daí para explorar seus discos anteriores e conhecer outros expoentes dessa vertente britânica do Glitter Rock, foi imediato.  

O Pink Floyd também já ouvia falar desde 1970, e por volta dessa época, encantava-me com a canção "Summer' 68", mas em 1973, quando tomei conhecimento do LP "Dark Side of the Moon", logo tratei de encomendar uma cópia de fita K7 com meus primos. Fiquei doido pelo disco, evidentemente.  

Prática comum naquela década, gravar cópias em fitas K7, era uma forma de pirataria velada, porém era o mais razoável artifício para  conhecer-se e ter discos, dado o preço absurdo que um LP custava na ocasião. Dessa forma, quase todo mundo que estava apreciando som, fazia intercâmbio com fitas K7. Um amigo ou parente comprava um disco e muitas cópias circulavam em decorrência disso, mesmo sem qualidade de áudio nesse tipo de cópia sendo feita de maneira tosca, através de microfones vagabundos de gravadores portáteis, alojados na boca do alto falante de vitrolinhas. Esse tipo de gravação tosca proporcionava coisas hilárias, como no meio das músicas, barulhos captados em conjunto, como buzinas de carros; campainhas, "ring" de telefone; som de TV vindo de outros ambientes da residência; e até hilárias participações involuntárias de membros da família dialogando. No meio de um solo épico do Ritchie Blackmore, a voz do seu pai berrando para abaixar o som dessa "m"...poderia constar na gravação, ou mesmo a mãe chamando para o almoço, com o indefectível : -"anda menino, a comida está na mesa esfriando"...

Meu pai comprou-me uma vitrolinha portátil e aí fiquei independente da velha vitrola da família. E o som comeu solto. "Slider", do T.Rex; Alladin Sane e Pin Ups do Bowie; e "Slade Alive", do Slade, não saiam da ação da agulha. Ouvi muito o LP "Ram" do Paul McCartney e "Mind Games", do John Lennon. O compacto com a música "Give me Love", do George Harrison, chegou às minhas mãos e essa canção eu considero, além de linda, um dos maiores libelos do pacifismo. "Autograph", do Ringo Starr também veio em forma de compacto. Já podia dizer que adorava as carreiras solo dos quatro Beatles, na década de setenta, embora eu saiba que muita gente torça o nariz.

Foi em 1973 também que o LP "Goat's Head Soup" dos Rolling Stones entrou com tudo no meu espectro. Adoro esse disco inteiro.

E também foi o ano em que mergulhei com tudo na discografia de bandas clássicas do Hard-Rock britânico, como Led Zeppelin; Deep Purple; Uriah Heep e Black Sabbath, nessa ordem, nas fotos acima. E daí, motivei-me a procurar conhecer cada vez mais outras bandas dessa vertente setentista. Primeiramente ouvindo via fitas K7, fui apaixonando-me por essas quatro bandas britânicas que citei acima. O arsenal incrível de riffs que essas bandas tinham era / é absolutamente mágico. Fora o Hard Rock acima citado e praticado por essas bandas, rapidamente fui descobrindo outros exemplos de bandas similares, o Prog Rock entrou de vez na minha vida e não havia de ser de outra forma.

A primeira vez que ouvi o som do King Crimson, e justamente do primeiro LP de 1969, "In the Court of the Crimson King", fiquei completamente louco pela sonoridade do mellotron. Já conhecia a sonoridade desse teclado, desde ter ouvido-o em muitas músicas dos Beatles, mas com outros timbres, extremamente doces, caso da canção "Strawberry Fields Forever". Mas quando ouvi aquele som denso, absolutamente soturno e melancólico como o King Crimson usava-o, dando-lhe uma dramaticidade erudita incrível, fiquei arrebatado. Inexorável, aquela sonoridade emociona-me sempre que a ouço, nunca canso-me de ouvi-la e deixar-me viajar para muito longe.  

Foi em 1973 que comecei a ouvir Yes; Genesis e Emerson; Lake and Palmer, além de outras bandas expoentes do Rock Progressivo, mas só em 1974 é que mergulhei para valer em suas obras, e fui buscando conhecer outras bandas dessa magnífica escola setentista do Rock. A vertente do Jazz-Rock eu só descobriria no ano posterior, também. Bem, como já disse, esse é um apanhado bem resumido sobre a música que impactou-me em 1973. Esmiuçarei isso melhor no futuro, em crônicas que serão publicadas neste Blog 3, e também no meu Blog 2.

Em outros campos culturais...

Em termos de publicações, havia parado um pouco com os gibis da Ebal, contendo os universos Marvel e DC, não por crise de identidade ao considerar isso infantil e incompatível, mesmo porque aprecio-os até os dias atuais em que caminho célere para ser um sexagenário. Mas, por falta de verba, em se considerando que não trabalhava e dependendo dos pais, a verba curta que dispunha era para a revista "Placar" e agora, mais gasta em discos e fitas K7. Logo, as revistas POP e Rolling Stone entrariam no rol de objetos do desejo, também. Sobre TV, além de estar super antenado em caçar atrações musicais que remetessem ao Rock, Black Music e MPB, eu continuava a acompanhar tudo o que sempre gostei normalmente. E aos treze anos, meu grau de capacidade de absorver cinema estava cada dia melhor.  

Nesse ano, uma sessão de cinema da TV Bandeirantes, era encantadora. Chamava-se "Cine Mistério" e na sua grade, normalmente exibia filmes da produtora britânica, Hammer. Eu já era fã da Hammer, mas com o Cine Mistério, pude aumentar o meu grau de conhecimento sobre a obra dessa produtora, pois assisti muitos filmes que não havia visto antes, graças à exibição de um lote incrível.

Escrevi uma matéria sobre a Hammer no meu Blog 1. Eis abaixo o Link para consulta :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2014/11/hammer-fabrica-de-pesadelosbons-por.html

Lembro-me que em 1973 passou um ciclo de filmes do diretor Jules Dassin, na TV Tupi de São Paulo. Dassin, era americano de nascimento, mas fez fama no cinema europeu. E começava a chegar à TV, uma safra de filmes dos anos sessenta, que tinham carga contracultural explícita ou subliminar. Daí em diante, estendendo-se por toda a década, fui assistindo tal material e só reforçando assim os meus laços com tais ideais. Dois exemplos disso que exemplifico, foram os filmes "Bless the Beasts and the Children" ("Abençoai as Feras e as Crianças"), e o filme dos Monkees, de 1970, "Head", além de outros que esmiuçarei nos capítulos posteriores.  

Antes que corrijam-me, sei que "Terremoto" ("Earthquake"), é de 1974, mas só uso a ilustração aqui para falar genericamente sobre tal escola de cinema setentista
 
Nas salas de cinema, a coqueluche da vez era o cinema "catástrofe", uma vertente que havia iniciado-se no começo da década e que até 1976 renderia muito. Eram filmes com roteiros baseados em desastres espetaculares, como terremotos, incêndios e naufrágios espetaculares, fora a franquia "Aeroporto", com o mote do avião de grande porte em vias de sofrer um acidente de grande proporção e que acredito, inaugurou tal tendência no cinema americano. Em termos nacionais, era o auge das pornochanchadas, que pareciam ousadíssimas para a época, mas vistas hoje em dia parecem quadros de humor de programas popularescos da TV, tamanha a sua ingenuidade. 
E um ícone da época, "O Exorcista", que não vi no cinema na época, mas tinha muita vontade de assistir, pois os relatos que ouvia
de pessoas que o viram no cinema, eram impressionantes sobre os efeitos especiais (e dá-lhe sopa de ervilha !!). Além do mais, as lendas urbanas dando conta de que pessoas passavam mal nas salas de exibição, só instigavam ainda mais a vontade de ir ver...ah, esses marketeiros...

Comecei a ligar-me enfim no programa de TV, "TV 2 Pop Show", que mostrava vários tapes incríveis do Rock internacional. 

Escrevi uma matéria falando sobre tal programa. Eis o Link para consulta, abaixo : 

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2014/03/tv-2-pop-show-som-pop-por-luiz-domingues.html

Rockers começavam a aparecer em programas "caretas", também. Até então era algo tímido, mas depois da explosão dos Secos & Molhados, a porteira abriu...  

Portanto, Raul Seixas no Chacrinha tornou-se bastante comum. Em 1973, costumava entrar em cena de terno e gravata, carregando uma pastinha estilo "007", que deixava pousada ao chão enquanto interpretava "Ouro de Tolo". E aquela letra era um deboche tão absurdo contra o sistema, que essa encenação justificava-se. 

"Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável e ganho 4.000 cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73"...


Uma safra de artistas que era bem híbrida, por habitar o lado brega da música brasileira, mas por ter uma certa identidade Rocker, também marcava ponto. Não eram novidade em 1973, pelo contrário, já ostentavam trajetórias mais antigas, mas foi ali que eu olhava-os, assimilava algo de bom na sua obra, mas não conseguia assegurar-me de que fossem artistas realmente antenados ou se eram caretas infiltrando-se no Rock. Refiro-me à Antonio Marcos; Vanusa; Odair José e um pouco mais além, já em 1974, Silvio Brito.

Hoje em dia, sem preconceitos, acho que tem sim uma relevância na obra deles, embora não possa cravar que fossem Rockers. Isso eu falo do Erasmo Carlos; Eduardo Araújo; Leno e do Ronnie Von sem pestanejar (talvez Wanderléa, incluso), mas sobre os demais que citei, ainda paira-me a dúvida. Todavia, existe sim algo de bom na obra desses artistas que citei no início, mesmo em se considerando que até hoje sejam subestimados pelos críticos e invariavelmente tachados como artistas brega.

Em termos de desenhos animados, ainda seguindo uma tradição de adaptar a música pop ao universo infantil, os desenhos do Jackson Five passavam na Globo, numa faixa da sua grade vespertina chamada "Globo Cor Especial", alardeando o caráter inédito de serem exibidos em cores. O desenho era bem acabado e a trilha, sensacional, evidentemente, mandando os hits da banda, sem parcimônia.

Outro lançamento que eu gostei muito, mas muitos críticos desaprovam, foi a franquia de Star Trek ("Jornada das Estrelas"). Reclamam que é igual ao seriado dos anos sessenta, não apresentando novidades e eu rebato : é por isso que era legal... 
Com roteiros assinados pelos antigos roteiristas da série; as vozes dos atores da série clássica representando seus próprios personagens, sonoplastia igual e traços de desenho realistas, acho-o sensacional. É como se estivesse vendo o velho Star Trek em capítulos novos, como adendo à série, mas, enfim, tem gente que não pensou assim...

Havia a faixa de novelas das dez da noite, onde realmente deixava-se de lado um pouco o folhetim careta das novelas tradicionais e explorava-se textos mais robustos, vindos da literatura brasileira ou mesmo aderindo ao realismo fantástico, caso dos textos assinados por Dias Gomes. E as trilhas de tais novelas eram caprichadas, com MPB de fino trato; produção mais requintada; atores tarimbados etc. A bola da vez em 1973 foi "O Bem Amado" com o personagem do prefeito Odorico Paraguaçu, vivido de forma magistral por Paulo Gracindo. É um dos mais fiéis retratos do político fisiologista; demagogo; corrupto; maquiavélico e mentiroso que assola-nos até os dias atuais. Uma crítica mordaz e tanto e até espanta-me que a censura não tivesse podado a produção, com tanta alfinetada que o texto de Dias Gomes dava nessa cambada.

Seriados que assisti muito em 1973 : "M.A.S.H.", baseado no filme homônimo de 1970 (foto acima); "The Six Million Dollar Man" ("Cyborg, o Homem de Seis Milhões de Dólares"); "Mary Tyler Moore"; "Shaft"; "Barnaby Jones"; "Kung Fu"; "Police Story" e "Kojak".

Sobre "Cyborg" ("The Six Million Dollar Man"), era um Sci-Fi legal, com efeitos bacanas para a época, e curioso, porque pouco tempo depois, a cifra em questão, os tais "seis milhões de dólares" que o governo americano teria investido para fazer do agente Steven Austin (interpretado por Lee Majors), um homem com enxertos robóticos no corpo, rapidamente virou motivo de piada, visto que qualquer jogador de futebol mediano passou a ter seu "passe" valendo muito mais que isso.

"Mary Tyler Moore" era bem careta em essência, mas eu gostava da trilha sonora e os bastidores de um programa jornalístico de TV, que era o mote do seriado.  

Demorei um pouco para entender o ritmo lento e as entrelinhas de "Kung Fu". Mas quando percebi tais sutilezas, passei a apreciá-lo bastante. Um monge chinês taoista, filho de pai americano e mãe chinesa e mestre em artes marciais, andando pelo inóspito velho oeste americano, a dar pancadas nos bandidos, mas sempre dando-lhes aulas de ética e espiritualidade ao lembrar-se de seu aprendizado na infância e adolescência, tendo recebido tais ensinamentos do seu mestre, que ensinou-lhe pensamentos do filósofo Lao-Tzu, enfim...não era para qualquer um.  

Quanto aos demais que citei, de teor policial, "Barnaby Jones" eu gostei muito, embora tanto quanto outro seriado que já citei em capítulo anterior, "Cannon", era inverossímel. Um detetive particular idoso, muitas vezes atracando-se com bandidos era tão inacreditável quanto o gorducho de meia-idade que era o Frank Cannon, tendo o mesmo tipo de enfrentamento físico.  

"Shaft" era demais pela trilha. Só o tema de abertura de Isaac Hayes, já vale tudo, mas além do mais, a série é excelente, bem em clima de "Blaxpoitation", policial com cultura Black setentista, sensacional.

"Police Story" era bem tradicional, sem maiores novidades no gênero policial, mas eu gostava. E sobre "Kojak" era sensacional pelo elenco e o personagem homônimo, com Telly Savalas em atuação marcante, imortalizando o seu cinismo e o clássico pirulito vermelho. Icônico "pacas" !!


Bem, hora de falar de um conflito pessoal que assolou-me mais fortemente a partir de 1973 e que acompanharia-me por anos a fio.

Cada dia mais enlouquecido pelo Rock; música e contracultura, ao mesmo tempo nutrindo paixão pelo futebol, a partir dos treze anos senti-me num fogo cruzado entre forças que pareciam antagônicas.

Se por um lado o Rock era libertador, e remetia-me à um tipo de estratificação cultural sofisticada e que por conseguinte, abria (em certos casos reforçava, pois eu já tinha apreço por uma série de elementos culturais avantajados, digamos assim), portas cada vez mais incríveis nesse sentido, fazendo meus horizontes expandirem-se enquanto visão macro da vida, o futebol estava atrelado a signos popularescos e em certos aspectos, remetendo à questões muito primárias e portanto, diametralmente opostas ao que eu estava absorvendo. Tal dilema incomodava-me, pois já tinha a plena percepção de que o mundo do futebol não era compatível com a contracultura, ao menos num país de terceiro mundo, pelas óbvias diferenças socioeconômicas inerentes entre si.

Todavia, mesmo dividido, nunca cogitei deixar de gostar e acompanhar e mesmo quando deparava-me com tais aspectos de antagonismo, apesar dos incômodos gerados, nunca deixei de gostar do ludopédio. Isso era gritante em muitos casos. Por exemplo, as próprias transmissões esportivas, eram norteadas por emissões de opiniões avessas aos aspectos contraculturais, inúmeras vezes. O futebol e a mídia esportiva, até hoje, tem postura conservadora, e são muitos os exemplos disso. Para não alongar-me muito, citarei um exemplo apenas. Na época e até os dias atuais, locutores e comentaristas esportivos não suportam jogadores que ostentem cabelos longos. O sujeito pode ser um gênio e fazer jogadas maravilhosas, mas o tempo todo, sempre que pegar na bola, uma alfinetada será dada sobre o visual dele. Se joga mal, vão dar um jeito de atribuir isso ao cabelo. Se joga bem, vão minimizar os seus méritos, atribuindo a boa atuação do cabeludo às falhas dos adversários que o marcaram mal. Podem reparar. Fora isso, o texto da cobertura esportiva, é geralmente pobre. Raro é o jornalista que esmera-se para ter uma redação de nível mais elevado. Só posso atribuir isso ao afã de ser coloquial ao ponto de quase nivelar tudo por baixo, para fazer-se entender melhor, visando atingir as camadas mais simples da população e que consomem jornalismo esportivo.

E aí, apreciando tudo o que eu estava acompanhando, quando lia a coluna do Carlos "Pop" Gouveia; Ezequiel Neves; Big Boy e outros colunistas que já estava acompanhando falando de música, fora que eu lia jornais há anos e acompanhava colunistas de outras editorias, era inevitável não ficar desapontado com o texto pobre que lia nos cadernos de esportes dos jornais tradicionais, e até na revista Placar. Portanto, essa diferença de mundos entre o Rock e o futebol, foi um dilema que foi acompanhando minha trajetória e incomodando-me. E digo mais, demorou para eu conviver com a ideia de que assumia gostar de algo popularesco, sem no entanto contaminar-me com tal abordagem jornalística desse patamar.

Ainda falando em esportes, em 1973 foi um ano em que aproximei-me um pouco do automobilismo por conta da conquista do Emerson Fittipaldi no ano anterior. Isso não durou muito, pois a grosso modo nunca gostei do universo automobilístico, a não ser pela abordagem saudosista de apreciar carros vintage, mais pela lembrança cultural da época que representam e muito menos pelos bólidos em si. Mas ali, em 1973, e até 1975, mais ou menos, eu tive paciência de assistir GP de Fórmula 1 na TV, e sabia o nome dos principais pilotos da ocasião. Mesmo caso do pugilismo, que acompanhei de forma discreta, mas gostava de ver as lutas de George Foreman e Muhammad Ali. 
Minha camiseta de Educação Física de 1973, que guardo com carinho, mas devido às circunstâncias metabólicas inevitáveis, mal passa pela minha cabeça nos dias atuais, 2016...
 
Voltando ao futebol, meu desempenho pessoal havia melhorado muito. Apesar das aulas de educação física do professor Florêncio serem espartanas, pois ele seguiu à risca um cronograma de primeiro fazer preparação física com muita ginástica (nunca esqueço-me da oxigenação cerebral que tive no primeiro dia e que quase fez-me desmaiar na quadra), e depois ensinar rudimentos e regras de vários outros esportes, quando finalmente liberou o futebol oficialmente nas aulas, o ano estava acabando. Mas foi o que já disse anteriormente, mesmo proibido pelo professor, joguei muito em 1973, fora das aulas.

Foi nesse ano também que comprei meu "Estrelão", um campo de futebol de mesa (botão), fabricado pela indústria de brinquedos "Estrela", e que guardo com carinho até os dias atuais. Comprei muitos outros times e adquiri o prazer enorme de elaborar tabelas de campeonatos. E modéstia a parte, fiquei bom nisso. Sou melhor que esses sujeitos que trabalham em federações estaduais e na CBF, com seus campeonatos mequetrefes e mal elaborados...

E sobre acompanhar o futebol, fui ao estádio muitas vezes nesse ano, mas ainda acompanhado, geralmente de meu primo mais velho por parte de pai. Aliás, ele era camarada e levava-me para ver o Palmeiras muitas vezes, mesmo sendo santista fanático e em retribuição, fui várias vezes com ele em jogos do Santos.

Por exemplo, assisti a famosa final do campeonato Paulista de 1973, onde o famigerado árbitro Armando Marques errou a conta da disputa de pênaltis e com a confusão armada, a federação Paulista declarou Santos e Portuguesa como campeões, dividindo o título, numa das determinações mais ridículas que já vi. O jogo, apesar disso, foi eletrizante e terminou 0 x 0 no tempo normal. Estádio do Morumbi com quase cem mil pessoas e para surpresa de muitos, com torcidas absolutamente equânimes, o que levou-nos a crer que não teve fornada de pães em São Paulo nesse dia, com todos os portugueses, donos de padarias, reunidos no estádio nesse dia. E aquele mar de bandeiras...isso é uma lembrança que tenho forte dos anos setenta, porque era bonito demais, mesmo não sendo um jogo e uma final do meu time. Apesar de meu primo ser santista fanático, chegamos tarde no estádio e vimos o jogo na torcida da Portuguesa. Ele contendo-se ao máximo para não expor suas emoções e eu, confesso, torcendo para a Lusa, porque nutro enorme simpatia por esse time e caso não enfrente o meu, ou o seu resultado não interfira para atrapalhar o meu diretamente, sempre torço a seu favor. Vi outro jogo do Santos esse ano, acompanhando meu primo Celso Luiz. E mesmo não sendo santista, assisti com muito prazer um Santos 4 x 0 Grêmio, no Pacaembu, com um show impressionante de Pelé; Edu e Carlos Alberto Torres, e no gol do Grêmio tinha o espetacular Mazurkiewicz, goleiro da seleção uruguaia e era aquele mesmo que na Copa de 1970 levou um drible de meia lua desconcertante do Pelé e a bola não entrou no gol uruguaio por absoluto azar. Quem acompanha bem a história do futebol sabe bem sobre qual jogada refiro-me. 

E claro, muitas partidas do Palmeiras contra São Paulo; Corinthians, Santos; Portuguesa; Vasco; Internacional e América Mineiro. Nessa contra o América de Minas, empolguei-me e num dos gols (foi 3 x 1 para o Palmeiras), corri ao alambrado do Pacaembu para comemorar junto com o centroavante César "Maluco", claro, não sozinho, eu em mais uns dez ou quinze torcedores que tiveram a mesma ideia.

 

Meu time foi campeão brasileiro mais uma vez, era o primeiro Bicampeonato consecutivo do clube. Aliás, fui nessa final, cujo empate servia-nos, porque era na verdade um quadrangular com Internacional; Cruzeiro e o São Paulo. Assisti o jogo na numerada inferior. Foi 0 x 0 no último jogo contra o São Paulo, e era o que bastava-nos, mas mesmo não ganhando diretamente o jogo, foi uma delícia levantar taça no campo de um arqui rival e desta vez não teve Armando Marques a auxiliar-lhes, tampouco o governador biônico que presidia-os, com faixa no peito antes do apito final.  

Voltando a falar de TV, assisti atônito o elenco da montagem brasileira da peça teatral "Godspell, a Esperança", promover seu espetáculo no programa da Hebe Camargo, e também no cafona, "Clube dos Artistas". Em ambos, os apresentadores quase ignoraram a mensagem dos atores, preferindo desdenhar do figurino e no caso, Antonio Fagundes era o protagonista, fazendo o papel de Jesus Cristo. A peça era bem legal, apesar de usar praticamente o mesmo mote de Jesus Christ Superstar. A diferença era que em "Godspell", a ação passa-se na urbanidade de Nova York e Jesus e sua trupe são hippies de certa forma, porém com a abordagem mais relativa a artistas mambembes; saltimbancos, e clows.
Gosto bastante dessa peça e do filme que adveio. Não fui nessa montagem de 1973, mas confesso que gostaria de ter visto. Tenho amigos hoje em dia que sei que assistiram-na à época.

Sobre esse espetáculo teatral e filme, escrevi uma matéria no meu Blog 1, inclusive citando a montagem brasileira. Eis abaixo o link desse material :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/02/godspell-esperanca-por-luiz-domingues.html
Ouça acima "The Great Gig in the Sky", com o Pink Floyd, um momento sublime de 1973, para ouvir-se para sempre, sem ter medo da morte, que virá um dia...
 
Quando 1973 aproximou-se de seu final, a impressão que eu tinha, é que havia absorvido tanta informação musical num curto espaço de tempo, que estava sentindo uma mudança interna acentuada, processando-se numa ebulição que não assustava-me, mas pelo contrário, imbuía-me de uma força, como jamais sentira. Pelo meu temperamento zen, que é minha marca registrada desde pequeno, a tendência seria abraçar algo compatível com essa tranquilidade natural, em termos de profissão e sim, as conversas começaram nesse sentido, tanto no âmbito familiar, quanto no escolar.

Se a música não estivesse capturando-me (e daí em diante foi um crescente impressionante, conforme contarei nos capítulos sobre 1974 e 1975), minha tendência seria a de optar pelo jornalismo e de fato, escrever é um prazer inenarrável para meu ser, haja vista eu ter assumido esse lado, mesmo que tardiamente, aos cinquenta e um anos de idade. Em 1973 e 1974, a ideia de tentar ingressar na música ainda não passava pela minha cabeça, certamente. Mas a música borbulhava fortemente à minha volta e na minha cabeça e mesmo que eu não tivesse tal consciência na época, o processo de enlouquecimento estava em curso. A máquina da loucura havia sido acionada, ainda que eu não tivesse percebido. Para encerrar este capítulo, deixo algumas letras de músicas que bombardearam-me, como aforismos, e quem as entender subliminarmente vai entender como 1973 foi sentida na minha percepção. 

"We're playing those mind games togheter, pushing the barriers, planting seeds...playing the mind guerrilla, chanting the mantra, peace on Earth"... 
"Billion Dollar Baby, Little Lady, Slicker than a Weasel
Grimy as an Alley, Loves me Like no Other Lover
Billion Dollar Baby"...


"And I am not frightened of dying, any time will do, I don't mind
Why should I be frightened of dying ?
There's no reason for it, you've gotta go sometime.

"I never say I was frightened of dying" 

"Singing in the sunshine, laughing in the rain
Hitting on the moonshine, rocking in the grain
Got no time to pack my bag, my foot's outside the door
I got a date, I can't be late, for the high hopes hailla ball" 


"My woman from Tokyo
She makes me see
My woman from Tokyo
She's so good to me" 


"Everytime I see your face, it reminds me of the places we used to go. But all I've got is a photograph, and I realize you're not coming back anymore" 

"And when I go away, I know my heart can stay with my love
It's understood...

It's in the hands of my love and my love does it good
Whoa-whoa-whoa-whoa, whoa-whoa-whoa-whoa
My love does it good" 


"Give me love, give me love, give me peace on earth
Give me light, give me life, keep me free from birth
Give hope help me cope, with this heavy load
Trying to, touch and reach you with, heart and soul" 


"Time - He's waiting in the wings, he speaks of senseless things
His script is you and me, boy

Time - He flexes like a whore, falls wanking to the floor
His trick is you and me, boy

Time - In Quaaludes and red wine
Demanding Billy Dolls
And other friends of mine
Take your time"


"Long ago I wandered through my mind, in the land of fairy tales and stories...
Lost in happiness I had no fears, innocence and love was all I knew
Was it illusion" ? 


" Take me across the water 'cause I need some place to hide
I done the rancher's daughter and I sure did hurt his pride" 


"When are you going to come down ?
When are you going to land ?
I should have stayed on the farm, I should have listened to my old man.


"Metal Guru is it you, Metal Guru is it you, sitting there in your armor plated chair, oh yeah, Metal Guru is it true, Metal Guru is it true...all alone without a telephone, oh yeah"

"Eu não sei dizer, nada por dizer
Então eu escuto, se você disser
Tudo o que quiser, então eu escuto
Fala"...


"Dentro da baleia mora mestre Jonas, desde que completou a maioridade, a baleia é sua casa, sua cidade, dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho"... 

"Ei Al Capone, vê se te emenda
Já sabem do teu furo, nego
No imposto de renda
Ei Al Capone, vê se te orienta
Assim desta maneira, nego
Chicago não aguenta"... 


"Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo"...

"Come on feel the noise, girls rock your boys
We'll get wild, wild, wild, wild, wild, wild"


"Well, down in the graveyard where we have our tryst
The air smells sweet, the air smells sick
He never smiles, his mouth merely twists
The breath in my lungs feels clinging and thick"


"Play me "Old King Cole", that I may join with you,
all your hearts now seem so far from me
it hardly seems to matter now" 


"Nous sommes du soleil...we love when we play"...

Daria para arrolar muito mais coisas, mas enfim, acho que os exemplos acima montam um mosaico significativo para ilustrar o que eu recebi de carga musical em 1973.

Encerrando, fui aprovado na sexta série e desta feita estava seguro que não teria que mudar-me de escola no ano seguinte, para cursar a sétima, evitando a chatice dos rompimentos de laços e construção de novos relacionamentos de amizade.

E ali, em meio à vitrolinha Phillips, e minha TV portátil que ganhara de natal, uma "Colorado RQ", modelo "Baby Empire" de cor abóbora (super seventies...), e mais um monte de discos e fitas K7, estava prontinho para ir ainda mais fundo nessa prospecção pelos sons.

Eu poderia ter colocado dezenas de músicas aqui para o leitor ouvir, mas o capítulo teria ficado pesado e travaria. Deixo só mais uma, não significa que seja a que mais gosto, mas uma delas, sem dúvida a representar bem o ano de 1973. Fique aí na "piração" (para usar uma gíria da época), de "Eclipse", com o Pink Floyd em seu disco do ano citado.

Que viesse 1974, e entre outras coisas, com o início do ritual de... barbear-me...

Continua...

2 comentários:

  1. Incrível, sua narrativa de vida é fantastica, parabéns amigo.

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    1. Sensacional que tenha curtido esse capítulo, amigo Kim !

      A ideia foi essa mesma, dar um complemento à autobio, com esse texto suplementar, ano a ano, desde 1960, traçando uma visão geral de como a música e o Rock em específico foi fisgando-me, desde a tenra infância e aproveitando para comentar sobre outros aspectos culturais e um pouquinho da minha vida pessoal, também.

      Valeu por comentar !!

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