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sábado, 2 de julho de 2016

1971, Top Top Top Huh, Podes Crer Amizade !! - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e na Adolescência - Por Luiz Domingues


Um certo frio na barriga eu tive, quando 1971 chegou e eu senti-me crescendo fisicamente, caminhando acelerado para encerrar de fato a infância e vendo a adolescência aproximar-se. Estava nessa crise existencial muito mais em função do medo de ser obrigado a abdicar de várias predileções e hábitos infantis, por força de uma pressão socio-familiar que julgava ser inevitável, e tal dado era fruto das impressões que eu tinha por uma somatória de fatores.
Foto de dezembro de 1971, e lá fui eu, Luiz Domingues, receber o meu diploma de conclusão do curso primário. Acervo familiar
 
Sobre tal crise de transição, já esbocei falar nos capítulos anteriores, e aqui acrescento que a fonte dessa formação de opinião errônea que tinha nessa época, além das conversas com os amiguinhos da escola, contava também com a opinião de primos mais velhos, conselhos de adultos e opiniões ouvidas através da mídia, onde devo dizer que a leitura da enciclopédia "Livro da Vida", uma coleção de vários tomos que ganhei em 1969, teve seu peso, também. E por quê ? 

Bem, sendo uma enciclopédia que lidava com artigos mesclados, tratando da vida humana contemporânea, sob a ótica da psicologia / psicanálise e sociologia / estudos sociais, essencialmente, tinha muitos artigos tratando da formação educacional de crianças e adolescentes. Portanto, estando ali vivendo esse momento de transição, eu lia aqueles artigos com muito interesse e por não ter amadurecimento para ter um senso crítico acentuado ainda, tomava tais opiniões como verdades absolutas e muitas das ideias ali expressas eram errôneas ou simplesmente carregadas de idiossincrasia da parte de quem escreveu-as, e não correspondendo portanto a algo comprovado, sem questionamentos. Demorei para perceber isso, e assim (certos artigos, não todos, é bem verdade), causaram-me um certo medo de viver a transição da infância para a adolescência.  
A questão dos vícios, era sem dúvida um dos elementos que mais atormentava-me. Avesso ao cigarro e às bebidas alcoólicas desde pequeno, não tinha nenhuma intenção de experimentá-los e chance zero de vir a gostar, mas temia por pressões; "bullying" e pior ainda, ser forçado a ter contato com esses vícios. Mas pelas conversas que ouvia, coisas que lia e principalmente no "Livro da Vida" que tinha muitas matérias falando sobre o tema, parecia inevitável que seria "obrigado" a fazer uso dessas porcarias e isso apavorava-me.

Nada disso aconteceu de fato, com o passar dos tempos, mas tal assunto foi recorrente na minha cabeça entre meados de 1969 e 1972, portanto, em 1971, posso dizer que vivi o auge dessa preocupação tola. Logo em janeiro, minha família havia planejado nova mudança de endereço e nessa altura, vivendo fase escolar e sendo tímido ao extremo, fiquei muito chateado em ter que mudar de escola, já projetando a perda de amigos que havia feito a duras penas desde 1968, e pior ainda, ter que conviver com gente inteiramente nova, num colégio diferente, em bairro longe dali.
Uma foto mais moderna da Rua Heitor Maurano, no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo, mostrando o outro lado da calçada, do lado ímpar, oposto ao da minha casa.
 
O ponto bom nessa história, é que seria uma volta à um bairro muito querido na minha percepção, o Belenzinho, na zona leste de São Paulo, onde eu havia passado os cinco primeiros anos da minha vida, e tinha lembranças ótimas. Não seria uma estada demorada, no entanto, mas provisória, pois era um encaixe que a família do meu pai precisava fazer entre um inquilino e outro que minha avó paterna teria nessa propriedade dela, e de antemão, não seria nossa residência fixa por muito tempo, com meu pai reservando uma outra casa na Mooca, bairro vizinho, para mudarmo-nos pouco meses depois. Saímos portanto da Vila Olímpia em janeiro de 1971, e fomos para esse sobrado da Rua Heitor Maurano, entre as Ruas Irmã Carolina e Conselheiro Cotegipe. Essa rua, anos antes chamava-se Rua Tatuapé, e moradores mais veteranos do bairro nem haviam acostumado-se com a mudança de seu nome, chamando-a pelo nome antigo. Rua de um quarteirão só, é praticamente imutável. Bucólica ao extremo, parece que parou no tempo e vive permanentemente nos anos vinte, pela sua tranquilidade absoluta. Meu pai viveu ali com meus avós e minha tia / madrinha, nos anos quarenta e eles todos adoravam-na, pelos momentos felizes que ali tiveram, portanto, mesmo sendo apenas provisoriamente, sentia uma alegria muito grande no meu pai por estar ali voltando às suas lembranças pessoais. Sobradão amplo, sendo uma construção dos anos vinte, tinha cômodos grandes; pé direito alto, varanda e alpendre, além de um quintal bem grande, com direito a cômodos externos ao estilo edícula. Moramos ali de janeiro a maio de 1971, apenas, mas apesar de eu ter muito maior identificação com a outra propriedade da família, onde vivi de 1960 e 1965, a três quarteirões dali, que inclusive era mais moderna, maior e mais confortável ainda, também nutri bastante prazer e simpatia por ter morado nessa casa da Rua Heitor Maurano, mesmo que de forma bem abreviada.

Outro aspecto, sendo já um pré-adolescente com quase 11 anos de idade, foi minha oportunidade de rever e reavaliar o bairro do Belém, com uma ótica bem diferente. Com autonomia, circulava a pé livremente e sozinho, explorando o bairro e vendo-o com outros olhos em 1971, muito mais maduro que estava. Fui matriculado para cursar a quarta série do curso primário, na histórica Escola Estadual Amadeu Amaral, um colégio construído em 1909, em pleno Largo São José do Belém.

Se por um lado foi chato iniciar o ritual desagradável de ambientação e formação de novas amizades, por outro, desde o primeiro dia de aulas, fiquei muito impressionado pelas instalações da escola, exatamente pela sua arquitetura antiga e que assemelhava-se à colégios europeus que eu tinha visto em filmes.

Olhando para aquelas escadarias; arcadas e abóbadas, sentia-me estudando num colégio inglês vitoriano. As salas de aula tinham pé direito altíssimo, com portas de madeira gigantescas, remetendo a castelos medievais e por conta disso, meu entusiasmo em estar ali usufruindo dessa arquitetura incrível, amenizou bastante a minha contrariedade em ter que mudar de colégio, por conta de largar o da Vila Olímpia, onde estava 100% ambientado, e com amizades solidificadas.

E dei sorte, pois a professora da minha classe era do mesmo estilo da minha antiga professora do 1º e 2º ano, em termos de personalidade e trato com as crianças. Mais velha, bastante experiente, mas também meiga e atenciosa, Dona Ivonne Maria Canalle também foi um agente ativo a facilitar minha adaptação à uma nova escola. 

Voltando a falar da minha nova residência, meu vizinho do lado direito era um adolescente de uns 15 ou 16 anos de idade. Não fiz amizade diretamente, pois não havia meio dele interessar-se em ser amigo de um molequinho de 11 anos, e nem eu tinha vontade de abordá-lo, e nessa fase, a diferença de interesses é brutal mesmo. Mas por osmose, ele ajudou-me bastante na minha formação musical, pois sendo Rocker, e já bem cabeludo para os padrões da época, tinha uma coleção de discos incrível, que ouvia muito alto de sua casa, então, era inevitável que ouvisse também os discos que ele colocava em sua vitrola.

Para início de conversa, ele havia acabado de comprar o quarto álbum dos Mutantes, "Jardim Elétrico", e escutava-o várias vezes ao dia, num volume bem alto. Eu, como já era fã dos Mutantes desde 1967, mas sem ainda acesso direto aos discos e vivendo apenas de audições radiofônicas e aparições deles na TV, posso afirmar que graças a esse vizinho, foi a primeira vez que conheci um disco inteiro dessa banda, ouvindo todas as faixas a exaustão...

"Top Top Top Uhh... eu vou sabotar"... 

E não ficava só nisso. O rapaz ouvia The Doors; Beatles; Jimi Hendrix; Santana; Led Zeppelin; e mais um monte de coisas tão legais, que quase dispensei a minha audição habitual de radinho na "Máquina do Som", pois o som que vinha do vizinho supria a minha curiosidade em descobrir e cultuar tais sons.

E muita Soul Music da pesada. O rapazinho ouvia Tim Maia e Toni Tornado com bastante disposição...

"Quando o inverno chegar... eu só quero chocolate"...

"Podes crer amizade, podes crer... falei e tá falado, bicho, tem que ser assim"...

Na escola, apesar da minha timidez acentuada e da contrariedade em ter que ter mudado, até que ambientei-me com certa facilidade, o que surpreendeu-me. Jogando bola com regularidade, fui melhorando minha técnica, mas ainda sentia-me inferiorizado pelo fato de ter começado tarde a lidar com os fundamentos do esporte, e os outros meninos quase todos já tinham maior habilidade. Mesmo assim, estava em franca evolução e apreciando cada vez mais o futebol, a própria cultura que absorvia acompanhando as transmissões ajudava-me a vencer a etapa inicial de adaptação e minha força de vontade em melhorar, contribuía muito para queimar etapas e acelerar o processo de minha melhora técnica.  

E pela primeira vez, posso afirmar que passei a conversar com amigos sobre Rock e música em geral, encontrando garotos da minha idade no mesmo processo em fomentar interesse pelo assunto. Tanto que numa ocasião em que a professora dividiu a classe em grupos para a realização de um trabalho, por sugestão de um colega, nosso grupo foi denominado "The Beatles". E foi alvo de gozação, inclusive, quando um membro de um grupo rival ironizou-nos pelo fato dos Beatles terem acabado no ano anterior e portanto, segundo ele, nós estávamos "por fora"... relembrando essa passagem, chego a ter nostalgia de um tempo onde o fim dos Beatles era algo tão recente, que podia-se dizer ter ocorrido no ano passado...

Ainda falando da vida familiar, em maio, mudamo-nos para um sobrado na Mooca, bairro vizinho ao Belenzinho, e pelo quadrante em que fomos morar, visto que a Mooca é um bairro de grande extensão territorial, ficamos extremamente perto de onde estávamos. Mesmo assim, meus pais quiseram facilitar a minha vida e pediram minha transferência para uma outra escola estadual, esta a um quarteirão da casa onde fomos morar na Rua Siqueira Bueno. De fato, a intenção foi ótima, pois para chegar ali às 7:30 h. da manhã, eu podia dar-me ao luxo de acordar em cima da hora, pois bastava atravessar a rua e tal caminhada não consumia mais que um minuto ou até segundos, se a espera pelo semáforo verde calhasse de ser imediata.

Todavia, além da contrariedade total que tive com mais uma mudança de escola pelo aspecto da readaptação que sempre era traumática em meu caso, assim que fui apresentado à nova classe e professora, senti-me num ambiente muito desagradável. Era uma professora completamente desequilibrada emocionalmente, que passava quatro horas berrando; tendo chiliques homéricos e até agredindo as crianças, conforme vi nos dois dias em que ali permaneci. Depois que eu vi a megera dando tapas na nuca de um garoto por um motivo torpe que foi ele ter deixado uma régua cair no chão, decidi que preferia andar cerca de dez quarteirões, inclusive subindo pelo viaduto Guadalajara (recém inaugurado, ligando o Largo do Belém ao bairro da Mooca, e tendo esse nome em homenagem ao México, por conta da Copa de 1970), para alcançar minha velha escola, a estudar nesse colégio que era super perto da minha nova residência, mas cujas aulas pareciam sessões de tortura comandadas por Torquemada...

Meus pais não gostaram muito da minha solicitação, visto que preocupavam-se com os vários quarteirões que separavam-nos da E.E. Amadeu Amaral, mas vendo que eu estava profundamente contrariado com a mudança, aceitaram a minha reivindicação.

Em três dias, estava de volta ao colégio Amadeu Amaral, na classe em que estava acostumado e os coleguinhas nem ficaram sabendo desse imbróglio todo, achando que eu havia faltado dois dias por motivo de doença, e estando tudo sanado, voltei a estudar com paz de espírito, encerrando o curso primário ali.

Aliás, cabe explicar que em 1971, foi o último ano da estrutura escolar antiga, pois em 1972, a educação passou por uma reforma estrutural, acabando com o conceito de curso primário e curso ginasial, tornando-os um só módulo, com 8 anos de duração.
Portanto, sou da turma que fechou essa fase antiga da educação brasileira que remontava há décadas. Tenho assim o diploma de curso primário e teoricamente, fui aprovado para ingressar no curso ginasial a seguir, inclusive tendo sido obrigado a fazer um exame de admissão, que na prática era uma espécie de vestibular e quem não passasse nessa avaliação, não podia matricular-se no curso ginasial, perdendo um ano.  

Eu estudei inclusive por alguns meses com uma turma de uma professora particular, especialista em preparação para curso de admissão, com meu pai tendo essa despesa extra, e fiz o exame no final de 1971. Fui aprovado, mas o protocolo de aprovação foi jogado no lixo, pois com a reforma do ensino, ele tornou-se desnecessário e bastava procurar uma nova escola e matricular-me na 5ª série, como passou a chamar-se o antigo "1º ano ginasial".

Nessa casa da Mooca, dado o imbróglio com essa saída e volta tumultuada ao colégio Amadeu Amaral, tornou-se minha rotina ir e voltar da escola mediante uma boa caminhada, atravessando ruas movimentadas, com grande fluxo de ônibus urbanos inclusive. Fora a subida e descida do viaduto, mas que eu gostava, apesar do perigo, pelo visual da avenida Radial Leste e visão da "selva de pedra" que dali dá para ver de uma parte do centro de São Paulo.



Foi nessa casa da Mooca também, que dei um arranque para melhorar minha técnica com o futebol, pois gastei muitas horas treinando sozinho, chutando bola na parede da garagem da casa. Desenvolvi muito a minha técnica, aprendendo a bater na bola de diversas formas (bico, concha, três dedos, rosca, lado do pé etc), e graças a tudo o que lia e ouvia na imprensa esportiva da época.  

Tornei-me fã das transmissões esportivas, acompanhando não só os jogos, mas os programas diários com boletins; mesa redonda e afins. Foi em 1971 também que adquiri um hábito doravante : sempre começo a leitura de um jornal impresso, pelo caderno de esportes. Depois que disseco essa editoria, é que vou procurar as demais...

Tornei-me fã de muitos locutores esportivos. Gostava de Fiori Giglioti, um verdadeiro poeta, no seu jeito de transmitir uma partida de futebol, dando-lhe ares de grandeza, até como se fosse algo artístico. -"Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo", era o seu bordão para descrever que a partida havia encerrado-se.

Gostava de Walter Abrahão (que havia criado a mania de não pronunciar a palavra "Pelé", mas dizendo "ele", para dar um ar de endeusamento, denotando ser tal jogador, fora da simples condição humana), e que também gostava de ironizar partidas que terminavam empatadas em 0 x 0, chamando-as de "oxo" ou "ocho", para ficar clara a pronúncia desse neologismo que ele criou.

Fernando Solera, da TV Bandeirantes, que tinha um bordão gigantesco para anunciar um gol : -"O melhor futebol do Mundo é no 13", dividindo tal frase em sílabas e com uma extensão vocal única, esticando o berro, chamava a atenção e meu pai, que odiava futebol e estava contrariado por ver que eu estava gostando, irritava-se ainda mais com esse bordão exagerado e sempre pedia para abaixar o volume da TV e resmungava : -" pô, precisava gritar desse jeito" ?
Gostava também de muitos outros locutores, comentaristas e repórteres de campo dessa época (Milton Peruzzi; José Italiano; Sérgio Noriega; Sergio Baklanos; Eli Coimbra; Geraldo Blota; Roberto Petri; José Goes, Luiz Maltoni; Alexandre Santos; Mauro Pinheiro; Dalmo Pessoa; Silvio Luiz; Peirão de Castro etc etc), e definitivamente, dali em diante, o mundo do futebol tornou-se mais um universo pelo qual eu passei a visitar com frequência.

E mais uma novidade oriunda do futebol e da qual tornei-me um praticante : os jogos de botão. Com toda essa cultura do futebol cercando-me, era inevitável que também tornar-se-ia uma prática lúdica, jogar e colecionar times de futebol de mesa / botão, e tendo assim o prazer de organizar campeonatos, elaborar tabelas etc.
Meus primeiros times foram os cinco grandes de São Paulo e assim, mesmo comprando-os em 1971, as figurinhas dos jogadores correspondiam ao times de 1970, e como naquela época eram poucas as mudanças de escalação abruptas ao contrário de como o futebol apresenta-se na atualidade, não havia nada muito defasado.
Essa foto não é do jogo que cito abaixo, mas é a formação do Palmeiras em 1971

E finalmente, para encerrar o assunto futebol, uma coisa notável e inesquecível na verdade, foi o fato de ter ido pela primeira vez a um estádio e tal experiência ter sido ratificadora de meu apreço ao esporte bretão. Foi um jogo do Campeonato Paulista de 1971, no Pacaembu, entre Palmeiras x Portuguesa. Fui levado por dois tios meus e acompanhado de um primo, todos palmeirenses. Aquela multidão (numa época onde as normas de segurança não eram observadas a risca, quase todos os jogos tinham superlotação, com o estádio abrigando muito mais gente que sua capacidade segura poderia suportar); aquele mar de bandeiras (literalmente, e aquilo era lindo de mais, aliás, justificando a letra daquela canção composta pelos irmãos, Marcos e Paulo Sergio Valle, que a TV Tupi usava nas suas transmissões dessa época, chamada "Sou Tricampeão do Mundo" e interpretada lindamente pelos Golden Boys, um quarteto vocal de muita categoria : "Eu hoje, igual a todo o brasileiro, vou passar o dia inteiro entre faixas e bandeiras coloridas"...); bandinhas das duas torcidas e salvo uma ou outra manifestação de briga, mas coisa isolada e geralmente motivada por alguém que abusara da bebida, o clima era de muita rivalidade, mas jamais de guerra, deprimente como acontece nos dias atuais. A torcida do Palmeiras cantava várias músicas em italiano, tarantelas etc. Era predominantemente formada por descendentes de italianos. O jogo terminou 3 x 3, foi eletrizante e apesar de torcer alucinadamente para o Palmeiras, meu sangue luso jamais enxergou a Portuguesa como um inimigo, e pelo contrário, achava-o um clube simpático, do qual eu tinha / tenho quase como um segundo clube do coração.
O grande Olegário Tolói de Oliveira, vulgo Dudu, volante extraordinário que nos tempos atuais onde volantes são brucutus, seria tranquilamente um meia pela habilidade; técnica, e visão de jogo.

Assisti o jogo na arquibancada bem perto do portão principal do estádio, acesso pela Praça Charles Miller. Dali vi e vibrei pela primeira vez com um gol do Palmeiras ao vivo e a emoção foi indescritível. Um dia vou escrever uma matéria só falando do que significa a explosão coletiva e catártica que representa um gol num estádio. Ver aquele time de verde jogando, em meio àquela cantoria "italianada" toda, foi uma experiência incrível. E o primeiro gol que vibrei do Palmeiras num estádio, foi do Dudu, um volante maravilhoso, daqueles que desarmavam o adversário e saiam jogando de cabeça erguida, com classe. Dudu e Ademir da Guia, a dupla de meio de campo mais maravilhosa que eu já vi jogar.

Sobre a final do Campeonato Paulista de 1971, eu que desde a tenra idade tinha horror da injustiça, vendo aquilo que fizeram com meu time, pelo tresloucado árbitro Armando Marques, mais o presidente do clube adversário sentado no banco com a faixa de campeão mesmo antes do jogo acabar, digo que fiquei muito indignado. No dia seguinte, acordar cedo para ir à escola já foi duro, e intensificou-se ainda mais quando passei pela primeira banca de jornais pelo caminho e vendo a capa do jornal "Gazeta Esportiva", ao invés de enaltecer o clube campeão, havia uma foto de página inteira com o Leivinha cabeceando a bola, claramente usando sua testa e com as mãos para trás, foi emblemática arte final do jornal ao introduzir uma seta vermelha a mostrar a bola na testa, para realçar o absurdo da anulação desse gol. Fico com a famosa frase do ex-árbitro Dulcídio Wanderley Boschillia, que foi bandeirinha nessa final (e ironicamente, um torcedor confesso do time adversário e beneficiado pelo erro crasso), que ao ser indagado por Armando Marques porque correu para o meio de campo (bandeirinhas fazem isso confirmando a legalidade de um gol, como praxe a sinalizar ao árbitro), respondeu-lhe : -"Por que foi gol legítimo"...

Falando sobre TV...

E mais uma série envolvendo personagens comprometidos com a música, veio em torno de "The Partridge Family" (A Família Dó-Ré-Mi"). Confesso que assisti e gostei, mas não ao ponto de apreciá-la nem pela metade do que eu gostava de "The Monkees".

As histórias eram divertidas, mas muitíssimo mais caretas, sem psicodelia / loucura / anarquia como havia nos Monkees. E a parte musical era bem mais centrada no pop de sonoridade "soft", com uma certa fragilidade musical, inclusive.
Bem, era uma família, literalmente, que além do seu dia a dia normal de qualquer família, também formava uma banda e seus componentes tinham suas obrigações profissionais, ensaiando; compondo; gravando e fazendo suas apresentações e ações de divulgação do trabalho.  

Claro, como qualquer garoto vivendo o ano de 1970, e isso arrastou-se pela década toda, encantava-me a figura da filha mais velha, interpretada pela atriz, Susan Dey. Aliás, o poster dela individual, que era promocional da série, foi um dos mais pendurados em quartos de adolescentes do gênero masculino na América, segundo as estatísticas e só perdia para o poster do personagem do filho mais velho (adorado por todas as adolescentes americanas e de muitas partes do mundo), que era o guitarrista da banda, interpretado pelo galã, David Cassidy, que de fato era músico / cantor e aproveitou bem a fama do seriado para sedimentar sua carreira pop na música.

Uma série policial que passei a acompanhar com bastante interesse, chamava-se "The Streets of San Francisco", que no Brasil recebeu o nome de "San Francisco Urgente". Um muito jovem Michael Douglas, que na época era apenas conhecido por ser filho do ator Kirk Douglas, interpretava um jovem policial que fazia dupla com um veterano, interpretado por Karl Malden. E o pequeno choque de gerações era interessante enquanto exposição de diferentes mentalidades para combater-se o crime nas ruas. Trilha sonora ótima e as externas mostrando as ladeiras íngremes da cidade de San Francisco, eram sensacionais.

Outra série que passei a gostar bastante, também era bem mais tradicional. Era a típica série policial envolvendo um detetive particular que além de enfrentar bandidos, também tinha dificuldades com a polícia, justamente por intrometer-se na investigação oficial. Chamava-se "Cannon", e tinha um dado muito interessante sobre o personagem do detetive Frank Cannon (William Conrad) : sendo um sujeito além um pouco da meia idade e com um sobrepeso bem proeminente, as cenas dele correndo atrás de bandidos jovens e atléticos eram no mínimo inverossímeis, mas aos 11 anos de idade, esse detalhe da sua condição física não ser compatível com certas ações heroicas do seu personagem, não incomodava-me, mas hoje em dia, claro que acho cômico...

Uma propaganda surgida mais ou menos ao final de julho de 1971, foi uma das coisas mais estarrecedoras que já havia visto até então. Era uma campanha publicitária do governo federal, leia-se ditadura militar, que num tom sombrio, mostrando uma caveira simbolizando a morte como imagem, mostrava as fotos de Jimi Hendrix; Janis Joplin e Jim Morrison. A locução era quase tétrica, e dizia que os ídolos da juventude haviam morrido por conta dos excessos com as drogas e que a juventude brasileira deveria repudia-los ao invés de adorá-los...
A despeito de que realmente os três foram imprudentes em abusar das drogas e morrerem num curto espaço de tempo entre um e outro, e todos com apenas 27 anos de idade, como infeliz coincidência, mesmo assim, julgar tal deslize, usando-o para atingir objetivos escusos, foi uma das maiores demonstrações de manipulação e preconceito que eu havia visto até então. E mesmo tendo mal completado 11 anos de idade apenas, quando via aquela propaganda horrorosa na TV, ficava bastante contrariado com o vilipêndio sobre artistas que eu admirava e a obra e genialidade dos três, nada tinha a ver com a tragédia de suas vidas e escolhas pessoais. E eu já tinha essa convicção. Portanto, não tencionava entupir-me de drogas; cigarros & bebidas, só porque gostava da arte que eles faziam...

E por falar nesse assunto ainda, numa ocasião em que visitei tios e primos, uma festinha estava acontecendo num casa no mesmo quarteirão, e ali funcionava uma dita "república de estudantes". Portanto, era óbvio que só com jovens presentes, o embalo ali fosse total e o som ecoava alto. Fomos até a esquina para ver o movimento, eu e meus primos, e de fato, estavam tocando sons bem legais, num volume alto e aquela quantidade de belas garotas ali presentes chamava-nos a atenção.

Num dado instante, uma mocinha viu-nos ali, três molequinhos com semblantes atônitos e ofereceu-nos Coca-Cola. Claro que aceitamos, mas logo um primo meu aventou a hipótese de que poderia estar batizada com "bolinhas". Aceitamos e bebemos os refrigerantes, mas com aquela dúvida instaurada entre nós... Ha ha ha... qual o interesse que teriam em fazer isso conosco ? Era realmente uma época permeada por preconceitos...

Um programa surgido na Rede Globo chamou-me a atenção e digo que apreciei-o muito em 1971. Tratava-se do "Som Livre Exportação", que era uma grande mostra musical, muito eclética, misturando artistas de diversas correntes musicais. Foi ali que conheci o som do Ivan Lins que estourou com o samba jazz, "Madalena", com Elis Regina arrebentando na interpretação. Ver os Mutantes, A Bolha e outras tantas atrações incríveis se apresentando ao vivo, foi muito legal. O programa era itinerante, como se fosse uma turnê (e era mesmo), portanto, a cada edição mensal, era exibido a partir de uma cidade brasileira diferente. A apresentação de São Paulo deu-se no recém inaugurado Parque do Anhembi, com estimativa de 100 mil pessoas na plateia.

Escrevi uma matéria sobre tal programa e eis o link abaixo para você ler com maiores detalhes sobre isso : 

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/11/som-livre-exportacao-por-luiz-domingues.html

Foi em 1971 que eu vi pela primeira vez a figura louca do Serguei, e foi de uma forma bastante deselegante com a qual trataram-no, na verdade. Vendo um programa de TV chamado "Um Instante, Maestro", do apresentador Flávio Cavalcanti, achava bastante descortês a maneira com a qual ele, Flávio, e seus convidados, que formavam uma espécie de comissão julgadora, tratavam os artistas cujo trabalho, não gostavam. E assim, como faziam com todos os discos que iriam analisar, colocaram o do Serguei, que não tocou nem poucos segundos e fazendo toda aquela mise en scene, como se estivesse transtornado, Flávio arrancou o disco do Pick-up, com violência e quebrou-o em mil pedaços, aos gritos, proferindo que aquilo era um lixo e conspurcava a "verdadeira" música popular brasileira...  

Outra ousadia ocorrida na TV, e que assisti ao vivo, foi quando Arnaldo Baptista e Rita Lee foram anunciados como casal no programa da Hebe Camargo e rasgaram a certidão de casamento, num ato de rebeldia e deboche. Isso chocou a opinião pública e houve até boatos de que as "autoridades" iriam processar o casal de "rockeiros", por desobediência civil, incitando a juventude a não respeitar a instituição do casamento, etc etc.

E mais uma que vi na TV : um programa chamado "Pinga-Fogo", produção da TV Tupi de São Paulo, com padres católicos e outras personalidades notadamente ultra conservadoras, atacando violentamente a montagem da peça musical "Jesus Christ Superstar", que estava sendo montada em São Paulo em 1971, e que sofria ameaças de boicotes e sabotagens por parte de setores tradionalistas da sociedade, encabeçados pela Igreja Católica que sentia-se ofendida com uma peça onde a paixão e morte de Jesus Cristo era retratada como um show de Rock, com hippies...

Escrevi uma matéria sobre a peça musical e filme, "Jesus Christ Superstar". Eis abaixo o link que direciona ao meu Blog 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/01/jesus-christ-superstar-por-luiz.html

E quanto mais os "caretas" mostravam-se incomodados, mais eu admirava e aproximava-me dos agentes da contracultura... 

Por falar em "Pinga Fogo", foram históricos os programas especiais com mais de três horas de duração que fizeram com o famoso médium Kardecista, Chico Xavier, em julho e dezembro. Num deles, o ator Carlos Augusto Strazzer, que era jovem na época e estava com visual hippie, com cabelos & barba longos e usando roupas bem "flamboyant", perguntou a opinião do Chico sobre o movimento hippie e quando todos os opositores de plantão acharam que ele faria um discurso moralista, cheio de preconceitos e ranço religioso, ele surpreendeu a todos e analisou as ideias revolucionárias dos hippies, como um avanço, numa rara percepção de alguém que notava o caráter espiritualista por trás daquelas ideias libertárias e baseadas no pacifismo.
Alguns filmes que assisti na TV em 1971, impactaram-me bastante. Lembro-me de uma super alardeada exibição do "King Kong" clássico de 1933, que eu gostei muito de ter visto. Seguindo essa tendência, outros clássicos do horror / Sci Fi trintista / quarentista foram exibidos, como "Drácula" e "Frankenstein", ambos de 1931; "A Múmia", de 1932 e "Lobisomem" de 1941.

E um do gênero Sci-Fi que paralisou-me em 1971, foi "The Day the Earth Stood Still" ("O Dia em que a Terra Parou"), tratando-se de uma produção de 1951, que assisti com vinte anos de atraso, portanto, mas sem prejuízo algum. Gosto tanto desse filme, que escrevi uma resenha sobre ele no meu Blog 1. 

Eis abaixo o Link da resenha que escrevi desse filme que reputo ser genial, com mais detalhes :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/06/day-earth-stood-still-por-luiz.html    

Em 1971, o chumbo estava indigesto. Antes fosse o do Led Zeppelin, mas era o chumbo grosso da ditadura. Como criança, peguei firme essa fase de doutrinação de direita, com obrigatoriedade de participar de solenidades cívicas na escola e na rua. Como já disse anteriormente, era obrigado a cantar o Hino Nacional e a canção "Eu Te Amo, Meu Brasil", todos os dias no pátio da escola, fazendo "ordem unida", às 7:30 h. da manhã, antes do início das aulas. Aquele clima de caserna, era de embrulhar o estômago... cáspite, não dava para ser liberal sem radicalizar ? Tinha que botar o pé no nazifascismo, incutir obediência servil de viés militarizado na cabeça de crianças ?? Horror !!

E dentro dessas prerrogativas que a época obrigou-nos a viver, minha escola foi participar de três manifestações desse teor. Uma era óbvia e toda escola estadual ou municipal, na cidade inteira participava, sendo o inevitável desfile escolar de 7 de setembro. Uma coisa é o norteamericano médio adorar uma parada de rua e fazer do seu "4 de julho" um acontecimento que possivelmente é sua maior comemoração nacional, só perdendo para o "thanksgiving", talvez, e tendo tanta importância quanto a final do "Super Bowl". Outra bem diferente, era a forçação de barra para imitarmos esse nacionalismo, mas sem ter nem 1% da espontaneidade com a qual o americano nutre pelo seu país. Porém, a propaganda formatada pelos teóricos da ditadura militar forçou a barra, e assim...

Bem, além do desfile do "Dia da Independência", fomos levados certa vez (salvo engano de minha parte, creio ter sido em agosto de 1971), para juntarmo-nos a outras escolas de diferentes bairros da cidade, para recepcionar a chegada do presidente, o General Emílio Garrastazu Médici, nas imediações do aeroporto de Congonhas.

Lá estava eu balançando as bandeiras do Brasil e do Estado de São Paulo, para saudar esse senhor. Com 11 anos de idade e ameaça de suspensão em caso de falta, não dava para escapar da atividade, infelizmente. Já uma outra atividade, não vou negar que gostei. Fomos levados numa tarde de um dia útil qualquer, para visitarmos uma exposição do Exército, chamada "ExpoEx", no pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. Apesar de já estar tornando-me Rocker, com muita simpatia pelos signos do Movimento Hippie e Contracultura, portanto avesso ao militarismo, pela questão do pacifismo, havia o lado bélico em minha formação cinematográfica, forjada por anos e anos de admiração pelos filmes e seriados de guerra. Portanto, alheio a toda contaminação de extrema direita que tal evento tinha em se tratando da época em que foi realizado, eu fiquei dividido em meio a tamanha contradição, mas não nego que gostei de ver os blindados; entrar dentro de tanque; ver armamentos pesados; canhões antiaéreos etc.

Uma canção que tocou muito na Rádio Excelsior, a "Máquina do Som" e da qual eu afeiçoei-me, era de uma compositora que passei a admirar muito. Pianista e cantora, mas sobretudo uma compositora de mão cheia, Carole King arrebatou-me com "It's Too Late". Posso dizer que foi a porta de entrada para conhecer mais uma vertente do Rock, no caso, o mundo do "Soft-Rock" e daí, foi um pulo para conhecer James Taylor; Carly Simon; Carpenters; Al Stewart, Cat Stevens; Don McLean; John Denver, e mais uma porção de artistas, americanos e britânicos, dessa vertente. Rock suave, pop, mas com harmonias sofisticadas, quase jazzisticas e letras bem elaboradas, com profundidade e poesia.  


Ouça acima "It's Too Late", outra pérola de 1971, obra genial de Carole King

Só fui ter o LP "Tapestry" da Carole King (lançado em 1971), muitos anos depois, já na era do CD, mas foi ali, na boca do lançamento que fui fisgado pelo seu som, com essa canção, "It's Too Late". Outra canção que apreciei muito nesse ano, veio através de uma artista brasileira que tinha forte comprometimento com a vertente do Jazz-Samba, chamada Claudia. Considerada a principal rival de Elis Regina, era uma cantora de qualidade impressionante e mais ou menos nessa época, assim como Elis, foi abrindo seu leque de repertório e absorvendo a Black Music e o Rock. Com uma canção sensacional de Marcos e Paulo Sergio Valle, chamada "Mais de Trinta", tal obra além de ser um tremendo som de orientação Soul Music, tinha uma letra inspirada, evocando uma verdadeira ode à juventude da Era do Desbunde, enumerando supostas razões para não acreditar-se mais nas ideias velhas.

"Não confie em ninguém com mais de trinta anos;
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros,
O professor tem mais de trinta conselhos...
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta
Oh mais de trinta..."


Ouça abaixo a canção "Mais de Trinta". Ela tem um interlúdio bem samba "telecoteco" tradicional, mas a parte Soul é muito marcante e aquela guitarra com Fuzz é muito sessentista, ou seja, um total desbunde...
E para reforçar a ideia de que os irmãos Valle estavam muito inspirados na Black Music, eis outra canção sensacional que compuseram e que Elis Regina gravou e lançou em 1971. Eu que já estava apreciando Soul Music desde 1968, não tinha como não empolgar-me...

Ouça abaixo, "Black is Beautiful", outro diamante negro de 1971, numa versão ao vivo, no programa "Som Livre Exportação" :


Indo para a minha escola, todo dia eu passava por uma loja de discos e namorava o álbum triplo do George Harrison, "All Things Must Pass", que ficou meses na vitrine, como destaque. Ele é de 1970, na verdade, mas saíra com atraso no Brasil, como era praxe no nosso atraso terceiromundista. Custava a exorbitância de "33 cruzeiros", caríssimo para os padrões da época e infelizmente não foi nessa ocasião que ele foi parar na minha estante de discos.  

Disco triplo maravilhoso, com aquela caixa luxuosa e um encarte recheado de fotos, além da poster gigante do Harrison, vestido como "Hippie Chic", com aquele cabelo enorme e nessa altura, "My Sweet Lord" tocava absurdamente no rádio, com todo aquele astral hippie / espiritualista. Jai, Jai, Mahatma Harrison !! 

Aliás, os trabalhos que os quatro Beatles lançaram em suas iniciantes carreiras solo, foram ótimos em 1971. Nessa altura, músicas do LP "Imagine", do John Lennon, já tocavam com profusão; "It Don't Come Easy" do Ringo Starr era hit e o LP "Ram", de Paul McCartney tocava à exaustão e na casa de meus primos, eu ouvi até estourar esse disco cuja faixa "Uncle Albert / Admiral Halsey, estão entre as minhas prediletas. 

Bem, passei de ano e para honrar o clima pesadão que pairava sobre as escolas fundamentais, com tanta doutrinação direitista, a cerimônia de colação de grau teve caráter militarizado...  

Fomos obrigados a marchar, literalmente, como um pelotão militar, cantando diversos hinos pelo caminho, da nossa escola, o Amadeu Amaral, até o cinema do Colégio Agostiniano São José, na Rua Marquês de Abrantes. Lembro-me da marcha constrangedora pelas calçadas das ruas Julio de Castilhos e Irmã Carolina, até a Marquês de Abrantes, com uma carreata de pais seguindo pela rua, devagarinho e alguns buzinando para marcar o feito. Vi várias vezes os meus pais passando, com minha avó paterna no banco de trás, acenando-me, a bordo do carro da família de então, um Esplanada 1968, azul, que aliás eu gostava muito (e idêntico ao da foto acima).
No Cine Teatro São José, pertencente ao Colégio Agostiniano São José, em dezembro de 1971, recebendo o meu diploma de conclusão do curso primário, diretamente das mãos de minha professora, a Dona Ivonne. Acervo familiar.

Recebi meu diploma das mãos da minha professora, Dona Ivonne, com o deputado estadual, Januário Mantelli Neto ao lado, que nem lembrou-se de minha pessoa, afinal de contas eu havia crescido bastante, mas em 1965, andamos juntos de carro muitas vezes com meu pai conduzindo-o para fazer entrevistas em emissoras de rádio, quando de sua campanha para a prefeitura de São Paulo. Uma surpresa que enrubesceu-me, fui chamado uma segunda vez ao palco e recebi uma medalha da minha professora, a Dona Ivonne, que agraciou-me com a honraria de ter sido o melhor aluno da classe... ha ha ha... eu não era nenhum capeta cheio de rebeldias & "atitudes", mas longe de minhas características ser um "CDF"... estudava para o gasto e se consegui ser o "melhor", não foi nada que tenha ambicionado e esforçado-me para tal, e não cometerei a indelicadeza de insinuar que os demais eram alunos mais fracos, é claro que não. 

Absorvendo contracultura cada vez mais, em 1971, foi o ano em que cortei o cabelo curto pela última vez na minha vida. Dali em diante, até 1974 mais ou menos, meus pais não importavam-se que eu fosse cabeludo, muito em função de que as cabeleiras longas haviam incorporado-se à sociedade em geral e foram sendo aceitas de uma forma mais tolerante, apesar da ditadura e da pressão de viés militarizado que imperava. Mas já era um símbolo que comecei a cultivar, e mais que isso, uma espécie de marca em forma de compromisso com uma série de ideias e ideais. Não tinha essa consciência toda em 1971, aos 11 anos de idade, é lógico, mas a semente estava plantada...

Obrigado, vizinho... eis abaixo o LP "Jardim Elétrico", dos Mutantes, com o sabor de 1971 explodindo a mais de mil HP, ou seria STP ? 
E a explosão da Soul Music brasuca, que eu apreciei muito também, e serviu para solidificar ainda mais o meu apreço pela Black Music.
Abaixo, Toni Tornado, um verdadeiro "tornado Black Power" em 1971... Podes Crer, Amizade !!

Rumo ao curso ginasial, estava crescendo e fora os temores que inclusive já relatei, mergulhando num mundo de possibilidades.

1972 seria um ano de ouro para o Rock, tantas coisas aconteceriam... e mesmo ainda não estando 100% apto para mergulhar com todas as minhas forças nesse mundo, por ser um mero garotinho ainda com obrigações escolares; familiares e dentro de uma redoma de valores prosaicos e de certa forma até antagônicos, o desbunde estava no ar e seria mera questão de tempo para pegar-me de jeito.
Mais uma foto da cerimônia de colação de grau  do curso primário, em dezembro de 1971. Acervo familiar.

Continua...

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