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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 2 - Fernando "Mu", o Deus Desconhecido - Por Luiz Domingues


Falando de tais questões radicais a primeira mudança em questão, foi que Paulo Eugênio fez contato com um músico que conhecera anos antes e com quem tivera uma banda na noite, chamado Fernando "Mu". Ele era quase uma lenda no meio musical Rocker paulistano, pois tinha um nível técnico elevadíssimo e sabia tudo de harmonia; campo harmônico, divisão rítmica etc etc.
Apesar de tocar divinamente, era lenda contudo, só no métier da noite, pois nunca havia engatilhado um trabalho autoral significativo, embora acalentasse tal esse sonho, desde o final dos anos sessenta. O próprio Sérgio Henriques disse-nos, que se o Mu entrasse na banda, nós deixaríamos de ser uma banda de bar, para  tornarmo-nos uma banda de verdade, pois sabia de sua excelência. A ideia do Paulo Eugênio era deixar o Wilson na banda, pois seus backings eram muito bons, e eventualmente tocaria violão, deixando as guitarras para Mu e Gereba, os dois "demônios".
Mas aí ficaria de fato, um desconforto. Um impasse a ser resolvido logo nos primeiros momentos da banda. Então, alheio a esse impasse, algo muito inesperado aconteceu no dia em que ensaiávamos com o Mu pela primeira vez. Dei uma tremida na base nesse dia...


Na segunda foto, a Diva Elis Regina e seu grande amigo nos anos sessenta e setenta, o radialista Walter Silva, vulgo "Pica-Pau" 

O que aconteceu, foi que o Sérgio Henriques tinha um nível muito alto como tecladista, e a sorte de ter uma esposa que tinha contatos.
Sua esposa chamava-se Celina Silva, e ela era filha do radialista Walter Silva, vulgo "Pica-Pau". Esse profissional foi muito famoso no meio radiofônico paulistano nas décadas de 1950 a 1970, principalmente, e conhecia a nata da MPB, fossem artistas, fossem empresários.


Assim, fazendo contatos, indicou o Sérgio para ser segundo tecladista da banda de uma diva da MPB : uma certa Elis Regina...
Dessa maneira, estávamos começando a ensaiar numa terça-feira tórrida de janeiro de 1980, quando vi entrarem dois senhores de terno e gravata no bar Opção. Não reparei na fisionomia deles, e continuei a tocar. Nunca esqueço-me, tocávamos "Michelle", dos Beatles quando eu olhei para trás e reconheci um dos senhores : era Cesar Camargo Mariano, marido e tecladista da Elis.

Tremi na base, pois era um músico de nível altíssimo olhando-me tocar ali, e eu com minha técnica simplória. O Sérgio conversou com eles, e cerca de quinze minutos depois, comunicou-nos que estava desligando-se da banda, pois acabara de assinar contrato para ser segundo tecladista da banda da Elis Regina, na sua nova turnê. Desejamos boa sorte, claro, ficamos eufóricos com essa oportunidade para ele, e assim ele desmontou seu piano elétrico e partiu, acompanhando o Cesar, e o outro sujeito, que devia ser um advogado.


Na foto acima, Sérgio Henriques está debruçado sobre o piano acústico, enquanto Mariano toca. Elis ouve, e com mão no bolso, de barba e óculos, está o baixista Luizão Maia. O rapaz de óculos é o trompetista, Farias.
Acompanhamos de longe a rápida ascensão dele com a Elis. Era o show "Saudade do Brasil" onde o Cesar Camargo Mariano montou uma banda enorme, com baixo; bateria; guitarra; dois tecladistas; e naipe de sopros. Por isso queria um segundo tecladista, para poder ficar mais nos solos, enquanto o Sérgio seguraria as harmonias. E recebemos várias notícias dele, doravante. Não perdemos o contato, muito pelo contrário, pois no final de 1980, ele teve férias da Elis Regina, e voltou à nossa banda, que vivia outra formação, quando somou muito, com sua técnica refinada. Nesse mesmo dia, conhecemos o Fernando "Mu". Ele era um sujeito muito estranho. Parecia um pistoleiro soturno de filmes de Westerns, com poucas palavras. Algo como Clint Eastwood ou Lee Van Cleef, chegando numa cidade do velho oeste.
Demonstrando arrogância, mal entrou e com cachimbo na boca, chegou dando ordens. O Sérgio e o Paulo Eugênio já conheciam-no, e não espantaram-se com seu gênio, mas eu; Cido Trindade e Wilson, ficamos atônitos. Quis ver o Wilson tocar, e não gostou de seus poucos recursos à época. O Gereba não estava, pois pegara o seu cachet da festa na empresa de engenharia, e fora para o nordeste, Rio Grande do Norte, para ser específico, visitar seus familiares.
Foto de um show da turnê de Elis Regina, com o Sérgio ao fundo, tocando num piano Yamaha, enquanto Elis e Cesar Camargo Mariano cumprimentam o público. 

E com a perda repentina de Sérgio Henriques, aquela promissora banda de dias atrás, estava esfarelando-se...
Mas o Mu estava ali decidido a pegar o emprego, pois conhecia o Paulo Eugênio, e sabia que ele tinha contatos na noite, e estava precisando de dinheiro, pois estava apenas tocando com uma banda que pretendia fazer som autoral (com o baixista Roatã Duprat, filho do maestro Rogério Duprat, e Luis "Bola", um baterista). A banda tinha um tremendo som, influenciado pelo King Crimson, mas não estava ganhando nada naquele momento, infelizmente.

Então, disse ao Wilson que ajudaria-o, passando-lhe harmonias, mas no primeiro show marcado, ele não tocaria por não confiar nele (o Wilson ficou muito indignado com essa franqueza gélida, e saiu do bar bravo, mas voltou, a seguir, aceitando a "ordem" depois de ponderar). E para eu, escreveu rapidamente as harmonias de umas vinte músicas, e além das letras para o Paulo Eugênio, dizendo-nos que tocaríamos aquele repertório no show...
Ele era arrogante, mas muito competente, pois sabia tudo de cor, como um maestro. E não dava para queixar-se do repertório..."Beatles"; "Traffic"; "Ten Years After"; "Elton John"; "Santana"; "Jimi Hendrix"; "Led Zeppelin"; "Deep Purple", "James Taylor"...e o melhor de tudo : o sujeito tocava muito !!

Ficamos boquiabertos vendo-o fazer o "Star Splangled Banner"(o hino norte-americano), com todos os ruídos, distorções e alavancadas idênticas ao Hendrix em Woodstock, mas com um detalhe : numa guitarra Gibson Les Paul, sem alavanca. Ele fazia toda a ruideira puxando o headstock da guitarra na mão !!!

Eis acima uma foto de uma guitarra Gibson Les Paul, modelo "Junior", idêntica à que o Mu possuía, e da qual tocou Jimi Hendrix, fazendo feed back sem alavanca...

Seus solos eram infernais !!  O mercado de covers era fortíssimo já naquela época em São Paulo. Essa tradição de bandas cover era forte desde muito tempo. No âmbito do Rock, eu diria que desde o final dos anos cinquenta, pois havia uma enorme tradição de conjuntos de bailes; festas em apresentações pelos clubes da cidade; boites; casas noturnas; festas particulares, festas colegiais etc. No final dos anos setenta, início dos oitenta, o mercado de covers era muito forte, com dúzias de bandas disputando espaço para tocar principalmente em bares.

A diferença brutal, era que naquela época, isso não atrapalhava em nada os artistas de música autoral, pois haviam espaços para eles.
A música autoral era apresentada em teatros; casas de shows; ginásios de esportes etc. Nesse circuito de bares, só tocavam bandas covers, e nenhum artista autoral interessava-se em tocar nesses espaços. Voltando ao assunto primordial, os primeiros ensaios aconteceram de forma normal, mesmo sem a presença do Gereba que estava viajando, mas nessa específica terça-feira, tudo mudou repentinamente, pois perdemos Sérgio Henriques, e o Mu entrou na banda, dando ordens e de certa forma, assustando-nos um pouco com seu gênio irascível. Gereba estava viajando, mas voltaria, e Wilson ficou bem chateado, mas tudo contornou-se adiante para ele.




Realmente, com esse temperamento petulante que o Mu possuía, tinha tudo para dar errado, todavia, ele realmente acabou saindo logo, mas por outro motivo, parecido com o que tirou o Sérgio Henriques da nossa banda. Conto a seguir, no momento oportuno.
E assim, fizemos a nova apresentação no dia 13 de janeiro de 1980, no Bar Opção. Desfalcados de Gereba e Sérgio Henriques, e estreando o Mu como novo lead guitar, tocamos como um quarteto, visto que o Wilson ficou de molho nessa noite, aguardando uma nova oportunidade.

"Lay Lady Lay" do Bob Dylan foi uma das canções que tocamos no primeiro show com a nova formação, tendo o Fernando "Mu" como "Lead Guitar"
 
Tocamos aquele repertório que o Mu estipulou, e foi muito bom. Mesmo atuando como quarteto apenas, a apresentação correu muito bem, pois o Mu era excepcional, mesmo. Suas bases harmônicas; solos; contra-solos; e desenhos rítmicos, eram de altíssimo nível. E ele cantava bem, também. Dividiu bem com o Paulo Eugênio, os vocais, e cantou solo, músicas do Elton John; Traffic, e Bob Dylan, por exemplo. Cerca de 30 pessoas apareceram nessa apresentação. Claro que haviam muitos amigos, mas foi um bom público, se considerarmos que aquele bar ficava num buraco escondido, quase debaixo de um viaduto e longe da rua agitada da boêmia no bairro, que era a 13 de maio.

O segundo show dessa fase, foi marcado para o dia 20 de janeiro de 1980, no mesmo bar. Ensaiávamos lá de terça a sexta gratuitamente, e nada mais justo que tocássemos lá. E para a nossa surpresa, quase dobramos o público, levando mais de 50 pessoas nessa nova apresentação. A formação foi a mesma, como quarteto.

Nesse ínterim, com maior convívio, aprendemos a entender melhor o Mu. Ele era altivo, mas após esse tempo de convivência, percebemos que era mais uma casca de proteção que ele carregava por suas inseguranças particulares. No fundo, era um rapaz bacana e ia contando-nos histórias sobre como entrou na música etc.
Ele era da geração Woodstock. Enlouqueceu lá por 1969 / 1970 e passou a estudar teoria musical, e guitarra de maneira compulsiva.
Tinha tido problemas com os pais por conta dessa obsessão, mas seguiu em frente. Tentou engatar trabalhos autorais na década de setenta, mas nada frutificou a contento. Tornou-se uma lenda na noite, exatamente por tocar demais, e ter um temperamento difícil.
Seu último trabalho próprio, fora com Roatã Duprat e Luis Bola, como já comentei antes. Além disso, costumavam tocar o repertório do King Crimson, com perfeição.




Sim, ele tinha esse jeito autoritário, mas no fundo era um sujeito que sentia a necessidade de ser adorado. Ele era da escola sessentista de Rock e seu sonho era o de formar uma banda e ser idolatrado como Hendrix, Page...

De sua metodologia de ensaio, no entanto, creio que não aproveitei muita coisa, pois não gosto de trabalhar em ambiente tenso. Ele tocava muito, mas sendo temperamental, não suportava erros alheios. Não chegava a destratar em público, mas olhava feio quando alguém errava. No tocante ao repertório, eu que nunca fui entusiasta de covers, ficava até emocionado com suas interpretações não só à guitarra, mas cantando também. Cantando músicas do "Traffic"; "Elton John"; e "Bob Dylan", era demais a sua atuação. Mesmo sendo arredio em relação à tocar covers, eu encarava essa fase do Terra no Asfalto como uma autêntica escola. E foi mesma decisiva, pois terminada a minha atuação nela, na metade de 1982, estava apto para encarar um trabalho autoral, com qualidade técnica vertiginosamente maior do que apresentava à época do Boca do Céu, minha primeira banda. O Mu, como vivia em dificuldade financeira, carregava sua guitarra enrolada num cobertor velho, pois não tinha case (estojo).

Essa foto é de uma guitarra Gibson Les Paul, modelo "Junior", idêntica à que o Mu possuía 

Tratava-se de uma Gibson Les Paul "Junior", ano 1958. Era uma guitarra rara e valiosa já naquela época, e hoje em dia, se consultarmos os sites de colecionadores, verificaremos que deve ter um valor estratosférico. Muito tempo depois, acho que em 1983, mais ou menos, eu soube que ele havia sido assaltado e agredido numa rua do bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo, na saída de um bar onde tocara de madrugada. Foi encontrado caído com um ferimento na cabeça, e a Gibson nunca mais foi encontrada...
Uma pena.


A maldade está solta por aí... agora, outras histórias trágicas desse nível com o Terra no Asfalto, só lembro-me de uma, mas ocorreu bem depois, na segunda fase da banda, mais ou menos em fevereiro de 1981. Contarei na devida cronologia. E quanto ao Mu, esse assalto e agressão foi um telegrama premonitório do que aconteceria-lhe alguns anos depois. Soube que mais ou menos em 1997, ele morreu assassinado num bar. O motivo teria sido um acerto de contas por conta de dívida com traficantes.


Mas voltando à cronologia, preciso contar que o Mu tocava violino também. Ele fazia os solos do Jerry Goodman e do Jean Luc Ponty (na época de ambos na "Mahavishnu Orchestra"), com perfeição, além de diversas "esmerilhações" de country music. Estava nos planos usar esse expediente, e de fato, assim que Gereba e Wilsinho incorporaram-se novamente ao conjunto, chegamos a tocar "Hurricane" do Bob Dylan, com o Mu "pilotando" o violino. A próxima apresentação foi no dia 20 de janeiro de 1980, no mesmo Bar Opção.
A Rua 13 de Maio no Bairro do Bixiga, no início dos anos oitenta, época em que era extremamente agitada, com muitas casas noturnas.

Desta vez, conseguimos levar 50 pessoas, quase o dobro da primeira apresentação. Isso era uma proeza, primeiro pelo fato da banda ainda nem ter um nome próprio definido, e segundo pela localização do bar, no agitado bairro do Bexiga, mas longe do foco do agito, que era na Rua 13 de maio. Aí, o primeiro voo maior ocorreu, quando fomos tocar enfim numa casa mais sofisticada.
Era um bar na Alameda Lorena, bairro Cerqueira César, na região da Av. Paulista, e chamado Le Café.

A partir desse show (ocorrido no dia 24 de janeiro de 1980, e com 80 pessoas presentes), o Gereba havia voltado do Nordeste, e Wilson reingressou na banda, agora tocando violão, e fazendo os backing vocals. Com os três fazendo harmonias vocais e três cordas harmonizando, além do baixo, o som cresceu demais. Passamos a tocar mais Beatles, com vocalizações bonitas dos três (Paulo Eugênio, Mu e Wilson).

O Mu passou a dar muitos toques para o Wilson, que cresceu como músico, melhorando muito. Ele era extremamente dedicado, e sonhava tocar bem. Uma particularidade dele, era que seu pai fora o alfaiate do Pelé em Santos, nas décadas de 1960 e 1970. O Wilson que era santista de nascimento e também torcedor do Santos F.C., passou a infância tendo esse contato com o "Rei" do futebol, e vários outros jogadores do Santos FC. E esperávamos um clima hostil do Mu em relação ao Gereba, mas pelo contrário, eles deram-se tão bem, que isso surpreendeu-nos. Mas hoje eu enxergo tal fato aparentemente surpreendente, com precisão: o Mu respeitou o talento nato e bruto do Gereba. Ele não sabia nada de teoria musical, mas seu ouvido era extraordinário. O Mu que era um músico de sólida formação teórica, percebeu isso. Além do mais, o Mu ficou fascinado com a escola brasileira do Gereba, via Pepeu Gomes, e quis absorver essa técnica.



Foi pelo fato do Mu ter um temperamento altivo, que esperávamos possíveis atritos com o Gereba. É muito raro um guitarrista  entender-se bem com outro, numa banda de duas guitarras. É preciso dividir muito bem os espaços na hora de elaborar arranjos, pois um choque de egos é inevitável.
Geralmente bandas com dois guitarristas só vão bem, se ambos são amigos, e sabem controlar seus respectivos instintos. O Paulo Eugênio conhecia bem a personalidade dos dois. Convivera com o Mu numa banda cover em 1978, e conhecia o Gereba desde a adolescência.

Com o Gereba não haveria problemas, pois ele era bonachão, sempre brincando, mas o Mu tinha aquela pose de estrela. Mas para a surpresa geral, eles deram-se muito bem. A sorte é que o Gereba cativou-o pela sua humildade. Como mostrou-se disposto a colocar-se como o segundo guitarrista, o Mu aprovou essa postura.
Além do mais, o Mu ficou muito fascinado pela técnica instintiva do Gereba, principalmente no estilo brasileiro. Como o Mu não tinha muito esse traquejo com a MPB, quis absorver essa influência, e o Gereba aprendeu muita coisa de Rock internacional, que era a especialidade do MU, além da teoria, estabelecendo um intercâmbio sadio entre os dois. De fato, logo o Mu receberia uma proposta irrecusável, e precisava ter essa bagagem brasileira mais na ponta da língua. Falarei disso na cronologia dos fatos.



Dessa forma, Gereba e Mu, um adaptou-se ao outro...era difícil não ficar amigo do Gereba logo de início, pois ele era um cara muito simples, mas extremamente comunicativo, brincalhão. Não lembro-me de tê-lo visto carrancudo nenhuma vez. Ele não era um Rocker, certamente. Sua cultura musical era estreita. Mal sabia o nome de muitas bandas clássicas, quiçá as obscuras. Seu talento é que era enorme para tirar de ouvido coisas complexas, e reproduzir fielmente, nota por nota, sem entender nada de teoria musical, e nada de técnica de guitarra ou violão.

Já o Mu, era o inverso. Sabia campo harmônico e escalas na ponta da língua; tinha excelente leitura de partitura, e conhecia a história do Rock de cor e salteado. Aproveito para mencionar, que havia uma turma que gravitava em torno da banda. Eram amigos do Paulo Eugênio; Gereba e Wilson, principalmente.


Neste casarão, funcionava a pensão onde moravam Gereba e Wilson, e que serviu de QG do Terra no Asfalto nos primeiros tempos da banda, como ponto de encontro. Não existe mais pois foi demolida para dar lugar à um edifício. Ficava na Travessa São Geraldo, uma minúscula travessa da rua Turiaçú, sentido centro, antes de chegar no cruzamento com a Rua Cardoso de Almeida, no bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.

O Paulo Eugênio morava na Rua Traipu, e Wilson e Gereba dividiam um quarto de pensão numa rua estreita, chamada São Geraldo, travessa da Rua Turiaçú, ambos os endereços fazendo parte do bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo. Ali era o ponto de encontro dessa turma toda. A pensão em que moravam, também chamava-se São Geraldo, e os outros moradores espantavam-se com a movimentação de cabeludos carregando instrumentos para lá e para cá.

O baixista Ney Haddad, hoje consagrado e com longo curriculum

Lembro-me que o baixista Ney Haddad era um desses amigos. Ele era um adolescente nessa época e alguns anos depois, abriria o estúdio "Quorum", no mesmo bairro das Perdizes, além de que tornar-se-ia baixista da banda "Neanderthal", com quem tanto o Pitbulls on Crack (minha banda nessa ocasião futura), teria contato em bastidores de shows e TV, nos anos noventa.

Outro rapaz que chamava-se Sérgio, e era irmão de um dos músicos da banda experimental Uakti, que dava seus primeiros passos naquela época. Ele chegou a contar-me que seu irmão idolatrava o Gentle Giant na década de setenta, e tocava bateria.

Mais um que conheci bem no início de 1980, era um tipo muito magro e elétrico, que respondia pelo apelido de "Catalau". Morava numa rua próxima (Rua Ministro Godoy), e mesmo sendo muito jovem, informaram-me que tinha sido parceiro de composições do "Casa das Máquinas", nos anos setenta.

A namorada do Mu, tocava flauta. Chegamos a cogitar ter sua participação como convidada, onde tocaríamos então, canções de bandas como Jethro Tull; Focus; Genesis; Moody Blues etc.
 Chamava-se Virginia, e acabara de voltar de Londres, quando informou-nos uma novidade: tinha visto um show recente do King Crimson...
Eu e Cido Trindade ficamos pasmos, pois nem sabíamos que o velho Rei Escarlate havia voltado à cena.

O King Crimson na sua formação dos anos oitenta, que é bem legal, mas causava muita estranheza aos fãs que acompanhavam o trabalho da banda entre os anos sessenta e setenta. E não nego, também prefiro o trabalho 1960 / 1970
 
E empolgada, dizia que o baixista usava um instrumento exótico que tinha som de baixo, mas não era baixo. Bill Bruford não usava uma bateria convencional, e os músicos tocavam de terno & gravata, e usavam cabelos curtos, tipo Kraftwerk... caramba, os anos oitenta estavam chegando... socorro !!!




Em relação às pessoas que citei no capítulo anterior, só fiquei conhecido praticamente, sem aprofundar-me na amizade com nenhum deles. No caso do Ney Haddad, tive notícias dele anos depois, dando conta que estava no interior, em Ribeirão Preto, tocando numa banda de bailes. Já no início dos anos noventa, soube que voltou a São Paulo e montou um estúdio.


Frequentei o estúdio "Quorum", de sua propriedade, onde gravei uma fita demo de um trabalho paralelo de um guitarrista, que já enfoquei no capítulo adequado (Trabalhos Avulsos).
Já entre 1992 e 1994, encontramo-nos muitas vezes por bastidores de TV; Rádio, e shows, por ele ser baixista do Neanderthal, banda que estava também na coletânea que o Pitbulls on Crack gravou no selo Eldorado. No caso do Catalau, mais para frente, vou contar um pormenor sobre uma quase entrada dele no Terra no Asfalto.

No início de 1983, ficamos mais próximos quando A Chave do Sol fechou um contrato no Victoria Pub, para dividir a noite ou com o Tutti-Frutti, ou com o "Fickle Pickle" (dependendo da noite), banda na qual ele era o vocalista. Essa história já contei com detalhes nos capítulos da Chave do Sol. O outro rapaz que era irmão de um dos componentes do "Uakti", e cujo nome não recordo-me mais, infelizmente, nunca mais o vi. Morava num prédio de apartamentos também nas imediações, e tinha uma particularidade : quando ficava doidão, tinha uma gargalhada descomunal.

Muitas vezes provocou epidemia de risadas entre nós, nem tanto pelo motivo da graça em si, mas pelo efeito avassalador de sua gargalhada, que causaria inveja ao Coringa, inimigo do Batman...
Um outro que cujo nome esqueci mas apelidado de "Catito", era completamente maluco, e tinha aquele comportamento típico de "doidão" setentista.

Lembrava o personagem "Lingote", do Chico Anísio, pois praticamente só comunicava-se por monossílabos. Era fanático pelo John Lennon, e na sua Kombi (que muitas vezes transportou a nossa banda para apresentações), só ouvia discos solos do Lennon, e enlouquecia cantando ao dirigir, berrando músicas como "Isolation", uma canção forte do álbum de 1970, "Plastic Ono Band". Fora o Edmundo, que citei logo nos primeiros capítulos, e mais um ou outro não tão marcante que tivesse-me ficado na memória, creio que o núcleo básico de amigos da banda, nessa fase inicial, era esse.






Animados com esse show no Le Café, que fizemos três dias depois, realizamos uma nova apresentação no Bar Opção.

No Le Café, levamos oitenta pessoas e dessa vez no Opção, setenta pagantes. Sem dúvida que em se tratando do universo de barzinhos, era algo expressivo esse número de pessoas.
E mais uma vez no Opção, no dia 3 de fevereiro de 1980, com noventa e cinco pessoas, demonstrando claramente que estávamos crescendo. No dia seguinte, fizemos um teste numa casa sofisticada dos Jardins, chamada : "O Ponto". Era na verdade um clube privê, uma verdadeira alcova, onde homens casados levavam suas amantes para iniciar a noitada. Foi uma apresentação bizarra em seu início, pois a casa estava completamente vazia e o gerente ordenou que começássemos








O Paulo Eugênio ainda insistiu para que esperássemos entrar gente, mas o gerente foi grosso e mais uma vez ordenou. Ok, a apresentação foi em clima de ensaio durante toda a primeira entrada e só após o intervalo, algumas pessoas foram acomodando-se nas mesas em frente do palco. Na saída, quando estávamos carregando o equipamento para fora, foi que notamos que a casa estava lotada em outros ambientes, digamos mais reservados...
 



Esse contato era do Mu, que tinha-o desde o início, mas chegou a comentar com o Paulo Eugênio, que primeiro queria ter confiança na banda, para depois vendê-la numa casa assim. Mas apesar desses avanços, a banda corria riscos. Havia um rumor de que o Mu havia recebido um convite irrecusável por parte da Celina Silva, esposa do tecladista Sergio Henriques, e que ele estava movimentando-se para aceitá-lo. Em se confirmando, abalaria as estruturas frágeis dessa banda, mas seria uma grande oportunidade para ele.







Após mais um show no Opção, no dia 10 de fevereiro de 1980, com um bom público de cem pessoas presentes, agendamos mais uma boa chance numa casa de melhor nível.
Fomos tocar no bar "Lei Seca", que ficava no Brooklin, zona sul de São Paulo. Nesse show, enfim, passamos a adotar o nome "Terra no Asfalto", após uma rápida votação. 




A explicação era a de brincarmos com o conceito contraditório entre a terra rural e o asfalto urbano. A banda não tinha nada de rural, mesmo quando tocava MPB, mas o nome tinha um certo charme. Essa apresentação no Lei Seca ocorreu no dia 12 de fevereiro de 1980 e arregimentou cinquenta pessoas. O bar era infinitamente mais bem ajambrado que o Opção, embora tivesse uma decoração rústica, imitando um "saloon" do velho oeste. Apesar do pouco público, o dono da casa gostou de nós e marcou uma nova data para o dia 16 de fevereiro de 1980. Nesse novo show, conseguimos o mesmo público da ocasião anterior (cinquenta pessoas), mas novamente fomos agendados para uma nova data. 

Continua...

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