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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 3 - Band on the Run - Por Luiz Domingues



Nesse show que caiu no sábado de carnaval, após a apresentação, guardamos o equipamento na pensão onde moravam Gereba e Wilsinho e partimos para uma viagem maluca a um paraíso Hippie. Fomos à Trindade, litoral sul do estado do Rio, que era um lugar remoto e tradicional reduto hippie. Chegamos na manhã do domingo e o ambiente estava tenso. A praia estava lotada de barracas, mas não parecia o paraíso hippie que era tradicional naquela cidade. Ficamos por menos de uma hora e resolvemos ir embora. Então, tivemos uma surpresa desagradável na saída da cidade. Como naquela época o acesso da rodovia Rio-Santos à Trindade era por uma estrada de terra íngreme, fomos subindo lentamente num comboio, pois muita gente resolveu sair também. Quando chegamos ao topo para acessar a estrada, havia uma blitz gigante da polícia civil do estado do Rio. Não havia como escapar da tocaia. Estávamos em seis pessoas numa Brasília, com bagagem; alimentos; dois violões; percussões e uma certa carga de material ilícito. Quando vimos a tocaia, o Mu foi rápido...
 






Pediu à Virgínia para esconder o material na sua calcinha, e se algum policial a tocasse, que ela fizesse um escândalo, exigindo uma policial feminina, e na confusão, se aparecesse uma policial, desse um jeito de jogar o pacote no barranco. Por sorte, não havia policiais femininas, mas mesmo assim, a blitz foi tensa, com os policiais fazendo aquele terrorismo típico por uns 40 minutos.
Sem meios de incriminar-nos em nada, liberou-nos, mas ainda fazendo ameaças, anotando a placa da Brasília preta de Paulo Eugênio, e dizendo que seríamos vigiados dali até São Paulo etc etc.





Tensão ? Foi terror mesmo... naquela época a polícia era ainda mais truculenta e com a estranha contradição de teoricamente proteger o cidadão de bem, mantendo a ordem pública em conflito com o fato de ser milícia da ditadura, considerando qualquer pessoa como um subversivo em potencial. Eu usava cabelos compridos desde 1971. Entre 1971 e 1974, eram comedidos, pouco abaixo do pescoço, mais seguindo a moda que espalhou-se pela sociedade em geral (até o Cid Moreira era "cabeludo", narrando o "Jornal Nacional"...), mas de 1975 para frente, já com 15 anos de idade, tornei-me Hippie de vez. Em 1978, o Cido Trindade tinha cortado o cabelo curto, radicalmente. O Paulo Eugênio e o Gereba não embarcavam nessa, e tinham visual de playboys, com cabelos bem cortados, além de usarem roupas de grife etc.


Mais pareciam frequentadores de clubes de discothéque, e o Mu, havia recentemente cortado sua longa cabeleira também, após mais de dez anos de "cabeludismo". O Wilson também seguia essa linha de garotão bem comportado, com cabelos curtos e trajes tradicionais. Eu lembro-me que de todos os Freaks que conhecia no meu bairro desde 1977, no ano de 1981, eu era o único ainda cabeludo, e ganhei nessa época o apelido de "O último dos Moicanos", por não aderir a essa tendência de romper com as décadas de 1960 e 1970, mais um inequívoco sinal dos tempos, com o avançar da década de oitenta. Falei isso porque acho que o fato de só eu ter aparência rocker ali naquela Blitz, pode ter aliviado um pouco a barra, visto que se todos tivessem aparência de freaks, os policiais teriam sido ainda mais truculentos.


Como ali em Trindade, é praticamente a divisa entre estados, resolvemos voltar e pararmos numa cidade qualquer. A primeira parada foi em Paraty, ainda no estado do Rio. A cidade é uma graça, mas em clima de carnaval e chovendo, não havia vagas em hotéis ou pensões. Dessa forma, seguimos de volta ao nosso estado, e paramos em Caraguatatuba, onde passamos o restante do domingo. E mais uma vez sem achar acomodações e chovendo...
Foi uma experiência claustrofóbica passarmos a madrugada esmagados dentro de uma "Brasília". E assim, passamos a segunda-feira, quando finalmente alguém teve a brilhante ideia de acabarmos com aquela tortura, e voltarmos à São Paulo. 


A próxima apresentação, seria no mesmo bar Lei Seca, marcada para o dia 23 de fevereiro de 1980, e nesse show, teríamos surpresas, uma agradável e outras, curiosas.




E assim, no dia 23 de fevereiro de 1980, refeitos da frustrante e claustrofóbica viagem ao litoral, fomos tocar novamente no bar Lei Seca. Desta vez, um público muito bom compareceu à noite, com cerca de 300 pessoas abarrotando as dependências da casa.
Mas havia uma explicação : tratava-se de uma festa fechada. E a surpresa agradável que tivemos foi esse bom cachet, além de um público animado. E as curiosas, foram duas personalidades improváveis que ali estavam, que evidentemente jamais imaginaríamos ver : o ator Global, Mário Gomes, e o compositor / cantor e violonista, Luis Carlos Sá, da dupla Sá e Guarabyra.


O Mario Gomes estava acompanhado de uma mulher espetacular.
Trajando Smoking num bar informal, causava espécie também por esse aspecto. Os maldosos rumores que quase destruíram a sua carreira, eram ainda recentes no início de 1980, portanto, sua presença ali chamava a atenção também por esse aspecto, quando ouviam-se cochichos com piadas maledicentes sobre o episódio ocorrido entre 1977 e 1978, mais ou menos. Alheio a esses comentários fortuitos, ele dançou a noite inteira com a mulher linda que acompanhava-o, num autêntico tapa de luva de pelica nos seus detratores...


E o Luis Carlos Sá, como músico, ficou vendo-nos tocar, aplaudiu bastante e cumprimentou o Mu, elogiando sua performance em particular. Sim, vivíamos um ótimo momento de expansão naquele começo de 1980, alavancando datas e datas. Mas logo teríamos baques, que mudariam o panorama. E quanto ao Luis Carlos Sá, ele realmente apreciou por um bom tempo a nossa performance. Coisa de músico que acaba ouvindo música de uma forma diferente das pessoas que não ligam-se em pormenores, e a seguir, foi aproveitar a festa, pois estava lotada a casa, cheia de mulheres bonitas etc etc.
A próxima parada, foi numa outra casa badalada da época, chamada "Casablanca", que ficava no Campo Belo, zona sul de São Paulo, e bairro vizinho ao Brooklin. Nessa casa, tocaríamos pela primeira vez com o Terra no Asfalto, mas na verdade, tocaríamos outras vezes com a segunda formação da banda, que iniciar-se-ia em dezembro de 1980, e teria maior longevidade. Um fato extraordinário aconteceu nessa noite. O que tinha tudo para ser um desastre para o Terra, acabou transformando-se numa das mais hilárias histórias dessa banda.





A próxima apresentação foi no bar Casablanca, que ficava na av. Vereador José Diniz, no bairro do Campo Belo, zona sul de São Paulo. Ele era bem badalado nessa época e costumava lotar suas dependências de jovens burgueses; playboys, e patricinhas em geral. Não era fácil arrumar uma data nessa casa, pois era cobiçada entre bandas cover da época, mas o Terra no Asfalto acabou conseguindo uma apresentação para o dia 27 de fevereiro de 1980.
Um pouco antes da apresentação começar, Mu; Gereba e Paulo Eugênio foram à rua para consumirem uma substância ilícita.
Eu e Cido ficamos no bar esperando, com o equipamento montado e o som passado. A casa foi enchendo e os rapazes demorando para retornarem...


Então, com a casa abarrotando, o gerente começou a incomodar-nos, pressionando-nos a iniciar. O tom foi esquentando, e o gerente agora fazia ameaças de que nunca mais tocaríamos lá etc etc. Então, o Cido Trindade foi procurá-los na rua. Não achou-os, e nós não sabíamos mais o que dizer para o estressado gerente (mas ele tinha razão, infelizmente). Então, com a casa super lotada, onde mal poder-se-ia andar, aparecem os três, e acompanhados de um policial militar !!  Eu e Cido pensamos : foram presos, e só vieram avisar-nos para desmontar o equipamento...


Mas aí, percebemos que o PM estava sorridente; tirou o boné; abriu a camisa; colocou a calça por cima do coturno; parecendo querer disfarçar-se, eliminando os sinais de sua farda. Sentou-se numa mesa, e curtiu o show a noite inteira; bebeu; dançou; ficou bêbado; flertou com várias garotas; e no auge da farra, chegou a amarrar uma bandana na testa, usando uma gravata improvisada...


Era seu aniversário, e o Mu chegou a anunciar isso no microfone, tocando "parabéns para você" na guitarra. Só depois da noitada se encerrar, lá pelas 3:00 h da manhã, soubemos o que significava aquilo. Realmente, os rapazes estavam na rua usando o material ilícito, quando foram surpreendidos por uma viatura da polícia militar. Foram presos em flagrante, mas para a sua sorte, os quatro PM's daquela "Veraneio", eram simpatizantes do material, também.
Após a abordagem padrão, o sargento relaxou o flagrante, vendo que os músicos eram só usuários...




Essa foi uma das histórias mais engraçadas do Terra no Asfalto !!
Passamos do susto ao relaxamento total, num piscar de olhos.
Não lembro-me do nome do PM. Nunca mais o vimos, apesar dele ter deixado contato para auxiliar-nos em qualquer situação, incluso oferecendo-se para fazer segurança particular, como bico.


A apresentação, apesar desse stress da demora em começar, foi muito boa, e o gerente acabou acalmando-se, e sinalizando que poderíamos agendar mais apresentações. Mas esse contato só seria concretizado a partir da reencarnação do Terra no Asfalto, com nova formação, no final de 1980. Isso porque o Mu acabara de aceitar uma oferta irrecusável para a sua carreira, e o Cido Trindade também estava de saída.

No caso do Mu, a Celina Silva, esposa do tecladista Sérgio Henriques, havia-o indicado para ser guitarrista/violonista da banda de apoio ao espetáculo teatral e musical "Calabar", peça de Chico Buarque de Hollanda, e que estrearia logo a seguir, em abril de 1980, tendo a atriz / cantora Tania Alves, como protagonista. O Mu não pensou duas vezes, e aceitou a oferta, visto ser qualificado para o trabalho, e acima de tudo, ser uma grande oportunidade para a sua carreira. O cachet fixo era excelente, fora a quantidade de contatos e portas que abriria, conhecendo tanta gente do mainstream da música, e meio teatral / TV.

Logo na estreia, para você ter uma ideia, leitor, o Chico Buarque em pessoa estava assistindo, além de vários artistas famosos da música, e do teatro. E o Cido, que paralelamente ao Tato Fischer, estava também desde o segundo semestre de 1979, tocando na banda de apoio do ex-vocalista dos Novos Baianos, Paulinho Boca de Cantor, recebeu um convite para continuar nessa banda, agora acompanhando a cantora emergente, Eliete Negreiros (onde fui parar também e já relatado, igualmente no capítulo dos "Trabalhos Avulsos"). Com essas perdas, o Terra no Asfalto esmoreceu, e passou por momentos difíceis nos meses seguintes.


Mas o fato desalentador mesmo, foi que a banda estava desmantelando-se. Contudo, fomos ainda tocar num micro-show teste no Victoria Pub, apesar disso.
Mesmo porque, a intenção da banda era prosseguir, providenciando um novo baterista, e com Wilson e Gereba assumindo as duas guitarras. Nessa noite no Victoria Pub, a casa estava com um ótimo público. Havia pelo menos 400 pessoas circulando.


Próspero Albanese, cantor sensacional do Joelho de Porco nos anos setenta
 
No palco principal (haviam dois), tocava uma banda cover fixa na casa. Não lembro-me o nome dela, mas recordo-me que o baixista era o Celso Pixinga, e o vocalista, Próspero Albanese, o famoso vocalista do Joelho de Porco nos anos setenta, por ocasião da gravação de seu excelente álbum : "São Paulo, 1554-hoje".
Os músicos estavam tocando uma seleção de músicas do Deep Purple, e eu lembro-me de ficar boquiaberto ouvindo o Próspero. 

Cantava idêntico ao Ian Gillan, com um punch exuberante.
Recordo-me do Gereba, que não tinha nenhuma cultura Rocker, ficar embasbacado com o vocal incrível do Próspero, mas sem saber quem ele era, ou representava na história do Rock brasileiro, afirmar algo do tipo : -"olha o gordão, canta p'ra car..."

E havia um pianista sensacional. Não faço a menor ideia de quem era, mas lembro-me de ver o sujeito tocar com um swing incrível, estilo Dr. John, Leon Russell, etc. Era um freak com um cabelo imenso, armado até a cintura, bigode de bandido mexicano... e o rapaz tocava demais. Fizemos nossa apresentação no intervalo deles, por uns 20 a 30 minutos, e apesar de não sermos tão sensacionais como eles (com exceção do Mu, claro), foi legal, pois as pessoas dançaram, aplaudiram, e a euforia do público não diminuíra.
Esse teste aconteceu no dia 29 de fevereiro de 1980, dia bissexto, e última apresentação dessa formação. As portas do Victoria Pub ficaram abertas para nós, mas mediante desculpas, o Paulo Eugênio não tinha como agendar-nos naquela circunstância, com a banda reformulando-se e aí, acabamos perdendo a chance.

Continua...

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