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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 7 - Fim da Linha, Tocando Led Zeppelin às 8:00 Horas da Manhã, para Crianças... - Por Luiz Domingues

Após essa frustrada tentativa de tornar o TNA, uma banda autoral, dispersamos de vez. Mas em meados de fevereiro de 1982, o Paulo Eugênio recrutou a banda novamente, um a um, considerando que todos estavam sem dinheiro, e sem grandes perspectivas naquele início de ano.

Dessa maneira, mediante poucos ensaios, tiramos a ferrugem e colocamos de novo a banda no circuito, com a perspectiva de tocar num circuito de bares novamente, mas sobretudo pela promessa do Paulo Eugênio em abrir uma nova frente de trabalho, investindo no setor de espetáculos fechados, em escolas. Essa era uma ideia que ele mantinha desde a época em que fizemos com grande êxito uma apresentação na Escola de Idiomas Cultura Inglesa em 1980, com um desdobramento posterior numa unidade dessa mesma escola em Campinas, no interior do estado. E segundo ele, estava com um projeto semelhante já preparado para vender em colégios particulares, oriundos da clientela de seu tio, que tinha uma agência de turismo, especializada em excursões escolares para a Disney World em Orlando, Florida. Cido Trindade estava agora dividido entre estudar alucinadamente para obter nível técnico de seus ídolos virtuoses da bateria, e ensaiar com a cantora Lily Alcalay (onde ele acabou encaixando-me também, e esse assunto já foi contado no capítulo : "Trabalhos Avulsos"); Wilson estudava guitarra no Clam, e dividia-se entre o seu emprego público, e as atividades de pai recente, com o nascimento da filhinha. O Aru também aceitou, e o Sérgio Henriques estava com a perspectiva de trabalhar com a Gal Costa, mas estava parado naquele instante, e bastante chateado com a morte da Elis Regina, com quem estava muito envolvido desde 1980. Sendo assim, o "TNA" voltou à ativa na noite de 20 de março de 1982, subindo ao palco do Café Teatro Deixa Falar, com um surpreendente público de 100 pessoas.
A formação dessa volta contava com o quinteto mais estável da história do TNA (Paulo Eugênio; Aru Jr.; Cido Trindade; Wilson Canalonga Jr., e eu, Luiz Domingues), com o acréscimo do membro nem sempre presente, mas antigo, Sérgio Henriques.

O clima não era o mesmo de outrora. Mesmo sendo uma banda cover, e como já salientei diversas vezes neste capítulo, banda cover tem relação interna frágil, pois não tem a "argamassa do sonho", o astral na banda era melhor em 1980 / 1981.

Agora, era nítido que todos estavam ali meramente por absoluta falta de perspectivas melhores para cada um, individualmente.
Uma nova apresentação ocorreu no mesmo Café Teatro Deixa Falar, em 3 de abril de 1982, com 40 pessoas presentes. Paulo Eugênio estava centrando seus esforços nesse plano de fazer apresentações em colégios, com cachet fixo, e estava difícil retomar o embalo de 1981, na melhor fase da banda. Mais uma vez tivemos a sorte de embalar uma festa fechada. No dia 15 de abril de 1982, voltamos ao Café Teatro Deixa Falar, desta feita para uma festa fechada e promovida pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Direito, da Universidade Mackenzie. Acredito que o Deixa Falar não recebia um público assim desde o tempo de glórias do "Be Bop a Lulla", nos anos setenta. Foram 350 pessoas naquela noite.
Mas, nos dias posteriores, 16 e 17 de abril de 1982, a rotina decadente da casa restabeleceu-se, e tocamos respectivamente para 20 e 30 pessoas. Porém, o clima melhorou novamente, como numa autêntica gangorra, ao tocarmos novamente numa festa fechada, desta feita realizada num espaço onde nunca havíamos tocado anteriormente, e que era um sonho de consumo para todas as bandas cover da cidade : o bar "Sem Fim", que ficava localizado na Rua Bela Cintra, próximo à Avenida Paulista. Foi um dos mais curiosos casos em que a banda envolveu-se. 

Era uma festa fechada por esquerdistas, simpatizantes do Partido Solidariedade da Polônia, que comemorava os feitos do líder sindical Lech Walessa, que lutava por mais democracia (Comunistas ? Democracia ? Como assim ??), ante a ditadura de esquerda ferrenha, dos soviéticos. Mas por aqui a ditadura era de direita, e a despeito do Partido Solidariedade representar uma luta contra o esquerdismo extremo, ainda assim era uma atividade proscrita prestar essa solidariedade ao "Solidariedade", com o perdão da redundância.

Portanto, tocamos sob uma atmosfera tensa, com pessoas entrando no bar só mediante senhas e um clima de medo, pois haviam rumores de que poderia haver uma batida policial da repressão etc e tal. Fomos instruídos a tocar com um volume aquém do nosso padrão habitual, e embora fosse uma festa e as pessoas dançassem e bebessem, parecendo divertir-se, dava para sentir uma tensão. E a decoração denunciaria qualquer tentativa de ludibriar a polícia caso ela aparecesse, pois haviam bandeiras do partido Solidariedade e várias pessoas usavam bottons com o logotipo do partido, grafado em polonês. Não aconteceu nada de mal, e pudemos sair do local dentro de nossa rotina habitual da noite. Mas foi bem sui generis essa festa.

Nos dias 1°, 8 e 15 de maio de 1982, fizemos mais três apresentações no Café Teatro Deixa Falar, com público fraco nos três dias (25, 20 e 25 pessoas, respectivamente). Foram de fato as três últimas apresentações do Terra no Asfalto em casa noturna, seu objetivo principal por ofício. Dali em diante, aconteceriam apenas mais quatro apresentações em ambiente escolar, conforme o Paulo Eugênio queria nos direcionar, doravante. E com essa perspectiva meio nebulosa, e tendo como base realista a decadência no circuito de bares, novamente, aconteceu uma última reformulação na formação. Wilson Canalonga Jr., um dos membros mais assíduos, e oriundo da primeiríssima formação de 1979, debandou definitivamente, e o mesmo ocorreu com o Cido Trindade, outro egresso de 1979, mas bem menos regular, com várias idas e vindas.
Dessa forma, para cumprir essas datas agendadas em colégios, foram recrutados dois músicos. O primeiro era conhecido, Gereba, outro egresso de 1979, e com várias idas e vindas, também.
O segundo, era um baterista chamado Maurício "Pardal", conhecido do Aru, e do Sérgio Henriques. 

A residência / estúdio do baterista Maurício "Pardal" ficava na Rua Cardoso de Almeida, famosa via do bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo

Fizemos alguns ensaios na casa / estúdio do Maurício, um rapaz brincalhão e de astral legal. Era um casarão nas Perdizes, zona oeste de São Paulo, e ele tinha uma estrutura muito boa, com bastante equipamento, e vedação praticamente profissional, em se considerando ser um estúdio caseiro. O repertório seria o grosso que tocávamos normalmente na noite, acrescido de uma ou outra novidade de última hora.

O primeiro compromisso ocorreu num colégio chamado "Magno", que ficava localizado na Chácara Flora, bairro da zona sul de São Paulo. Tratava-se de um bom cachet fixo, e o formato da apresentação, seguia o padrão que fizéramos na Cultura Inglesa em 1980. O pretexto seria o dos alunos acompanharem as músicas com as letras em mãos, para aprimorar o inglês. Dessa maneira, fizemos duas apresentações no mesmo dia, nesse colégio.

Na primeira sessão, foi bizarro tocarmos Led Zeppelin às 8:00 h da manhã !! Chegamos ao colégio por volta das 6:00 h para os primeiros preparativos. Foi estranho montar o equipamento no pátio da escola, nesse horário insalubre, e sob o frio já acentuado de maio.

E pior ainda quando as classes foram liberadas, e os professores e monitores organizaram as crianças para ver-nos. Sentadas no chão, gritavam excitadas com a situação, claro...já esperávamos, mas era uma faixa etária de 10 a 12 anos no máximo !! Estávamos tocando para crianças, e apesar dos constrangimentos, foi até divertido por um certo aspecto. Na segunda sessão, após longa e entediante espera, tocamos por volta do meio-dia para outra turma, de mais "crescidinhos". Eram meninos e meninas de 12 a 14, pelo que lembro-me. Na primeira sessão, foram 400 crianças, e na segunda, 350, segundo contagem dos professores. Cumprimos essa etapa, e na semana seguinte, fomos tocar em outro colégio, nos mesmos moldes.



Nos dias 28 e 29 de maio de 1982, o TNA apresentou-se pela última vez em sua história. Foram duas sessões no Colégio João XXIII, localizado no bairro da Vila Prudente, zona leste de São Paulo, e desta feita, não foi uma multidão de pequeninos como no Colégio Magno.

As duas sessões foram vistas por 70 e 120 crianças somente.
Apesar do cachet fixo, era nítido o desânimo em fazer apresentações às 8:00 h da manhã para crianças, e o Paulo Eugênio apesar de estar ainda negociando com outros colégios, percebeu que não havia mais ânimo, e parou de agendar. Estávamos todos cansados daquele esquema, ainda que também precisando de dinheiro. O Aru estava farto, e queria algo mais sólido. Gereba tinha aquele jeito bonachão, e parecia alheio. O Paulo Eugênio não escondia de ninguém que sonhava com o TNA forte, atuando em bares novamente, e o Sérgio Henriques só estava fazendo hora para ir tocar com a Gal Costa (posteriormente acabou não confirmando-se essa proposta, e ele foi tocar é com o Jorge Benjor e Premeditando o Breque). E o baterista Maurício "Pardal", que só fizera quatro apresentações para um público infantil, resumiu seus sentimentos na volta desse último show, usando de seu deboche habitual. Na Kombi que trazia-nos com o equipamento, veio contando histórias de sua vida tocando em conjuntos de baile pelo interior, e o quanto odiava aquilo. Mas falava em tom de deboche, embora fosse um lamento.

E o auge dessa manifestação deu-se quando ele pegou um violão e com a Kombi em movimento, foi cantando a plenos pulmões "Amada Amante", do Roberto Carlos, em puro tom de deboche, e entre os versos, improvisava uma letra em clima de paródia, falando que não ficaria numa banda que tocava às 8:00 h da manhã para crianças etc etc. Bem, não deixou de ser engraçada essa manifestação, ainda que esse escárnio retratava bem o fim da banda, em profunda melancolia. Após reunião final, as portas do TNA fecharam-se para sempre. Nesse período do fim de maio até meados de julho, houve uma última tentativa de reerguer a banda, mas não deu em nada, ou melhor, nada para o TNA, mas precipitou a concepção da minha banda autoral, que finalmente consegui montar, após anos e anos perseguindo esse sonho.

Foi assim a derradeira tentativa : nesse período, o Paulo Eugênio relatou-me que queria reformular a banda. Sem Wilson Canalonga Jr.; Sérgio Henriques; Cido Trindade, e Aru Junior, checou comigo se eu ficaria. Por falta de perspectivas melhores, aceitei, claro.
O mesmo deu-se com o Gereba. Contudo, precisávamos de mais um guitarrista e um baterista. O Luis Bola, opção sempre lembrada nas emergências, não quis desta feita ter mais envolvimento num projeto desses. Então, sem perspectivas de baterista em curto prazo, resolvemos fazer ensaios acústicos para renovar o repertório.
Nesse ínterim, o Paulo Eugênio relatou-me que a Dona Sabine, senhora que era dona do "Café Teatro Deixa Falar", indicara-lhe um jovem guitarrista que estava com vontade de formar uma banda.
Ele era namorado de sua filha, tinha uma guitarra Fender Stratocaster, e segundo ela, tinha nível técnico muito bom, já tendo inclusive gravado um compacto com uma banda autoral, razoavelmente conhecida no métier do Rock Paulista, o "Santa Gang". 

Esta foto do Rubens é de outubro de 1986, num show da Chave do Sol

Então, marcamos um encontro no Café Teatro Deixa Falar, numa noite em que não haveria apresentação, e fomos assim apresentados. Seu nome era Rubens Gióia. De fato, eu lembrava dele visualmente, por vê-lo assistindo-nos no Deixa Falar, em ocasiões próximas passadas. Fizemos um som, informalmente, e verificamos que era um guitarrista quentíssimo de Rock.
Dessa maneira, marcamos ensaios acústicos para tirar repertório, enquanto o Paulo Eugênio fazia contatos para arrumar um baterista.
Seria a tentativa de reencarnação do TNA, com Paulo Eugênio; Gereba; Rubens Gióia, e eu, Luiz Domingues, em princípio, até que arrumássemos um baterista para fechar o quinteto. Fizemos alguns encontros desses na casa do Rubens, um ou dois na casa em que o Gereba estava hospedado, mas rapidamente estabeleci amizade com o Rubens, e quando percebemos que tínhamos os mesmos ideais no Rock, não queríamos fazer banda cover coisa nenhuma e fundamos A Chave do Sol, restando-nos comunicar ao Gereba e Paulo Eugênio que estávamos saindo dessa tentativa efêmera de ressuscitar o TNA, com o propósito de batalharmos nossa carreira autoral.

O Paulo Eugênio ficou chateado, e chegou a falar algumas coisas desagradáveis, mas eu respondi que a tentativa de fazer o TNA tornar-se uma banda autoral havia fracassado, e que não tinha mais paciência para tocar em banda cover, apesar de precisar do dinheiro. Enfim, daí em diante, só fui ter contato com os remanescentes do TNA, para negociar a partilha do equipamento da banda, que fora comprado em sociedade no início de 1981.
E para dar um impulso ao começo da Chave do Sol, ao invés de ficar com o amplificador de baixo simplesmente, abri mão desse conforto pessoal lógico, e deixei o amplificador aos demais para venderem e fazer dinheiro. Preferi ficar com o mini PA, e a mesa de 12 canais. Com isso, o equipamento básico de ensaios da Chave do Sol, estava garantido para os primeiros quatro anos de vida da banda.

Portanto, o último suspiro de vida do TNA, deu início à gestação da Chave do Sol, e a história prossegue nos capítulos dessa banda.
Antes de encerrar a história do TNA, vou recuar um pouco na cronologia para contar algumas histórias que não ficaram registradas, e que ficaram de fora anteriormente, por não haver uma cronologia fixa sobre elas.

Uma delas, era sobre a mania compulsiva que o Paulo Eugênio; Gereba, e Wilson traziam de anos de convívio juntos, e era muito engraçada. Isso nada tem a ver com música, devo esclarecer previamente. Eles praticavam uma pequena transgressão quando estavam juntos numa festa particular, ou mesmo visitando a casa de alguém. Dando desculpas tolas de ir ao banheiro, ou mesmo à cozinha para beber água, atacavam a geladeira e a despensa das pessoas, mais pela molecagem em si. 

Era hilário, pois em questão de segundos, como se fossem gafanhotos famintos, comiam tudo o que podiam. A rapidez e a voracidade com as quais faziam essas molecagens tinham requintes até, pois chegaram a fritar ovo, e esquentar arroz na panela, sem que o anfitrião percebesse, pelo menos dando flagrante, pois panelas e pratos sujos os denunciavam a posteriori...
Eu cheguei a ver isso acontecer, e ficava impressionado como enchiam as respectivas bocas, e até questionava-os sobre isso poder causar-lhes um sério dano, engasgando. E fui vítima também, pois uma vez em minha casa, numa reunião da banda, o Paulo Eugênio descobriu na minha cozinha, uma torta de banana recém saída do forno, que minha mãe preparara. O objetivo era servir à eles mesmos, mas após diversas saídas suspeitas do Paulo Eugênio para "beber água", descobri que ele a devorara sozinho...
Eu achei até engraçada essa compulsão, mas minha mãe ficou horrorizada quando contei-lhe o ocorrido...ha ha ha !!


Uma outra história ocorreu no final de 1980, um pouco antes da reformulação da banda com a entrada do Aru. Foi num sarau improvisado que o Paulo Eugênio inseriu não o TNA, que estava parado oficialmente naquela fase pré entrada do Aru, mas de maneira informal, fomos a um sítio nas proximidades de Cotia, na Grande São Paulo, onde o objetivo era apenas um final de semana de recreação. O local era de propriedade de amigos dele e assim, passamos um final de semana jogando futebol num campo oficial bem legal, e na noite do sábado, tocamos para entreter os convidados. Isso não era uma novidade, pois nessa entressafra da banda na segunda metade de 1980, o Paulo já havia levado-nos para tocar informalmente de forma acústica em festas particulares de amigos dele.

Nessa ocasião do sítio, estávamos eu; Gereba; Wilson, e o Paulo Eugênio fez percussão e voz. A nota triste desse passeio foi que tive a infeliz ideia de jogar como goleiro durante o futebol vespertino, e ao fazer uma defesa, espalmando a bola e imprudentemente sem luvas, machuquei meus dedos anular e mindinho da mão esquerda.

Na hora, cheguei a pensar em tê-los fraturado, mas foi só o susto mesmo. Inchados e doendo bastante, prejudicaram bastante a minha performance na jam session do sábado à noite. Não anotei isso como atividade oficial do TNA, pois foi muito informal mesmo.
Apesar de ter umas trinta pessoas pelo menos assistindo e cantando etc e tal, aquilo era só uma jam informal, portanto, não computei como apresentação oficial.

Isso deve ter acontecido por volta de outubro, pois o comentário da semana era o show do Peter Frampton no Ginásio do Ibirapuera, que estava para acontecer, ou já tinha ocorrido, não recordo-me direito. E um fato curioso, o Wilson estava obcecado em tirar o solo da música "My Love", do Paul McCartney. Ficou a madrugada inteira repetindo incansavelmente aquele solo, ao ponto de sua namorada, Consuelo, brigar com ele, irritada com a repetição enjoativa. Histórias como essa já estou lançando como crônicas da carreira (numa série denominada "Crônicas da Autobio"), publicando inicialmente no meu Blog 2, para uma re-postagem aqui no Blog 3, oportunamente, assim como abrindo perspectiva para um segundo livro impresso, com tal caráter. Feito isso, vou chegando ao final da história do TNA.

Continua...  

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