Pesquisar este blog

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 1 - Do Nada, um Curso Intensivo de Rock - Por Luiz Domingues

De fato, quem conhece-me bem, sabe que tocar cover é algo que sempre evitei. Definitivamente, prefiro tocar algo que eu criei, por pior que seja, a ficar perdendo tempo em reproduzir a criação alheia. Mas havia chegado em um ponto da vida, onde estava numa encruzilhada. Estava brigando com meu pai que queria fazer o meu sonho Hippie diluir-se num terno & gravata; cabelo curto; faculdade de direito, e concurso público, isso sem contar militância em partido político, e quem sabe (?) , candidatura ao parlamento no futuro...


De todos esses sonhos do meu pai, eu só tinha simpatia pela política, aliás até hoje, mas jamais com pretensões a fazer parte da política partidária. Mas apenas como ciência social.  

Enfim, minha banda, "Boca do Céu", havia diluído-se. O embrião do Língua de Trapo era muito incipiente ainda para verter em remuneração nessa época (final de 1979), e dessa forma, precisando ganhar dinheiro, comecei a fazer trabalhos paralelos na música.


Meu primeiro trabalho avulso, foi no show: "Começando Tudo Outra Vez", do cantor / pianista / ator e diretor de teatro, Tato Fischer.  Já contei essa história nos primeiros capítulos dos "Trabalhos Avulsos", portanto, vou avançar daqui, pois do fim desse trabalho, iniciou-se outro, cuja história, relato a partir de agora. Na reunião final com o Tato, onde eu e os demais músicos da banda de apoio decidimos deixar o trabalho, após uma série de problemas, o tecladista Sérgio Henriques comunicou-nos que havia aparecido um trabalho para nós três (eu e Cido Trindade estávamos nessa banda também).


Cruzamento da Rua Maria Antonia com a Rua da Consolação, onde nesse quarteirão ficava o apartamento de Tato Fischer e a reunião de fundação do "Terra no Asfalto" ocorreu num botequim do outro lado da calçada, em dezembro de 1979
 
E de fato, num bar próximo à casa de Tato Fischer, na Rua Maria Antonia, no bairro Vila Buarque, centro de São Paulo, estava  esperando-nos o vocalista Paulo Eugênio Lima, que Sérgio conhecera anos antes, e com quem já tinha montado bandas de covers para tocar em festas; casas noturnas & afins. A proposta era a de unirmo-nos a ele, e dois guitarristas (Wilson Canalonga Jr. e Geraldo "Gereba"), para tocarmos numa festa de confraternização de uma empresa de engenharia, comemorando o Natal / Reveillon de 1979.  O repertório seria Beatles, exclusivamente.


Aceitamos, claro. E essa foi a semente inicial do "Terra no Asfalto". Assim, mesmo aceitando o convite, o tempo era absurdamente curto para tirarmos as músicas, ensaiar e ficarmos prontos para essa apresentação. O Paulo Eugênio disse-nos que um amigo dele de longa data cederia sua casa para reunirmo-nos, o que era providencial, pois não tínhamos onde ensaiar e tirar as músicas. Dessa forma, marcamos logo o primeiro encontro. Esse amigo chamava-se Edmundo, e morava numa bela casa de alto padrão no bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo.
Casa do Edmundo, no primeiro quarteirão da Rua Turiaçu, no bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo, onde o Terra no Asfalto realizou seus primeiros ensaios, em 1979.

E além do espaço generoso, ele era um rapaz extremamente bacana e Rocker. Era baterista também, e dono de uma incrível coleção de discos. Portanto, sua casa serviu de QG inicial da banda, com suporte total para tocar e ouvir os discos, tirar as músicas etc. Fora a mordomia dos lanches... o time formado era excelente. Eu já conhecia Cido Trindade e Sérgio Henriques. O Cido já tocava bem em 1977, quando conheci-o, mas estudioso, e com pretensões a tornar-se um virtuose, não parava de evoluir. Estava agora obcecado por ter técnica de bateristas de Free-Jazz.
Zé Nazário, do "Grupo Um", um baterista com nivel estratosférico de virtuosismo ao instrumento e que encantou muito músico que tinha essa mentalidade de enaltecer a técnica em detrimento da música
 
Admirava o Zé Nazário do "Grupo Um"; o baterista do Hermeto Paschoal, Nenê, e as feras do Jazz-Rock internacional.
O Sérgio Henriques tinha sólida formação de piano erudito, e estava no terceiro período do curso de composição e regência da USP. Sua formação, além da música erudita, incluía o Jazz; Rock Progressivo, e a MPB, predominantemente. E os novos componentes que o vocalista Paulo Eugênio trouxe, eram Wilson Canalonga Jr. e Geraldo "Gereba".
Wilson era Rocker de carteirinha, mas fazia bases simples, não tinha muita desenvoltura nos solos, todavia compensava com backing vocals afinados.
Na primeira foto, o grande Alvin Lee, guitarrista da banda britânica, Ten Years After e abaixo, Pepeu Gomes, o gênio da guitarra dos Novos Baianos
 
E o "Gereba", era um demônio na guitarra. Sem nenhuma noção de teoria musical, tocava de forma instintiva, e com uma técnica incrível. Como era fã de Alvin Lee e Pepeu Gomes, sabia vários solos de cor desses guitarristas, e reproduzia-os com perfeição.
Paulo Eugênio cantava bem, embora não conhecesse teoria também. E já tinha experiência de cantar na noite, com bandas.
Lembro-me que era menos de uma semana o prazo que tínhamos para ensaiar, visto que da reunião inicial à marcação do primeiro ensaio, decorreram alguns dias. Os contratantes da tal festa, queriam que tocássemos três entradas só com canções dos Beatles. 
Tiramos a toque de caixa, 30 músicas, aproximadamente, do repertório do Fab Four. A sorte, era que Beatles todo mundo tinha na cabeça. Mesmo não sabendo algumas harmonias e convenções, ao menos eram músicas conhecidas de todos. Paulo Eugênio e Wilson, eram fanáticos Beatlemaníacos, e sabiam de cor as letras, praticamente. Só o Gereba não sabia direito, embora conhecesse as músicas por osmose. Eu e Cido Trindade também conhecíamos todas as músicas, claro, e Sérgio Henriques, idem.
Portanto foi uma semana dura, mas conseguimos tirar as 30 músicas. E o Edmundo, que cedeu sua casa gentilmente, seria aquele mesmo que eu convidaria, quase três anos depois para ser o primeiro baterista da Chave do Sol, e não daria certo. Ficamos amigos, pois ele era Rocker, e conhecia muito do Rock 1960 / 1970.
Lembro-me de que nos intervalos de ensaios realizados em sua casa, ouvirmos discos do " Greenslade", banda Prog setentista que gostávamos, por exemplo. Aliás, ao longo da narrativa, vou contar muitas histórias sobre uma série de pessoas que orbitava em torno da banda. Amigos doidos desse período da minha vida, onde frequentei muito o bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, por conta das atividades dessa banda. Realmente fomos para essa apresentação, meio despreparados. Não soaria perfeito, como essas bandas cover ou bandas tributo que existem por aí, e que esmeram-se em executar à perfeição, mas cumpriria a função. 
E afinal de contas, não era um show, mas uma festa numa empresa de engenharia, de final de ano, descompromissada e informal.
Uma panorâmica da Avenida Faria Lima, na zona oeste de São Paulo
 
Chegada a véspera, fomos autorizados a montar o equipamento no período noturno, após o expediente do escritório. A empresa chamava-se "Diâmetro Engenharia", e essa sede, ficava na Av. Faria Lima, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.
Lembro-me de montarmos o equipamento assistindo a final do Campeonato Brasileiro de 1979, pela TV (Internacional x Vasco da Gama), enquanto comíamos pizza, e confraternizávamo-nos com os funcionários da faxina e seguranças. No dia seguinte, começamos a tocar por volta do meio-dia. Os engenheiros e suas esposas; namoradas e filhos apreciavam discretamente. À medida que o tempo avançava e eles embebedavam-se, foram descontraindo-se e dançando, e depois foram ficando muito bêbados e cantavam, urravam... 
No fim, dançavam em cima das mesas, com muitos usando suas gravatas como bandanas ao estilo de tiras hippies na testa. Foi hilário.


Portanto, pouco importaram as pequenas falhas que cometemos, no cômputo geral...

Encerradas as 30 músicas dos Beatles, os senhores bêbados queriam mais. Sem repertório, começamos a improvisar e aí, passamos a tocar coisas sem ensaio, mas que todos sabiam. Foi uma farra na empresa, com os engenheiros bêbados, e nós tocando "Led Zeppelin"; "Ten Years After"; "Novos Baianos"; "Creedence Clearwater Revival"; "Doobie Brothers" etc etc. Não lembro-me a cifra certa, mas foi um cachet muito acima do que eu jamais ganhara antes, portanto, valeu a brincadeira. Essa apresentação ocorreu no dia 21 de dezembro de 1979.
E vendo que a banda deu química, o Paulo Eugênio convocou uma reunião, onde ficou acertado que tornar-se-ia uma banda fixa. Começaríamos a aumentar e diversificar o repertório, e ele, Paulo Eugênio, a reativar seus contatos com casas noturnas.

E um fato curioso: após o show, e com o dinheiro distribuído, cada um foi falando o que faria com ele. Eu perguntei ao Wilson Canalonga Jr., o que ele faria, e ele respondeu que compraria um "Soft Machine".
Caramba, pensei... vai gastar todo o cachet num disco do "Soft Machine", então só podia ser um disco pirata e muito raro, pois o dinheiro do cachet era muito bom.
Aí ele riu, e disse-me que "Soft Machine" era uma grife de calças masculinas finas...
Então ficamos quites na ignorância, pois eu nem sabia que existia uma grife de roupas elegantes com esse nome, e ele, Wilson, nunca ouvira falar da banda britânica...

Lógico que valeu a pena ter feito essa apresentação na sede da Empresa Diâmetro Engenharia ! De uma forma despretensiosa, ganhei um belo cachet, e essa era a minha motivação maior nesse trabalho que não visava fazer música autoral. E a química foi forte. 
O time de músicos era ótimo. Eu já achava o trio que acompanhava o Tato Fischer muito bom, mas agora com a soma de dois guitarristas e um vocalista (o Paulo Eugênio também tocava percussão e muitas vezes, sua atuação ajudava muito no balanço da banda, seja tocando bongô; pandeiro ou cowbell, fora os backings vocals afinados), tornava a banda muito forte e apta para brigar no mercado disputado do "mundo cover", que já era acirrado naquela época. O Paulo Eugênio tinha contatos na noite e logo fechou uma data num bar no Bexiga, centro de São Paulo, chamado "Opção". 
Assim, foi marcada uma primeira apresentação logo no dia 13 de janeiro de 1980. Mas essa apresentação seria sui generis !
Isso porque o lógico seria contar com o mesmo time da festa dos engenheiros, mas após três ou quatro ensaios realizados ali mesmo no Bar Opção, que era de propriedade de um amigo do Wilson, mudanças radicais aconteceriam.

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário