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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 4 - Entressafra - Por Luiz Domingues

Com esse desfecho, o Terra no Asfalto passou por momentos difíceis, ao tentar reformular-se. Na prática, precisávamos de um baterista novo, e aí surgiu a opção
do Luis "Bola"
O Luis "Bola" (cujo apelido só podia ser alusivo ao seu porte físico, digamos, robusto), era baterista do projeto de música autoral que o Mu tentava desenvolver desde 1978, mais ou menos, com a presença também do baixista, Roatã Duprat, filho do maestro, Rogério Duprat. O Luis Bola era tecnicamente bom, Rocker com sólida formação e um sujeito do bem. Possuía uma coleção de vinis incrível, e toda importada, pois seu pai era piloto da Vasp (a antiga Viação Aérea São Paulo, desativada nos anos noventa), e que fazia a rota São Paulo / Milão. Dessa forma, o "Bola" fazia a lista, e o seu pai vinha com a mala recheada com bolachas europeias... ouvi muito Frank Zappa na casa dele, nesses meses em que convivemos.
Mas mesmo ao achar um baterista bom para entrar na banda, perdemos o fio da meada excelente que havíamos construído, e dali em diante, só foi aparecer uma nova data, em abril de 1980. E foi um show inusitado, sobre o qual, conto logo mais.

Com a saída de Mu e Cido Trindade, colocamos o Luis Bola na bateria, e Gereba e Wilson assumiram as guitarras.
Ficamos chateados com as perdas, e o Paulo Eugênio, no impasse criado por essa situação gerada, congelou alguns contatos.

Com isso, perdemos o bom embalo que estávamos a obter, e para nosso azar, ficamos também sem local para ensaiar, pois o Bar Opção impossibilitou-nos, já que passou a abrir na parte matutina, e vespertina, para servir almoço, como restaurante. Em nenhuma casa dos membros poderia haver essa recolocação. Paulo Eugênio morava em uma casa ampla no bairro das Perdizes, mas sem condições para disponibilizá-la, devido a morar com o pai idoso. Gereba e Wilson moravam em um quarto de pensão; e eu tinha minha edícula no quintal da minha residência, mas após o tempo do Boca do Céu, nunca mais promovi ensaios ali, por conta de problemas com vizinhos, e outras questões que já relatei nos capítulos do Boca do Céu. E na casa do Luis Bola, era impossível também, visto que ele morava em um sobrado pequeno e germinado, e não conseguia nem estudar sua bateria, por problemas com vizinhos, também.
Dessa forma, além da falta de datas e reformulação da banda, houve muita dificuldade logística para promover tais mudanças. A próxima data, no entanto, foi um achado, e confesso, animou-me bastante. Fugiu do padrão de bares e casas noturnas, pois o Paulo Eugênio fechou uma exótica participação da banda em um evento promovido por uma tradicional escola de idiomas. Fomos tocar no Teatro da Cultura Inglesa, uma famosa escola de inglês, sob orientação britânica, na sua sede da Av. Higienópolis, no bairro de mesmo nome, zona oeste de São Paulo.
A ideia seria a de tocarmos um repertório com clássicos britânicos e americanos de Rock 1960 / 1970, com os estudantes a receber um libreto, cujo conteúdo seria formado por todas as letras das canções que executaríamos, para cantar junto. E a instrução da escola foi para o Paulo Eugênio falar em inglês o tempo todo, entre as canções, para estimular a conversação. Como ele trabalhou muitos anos como guia turístico em excursões à Disney World, seu inglês era bom, e foi aprovado pelos pedagogos da escola.
 
Este cartaz acima, é um dos raros documentos oficiais preservados sobre a carreira do Terra no Asfalto. E mesmo assim, está com erros crassos em seus dizeres, infelizmente. Por exemplo, contém os nomes do Cido e do Mu, que na verdade já haviam deixado a banda. Ao invés do meu nome, está o do Gereba como baixista, e neste cartaz que guardei, eu o rasurei, e escrevi meu nome à caneta. E também omite o nome do novo baterista, Luis "Bola". Mas, por tratar-se de um material de memorabilia / portfólio, raro, está aqui preservado, devidamente.

E assim, ficou marcado para o dia 11 de abril de 1980, essa apresentação / aula, algo que jamais pensei em participar, antes. E só a realizar ensaios acústicos com o intuito em anotar a harmonia das canções, preparamos um repertório bem conhecido pela banda, com músicas que tocávamos regularmente de artistas como "The Beatles"; "Led Zeppelin"; "Doobie Brothers"; "Cat Stevens"; "James Taylor"; "Rolling Stones", e músicas solo dos quatro Beatles, primordialmente.
O pianista / cantor / compositor; ator e diretor de teatro, Tato Fischer, em foto bem mais atual
  
O Paulo Eugênio surpreendeu-nos, pois convidou um tecladista à nossa revelia. Eis minha surpresa ao encontrar-me com o Tato Fischer, em um desses ensaios informais ! Não que incomodasse-me, ou causasse-se nenhum problema, mas foi engraçado vê-lo depois de alguns meses em que eu; Cido Trindade, e Sergio Henriques o acompanhamos (amplamente já comentado no capítulo "Trabalhos Avulsos"). E de certa forma, confirmou mesmo que nós havíamos agido certo ao deixarmos esse trabalho com ele em 1979, pois ele acenara com novas datas só a partir de março de 1980, mas pelo visto, não logrou êxito, e sendo assim, aceitou prontamente tocar conosco, a denotar que seus planos pessoais realmente não haviam logrado êxito, infelizmente, e assim a precisar também desse cachet. E assim, com um bom cachet, e promoção interna nas diversas unidades da escola por São Paulo, mediante cartazete, o show "Flashback 60's & 70's" ocorreu no dia 11 de abril de 1980.
E vou contar : foi um dos melhores shows de toda a trajetória do Terra no Asfalto, com tudo a dar certo. Som e luz com nível profissional; público quentíssimo que abarrotou o teatro (500 pessoas na lotação oficial, mas seguramente mais gente, pois havia muitas pessoas sentadas no chão, ou pelos corredores). Só não deu certo uma coisa : era para ter configurado uma série de shows em diversas outras unidades, mas a direção da Cultura Inglesa cancelou todos, só a manter um, na unidade da cidade de Campinas, um mês depois, ao alegar-se que a excitação dos alunos inviabilizou o processo pedagógico do evento. E de fato, eles tiveram razão, se a intenção era ser uma aula, pois no primeiro acorde da primeira canção da noite ("From Me to You", dos Beatles), o teatro veio abaixo, e tornou-se um show de Rock, sem aula coisa nenhuma. Todo mundo em pé a dançar, e tentar chegar perto do palco...

Por incrível que pareça, foi um dos shows mais sensacionais que eu fiz até aquele instante, logicamente ao considerar-se o período inicial da minha carreira, de 1976 até ali. Apesar de ser um show cover, estávamos a atuar em um palco de teatro, e não em um bar. Havia iluminação; e um P.A. de bom nível; camarim etc. Eu já experimentara lampejos dessas condições ideais nas temporadas com o Tato Fischer, poucos meses antes, mas salvo um ou outro show avulso, no todo, houvera sido uma experiência de pouco resultado expressivo, em termos de público presente.
Agora, apesar de não ser um show de música autoral, pela primeira vez, vi um teatro lotado a minha frente e com um público enlouquecido do começo ao final. Claro... fora a tal história de entrar em campo a usar a camisa de outro time, isto é, o fácil usufruto do trabalho consagrado de outrem...

E o Tato encaixou-se muito bem no esquema. Ele era um pianista muito bom e tinha ótimos dotes vocais. Tanto que orientou Paulo Eugênio e Wilson, a ensaiar harmonia vocal, principalmente nas músicas dos Beatles, que saíram muito bonitas em trio, com ele a cumprir a terceira voz. A expectativa foi ótima desde a passagem do som, quando sentimos a estrutura boa do teatro. 

Foi o primeiro show do Terra no Asfalto em condições técnicas superiores, pois era uma banda cover acostumada aos palquinhos escuros de casas noturnas, tão somente.
E melhorou ainda mais quando percebemos que o teatro estava a lotar, por ouvirmos o murmúrio do público. A orientação expressa da direção da escola, foi para falar-se em inglês, o tempo todo. Para tanto, o Paulo Eugênio foi avaliado previamente em um teste de conversação com professores da escola, e em sua cúpula, formada por professores legitimamente britânicos.
E o Tato estava tranquilo. Tocou e cantou muito bem, pois estava a divertir-se, e sem as pressões da produção em torno dele, como na sua carreira solo. Dessa forma, descompromissado, com casa cheia e cachet garantido, o astral não só dele, como de todo mundo, foi ótimo. Só não foi melhor por ser uma apresentação cover. Se fosse música autoral, seria ainda melhor...

E um dado interessante e motivador, particularmente, em especial : usei uma caixa do amigo, Roatã Duprat, acoplada à minha caixa Giannini "Tremendão". Parecia uma caixa Snake ou Palmer, mas não havia placa de identificação da fábrica, mas sim um grafite que orgulhou-me bastante.
Tratou-se do logotipo da banda setentista, "O Terço", e sim, aquela caixa houvera sido propriedade do baixista, Sérgio Magrão, que a vendera ao Roatã Duprat. Significou bastante emocionalmente, como afirmação pessoal, ter um símbolo setentista presente comigo no palco, a interagir comigo em ação. Sim, esse show marcou-me bastante, pois a rigor, foi a primeira vez em que fiz um show de Rock em um teatro lotado, e com público sob intenso frenesi.
                         Tato Fischer, em foto bem mais atual                        

Anteriormente já tinha tido experiências boas em teatro, mas com o som mais comedido do Tato Fischer, ou apresentações ainda amadoras do Língua de Trapo ou pré-Língua, para ser mais específico. O Terra no Asfalto não era uma banda autoral, eu sei, mas a euforia que geramos ali, foi fascinante, daí eu ter essa boa lembrança.
E justamente pelo fato dos alunos não comportar-se como se estivessem em sala de aulas, é que a Cultura Inglesa abortou o projeto, pois o plano inicial seria o de uma série de shows pelas unidades, em diversos bairros da capital paulista. Como tornou-se show de Rock e não aula, perdemos a "oportunidade", ao ficarmos somente com a apresentação na cidade de Campinas, mantida, e quando eu comentar essa passagem, ficará explicado o por quê de Campinas não ter sido cancelado. E tanto deu certo essa nova formação da banda, que o Paulo Eugênio animou-se e marcou uma data no Bar Le Café, para alguns dias depois. Como era uma casa recém inaugurada, e ainda sem alvará para funcionar, a dona pediu para fazermos uma apresentação acústica.

E lá fomos nós, sem o Luis Bola que recusou-se a participar para tocar percussão. Com o Paulo Eugênio a suprir essa percussão (ele pilotava bem o pandeiro de samba; pandeiro meia-Lua; bongô; Cowbell, e instrumentos de efeitos), tocamos, comigo no baixo (o único elétrico, nessa noite); Gereba e Wilson aos violões, e Tato Fischer no piano. Infelizmente, para um público reduzido, com menos de dez pessoas, presentes. Mas havia a perspectiva de mais um show garantido na Cultura Inglesa, na cidade de Campinas. Nesse show, do Le Café, cuja data ocorreu no dia 26 de abril de 1980, sabíamos de antemão que apresentar-nos-íamos sob um espaço mais tímido, e com volume controlado. Quanto ao "Le Café", esse bar que ficava na Alameda Lorena, em Cerqueira César (perto da Av. Paulista), seria a nossa porta de entrada para o início da melhor fase do Terra no Asfalto, porém, isso só ocorreria alguns meses depois, em dezembro de 1980.

Então, o Terra no Asfalto foi cumprir a segunda data para a Escola Cultura Inglesa, na unidade da cidade de Campinas. Esse show ocorreu no dia 9 de maio de 1980. O time foi o mesmo do primeiro show em abril, no teatro do bairro de Higienópolis, em São Paulo, com o acréscimo do amigo, Edmundo, que tocou percussão, conosco.
A unidade da Cultura Inglesa na cidade de Campinas / SP, ficava próxima dessa rua, no bairro do Cambuí

Assim que chegamos à unidade da Cultura Inglesa, no bonito bairro do Cambuí, em Campinas, descobrimos o por quê daquele show não ter sido cancelado como os demais : tratava-se de uma unidade instalada em um sobrado residencial adaptado como escola, portanto, tocaríamos de forma improvisada, em um pequeno salão, sem iluminação, e com um pequeno P.A, adequado para uma apresentação intimista de voz & violão em um barzinho. E dessa forma, a tocar sem glamour algum, sob um volume muito baixo; espremidos em um espaço reduzido; e sem um palco minimamente decente, nem mesmo com estrutura de eletricidade adequada para atender a nossa necessidade básica de energia, foi um show exatamente como os pedagogos esperavam, ou seja, uma aula, com os alunos em silêncio e sentados no chão, a limitar-se a ler as letras das músicas em um impresso preparado pela escola. Foi um anticlímax, por contrapor-se ao show de São Paulo, sem dúvida. Mas motivou-nos também a promover uma reflexão, ou seja, éramos apenas uma banda cover, e essa era de fato, a nossa realidade.
Sem Tato Fischer, voltamos ao formato como quinteto, e fizemos mais dois shows no Bar Opção. O primeiro aconteceu no dia 11 de maio de 1980, o penúltimo show do Terra no Asfalto, com a presença de trinta pessoas, aproximadamente. E no dia 18 de maio de 1980, o último show dessa fase da banda, com o mesmo público, com trinta pessoas, mais ou menos. A banda com essa formação não deu bom resultado, apesar da euforia gerada pelo show no Cultura Inglesa de Higienópolis. Sentimos muito a falta do Mu, e a despeito do Luis Bola ser um bom baterista, o Cido Trindade tinha mais a ver com a identidade dessa banda, sem dúvida.
Outro fator que quebrou-nos, foi o cancelamento dos diversos shows nas unidades da escola de inglês, Cultura Inglesa. Com isso, ficamos sem agenda, e o Paulo Eugênio iria demorar para reestruturar uma retomada dos contatos no circuito de casas noturnas. Além disso, eu estava a entrar em uma fase em realizar shows e participações em festivais com o Língua de Trapo (já comentado no seu respectivo capítulo), e diversos trabalhos avulsos (comentado nesse capítulo específico, também).

Em Campinas, o objetivo primordial da apresentação foi cumprido.
Entretanto, mesmo assim, a escola nem esboçou reconsiderar a sua decisão pelo cancelamento, e infelizmente perdemos essa oportunidade para termos uma boa continuidade dentro desse circuito.
Sim, foi visível a desintegração da banda, mas como tratava-se de uma banda cover, e eu estava empolgado com os rumos em que o Língua de Trapo estava a ganhar, não incomodava-me muito esse processo terminal, mesmo por que, paralelamente ao Terra, e ao Língua, eu estava a cumprir datas com trabalhos paralelos, conforme já relatei nos capítulos, "Trabalhos Avulsos". Uma história engraçada que esqueci de contar : nesse período em que o Luis Bola entrou no Terra, ensaiamos sob forma acústica, diversas vezes na sua residência. Era um sobrado bonito, localizado na Rua Cristiano Viana, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, no quarteirão, próximo à escadaria que dá acesso à Rua Cardeal Arcoverde.
Quem conhece São Paulo, e aquele bairro em específico, sabe que muitos anos depois, aqueles quarteirões próximos da Rua Teodoro Sampaio tornaram-se ponto de lojas de instrumentos, e equipamentos musicais. Mas em 1980, não havia nenhuma loja assim por aquelas redondezas.
A esposa do Luis Bola (peço desculpas, mas esqueci seu nome), era atriz, e tinha contatos bons no mundo do cinema. Tanto foi assim, que houvera feito uma ponta no filme, "Gaijin", da diretora, Tizuka Yamazaki. E naquele período em que frequentei a residência do casal, eles estavam a hospedar um jovem ator carioca, ainda não muito famoso, chamado : Jorge Fernando.
Muitos anos depois, ele tornar-se-ia um diretor de novelas muito festejado da Rede Globo. Naquela época, havia feito um trabalho apenas como ator, que despertara a atenção, chamado, "Ciranda Cirandinha", uma espécie de sitcom brasileira, e curiosamente precursora do que seria mais ou menos a série norteamericana, "Friends", anos depois. Eram quatro jovens a dividir um apartamento no Rio de Janeiro, todos "mezzo" Hippies. Jorge Fernando; Denise Bandeira; Fábio Jr., e Lucélia Santos, foram os intérpretes de tais personagens. Fez um relativo sucesso em 1979, na TV Globo, mas ainda não o suficiente para torná-lo uma celebridade ao ponto de não poder andar incólume pelas ruas, longe disso. Mas fico contente por saber que ele venceu na carreira, pois ainda lembro-me dele a circular pela casa, para assistir nossos ensaios etc.




Os ensaios acústicos tinham a função apenas para anotar a harmonia das músicas; decorar letras; fazer arranjos vocais etc. Para nós, fora o melhor possível que poderíamos realizar em uma fase em que a banda reformulara-se, e por ficar sem local de ensaio elétrico. Mas é claro que foi insuficiente e inadequado. Tanto foi assim, que após quatro shows nessa formação, a banda encerrou atividades e só voltaria quase seis meses depois, aí sim, com uma nova formação firme, e que estabeleceu a melhor fase da sua história. Já vou chegar nesse momento, logo mais nos relatos. Eu usava apenas um violão, pois não dava para ligar amplificadores e tocar bateria no sobrado germinado do Luis "Bola". Ele usava uma bateria de borracha, daquelas de estudo, e os demais com violões.

Nessa época eu tinha um desenvolvimento nulo ao violão. Isso porque a maioria dos baixistas começa com violão e guitarra, e depois, especializa-se no baixo. Entretanto, no meu caso, eu fui direto da estaca zero para o baixo, sem aprender nada ao violão / guitarra. Só fui desenvolver um pouco desses instrumentos, anos depois, ao pegá-los emprestados por amigos guitarristas, em brechas de ensaios, gravações e afins. Mesmo assim, nunca desenvolvi a contento. Toco muito mal esses dois instrumentos. 
Insisto : se aprendi a tocar e adquiri uma certa destreza no baixo, foi por absoluta força de vontade, perseverança, e por estar obcecado em atingir o meu ideal. Minha musicalidade foi forjada a fórceps...
Lembro-me em ter assistido a peça teatral, Calabar, encenada no Teatro São Pedro, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Fui com o Paulo Eugênio; Wilson e Gereba, e lá encontramos o Roatã Duprat, e a Virgínia, namorada do Fernando "Mu". 

http://homenagemaomalandro.blogspot.com/2009/06/peca-calabar.html
 
Nesse link acima, a ficha técnica dessa montagem, com o nome do Fernando "Mu", citado.
 

Tratava-se de um espetáculo denso, bem produzido e recheado com atores famosos. O Fernando Mu tocava violão; violino; guitarra e bandolim, tudo muito bem, obviamente, e a banda era de alto nível, claro.
O Fernando "Mu" é o primeiro, da direita para a esquerda, na parte mais alta, a usar um blazer com tonalidade clara 

Infelizmente, soubemos que o Mu foi demitido, pouco tempo depois por motivos desagradáveis. Fomos informados que costumava chegar atrasado nas apresentações, além de apresentar sinais de embriagues, constantemente. Soubemos também, que ficou insustentável a situação dele, e infelizmente ele foi demitido daquela que poderia ter sido a sua grande porta aberta para voos maiores na carreira. Como instrumentista, seu talento e preparo eram inquestionáveis, mas no quesito, profissionalismo, infelizmente ele não adequou-se à uma situação de alto nível.

Depois de sua saída do Terra no Asfalto, e dessa ocasião em que fui ao teatro, para vê-lo atuar em Calabar, só fui encontrá-lo novamente em 1982, por acaso, quando apareceu de surpresa no bar "Deixa Falar", onde A Chave do Sol ensaiava em seus primeiros momentos. Foi uma visita curta e inesperada, visto que ele procurava a Dona Sabine, dona da casa, provavelmente para tentar agendar uma data para uma banda cover em que estivesse a atuar. E depois, no início de 1984, o vi em ação com uma banda autoral orientada pelo Prog Rock setentista, pela TV, a apresentar-se no programa, "A Fábrica do Som". Lembro-me que o tecladista dessa boa banda, foi o Fernando "The Crow" Costa, futuro guitarrista do Inox. Mas que eu saiba, essa banda não avançou. Também, pudera... tocar Rock Progressivo em 1984, era lutar contra a maré daquele momento, e quase uma afronta. Soube também que ele fora assaltado na saída de um bar no bairro do Brooklin, zona de sul de São Paulo, e agredido, ficou desmaiado na calçada. Quando foi socorrido, sua Gibson Les Paul, modelo "Junior", ano 1958, havia desaparecido. Hoje em dia, ela estaria a valer ainda mais que naquela época. E muitos anos depois, soube que ele fora assassinado em uma padaria, no mesmo bairro do Brooklin.

Após essa pausa do Terra no Asfalto, as atividades ficaram paradas.
Eu estava a realizar vários trabalhos (já relatei alguns desse período, no capítulo : "Trabalhos Avulsos"), e a tocar no Língua de Trapo, onde as  perspectivas pareciam estar a melhorar. Então nessa entressafra, meu contato com o Terra no Asfalto resumiu-se a ver esporadicamente o Paulo Eugênio; Gereba, e Wilson, os últimos que sobraram dos escombros da banda, esporadicamente, e com o Paulo a tentar articular uma volta das atividades. O Luis Bola desinteressou-se de vez, ao verificar que as movimentações estavam bem devagar, e eu estava ocupado com outras atividades, em outros trabalhos. Uma tentativa frustrada em incorporar o cantor / compositor e guitarrista, Catalau, também não lograra êxito, após algumas reuniões e tentativas insípidas de ensaios acústicos na pensão onde moravam Wilson e Gereba. 

Então, lembro-me apenas de irmos juntos assistirmos a peça, Calabar, no Teatro São Pedro, além de termos ido assistir o filme "The Rose", no cinema (e como não sair da sala de cinema com a vontade reforçada em ter uma banda de Rock autoral, com pegada 1960 / 1970, de verdade ?). Além disso, o Paulo Eugênio levou-me uma vez na casa de um professor de canto, onde ele estava a receber aulas. O professor já era um senhor idoso naquela época, e sinceramente não lembro-me de seu nome. Recordo-me apenas que falava com forte sotaque estrangeiro, e era de um país do leste europeu, não saberia dizer qual. O que marcou, foi que tratou-se de um velhinho muito louco, pois seus métodos não eram nada ortodoxos...

Entre outras coisas, fazia seus alunos deitar-se imersos em uma cova de terra que tinha no fundo do quintal de sua casa, e onde ele jogava a terra com a pá, praticamente a enterrá-los. Só com a cabeça e os braços de fora e com o peito / diafragma totalmente coberto de terra, tinham que repetir os exercícios vocais por ele propostos, e de fato, o esforço para cantar mostrava-se tremendo, com o peito enterrado, a dificultar o movimento da respiração, e com o diafragma comprimido. Uma vez perguntou-me, ao fulminar-me com uma ênfase teatral : -"por quê o contrabaixo" ?
Fiquei com vergonha em dizer-lhe que o baixo fora meramente casual na minha vida, e respondi-lhe que gostava das notas graves...meia verdade, pois gosto das médias e agudas também...
Lembro-me que esse senhor morava em uma casa, na Rua Cônego Eugênio Leite, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. 
Continua...

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