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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 5 - Maestro Aru Jr., e a Fase mais Estável da Banda - Por Luiz Domingues

Embora os tempos fossem difíceis para reagrupar a banda, eu achava possível uma volta, e sinceramente torcia por isso, pois mesmo que fosse apenas uma banda cover, era muito mais confortável para eu tocar e ganhar dinheiro, ao menos tocando músicas que apreciava, a aventurar-se em trabalhos como acompanhar artistas brega, coisa que andava fazendo, com a mesma finalidade monetária (atividades já relatadas no capítulo "Trabalhos Avulsos)...
Lá pelo mês de novembro de 1980, essa volta delineou-se, abrindo então a melhor, e mais segura fase dessa banda. As coisas esquentaram para a volta do Terra no Asfalto, quando o Paulo Eugênio recebeu uma notícia que animou-o. 

                     Aru Junior, em foto bem mais atual



Um guitarrista / vocalista / pianista, com quem tocara em 1978, estava voltando dos Estados Unidos, onde passou anos estudando violoncelo e teoria musical. Ele chamava-se Aru Junior, e com essa sólida formação musical acadêmica que possuía, o Terra no Asfalto embalaria com sua melhor e mais firme formação.


Aru Junior morou nos Estados Unidos entre 1977 e 1980, e numa rápida volta em 1978, tocou nessa banda, em algumas apresentações. E assim, animado com essa perspectiva, e sabedor que a intenção dele era trabalhar o quanto antes, Paulo Eugênio incumbiu-me da tarefa de sondar o baterista Cido Trindade. O Cido havia deixado o grupo Jungô de forma abrupta, em agosto de 1980, alegando precisar de um tempo para estudar, pois estava obcecado pelo som Fusion; Free-Jazz, e outras vertentes, onde o mínimo que  espera-se para tocar, é que o músico seja um "virtuose". Mas apesar de eu ter ficado chateado pela atitude volúvel e intempestiva da parte dele, não custava tentar, mesmo porque ele foi o elemento que deu-me as primeiras chances mais concretas na música, além de ser meu amigo desde 1977, e morava no mesmo bairro. Para minha surpresa, ele aceitou a proposta prontamente, pois a compreensão de sua família em vê-lo estudando bateria dentro de casa por 10 horas ao dia, estava esgotando-se, não só pelo barulho, mas pelo fato de não estar produzindo, financeiramente. Sendo assim, agora era só escolher o repertório, e tirar as músicas. Com a entrada do Aru Jr., o repertório aumentou em volume. Além das músicas que já tocávamos normalmente, trouxemos muito mais coisas interessantes. Se por um lado deixamos coisas ótimas como "Jimi Hendrix"; "Ten Years After"; "Traffic"; "Bob Dylan", e "Elton John" para trás, como material que o Mu gostava de tocar, o Aru, trouxe "Grand Funk"; "Led Zeppelin", e várias pérolas do Rock progressivo.

Com essa formação, ousamos e passamos a tocar "Yes"; "Gentle Giant"; "Supertramp"; e "Genesis", por incrível que pareça para pensar-se numa banda cover que tocasse em bares...
Os ensaios eram para tirar músicas, e anotar harmonias, pois nunca ensaiamos eletricamente.


 
E esses encontros eram no apartamento do Aru Jr., na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e curiosamente, muito perto de onde eu moro hoje em dia (2016...). Tenho logo de início, uma história curiosa sobre esses ensaios. Num desses dias, eu estava indo das Perdizes, onde a maioria dos componentes do Terra no Asfalto moravam, para a Vila Mariana, de ônibus, acompanhado do Wilson.


Na metade da Av. Paulista, a conversa engrenou sobre a derrocada do Rock Brasileiro, visível em 1980, com a extinção da maioria das bandas setentistas. Falávamos em tom de lamento, e na altura da estação Paraíso do Metrô, percebemos que um rapaz negro que estava sentado no banco da frente, estava prestando atenção na nossa conversa. Ele não conteve-se e virou-se para interagir na nossa conversa. Não o reconheci em princípio, mas assim que identificou-se... 



Era o Pedrinho "Batera", baterista do Som Nosso de Cada Dia...
Mundo muito pequeno, e ele ouvindo uma conversa que dizia-lhe respeito, diretamente ! Falamos que éramos músicos e estávamos indo para o ensaio, mas não era uma banda autoral, infelizmente. 

Ele não estava numa situação boa, pois estava sobrevivendo fazendo covers na noite, também. Mas a conversa não teve maior prosseguimento, pois quando ele abordou-nos incisivamente, nós já estávamos na altura da estação Paraíso do Metrô. Nós descemos no ponto da galeria San Remo, ou seja, apenas três pontos adiante.
Infelizmente foi só isso mesmo. Despedimo-nos, desejamos-lhe boa sorte, e fomos embora para a casa do Aru Junior. Só fui ter notícias do Pedrinho novamente, em 1983. Ele estava num power trio bem "Hendrixiano", chamado "Trip". Não lembro-me quem eram os outros músicos, mas lembro de tê-los visto numa edição do programa de TV, "A Fábrica do Som". Algum tempo depois, vi anúncio de shows em danceterias (em 1984), e nada mais. Mas a banda não prosperou, pois era um som anacrônico. Fazer Acid Rock sessentista em 1983, era um caminho aberto para receber uma saraivada de balas da "intelligentzia" reinante à época, com a maldita mentalidade niilista de repúdio ao passado... 

Muitos anos depois, fui ver um show "reunion" do Som Nosso de Cada Dia, no Centro Cultural São Paulo (em 1994). Algum tempo depois (1995), ele faleceu.


Os primeiros ensaios dessa reestruturação do Terra no Asfalto eram para tirar as músicas escolhidas, mapear e decorar as harmonias basicamente entre os instrumentistas, além de decorar letras, e fazer ensaios vocais entre os vocalistas. Com a entrada do Aru Junior, tudo direcionou-se ao gosto pessoal dele, basicamente, exatamente como houvera sido no tempo do Mu. Passamos a tocar várias do Led Zeppelin, mais Beatles, e várias da carreira solo de cada beatle. 


E também algumas pérolas progressivas, que quando ficaram bem ensaiadas, chamavam muito a atenção nas apresentações da banda. 




Tem até uma história engraçada sobre isso, que relatarei no momento oportuno da cronologia. O Aru Junior, por ter formação erudita sólida, era minucioso, e tornou-se de forma natural o maestro da banda, orientando-nos na parte teórica. O Wilson cresceu demais como guitarrista, quando essa fase com o Aru Junior iniciou-se, aprendendo a harmonizar cada vez melhor, e começando a soltar-se em solos, apesar do Aru ser o solista oficial da formação. 



E também investimos num set list de MPB muito legal, com Milton Nascimento; Gilberto Gil; Caetano Veloso, e Novos Baianos, principalmente, no repertório, além de pérolas como "Malacaxeta" do Pepeu Gomes solo, e "Hino de Duran" do Chico Buarque. 


Gostava demais de tocar "Malacaxeta", por ser praticamente um Jazz Rock "nervoso", cheio de partes difíceis de tocar-se, mas extremamente prazeroso.



Na hora "H", o Cido Trindade anunciou que "repensara", e preferia não participar dessa volta da banda. OK, vida que seguiu, precisávamos de um novo baterista. Ensaiamos bastante a parte de harmonias, e para a bateria, eu indiquei um rapaz que conhecia apenas superficialmente, mas tinha achado um bom músico, e com uma personalidade legal. 



O rapaz chamava-se Edson, mas era apelidado, "Kiko". Eu conhecera-o pouco tempo antes, por fazer parte da banda de apoio do vocalista Pituco Freitas, do Língua de Trapo, quando este fez um show solo no Teatro Objetivo, em 1980, e eu estive na banda.
Apesar de mal conhecê-lo, ele aceitou entrar no grupo, mesmo com a ressalva que o Rock (e o Pop), não era-lhe familiar, como era para nós. E eu nem sabia disso... mas com a ausência do Cido Trindade, que mais uma vez abandonara o barco, era a solução.


Com essa formação, o Terra no Asfalto alcançaria não só uma estabilidade, mas também uma linearidade musical. Se por um lado perdíamos a explosão rocker do Mu, e a espontaneidade do Gereba, com o Aru Junior, aparamos arestas e tornamo-nos uma banda toda certinha, quase como se fosse uma orquestra, seguindo partituras e um maestro no comando.

O lado bom disso, era a tranquilidade. Tocávamos seguros, sem espaço para sustos. E como já disse anteriormente, com essa formação, privilegiou-se a atenção aos vocais.

Paulo Eugênio; Wilson, e Aru Junior, esmeraram-se em ensaios vocais e belas harmonias foram firmadas. No repertório de Soft-Rock, isso fazia a diferença, pois com os três cantando afinados, e fazendo uma tríade harmônica, davam um verniz à banda. Outra característica dessa nova formação, era a inclusão de temas progressivos. Com a entrada do Aru Junior, incluímos "Yes"; "Genesis", e "Gentle Giant" no repertório, por incrível que pareça.

Visão do entorno do Estádio do Pacaembu, em São Paulo com suas elegantes mansões residenciais, uma tônica nesse bairro homônimo ao estádio

Tiradas essas músicas todas, marcamos alguns ensaios com o novo baterista, Edson "Kiko" na sua casa, no bairro do Pacaembu, zona oeste de São Paulo. Lembro-me que ele morava num imponente casarão na Rua Bahia, bem próximo do estádio do Pacaembu, região nobre da zona oeste. Ensaiávamos num quarto isolado e bem amplo, numa edícula da casa. Não havia nenhum tratamento acústico ali, mas a casa tinha um terreno tão grande, que o som que produzíamos não causava grandes transtornos à vizinhança. E além do mais, nossa rotina de ensaios estabeleceu-se no período da tarde até o início da noite, no máximo. Portanto, nunca tivemos problemas. Lembro-me de uma semana intensiva de ensaios, que realmente preparou a banda.


O Paulo Eugênio em meio aos seus contatos, fechou uma data num bar que havíamos tocado com uma formação bastante improvisada, numa fase de entressafra da banda (já relatado na narrativa). 


Agora, havia passado por reforma e mudado de nome, de "Le Café", para"Barbarô". Marcada a data, sabíamos que seria no dia 12 de dezembro de 1980.


 
E fomos então à apresentação dessa nova formação e fase do Terra no Asfalto. O bar "Barbarô" havia passado por uma boa reforma e mudado de nome (era Le Café, anteriormente, como já mencionei).


No dia da apresentação, a casa lotou. Claro, haviam diversos convidados, amigos e parentes dos membros da banda, mas também um público convidado pelas donas do estabelecimento. Era na verdade um casal de lésbicas, coisa muito comum hoje em dia, mas em 1980, ainda causava uma certa estranheza, e alguns desconfortos para pessoas preconceituosas. Por outro lado, há de registrar-se que algumas lésbicas mais ousadas ali presentes, foram à luta... tanto foi assim, que nossos convidados, principalmente as meninas, contaram que passaram por assédio no toillete do bar, sendo "atacadas" por lésbicas, visto que o bar estava com um contingente grande de mulheres dessas características, por serem amigas das donas. Fora esse ligeiro desconforto, fomos bem tratados pela dona majoritária, chamada "Paulette", e sua namorada. E a banda agradou em cheio. Como já havia comentado, nessa nova fase, perdemos um pouco a fúria Rocker dos tempos do Mu, mas ganhamos em segurança, agora com o Aru Júnior como "lead guitar".


Capa do então mais recente LP de George Harrison em 1979, sem título específico, chamado apenas "George Harrison" e cujo repertório, nós tocávamos quatro músicas ao vivo, incluso a abertura de nossas apresentações, nessa fase da banda, uma bela canção chamada : "Love Comes to Everyone".
 
A primeira entrada era iniciada com Soft Rock. A primeira música era "Love Comes to Everyone", do então último LP de George Harrison. Uma balada leve e que fazia a banda flutuar, num início bem "soft", e sem agredir o público dos bares, geralmente formado por casais de namorados (nesse caso do Barbarô, namoradas...).


A entrada seguia com mais Harrison, Paul e Lennon em baladas de suas carreiras solo, acrescentando várias do James Taylor e Cat Stevens.


Só na parte final começava a esquentar com uma sessão de Beatles. Os vocais harmônicos e afinados do Paulo Eugênio;Wilson, e Aru Jr., caiam muito bem em todas as canções. Em "Nowhere Man", dos Beatles, arrancavam suspiros das mesas, geralmente. Na segunda entrada, uma sessão de MPB com forte poder dançante, caía sempre bem. E na parte final, Rocks mais vigorosos. Hora de tocar "Cream"; "Led Zeppelin"; "Grand Funk" etc. E no final, dependendo do clima, mais peso ou não.




E nessa estreia, um bom público, com cerca de 100 pessoas assistiu-nos. No dia seguinte, repetimos a dose no mesmo Barbarô, com mais gente : 120 pessoas (12 e 13 de dezembro de 1980).


E fora uma semana dura para nós, pois ainda estávamos impactados pela chocante notícia do assassinato brutal de John Lennon, dias antes, e sem dúvida, um duro golpe para todos nós.







Como já mencionei anteriormente, com a entrada do Aru Junior, passamos a tocar também temas progressivos. No set list inicial dessa fase, tocávamos "Long Distance Runaround"; "Roundabout"; e "I've Seen All the Good People"do "Yes", por exemplo. 


Apesar da ausência de teclados nesse momento inicial (o Sérgio Henriques voltaria e sairia algumas vezes nessa fase também, conforme relatarei logo mais), as músicas soavam muito bem, com instrumental tirado com minúcias, e vocais muito bem afinados.
Tocávamos também nessa sessão progressiva, "Playing the Game", e "Betcha Though you Couldn't Do It" do Gentle Giant, e "I Know What I Like" do Genesis. Havia planos para tocar "Horizons" do Genesis, mas acabou nunca entrando no set list. Os temas progressivos eram reparados apenas pelos mais antenados, pois o público básico do Terra no Asfalto, não era de Rockers inveterados e conhecedores da matéria. Mas houve uma vez, que foi engraçada a reação despertada por essa sessão progressiva.


O extraordinário Gentle Giant, representante da fina flor do Rock Progressivo britânico e setentista

Antecipando-me, conto que aconteceu em 1981, numa apresentação onde contávamos com a presença do tecladista Sérgio Henriques de volta à banda. Ele tinha um amigo, seu colega de faculdade de música na USP, que também era fã de Rock Progressivo, e que numa dada apresentação, num desses bares em que tocávamos, encontrou-o na rua por acaso, pois ele iria tocar num outro bar, próximo. Ao dizer-lhe que tocaríamos Gentle Giant, esse amigo, que também era tecladista, disse que queria ver isso a todo custo, pois achou inacreditável alguém tocar Gentle Giant, no ambiente da noite. E num intervalo de sua apresentação no bar vizinho, lembro-me de vê-lo debruçado numa janela vendo-nos tocar Gentle Giant. Era um sujeito chamado Nico Rezende, que anos depois ficou famoso como compositor e cantor solo, com músicas nas FM's.



 
Como agradamos as donas do Barbarô, ficou acertado então que faríamos todas as sextas e sábados de dezembro na casa. Desta forma, tocamos também nos dias 19 (150 pessoas presentes); 20 (100); 26 (60), e 27 (50). A cada apresentação, a banda azeitava mais a sua performance, alcançando segurança; swing, dinâmica etc. Apesar de estarmos animados com a banda alcançando uma regularidade, o baque da semana fora forte antes da estreia, com a perda do John Lennon.



Foi na manhã de terça-feira, 9 de dezembro de 1980, que a notícia explodiu na imprensa : John Lennon estava morto, assassinado por um psicopata em Nova York. Naquela manhã, acordei cedo para ir ao dentista, e enquanto arrumava-me no meu quarto, ouvi "Stand by Me", na versão do Lennon, ecoando na TV da sala. Achei estranho estar tocando essa canção num programo feminino vespertino, como a "TV Mulher" da Globo, e já intuí que alguma coisa ruim tivesse acontecido... 




O Paulo Eugênio contou-me que ouviu no Rádio, também preparando-se para sair, e que foi voando à porta da pensão onde moravam Wilson e Gereba e acordou-os com a buzina do carro. 



Todos sentimos, menos o baterista Edson "Kiko", que realmente não era um Rocker como nós. Perder o Lennon desse jeito foi algo inacreditável, e deu mais força ainda aos ventos de baixo astral que traziam os anos oitenta com todo aquele conceito estúpido de destruição niilista, repúdio ao passado etc etc. A frase "O Sonho Acabou", foi repetida na mídia à exaustão naqueles dias, e trazia-nos uma melancolia enorme, uma verdadeira desesperança.


Nós já tocávamos várias músicas da carreira solo dele, inclusive do último álbum na época, "Double Fantasy", que mal acabara de ser lançado. Mas a vida prosseguiu, infelizmente, e sem nosso "working class hero"...

Nos shows do dia 19 em diante, o tecladista Sérgio Henriques tocou conosco. Mesmo trazendo só um piano elétrico, sem órgão ou sintetizador, sua contribuição enriquecia demais o som do Terra no Asfalto.




Logo que entrou o ano de 1981, a agenda do Terra no Asfalto estava lotada, ainda que o público nas apresentações, fosse diminuto. Tocamos novamente no Barbarô, nos dias 2 e 3 de janeiro de 1981. No dia 2, apenas 10 pessoas presentes, reflexo da ressaca do Reveillon, certamente. E no dia 3, foi pior ainda, com apenas duas pessoas presentes. Nessa apresentação do dia 3, tivemos um convidado especial : Gereba, ex-guitarrista do próprio Terra, que tocou um pouco conosco. 



O Sérgio Henriques estava novamente desfalcando-nos. De férias da banda da Elis Regina, recebeu o convite, e foi tocar com Rita Lee & Roberto de Carvalho na turnê do disco "Lança Perfume".


Mas ele voltaria várias vezes, nos intervalos da turnê, e antes de voltar a tocar com Elis Regina, na turnê seguinte dela, "Trem Azul".
Ainda em janeiro, surgiu uma oportunidade para reforçarmos o nosso equipamento. Uma banda de bailes, recém dissolvida, estava liquidando todo o equipamento, e nós fomos dar uma olhada. 



Era uma banda de Jundiaí, no interior de São Paulo, porém bem perto, cerca de 50 KM de São Paulo. Lembro-me de irmos de trem, numa terça-feira de janeiro, e verificarmos que já haviam vendido quase tudo. No entanto, acabamos fechando o negócio com o que ainda estava disponível, e assim compramos uma mesa de 12 canais; três amplificadores Palmer com duas caixas cada;
uma potência; duas caixas de P.A. de graves; e uma câmara de eco, da marca "Binson". 



Com esse equipamento, e somado aos equipamentos próprios de cada um, melhoramos bastante as condições técnicas da banda.
Ainda em janeiro, tocamos pela primeira vez numa casa chamada 790 (pronunciávamos: "sete, nove, zero"). Era uma casa que ficava localizada no bairro do Itaim-Bibi, zona sul de São Paulo, e com frequência predominante de casais jovens. Eu já havia tocado nessa casa com o Língua de Trapo, por ocasião do lançamento da fita K7 demo, primeiro registro gravado da banda. Tocaria bastante com o Terra no Asfalto, e faria um show de choque, com A Chave do Sol, logo no comecinho dessa banda. E nossa estreia nessa casa deu-se em 16 de janeiro de 1981, com 50 pessoas.




Tocamos no dia 16 de janeiro de 1981, e repetimos a dose, no dia 17 de janeiro de 1981. Em ambas as apresentações, levamos 50 pessoas à casa, respectivamente. Nosso som encaixou-se bem ao tipo de público que ali comparecia, e o palco era bem mais espaçoso do que o do Barbarô, onde tocáramos com essa nova formação, durante o mês de dezembro de 1980. Voltamos ao "790", nos dias 17 (50 pessoas presentes); 23 (70 pessoas); 24 (50 pessoas; 30 (60 pessoas) e 6 de fevereiro (40 pessoas). 



O clima na banda era de animação, e o baterista Edson "Kiko", apesar de não ser um "Rocker de carteirinha" como os demais, esforçava-se para ouvir as músicas e executá-las com a melhor desenvoltura possível. Ele era solícito e esforçado, embora não tivesse uma grande técnica. Estávamos com uma sonoridade melhor ao vivo, também, graças ao equipamento recém adquirido. Mas ganhamos uma dor de cabeça extra. Com mini P.A.; mesa de mixagem; e seis caixas Palmer estilo Marshall, era impossível levarmos todo esse equipamento em carros particulares. 



E em tese, nem poderíamos fazer isso, pois naquela época, só o Paulo Eugênio tinha carro, uma Brasília preta...
Eu nem sabia dirigir, e nem sonhava em ter um carro. Wilson, idem. O Aru Jr. também estava sem carro no momento, e às vezes aparecia com o carro de seu cunhado emprestado, e o baterista Edson "Kiko", tinha uma moto. Sendo assim, passamos a ter uma despesa extra, ao sermos obrigados a alugar uma Kombi, toda vez que fôssemos tocar.



Era uma temeridade, pois na maioria esmagadora das vezes, arriscávamos tocar pela bilheteria do dia e dessa forma, corríamos o risco de numa noite de movimento fraco, termos que pagar para tocar, literalmente. Mas esse era o ônus do progresso, afinal de contas...
Lembro-me de um fato curioso ocorrido nesse mês de janeiro, entre essas apresentações todas que citei. Conhecemos um sujeito que era irmão de um amigo do Paulo Eugênio, que muitas vezes alugou equipamento para tocarmos. O tal sujeito dizia-se técnico de equipamentos, e que realizava manutenção...




Então, esse sujeito que chamava-se Plínio, propôs-nos desmontar todo o nosso equipamento recém adquirido, e fazer um grande check up, trocando possíveis peças estragadas, promovendo uma limpeza, enfim...
Dissemos-lhe que não tínhamos condições de pagar-lhe por esse serviço, e que aguardasse então uma oportunidade melhor dos nossos bolsos, mas ele insistiu muito nessa determinação de ajudar-nos, e que faria tudo de graça, pelo prazer de auxiliar, e se liberássemos sua entrada numa apresentação nossa, nos bares em que tocávamos, como uma mera cortesia. 



O sujeito insistiu tanto, que realmente acreditamos no seu espírito altruísta e finalmente concordamos em deixar que ele ajudasse-nos com essa manutenção.



De fato, tal como um carro usado que compra-se e rapidamente encostamos no nosso mecânico de confiança para promover um check-up, realmente era uma ajuda providencial. Sendo assim, o elemento colocou a mão na massa. Em dois dias, desmontou tudo; checou todos os componentes eletrônicos; válvulas dos amplificadores, limpou e lubrificou tudo etc etc. Mas, esquecendo-se do que havia dito-nos anteriormente, quando apertou o último parafuso, montando a última peça, apresentou uma conta, que tinha um valor absurdo !! E aí, rapidamente o clima amistoso transformou-se numa discussão acirrada, com o tom esquentando bastante, e com troca de insultos, chegando num limite bem desagradável. Como resolução, o rapaz foi numa dessas apresentações subsequentes, teve sua entrada liberada conforme o combinado e na hora da saída, queria debitar a enorme conta de consumação que fizera, na nossa conta.




Com a nossa recusa em assumir, visto que o combinado era só liberar o ingresso, o sujeito encheu sua "comanda" só para tentar  prejudicar-nos. Evidentemente, para rechear a comanda de marcações, ficou muito bêbado, e deu um vexame na hora da saída, recusando-se a pagar, e claro que o gerente da casa não quis nem saber. Lógico que teve de pagar, e saiu de lá amaldiçoando-nos...
Resumo da história : o combinado não é caro, mas descumprir o acordo, fica muito oneroso.


Tudo ia bem na banda, com apresentações seguras, datas novas sendo fechadas, e o clima bom interno. Com a aquisição recente de mais equipamentos, o nosso áudio também melhorou muito, e claro, isso animava-nos. 



Mas uma fatalidade imprevista acarretou um enorme susto, e posteriormente uma situação delicada, cujo desfecho foi desagradável, e embora injustamente imputado somente à minha pessoa, pois era culpa coletiva, saí chamuscado dessa história.
Foi o seguinte : na apresentação do dia 13 de fevereiro de 1981, quando estávamos preparando-nos para carregar a Kombi que alugávamos para transportar nosso equipamento, soubemos que o baterista Edson "Kiko" sofrera um acidente de moto. 



Por sorte, apesar da violência da colisão, ele sofreu escoriações e apenas uma luxação no pé, pois poderia ter sido muito pior, e a moto também não estragou muito. Contudo, ficava obviamente impedido de tocar naquela noite, e talvez por mais algumas apresentações. Ficamos no impulso de cancelar prontamente a apresentação, mas ele mesmo insistiu para que procurássemos um substituto, e se alguém aceitasse, que fôssemos tocar, pois poderíamos perder a vaga no Bar 790. Então, o Paulo Eugênio pensou em três nomes imediatos : Edmundo; Luis Bola, e Cido Trindade.


O Edmundo era velho amigo dele, e acompanhou o nascimento da banda Terra no Asfalto, pois sua casa foi o próprio berço desse nascimento, mas pesava contra, o fato de estar enferrujado, sem tocar há muito tempo. O Luis Bola acabou nem sendo mais citado, pois assim como o Cido Trindade, havia externado seu desinteresse, quando a banda voltou no final de 1980. O Cido Trindade era para ter sido o baterista oficial desde o começo, por ser da formação original, reconhecidamente preparado para assumir as baquetas do TNA, mas pesava contra, o fato de ter deixado-nos na mão recentemente, quando da reformulação da banda. Por que aceitaria agora ? Mas o Paulo Eugênio ligou, ele aceitou, e foi com sua bateria imediatamente encontrar-nos no bar 790. Mesmo sem ensaiar, ele conhecia 99% do repertório e mesmo sujeito a errinhos, não daria vexame, de jeito nenhum.


E assim, o Cido Trindade apareceu, montou sua bateria e sem passar o som, tocamos todo o nosso repertório, sem problemas. 


Com pequenos erros quase irrelevantes, fez uma ótima participação.
Indo além, ficou nítido para todos, que ele havia proporcionado à banda, um enorme crescimento. Todos entreolhavam-se e riam, vendo o quanto o som da banda havia crescido.
Era por outro lado, uma infâmia, pois o Cido estava ali "quebrando o galho" como substituto numa circunstância terrível, já que o baterista Edson "Kiko" estava convalescendo de um acidente. E era absolutamente recente, com o Kiko ainda sentindo as dores decorrentes do acidente de moto. 

Já no intervalo, o guitarrista Aru Júnior observou que a despeito da situação do Edson Kiko, não poderíamos ignorar o fato de que o Cido Trindade era muito mais técnico e encaixara-se perfeitamente à banda, mesmo sem ensaios. "Imagine ensaiando", dizia-me entusiasmado, o Aru Júnior. Ele era o único que não conhecia o potencial do Cido. Os demais, Paulo Eugênio e Wilson, estavam acostumados, de tantas apresentações do Cido conosco, em formações anteriores do "TNA". Criou-se assim uma pressão terrível a partir desse mesmo dia, para efetivar o Cido na banda e isso era uma atitude muito desagradável em todos os sentidos, pelos aspectos éticos e morais. 
Tecnicamente, era óbvio que o Cido tinha mais condições, fora a bagagem pessoal no tocante à sua formação Rocker, coisa que o Edson não tinha. E o mais óbvio aspecto : era nosso amigo de longa data. Durante algumas apresentações, esse impasse foi crescendo, enquanto o Kiko ia recuperando-se, e querendo voltar a ocupar seu posto, naturalmente. Íamos visitá-lo, e esse clima desagradável entre nós, só crescia. Todos estavam fechados na ideia de efetivar o Cido, mas eu sentia-me muito mal com essa situação, principalmente pelo fato de eu ter sido responsável pela sua indicação à banda (referindo-me ao Kiko), fora a questão dele ter ausentado-se graças a um acidente. Não que os outros não fossem sensíveis à essa situação, mas...


Claro, não estou dizendo isso, mas, digamos que eles pensaram mais friamente no melhor para a banda, sem deixar-se levar pelo sentimentalismo daquela situação. Não lembro-me ao certo a data onde tivemos que conversar com o Edson Kiko, mas esse dia chegou, e na reunião fatídica, em sua casa, a bomba estourou nas minhas mãos, lamentavelmente.

Num clima constrangedor, fui eu o designado a falar, e senti-me terrivelmente mal por encará-lo e dizer-lhe que chegáramos à conclusão de que o melhor para a banda seria manter o substituto Cido Trindade no posto, a despeito dele, Kiko, ter recuperado-se.

Aquele silêncio tétrico enquanto eu falava gaguejando, foi horrível. O Kiko ficou bravo. Tinha toda a razão por sentir-se traído, humilhado, desprestigiado, etc. Fora o fato de que mesmo não sendo um simpatizante dos nossos ideais na música, teve toda a força de vontade para adequar-se à banda e ao repertório, emprestara sua casa para ensaios, ajudou financeiramente na aquisição de equipamento, numa compra recente, e acidentara-se, lamentavelmente. Alguns minutos depois, menos exaltado, ele disse que tudo bem, sobreviveria e desejava-nos boa sorte, ponderando que realmente não era Rocker, e que pretendia tocar coisas que gostava, MPB e música instrumental, música étnica etc.

E o pior, foi quando dirigindo-se especificamente à minha pessoa, disse estar muito desapontado comigo. Aquilo cortou-me o coração internamente, pois justamente eu, era o que mais relutava com essa atitude, justamente por considerar uma questão antiética e abominável. Mas aos olhos dele, fui diretamente culpado pois ele devia achar que pelo fato de ter tomado a palavra, era o mentor da ideia. Conclusão : assumo minha parcela de culpa nessa história, pela falta de empenho de ter brigado mais pela causa do Kiko, quando surgiu esse movimento interno na banda.

Essa foi uma mácula que criei na minha carreira, e humano que sou, estou sujeito a erros como todo mundo. Pedi desculpas a ele na hora, mas era algo praticamente imperdoável, convenhamos. Três ou quatro anos depois, eu estava já com A Chave do Sol fazendo barulho na mídia, e soube de uma notícia dele. Estava tocando num projeto de música étnica, algo relacionado com música africana. Acho que era mesmo a "sua praia", por gostar de "World Music".
Espero que esteja bem, e se souber deste relato meu, aproveito e registro mais uma vez, meu sincero pedido de desculpa.


 
A vida continuou... depois desse deslize ético. Se por um lado, falhamos feio, na parte pratica da música, a banda obviamente cresceu com a presença de Cido Trindade, bem mais técnico que o Edson Kiko. E devo relatar que o TNA entrou aí na sua fase mais firme, com sucesso, remuneração, e só não teve uma continuidade ainda maior, por um fator extraordinário ocorrido no meio do ano, que quebrou o embalo da banda, infelizmente. Voltando a focar na cronologia, tocamos nos dias 14 (80 pessoas presentes); 20 (50); 26 de fevereiro de 1981(60), e 6 de março de 1981 (40), no 790 Bar.

Na apresentação do dia 26 de fevereiro, o tecladista Sérgio Henriques apareceu e tocou, numa folga da turnê da Rita Lee que fazia. Fizemos um teste numa nova casa, chamada Bang-Bang, perante um público de apenas 20 pessoas, no dia 11 de março de 1981.

Usamos o equipamento da banda que tocava naquela noite, chamada "Flashback", formada por "coroas" (ha ha ha... o que eu sou hoje em dia ??), e com um repertório bem de soft e pop Rock 1960 / 1970. Assistir a apresentação deles era como ligar uma velha "jukebox", pelo seu repertório. Tocavam bem, mas pecavam pelo excesso de docilidade. Todavia, a intenção era essa mesma, sem espaço para sons mais pesados. Tivemos outra volta ao "790", em 13 de março de 1981, desta feita com 200 pessoas, e um público bem animado. Então fomos novamente ao Bang-Bang, desta vez como atração contratada. 63 pagantes viram-nos na noite de 19 de março de 1981. Esse Bang-Bang ficava na Al. Lorena, no bairro de Cerqueira César (perto da avenida Paulista), no quarteirão entre o Barbarô, e o Victoria Pub. Tinha uma decoração de saloon de velho oeste, interessante, mas o palco era minúsculo. Tivemos que fazer uma ginástica para tocar lá. E no dia 22 de março de 1981, fizemos um teste no Café Teatro Deixa Falar. Esse lugar era emblemático por ter sido na década de setenta, o saudoso "Be Bop A Lula", uma casa de shows concorrida, e que abrigou shows dos maiores nomes do Rock Brasileiro naquela década, e que tinha um glamour muito grande.

Em tempo : esta filipeta acima é de outra data, posterior, à que mencionei no último parágrafo.

Confesso que era um sonho para eu tocar naquele lugar, pois entre 1975 e 1976, passava na sua porta quase diariamente por ser próximo, relativamente, da escola onde estudava, e delirava ao ver os cartazes anunciando as atrações da semana !! "Som Nosso de Cada Dia"; "Joelho de Porco"; "Veludo"; "Alceu Valença"; "Sindicato"; "Made in Brazil", e tantos outros que ali apresentaram-se. Não vou esticar muito a descrição sobre como estava o agora Café Teatro Deixa Falar nesse momento de 1981, pois já fiz tal descrição com bastante detalhamento nos capítulos iniciais da Chave do Sol, pois o berço dessa banda foi essa casa, e graças à sua proprietária, Dona Sabine, virtual sogra do guitarrista Rubens Gióia. Por ora, digo que fizemos esse teste para um público de apenas 7 pessoas.

Era um domingo, é bem verdade. Mas o fato é que, muito diferente das glórias do passado do Be Bop A Lula, o Deixa Falar não passava de um arremedo, agora. A despeito da decoração muito louca (leia nos capítulos da Chave do Sol), não tinha um público habitue; o aspecto era decadente, pouco asseado, e os serviços de comidas e bebidas deixavam a desejar. O palco ainda era bom, pois mantinha a estrutura de teatro, e haviam ainda vários spots de iluminação funcionando, mas a casa não tinha mais um P.A. Portanto, cada banda tinha que levar absolutamente tudo. Tínhamos sorte de ter um equipamento, mas transportar e montar tudo para tocar para 7 pessoas...


Fizemos uma apresentação digna, correta, apesar das 7 testemunhas. E acredite, caro leitor, essas 7 pessoas não estavam nem um pouco interessadas na nossa performance...
A seguir, no dia 26 de março de 1981, tocamos novamente no bar Bang-Bang. Desta vez com 20 pessoas na casa. Um público diminuto, todavia mais animado que os desinteressados do Deixa Falar. E no dia seguinte, outra incursão no Deixa Falar, desta feita com 20 pessoas, o que era até bom em se considerando ser um dia útil. Foi no dia 27 de março de 1981, com boa performance, novamente. No dia seguinte, uma oportunidade muito melhor : após um longo hiato, fomos convidados a tocar no Casablanca, um bar que era bem concorrido na época, e onde o Terra no Asfalto havia tocado um ano antes, com a formação que contava com o guitarrista Fernando Mu. Aliás, casa onde vivemos uma história bizarra envolvendo policiais e que já relatei, capítulos atrás. Foi uma apresentação perfeita, com a casa abarrotada ! Nas minhas anotações, está marcado público exato de 307 pagantes. E dali em diante, a banda ganharia uma fase de estabilidade muito boa. Logo no início de abril, tornamo-nos sexteto novamente, com o tecladista Sérgio Henriques voltando ao TNA, no hiato entre a turnê da Rita Lee que terminara, e os ensaios da nova turnê da Elis Regina, que iniciar-se-ia.

Com esse reforço, a banda ficou ainda mais rica. Passamos a incorporar novas músicas, explorando a possibilidade dos teclados.
Músicas dos Beatles com teclados; Stevie Wonder; mais temas progressivos do Yes etc. E o primeiro show dessa nova fase com a volta de Sérgio Henriques, foi no dia 2 de abril de 1981, no Bang-Bang, mas infelizmente, com um pequeno público presente, de apenas 9 pessoas. No dia seguinte, nova apresentação no Deixa Falar, com somente 5 testemunhas. Mas à essa altura, encarávamos o Deixa Falar como uma oportunidade de ensaio aberto. A semana foi salva no entanto com uma apresentação no Casablanca, onde 200 pagantes compareceram.

          Filipeta de um show posterior ao que mencionei acima

Seguiu-se mais uma apresentação no Casablanca, com a média normal de 200 pessoas presentes.  E logo a seguir, uma casa nova apareceu, chamada "Roda D'água". Foi num domingo essa apresentação, com cachet fechado, pois tratava-se de uma festa particular.

A casa tinha decoração rústica, porém muito charmosa, lembrando uma casa de fazenda. O que remetia ao Rock ali, era um poster gigante dos Beatles, do tamanho da parede inteira, com a foto do "Fab Four", com os quatro sentados em cadeiras de cabeleireiros, sendo penteados por quatro garotas. A namorada do Aru Júnior à época, contou-nos uma história engraçada ocorrida com ela própria, nos bastidores de um show da cantora Zizi Possi, na noite anterior, enquanto arrumávamos o equipamento no palco, ocorrida na mesma noite em que tocáramos no Casablanca. Foi uma apresentação legal, com o dono da casa sinalizando que contratar-nos-ia em outras ocasiões. E 150 pessoas estiveram presentes na referida festa, e dançaram e cantaram ao som do TNA. Ainda com Sérgio Henriques na banda, tocamos no Casablanca novamente, no dia 24 de abril, mas desta feita, com um reduzido público de apenas 20 pessoas. Foi numa quinta feira, talvez tenha sido essa a explicação...


Nessa época, abril de 1981, passamos por uma fase de mais ensaios, acrescentando músicas ao repertório. E a oportunidade surgiu quando o baterista Cido Trindade disponibilizou sua casa, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, para ensaiarmos inicialmente às terças e quartas. Com tempo para trabalhar, melhoramos e aumentamos o repertório, tornando-o enorme, ao ponto de termos músicas extras para qualquer eventualidade. E um fato bizarro ocorreu nessa época durante os ensaios...

Num certo dia, percebemos que um rapaz passava de um lado e outro da calçada, olhando-nos tocar na sala da casa, improvisada como estúdio. Como ensaiávamos com as janelas abertas e despreocupados com qualquer tentativa de coibir o ruído, já que os vizinhos suportavam-no sem reclamar, deixávamos tudo aberto para ventilar bem. Um dia, após várias vezes observando-nos, esse rapaz criou coragem e tocou a campainha. Não recordo-me de seu nome, mas sei que ele apresentou-se dizendo ser compositor e observando-nos por dias, animou-se a abordar-nos, e pedir-nos que o ajudássemos, gravando duas músicas de sua autoria, visando inscrevê-las num festival de MPB.

Infelizmente, as canções do rapaz eram muito fracas, com harmonia e melodias pobres, letras brega / românticas...
Bem, aceitamos ajudá-lo, e aí o Sérgio Henriques e o Aru Júnior fizeram um arranjo praticamente "Prog Rock" nas músicas do rapaz !! Claro que o sujeito não entendeu nada, mas o fato é que gravamos as duas canções, com belo arranjos para ambas, que quase mascarou a sua breguice. E de fato, com duas guitarras; baixo; bateria; e teclados, ficaram quase irreconhecíveis. E foi além essa história, pois numa apresentação nossa (infelizmente, não lembro-me em qual, especificamente), ele apareceu e nós tocamos as suas duas canções ao vivo, com sua interpretação, naturalmente.
Nunca mais tive notícias dele, apesar de morar perto da minha casa e do Cido Trindade, na ocasião. Nem ao menos sei se as músicas por nós gravadas, foram classificadas no tal festival.


Seguiu-se mais um show no Bar Casablanca em 24 de abril de 1981 (20 pessoas presentes), e depois disso (25 de abril de 1981), fomos tocar numa nova casa para nós, chamada "Taverna Boêmia", no coração da Rua 13 de Maio, no tradicional bairro do Bixiga, aqui em São Paulo. Esse bar tinha uma característica engraçada. O fato, era que o palco estava colocado num mezanino altíssimo, e assim, na parte de baixo, era quase obrigatório ficar com o pescoço muito levantado para ver a banda, e dependendo do ponto onde a pessoa estivesse, simplesmente não conseguia enxergar o baterista da banda. E outro fator bizarro : não havia proteção alguma para os músicos, e o perigo era evidente naquele precipício.

A única margem de segurança era um arame esticado na extensão do comprimento do palco, e que segundo o dono, era uma lembrança "psicológica" do perigo, tão somente, pois num eventual acidente, não conteria uma pessoa de forma alguma. Apesar de tocar com cuidado, éramos seis músicos; nossos enormes amplificadores Palmer; bateria, e um piano elétrico Würlitzer ali em cima, há quase três metros de altura do solo...
Isso ocorreu no dia 25 de abril de 1981, e esse esforço de colocar e tirar todo o equipamento dessa altura, foi compensado com uma bilheteria legal, oriunda de 350 pagantes, nessa noite. E no dia seguinte (26 de abril de 1981), mais uma boa apresentação no "Roda D'água", do bairro do Brooklin, apesar do pequeno público de apenas 15 pessoas presentes, num domingo nublado, e já com o friozinho de outono apertando.


O próximo passo para o TNA, foi tocar novamente no Casablanca.
Desta feita, era uma festa organizada, visando angariar fundos para uma campanha de solidariedade, denominada "S.O.S. Mulher".
Por conta disso, 603 pessoas espremeram-se nas dependências da casa, e dançaram a noite inteira. Isso ocorreu em 8 de maio de 1981. Foi uma das nossas melhores apresentações, e inaugurou uma fase de participações em festas fechadas, bom sinal de que a nossa banda deixava boa impressão por onde tocava. No dia seguinte, e no posterior, voltamos ao Roda D'Água, com 150 pagantes no dia 9; apenas 12, no dia 10 de maio de 1981, um domingo. 

Nessa fase, estávamos muito seguros, com bastante desenvoltura e praticamente tocando no "piloto automático", com segurança.
Não fazíamos música autoral, mas chegamos a ter reações parecidas com artistas autorais, que saem em turnês, pois sabíamos de antemão as reações do público, aonde quer que tocássemos. Portanto, haviam os momentos de pico de euforia; momentos mais calmos onde os namorados agarravam-se mais; hora de envolver-se com a música e bater palmas... enfim, era como se fôssemos uma banda autoral nesse aspecto.


O mês de maio estava bom de agenda, e logo a seguir, tocamos nos dias 16; 22; 27; e 30 desse mês, sempre no Casablanca. Estávamos praticamente fixos naquela casa, e o nosso repertório agradava em cheio o público habitue, formado por adultos jovens, e de classes sociais A e B. Era de fato uma plateia de mulheres jovens e bonitas, e consequentemente atraindo os garotões paqueradores. Alheio à esses dados sociais, gostávamos do bom cachet que pagavam-nos ao final das noites cheias, e lamentávamos os dias fracos, naquela rotina tradicional do músico da noite. No dia 16, tivemos um público de 60 pessoas. Em 22 de maio, foram  80. Já no dia 27, foi outra festa fechada. Tocamos para um público de médicos e enfermeiras da Santa Casa, um tradicional e antigo hospital aqui de São Paulo.

E como era costume em festas fechadas, um bom cachet fixo e bastante gente animada. Estiveram presentes cerca de 500 pessoas daquele hospital, claro, contando com esposas; maridos; namorados etc. Mesmo assim, o hospital não ficou sem atendimento naquela noite. E finalmente no dia 30 de maio de 1981, tocamos para 150 pessoas numa noite normal, sem festas corporativas. Mas no final de maio, tivemos uma notícia inesperada que daria uma quebrada nessa sequência : o guitarrista Aru Júnior teria que ausentar-se por um tempo, tratando de assuntos pessoais pendentes nos Estados Unidos.

Logicamente o embalo seria quebrado, mas não havia outro jeito a não ser resignar-se, e tentar suportar esse período (que alongou-se por cerca de três meses). E outra baixa estava também anunciada anteriormente, com o tecladista Sérgio Henriques anunciando que entraria num período de ensaios, para tocar na nova turnê da Elis Regina. Portanto, o hiato que faríamos serviu também para pensarmos numa reestruturação a partir da volta dele (Aru), da América. Essa fase do hiato do TNA, eu já contei no capítulo "Trabalhos Avulsos", pois formei com Cido Trindade; Pitico Freitas, e a vocalista Vilma, um quarteto MPB em caráter emergencial, para tocar na noite e ganhar dinheiro ("Quarteto Toulon"). Para quem ainda não leu, convido a fazê-lo, pois tem histórias engraçadas, incluso a do dia em que fomos assistir juntos o Show da Elis Regina, a convite do Sérgio Henriques. Antes do Aru viajar, ainda fizemos contudo, algumas apresentações.


E assim chegamos aos últimos shows antes das férias forçadas da banda. O próximo foi no Roda D'Água, no dia 5 de junho de 1981, com 80 pessoas presentes. No dia 6, tocamos no Casablanca para 40 pessoas. Na semana seguinte, mais dois dias no Casablanca, 12 e 13 de junho, com 30 e 40 pessoas. Sinceramente não saberia dizer o porque de públicos tão fracos numa casa que costumava lotar. Após tantos anos, e sem ter anotado nenhuma ocorrência, acredito que o frio deva ter atrapalhado a balada daquela garotada.
E depois desse dia 13 de junho, paramos as atividades, e só voltaríamos em setembro. Na verdade um pouco antes, no final de agosto, reagrupamo-nos e ensaiamos, visto que havíamos naturalmente "enferrujado". De minha parte, nesses três meses sem atividade com o TNA, formei aquele quarteto já citado, cuja história já foi amplamente contada no capítulo, "Trabalhos Avulsos". O Paulo Eugênio e o Wilson dispersaram. Lembro-me que o Paulo Eugênio tinha a sua atividade paralela como guia turístico de uma agência de viagens, dessas que levam adolescentes bem nascidos à Disney World. 

Não posso afirmar que tenha feito uma viagem nesse ínterim, pois não recordo-me com certeza, mas de fato, era uma época propícia, com o verão na América, e portanto, temporada para tal.
Logo mais, dou prosseguimento, falando das atividades da banda no segundo semestre, quando o Aru voltou dos Estados Unidos.

Continua...  

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