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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Terra no Asfalto - Capítulo 5 - Maestro Aru Jr., e a Fase mais Estável da Banda - Por Luiz Domingues

Embora os tempos fossem difíceis para reagrupar a banda, eu achava possível uma volta, e sinceramente torcia por isso, pois mesmo que fosse apenas uma banda cover, era muito mais confortável para eu tocar e ganhar dinheiro, ao menos a tocar músicas que apreciava, a aventurar-se em trabalhos como acompanhar artistas brega, coisa que estava por fazer nessa época, com a mesma finalidade monetária (atividades já relatadas no capítulo : "Trabalhos Avulsos). Por volta de novembro de 1980, essa volta delineou-se, ao inaugurar então, a melhor e mais segura fase dessa banda. As coisas esquentaram para a volta do Terra no Asfalto, quando o Paulo Eugênio recebeu uma notícia que animou-o. 

        O excelente músico, Aru Junior, em foto bem mais atual 

Um guitarrista / vocalista / pianista, com quem tocara em 1978, estava por voltar dos Estados Unidos, onde passara anos a estudar violoncelo e teoria musical. Ele chamava-se, Aru Junior, e com essa sólida formação musical acadêmica que possuía, o Terra no Asfalto embalaria com sua melhor e mais firme formação.


Aru Junior morou nos Estados Unidos entre 1977 e 1980, e em numa rápida volta em 1978 sob férias, tocou nessa banda, em algumas apresentações em casas noturnas de São Paulo. E assim, animado com essa perspectiva, e sabedor que a intenção dele seria trabalhar o quanto antes, Paulo Eugênio incumbiu-me da tarefa para sondar o baterista, Cido Trindade. O Cido havia deixado o grupo Jungô, de uma forma abrupta, em agosto de 1980, ao alegar precisar de um tempo para estudar, pois estava obcecado pelo som Fusion; Free-Jazz, e outras vertentes, onde o mínimo que espera-se para tocar, é que o músico seja um "virtuose". Mas apesar de eu ter ficado chateado pela atitude volúvel e intempestiva da parte dele, não custou-me tentar, mesmo por que, ele fora o elemento que deu-me as primeiras chances mais concretas na música, além de ser meu amigo desde 1977, e morava no mesmo bairro. Para minha surpresa, ele aceitou a proposta prontamente, pois a compreensão de sua família em vê-lo a estudar bateria dentro de casa por 10 horas ao dia, estava a esgotar-se, não só pelo barulho, mas pelo fato de não estar a produzir, financeiramente. Sendo assim, agora seria só escolher o repertório, e tirar as músicas. Com a entrada do Aru Jr., o repertório aumentou em volume. Além das músicas que já tocávamos normalmente, anexou-se muito mais coisas interessantes. Se por um lado deixamos um material ótimo oriundo de artistas como "Jimi Hendrix"; "Ten Years After"; "Traffic"; "Bob Dylan", e "Elton John" para trás, como material que o Mu gostava de tocar, o Aru, trouxe "Grand Funk"; "Led Zeppelin", e várias pérolas do Rock progressivo britânico, suas predileções.

Com essa formação, ousamos e passamos a tocar "Yes"; "Gentle Giant"; "Supertramp"; e "Genesis", por incrível que pareça para pensar-se em uma banda cover que tocasse em bares...
Os ensaios acústicos serviu-nos para tirar músicas, ao anotar harmonia, pois nunca ensaiamos, de fato, eletricamente, nesse início.


 
E esses encontros ocorriam no apartamento do Aru Jr., no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e curiosamente, muito perto de onde eu moro hoje em dia (2016...). Tenho logo de início, uma história curiosa sobre esses ensaios preliminares. Em um desses dias, eu estava a deslocar-me das Perdizes, onde a maioria dos componentes do Terra no Asfalto moravam, para a Vila Mariana, no uso de um ônibus, acompanhado do Wilson.


Na metade da Av. Paulista, a conversa engrenou sobre a derrocada do Rock Brasileiro, visível em 1980, com a extinção da maioria das bandas setentistas. Falávamos em tom de lamento, e na altura da estação Paraíso do Metrô, percebemos que um rapaz negro que estava sentado no banco da frente, estava a prestar atenção na nossa conversa. Ele não conteve-se e virou-se para interagir na nossa conversa. Não o reconheci em princípio, mas assim que identificou-se... 



Era o Pedrinho "Batera", baterista do Som Nosso de Cada Dia...
Mundo muito pequeno, e ele ali a ouvir uma conversa que dizia-lhe respeito, diretamente ! Falamos que éramos músicos e estávamos a dirigirmo-nos para o nosso ensaio, mas que não tratava-se de uma banda autoral, infelizmente. 

Ele não estava em uma situação boa, pois contou-nos que sobrevivia a tocar em bandas cover pela noite, também. Mas a conversa não teve maior prosseguimento, pois quando ele abordou-nos incisivamente, nós já estávamos na altura da estação Paraíso do Metrô. Nós descemos no ponto da Galeria San Remo, ou seja, apenas três pontos adiante. Infelizmente foi só isso mesmo. Despedimo-nos, desejamos-lhe boa sorte, e fomos embora para a residência do Aru Junior. Só fui ter notícias do Pedrinho, novamente, em 1983. Ele estava em um power trio bem "Hendrixiano", chamado "Trip". Não lembro-me quem eram os outros músicos, mas lembro de tê-los visto em uma edição do programa de TV, "A Fábrica do Som". Algum tempo depois, vi anúncio de shows em danceterias (em 1984), e nada mais. Mas a banda não prosperou, pois realizava um som anacrônico. Fazer Acid Rock sessentista em 1983, era um caminho aberto para receber uma saraivada de balas da "intelligentzia" reinante à época, com a maldita mentalidade niilista de repúdio ao passado... 
Muitos anos depois, fui ver um show "reunion" do Som Nosso de Cada Dia, no Centro Cultural São Paulo (em 1994). Algum tempo depois (1995), ele faleceu.


Os primeiros ensaios dessa reestruturação do Terra no Asfalto serviu-nos para tirar as músicas escolhidas, mapear e decorar a harmonia das canções, basicamente entre os instrumentistas, além de decorar letras, e fazer ensaios vocais entre os vocalistas. Com a entrada do Aru Junior, tudo direcionou-se ao gosto pessoal dele, basicamente, exatamente como houvera sido no tempo do Mu. Passamos a tocar várias do Led Zeppelin, mais Beatles, e várias da carreira solo de cada beatle. 


E também algumas pérolas progressivas, que quando ficaram bem ensaiadas, chamavam muito a atenção nas apresentações da banda. 




Tem até uma história engraçada sobre isso, que relatarei no momento oportuno da cronologia. O Aru Junior, por ter formação erudita sólida, era minucioso, e tornou-se de forma natural o maestro da banda, ao orientar-nos na parte teórica. O Wilson cresceu demais como guitarrista, quando essa fase com o Aru Junior iniciou-se, ao aprender a harmonizar cada vez melhor, e começou a soltar-se em solos, apesar do Aru ser o solista oficial da formação. 



E também investimos em um set list de MPB, muito bom, com canções do Milton Nascimento; Gilberto Gil; Caetano Veloso, e Novos Baianos, principalmente, no repertório, além de pérolas como "Malacaxeta" do Pepeu Gomes em carreira solo, e "Hino de Duran", do Chico Buarque. Gostava demais de tocar "Malacaxeta", por ser praticamente um Jazz Rock eletrizante, cheio de partes difíceis para tocar-se, mas extremamente prazeroso em sua execução. 

Na hora decisiva, o Cido Trindade anunciou que "repensara", e preferia não participar dessa volta da banda. OK, vida que seguiu, precisávamos de um novo baterista. Ensaiamos bastante a parte de harmonia, e para a bateria, eu indiquei um rapaz que conhecera apenas superficialmente, mas tinha achado-o um bom músico, e com uma personalidade serena. 



O rapaz chamava-se, Edson, mas era apelidado, como : "Kiko". Eu conhecera-o pouco tempo antes, por fazer parte da banda de apoio do vocalista, Pituco Freitas, do Língua de Trapo, quando este fez um show solo no Teatro Objetivo, em 1980, e eu estive na sua banda de apoio, nesse espetáculo. Apesar de mal conhecê-lo, ele aceitou entrar no grupo, mesmo com a ressalva de que o Rock (e o Pop), não era-lhe familiar, como o era para nós. E eu nem sabia disso... mas com a ausência do Cido Trindade, que mais uma vez abandonara-nos, foi a solução imediata.


Com essa formação, o Terra no Asfalto alcançaria não só uma estabilidade, mas também uma linearidade musical. Se por um lado perdíamos a explosão rocker do Mu, e a espontaneidade do Gereba, com o Aru Junior, aparamos arestas e tornamo-nos uma banda toda certinha, quase como se fosse uma orquestra, a seguir partituras e um maestro no comando.

O lado bom disso, foi a tranquilidade. Tocávamos seguros, sem espaço para sustos. E como já disse anteriormente, com essa formação, privilegiou-se a atenção aos vocais.

Paulo Eugênio; Wilson, e Aru Junior, esmeraram-se em ensaios vocais e belas harmonias em côro, foram firmadas. No repertório de estilo, Soft-Rock, isso fazia a diferença, pois com os três a cantar bem afinados, e empreender uma tríade harmônica, davam um verniz à banda. Outra característica dessa nova formação, foi a inclusão de temas progressivos. Com a entrada do Aru Junior, incluímos "Yes"; "Genesis", e "Gentle Giant" no repertório, por incrível que pareça.

Visão do entorno do Estádio do Pacaembu, em São Paulo com suas elegantes mansões residenciais, uma tônica nesse bairro homônimo ao estádio, na zona oeste da capital paulista

Tiradas essas músicas todas, marcamos alguns ensaios com o novo baterista, Edson "Kiko" na sua residência, localizada no bairro do Pacaembu, zona oeste de São Paulo. Lembro-me que ele morava em um imponente casarão na Rua Bahia, bem próximo do estádio do Pacaembu, região nobre da zona oeste. Ensaiávamos em um quarto isolado e bem amplo, em uma edícula da casa. Não havia nenhum tratamento acústico ali, mas a mansão tinha um terreno tão grande, que o som que produzíamos, não causava grandes transtornos à vizinhança. E além do mais, nossa rotina de ensaios estabeleceu-se no período da tarde até o início da noite, no máximo. Portanto, nunca tivemos problemas. Lembro-me de uma semana intensiva de ensaios, que realmente preparou a banda.


O Paulo Eugênio em meio aos seus contatos, fechou uma data em um bar que havíamos tocado anteriormente, com uma formação bastante improvisada, naquela fase sob entressafra que a banda  viveu (já relatado na narrativa). Agora, havia passado por reforma e mudado de nome, de "Le Café", para : "Barbarô". Marcada a data, sabíamos que seria no dia 12 de dezembro de 1980.


 
E fomos então à apresentação dessa nova formação e fase do Terra no Asfalto. O bar, "Barbarô" havia passado por uma boa reforma e mudado de nome (era Le Café, anteriormente, como já mencionei).


No dia da apresentação, a casa lotou. Claro, havia diversos convidados, amigos e parentes dos membros da banda, mas também um público convidado pelas donas do estabelecimento. Era na verdade um casal de lésbicas, coisa muito comum hoje em dia, mas em 1980, ainda causava uma certa estranheza, e alguns desconfortos para pessoas preconceituosas. Por outro lado, há de registrar-se que algumas lésbicas mais ousadas ali presentes, foram à luta... tanto foi assim, que nossos convidados, principalmente as meninas, contaram-nos que passaram por assédio no toillete do bar, sendo "atacadas" por lésbicas, visto que o bar estava com um contingente grande de mulheres dessas características, por ser amigas das donas. Fora esse ligeiro desconforto, fomos bem tratados pela dona majoritária, chamada "Paulette", e sua namorada. E a banda agradou em cheio. Como já havia comentado, nessa nova fase, perdemos um pouco a fúria Rocker dos tempos do Fernando "Mu", mas ganhamos em segurança, agora com o Aru Júnior, como "lead guitar".


Capa do então mais recente LP de George Harrison em 1979, sem título específico, chamado apenas "George Harrison" e cujo repertório desse disco, nós tocávamos quatro músicas ao vivo, incluso a abertura de nossas apresentações, nessa fase da banda, uma bela canção chamada : "Love Comes to Everyone".
 
A primeira entrada era iniciada com Soft Rock. A primeira música era "Love Comes to Everyone", do então último LP solo de George Harrison. Uma balada leve e que fazia a banda flutuar, sob um início bem leve, e sem agredir o público dos bares, geralmente formado por casais de namorados (nesse caso do Barbarô, namoradas...). A entrada seguia com mais Harrison, McCarteney e Lennon em baladas de suas respectivas carreiras solo, e a acrescentar várias do James Taylor e Cat Stevens.


Só na parte final começava a esquentar com uma sessão de Beatles. Os vocais harmônicos e afinados do Paulo Eugênio; Wilson, e Aru Jr., caiam muito bem em todas as canções. Em "Nowhere Man", dos Beatles, arrancavam suspiros das mesas, geralmente. Na segunda entrada, uma sessão com MPB sob forte poder dançante, caía sempre bem. E na parte final, Rocks mais vigorosos. Hora de tocar "Cream"; "Led Zeppelin"; "Grand Funk" etc. E no final, a depender do clima instaurado na casa, mais peso ou não.




E nessa estreia, um bom público, com cerca de cem pessoas, assistiu-nos. No dia seguinte, repetimos a dose no mesmo Barbarô, com mais gente : cento e vinte pessoas (12 e 13 de dezembro de 1980). E fora uma semana dura para nós, pois ainda estávamos impactados pela chocante notícia do assassinato brutal de John Lennon, dias antes, e sem dúvida, um duro golpe para todos nós.







Como já mencionei anteriormente, com a entrada do Aru Junior, passamos a tocar também temas progressivos. No set list inicial dessa fase, tocávamos : "Long Distance Runaround"; "Roundabout"; e "I've Seen All the Good People", ambas do "Yes", por exemplo. 


Apesar da ausência de teclados nesse momento inicial (o Sérgio Henriques voltaria e sairia algumas vezes nessa fase também, conforme relatarei logo mais), as músicas soavam muito bem, com instrumental tirado com minúcias, e vocais muito bem afinados.
Tocávamos também nessa sessão progressiva, "Playing the Game", e "Betcha Though you Couldn't Do It" do Gentle Giant, e "I Know What I Like", do Genesis. Havia planos para tocar "Horizons" do Genesis, mas eis que nunca entrou no set list. Os temas progressivos eram reparados apenas pelos mais antenados, pois o público básico do Terra no Asfalto, não era formado por Rockers inveterados e conhecedores da matéria. Mas houve uma vez, que foi engraçada a reação despertada por essa sessão progressiva.


O extraordinário, Gentle Giant, representante da fina flor do Rock Progressivo britânico e setentista

Antecipo-me, ao narrar que algo nesse sentido aconteceria em 1981, em uma apresentação onde contávamos com a presença do tecladista, Sérgio Henriques, de volta à banda. Ele tinha um amigo, seu colega de faculdade de música na USP, que também era fã de Rock Progressivo, e que em uma determinada apresentação, e um desses bares em que tocávamos, encontrou-o na rua por acaso, pois ele iria tocar em outro bar, próximo. Ao dizer-lhe que tocaríamos Gentle Giant, esse amigo, que também era tecladista, disse que queria ver isso a todo custo, pois achou inacreditável alguém tocar Gentle Giant, no ambiente inapropriado da noite. E assim, em um intervalo de sua apresentação no bar vizinho, lembro-me por vê-lo debruçado em uma janela a ver-nos tocar uma canção do Gentle Giant. Era um sujeito chamado, Nico Rezende, que anos depois ficou famoso como compositor e cantor solo, com músicas bem executadas nas emissoras FM de todo o Brasil.



 
Como agradamos as proprietárias do Barbarô, ficou acertado então que faríamos todas as sextas e sábados de dezembro nessa casa. Desta forma, tocamos também nos dias 19 (150 pessoas presentes); 20 (100); 26 (60), e 27 (50). A cada apresentação, a banda azeitava mais a sua performance, a alcançar segurança; swing, dinâmica etc. Apesar de estarmos animados com a banda  a conseguir uma boa regularidade, o baque da semana fora forte antes da estreia, com a perda do John Lennon.



Foi na manhã de terça-feira, 9 de dezembro de 1980, que a notícia explodiu na imprensa : John Lennon estava morto, assassinado por um psicopata em Nova York. Naquela manhã, acordei cedo para ir ao dentista, e enquanto arrumava-me no meu quarto, ouvi "Stand by Me", na versão do Lennon, a ecoar pela TV ligada na sala de estar de minha residência. Achei estranho estar a tocar essa canção em um programo feminino vespertino, como a "TV Mulher", da Globo, e já intuí que alguma coisa ruim tivesse acontecido... 




O Paulo Eugênio contou-me que ouviu no Rádio, também ao preparar-se para sair, e que fora apressadamente à porta da pensão onde moravam Wilson e Gereba e acordou-os com a buzina do carro. 



Todos sentimos, menos o baterista, Edson "Kiko", que realmente não era um Rocker, como nós. Perder o Lennon desse jeito foi algo inacreditável, e deu mais força ainda aos ventos de baixo astral que traziam os anos oitenta com todo aquele conceito estúpido de destruição niilista, repúdio ao passado etc. A frase : "O Sonho Acabou", foi repetida na mídia à exaustão naqueles dias, e trazia-nos uma melancolia enorme, uma verdadeira desesperança.


Nós já tocávamos várias músicas da carreira solo dele, inclusive do último álbum na época, "Double Fantasy", que mal acabara de ser lançado. Mas a vida prosseguiu, infelizmente, sem o nosso "working class hero", doravante...

Nos shows do dia 19 de dezembro em diante, o tecladista, Sérgio Henriques tocou conosco. Mesmo ao trazer só um piano elétrico, sem órgão ou sintetizador, sua contribuição enriquecia demais o som do Terra no Asfalto.




Logo que entrou o ano de 1981, a agenda do Terra no Asfalto estava lotada, ainda que o público nas apresentações, fosse diminuto. Tocamos novamente no Barbarô, nos dias 2 e 3 de janeiro de 1981. No dia 2, com apenas dez pessoas presentes, reflexo da ressaca do Reveillon, certamente. E no dia 3, foi pior ainda, com somente duas pessoas testemunhas. Nessa apresentação do dia 3, tivemos um convidado especial : Geraldo "Gereba", ex-guitarrista do próprio Terrano Asfalto, que tocou um pouco conosco. 



O Sérgio Henriques estava prestes novamente a desfalcar-nos. De férias da banda da Elis Regina, recebeu o convite, e foi tocar com Rita Lee & Roberto de Carvalho na turnê do disco, "Lança Perfume". Mas ele voltaria várias vezes, nos intervalos da turnê, e antes de voltar a tocar com Elis Regina, na turnê seguinte dela, "Trem Azul". Ainda em janeiro, surgiu uma oportunidade para reforçarmos o nosso equipamento. Uma banda de bailes, recém dissolvida, estava a liquidar todo o seu equipamento, e nós fomos verificar o que tinham a oferecer. 



Era uma banda de Jundiaí, no interior de São Paulo, porém bem perto, cerca de 50 Km de São Paulo. Lembro-me que fomos a bordo de uma trem, em uma terça-feira de janeiro, e verificarmos que já haviam vendido quase tudo. No entanto, fechamos o negócio com o que ainda estava disponível, e assim compramos uma mesa Giannini com 12 canais; três amplificadores Palmer com duas caixas cada como gabinete; uma potência; duas caixas de P.A. com falantes para graves; e uma câmara de eco italiana, da marca "Binson". 



Com esse equipamento, e somado aos equipamentos próprios de cada um, melhoramos bastante as condições técnicas da banda.
Ainda em janeiro, tocamos pela primeira vez em uma casa chamada 790 (pronunciávamos : "sete, nove, zero"). Era uma casa que ficava localizada no bairro do Itaim-Bibi, zona sul de São Paulo, e com frequência predominante de casais jovens em suas dependências. Eu já havia tocado nessa casa com o Língua de Trapo, por ocasião do lançamento da fita K7 demo, primeiro registro gravado dessa banda. Tocaria bastante com o Terra no Asfalto, e faria um show de choque, com A Chave do Sol, logo no começo dessa banda. E sobre o Terra no Asfalto, nossa estreia nessa casa deu-se em 16 de janeiro de 1981, com cinquenta pessoas presentes.




Tocamos no dia 16 de janeiro de 1981, e repetimos a dose, no dia 17 de janeiro de 1981. Em ambas as apresentações, movimentamos cerca de cinquenta pessoas à casa, respectivamente. Nosso som encaixou-se bem ao tipo de público que ali comparecia, e o palco era bem mais espaçoso do que o do Barbarô, onde tocáramos com essa nova formação, durante o mês de dezembro de 1980. Voltamos ao "790", nos dias 17 (cinquenta pessoas presentes); 23 (setenta pessoas); 24 (cinquenta pessoas; 30 (sessenta pessoas) e 6 de fevereiro (quarenta pessoas). 



O clima na banda foi de animação, e o baterista Edson "Kiko", apesar de não ser um "Rocker", propriamente dito como os demais, esforçava-se para ouvir as músicas e executá-las com a melhor desenvoltura possível. Ele era solícito e esforçado, embora não tivesse uma grande técnica. Estávamos com uma sonoridade melhor ao vivo, também, graças ao equipamento recém adquirido. Mas ganhamos uma preocupação extra com tal advento. Com mini P.A.; mesa de mixagem; e seis caixas Palmer, ao estilo Marshall, era impossível levarmos todo esse equipamento em carros particulares. 



E em tese, nem poderíamos fazer isso, pois naquela época, só o Paulo Eugênio possuía um carro, no caso, sua Brasília preta...
Eu nem sabia dirigir, e nem sonhava em ter um carro. Wilson, idem. O Aru Jr. também estava sem carro no momento, e às vezes aparecia com o carro de seu cunhado emprestado, e o baterista Edson "Kiko", usava uma moto para o seu transporte pessoal. Sendo assim, passamos a ter uma despesa adicional, ao sermos obrigados a alugar uma Kombi, toda vez que fôssemos tocar.



Foi uma temeridade, no entanto, pois na maioria esmagadora das vezes, arriscávamos tocar pela bilheteria da noite e dessa forma, corríamos o risco de amargarmos uma apresentação sob movimento fraco, e assim termos que pagar para tocar, literalmente. Mas esse fora o ônus do progresso, afinal de contas...
Lembro-me de um fato curioso ocorrido nesse mês de janeiro, entre essas apresentações todas que citei, e também motivado pela recém aquisição desse equipamento. Conhecemos um sujeito que era irmão de um amigo do Paulo Eugênio, chamado Pérsio, e este muitas vezes alugara equipamento para tocarmos. O tal irmão que dizia-se técnico de eletrônica, e que realizava manutenção...




Então, esse sujeito que chamava-se, Plínio, propôs-nos desmontar todo o nosso equipamento recém adquirido, e fazer um grande check up, para trocar possíveis peças estragadas, e promover uma limpeza, enfim...
Dissemos-lhe que não tínhamos condições de pagar-lhe por esse serviço, e que aguardasse então uma oportunidade melhor oriunda dos nossos bolsos, mas ele insistiu muito nessa determinação em ajudar-nos, e que faria tudo de graça, pelo prazer em auxiliar, e se liberássemos sua entrada eventualmente em uma apresentação nossa, nos bares em que tocávamos, como uma mera cortesia. 



O sujeito insistiu tanto, que realmente acreditamos no seu espírito altruísta e finalmente concordamos em deixar que ele ajudasse-nos, com essa manutenção.



De fato, tal como um carro usado que compra-se e rapidamente encostamos no nosso mecânico de confiança para promover um check-up, realmente poderia ser uma ajuda providencial. Sendo assim, o elemento colocou a mão na massa. Em dois dias, desmontou tudo; checou todos os componentes eletrônicos; as válvulas dos amplificadores; limpou e lubrificou tudo etc. Mas, ao esquecer-se do que havia dito-nos anteriormente, quando apertou o último parafuso, a montar a última peça, apresentou uma conta, que tinha um valor absurdo ! E aí, rapidamente o clima amistoso transformou-se em uma discussão acirrada, com o tom a esquentar bastante, e assim, mediante a inevitável troca de insultos, chegou-se no limite bem desagradável. Como resolução, o rapaz foi em uma dessas apresentações subsequentes, teve sua entrada liberada conforme o combinado e na hora da saída, queria debitar a enorme conta de consumação que fizera, sob nossa responsabilidade.




Com a nossa recusa em assumir, visto que o combinado era só liberar o ingresso, o sujeito encheu sua "comanda" só para tentar  prejudicar-nos. Evidentemente, para rechear a comanda com marcações, ficou muito bêbado, e deu um vexame na hora da saída, ao recusar-se a pagar, e claro que o gerente da casa não quis nem saber. Lógico que teve de pagar, e saiu de lá a amaldiçoar-nos...
Resumo da história : o combinado não é caro, mas descumprir o acordo, fica muito oneroso...


Tudo ia bem na banda, com apresentações seguras, datas novas sendo fechadas, e o clima bom, no interno. Com a aquisição recente de mais equipamentos, o nosso áudio também melhorou muito, e claro, isso animou-nos. 



Mas uma fatalidade imprevista acarretou um enorme susto, e posteriormente uma situação delicada, cujo desfecho foi desagradável, e embora injustamente imputado somente à minha pessoa, pois fora culpa coletiva, saí chamuscado dessa história.
Foi o seguinte : na apresentação do dia 13 de fevereiro de 1981, quando estávamos a prepararmo-nos para carregar a Kombi que alugávamos para transportar nosso equipamento, soubemos que o baterista, Edson "Kiko" sofrera um acidente de moto. 



Por sorte, apesar da violência da colisão, ele sofreu escoriações e apenas uma luxação no pé, pois poderia ter sido muito pior, e a moto também não estragou muito. Contudo, ficava obviamente impedido por tocar naquela noite, e talvez por mais algumas apresentações. Ficamos no impulso de cancelar prontamente a apresentação, mas ele mesmo insistiu conosco para que procurássemos um substituto, e se alguém aceitasse, que fôssemos tocar, pois poderíamos perder a vaga no Bar 790. Então, o Paulo Eugênio pensou em três nomes imediatos : Edmundo; Luis Bola, e Cido Trindade.


O Edmundo era velho amigo dele, e acompanhou o nascimento do Terra no Asfalto, pois sua casa foi o próprio berço desse nascimento, mas pesava contra, o fato dele estar inativo, sem tocar há muito tempo. O Luis Bola nem foi mais citado, pois assim como o Cido Trindade, havia externado seu desinteresse, quando a banda voltou ao final de 1980. O Cido Trindade era para ter sido o baterista oficial desde o começo, por ser da formação original, reconhecidamente preparado para assumir as baquetas do "TNA", mas pesava contra, o fato de ter deixado-nos sem perspectivas e recentemente, quando da reformulação da banda. Por quê aceitaria agora ? Mas o Paulo Eugênio ligou, ele aceitou, e foi com sua bateria imediatamente encontrar-nos no bar 790. Mesmo sem ensaiar, ele conhecia 99% do repertório e mesmo sujeito a erros pontuais, não daria vexame, de jeito nenhum.


E assim, o Cido Trindade apareceu, montou sua bateria e sem passar o som, tocamos todo o nosso repertório, sem problemas. 


Com pequenos erros quase irrelevantes, fez uma ótima participação.
Indo além, ficou nítido para todos, que ele havia proporcionado à banda, um enorme crescimento. Todos entreolhavam-se e riam, ao verificar o quanto o som da banda havia crescido, com ele a comandar a nossa sessão rítmica.
Foi também, por outro lado, uma infâmia tal euforia gerada, pois o Cido estava ali interinamente como substituto sob uma circunstância terrível, já que o nosso baterista, Edson "Kiko" estava a convalescer, vítima de um acidente. E era absolutamente recente, com o Kiko ainda a sentir as dores decorrentes do seu acidente com motocicleta. 

Já no intervalo, o guitarrista Aru Júnior observou para todos, que a despeito da situação do Edson Kiko, não poderíamos ignorar o fato de que o Cido Trindade mostrara-se muito mais técnico e encaixara-se perfeitamente à banda, mesmo sem ensaios. "Imagine ao ensaiar", dizia-me entusiasmado, o Aru Júnior. Ele era o único que não conhecia o potencial do Cido. Os demais, Paulo Eugênio e Wilson, estavam acostumados, por tantas apresentações do Cido conosco, em formações anteriores do "TNA". Criou-se assim uma pressão terrível a partir desse mesmo dia, para efetivar o Cido na banda e isso foi uma atitude muito desagradável em todos os sentidos, pelos aspectos éticos e morais. 
Tecnicamente, era óbvio que o Cido tinha mais condições, fora a bagagem pessoal no tocante à sua formação Rocker, coisa que o Edson não tinha. E o mais óbvio aspecto : era nosso amigo de longa data. Durante algumas apresentações, esse impasse pôs-se a crescer, enquanto o Kiko recuperava-se, e a querer voltar a ocupar seu posto, naturalmente. Íamos visitá-lo, e esse clima desagradável entre nós, só crescia. Todos estavam fechados na ideia de efetivar o Cido, mas eu sentia-me muito mal com essa situação, principalmente pelo fato de eu ter sido responsável pela sua indicação à banda (ao referir-me ao Kiko), fora a questão dele ter ausentado-se graças a um acidente. Não que os outros não fossem sensíveis à essa situação, mas...


Claro, não estou a afirmar isso, mas, digamos que eles pensaram mais friamente no melhor para a banda, sem deixar-se levar pelo sentimentalismo daquela situação. Não lembro-me ao certo a data onde tivemos que conversar com o Edson Kiko, mas esse dia chegou, e na reunião fatídica, em sua casa, a bomba estourou nas minhas mãos, lamentavelmente.

Sob um clima constrangedor, fui eu o designado a falar, e senti-me terrivelmente mal por encará-lo e dizer-lhe que chegáramos à conclusão de que o melhor para a banda seria manter o substituto, Cido Trindade, no posto, a despeito dele, Kiko, ter recuperado-se.

Aquele silêncio tétrico enquanto eu falava a gaguejar, foi horrível. O Kiko ficou bravo. Teve toda a razão por sentir-se traído, humilhado, desprestigiado etc. Fora o fato de que mesmo por não ser um simpatizante dos nossos ideais na música, teve toda a força de vontade para adequar-se à banda e ao repertório, emprestara sua casa para ensaios, ajudou financeiramente na aquisição de equipamento, em uma compra recente, e acidentara-se, lamentavelmente. Alguns minutos depois, menos exaltado, ele disse que tudo bem, sobreviveria e desejava-nos boa sorte, ao ponderar que realmente não era um Rocker, e que pretendia tocar coisas que gostava, MPB e música instrumental, música étnica etc.

E o pior, foi quando ao dirigir-se especificamente à minha pessoa, disse estar muito desapontado comigo. Aquilo cortou-me o coração internamente, pois justamente eu, fora o que mais relutara com essa atitude, justamente por considerar uma questão antiética e abominável. Mas na percepção dele, fui diretamente culpado pois ele deve ter achado que pelo fato de eu ter tomado a palavra, como porta voz do anúncio, fora o mentor da ideia. Conclusão : assumo minha parcela de culpa nessa história, pela falta de empenho em ter brigado mais pela causa do Kiko, quando surgiu esse movimento interno na banda.

Essa foi uma mácula que criei na minha carreira, e humano que sou, estou sujeito a erros como todo mundo. Pedi desculpas a ele na hora, mas foi algo praticamente imperdoável, convenhamos. Três ou quatro anos depois, eu já estava com A Chave do Sol a fazer um alarde na mídia, e soube de uma notícia dele. Ele estava a tocar em um projeto de música étnica, algo relacionado com música africana. Acho que essa era mesmo a sua predileção, por gostar de "World Music". Espero que esteja bem, e se souber deste relato meu, aproveito e registro mais uma vez, meu sincero pedido de desculpa.


 
A vida continuou... depois desse deslize ético. Se por um lado, falhamos feio, na parte pratica da música, a banda obviamente cresceu com a presença de Cido Trindade, bem mais técnico que o Edson Kiko. E devo relatar que o TNA entrou aí na sua fase mais firme, com sucesso, remuneração, e só não teve uma continuidade ainda maior, por um fator extraordinário ocorrido no meio do ano, que quebrou o embalo da banda, infelizmente. De volta a focar na cronologia, tocamos nos dias 14 (oitenta pessoas presentes); 20 (cinquenta); 26 de fevereiro de 1981(sessenta), e 6 de março de 1981 (quarenta), no 790 Bar.

Na apresentação do dia 26 de fevereiro, o tecladista, Sérgio Henriques apareceu e tocou conosco, mediante uma folga que tivera da turnê da Rita Lee, em que fazia parte. E com seu piano sempre bem vindo, fizemos um teste em uma nova casa, chamada, Bang-Bang, perante um público de apenas vinte pessoas, no dia 11 de março de 1981.

Usamos o equipamento da banda que tocava naquela noite, chamada,"Flashback", formada por "coroas" (ha ha ha... o que eu sou hoje em dia ?), e com um repertório bem na linha do soft e pop Rock 1960 / 1970. Assistir a apresentação deles era como ligar uma velha "jukebox", pelo seu repertório. Tocavam bem, mas pecavam pelo excesso de docilidade. Todavia, a intenção deles era essa mesma, sem espaço para sons mais pesados. Tivemos outra volta ao "790", em 13 de março de 1981, desta feita com duzentas pessoas no recinto, e foi um público bem animado. Então fomos novamente ao Bang-Bang, desta vez como atração contratada. Sessenta e três pagantes viram-nos na noite de 19 de março de 1981. Esse Bang-Bang ficava na Alameda Lorena, no bairro de Cerqueira César (perto da avenida Paulista), no quarteirão entre o Barbarô, e o Victoria Pub. Tinha uma decoração inspirada em um "saloon" de velho oeste norteamericano, interessante, mas o palco era minúsculo. Tivemos que fazer uma ginástica contorcionista para tocar lá. E no dia 22 de março de 1981, fizemos um teste no Café Teatro Deixa Falar. Esse lugar fora emblemático por ter sido na década de setenta, o saudoso, "Be Bop A Lula", uma casa de shows concorrida, e que abrigou shows dos maiores nomes do Rock Brasileiro naquela década, e que tinha um glamour muito grande.

Em tempo : esta filipeta acima é de outra data, posterior, à que mencionei no último parágrafo.

Confesso que era um sonho pessoal tocar naquele lugar, pois entre 1975 e 1976, passei na sua porta, quase diariamente por ser próximo, relativamente, da escola onde estudava, e delirava ao ver os cartazes a anunciar as atrações da semana ! "Som Nosso de Cada Dia"; "Joelho de Porco"; "Veludo"; "Alceu Valença"; "Sindicato"; "Made in Brazil", e tantos outros que ali apresentaram-se. Não vou esticar muito a descrição sobre como estava o agora Café Teatro Deixa Falar, nesse momento de 1981, pois já fiz tal descrição com bastante detalhamento nos capítulos iniciais da Chave do Sol, pois o berço dessa banda foi essa casa, e graças à sua proprietária, Dona Sabine, virtual sogra do guitarrista, Rubens Gióia. Por ora, digo que fizemos esse teste para um público com apenas sete pessoas a assistir-nos.

Era um domingo, é bem verdade. Mas o fato é que, muito diferente das glórias do passado do Be Bop A Lula, o Deixa Falar não passava de um arremedo, agora. A despeito da decoração muito louca (leia no primeiro capítulo sobre a minha história com a Chave do Sol), não tinha um público habitue; o aspecto era decadente, pouco asseado, e os serviços oferecidos com comidas e bebidas deixava muito a desejar. O palco ainda era bom, pois mantinha a estrutura antiga do Café Teatro, e havia ainda vários spots de iluminação a funcionar, mas a casa não tinha mais um P.A. decente, Portanto, cada banda tinha que levar absolutamente tudo. Tínhamos sorte por termos um equipamento, mas transportar e montar tudo para tocar para sete pessoas...


Fizemos uma apresentação digna, correta, apesar das sete testemunhas. E acredite, caro leitor, essas sete pessoas não estavam nem um pouco interessadas na nossa performance...
A seguir, no dia 26 de março de 1981, tocamos novamente no bar Bang-Bang. Desta vez com vinte pessoas na casa. Um público diminuto, todavia mais animado que os desinteressados do Deixa Falar. E no dia seguinte, outra incursão ao Deixa Falar, desta feita com vinte pessoas na audiência, o que foi até bom ao considerar-se ser um dia útil. Foi no dia 27 de março de 1981, com boa performance, novamente. No dia seguinte, uma oportunidade muito melhor : após um longo hiato, fomos convidados a tocar no Casablanca, um bar que era bem concorrido nessa época, e onde o Terra no Asfalto havia tocado um ano antes, com a formação que contava com o guitarrista, Fernando Mu. Aliás, casa onde vivemos uma história bizarra a envolver policiais e da qual já relatei, capítulos atrás. Desta feita, foi uma apresentação perfeita, com a casa abarrotada ! Nas minhas anotações, está marcado o público exato com trezentos e sete pagantes. E dali em diante, a banda ganharia uma fase de estabilidade muito boa. Logo no início de abril, tornamo-nos sexteto novamente, com o tecladista, Sérgio Henriques de volta ao TNA, no hiato entre a turnê da Rita Lee que terminara, e os ensaios da nova turnê da Elis Regina, que iniciar-se-ia.

Com esse reforço, a banda ficou ainda mais rica. Passamos a incorporar novas músicas, a explorar a possibilidade dos teclados.
Músicas dos Beatles com teclados; Stevie Wonder; mais temas progressivos do Yes etc. E o primeiro show dessa nova fase com a volta de Sérgio Henriques, foi no dia 2 de abril de 1981, no Bang-Bang, mas infelizmente, com um pequeno público presente, com apenas nove pessoas, presentes. No dia seguinte, nova apresentação no Deixa Falar, com somente cinco testemunhas. Mas nessa altura, encarávamos o Deixa Falar como uma oportunidade para um ensaio aberto. A semana foi salva no entanto, com uma apresentação no Casablanca, onde duzentos pagantes compareceram.

          Filipeta de um show posterior ao que mencionei acima

A emblemática estátua do bandeirante, "Borba Gato", um ícone na divisa de bairros entre Brooklin, Alto da Boa Vista e Chácara Santo Antonio, na zona sul de São Paulo. O Bar "Roda D'Água" ficava bem perto dessa estátua
 
Seguiu-se mais uma apresentação no Casablanca, com a média normal em torno de duzentas pessoas presentes. E logo a seguir, uma casa nova apareceu-nos, chamada : "Roda D'água". Foi em num domingo essa apresentação, com cachet fechado, pois tratava-se de uma festa particular.

A casa tinha decoração rústica, porém muito charmosa, a lembrar-nos uma casa de fazenda. O que remetia ao Rock ali, era um poster gigante dos Beatles, do tamanho da parede inteira, mediante a foto do "Fab Four", com os quatro componentes sentados em cadeiras de cabeleireiros, sendo penteados por quatro garotas. A namorada do Aru Júnior à época, contou-nos uma história engraçada ocorrida com ela própria, nos bastidores de um show da cantora Zizi Possi, na noite anterior, enquanto arrumávamos o equipamento no palco, ocorrida na mesma noite em que tocáramos no Casablanca. Foi uma apresentação boa, com o dono da casa a sinalizar que contratar-nos-ia em outras ocasiões. Cerca de cento e cinquenta pessoas estiveram presentes na referida festa, para dançar e cantar ao som do TNA. Ainda com Sérgio Henriques na banda, tocamos no Casablanca novamente, no dia 24 de abril, mas desta feita, com um reduzido público com apenas vinte pessoas. Foi em uma quinta feira, talvez tenha sido essa a explicação...


Nessa época, abril de 1981, passamos por uma fase com mais ensaios, ao visar acrescentar novas músicas ao repertório. E a oportunidade surgiu quando o baterista, Cido Trindade, disponibilizou-nos sua residência, localizada no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, para ensaiarmos inicialmente às terças e quartas. Com tempo para trabalhar, melhoramos e aumentamos o repertório, por torná-lo enorme, ao ponto de termos músicas extras para qualquer eventualidade. E um fato bizarro ocorreu nessa época, durante tais ensaios...

Em um certo dia, percebemos que um rapaz passava de um lado e outro da calçada, a olhar-nos a tocar na sala da casa, improvisada como estúdio. Como ensaiávamos com as janelas abertas e despreocupados com qualquer tentativa para coibir o ruído, já que os vizinhos suportavam-no sem reclamar, deixávamos tudo aberto para ventilar bem. Um dia, após várias vezes a observar-nos, esse rapaz criou coragem e tocou a campainha. Não recordo-me de seu nome, mas sei que ele apresentou-se ao dizer ser compositor e que por observar-nos por dias, animou-se a abordar-nos, e pedir-nos que o ajudássemos, para gravar duas músicas de sua autoria, que visava inscrevê-las em um festival de MPB.

Infelizmente, as canções do rapaz eram muito fracas, com harmonia e melodias pobres, letras brega / românticas...
Bem, aceitamos ajudá-lo, e aí o Sérgio Henriques e o Aru Júnior fizeram um arranjo praticamente "Prog Rock" nas músicas do rapaz ! Claro que o sujeito não entendeu nada, mas o fato é que gravamos as duas canções, com belo arranjos para ambas, que quase mascarou a sua breguice. E de fato, com duas guitarras; baixo; bateria; e teclados, ficaram ambas, quase irreconhecíveis. E foi além essa história, pois em uma apresentação nossa (infelizmente, não lembro-me em qual, especificamente), ele apareceu e nós tocamos as suas duas canções ao vivo, com sua interpretação vocal, naturalmente. Nunca mais tive notícias dele, apesar de morar perto da minha casa e do Cido Trindade, na ocasião. Nem ao menos sei se as músicas por nós gravadas, foram classificadas no tal festival.


Seguiu-se mais um show no Bar Casablanca em 24 de abril de 1981 (vinte pessoas presentes), e depois disso (25 de abril de 1981), fomos tocar em uma nova casa para nós, chamada, "Taverna Boêmia", no coração da Rua 13 de Maio, no tradicional bairro do Bixiga, de São Paulo. Esse bar tinha uma característica engraçada. O fato, era que o palco ficava colocado sob um mezanino altíssimo, e assim, na parte de baixo, era quase obrigatório ficar com o pescoço muito levantado para poder mirar a banda, e a depender do ponto onde a pessoa estivesse, simplesmente não conseguia enxergar o baterista. E outro fator bizarro : não havia proteção alguma para os músicos, e o perigo insinuava-se evidente naquele precipício.

A única margem de segurança ali presente era um arame esticado na extensão do comprimento do palco, e que segundo o dono, servia como uma lembrança "psicológica" do perigo, tão somente, pois em um eventual acidente, não conteria uma pessoa de forma alguma. Apesar de tocar com cuidado, éramos seis músicos; nossos enormes amplificadores Palmer; bateria, e um piano elétrico Würlitzer ali em cima, a quase três metros de altura do solo...
Isso ocorreu no dia 25 de abril de 1981, e esse esforço para colocar e tirar todo o equipamento dessa altura, foi compensado com uma bilheteria robusta, oriunda da presença de trezentos e cinquenta pagantes, nessa noite. E no dia seguinte (26 de abril de 1981), mais uma boa apresentação no "Roda D'água", do bairro do Brooklin, apesar do pequeno público de apenas quinze pessoas presentes, em um domingo nublado, e já com o frio proeminente de outono, a projetar-se.


O próximo passo para o TNA, foi tocar novamente no Casablanca.
Desta feita, foi uma festa organizada, que visou angariar fundos para uma campanha de solidariedade, denominada "S.O.S. Mulher". Por conta disso, seiscentas e três pessoas espremeram-se nas dependências da casa, e dançaram a noite inteira. Isso ocorreu em 8 de maio de 1981. Foi uma das nossas melhores apresentações, e inaugurou uma fase marcada por participações em festas fechadas, bom sinal de que a nossa banda deixava boa impressão por onde tocava e assim recebia convites dessa natureza. No dia seguinte, e no posterior, voltamos ao Roda D'Água, com cento e cinquenta pagantes no dia 9; em contraste com apenas doze, no dia 10 de maio de 1981, um domingo. 

Nessa fase, estávamos muito seguros, com bastante desenvoltura e praticamente a tocar no "piloto automático", com segurança.
Não fazíamos música autoral, mas chegamos a ter reações parecidas com artistas autorais, que saem em turnês, pois sabíamos de antemão as reações do público, aonde quer que tocássemos. Portanto, havia os momentos de pico de euforia; momentos mais calmos onde os namorados agarravam-se mais; hora de envolver-se com a música e bater palmas... enfim, era como se fôssemos uma banda autoral nesse aspecto.


O mês de maio estava bom de agenda, e logo a seguir, tocamos nos dias 16; 22; 27; e 30 desse mês, sempre no Casablanca. Estávamos praticamente fixos naquela casa, e o nosso repertório agradava em cheio o público habitue, formado por adultos jovens, e das classes sociais, A e B. Era de fato uma plateia formada por mulheres jovens e bonitas, e consequentemente a atrair os garotões paqueradores. Alheio a esses dados sociais, gostávamos do bom cachet que pagavam-nos ao final das noites cheias, e lamentávamos os dias fracos, naquela rotina tradicional do músico da noite, sempre sujeito à gangorra financeira intensa . No dia 16, tivemos um público com sessenta pessoas. Em 22 de maio, foram oitenta. Já no dia 27, foi outra festa fechada em que animamos seus participantes. Tocamos para um público formado por médicos e enfermeiras da Santa Casa, um tradicional e antigo hospital de São Paulo.

E como era costume em festas fechadas, mediante um bom cachet fixo e bastante gente animada. Estiveram presentes cerca de quinhentas pessoas daquele hospital, claro, a contar com esposas; maridos; namorados etc. Mesmo assim, o hospital não ficou sem atendimento naquela noite. E finalmente no dia 30 de maio de 1981, tocamos para cento e cinquenta pessoas sob uma noite normal, sem festas corporativas. Entretanto, a nossa boa fase receberia um golpe fatal, pois ao final de maio, tivemos uma notícia inesperada que quebraria tal sequência : o guitarrista, Aru Júnior, teria que ausentar-se por um tempo, para tratar de alguns assuntos pessoais, pendentes nos Estados Unidos.

Logicamente o embalo seria quebrado, mas não havia outro jeito a não ser resignar-se, e tentar suportar esse período (que alongou-se por cerca de três meses). E outra baixa estava também anunciada anteriormente, com o tecladista, Sérgio Henriques, a relatar-nos que entraria em um período de ensaios, para tocar na nova turnê da Elis Regina (LP "Trem Azul"). Portanto, o hiato que faríamos serviu também para pensarmos em uma reestruturação a partir da volta dele (Aru), da América. Essa fase do hiato do TNA, eu já contei no capítulo dos "Trabalhos Avulsos", pois nesse período, formei com Cido Trindade; Pitico Freitas, e a vocalista / flautista, Vilma, um quarteto MPB em caráter emergencial, para tocar na noite e ganhar dinheiro ("Quarteto Toulon"). Para quem ainda não leu, convido a fazê-lo, pois tem histórias engraçadas, incluso a do dia em que fomos assistir juntos o show da Elis Regina, a convite do Sérgio Henriques. Antes do Aru viajar, ainda fizemos contudo, algumas apresentações.


E assim chegamos aos últimos shows antes das férias forçadas da banda. O próximo foi no Roda D'Água, no dia 5 de junho de 1981, com oitenta pessoas presentes. No dia 6, tocamos no Casablanca para quarenta pessoas. Na semana seguinte, mais dois dias no Casablanca, 12 e 13 de junho, com trinta e quarenta pessoas. Sinceramente não saberia dizer o por quê de um contingente de público tão fraco em uma casa que costumava lotar. Após tantos anos, e sem ter anotado nenhuma ocorrência, acredito que o frio deva ter atrapalhado a balada daquela garotada. E depois desse dia 13 de junho, paramos as atividades, e só voltaríamos em setembro. Na verdade um pouco antes, no final de agosto, reagrupamo-nos e ensaiamos, visto que havíamos naturalmente perdido a boa forma adquirida pela constância em tocar ao vivo. De minha parte, nesses três meses sem atividade com o TNA, formei aquele quarteto já citado, cuja história já foi amplamente contada no capítulo, "Trabalhos Avulsos". O Paulo Eugênio e o Wilson dispersaram. Lembro-me que o Paulo Eugênio tinha a sua atividade paralela como guia turístico de uma agência de viagens, dessas que levam adolescentes bem nascidos à Disney World. 

Não posso afirmar que ele tenha feito uma viagem nesse ínterim, pois não recordo-me com certeza, mas de fato, era uma época propícia, com o verão na América, e portanto, temporada para tal.
Logo mais, dou prosseguimento, para falar das atividades da banda no segundo semestre, quando o Aru voltou dos Estados Unidos.

Continua...  

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