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sábado, 1 de agosto de 2015

Sala de Aulas - Capítulo 2 - Adaptação Alcançada..."Estou" Professor - Por Luiz Domingues


O primeiro semestre de 1988 foi de aumento e consolidação de meu quadro de alunos, e conturbação na minha banda, que teve de reformular-se às pressas. Da banda, falo no seu respectivo capítulo.
Em relação às aulas, ao mesmo tempo que aumentava o meu quadro, eu também cansava-me muito, pois nessa época eu morava no bairro do Tatuapé, zona leste, e a casa do Beto era no Jardim Bonfiglioli, no extremo oeste da cidade.
Era metrô até o centro, e um ônibus que percorria entre 45 a 60 minutos de trajeto, posteriormente...
E poucos alunos moravam naquele bairro ou redondezas. Lembro-me do Glauco Teixeira, e do Marcão Martines, que era do Jardim Peri Peri, um bairro vizinho. A maioria vinha de bairros longínquos. Por exemplo havia um rapaz cujo nome esqueci-me completamente, e que vinha de uma cidade do interior !

Para compensar, fazia aula dupla e quinzenal. Ele era de Piracaia, perto de Atibaia, Bragança Paulista... andava cerca de 100 Km de ônibus; descia na Rodoviária Tietê, tomava metrô até a praça da Sé, trocava de linha e ia ainda de Metrô até a praça da República, e daí tomava o ônibus Jardim Bonfiglioli...

Para estar ali as 15:00 h, devia sair de sua casa as 10:00 h. da manhã. Mas não foi o único exemplo de força de vontade extrema. 
Mais para frente, contarei o caso de um garoto que morava numa chácara afastada do perímetro urbano de Embu das Artes, uma cidade que faz parte da grande São Paulo, mas é longe...
 

E ainda no primeiro semestre, a criação do hilário "Indoor Games". 
Minhas aulas não eram só para ensinar a tocar baixo, mas também para se divertir com esportes, digamos... inusitados !
Eu lamento muito mesmo ter perdido o meu caderno, onde tinha o cadastro de todos os alunos. Eu esqueci-me do nome da maioria, principalmente nesse primeiro período, entre 1987/ 1990.
Recentemente (escrevendo este adendo em 2014), encontrei com Cesar Talarico, que foi meu aluno nesse período inicial que estou enfocando, de 1987. Bacana poder citá-lo. Aos poucos vou acrescentando nomes que estou resgatando pelo contato de reaproximação que as redes sociais da internet proporcionam.

Aquele rapaz de Piracaia (que citei em parágrafo anterior), era esforçado demais. Tive outros casos de obstinados. Já citei um que vinha de um sítio no perímetro rural de Embu das Artes, por exemplo. Mas faço questão de contar a história dele quando chegar a 1990 / 1991 na narrativa.


Sim, o rapaz de Piracaia aproveitava cada segundo da aula. Era o mínimo que eu esperaria dele. Ainda nesse primeiro semestre de 1988, lembro de ter recebido carta de um garoto de Jaú, cidade do interior de São Paulo, que fica bem longe (350 a 400 Km de São Paulo, + ou -). Era um rapaz chamado Alexandre ou Alessandro Vendramini. Logo que respondi, perguntei-lhe se ele era parente da paquita Luciana Vendramini, e ele respondeu-me dizendo que era primo dela. Era público e notório que a Luciana era de Jaú, daí eu ter perguntado.

Ele estava querendo fazer esquema de aula dupla quinzenal, mas acabou não acontecendo, pois era muito sacrificante. E claro, sendo muito jovem, seus pais não apoiariam uma aventura maluca dessas, enfrentando uma longa viagem, e sobretudo andar em São Paulo, coisa que assusta quem mora em cidades pequenas.

Lembro de comentar com outros alunos sobre o rapaz ser primo da paquita, e os rapazes enlouquecerem, torcendo para dar certo e aí pediriam para ele levar revistas Playboy dela, para eventuais autógrafos... para decepção geral, acabou não acontecendo. E o rapaz lamentou muito, pois era grande fã da Chave do Sol, e sonhava ter aulas comigo. 


Uma das coisas bizarras que surgiram nessa fase do primeiro semestre de 1988, foi a invenção dos "Indoor Games". O Carlos Fazano ("He Man"), que não era aluno, mas batia o ponto todo dia lá, apareceu com uma bolinha de tênis certo dia, e começou a usá-la como bola de basquete, ou mesmo bilhar, tentando arremessá-la e encaixá-la em espaços inusitados da sala de estar da casa do Beto, onde a "nova Chave" ensaiava, e eu ministrava minhas aulas.

Carlos Fazano em foto promocional de sua carreira solo, em 1995

No início, pedi para parar com isso, mas no auge de seus 14 anos, e com temperamento rebelde, foi ignorando-me, e de tempo em tempo, o "cazzo" da bolinha assustava-me e ao aluno, batendo em algum lugar ...
Foi uma das primeiras demonstrações de indisciplina na minha vida de professor, e ao longo de 12 anos, tive poucas, pouquíssimas ocorrências de insubordinação...

Então, para neutralizar a rebeldia e revertendo o quadro, tornei aquilo um lazer extra de "recreio" em minhas aulas, e "oficializei" a palhaçada, criando regras esdrúxulas !! Confesso que passei a divertir-me também...
E novos jogos ridículos foram criados, com a criatividade solta, e a todo vapor dos adolescentes (e alguns nem tanto, também)...

"Golfe indoor"; "basquete"; "arremesso de disco"... e logo virou uma micro Olimpíada claustrofóbica, ridícula e hilária. E tomou também as dependências do quintal da casa, onde "futebol"; "volley de varal de roupas", e "basquete com baldes servindo de cestas", incorporaram-se aos "jogos"... Ha ha ha !!
E assim, nos intervalos entre as aulas, a algazarra estava formada e dela, tirei uma lição que muito ajudar-me-ia nos anos posteriores, ao notar que o convívio lúdico entre os alunos, aumentava a sua capacidade de aprendizado. Mais para a frente, contarei sobre os campeonatos de futebol de garagem que organizei entre 1994 e 1995.

O Beto ficou bravo uma vez, quando flagrou a balburdia, e proibiu as brincadeiras dentro da casa dele. Tinha razão, claro, pois poderia quebrar alguma coisa, apesar de constar nas "regras", os arremessos serem aceitos apenas sem violência... ha ha ha... Independente disso, essa moda espalhou-se...


 
Lembro uma vez de um ensaio que realizamos para um show tributo ao "UFO", onde metade da Chave uniu-se à metade do Golpe de Estado (Golpe do Sol ou Chave de Estado {?}, aliás, história relatada no capítulo "Trabalhos Avulsos"). Eu; Beto; Hélcio Aguirra; e Paulo Zinner, participamos de um futebol de quintal no intervalo. E lembro-me de uma vez a bola ter caído na casa do vizinho, e um garoto da família que ali morava, ter vindo devolve-la. Quando chegou, o Paulo Zinner perguntou-lhe :
-"Garoto, você tem irmãs mais velhas ?"
Caímos na risada, e o garoto que devia ter uns 10 anos de idade e no auge de sua ingenuidade, ainda perguntou-nos :
-"Por quê ?..."
E o Zinner teve a paciência de responder-lhe :
-"Peça para ela trazer a bola da próxima vez..."
Hilário !!

Voltando a falar dos alunos, os garotos gostavam das palhaçadas, mas o objetivo era mesmo aprender a tocar baixo, e todos tinham sua meta de tocar profissionalmente um dia, portanto, as brincadeiras eram secundárias mesmo, e não podia ser de outra forma. Claro, e isso foi uma constante durante os 12 anos de aulas que ministrei. Num universo de mais de 200 alunos que tive nesse período completo, são raros os exemplos de alunos que não estivessem ali movidos por esse sonho de tornar-se músico profissional, ser artista, gravar e tocar ao vivo com uma banda etc.

Sempre achei que isso por si só fosse um estímulo, mas muitas vezes eu notava uma timidez muito acentuada por parte de alguns alunos, justamente por esse fator. Porém, eu tratava logo de quebrar o gelo e deixar a garotada a vontade comigo, rompendo qualquer barreira que pudesse haver entre nós. Bem, cada caso era um caso.
Cada garoto tinha o seu jeito de ser e na média, eu quebrava o gelo puxando conversa, perguntando aspectos da vida do sujeito, do tipo : que som que gostava; artistas prediletos; onde morava, onde estudava etc.

Em geral, dava certo, pois o garoto ia abrindo-se e ganhando a confiança, vendo que eu era um sujeito igual a ele, e não um ET...
Mas isso acabou dando várias brechas, pois muitas vezes, os alunos passavam a enxergar-me como um psicólogo, porque queriam conselhos sobre coisas pessoais, e nada a ver com as aulas. Não foram poucas as vezes que ligaram-me em altas horas da noite, ou em domingos, para verdadeiras catarses de divã psicanalítico...

Nesses anos todos de aulas, segurei muitas barras psicológicas dos garotos. Fui mesmo um psicólogo prático, ajudando-os em conflitos familiares; escolares; com suas bandas, e até nas questões pessoais, como aconselhamentos sobre relacionamentos com namoradas etc.
Acho que era inevitável isso ocorrer, pois eles viam-me como um irmão mais velho, ou até pai.

Realmente o meu temperamento sereno; fala mansa de padre; e calma zen budista, era um convite para que os alunos fizessem as suas catarses, e enxergassem-me como um psicólogo. Na média, a faixa etária oscilava entre 12 e 25 anos. Mas cheguei a ter aluno criança, e também, adultos, casados e com filhos. Um deles, aliás,  tornou-se um grande amigo, o Edil Postól, que é um cientista, e trabalhava a época no Instituto Ludwig de pesquisas cancerígenas com ligação com a USP, e o Hospital do Câncer.

E como sempre tive essa característica de ser um terapeuta em potencial, acabei auxiliando diversos garotos com seus problemas existenciais. Com os adultos a conversa era outra, claro. Assuntos extra musicais, como política; futebol, e acontecimentos do cotidiano. A metodologia didática não mudava. O que mudava era o enfoque. Com adultos, geralmente (há exceções...), não existe a necessidade de convencer o aluno de que o exercício proposto é necessário, por mais chato e doloroso que seja, principalmente no início do curso.

É o que sempre disse : o aspirante tem que ter coragem para romper a dificuldade inicial. Vencida essa barreira inicial que é essencialmente muscular, deslancha. Se desistir, nunca tocará com desenvoltura. Particularmente, eu tinha preferência por alunos em nível zero de aprendizado, independente de sua idade cronológica.
Isso porque era muito mais fácil ensinar um aluno estaca zero, portanto sem vícios adquiridos.

Fora o meu prazer pessoal de ver um aluno que não sabia absolutamente nada, começar a melhorar, após poucas aulas...
Era portanto, muito mais chato para a minha percepção corrigir vícios adquiridos por quem já tocava, pois precisava convencer o aluno a tocar de outra forma, até ele conscientizar-se de que seria mais produtivo, haviam crises, conflitos etc. Com garotos na estaca zero, eu moldava-os desde os primeiros passos, e quando venciam a barreira inicial de dificuldade, deslanchavam. Confesso que ficava muito mais gratificado em lapidar uma pedra bruta.

No segundo semestre de 1988, o contingente de alunos havia aumentado. Eu mantinha uma média que oscilava entre 12 a 15 alunos. As dificuldades ficavam por conta da minha falta de estrutura. Por não ter telefone residencial, e nem sonhar com internet, meu esquema de recrutamento era arcaico.

Os interessados manifestavam-se através de cartas que eram endereçadas à caixa postal da banda, cujo controle diário era meu.
Com o rompimento que tivemos com o Rubens, infelizmente, fui obrigado no início de 1988, a contratar o serviço de uma outra caixa postal, desta feita bem mais próxima da minha casa, visto que a antiga caixa postal da Chave do Sol estava numa agência perto da casa dele, na Av. Santo Amaro, e a ficha cadastral pertencente a ele.

Mera burocracia, pois eu a controlei por anos a fio, chegando durante um bom tempo (anos...), a ir visitá-la diariamente, pois se não o fizesse, o acúmulo enlouquecer-me-ia, e eu respondia a todas as cartas, de forma manuscrita. O outro grande agente de dificuldade, era a distância. A não ser para alunos daquele bairro e redondezas, ir ao Jardim Bonfiglioli, era uma aventura e tanto.
 

Quem acabou tornando-se roadie da "nova" Chave, sem Sol, foi um de meus alunos, César Cardoso. Ele já tinha experiência, pois um primo dele era baixista da banda "Civil", de Pop Rock, ainda naquela pegada oitentista do pós-punk.

O Civil foi uma das últimas bandas do final daquela década, ainda nessa estética, e fez um sucesso efêmero na mídia mainstream.
Lembro do César acompanhando-nos nos shows dessa fase da Chave, e ele era extremamente dedicado, tendo auxiliado-nos bastante, até meados de 1989. Conforme já descrevi aqui, ele foi trabalhar como estagiário na MTV no início dos anos 1990, e foi crescendo. Hoje é um profissional da Rede Globo, e se não engano-me, na produção do "Fantástico". Foi uma época que meu cotidiano era "viajar" todo dia para o Jardim Bonfiglioli, pois as aulas mesclavam-se aos ensaios da banda.

Voltando a citar os irmãos Fazano, recordo-me que o José Fazano era guitarrista também, e costumava ir às minhas aulas, aos sábados, que definitivamente, tornou-se um ponto de encontro, e de onde muitas amizades foram solidificadas; bandas formaram-se; negócios foram feitos; e até namoros começaram. O José Fazano era (é), um rapaz extremamente prestativo, e dali em diante, tornou-se um colaborador da Chave em vários aspectos, acompanhando-me em outras andanças na minha carreira pós-Chave, quando saí da banda ao final de 1989.

Já seu irmão, Carlos Alberto Fazano, era naquela época, aficionado do Deep Purple. Ele já demonstrava aos 14 anos de idade que era um sujeito obstinado, pois sabia tudo, absolutamente tudo sobre a carreira do Purple, e evidentemente que isso não é uma coisa tão fácil de conhecer-se na ponta da língua, pois trata-se de uma banda de carreira longeva, várias mudanças de formação, e discografia grande. Imagino como deve ter sido estimulante para o Carlos, que era muito jovem, acompanhar as aulas, conhecer um monte de músicos que transitavam nos ensaios da Chave, e meus alunos, aspirantes a músicos, como ele. 

E no tocante às aulas, o segundo semestre foi de expansão nesse quesito. Fui aumentando o número de alunos, progressivamente para solidificar na virada de 1989, uma média muito boa e estável, que dava-me um suporte financeiro bom, pois a Chave estava em declínio, e logo eu sairia definitivamente, para ficar em trabalhos avulsos, e bastante errantes nos anos de 1990 e 1991, só voltando a ter uma banda autoral sólida a partir de 1992, quando recebi o convite de Chris Skepis, e fui ser membro do Pitbulls on Crack. Um fato engraçado, e que não tinha nada a ver com com as aulas, tampouco com a Chave ou comigo, tornou-se uma brincadeira muito divertida, que ajudou a descontrair as aulas nessa época.

O fato foi que eu recebia cartas de fãs na caixa postal da Chave "sem sol", todos os dias, e numa dessas vezes que fui à agência checar o movimento da caixa, havia uma que estava destinada à um tal "Senhor X", e estava sem endereço do remetente. Julgando ser algum maluco que talvez estivesse fazendo propaganda de sua própria banda (coisa aliás, que era corriqueira), abri normalmente a carta, mas verifiquei que não tinha nada a ver com a banda...

Nela, uma mulher que autodenominava-se "Rainha", fazia proposta detalhada de sua atuação como dominadora sexual, oferecendo-se para um tal "Senhor X", que certamente seria um candidato a "escravo". Então, ao invés de jogar fora (não havia endereço de remetente, portanto, não adiantava devolver ao correio), resolvi levar para a sala de aulas, e comecei a fazer os alunos lerem, dizendo-lhes que seria uma carta destinada a eles mesmos.

Dessa maneira, o garoto começava a ler preocupado, pois que história seria essa de "carta para eu", devia perguntar-se...
Passados alguns segundos, sua expressão facial começava a mudar.
Uns ficavam ruborizados, outros entravam num processo de gargalhar etc.

Aí, cada vez que um outro aluno chegava, e a medida que os demais já sabiam, ficava aquele clima hilário de esperar pelas reações da nova vítima do "Candy Camera", do Jardim Bonfiglioli.
Até que a brincadeira esgotou-se, mas que foi engraçado...

Entrando o ano de 1989, eu tinha consolidado uma quantidade de alunos suficiente para manter minhas contas em dia, e não depender da banda, exclusivamente como fonte de renda. E isso foi providencial, pois a banda desmantelava-se e eu estava para lá de insatisfeito com os rumos artísticos que ela adotou no pós 1988, quando dissidente, criara-se a partir da velha Chave do Sol.

Mas evidentemente que isso é tratado no capítulo adequado, e na cronologia dos fatos. Voltando ao cerne desta narrativa, digo que apesar de termos eu e o Beto um bom relacionamento de amizade, e por conta disso, ele também ter sido gentil ao ceder sua casa, começaram os primeiros sinais de insatisfação da parte dele em relação ao fato de eu usar sua casa como minha sala de aulas. Claro que era seu total direito pleitear que eu arrumasse outro local, entendia isso. Mas, essa resolução, só foi tomada no meio do ano, pois ainda continuei ministrando minhas aulas na casa dele no Jardim Bonfiglioli, mesclando aos ensaios da banda que preparava-se para entrar em estúdio, e gravar o seu primeiro disco.

E nesse primeiro semestre de 1989, acredito que apenas uma novidade ocorreu que eu destacasse em especial. A rotina de aulas foi a marca dessa fase. Tal fato mencionável, foi que um aluno meu chamado Jameson Trezena, foi indicado por eu mesmo a fazer parte de uma banda de Hard-Rock oitentista, estilo virtuosismo Malmsteeniano, chamada "Clavion".

A ideia original era para eu ter gravado o disco dos rapazes ao lado do baterista Ivan Busic, mas apesar de termos feito um ensaio, acabamos não ficando para gravar o álbum deles, e ao pedirem-me uma indicação, considerei o Jameson Trezena, o mais preparado de meus alunos naquele momento (com menção para Marcelo Dias, que também era excelente), para encarar essa gravação, e deu tão certo, que ele gravou mesmo, e tornou-se membro oficial, saindo na capa do disco. Era um excelente e aplicado aluno. Esse som não era o que ele mais gostava, mas empenhou-se, e aproveitou bem a chance para iniciar sua carreira, logo de início com um disco na praça.

Encerrado o ano de 1988, o meu contingente de alunos já estava grande o suficiente para ocupar-me de terça a sábado. Naturalmente que os sábados eram mais concorridos.

Aos sábados, costumava nessa fase, ministrar de 6 a 7 aulas, chegando em casa bem cansado, pois para quem não conhece São Paulo, deslocar-se do Jardim Bonfiglioli, até o Tatuapé, era uma aventura de pelo menos duas horas e meia, amenizando um pouco nos horários mais noturnos, onde o trânsito estava melhor. No início de 1989, o clima na banda começou a ficar mais pesado, e diversos fatores extra musicais começaram a fazer com que o local de aulas tivesse que mudar.

Mais ou menos em abril de 1989, o Beto comunicou-me que não disponibilizaria mais sua casa para as minhas aulas, pois estava cansado da movimentação intensa com entrada e saída de alunos, e a inevitável bagunça que eles causavam por estabelecerem amizade entre si, e ao invés de irem embora após o término de suas aulas, permanecerem por horas a fio, uns assistindo as aulas dos outros.
E simultaneamente, havia a questão da banda ter entrado num processo de poucos shows, e dessa forma, ter diminuído a sua carga de ensaios, portanto, ele queria restabelecer um pouco da paz, e preservar sua privacidade perdida, desde que entramos nesse processo de aulas e ensaios, a partir do segundo semestre de 1987.

A minha sorte, é que eu havia mudado-me de residência, desde dezembro de 1988. 
Da esquerda para a direita : Roberto Garcia Morrone; eu, Luiz Domingues, e Wagner, na sala de aulas de meu apartamento na Vila Mariana, em 1989
Da esquerda para a direita : Wagner; eu, Luiz Domingues; e Cesar Cardoso. Foto de 1989


Desta forma, morando agora num bairro da zona sul, e muito perto de uma estação de Metrô, estava prestes a iniciar a minha melhor fase como professor, que duraria muitos anos, graças a essa facilidade de um endereço mais acessível para a chegada de alunos.
Num primeiro instante, não mensurei isso, e minha preocupação inicial era para criar uma rotina de aulas que fosse o menos invasiva para a minha família.

Como estava num apartamento amplo, arrumei o quarto de empregada doméstica para essa função. Dessa maneira, a entrada e saída de alunos era a menos invasiva possível, e minha família ficava a vontade nas demais dependências do apartamento, sem ser importunada pelas atividades. E mesmo sendo um apartamento, cerquei-me de cuidados para não ter reclamações de vizinhos, e consequentemente problemas com o zelador, ou o síndico. Um problema que tive de solucionar, foi em relação ao equipamento.
Acostumado a ministrar minhas aulas usando meu amplificador de palco, com ele ainda ficando na casa do Beto para eventuais ensaios, fui obrigado a adquirir um combo para ministrar aulas.
A seguir, falarei sobre essa aquisição, e como deu-se, que certamente será uma curiosidade que todo aluno meu desse período entre 1989 a 1999, gostará de saber...


Como não poderia mais ministrar minhas aulas na casa do Beto Cruz, e meu amplificador e caixa teriam que ficar ainda por um tempo na casa dele por conta de ensaios da banda, fui obrigado a comprar um combo, emergencialmente. Ainda numa fase de internet só para meia dúzia de endinheirados, a solução mais plausível para comprar-se coisas usadas era recorrer ao jornal de classificados "Primeiramão", que era especializado em anúncios dessa natureza. Consultando-o, interessei-me por um "Giannini Bag U65", exatamente o mesmo "combozinho" que tive nos anos setenta.

Em meio a um monte de classificados de pessoas vendendo o mesmo aparelho, escolhi o de menor preço pedido, e fechei negócio por telefone. Era um garoto que usava-o para estudar guitarra, mas devia ter desistido, e agora vendia-o por CZ$ 150,00. Quanto representa 150 "Cruzados" hoje em dia ? Não faço a menor ideia, mas creio que bem pouco, pois na época, correspondia a uma quantia bem módica. Fui buscar o amplificador no apartamento do rapaz, no bairro de Higienópolis, zona oeste de São Paulo, e constatando que estava intacto, fechei o negócio. Com ele em mãos, comuniquei a todos os meus alunos a mudança de endereço, que foi comemorada pela maioria, pois iria para a Vila Mariana, bairro bem estratégico da zona sul de São Paulo, onde a condução é farta para os quatro cantos da cidade, e melhor ainda, com uma estação de Metrô a menos de 100 metros da minha casa. Só os que moravam lá pelos lados do Jardim Bonfiglioli; Butantã, e adjacências é que saíram prejudicados com a mudança. Perdi apenas o Glauco Teixeira, que era praticamente vizinho da casa do Beto, e assim, inviabilizou a sua continuidade nas minhas aulas.

Providenciei xerox com endereço; indicações de conduções, e até mapinha das redondezas de minha casa à todos, numa Era pré Internet; GPS, e outras modernidades de hoje em dia. Dei minha última aula num sábado de dezembro de 1988, e a partir da terça-feira subsequente, passei a receber todos no novo endereço.

Continua...

2 comentários:

  1. Grande Luiz, muito obrigado pela menção. Fico honrado por ser lembrado assim. Seu nome está no encarte dos primeiros discos que gravei, como uma pequena homenagem por tudo que aprendi com você. Grande abraço, Jameson Trezena

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    1. Mas que prazer receber sua visita, meu caro amigo. E como se não bastasse isso por si só,sua postagem chega carregada de elogios emocionantes à minha pessoa.Fico muito honrado por ter essas menções nos encartes de discos lançados em sua carreira. Eu que agradeço-lhe por tal honraria.

      Por favor, publique num eventual novo comentário que aqui postar, a sua discografia para que os leitores possam acompanhar e conhecer seu trabalho.

      Grande abraço, Jameson !

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