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sábado, 1 de agosto de 2015

Sala de Aulas - Capítulo 3 - O Início de uma Nova Fase nessa Função - Por Luiz Domingues

Então começou uma nova Era na minha vida como professor. Com as aulas na minha residência, a comodidade por não ter que deslocar-me para outro local de trabalho, deu-me horas a mais de sono, menos stress, e consequentemente, mais qualidade de vida.
Isso sem contar a economia significativa com a despesa da locomoção e eventuais gastos com alimentação. Além do fato concreto de que ao disponibilizar um endereço mais centralizado, aumentou em muito o número de alunos no meu quadro.

Rapidamente aumentei a quantidade, atingindo uma média entre 25 e 30 alunos, passando a ocupar todos os dias da semana, de terça a sábado. Deixava a segunda livre para tarefas pessoais, e viagens regulares ao Rio de Janeiro, numa fase em que frequentei bastante aquela cidade. Claro, havia aspectos negativos também. Apesar de ter um quarto específico para tal atividade, a entrada e saída de alunos transformou-se num transtorno para a minha família.

Com a campainha não deixando ninguém em paz, tive todo o cuidado em ser o mais ágil possível nessas operações, minimizando o incômodo à minha família. A questão do volume do amplificador também era controlada, visto ser um prédio de apartamentos. E também havia o aspecto das ondas de euforia, quando acumulavam-se muitos alunos no ambiente, e as risadas extrapolavam. Claro que era difícil conter essa euforia juvenil, mas de uma maneira geral, eu acredito ter conseguido manter uma ordem mínima, pois nunca tive problemas com vizinhos, síndico ou zelador.

Em um ano e meio que morei naquele apartamento, nunca tive problemas com a vizinhança. A frequência continuava sendo formada predominantemente por entusiastas do Heavy-Metal oitentista; um ou outro admirador das correntes do pós-punk, e raros interessados em outras vertentes. Mas em 1989, começou a aparecer fãs de uma tendência típica do final da década de oitenta : os admiradores do "Gun's 'n' Roses".

Aquele riff de "Sweet Child O' Mine" tocava ad nauseam nas estações de Rádio, e uma nova garotada parecia estar entusiasmando-se com esse Hard-Rock ainda com trejeitos oitentistas, mas insinuando-se retrô em alguns aspectos. Particularmente, mesmo não sendo nenhum entusiasta do "Guns", achava positivo essa onda "mezzo retrô" que vinha a reboque no trabalho deles, e interpretava isso como um alento em meio a tantas contrariedades sofridas na década de oitenta inteira, e nos últimos anos da década de setenta. Só fui saber da existência do "Black Crowes" e "Lenny Kravitz", algum tempo depois, aí sim, artistas empenhados no "religare" do Rock. E a cena do "Brit Pop" só explodiria na metade dos anos 1990. E assim foram os primeiros meses dessa mudança total na minha relação com as aulas. No próximo segmento, começarei a relatar sobre o segundo semestre de 1989.

Eu tive pouquíssimos alunos que apreciavam Punk-Rock, ou derivados do Pós-Punk. Pelo que recordo-me, só tive um aluno declaradamente entusiasta do Pós-Punk. Isso ocorreu em 1991, mas eu expliquei-lhe que minha metodologia era calcada 100% no Rock 1960 / 1970, e ele não sentiu-se incomodado em princípio. Mas também não ficou muito tempo, e o engraçado é que tinha um visual típico de uma tribo oitentista, estilo "Dark", e vivia com aquele semblante a estampar uma depressão forçada, talvez de cunho existencilista...
Voltando à cronologia da narrativa, logo no início do segundo semestre, uma ação feita por um aluno meu, resultou num dos últimos suspiros da Chave "sem" Sol. Um ótimo aluno meu chamado Marcelo Dias, popularmente conhecido como "Marcelinho Carioca", tocava numa banda de Hard-Rock chamada "Êxito". Como era oriunda da região do grande ABC, os garotos do Êxito tinham contatos interessantes naquelas cidades do ABC, e numa determinada aula, disse-me que tinha uma data no Teatro Elis Regina, localizado em São Bernardo do Campo. Não vou alongar-me nessa descrição, pois é objeto de análise no capítulo d'A Chave / The Key ("sem" Sol), mais adequadamente.

Aqui, comento apenas que os esforços dos rapazes do Êxito foram notáveis. Eles mesmo imprimiram cartazes e filipetas, e os distribuiram em pelo menos quatro, das sete cidades que formam a região do ABC. O show foi um sucesso de público, e claro, o "Êxito" fez um bom show de abertura. Eu sabia que os rapazes da banda eram bons, mas no show, surpreendi-me, pois eram melhores ainda do que eu supunha. Um ano depois, essa banda estaria com outro nome, e um repertório bem mais calcado no Prog Rock setentista. Dali em diante, passando-se a chamar-se "Aura", convidar-me-iam para produzir num estúdio de Santo André, uma fita Demo, no final de 1990, mas essa história eu já contei oportunamente no capítulo "Trabalhos Avulsos". 

Nesta foto, o Êxito já como "Aura", e que posteriormente transformar-se-ia no "Via Lumini". Meu aluno, Marcelo "Carioca" Dias, é o primeiro à direita, de blusa preta
Foi nessa época que dei uma arrancada para estabelecer um número máximo de alunos. Do segundo semestre de 1989, até a metade de 1996, mantive essa constante, e foi o meu apogeu como professor.
Os contatos com bandas novas de alunos eram constantes, fora a quantidade de pessoas que abordavam-me, pedindo-me indicações de baixistas para bandas que estavam precisando de tais instrumentistas.

Com os horários tomados, certamente foi uma época em que a minha dedicação estava centrada nas aulas, pois as minhas atividades com A Chave, resumiam-se às sessões de gravação do LP "A New Revolution", que comprometi-me a participar, mas minha cabeça já estava praticamente fora da banda. E de fato, fizemos pouquíssimos shows em 1989, e assim que minha participação encerrou-se no estúdio, comuniquei ao Beto que não queria mais continuar. Então, a partir daí, só fui envolver-me com outros projetos de música, no ano de 1990, e no capítulo "Trabalhos Avulsos", já contei todas as experiências que tive nesse sentido.
Voltando ao assunto das aulas, o que esquentou no segundo semestre, depois de agosto, foi o clima das eleições presidenciais.
Como sempre acompanhei a política, certamente tornou-se um assunto acalorado na minha sala de aula, e falarei sobre como quase fui voluntariar-me na campanha...

As eleições presidenciais começaram a esquentar as discussões em toda parte, e na minha sala de aulas, por incrível que pareça, isso não foi diferente. Constatei com certa surpresa, pois a minha clientela básica era composta por adolescentes e / ou recém saídos da adolescência, portanto, era natural que falassem o tempo todo de música, e nas raras ocasiões diferentes, qualquer coisa, menos política...
Mas eu empolguei-me com o interesse que senti em vários deles, e sendo assim, entre um riff e um exercício extenuante no baixo, as conversas sobre a sucessão presidencial acaloravam-se. A imensa maioria era simpática à Lula; Brizola, ou Covas. Talvez alguém tenha citado Ulysses Guimarães, mas absolutamente ninguém nutria simpatia pelo Collor.

Num determinado ponto da campanha, decidi-me pelo Mário Covas, do outrora simpático PSDB, e muitos alunos cobraram-me um posicionamento mais incisivo. Queriam que eu fosse ao diretório central desse partido, e oferecesse-me para prestar um depoimento de apoio público. Muitos artistas estavam aderindo à campanha do Lula e de outros candidatos supostamente progressistas, e no caso do Covas também houve esse tipo de adesão. Em princípio, achei que deveria fazê-lo em respeito à minha consciência e para contribuir com um futuro melhor para o Brasil, mas ponderei e achei melhor manifestar-me apenas como cidadão, na urna. De fato, a política é volátil.

O Covas era um político de fibra, que eu admirava, mas seu partido perdeu-se tempos depois, e nos dias atuais desfigurou-se em meio a apoios e apoiadores escusos, tornando-se fisiológico e pragmático ao ponto de compactuar com ideais vindos da parte de elementos dispares, ou seja, a fazer com que homens com dignidade como Covas e Montoro, fundadores do partido, tivessem asco. O que dizer de um partido que nasceu sob os princípios nobres de uma social democracia, e que posteriormente tenha associado-se aos saudosistas do autoritarismo antidemocrático ? Ainda bem que não fui expor-me publicamente, sob o risco de ficar estigmatizado posteriormente.

E tem mais um fator que pesou em minha decisão de não envolver-me diretamente na campanha : apesar de ser reconhecido publicamente no meio Rocker brasuca, aos olhos do grande público, eu não era ninguém. Se precisasse explicar aos atendentes do comitê quem eu era, e o que desejava, realmente não fazia sentido à candidatura Covas. Minha namorada na época (Sandra Regina), incentivou-me também bastante a tomar essa atitude, mas eu ponderei os prós e os contras, e limitei-me a uma militância reservada e claro, meu "votinho" insignificante na urna, foi esmagado pelos "colloridos" sob maioria abduzida.

Falando especificamente das aulas, o final de 1989 confirmou o que já disse anteriormente, ou seja, uma forte tendência de mudança no perfil de meus alunos. Antes majoritária, a clientela "metaleira" começou a diminuir acintosamente. A frequência de garotos usando camisetas pretas com estampas de caveiras; escatologia; e morbidez em geral, foi minguando.

Eram os ecos da nova década que chegava, varrendo do mapa, ou pelo menos confinando em nichos específicos, as tendências oitentistas em geral. Havia lampejos retrô no Guns' n' Roses, o nome bola da vez nessa virada do ano de 1989 para 1990. Mas também o "grunge" mostrava a face nessa virada, certamente.
Enfim, fechando 1989, o encanto generalizado pela vitória do candidato presidencial arrogante e certamente coadunado com o continuísmo da velha mentalidade feudal, foi rapidamente quebrado, assim que tomou posse a seguir, gerando frustração para a maioria, mas paciência. E minhas aulas começariam uma nova Era, com uma aproximação muito forte com ideias retrô, que esquentaria demais após 1992, e trazendo bons frutos, aliás ótimos, conforme relatarei na sequência.  


Virando o ano de 1989 para 1990, entramos enfim numa fase de mais esperança em possíveis resgates. Dava para sentir no ar uma atmosfera diferente em relação aos anos anteriores. Ainda era, cronologicamente falando, o último ano da década de 1980, mas era nítido o sinal de abrandamento daquelas trevas oitentistas, pintadas de preto e cinza. Nesse início de ano, lembro-me que arrumei um aluno no Rio de Janeiro, também. E como costumava ir lá quinzenalmente, fazia uma aula dupla nessa dinâmica.

E assim, ajudava-me a custear a despesa da viagem. Era um adolescente fanático pelo "Iron Maiden", e tinha um baixo Fender Precision, azul, só para acompanhar o seu ídolo daquela banda britânica. Ele achava que eu gostava do Steve Harris, e sua Donzela de Ferro, mas isso nunca fez minha cabeça, pelo contrário...
Nessa altura, o meu sábado era o dia mais pesado, pois começava às 8:00 h da manhã e só encerrava às 20:00 h, sem interrupções para almoço, café e lanche. Era "um dia de cão", como diria o Al Pacino...
Foi no início de 1990, que um aluno novo foi-me indicado pelo meu amigo José Fazano, chamado José Reis Gonçalves de Oliveira.

Momento de descontração no camarim de um show do Pitbulls on Crack em 1993. José Reis é o rapaz de óculos, e nessa ocasião, era roadie da banda

O Zé Reis como passei a chamá-lo, tornou-se um dos meus melhores amigos, sendo testemunha ocular de toda a trajetória do Pitbulls on Crack, a partir de 1992, fora diversas outras jornadas musicais minhas. Sua primeira atuação ajudando-me como roadie, foi logo em 1990 mesmo, na banda "Electric Funeral", tributo ao Black Sabbath, onde eu faria algumas participações, e logo depois no "Pinha's Band", pois foi ele que indicou-me como baixista ao baterista Paolo Girardello (as duas histórias já devidamente narradas nos capítulos "Trabalhos Avulsos").

Meu aluno Nelson Binatti, em foto um pouco depois do ponto em que estou narrando, 1990
 

Outro dessa época, início de 1990, foi o Nelson Binatti, que logo que o conheci, descobri que era amigo do Osvaldo "Galinha", ex-baixista do Salário Mínimo, e por muitos anos, roadie do Roberto de Carvalho, marido / guitarrista da Rita Lee.

Marcos Martines, um dos melhores alunos que tive, em foto bem posterior ao período em que foi meu aluno
 

Outro que também tornar-se-ia amigo e testemunha de muitas jornadas, foi o Marcos Martines. Ele era um rapaz extremamente determinado. Nessa fase, acabou ficando pouco. Ele saiu e voltaria a procurar-me em 1992, quando aí sim, engatou uma sequência firme de aulas e enturmar-se-ia fortemente com diversos outros alunos meus. E falando sobre resgates, o que eu comecei a vislumbrar muito sutilmente a partir de 1988, quando vi o clip da música "When We Was Fab", do George Harrison na TV, foi crescendo a partir de 1989. 

Via com bons olhos o sucesso meteórico do "Guns'n Roses", embora não achasse a banda grande coisa, muito por conta de seu vocalista de voz esganiçada e presença de palco espalhafatosa. Mas também estava atento a uma certa cena de resgate da Soul Music, onde artistas como "Terence Trent D'Arby"; "Seal", e "Simply Red" pareciam estar trazendo a velha pegada da "Motown" em suas respectivas obras, ainda que a produção de estúdio dos três, tivesse ranços do pop oitentista, ainda muito delineados. Não demoraria muito e eu conheceria enfim artistas realmente coadunados com essa questão do resgate, tais como "The Black Crowes" e "Lenny Kravitz". Eram sinais alentadores, sem dúvida e nessa altura, 1990, eu já alimentava fortemente essa vontade de querer buscar minhas raízes, processo que só aumentou com o decorrer dos anos noventa, e já detalhado nos capítulos sobre três bandas onde toquei : Pitbulls on Crack; Sidharta, e Patrulha do Espaço.

Logo no início de 1990, minhas aulas ganharam portanto um ar diferente, marcando a sua segunda fase. Eu costumo dividir a minha relação como professor em quatro fases, da seguinte forma :

1) 1987 / 1989 -  A Estrela que Apagou-se (decadência e fim da Chave do Sol e Chave "Sem Sol")

2) 1990 / 1991 -  Tateando no Escuro (em busca de um trabalho)

3) 1992 / 1997 - Sob o Luar (anos Pitbulls on Crack)

4) 1997 / 1999 - Embarcando na nave lisérgica (Sidharta / Patrulha do Espaço) 


Portanto, estava encerrada a fase 1, onde eu tinha uma banda e deixei de tê-la, entrando numa obscura fase de relacionar-me com novos trabalhos, e pior ainda, não achar efetivamente um espaço confortável, e que desse-me reais perspectivas. Contudo, apesar de ser uma época sombria por esse aspecto, era também de estabilidade financeira por conta do suporte que as aulas davam-me. Nos cinco primeiros meses de 1990, não ocorreram grandes novidades em minhas aulas a não ser a partir de maio, onde tive que mudar-me de endereço, e esse transtorno sempre era invasivo no andamento da minha rotina, não só pelos preparativos de antes e depois da mudança de residência, mas principalmente pelo fato de ir morar num outro apartamento, e este, ao contrário do que eu estava morando, muito menos estratégico em termos de localização e transporte público. Com isso, temia perder alunos, talvez desmotivados pelo fato do meu novo local de aulas ficar cerca de oito quarteirões da estação de Metrô mais próxima, e com muito menos linhas de ônibus disponíveis. Isso era um fato, mas não havia outra alternativa. 

E assim foi, não teve jeito. Precisei mudar-me com a família, e a partir de maio de 1990, deixando a Vila Mariana, onde tivera efêmera estadia, e indo para a Aclimação, bairro vizinho. O ambiente era o melhor possível, pois fui morar num pedaço do bairro super residencial, arborizado e muito perto do seu famoso parque (Parque da Aclimação). Mas era um apartamento menor, e pelo fato de estar localizado cerca de oito quarteirões da estação de metrô mais próxima, poderia desanimar alguns alunos. Todavia, para a minha surpresa, não tive prejuízo algum. Numa Era pré-Google Maps, fiz mapinha manuscrito, que xeroquei e distribuí a todos os meu alunos, e a vida seguiu na rotina, assim que chegou a primeira terça-feira após a mudança. O que eu não poderia prever é que estava iniciando-se uma fase decisiva de minhas aulas, onde estava prestes a conhecer uma série de pessoas que seriam decisivas na minha trajetória musical dali em diante. Fiquei pouco nesse apartamento da Aclimação, quando mudei-me a seguir (em 1991), para um sobrado muito próximo dali, e aí sim, muitas mudanças ocorreriam. 

Mas o assunto agora é maio de 1990. Mesmo contando com meu quadro normal de alunos, aceitei um convite para lecionar num espaço alternativo. Julguei que seria uma oportunidade boa para expandir-me como professor, e calhava com uma época da vida onde estava sem banda autoral no momento, e sendo convidado para diversos trabalhos e projetos. Essa história dos projetos dessa época, está toda escrita no capítulo, "Trabalhos Avulsos".

                 André Pomba" Cagni, em foto bem mais atual

O espaço onde aceitei ministrar aulas era o "Dynamite", a convite de meu amigo André "Pomba" Cagni, que em sociedade com o fotógrafo holandês, Eric De Haas, abrira desde o fim dos anos oitenta, um espaço próximo ao Sesc Vila Nova (na Vila Buarque, próximo ao centro de São Paulo). Era um misto de redação da revista; com loja de instrumentos; acessórios e discos, mais espaço de shows e salas de ensaios para bandas. Diversificando ao máximo o empreendimento, o André quis também colocar à disposição de sua clientela, aulas de todos os instrumentos. Para ministrar aulas de baixo, convidou-me, pois como gerente geral do negócio, não tinha tempo algum para ele mesmo fazê-lo, visto ser baixista e professor, também. Aceitei o convite e passei a visitar o espaço uma vez por semana. Em princípio, só havia uma aluna matriculada. Era uma adolescente chamada, Gisele. Menina muito novinha, mas aplicada aluna. Como o tempo foi passando e não apareceu outros candidatos, ficou-me inviável continuar, pois perdia tempo deslocando-me para ir e voltar ao centro da cidade para dar uma única aula, e se ficasse em casa, poderia ter mais três alunos tranquilamente com esse tempo gasto, e sem precisar pagar uma taxa à escola. 

Era num "trólebus (ônibus elétrico"), desses que eu ia e voltava, utilizando a clássica linha "Machado de Assis / Cardoso de Almeida", a mais velha linha de trólebus de São Paulo, ligando os bairros da Aclimação, na zona sul, às Perdizes, na zona oeste da cidade

O André entendeu tranquilamente e sendo gentil, falou para a minha aluna ficar a vontade para acompanhar-me, deixando a escola da Dynamite, pois ele mesmo sentiu que o negócio das aulas não estava indo do jeito que ele gostaria, e as outras atividades da casa prosperavam muito melhor. Mas a garota que era a minha única aluna ali, morava lá para os lados da Vila Leopoldina, extremo da Zona Oeste de São Paulo, e ir à Aclimação ficaria inviável para ela, também. Dessa forma, deixei o espaço e foi a minha única incursão como professor, num espaço alternativo, fora de meu esquema normal. Claro, o fato de ter usado a casa do Beto por quase dois anos e eventuais aulas ministradas em domicílio, não caracterizavam algo fora do meu sistema tradicional. 

Firmando meu novo apartamento como local de aulas, iniciei então uma fase próspera, com a manutenção de uma média alta de alunos.
Nessa época, segundo semestre de 1990, entraram diversos alunos novos. Uma nova safra com objetivos já diferenciando-se do perfil do meu início como professor. Era cada vez mais rara a presença de aficionados do Heavy-Metal oitentista, e começou a surgir, ainda que timidamente em princípio, garotos interessados espontaneamente em Rock retrô, 1960 / 1970.

Muitos anos depois, numa coincidência incrível, minha aluna, Alcione Sana, formar-se-ia radialista e seria um membro fixo da "Rádio Matraca" de meus amigos Laert Sarrumor e Ayrton Mugnaini Jr. Nessa foto acima, promocional do programa, "devora" um LP de vinil, na companhia de ambos.

Lembro-me da entrada de alunos como Alcione Sana, que anos depois formar-se-ia radialista, sendo parceira de Laert Sarrumor & Ayrton Mugnaini Jr., no programa radiofônico, "Rádio Matraca".
Carlos Antonio Keller Rodrigues, popular "Cali", que tornar-se-ia um grande amigo, e por ser dono de um posto de gasolina, eu passaria a ser cliente dele sistematicamente também, vindo a conhecer toda a sua família. Sua irmã, Claudia Keller, namorava o baterista Paulo Zinner (Golpe de Estado; Rita Lee), nessa época, o que unia-nos ainda mais com conexões sociais amigas, no métier do Rock paulistano.

                     Simone Zerbinato, em foto bem mais atual

Lembro-me também de Simone Zerbinato, que era muito amiga dos membros do "Golpe de Estado", e trabalhava como assessora de uma vereadora na Câmara Municipal de São Paulo. Bem politizada, acabou enveredando na política, e hoje vive em Brasília. Outro caso que tinha grande admiração, era o de um garoto chamado Marcelo, cujo sobrenome fugiu-me completamente, só lembro-me que era italiano, embora ele fosse corintiano... (para compensar, nessa mesma época, havia outro aluno cujo sobrenome era "Sanches", típico espanhol, e vinha com a camiseta do Palmeiras por baixo da camisa, em todas as aulas...).

Futebol e colônias a parte, digo que eu admirava a força de vontade desse Marcelo, porque ele vinha de muito longe. Ele morava em Embu das Artes, um município na Grande São Paulo, mas longe da capital. E para agravar, ele não morava na cidade em si, mas sim na zona rural, num sitio distante do perímetro urbano. Sua saga para estar na minha casa as 11:00 horas da manhã dos sábados, começava ainda sem a presença do sol, onde encarava uma caminhada no escuro, indo até o centro de sua cidade, para tomar um ônibus até São Paulo, que deixava-o no bairro de Pinheiros, e depois, mais um dali até à Aclimação. Sua tenacidade era admirável, pois nunca faltou e não foram poucas as ocasiões onde a falta seria amplamente justificável. Muitas vezes gripado, ou ensopado por ter vindo debaixo de chuva torrencial, e até mesmo num dia de greve de motoristas de ônibus, onde sob sacrifício total, apareceu na minha casa, deixando-me orgulhoso.

Em 1992, dei-lhe carona até a sua casa após um show do Pitbulls on Crack que ele foi ver, e essa admiração só aumentou. Quando deixamos o perímetro urbano da cidade de Embu das Artes, rumo ao sitio, pude ver o quanto era longe o percurso a pé. E a entrada do sítio era afastada, ou seja, ele andava bastante até alcançar a estradinha de terra que levava-o até a cidade. O percurso do ônibus de Embu até o bairro de Pinheiros em São Paulo, demorava mais uma hora e meia, fora a espera no ponto, e dali até a Aclimação, pelo menos mais 45 minutos, se o trânsito estivesse bom. Exemplos assim comoviam-me, certamente.

Nessa mesma época, chegaram outros alunos que marcaram época, também.
Na sala de aulas do meu apartamento da Aclimação, em 1990, estou entre dois alunos. Não recordo-me do nome do rapaz cabeludo a minha esquerda na foto acima, mas o de camisa xadrez é Hermeson Milani

   E nessa foto acima, Hermeson Milani, muitos anos depois...

Hermeson Milani, grande palmeirense, membro das origens da torcida uniformizada Mancha Verde, e que sempre profetizava ainda em 1990 : -"quando quebrarmos o tabu da escassez de títulos, emendaremos um no outro, numa avalanche". Estava certo na sua profecia para os anos 1990...
Flavio Sozigam, garoto talentoso que uma vez indiquei à vocalista Elizabeth "Tibet" Queiroz, que procurava um baixista para a sua banda peso pesado, o "Ajna". Lembro-me até que promovi uma reunião entre o Ajna e Flavio Sozigam, na sala de estar de meu apartamento. Daniela, cuja primeira aula foi acompanhada pelo pai em pessoa, preocupado em deixar sua filha de 16 anos, na casa de um cabeludo de 30... bem, não tiro a razão do pai dela. Mas como mesmo o pai mais zeloso não pode evitar o inevitável, ela acabou tornando-se namorada do Marcelo, aquele garoto de Embu das Artes, cuja história bonita de perseverança, contei anteriormente.
Pelloso, garoto esforçado, mas que morava muito próximo, ao contrário do Marcelo. Ficamos muito amigos, e posteriormente acabei sendo professor de seu irmão mais velho, Junior Pelloso, um dos mais fanáticos torcedores do Palmeiras que eu já conheci, e que protagonizou várias histórias hilárias vividas em estádios, nos anos noventa, que eu presenciei in loco.

Na Rua João Maia, que dava acesso para a estação Ana Rosa do Metrô, havia um outdoor nessa época, anunciando uma novidade que dava-me esperanças de dias melhores : a MTV estava chegando ao Brasil... uma emissora dedicada quase que exclusivamente ao Rock, era algo para comemorar-se e estava para ser inaugurada. Outro fato curioso ocorria com o Marcos Martines, cuja namorada, muito novinha, costumava ficar na sala de estar do meu apartamento, assistindo "Barrados no Baile", série norteamericana de TV, sensação entre as adolescentes daquele início de nova década. Enquanto eu passava riffs do "Led Zeppelin" na sala de aulas, a saga dos gêmeos Brenda e Brandon, acontecia na minha TV...

Os ventos do grunge já faziam-se soar pelos lados de cá, e o reflexo dava-se nas minhas aulas. Fora a febre Guns' n Roses que nada tinha a ver com esse processo, passou a ser comum alunos pedirem-me para tirar riffs do "Soundgarden" e "Pearl Jam", principalmente. O "Nirvana" só foi estourar para valer mesmo alguns meses depois já no decorrer de 1991, e a consolidar-se em 1992. Sorte a minha, pois "tirar" aquelas linhas de baixo medíocres, daquele baixista horroroso do Nirvana, teria sido o supra-sumo da humilhação...
Entrou enfim o ano de 1991, e esse panorama prosseguiu, com um aumento significativo de alunos divididos entre o grunge daquela atualidade, e o som vintage das décadas de sessenta e setenta.
O interessante era que diminuía visivelmente o número de alunos ligados no heavy-metal oitentista, denotando um sinal de mudança, com o fim de uma Era. Concomitantemente, o primeiro semestre de 1991, foi uma fase marcada por diversas propostas de trabalho que tive, e tudo isso já está amplamente contado no capítulo "Trabalhos Avulsos". E como venho dizendo, os sinais iniciais de que na década de noventa eu teria uma boa surpresa com a minha safra de alunos, começou a surgir.

A aluna Alcione Sana, que já citei anteriormente, era nessa época muito novinha, mas surpreendia nesse aspecto. Costumava chegar na minha aula ainda uniformizada do colégio onde estudava, e apesar da pouquíssima idade, queria tocar músicas dos "Kinks"; "Them"; "Pretty Things", e "Small Faces", entre outras bandas da década de sessenta. Claro que eu não enxergava isso como uma tendência no primeiro semestre de 1991, mas vendo hoje em dia, com o distanciamento histórico, isso é evidente. 
Edvaldo "Prik"; eu, Luiz Domingues, e Pelloso, da esquerda para a direita, em foto de 1990

Outros alunos que apareceram nesse início de 1991, foram Milton Freitas; José Carlos Ferreira; Magá; Edvaldo "Prik"; Wagner Guerra; e Lincoln, dos que lembro-me pelo nome. E um garoto que também vinha direto da escola, e impressionava-me pela articulação, e cultura acima da média, chamado Christian Du Voisin. Esse no entanto, gostava de coisas "modernosas", e sua banda de cabeceira era o "Red Hot Chili Peppers".

Na entrada de meu prédio no bairro da Aclimação, em foto de 1991

No segundo semestre de 1991, eu tive que suar bastante para manter o ritmo normal das aulas sem prejuízo, pois conforme já relatei no tópico "Trabalhos Avulsos", eu procedi em aceitar várias propostas de trabalho, e foi uma época turbulenta por eu perder tempo voando de um ensaio para o outro. Mas acabei dando conta, apesar do cansaço, sem prejudicar o andamento da minha rotina. 

Nesse período, não ocorreu nada extraordinário a ser relatado, a não ser em setembro, quando eu mudei-me novamente de residência, justamente por conta das minhas aulas. O apartamento em que eu vivia anteriormente, era extremamente prazeroso como residência, muito próximo do Parque da Aclimação, portanto com um clima bucólico, mas o entra-e-sai de alunos, e sobretudo o minúsculo quarto onde eu ministrava as aulas, era um estorvo à minha família. Portanto, vendo que a privacidade da família estava prejudicada, mudamo-nos para um sobrado bem mais adequado, onde a casa ficava isolada do ambiente de aulas, dando muito mais sossego e reservas à minha família. Mudei-me para esse novo sobrado, que na verdade era muito próximo ao apartamento, portanto no mesmo bairro da Aclimação.
O sobrado de três andares da Rua Castro Alves, no bairro da Aclimação, onde vivi o meu "auge" como professor entre 1992 e 1996

Lá, vivi de setembro de 1991, até agosto de 2007, portanto, nessa moradia, vivi os anos em que participei de quatro bandas importantes da minha carreira, entre as nove mais importantes que computo (naturalmente considerando as autorais) : Pitbulls on Crack; Sidharta; Patrulha do Espaço, e Pedra. E também nesse sobrado, acredito que vivi o apogeu de minha vida como professor, com a fase que começaria em 1992, com o surgimento de minha safra mais significativa de alunos, e uma série de acontecimentos análogos que muito impulsionaram meus esforços em levar o Pitbulls on Crack; posteriormente o Sidharta; e a Patrulha por osmose, à um caminho artístico de orientação retrô. A seguir passarei a relatar essa fase, que considero a melhor no aspecto da minha sala de aulas.

Continua...

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