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sábado, 1 de agosto de 2015

Sala de Aulas - Capítulo 7 - Dominguestock de 1995 & Estranho Declínio em 1996 - Por Luiz Domingues

Com a chegada de 1995, a praxe das aulas seguiu em sua rotina.
A euforia pelo campeonato de futebol indoor no ano anterior, gerou outra expectativa, quando alguém sugeriu que realizássemos também um campeonato de futebol de botão.

Apesar da maioria dos meus alunos já ser constituída por membros da "geração vídeo game", a ideia do velho botão contagiou-os. Não recordo-me ao certo, mas acredito que a ideia tenha partido do Ricardo Schevano, mas pode muito bem ter sido autoria de Marcelo Bueno, ou mesmo Edil Postól.

Infelizmente, contudo, nunca conseguimos realizá-lo, por absoluta falta de tempo para organizá-lo e sobretudo por falta de espaço, pois ao contrário do futebol indoor, onde era inevitável o confronto um-a-um, pensamos que num campeonato de botão, seria mais prático realizarmos vários confrontos, simultaneamente, e desta forma, precisávamos de espaço e tablados. Meu velho "Estrelão" estava a postos, mas precisaríamos de mais "campos", para tal empreitada.



Nunca deu certo, infelizmente, pois certamente que teria sido um grande prazer.
Independente dessa ação frustrada com o clássico jogo de botões, pelo menos o futebol indoor rendeu uma segunda edição em 1995.
Com mais participantes e um regulamento mais sofisticado (e contestado por alguns alunos que sentiram-se prejudicados pela nova adoção de critérios, como por exemplo a adição de um ponto extra para vitórias acima de três gols de diferença), o importante é que o campeonato foi um sucesso e desta feita, tornou-se longo, durando entre março e agosto de 1995.
No resultado final, ficou assim a sua configuração :
 
Campeão - Fernando Minchillo
Vice-Campeão - Edilberto "Edil" Postól
3º - Luiz Domingues
4º - Rodrigo Garcia
5º - Marcos Martines
6º - Luiz Nannini
7º - Marcelo Bueno
8º - Marcello Rangel Schevano 
9º - Ricardo Rangel Schevano
10º -Jason Machado
11º -Rodrigo Hid
12º - Carlos "Cali" Keller Rodrigues
13º - Marcos
14º - Alexandre "Leco" Peres Rodrigues
15º - José Reis Gonçalves de Oliveira
16º - Thiago Fratuce
  



Mas o grande evento do primeiro semestre de 1995, foi mesmo o "Dominguestock", que ocorreu em abril de daquele ano. Quando a ideia surgiu, por volta de fevereiro, causou rebuliço na minha sala de aulas, e era muito lógico que assim procedesse-se. Foi o seguinte : surgiu a ideia de fazermos um mini-festival com três ou quatro bandas de alunos, abrindo um show do Pitbulls on Crack, que  realizar-se-ia em abril, no Black Jack Bar. Tal data era um arranjo conseguido pelo presidente do Fã-Clube do Pitbulls on Crack, Jason Machado, para comemorar o aniversário da entidade por ele presidida, e que apoiou totalmente a ideia de eu colocar bandas de meus alunos na programação, dando um ar de festival.

A proposta foi ovacionada pelo meu "exército teen", que imediatamente abraçou a ideia, dando-me a certeza que apoiariam integralmente, e não só moralmente, mas inclusive empreendendo esforços pessoais para fazer do evento, um sucesso. Mais que um recital tradicional de conservatório musical, seria um verdadeiro show de Rock, com as bandas escolhidas tendo a chance de mostrarem seus respectivos trabalhos, numa casa tradicional do Rock paulistano, ainda que pequena em suas instalações.

Claro, no imaginário deles, aquela oportunidade soava como se estivessem tocando no "Marquee Club" de Londres...
Eu reportava-me às minhas próprias lembranças pessoais, e colocando-me no lugar deles, pensava no quanto teria sido maravilhoso se a minha banda de garagem, o "Boca do Céu", tivesse tido um convite desses em 1976 ou 1977, para tocar num micro-festival, abrindo uma banda de pequeno ou médio porte daquela cena setentista, na proporção que o Pitbulls on Crack representava para os anos noventa. Com esse entusiasmo todo da parte deles, sabia de antemão que o show seria um sucesso de público, pois é claro que todos apoiariam, e levariam o máximo de pessoas, cada um. Isso fora o esforço de divulgação com os meios tradicionais, ou seja, cartazetes e filipetas que ajudariam a distribuir.
E assim, esse foi o assunto principal de minha sala de aulas, nesse período. Ao mesmo tempo que estava contente por ver essa euforia, preocupava-me contudo, um aspecto : quais bandas eu escolheria, sem melindrar os preteridos ? Boa pergunta...

Pois é... esse era um dilema e tanto, pois é evidente que todos os alunos que tinham bandas, pleiteavam participar do micro-festival, vislumbrando uma grande oportunidade e de fato, dentro do imaginário deles, era mesmo um grande evento, quiçá o melhor que teriam em suas vidas até então, em se considerando o caráter iniciante de suas respectivas bandas.

Claro, havia disparidades. Cada banda tinha um nível, estando em patamares diferentes. Eu não poderia escalar uma banda sem condições mínimas, claro. Esteticamente, é claro que eu preferia ter escolhido bandas com características 1960 / 1970, mas naquele instante, isso não foi possível, infelizmente. As bandas que tinham essa característica, não estavam estruturadas adequadamente na ocasião, e dessa forma, tive que escalar duas bandas de som pesado, a contragosto. Claro, independente de gostar ou não da estética, eram bandas de alunos, e seriam bem vindas pelo fator amizade.

Meu aluno, Alexandre "Leco" Peres Rodrigues, baixista do "Eternal Diamonds"

Nesses termos, a primeira banda que eu confirmei, e gostei muito em poder contar com sua participação, foi o "Eternal Diamonds". Os rapazes tinham bastante influência 1960 / 1970, mas não era exatamente uma banda vintage, explicitamente falando. Tanto que apesar de ter belas passagens psicodélicas e progressivas em sua música, o Eternal Diamonds tinha um "pé" no Heavy-Metal oitentista. Nesse caso, o Eternal Diamonds era a minha melhor e mais animadora aposta entre as bandas de alunos que participariam do Festival. O guitarrista / vocalista, Rodrigo Hid, mostrava um talento nato impressionante, em se considerando sua pouca idade, tanto tocando, quanto cantando. Meu aluno, Alexandre "Leco" Peres Rodrigues, já tocava com desenvoltura nessa época, com quase três anos de aulas comigo, e apresentava uma capacidade de criação muito peculiar, muitas vezes percorrendo caminhos que desafiavam a lógica cartesiana, e de fato, na vida madura, ele fez dessa característica pessoal, o seu principal trunfo na criação do material da sua atual banda, que lidera há muitos anos, o Klatu.

Fernando Minchillo, baterista do Eternal Diamonds e palestrino fanático. Foto de 1996, em minha sala de aulas.

E o baterista Fernando Minchillo, também segurava bem o ritmo, apesar da pouca idade e inexperiência. Mas, no cômputo geral, era de fato a minha maior esperança entre as bandas de meus alunos.


Outras bandas que eu gostaria que participassem, estavam desarticuladas naquele momento, por vários motivos, infelizmente. Por isso, na hora da escolha, não tive outra alternativa a não ser escalar outras duas bandas mais pesadas. A primeira, foi o "Parental Advisory", do meu aluno Ricardo "Pijama" Garcia. O Ricardo Garcia era um garoto ligado no "220", literalmente, com uma energia juvenil impressionante, manifestada desde a sua primeira aula, em 1993. 
Sua banda era peso-pesado, de Metal extremo, com seu material cantado em inglês, e com todos os maneirismos agressivos de tal estilo. Não era do meu gosto pessoal, pelo contrário, era avesso a tudo o que gosto, mas na falta de outras opções mais condizentes com meu gosto pessoal, não tive muita escolha, pois a banda estava ensaiada, e segundo o Garcia, muito empolgada para participar do mini-festival. Ora, como não entusiasmar-me também por esse aspecto, estética a parte ? Então, o Parental Advisory foi confirmado, e eu tinha a certeza de que colaborariam ao máximo com a divulgação, e de fato, não decepcionei-me com eles, nesse aspecto, posteriormente. Faltava uma banda a ser escolhida.
Dei um tempo para fazer tal escolha, esperando que alguma banda menos agressiva articulasse-se a tempo. A banda de meu aluno, Cali, só tocava covers, infelizmente. Queria que eles tocassem, mas covers, a despeito do repertório ser ótimo e recheado de "setenteiras" excelentes e bem tocadas, destoaria do espírito. Eu queria acima de tudo, trabalhos autorais.

Marcos Martines, aluno avançado, e que já tocava bem há tempos



O mesmo ocorria com bandas de outros alunos, como o Marcão Martinez, por exemplo. O Essex, dos irmãos Schevano, não estava preparado para tocar ao vivo, também.

Carlos Fazano, amigo e agregado das minhas aulas, e que ainda não havia formado o Supernova, em 1995

Cheguei a pensar no amigo Carlos Fazano, também, mas ele ainda dava os primeiros passos para articular uma banda, muito incipientes. Não montaria uma banda a tempo, de forma alguma.

Marcelo Bueno, que infelizmente ainda não tinha sua banda articulada nessa época.

Mesmo caso do Marcelo Bueno, que dava os primeiros passos para montar o "Soulshine", o embrião primordial do "Tomada". Esperei até o último segundo, e quando não havia mais tempo hábil, tive que bater o martelo definitivo em prol da terceira banda escolhida, e assim procedeu-se com o "Equinox".

   Eu, Luiz Domingues e Luiz Nannini, o baixista do Equinox

Dois de meus alunos das quartas: Thiago Fratuce (esquerda), e Luiz Nannini (direita) 



Meu aluno Luiz Nannini, era extremamente gente boa, e dedicado nas aulas. Como um aluno aplicado, esmerava-se para evoluir ao instrumento e sua banda, tinha mais cancha que a maioria das bandas de alunos, que eram bem principiantes.

Isso porque ele era um pouco mais velho que a média de meus alunos, e sua banda era formada por componentes com mais de 20 anos de idade, ou seja, uma faixa etária bem acima da média de meus alunos. E por esse fato, que é gritante nessa fase da vida, o Equinox já tinha uma demo gravada; um currículo de shows realizados já significativos (se bem que no circuito off do off do underground), mas mesmo assim, isso superava de longe a experiência (ou melhor, falta de) dos demais, que era insípida  



Nesses termos, claro que escolher o Equinox para o festival, significava uma questão de lógica. Todavia, o som deles não agradava-me nem um pouco. Em audição de sua demo, eu já sabia que a "praia" deles era o Heavy-Metal oitentista, gênero que eu nunca gostei, e naquela altura do campeonato, metade dos anos noventa, perdera o último laço de tolerância que tinha com ele, que era "o fator em voga" com o qual tolerei-o nos anos oitenta.

Se na década de oitenta, eu tive que engolir o Metal, tal como engolimos o treinador Zagallo, agora, não havia nem esse fio tênue de resignação forçada pelas circunstâncias que ligasse-me nesse gênero, que detesto. Enfim, não pelo meu aluno, que era super gente boa, tampouco pelos companheiros dele, que só conheci no dia do festival, eu realmente não tive outra opção, e creio que já expliquei bem os motivos, e o contexto da ocasião.
Nesse ínterim, a garotada estava toda empolgada e foi uma fase dentro de minha sala de aulas, onde essa euforia era contagiante.

Paralelamente, contamos com o apoio do fã clube do Pitbulls on Crack, que na pessoa do seu fundador, Jason Machado, interagiu fortemente com os meus alunos, e nessa parceria, um esforço de divulgação do festival foi feito, e que reputo, foi fundamental para o seu sucesso. Sob o ponto de vista do Pitbulls on Crack, a história desse evento está amplamente contada nos seus respectivos capítulos, dentro da mesma cronologia coincidente. Tentarei agregar algo a mais, dentro do espírito deste capítulo, que versa sobre meus alunos.


Com essa euforia como combustível, claro que a mobilização foi total para fazer do evento, um sucesso total. Mesmos os que não estavam envolvidos diretamente com as bandas dos alunos escalados, trabalharam fortemente para tal sucesso. Distribuíram filipetas; fizeram boca-a-boca convidando amigos; parentes; colegas de escola; vizinhos; namoradas etc. No dia do show, fiquei muito contente com a aglomeração incrível que fez-se na porta do "Black Jack Bar". 

Lembro-me de ter saído à rua num determinado momento, e ter cumprimentado diversos pais de alunos, outros alunos, e agregados em geral. A fila na rua, estava enorme com a porta do bar ainda fechada, e os funcionários da casa mostravam-se eufóricos, pois não esperavam um público tão grande, subestimando o evento, antes de verem aquela aglomeração na porta, que inclusive suplantava e muito, o movimento normal da casa naqueles tempos decadentes em que viviam. De fato, o movimento de cerca de 500 pessoas presentes, era inacreditável, até para as minhas mais otimistas expectativas. A parte do show em si, com todos os pormenores desde a caótica passagem de som, já contei no capítulo do Pitbulls on Crack. De fato, aborreceu-me a postura agressiva dos membros do Equinox, culpando-me indevidamente por atrasos. Isento meu aluno Luiz Nannini, que inclusive ficou bastante constrangido com o comportamento de seus colegas, principalmente o guitarrista líder, que foi grosso comigo, acintosamente. Fora o fato de que tal indisposição motivou um ato abominável de insubordinação por parte deles, passando da conta, muito além do horário combinado para apresentarem-se. O set deles foi de uma hora e meia, praticamente, e além desse ato descortês, o som da banda era maçante, com aquele metal defasado, e sem nenhum atrativo, por mínimo que fosse, que justificasse a presença deles no evento. O meu aluno desculpou-se pelo comportamento horrível de seus companheiros, no próprio dia, e durante o decorrer de suas aulas posteriores que avançaram até meados de 1996. Bem, foi mesmo um erro escalar tal banda, e eu nem suspeitava que os outros elementos da banda fossem arrogantes, pois meu aluno não o era, certamente.

      Ricardo "Pijama" Garcia, baixista do parental Advisory
 

Quanto às demais, claro que o show do Parental Advisory arrancou risos da plateia pelo contraste hilário que seu vocalista proporcionava. Ele grunhia naquelas vocalizações típicas de Metal Extremo, mas quando conversava com o público, entre uma música e outra, sua voz era quase de registro feminino, fina e aguda, o que provocava risadas. E a manifestação do pai de meu aluno, Ricardo Garcia, foi espontânea e hilária : -"que merda...!!!"
Já falei tudo sobre o Eternal Diamonds no capítulo do Pitbulls on Crack. Na minha lembrança, foi a melhor banda da noite, e encheu-me de orgulho. Fora disso, o que posso acrescentar, creio que foi mesmo a euforia na casa, com aquela superlotação, e mesmo com todas as adversidades de uma casa sem infraestrutura, o evento foi um sucesso. Para o Pitbulls on Crack, creio que esse show não acrescentou nada, artisticamente. Se houve um dividendo, creio ter sido o da bilheteria graúda, mas em proporção ao tamanho da casa, nem tanto assim, em se considerando que a casa arrecadou grande parte dessa féria; e um pouco de exposição midiática, principalmente pelo "tijolão" que saiu publicado no "Jornal da Tarde". Para as bandas de meus alunos, foi grandioso, sem dúvida, talvez menos para o Equinox que tocou com "birra", e mais preocupado em provocar retaliações. Para as minhas aulas, foi um marco, sem dúvida. Essa euforia disparada, alimentou uma motivação muito forte nos meses subsequentes, e que inevitavelmente abria a possibilidade de produzir-se uma nova versão do festival, com outras bandas, e o mesmo objetivo. Infelizmente, nunca mais houve uma oportunidade igual, e o "Dominguestock" jamais repetiu-se.

Pena mesmo... tenho uma cópia em VHS dos melhores momentos de cada banda, e do Pitbulls on Crack. Já digitalizei tudo e futuramente, esse material será disponibilizado na Internet. Creio que todos os envolvidos gostarão de ter essas imagens disponibilizadas na Internet, e alguns que hoje em dia construíram carreiras musicais significativas, certamente despertarão a atenção do público que gostará de vê-los tão novinhos, tocando em suas primeiras bandas de garagem. E a vida seguiu na minha sala de aulas, nessa quase metade de 1995...

Da esquerda para a direita : Marcos Almon; Alexandre "Leco"; Thiago Fratuce, e Carlos Fazano, em foto de 1996.
O ritmo das aulas prosseguiu, acredito que fortalecido depois dessa experiência do festival, pela devida e já exposta euforia inerente.
A esperança de uma nova investida nessa área instaurou-se, mas eu tratei de não fazer disso algo obsessivo, para não vender uma falsa esperança, mas também para não perder o foco principal dentro de minha sala de aulas, que era obviamente a aula em si. 


Saindo completamente desse assunto, faço uma pausa para contar duas traquinagens que alguns alunos meus aprontaram, e mesmo dando o desconto de que eram adolescentes, e ainda com muitos impulsos infantis, certamente, vou omitir as suas identidades para evitar constrangimentos, visto serem homens maduros hoje em dia. Contudo, não poderia perder as histórias, mesmo que sejam escatológicas; deselegantes, e bem nojentas...  

Na primeira, um aluno meu chegou para a sua aula certo dia, com um álbum de fotos em mãos. Pediu-me para fazer uma ligação de meu telefone, e ouvi que ligou para um escritório do "Guiness", o famoso livro dos recordes. Quando terminou de falar com o atendente, explicou-me enfim a situação : ele queria que eu guardasse um álbum de fotos e os seus respectivos negativos, pois sua mãe tinha o costume de revistar seus armários e gavetas, e tal descoberta seria muito constrangedora. 

Enfim, era o seguinte : esse aluno defecara em sua casa, e ao notar o tamanho descomunal do material expelido, apressou-se em tirar fotos. Como naquela época as fotos digitais ainda engatinhavam, ele fez uso de uma máquina tradicional, e consequentemente, demorou para proceder a revelação e colagem no papel. Dessa forma, quando apanhou as fotos num laboratório, sabia que não podia ligar de sua casa para o livro dos recordes. 


O atendente de tal organização, contudo, disse-lhe que só poderia mandar um inspetor para conferir a autenticidade do "fenômeno", daí a três dias. Ora, como, se o material já estaria a boiar no esgoto, provavelmente há muito tempo ? Desanimado, viu que sua proeza não poderia ser comprovada pelo Guiness, mas mesmo assim, tentou... e o material registrado nas fotos ? 
Bem, o que posso dizer, é que era algo monstruoso e impressionante mesmo, e que certamente faria a cobra "Anaconda" ter uma crise de baixa autoestima... 

E ainda foi hilária a sua descrição de como o balconista da loja fotográfica olhou-o de forma "esquisita", quando da entrega do material...
O outro caso escatológico perpetrado pelos garotos, conto a seguir.


O outro caso escatológico que vou contar, foi ainda mais hilário, no sentido de que revelou-se um plano premeditado e diabólico...
Um dia, tocou-se a campainha de minha casa num horário em que não esperava nenhum aluno. Quando fui ver quem era, vi que era um aluno, e o guitarrista de sua banda, agregado de minha sala de aulas e amigo, também.

Estavam eufóricos, e queriam contar-me algo que parecia hilariante. E era...ainda que abominável...
Bem, preciso retroagir, pois o momento em que apareceram na minha casa, era na verdade, o imediato ato pós-realização da travessura. Esse meu aluno arquitetou um plano maquiavélico que começou um mês antes em sua residência. Ele defecou dentro de uma caixa de papelão, dessas ornadas para abrigar presentes de aniversário.

Guardou esse material dentro de um compartimento inacessível para investidas de sua mãe ou empregadas domésticas, e esperou por um mês inteiro, até iniciar a fase "B" de seu plano. Depois disso, contou-me que recolheu a caixa, e ao verificar o estado de seu interior, havia larvas rastejando-se, num autêntico cenário Dantesco...

Então, ele lacrou a caixa com aquele material infame, e revestiu-a com um papel de embrulho para presentes, e com o requinte da crueldade na premeditação, escreveu um lacônico cartão de parabenização. Chamou seu amigo, com o qual quis compartilhar o momento sublime de sua galhofa, e este, aceitou de pronto a cumplicidade do ato. Então, subiram a minha rua, que era uma ladeira muito íngreme, e cerca de três quarteirões acima, próximo à uma padaria famosa do bairro, tocaram a campainha de uma residência, e deixaram a caixa sobre o muro.

Abrigaram-se atrás de uma árvore de grande porte, e ficaram a espreita para ver o resultado. Segundo eles, uma senhora apareceu no portão, e atônita com o pacote, leu o cartão de felicitações, olhou para a rua a procura de algum sinal, e não vendo ninguém, adentrou novamente sua residência com o inglório pacote às mãos.

Os meninos comemoravam o êxito da operação, com gargalhadas descomunais, quando um rapaz bem mais jovem que a senhora, apareceu voando de dentro da casa, com a tampa da caixa em mãos, e olhar furioso. Nesse momento, saíram rapidamente disfarçando, e foram direto para a minha casa, contar-me a sua performance. Claro que ri muito da travessura, mas no alto de meus 35 anos de idade na ocasião, ponderei o quanto eu ficaria indignado se a campainha de minha casa tocasse um dia, e um presente desses fosse deixado para a minha mãe... enfim, essa história foi tragicômica...


Outra boa traquinagem que aprontaram, foi na verdade uma brincadeira dentro de minha própria sala de aulas. Numa certa ocasião, de total improviso, emboscaram um garoto que não era aluno, mas agregado das aulas por ser irmão de um aluno, e forçaram-no a entrar no banheiro anexo à sala de aulas, para em seguida, descarregarem um tubo de aromatizador inteiro lá dentro. 

Nesse dia, confesso que fiquei preocupado, pois a brincadeira excedeu-se bastante, e o rapaz ficou sufocado. Claro que a brincadeira parou na hora, mas durante alguns minutos, cogitei levá-lo ao pronto-socorro. Felizmente, ele recuperou-se e nada de grave aconteceu, mas lidando com adolescentes, é claro que coisas assim poderiam acontecer a todo instante, e minha responsabilidade era zelar pela integridade de todos, ainda que achasse sadio o clima de amizade estabelecida, o que tornava as minhas aulas muito mais agradáveis do que qualquer aula de música tradicional, de conservatórios sisudos. 

Lógico que eu tenho consciência de que esse caráter mega liberal, era atraente para eles, mas não havia maquiavelismo de minha parte, no sentido de querer deliberadamente angariar mais clientela com isso. Apenas achava que era muito mais agradável para todos que as aulas fossem assim, despojadas, e havia um elemento implícito nessa determinação. Com aquela balbúrdia instaurada, as aulas não paravam um só instante, isto é : o aluno que estivesse no seu horário, não parava de estudar e prestar atenção nas minhas orientações, e a despeito disso, o que era um tremendo teste de percepção musical a que submetia-se. Se o aluno conseguia absorver a aula nessas condições, estava preparado para tocar em qualquer circunstância, e de certa forma, uma didática absurda dessas, assemelhava-se à exercícios de aulas de teatro, e também de cursos de rádio e TV ministrados em faculdades, onde testes de percepção assim, são propostos para desenvolver os sentidos. 

Fora as brincadeiras de sempre, e o clima fraternal de cooperação mútua entre todos os alunos, aumentava gradativamente a euforia entre eles em promoverem ações em prol de suas respectivas bandas. Mesmo sendo um pouco cético, particularmente, em relação à criação de "cooperativas", "associações" ou qualquer outro tipo de iniciativa de formação de organizações coletivas, é claro que apoiava integralmente a euforia deles em querer estabelecer algo "oficial" entre eles.

Mas claro, sempre alertei-os que minha experiência com esse tipo de associação coletiva, nunca fora positiva inteiramente. Todavia, como tratava-se de algo de porte muito menor, com bandas iniciantes e formadas por amigos entre si, a ideia da ajuda cooperativa, era válida, e na minha vontade de alertá-los sobre os aspectos negativos das ditas "cooperativas", não podia de forma alguma desestimulá-los, pois no cômputo geral, a intenção deles era excelente.

Sobre o final de 1995, nenhuma outra ocorrência importante dessa época desperta-me a atenção. Os últimos meses foram marcados pela rotina e normalidade. Talvez uma única menção tenha que ser dada ao fato de que muitos alunos meus foram ao festival "Monsters of Rock" de 1995, e um curioso souvenir foi parar na minha sala de aulas, por conta desse show.  Ocorre, que nesse dia, além do "Ozzy Osbourne", "Page & Plant" (meio Led Zeppelin...) e "Black Crowes" (além de atrações peso-pesado e indies irrelevantes), apresentou-se também o "Alice Cooper". Em meio às clássicas encenações típicas de um show da "tia" Alice, notei que num dado instante, muitos "frisbees" foram arremessados por ele mesmo em pessoa, além de músicos de sua banda de apoio, e roadies. Eu estava na arquibancada lateral, e de longe, dava para ver tratar-se apenas de frisbees de plástico, nas cores verde e amarelo, talvez numa tentativa de fazer menção ao Brasil e agradar assim o público tupiniquim. Na quarta-feira posterior ao show, vejo que um aluno meu aparece na sala de aulas, com um desses objetos em mãos. Na verdade, além do disco de plástico bem vagabundo e provavelmente adquirido na Rua 25 de março, havia uma foto do Alice Cooper, grotescamente recortada e colada, certamente com cola escolar. 

Posso imaginar os membros da produção do Alice Cooper fazendo essa tarefa nas coxas, certamente por alguém ter sugerido de última hora o arremesso desses objetos, e insistindo para ter algo "personalizado", como a foto da Tia Alice. Bem, o aluno em questão que pegou um desses, foi o Ricardo Garcia e lógico, chegou contando a história aumentada e valorizada, alegando que aquele frisbee em específico, saíra das mãos do Alice Cooper; que ele mirara-o do palco; que ele (Garcia), havia feito um salto impressionante para vencer a concorrência que também ambicionava-o...enfim, bravatas juvenis e divertidíssimas...


Por falar em festivais e shows em geral, não foram poucas as vezes em que fui com alunos acompanhando-me, ou que tenha-os encontrado em tais eventos. Devo até retroagir na narrativa, para relatar alguns casos.

Acima, o áudio do show do Jethro Tull que assisti em 1988, em São Paulo
 
Em 1988, lembro-me de ter encontrado o aluno Cesar Cardoso nas dependências do Projeto SP, onde o Jethro Tull apresentou-se pela primeira vez no Brasil.

Esse ticket do show acima, não é meu, mas achei-o na Internet para ilustrar. Fui no show do sábado (8 de julho), e fiquei no mezanino.

No ano de 1989, encontrei Flavio Sozigan no Olympia, na saída do show do Uriah Heep. Era a primeira vez que o velho Heep vinha ao Brasil, também.

Em 1992, foi a vez de encontrar com Cali Keller no Olympia, no show do Ian Gillan. Era a segunda vez que o vocalista do Deep Purple passava por aqui em show solo.

Ainda no ano de 1992, lembro-me de encontrar muitos, e nem vou nomeá-los, nos shows do Black Sabbath, no Olympia, e também no pequeno estádio de atletismo do Ibirapuera. Em 1993, encontrei alguns no show duplo, com Little Richard e Chuck Berry, no estádio do Pacaembu.


Um desses alunos, deu um show na arquibancada, pois estava tresloucado. Quando um sorveteiro ambulante passou oferecendo picolés, ele enfiou a mão na geladeira portátil de isopor do rapaz e apanhou vários cubos de gelo, alguns inclusive, de tamanho razoável, e sem cerimônia, passou a arremessá-los a esmo para baixo. Não jogou com força, mas claro que deve ter machucado alguém que estava sentado nos degraus abaixo. No meio do show do Little Richard, numa pausa entre duas músicas, soltou um berro alucinado que o estádio inteiro ouviu, insultando o artista, gratuitamente. Foi engraçado, é claro, mas muita gente deve ter incomodado-se com a afirmativa dele, dando conta de que Little Richard era "uma Bicha Louca"...
Detalhe : o meu aluno adorava o Little Richard, e fez isso de pura brincadeira, típica de sua pouca idade e energia infantojuvenil explodindo com os hormônios. E tem mais histórias de shows & afins...


Em 1994, durante uma das edições do Festival Hollywood Rock, lembro-me de ter ido com diversos alunos e entre eles, ter encontrado-me com Edil Postól e sua esposa Marilu, na entrada do estádio do Morumbi. Nosso foco era ver o "Robert Plant" e o "Aerosmith", mas no meio do caminho tinha o "Sepultura", que não era uma atração que apreciávamos. Ele e a esposa foram para a pista, e eu, e outros amigos, fomos para a arquibancada. Na saída, um ex-aluno meu, que estava junto, "do nada", protagonizou uma cena insólita, e que quase colocou-nos em perigo iminente ! Já estávamos dentro do meu carro, saindo das imediações do estádio, no pós-show, quando ele abriu a janela subitamente, e aos berros, insultou um grupo de fãs do Sepultura que caminhava em silêncio pela Avenida Morumbi, rumo ao ponto de ônibus... fez um trocadilho infame, daqueles que são cantados em estádios por torcidas uniformizadas...
Na hora, vários "headbangers" retrucaram com xingamentos, e vários saíram correndo, no intuito de alcançar-nos para provável retaliação física, além de outros que procuraram pedras e / ou outros artefatos para arremessos ao meu carro.

O ato tresloucado e impensado, poder-nos-ia colocar em profunda dificuldade, pois se houvesse um engarrafamento depois da próxima curva, seríamos alvo fácil da fúria desses ultrajados headbangers e de certa forma, numa espécie de "ética de mão livre", digamos assim, eles estavam certos em cobrar uma satisfação...
Ninguém que estava no carro, naquele momento, aprovou essa insanidade da parte dele, e ficou um clima constrangedor dali até o fim da jornada em minha casa, onde cada um pegou seu carro, e foi embora, mal despedindo-se do praguejador impulsivo e imprudente. Esse ex-aluno já era adulto nessa época, e aproximando-se da casa dos trinta anos nessa época, portanto, seu ato não tinha nem o respaldo de ter sido cometido pela pouca idade, no arroubo da adolescência. Enfim, mais uma loucura cometida em dia de show, e com a presença de alunos...

Ainda em 1994, fui com uma turma boa na casa de shows, Olympia  para assistir o show do "Yes". 

Acima, um vídeo do show do "Yes" em São Paulo, que assisti em 1994
 
Um comboio foi organizado com saída de minha casa, e o casal Monica e Nelson Maia Netto foi colocado no carro de um ex-aluno meu. No caminho, perdi-os de vista, por conta de uma mudança súbita de rota que meu ex-aluno resolveu assumir.
Já estávamos nas dependências da casa, a poucos instantes do show começar, quando vi o casal entrando, esbaforidamente. O que houve ?
De fato, o motorista do carro mudou o caminho e desgarrou-se de nosso comboio, por pura distração. E nessa mudança, foi parar numa avenida que dava acesso ao bairro de Pinheiros, quando no nosso caminho, dirigíamo-nos à Lapa. São bairros razoavelmente distantes um do outro. Como se não bastasse o atraso, quanto mais atrapalhava-se com o caminho errado, mais nervoso foi ficando e quase cometeu uma colisão, com direito a discussão ríspida com o motorista do outro carro envolvido. Enfim, apavorados, o casal Maia Netto pediu para descer do carro e concluiu o percurso, mediante o uso de um táxi, chegando em cima da hora na casa, e consequentemente perdendo um bom lugar para assistir, pois seus ingressos era para o setor da pista.

Enfim, não foi minha culpa ter sugerido que embarcassem no carro desse rapaz, mas fiquei chateado por ver que estressaram-se. E o rapaz em questão ? Sim, chegou atrasado e um pouco alterado pelo stress gerado...

Outra lembrança digna de nota, deu-se em 1993, quando no mês de dezembro daquele ano, o grande astro do Rock cinquentista, Jerry Lee Lewis, apresentou-se pela primeira vez no Brasil. Como é público e notório, Lewis construiu sua carreira inteira em cima da fama de ser extremamente temperamental. E mesmo já com a idade avançada, "The Killer" não demonstrava nenhuma intenção de deixar de ter a sua "fama de mau".

Acima, o vídeo do show de Jerry Lee Lewis que assisti em São Paulo, no ano de 1993
 
Sendo assim, entrou visivelmente embriagado no palco da casa de shows, Palace, aqui de São Paulo, e tocou por exatos 42 minutos apenas, quando num ato tresloucado, levantou-se do banquinho do piano, chutou-o, e saiu de cena para não voltar mais naquela noite.
Apesar da casa estar lotada por fãs do mito cinquentista, um princípio de revolta instaurou-se, com muitas pessoas exigindo a volta do artista ao palco para a continuidade do espetáculo e outros mais exaltados, ameaçavam pessoas ligadas à produção do show, exigindo o valor dos ingressos cobrados. Sob o ponto de vista do código do consumidor, claro que a reivindicação procedia, pois o show fora interrompido sem nenhuma razão plausível, a não ser a embriagues e temperamento irascível do artista.

Contudo, considerando-se que todo mundo ali era fã de carteirinha de Lewis, apesar da conduta ser inadequada da parte dele, era de esperar-se uma certa tolerância, pois tal comportamento era uma constante na carreira dele. Indo além, posso até estar exagerando, mas tal atitude seria até um "charme" inerente para quem vai assistir "The Killer" em ação e numa licença poética gigantesca, posso até dizer que seria decepcionante vê-lo fazendo um show de 90 minutos, sendo simpático etc etc...

Bem, em meio a balbúrdia que ocorreu entre o público, com gente revoltada exigindo "seus direitos", havia um aluno meu que vibrava como se estivesse numa arquibancada de estádio de futebol. Pulando e gritando euforicamente como se seu time tivesse marcado um gol. Era o mesmo garoto que no show duplo dos também astros cinquentistas, Little Richard e Chuck Berry, deu um show na arquibancada do estádio do Pacaembu, com suas traquinagens, e de fato, ele adorava esses artistas do Rock dos anos 1950. Sua euforia nesse caso, tinha uma coerência, se vista pela tese que defendi acima, ou seja, ele percebeu e emocionou-se, em ver Jerry Lee Lewis exatamente da maneira como sua fama espalhou-se ao longo de sua carreira : temperamental; abandonando o palco; chutando o banquinho do piano, e bêbado...
Fazia sentido, apesar da longa espera de cerca de 50 anos para vê-lo em ação no nosso país, e parcos 42 minutos de música, apenas... como consolo, sim, ele tocou "Great Balls of Fire" antes de aborrecer-se e abandonar o palco... meno male...
Após essa rápida explanação por eventos do passado, volto à cronologia do segundo semestre de 1995. 


Bem, nada de muito significativo ocorreu nesses últimos meses desse referido ano, que fosse digno de nota. A rotina das aulas prosseguia, com os agitos de shows do Pitbulls on Crack e das respectivas bandas de alunos, além do costumeiro intercâmbio entre eles, com discos, principalmente. O ano de 1996 aproximava-se e nele, mais uma onda de euforia aconteceria, gerada pelo Pitbulls on Crack e o movimento criado pela gravação e lançamento do CD "Lift Off". O apoio de meu exército Neo-Hippie fazer-se-ia valer mais uma vez, de forma contundente. Assim terminou 1995...


Começou o ano de 1996, e este seria efetivamente, o último ano estável na minha atividade como professor de música. Claro que eu não tinha nenhum indício de que as coisas assim procedessem doravante, ali naquele momento. Foi um processo lento e imperceptível a grosso modo, mas historicamente, foi assim aconteceu. Todavia, não foi logo no início do ano que algum sinal nesse sentido pudesse ser observado, ao menos sem um microscópio...

Dessa forma, o ano começou igual aos anteriores, com um quadro de alunos que apresentava uma média de 30 / 35 alunos, e a rotina era a de sempre, com a interação total, intercâmbio e o clima de camaradagem / amizade entre todos. No primeiro semestre, a normalidade foi mantida, e a súbita decadência só viria a ocorrer no segundo semestre.

Em 1996, o Pitbulls on Crack fez poucos shows, mas como de costume, meus alunos envolveram-se e prestigiaram todos. Por exemplo em fevereiro, quando tocamos na Casa de Cultura do Ipiranga, e entre os 60 presentes na plateia, quase a metade era formada pelos meus "Neo-Hippies". Uma banda que apresentou-se na abertura, tinha como baixista um ex-aluno meu. Minha memória é de "elefante", mas não é infalível, portanto ficarei devendo o seu nome, pois realmente apagou-se da cabeça e como já mencionei várias vezes, perdi o caderno onde tinha anotado todos os nomes de meus alunos, desde 1987. Essa rapaz não ficou muito tempo, e não marcou tanto na minha sala de aulas quanto outros que cito com constância. Lembro apenas que era robusto na constituição física, usava cabelos longos como a maioria e não demonstrava claramente ser apreciador de sonoridade 1960 / 1970. Pelo contrário, achava que ele gostava era de Heavy-Metal.

Mas quando sua banda começou a tocar, surpreendi-me ainda escutando do camarim, quando fizeram um cover inusitado. Ouvi claramente que "a capella", três de seus membros começaram a entoar a introdução vocal da música "Thirty Days in the Hole", do Humble Pie. Fiquei surpreendido positivamente não só pela escolha de uma música que jamais esperaria ouvir ali, em pleno 1996, e também pela boa afinação que as três vozes mantiveram durante a sua performance. A banda chamava-se "Green Stuff", e como esse aluno nem era mais do meu quadro, sua presença no evento fora uma coincidência, e não um arranjo onde eu tivesse tido alguma influência quando das negociações para fechar a data na referida casa de espetáculos. Foi uma surpresa agradável e mais um "sinalzinho" sutil que todo o empenho em trazer tal egrégora para a gravação do CD "Lift Off", que iniciar-se-ia em breve, tinha tudo a ver. Esse fato ocorreu em 11 de fevereiro de 1996.

Os irmãos Schevano, Ricardo & Marcello, e Toni Peres Rodrigues, da esquerda para a direita. Marcello usa camiseta do Pitbulls on Crack  

O assunto do momento dali em diante, dentro de minha sala de aulas, passou a ser naturalmente, a gravação do CD "Lift Off", do Pitbulls on Crack. Cada pequena informação que fornecia-lhes, era um fator motivacional e tanto para a minha garotada. Claro que não cometi o deslize de convidar nenhum deles para ir visitar o estúdio numa sessão de gravação, pelo caráter inadequado que tal predisposição teria, obviamente.

         Gravando o CD Lift Off, do Pitbulls on Crack, em 1996...

O importante, todavia, era que mais uma vez eu sentia essa comunhão entre a banda em que tocava na ocasião, e o outro mundo em que vivia nos anos noventa, ou seja, justamente a minha sala de aulas e meu exército de alunos. Quando o segundo semestre iniciou-se, o movimento na minha sala de aulas parecia dentro da rotina. Estava habituado com a rotina de perder alguns alunos no pós férias, mas logo na metade de agosto, essas lacunas eram preenchidas pela entrada de novos. Essa era uma dinâmica normal para o período das férias escolares de julho, e o mesmo ocorreria em dezembro, quando na proximidade do natal havia uma debandada, mas os que não voltavam em janeiro, eram substituídos rapidamente por novos alunos que chegavam.

No entanto, essa regra quebrou-se em 1996, e sem que houvesse um motivo plausível, lembro-me que na metade de agosto, perdi oito alunos numa única semana. A maioria comunicou-me de sua desistência das aulas, alguns poucos sumiram sem satisfações, mas pelo que percebi, eram motivações completamente diferentes entre eles, e não havia a menor possibilidade desse ato ser algo arquitetado coletivamente, ou que denotasse algum tipo de boicote e / ou sabotagem. Simplesmente debandaram e claro que um número significativo de oito, causou um pequeno estrago no meu orçamento. O pior de tudo, é que não houve a costumeira reposição, e essa queda repentina provocou uma diminuição no meu quadro, da qual nunca mais consegui recuperar-me.

Doravante, nos últimos anos em que dei aulas, o meu número médio ficou desse patamar para baixo. Estava quebrada a minha média de 35 alunos, que mantinha praticamente desde 1989. Engraçado que nessa época, eu não tinha planos de encerrar minha atividade como professor particular tão cedo. O Pitbulls on Crack dava mostras de crescimento, mas eu não confiava plenamente na banda num curto / médio prazo, no sentido que desse-me a condição de não precisar mais da atividade paralela. E mais estranho ainda, é que na hora em que verifiquei essa queda, eu tive o "insight" claro de que ali começava o fim da minha atividade. Até hoje, não tenho nenhuma explicação plausível, mas o fato concreto, é que nessa semana de agosto de 1996, essa queda de alunos repentina, realmente foi o primeiro sinal de que essa atividade caminhava para o seu final. Muito embora isso tenha sido sacramentado de fato, só três anos depois. E mesmo com menos alunos inscritos, minha sala de aulas ainda protagonizaria muitas histórias, inclusive mais um pico de euforia, que ganharia volume no ano de 1998.

 
Ainda abordando tal assunto, lembro-me bem que na iminência do lançamento do CD do Pitbulls on Crack, foram encomendadas filipetas exclusivamente para divulgar tal proximidade do lançamento, e com um show internacional de grande porte a vista ("AC/DC", no Estádio do Pacaembu), resolvemos usar essa força de trabalho em mutirão, e com o apoio dos "monges", liderados por meus primos, Emmanuel Barreto e Helder Pomaro, muitos de meus alunos participaram ativamente.

Emmanuel Barreto, meu primo, um dos "monges" em questão, e atualmente, dono do Site / Blog Orra Meu, onde fui colaborador como colunista fixo, entre 2011 e 2016.

Claro que para eles tinha a conotação de farra, mas o trabalho que faziam auxiliando a minha banda era extraordinário. Fora isso, era clara também que a força que demonstravam nessas ações coordenadas, denotava o poder de mobilização que possuíam.

Alguns dos "monges"...Natanael; Betina; Emmanuel e Wagner "Baiacu", da esquerda para a direita, em foto de 1996

Nesses termos, claro que um pequeno contingente desses, bem coordenados e motivados, poderia fazer barulho, culturalmente falando. Eram inteligentes, cultos e tinham ideais. Fora a evidente energia juvenil e inerente.

Helder Pomaro, meu primo, e outro membro da trupe dos "monges"

Sendo assim, logo estariam ajudando-me novamente e desta feita, num mutirão com organização de linha de produção de fábrica, praticamente, quando envolveram-se na montagem das latas que compunham o aparato de divulgação do CD do Pitbulls on Crack.
Já abordei esse fato no capítulo exclusivo da banda, mas vou tentar achar novas luzes para comentar essa fase muito legal de união entre eles e eu, sob o ponto de vista da minha relação como professor, portanto adequadamente comentados neste capítulo "Sala de Aulas". E logo mais, faço isso.

          Wagner "Baiacu", outro componente dos "Monges"

Nem mesmo o fato do quadro de alunos ter diminuído significativamente, arrefeceu tal animação na minha sala de aulas. A dinâmica permaneceu a mesma, em todos os sentidos. Os meses prosseguiram sem que eu pudesse vislumbrar um motivo concreto pelo qual justificasse-se a queda no quadro. Foi mesmo muito inesperado e completamente aleatório, salvo alguma revelação em contrário, pois escrevendo sobre isso, com 20 anos de distanciamento histórico (2016), realmente não consigo enxergar uma lógica nesse processo.

Tomás Grimas, aluno que frequentou minhas aulas em 1992, saiu e teve volta ao meu quadro, em 1996, ano dessa foto acima.

Em princípio, ali no calor dos acontecimentos do segundo semestre de 1996, não fiquei muito preocupado. Pelo contrário, relevei, achando tratar-se de algo fortuito e passageiro, e dessa forma, a qualquer instante, uma nova safra de alunos apareceria e tudo voltaria ao normal. Não era bem assim na verdade, e eu estava completamente alheio a um fenômeno que estava vindo com a força de um Tsunami. 



O fato, era que a Internet estava popularizando-se de uma forma avassaladora e nesse sentido, o mundo da música começava a ser duramente golpeado pelas novidades da tecnologia. Falo "golpeado", pois não obstante o fato de que a tecnologia era uma novidade libertadora, por outro, velhos paradigmas estavam sendo muito ameaçados. O setor mais ameaçado era obviamente o da indústria fonográfica, com a iminente derrocada do CD, mas outros setores estavam sob judice também, e no campo didático, a possibilidade de espalhar-se métodos e vídeo aulas, quebraria toda uma velha estrutura de aprendizado.

Claro que eu nem cogitava isso naquela época, mas tinha plena consciência de que minhas aulas eram simples, sem metodologia tradicional ou formal, tampouco com nenhum material sofisticado de apoio. Se já era inferior a qualquer escola de música e nessa época, já haviam várias dessas modernas, cheias de novidades tecnológicas em São Paulo, o que seria de meu curso prosaico, doravante, com a avalanche da Internet ? Em 1996, não existia You Tube, nem redes sociais, mas a Internet já era bastante ameaçadora nesse sentido. Essa é uma explicação a posteriori, mas tem fundamento, enfim...


Então, além das atividades coletivas de ações de divulgação (principalmente distribuição de filipetas em porta de grandes shows, onde meus alunos misturavam-se aos "monges", já citados), a grande ação deu-se mesmo nos meses de outubro e novembro de 1996, quando a gravadora Velas propôs fazer um aparato muito bacana de marketing para dar suporte ao lançamento do CD Lift Off, do Pitbulls on Crack. Contudo, para garantir tal aparato, pediram-nos um esforço de mutirão, para garantir que esta ação fosse concretizada mediante uma minimização de custos.
Na minha sala de aulas, da esquerda para a direita : Cali Keller Rodrigues; eu, Luiz Domingues; Emmanuel Barreto. Sentado, Ricardo Schevano.

Claro que aceitamos essa condição imposta, e de antemão, eu tinha o meu trunfo pessoal de contar justamente com meu quadro de alunos, e tinha a certeza de que eles colaborariam nessa tarefa com bastante entusiasmo, primeiro pela farra que isso seria, e na adolescência não precisa-se falar duas vezes para que aceite-se uma bagunça generalizada dessas...
E segundo, que todos, sem exceção, tinham pretensões artísticas pessoais e muitos já com bandas em curso. Então, estarem ajudando também significava para eles a oportunidade de fazerem contatos, inserirem-se no mundo fonográfico, no show business etc etc, mesmo que de forma inicialmente insípida.

Da esquerda para a direita, os irmãos Ricardo & Marcello Schevano, e Toni Peres. Este último, trabalharia na selo Primal / Velas, pouco tempo depois, numa intervenção direta de minha parte.

Claro que na medida do possível, eu mesmo incentivava que eles aproveitassem a oportunidade para irem travando contato e conhecimento desse mundo. E no momento certo, muitos acabaram fazendo contatos interessantes e até um emprego formal eu arrumei para um deles, quando surgiu uma oportunidade, dentro da gravadora. E do que tratava-se a tarefa de mutirão ?

A gravadora através de seu departamento de marketing, aprovara a concepção de um aparato de apoio para a divulgação do CD. Mediante "brainstorm" realizada entre a banda e o marqueteiro da gravadora, foi concebida uma lata de média proporção, que seria embalada com um rótulo evocando a banda, mas imitando a famosa lata de "Sopa Campbell", estilizada em Pop Art pelo artista plástico Andy Warhol. Dessa forma, dentro da lata, além do CD, haveriam muitos objetos oferecidos como brinde e para preparar cerca de 3000 latas com tal aparato incluso, a gravadora economizaria uma boa quantia se nós organizássemos um mutirão, e realizássemos tal tarefa gratuitamente. A oportunidade de trabalhar-se na linha de produção de uma autêntica fábrica, era um convite à farra generalizada e assim, claro que muitos de meus alunos aceitaram de pronto a incumbência...


Quase todos os meus alunos envolveram-se nesse processo maluco. 
Eram tantas latas, que para não tumultuar o expediente dentro do escritório da gravadora, pediram-nos para fazer as sessões de mutirão aos sábados e domingos inicialmente, porém, quando notaram que mesmo com tanta gente ajudando, não daríamos conta do montante, abriram a possibilidade de fazermos expedientes noturno nos dias úteis, após o horário comercial.
Claro que nem todo dia eu conseguia mobilizar muita gente, mas foram muitos dias trabalhando, assim mesmo.
No auge dessa loucura, chegamos a ter mais de 30 pessoas num só dia, e a maioria do contingente, formada pelos meus alunos e invariavelmente vários agregados das aulas, como amigos, parentes e namoradas dos meus alunos, além é claro de Jason Machado, que era presidente do Fã-Clube da banda, e também mobilizava uma tropa de ajudantes entre amigos, seus parentes e agregados. Tenho uma lembrança muito boa desses dias que foram de trabalho intenso, organizado como linha de produção de fábrica mesmo. Mas sob um clima de intensa camaradagem, muitas risadas e brincadeiras, mesmo.

Carol, minha aluna e que nessa época namorava o baterista Juan Pastor do Pitbulls on Crack, ajudou nessas maratonas de trabalho

Apesar da descontração toda dessa tarefa, o trabalho era eficaz e rendia. Uma turma colava os rótulos nas latas; outras colocavam objetos, outras separavam cada item que era colocado, e finalmente uma quarta equipe tratava de lacrar as latas. Como já mencionei, esse trabalho aconteceu entre outubro e novembro de 1996, mas minha turma de alunos acabou envolvendo-se também no processo de divulgação do show de lançamento do CD "Lift Off". Dentro dessa dinâmica de meus alunos colaborarem decisivamente nesse processo artesanal de finalização do aparato de lançamento do CD Lift Off, creio que o ato final dessa ajuda inestimável foi o seu comparecimento em massa no show de lançamento do mesmo.

Marcelo Bueno, um dos mais entusiasmados alunos que vibravam nessa onda retrô, e pelo seu visual, isso é nítido, em pleno 1996, mas caracterizado como se estivesse em 1972...

Meu exército neo-hippie compareceu em massa ao evento, que foi apelidado de "Pitstock", numa alusão ao mítico Festival de Woodstock. Toda a descrição do show está contada em detalhes, no capítulo do Pitbulls on Crack. O que posso acrescentar aqui, é que claro que fiquei muito contente com a participação de todos, e muito agradecido pelo esforço que fizeram para lidar com aquela trabalheira toda que foi preencher as tais latas, colocar seus respectivos rótulos e lacrá-las.

Da esquerda para a direita : Branchini; eu, Luiz Domingues; Rodrigo Hid, e Paulo de Tharso. Rodrigo não era meu aluno, mas agregado das aulas, e os demais, ambos, eram bons alunos e frequentaram minhas aulas entre 1995-1997, aproximadamente. 

Estava encerrando-se o ano de 1996, nesse clima de confraternização na minha sala de aulas.


 
Outros caso de alunos cujos nome fugiram-me. O da primeira foto, era irmão de uma ex-aluna de 1989, chamada Carlota Brito, portanto, consideremos chamar-se Brito, igualmente e o segundo, lastimo, mas não recordo-me. Fotos de 1996.

Tinha naquela altura, a esperança de que passada a fase de férias escolares, a normalidade voltaria, com meu quadro de alunos voltando à média habitual de 30 / 35 alunos, não dimensionando (e não haveria porque pensar nesses termos naquela época), que o processo iniciado no segundo semestre de 1996, era irreversível.

Flavio, um rapaz que gostava de metal extremo, mas nunca contestou minha metodologia baseada em outras esferas do Rock "Vintage" 

Mesmo não tendo nunca mais o pico de alunos e euforia que tive entre 1989 e 1996, os anos de 1997 e 1998 ainda proporcionar-me-iam alegrias. Principalmente em 1998. Falo na cronologia adequada. Estava encerrado o ano de 1996...

Continua...

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