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domingo, 25 de janeiro de 2015

Boca do Céu - Capítulo 1 - O Início Real, mas Reticente, em 1976 - Por Luiz Domingues

Tudo começou em abril de 1976, quando o guitarrista Osvaldo Vicino convidou-me a formar uma banda. Eu não tocava absolutamente nada, não tinha nenhum instrumento, nem mesmo noção de teoria musical. Com a negativa de outros colegas da nossa escola (éramos colegas da 8ª série, na mesma escola), o baixo sobrou-me, por pura eliminação, pois ninguém queria assumir essa função.
Com a falta de bateristas na escola, ele indicou um primo seu, chamado Francisco Sérpico, que morava na zona leste, e que estava querendo aprender a tocar. Osvaldo Vicino foi o iniciador do processo de criação da banda, portanto. Ele cursava a oitava série no colégio Maria Antonieta D'Alckmim Basto (antigo Grupo Escolar da Vila Olímpia / Ginásio Estadual da Vila Olímpia), na Vila Olímpia, zona Sul de São Paulo, no ano de 1976, quando conheceu-me e tornou-se meu amigo, e era também era um apaixonado pelo Rock, naturalmente como eu. Sendo ambos inveterados ouvintes do programa radiofônico "Kaleidoscópio", e leitores da Revista "Rock, a História e a Glória", logo tornamo-nos amigos e sendo assim, manifestamos a intenção de criar uma banda de Rock. Essa foi a semente primordial do Boca do Céu, com Osvaldo assumindo o posto de guitarrista; vocalista, e compositor. Coube-me tornar-me o baixista da banda, pois não sabia tocar nenhum instrumento musical, tampouco tinha dotes vocais. Portanto, num esforço cooperativo, Osvaldo propôs-se a ensinar-me o "be-a-bá" da teoria musical e alguns exercícios iniciais ao instrumento, para que eu aprendesse e começasse o meu lento desenvolvimento.




Na ordem das fotos acima, Deep Purple; Mutantes e Nektar, três bandas que o vocalista Bernardão "Janjão" apreciava na época

Chamamos um outro colega da escola para ser vocalista, o Bernardo, vulgo Bernardão (que também tinha o apelido de "Janjão), pelo porte avantajado (era um cara muito forte para os padrões de um moleque de 15 anos), mas sua experiência era só a de cantar no chuveiro, e achar que acompanhava com desenvoltura o vocal  junto com os discos do "Deep Purple"; "Nektar", e "Mutantes", bandas que gostava. Eu conhecia-o desde 1974, mas foi em 1975 que tornamo-nos amigos, quando estudamos na mesma classe, a "Sétima C", quando na condição de repetente, estudei pela segunda vez nessa série, como se tivesse sido "rebaixado" para a segunda divisão, em 1974...

O Bernardo “Janjão” era um rapaz muito forte e seu porte físico era muito maior que o dos meninos de sua idade, e seu temperamento era sossegado normalmente, embora em momentos tensos, ele não deixasse de usar sua força para impor-se, e esse tipo de tensão entre moleques dessa idade, é uma questão quase diária, pela explosiva mistura : hormônios em ebulição x imaturidade. É raro não "sair no braço", nem que for por "brincadeira"... e por ter esse porte de "lutador", seu segundo apelido óbvio, era "Bernardão". Musicalmente, ele gostava de Mutantes; Deep Purple & Nektar e outras tantas bandas setentistas em voga, na época. Mas as três que citei inicialmente eram no caso, as suas prediletas, além do “Grand Funk”. Lembro-me de termos ido juntos ao show do “Rick Wakeman”, em dezembro de 1975, no ginásio da Portuguesa de Desportos, e com mais um amigo nosso em comum, chamado Mário, que era da nossa classe, também. Isso reforçara nossa vontade de ter uma banda de Rock, "de verdade". Ele queria muito fazer parte de uma banda, mas tinha a típica dificuldade muito comum dessa época, ou seja, era raro quem já tocava algum instrumento e mais raro ainda, quem possuísse um instrumento, ainda que de segunda ou terceira linha. Mas, arvorava-se de ser cantor, ainda que sem nenhuma noção musical, pelo simples fato de gostar de cantar no chuveiro ou por cima dos discos de bandas que gostava de ouvir. Naquela circunstância, onde só o Osvaldo tinha uma noção básica, o fato do Bernardo não saber nada, não era uma barreira inviabilizadora para ele. Além disso, a nossa ingenuidade juvenil era tão grande, que esse "detalhe" não incomodava-nos absolutamente em nenhum aspecto. Pelo contrário, ficamos contentes com a perspectiva de termos um novo membro na banda e de fato, pelo companheirismo que tínhamos entre os três, a presença dele nas reuniões ou simulacros de ensaios, era importante e fator de animação para todos. Se posso enxergar méritos, claro que o fator "força de vontade", tem que ser elogiado. Ele queria e tinha garra nessa determinação. Mas, até a "página dois", vimos logo, pois a vida cobrou-lhe outros rumos, e do mesmo jeito que entrou com essa vontade toda, saiu e não deixou vestígios. E um sinal prévio, deu-se quando cortou o cabelo radicalmente, da noite para o dia e isso, no imaginário do Rocker setentista típico, era o equivalente a um ato de traição, praticamente... 
Ele gostava de usar um sobretudo chic, que era moda entre Rockers daquela época, querendo respirar ares europeus, e convenhamos, as estações de outono / inverno naquela época em São Paulo, eram muito geladas e ao contrário dos dias atuais onde as ondas de frio são rápidas, era cabível usar roupas pesadas por bastante tempo, fora o fato de que a garoa era forte, toda noite. Nós nunca ensaiamos para valer, com o Bernardo cantando num microfone e ligado num equipamento de P.A., mínimo que fosse. Isso porque no tempo do Bernardo, nós ainda não havíamos oficializado um baterista e eu não reunia condições mínimas para fazer um ensaio de verdade, porque estava engatinhando nos primeiros exercícios, numa fase muitíssima preliminar de aprendizado. Depois que deixou a banda, nunca mais tive notícias dele. Fiquei com a lembrança de um colega legal, muito extrovertido, que gostava de cantar e usar "sobretudo", mesmo em dias não tão frios assim, e com aquela cabeleira setentista típica, enorme, até o meio das costas, que incomodava as irmãs mais velhas do Osvaldo, que achavam esse visual "démodé", ali na virada da metade da década de setenta e viviam sugerindo que ele cortasse-o... de fato, poucas semanas depois ele cortou e como Sansão, parece que seu entusiasmo rocker diminuiu. E daí, saiu de cena, logo após a virada de semestre de 1976... 


Com essa formação inicial, não chegamos a ensaiar. Primeiro por não termos local. Segundo, por eu ser tão horrível, que precisava de um tempo para desenvolver o mínimo praticável, e o mesmo para o pseudo baterista Fran Sérpico, que nem bateria tinha. No início, o meu primeiro contato com um instrumento, foi uma adaptação absurda que o Osvaldo praticou, ao colocar cordas de baixo num violão velho que possuía. É claro que não daria certo e logo percebemos que arrebentaria com o instrumento. Mas uma segunda tentativa semelhante foi feita, desta feita com o próprio Osvaldo colocando cordas de baixo numa guitarra Giannini velha que não usava, não sem antes pintá-la de verde, com um spray. Não era possível dar certo novamente, e convencido de que precisava comprar um baixo, tratei de arrumar um dinheiro com meu pai e através de uma indicação do próprio Osvaldo, que vira um instrumento usado numa loja de penhores, comprei o meu primeiro baixo. Custou-me duzentos cruzeiros, e tratava-se de uma imitação barata de um baixo Hofner, igual ao que o Paul McCartney usava no tempo dos Beatles, e tem usado novamente em suas turnês modernas, há pelo menos uns quinze anos. Ele era preto, e só conseguia ser afinado mediante o uso de um alicate, devido ao fato de suas tarraxas estarem completamente emperradas. Mas sentia-me um Rocker, empunhando-o orgulhosamente nos primeiros momentos da banda. Apesar de sermos uma banda totalmente iniciante, contando só com um membro que sabia o be-a-bá da música, ainda assim, não tirávamos “covers”. Apesar de sermos péssimos e no meu caso e do Fran, estaca zero total, nas reuniões no apartamento do Osvaldo Vicino, trabalhávamos em composições próprias. Não havia a mentalidade de tocar covers, infelizmente hoje tão disseminada na cabeça da garotada atual. O melhor músico da banda era o Osvaldo, que já tocava desde 1974, mais ou menos. Sabia fazer vários acordes e conduzia ritmos. Achávamos o máximo, vê-lo tocar com uma desenvoltura milhas acima da nossa.

Eu, Luiz Domingues, em foto de carteirinha escolar, de 1976, cerca de dois meses antes de receber o convite de Osvaldo Vicino para formarmos uma banda
 

Pelo menos propus-me a estudar e desenvolver ao máximo.

Osvaldo Vicino e suas irmãs, em foto de 1976, clicada em seu apartamento, localizado no bairro de Moema, zona sul de São Paulo, onde demos os nossos primeiros passos. Acervo e cortesia de Osvaldo Vicino




O nome Boca do Céu não foi o primeiro que escolhemos.
Antes disso, num curto espaço de tempo, havíamos batizado a banda como : "Rest In Peace"; "Ohms"; "Gato de Botas"; "Iscariots", e finalmente estabilizou-se como "Céu da Boca", em julho de 1976. Portanto, a mudança para "Boca do Céu", só ocorreria meses depois. Todos eles passavam pela imaginação juvenil, permeada de signos do Rock setentista. "Rest in Peace" trazia a morbidez de um Black Sabbath; "Ohms", poderia remeter a algo científico, como gostava de citar o Van Der Graaf Generator em suas músicas; "Gato de Botas" recorria à literatura infantil dos Irmãos Grimm, ou Hans Christian Anderson, e claramente era uma citação ao Genesis. E finalmente o "Iscariots", era uma referência ao personagem bíblico que traiu Jesus Cristo, e certamente era uma menção à Ópera-Rock, "Jesus Christ Superstar", da qual gostávamos. Só depois de algum tempo, houve uma inversão, e o nome estabilizou-se como "Boca do Céu". 


Em agosto, o Bernardão "Janjão" não quis mais brincar de Rocker, e saiu. Chamamos outro colega de escola, Edson Coronato, apelidado Edson "Coverdale", para assumir o vocal. A condição musical dele era a mesma do Bernardão, ou seja, cantor de chuveiro, sem noção musical, mas com exceção do Osvaldo, que era o melhor tecnicamente, todos éramos péssimos, portanto, nosso critério para escolher um novo vocalista, era sem noção também.
Mas o Edson era muito gente boa, Rocker de carteirinha como nós, e o melhor centroavante da escola.
Edson Coronato era meu colega de classe na 7ª série, em 1974. Fã de futebol e Rock, como eu, logo tornou-se amigo. Na nossa escola, era o melhor centroavante e ainda bem, jogava no meu time...


Formava uma dupla infernal com o ponteiro Wlademir Chiari (outro bom amigo que tinha e este, desde a infância pois estudamos juntos desde 1968), e com seus gols, ganhamos muitos jogos. Nosso time chamava-se "Universal". Antes que o leitor possa imaginar, não tinha nada a ver com a Igreja evangélica que apropriou-se dessa expressão como sua marca pessoal, mesmo porque, tal instituição religiosa nem existia nessa época. O nome do nosso time era pomposo : "Associação Futebolística Universal de São Paulo". A razão prosaica da escolha de tal nome, foi porque já existiam muitos times com nome de "Internacional" e "Nacional", mas "Universal", não era conhecido, e suplantava os dois anteriores numa visão, digamos, expansionista. Logo surgiria o "Cosmos" de Nova York e acabaria conosco, mas nem sonhávamos com essa humilhação, em 1974. Em termos de Rock, o Edson gostava de muitas bandas. Mas lembro-me que tinha especial apreço por Deep Purple e Nazareth. Costumava imitar Ian Gillan; David Coverdale, e Dan MacCafferty, por cima dos discos que ouvíamos juntos, e na companhia de outros rockers da escola, como o Jacques, que aliás era o nosso goleiro e fechava o gol com suas defesas elásticas. Abro um pequeno parêntese para explicar a razão pela qual já era amigo do Edson, retroagindo ao segundo semestre de 1975. Em 1975, estávamos enlouquecendo com o Rock e exemplares da revista "Rock, a História e a Glória" e também da "POP", corriam de mão em mão, na mesma profusão com que emprestávamos LP's e Fitas K7 de diversas bandas internacionais e nacionais, uns aos outros. Mas houve um fato desagradável na escola, e nessa idade, no meio da adolescência, fazia muita diferença. Eu repetira a sétima série e meus amigos seguiram em frente. Enquanto eu era o repetente da "sétima C", em 1975, eles seguiram em frente e isso não diminuiu a nossa amizade, nem demoveu-nos de nossas atividades Rockers e futebolísticas, mas forçosamente, nossos horários e convivência, ficaram mais prejudicados. Mesmo assim, no segundo semestre de 1975, resolvemos fundar uma banda. Só havia um detalhe absolutamente risível nessa determinação juvenil : ninguém sabia tocar absolutamente nada !!

Então, "escolhemos" um instrumento cada um, e formamos a banda, na quixotesca esperança de que começaríamos a aprender, e em poucos meses, estaríamos ensaiando "de verdade".
A formação da banda seria : Wlademir (teclados); Edson (baixo); Jacques (guitarra); Bernardo (vocal), e eu na bateria, pois confesso : sempre quis ser baterista... e o baixo foi um acidente na minha vida. Essa formação dissipou-se de vez, assim que o ano de 1975 findou-se e todos passaram de ano, mas criando então um novo empecilho. Meus amigos saíram da escola, formando-se no ensino fundamental e espalhando-se assim por outros colégios, onde iniciariam o segundo grau, enquanto eu fiquei, para cursar a oitava série, enfim. Por volta de março de 1976, insisti em prosseguir com essa banda fictícia, mas apenas dois amigos sinalizaram que tentariam prosseguir, entre eles, Edson. Contudo, esse delírio não durou um mês, apesar da banda ter recebido um novo nome até interessante : “Medusa”.
Voltando à cronologia, nessa altura, eu já havia desenvolvido o mínimo, conseguindo tocar numa nota só com razoável segurança rítmica. O baterista Fran Sérpico havia ganhado uma bateria "Gope", e começava a estudar, mas ainda não ensaiávamos formalmente, devido a falta de local e equipamento. Ficamos com essa formação até agosto de 1976, quando o Edson resolveu sair. Então, sem perspectivas de arrumar um novo vocalista (um colega nosso da escola, Gabriel, chegou a ser cogitado, mas desistimos diante de sua relutância), tivemos uma ideia inusitada que pensando bem, hoje, foi bastante ousada e sem dúvida, sem a menor noção, pois estávamos expondo-nos sem levarmos em conta a nossa total ruindade musical e inexperiência : colocamos um anúncio no Jornal de Música, da Revista "Rock, a História e a Glória".
Era a revista mais sensacional de Rock que existia na época (tudo bem, existia a Revista POP, da editora Abril, mais bem acabada e produzida graficamente, mas que também falava de outros assuntos, como moda e comportamento, porém no quesito texto, a "Rock" ganhava de mil a zero). Então, após vibrarmos por ver nossa carta publicada no Jornal, começamos a receber cartas de aspirantes.
Minha sina em ver meu nome escrito errado, vem de longe... como se não bastassem os inúmeros aborrecimentos que tive com o apelido que usei durante anos, eis minha carteirinha escolar da 8ª série, quando o Boca do Céu iniciou atividades. Quem é mesmo Luiz Antonio "Domingos" ? 


Foi em agosto de 1976, portanto, que tive pela primeira vez na vida, o sabor de ver algo a meu respeito publicado.
Trato esse acontecimento singelo, como o nascimento oficial de meu portfólio. Saiu na edição n° 20 da revista "Rock, a História e a Glória" com "The Beatles", como matéria principal.

Trata-se de uma carta tola que escrevemos para a "Rock, a História e a Glória", falando de nossa banda. Nessa carta, apresentamo-nos com um novo nome, pois achávamos o "Céu da Boca", impróprio para uma banda de rock, e rebatizamos com algo mais, digamos, "barra pesada": "Injeção na veia". O Osvaldo datilografou a carta e escreveu certo a palavra "injeção". Mas algum problema ocorreu na diagramação, e na revista saiu grafado "Ingeção"com G.



Esse erro, somado ao texto adolescente e absolutamente ingênuo que enviamos, deu-nos notoriedade, pois na edição seguinte, houve uma quantidade de cartas indignadas de outros leitores, avacalhando-nos. Em suma, a banda era horrível, mas em três meses, fazia "barulho", sem ao menos ter ensaiado formalmente !!
Então, o Edson saiu e com o anúncio no Jornal da Música (era um suplemento que vinha encartado dentro da Revista "Rock, a História e a Glória"), à procura de vocalistas, recebemos algumas cartas de postulantes. Acabamos interessando-nos por um rapaz chamado Laert Júlio, que dizia ser compositor; vocalista, e sabia tocar um pouco de teclados.


Marcamos encontro na escola onde eu e Osvaldo estudávamos, e o recebemos no pátio, durante o recreio de um dia de aulas.
Naquela Era pré-internet, não sabíamos como ele era em sua aparência, e sonhávamos com um "frontman" de visual igual ao do Robert Plant... nossa primeira impressão foi de desapontamento ao vermos um sujeito de cabelos curtos, com aquele corte tradicional e antiquado dos anos 1930, roupas de tergal, e óculos fundo de garrafa...

Não conhecíamos o termo "Nerd" naquela época, mas era exatamente isso o que estávamos pensando sobre ele, sem dúvida. Ainda mergulhados no espírito setentista, a única coisa que ocorreu-nos foi arranjar-lhe o apelido de "Fripp", alusão ao genial Robert Fripp, que desde 1975, havia adotado o visual "anti-Rocker", com cabelos curtos e uso de roupas tradicionais como terno, portanto, no nosso imaginário na época, "roupas caretas".


Mas o talento venceu o preconceito tolo, pois logo nos primeiros momentos, percebemos que esse Laert Júlio era um sujeito diferenciado, porque mostrou-nos seus poemas; algumas músicas compostas; uma vasta cultura musical, cinematográfica etc.

Ele falava sobre artes plásticas; teatro; poesia e literatura. Citava um monte de referências muito legais, e era tão rocker quanto qualquer um de nós. E para aumentar o seu curriculum, era um desenhista de mão cheia, pois estava vivendo disso na época, fazendo retratos de pessoas nas mesas dos bares noturnos, e vendendo de mão em mão a sua revista de cartoons, que ele mesmo produzia, chamada"Sarrumorjovem", escrito dessa forma, tudo junto. Um pouco mais velho que nós, mas muito mais antenado culturalmente, Laert tirou-nos de uma condição de banda quase fictícia, para algo real, concreto, com possibilidade de vir a tornar-se de fato, uma banda de verdade, em condições de pleitear um lugar ao sol.

Mesmo achando divertida a repercussão da carta publicada onde os leitores execravam-nos como analfabetos por ter saído "Ingeção" com "G", ele persuadiu-nos a voltarmos a usar o nome "Céu da Boca" novamente, até acharmos algo melhor. Já incorporado, começamos a ensaiar de fato, com baixo; guitarra, e bateria, pois nessa esta altura, já havíamos conseguido comprar amplificadores e equipamento de voz, quando passamos a ensaiar na casa do baterista Fran, que mudara-se do Tatuapé, para o bairro Campo Belo, na zona sul de São Paulo, numa casa ampla. O choque de qualidade com a entrada dele, Laert, foi grande, quiçá, enorme. Acrescentando algumas músicas dele, já prontas, com muito maior qualidade musical, e letras muito acima da nossa capacidade juvenil. Foi uma época de muita euforia de minha parte, pois finalmente sentia-me dentro de uma banda, e mesmo sendo um reles aspirante a músico, sentia perspectivas.

E foi assim até o final de 1976, com ensaios, músicas sendo criadas etc. E para registrar : tenho todos os exemplares da revista "Sarrumorjovem" guardados. Hoje devem valer ouro nos "Mercados livre" da vida. Falo dos fatos iniciados em 1977, a seguir.
Entrando em 1977, ainda vivíamos sob a repercussão da carta ridicularizada pelos leitores da Revista "Rock, a História e a Glória". Espertamente, o Laert criou uma nova investida. Mandou para a redação da Revista uma carta direcionada ao crítico Ezequiel Neves, codinome "Zeca Jagger". Nela, falava sobre a mudança de nome do "Injeção na Veia" para "Boca do Céu" (sim, invertemos a ordem, deixando o prosaico "Céu da Boca", um pouco mais substancioso, digamos), sua entrada como novo vocalista / tecladista, e o golpe de mestre: a coleção completa até aquela época, de seu fanzine de cartoons, o "Sarrumorjovem".
O fato, é que os cartoons eram muito bons, cheios de sarcasmo, sátira de costumes e sátira política (um perigo naqueles anos de ditadura ferrenha, é verdade !), cultura underground, contracultura e referências rockers.
O Ezequiel respondeu, publicando que havia adorado os cartoons, comparando os traços do Laert ao do grande Robert Crumb (para quem não sabe, um dos maiores cartunistas americanos, criador dos personagens "Freak Brothers" e uma das figuras mais reverenciadas pelos hippies sessentistas, além de ser capista de álbuns históricos, como por exemplo o "Cheap Thrills", da "Big Brother & The Holding Company", banda de Janis Joplin).
Além disso, disse que adorava o nome "Injeção na Veia", e que lamentava a troca para "Boca do Céu". Para surpreender-nos ainda mais, disse que aceitava ser "nosso padrinho" !
Em nenhum momento da carta, pedimos isso para ele, mas achamos o "maior barato" essa colocação espontânea e pública, por sua parte.


Eufóricos por termos Ezequiel Neves como nosso "padrinho", abusamos dessa condição, logo no início de 1977, e passamos vergonha por sermos tão ingênuos... mas isso, eu conto mais para frente, pois em fevereiro de 1977, ocorreu um fato muito importante para o "Boca do Céu", antes do episódio de decepção com Ezequiel Neves. 

Continua...

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