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domingo, 25 de janeiro de 2015

Boca do Céu - Capítulo 5 - Nossa Era dos Festivais - Por Luiz Domingues



Voltamos a São Paulo, e estávamos às vésperas do Festival "FEMOC", quando eu tive uma ótima notícia pessoal que refletiria na banda : ganhei do meu pai, um baixo novo e infinitamente superior àquele simulacro de "Hofner" que eu usava desde 1976.
Era um Giannini, imitação de Rickenbacker, cor cherry (a versão oficial do Rickenbacker qualifica tal cor em seu catálogo, como “Fireglow”), e zero km, ano 1977. Foi um salto de qualidade incrível, a proporcionar-me um impulso em todos os sentidos. Dali em diante, é que posso dizer que comecei a melhorar vertiginosamente, tendo motivação ainda maior ao instrumento. E claro, a qualidade sonora da banda aumentou com um instrumento melhor. Ainda longe de ser um instrumento importado de real qualidade, mas foi um avanço em relação ao que eu tinha anteriormente.
Vendi o velho Hofner genérico e dali em diante, usei o Giannini RK, até 1981, quando finalmente pude comprar meu primeiro baixo Fender.
Havíamos inscrito mais uma música no festival FEMOC. Além de "Revirada", inscrevemos também, "Serena", uma balada do Osvaldo, com letra do Laert. Tínhamos a intenção em inscrever uma terceira música, "No Mundo de Hoje", mas o Festival só previa duas músicas para cada aluno, e como só eu estudava ali, optamos pelas duas primeiras. Intensificamos assim os ensaios elétricos para dar o melhor de nós nesse Festival. 
Quando soubemos que a eliminatória do Festival estava marcada para o mesmo dia do show do Joe Cocker, ficamos apreensivos, pois não queríamos perder o show. Todavia, o Festival era muito importante para nós, evidentemente. Dessa maneira, tomei coragem e fui pedir ao comitê organizador que deixasse-nos tocar nossas duas músicas logo no início e dali, sairíamos a voar para o ginásio da Portuguesa de Desportos, onde veríamos esse show imperdível.
Outro fator importante para a banda nessa fase, foi a perspectiva para mudar o endereço de ensaio. Já estava tudo acertado com meus pais, e eu já estava por arrumar o quarto da edícula da minha casa, para abrigar o equipamento. Aproveitei para dar uma decorada no ambiente. Coloquei cartazes de shows; fotos de bandas que apreciávamos, e outras imagens inspiradoras de ordem contracultural. O que eu não imaginava no alto da minha ingenuidade juvenil, que teria problemas sérios com essa mudança. Depois que os ensaios começaram na minha casa, a questão da indisposição dos vizinhos com o barulho, seria o mais óbvio dos problemas, mas algo pior, que eu não previa, estava por acontecer. E por um triz, a situação não “degringolou”, ao causar-me transtornos muito maiores. No início, tudo foi indo bem, com a banda a ensaiar aos sábados a partir das quinze horas até às dezenove, mais ou menos. Mas logo começaram os problemas...
O barulho começou a incomodar a vizinhança, e várias vezes tivemos reclamações nesse sentido. Até aí, normal, pois o quarto de ensaio não tinha nenhum preparo acústico, nem mesmo as inevitáveis caixas de ovos coladas pelas paredes, típica medida barata de quem deseja amenizar um pouco o problema. Mas o pior mesmo, só foi acontecer algum tempo depois, e por um triz, evitei um mal maior, ao trazer constrangimento aos meus pais. É que além da banda, começou a surgir amigos para assistir os ensaios. Até aí, tudo bem. Mas também começou a aparecer amigos dos amigos, e chegou-se em um ponto, pouco tempo depois, que escapou do controle, com pessoas presentes, sem conexões com ninguém ali. Minha residência tornou-se um “point freak” aos sábados. Teve dia que eu cheguei a contar vinte e cinco pessoas espremidas dentro do quarto com a janela fechada, sob um calor incrível. Isso não era o maior incômodo. O problema maior foi o entra e sai de cabeludos, que começou a chamar a atenção da vizinhança. Por azar, meu vizinho da direita (ha ha ha... apenas coincidência aquele senhor morar ao lado direito de nossa casa...), era policial militar, tenente ou capitão, não lembro-me. Ele era gente boa, mas começou a ficar incomodado, na verdade transtornado com o barulho, e com razão, diga-se de passagem, pois ele tinha netos pequenos. Não posso acusar, mas desconfio que ele tomou algumas medidas...
Pois um dia, um hippie do bairro chamado, "Canton", que inclusive era meu colega de escola, veio dizer-me que ouvira um rumor que a polícia estava a rondar a minha casa, e que preparava uma batida para qualquer instante. Foi enfático ao dizer-me que eu deveria cortar o quanto antes esses ensaios, pois eles iriam enquadrar todo mundo. Ah... os anos setenta... como tenho saudade de muita coisa, mas de certos aspectos truculentos, absolutamente não ! Infelizmente, a despeito dessa arbitrariedade poder acontecer pelo fato de vivermos sob atos inconstitucionais que legitimavam-na vergonhosamente, poderia lograr êxito uma investida dessas por um aspecto : ao fugir ao meu controle, algum freak desses poderia portar drogas certamente, e aí, sobraria para o dono da casa, e consequentemente, meus pais “arrancar-me-iam o couro”. De fato, várias vezes tive que pedir aos convidados, que apagassem seus cigarros de material ilícito, e pior, cheguei a flagrar várias vezes, doidos a sacar "bolas" de suas bolsas, e consumi-las, ali dentro, sem nenhuma cerimônia. 
E uma vez, no clímax, flagrei um casal no banheiro da edícula, prestes a usar ampolas. Era um "Christiane F." a acontecer fora do meu controle, e para piorar, eu não fazia a menor ideia sobre quem eram essas pessoas !


À medida que a data da nossa participação no Festival FEMOC aproximava-se, nossa preocupação em ensaiar e apresentarmo-nos o melhor possível, norteou os primeiros dias de agosto de 1977. Preparamo-nos dentro de nosso limite, que era estreito. Lembro-me que no dia da apresentação, acordei com um frio no estômago. Era meu segundo show da vida, sendo que o primeiro houvera sido uma apresentação tosca, e tenha tido como público, parentes e amigos do baterista, Fran Sérpico, tão somente, e portanto, pessoas indulgentes para conosco. Agora, seria diferente. A despeito do caráter amadorístico de um festival estudantil realizado em um colégio estadual, tratava-se de um palco, com um P.A. e público (alunos e parentes e amigos dos concorrentes), mas pela primeira vez, numeroso, e com gente desconhecida a ver-nos. E além disso, havia a excitação de após nossa participação no Festival, irmos assistir um show internacional. Estávamos muito eufóricos por poder assistir Joe Cocker, na mesma noite.
Chegamos ao ginásio de esportes do meu colégio por volta das dezesseis horas para fazer o soundcheck. O equipamento era surpreendente para um festival colegial. A explicação foi que pertencia a um conjunto de bailes do bairro, chamado "A Gota", e um ou dois membros terem sido alunos do colégio, daí o preço camarada pela locação (isso é dedução minha, ao falar com a experiência adquirida, de hoje em dia...). Como completos incautos, mal sabíamos portar-nos em um soundcheck. Nossa sorte, foi que os demais concorrentes não foram nada diferentes de nós. Eu conhecia apenas uma banda, onde os elementos tinham um nível melhor, e cujo guitarrista era meu conhecido, apesar de estar numa série mais avançada, e ser mais velho. É uma lástima, mas não consigo lembrar-me do nome desse banda, e só lembro-me do apelido do sujeito : "Cri". O som deles era meio na onda do “Santana”, e tocavam bem melhor do que nós. Feita a passagem de som (muito mal feita por sinal), a toque de caixa, fomos todos à minha casa, que era perto dali e fizemos o "pit-stop", ao prepararmo-nos para tocar. Fomos ao colégio por volta das dezenove horas, sendo que o prometido fora tocarmos às vinte horas em ponto. Quanto à nossa expectativa, claro que foi a melhor possível. Estávamos eufóricos, pois foi em tese, a nossa primeira apresentação de fato, visto que o primeiro show fora uma apresentação caseira, para amigos e parentes do baterista, Fran Sérpico. Esse evento foi, proporcionalmente, enorme diante de nossas expectativas juvenis. Mal jantamos, tamanha e vontade de subir logo no palco e tocar nossas duas músicas, "Serena" e "Revirada". E ainda havia a expectativa de irmos assistir o show do Joe Cocker, outro elemento excitante para a noitada de Rock. Lembro-me vagamente das duas músicas. Se precisasse tocá-las hoje em dia, bastaria ouvi-las novamente e eu tocaria com facilidade, pois eram simples em sua execução, e muito provavelmente eu promoveria melhoramentos, pois tenho quarenta anos de experiência acumulada hoje em dia, 2016.
Essas letras não estão no portfólio oficial, infelizmente, a não ser "Serena" que aliás eu achei no perfil do Osvaldo na extinta rede social "Orkut". E não há nenhum registro de áudio. E também “Diva”, achada em um manuscrito. Uma pena mesmo, não ter o áudio.
O que conversamos na minha casa, nos momentos que antecederam a apresentação, sinceramente não lembro-me com riqueza de detalhes, mas certamente deve ter sido uma conversa a girar em torno da expectativa da nossa performance. Não havia nenhum acerto a ser feito de última hora. Apenas conversávamos sobre o festival e claro, estávamos também animadíssimos para assistir o show do “Joe Cocker”.
Afinal de contas, shows internacionais eram raros naquela época, e com três meses de diferença, apenas, havíamos visto o “Genesis” e agora “Joe Cocker”, um ícone “Woodstockeano”. E a sua banda vinha vitaminada com dois músicos de apoio dos Rolling Stones : Bob Keys (sax), e Nicky Hopkins (piano). Não estávamos por acreditar que veríamos tantos ícones do Rock, e no mesmo dia em que o Boca do Céu faria sua primeira "grande" apresentação em público.
         Osvaldo Vicino, em foto bem mais atual, dos anos 2000

Só um breve parêntese, uma balada do Osvaldo, com letra escrita pelo Laert, passou a fazer parte do nosso repertório. Segundo o Osvaldo, era inspirada em uma letra do “Uriah Heep”, que ele lera em uma edição da Revista "Rock, a História e a Glória". Chamava-se : "Serena". E abaixo está a sua letra, que copiei ipsis litteris como a vi no perfil pessoal dele na extinta Rede Social, Orkut :

SERENA

(Osvaldo Vicino-Laert Sarrumor)

Tom - D



Não sei o que você tem

Que me perturba me faz tão bem

O seu olhar me ofusca

A sua voz me emudece



Você é tão serena

E me faz tão intranqüilo

A sua sensatez me envolve

Me faz insano



Quero despojar minha loucura

Na pureza do seu beijo

Lapidar minha aspereza

No macio do seu corpo



Música do Osvaldo Vicino e letra do Laert "Sarrumor" Julio.

Como já disse anteriormente, no dia da apresentação, quando despertei pela manhã, senti um frio na barriga. 
Era uma apresentação para muita gente, e com palco, equipamento e luz. Mas vou contar-lhe, meu caro leitor : foi dessa vez, um pouco nas próximas, e logo controlei essa ansiedade. Rapidamente dominei esse nervosismo de subir ao palco. Conheço gente que é veterana, e até hoje sente calafrios para enfrentar o público, mas eu rapidamente dominei isso. Ainda bem, nunca sofri com o temível “Stage Fright” (medo de palco). Para falar do festival : houve a presença de um apresentador, sim. Foi um aluno do terceiro ano, desinibido e falante, com vocação para animador de auditório. O júri foi formado por vários professores. Fomos chamados, e o nervosismo mostrou-se grande. Começamos com "Serena". O retorno estava péssimo, pois mesmo com um equipamento razoável à disposição, o ambiente era o ginásio de esportes do colégio, portanto uma acomodação acústica inóspita para apresentações musicais, somado ao descaso dos técnicos e nossa inexperiência... dessa forma, sentíamo-nos inseguros e "Serena" saiu mais ou menos. Sim, o apresentador interveio novamente, e anunciou a próxima música, que foi : "Revirada". Como ela começava com o Wilton Rentero sozinho, a executar uma introdução bem nordestina (sob uma "pegada" ao estilo de Pepeu Gomes), imediatamente despertou a atenção do público, que aplaudiu, e isso deu-nos maior confiança. Depois, quando veio a parte Rock'n Roll, que animou ainda mais. O público apreciou. Teve aplausos e assovios. E nós saímos contentes por termos tido essa boa receptividade. Havia cerca de trezentas pessoas presentes. Claro, nossos familiares estavam presentes e confesso que foi estranho tocar perante meus pais, mas como tinha um contingente grande na plateia, procurei não olhar muito para as cadeiras onde eles estavam sentados. E sem nenhum constrangimento, digo que o nível musical dos concorrentes era muito fraco e a única banda que era superior à nossa, foi a do guitarrista conhecido como, "Cri", que já descrevi anteriormente. Saímos a voar do colégio e guardamos os instrumentos em minha casa, pois estava em cima da hora para começar o show do Joe Cocker. Conseguimos classificar as duas músicas para a final, que ocorreu no dia seguinte, 14 de agosto de 1977.
Mas antes de falar disso, preciso contar sobre o show de Joe Cocker, outra aventura Rocker na mesma noite... foi no ginásio da Portuguesa de Desportos. E com aquela atmosfera de anos setenta, maravilhosa, claro. Logo que entramos no ginásio, encontramos um freak, que era conhecido nosso de tantos outros shows. Não lembro-me de seu nome, apenas que era “figura carimbada” em portas de teatros; ginásios & afins. Ele sacou um caderninho de sua bolsa, e ali estava anotado o possível set list do show que ele deduzia que o Cocker cantaria naquela noite.
Tempos românticos onde permitia-se esse exercício de imaginação, pois hoje em dia, bastaria consultar o "Google", e procurar o set list básico da turnê do artista para saber precisamente, quais músicas ouviríamos. Mas, lembro-me que o freak acertou bastante, pois só faltou o blues, "Saint James Infirmary", que ele cravou como certo, mas Cocker não cantou-o. A abertura do show foi da banda de baile, "Placa Luminosa". Tremenda banda, formada por músicos de alto nível, mas que não tinha nada a ver com o público de hippies; freaks & rockers alí presente. Foi um enorme erro da produção, não ter convidado alguma banda de rock autoral, como “Mutantes”, “O Terço”, ou “Rita Lee & Tutti-Frutti”.
Os artistas do Placa Luminosa tocaram covers variados, indo de Funk à MPB (lembro deles a tocar "Meus Caros Amigos", do Chico Buarque). Como resultado, uma tremenda vaia do público.
Então o baixista enervou-se, e ao perder a cabeça, falou ao microfone : -"vocês querem Rock" ? O público aumentou a vaia pela atitude, certamente interpretando-a como um sinal de prepotência, e aí, eles começaram a tocar, "The Ocean", do “Led Zeppelin”. Muito bem tocado por sinal, mas a antipatia estava caracterizada, e saíram dessa forma sob uma vaia incrível. Após esse entrevero, um enorme atraso, que irritou muito, mas eram os primeiros shows internacionais no Brasil, que não tinha a estrutura de hoje em dia. 
Lembro-me do guitarrista argentino, Tony Osanah, a tentar acalmar os ânimos, dizendo ao microfone : -"pessoal, o Cocker já está aí... " com aquele sotaque porteño. Todavia, compensou tudo, quando o Cocker entrou no palco !
Um show matador, do começo ao final, com um Cocker ainda a usar cabelos longos, sob um visual Woodstockeano. Era a tour do LP "Jamaica Say You Will", mas o show foi recheado com clássicos dos primeiros discos. E com Bob Keys no sax e Nicky Hopkins no piano, como convidados especiais. Quando Chris Staiton começou os primeiros acordes de "With a Little Help From my Friends", no órgão Hammond, o ginásio veio abaixo ! Parecia reação de torcedores em estádios de futebol, na hora do gol de seu time, tamanha a euforia gerada. Vale lembrar que em 1977, ainda vivíamos os ecos de Woodstock, fortemente por aqui. Bateu uma emoção forte nessa hora. O coração veio à boca e muita gente chorou de emoção, à minha volta. Como última lembrança, o Cocker era bom de cerveja, pois durante o show, bebeu sozinho um engradado, que ficou à sua disposição, em cima do praticável da bateria. O show do Joe Cocker foi inesquecível, pois ainda tinha o frescor da sua forma Woodstockeana. Era inacreditável estarmos a ver aquele mito do festival e que só conhecíamos pelo filme (e também pelo documentário “Mad Dogs and The Englishmen”), ali, a esgoelar-se no seu vocal dramático. O repertório foi incrível. Cantou seus grandes clássicos e a banda, espetacular.
Quanto ao festival FEMOC, o baterista Fran Sérpico ficou até o final e soube do resultado. Lembro-me que haviam também vários colegas do colégio para avisar-me, à disposição, também.
A nossa reação pelo resultado obtido ? Claro que ficamos eufóricos. Classificamos as duas músicas, e isso foi o máximo para nós, a despeito da concorrência ser tão ruim ou pior, com exceção da banda do "Cri", que tocava melhor que todos, mas que curiosamente não sobrepujou ninguém, também a denotar que o critério do corpo de jurados era baseado em qualquer fator, menos conhecimento musical...

Sobre o fato do Fran Sérpico não ter ido conosco ao show do Joe Cocker, ele não saía muito conosco. Não que não quisesse, mas por ainda ter pouca idade (se eu tinha acabado de completar dezessete, ele devia ter uns quinze para dezesseis anos de idade), e ainda vivia sob a mão pesada dos pais. Então, foram poucas as ocasiões em que foi em shows comigo; Laert, e Wilton. E o Osvaldo também não saía muito. Com relação ao festival, o Fran ligou para o Osvaldo e Wilton, e havia deixado recado na minha casa ainda no sábado, visto que eu morava bem perto do colégio. E o Laert ficou de ligar para o Osvaldo ou Wilton, no dia seguinte. Uma comunicação prosaica em tempos não tão distantes assim pela cronologia, mas jurássicos pela diferença tecnológica, digamos assim.
Às dezesseis horas do domingo, estávamos agrupados e prontos para o soundcheck no colégio. A adrenalina estava a mil por hora. Nossa classificação para a etapa final e a excitação por termos assistido o Joe Cocker na noite anterior, somadas, deixaram-nos eufóricos. Euforia perigosa, por sinal, pois éramos inexperientes e ruins tecnicamente, portanto essa falta de foco poderia atrapalhar-nos e muito. Pois é... poderia atrapalhar de uma forma incisiva, mas pelo contrário, beneficiou-nos, pois entraríamos com uma garra incrível. E chegou a grande hora...
Sem impedimentos, tocamos as nossas duas músicas separadamente, a intercalá-las aos outros concorrentes. Estávamos muito mais seguros agora, e excitados. Portanto, a performance da banda nas duas músicas, foi muito superior. "Serena" não atingiu nenhuma classificação, mas "Revirada" ficou em segundo lugar no Festival. Sinceramente, a despeito de nossa deficiência técnica, creio que merecíamos ter ganhado o festival, pois fomos os mais aplaudidos. A música vencedora era pobre. Foi defendida por três garotas a cantar em uníssono, acompanhadas de um violonista. Era uma canção fraca, “bregamente romântica", cujo refrão dizia: "Porque te amo, e não quero te esquecer..."
Mas era compreensível que vencesse, pois o júri "careta", formado por professores, não daria a vitória à uma banda de cabeludos, a tocar Rock, e com uma letra a contestar a ditadura vigente...
Para compensar, convidaram-nos a fazer um show dois sábados adiante, quando os cinco primeiros colocados tocariam novamente. Isso para nós, foi mais importante do que ganhar o festival. Além de tocarmos "Revirada", novamente, poderíamos fazer um show de trinta minutos. Ficamos eufóricos ! Seria uma grande vitória para uma banda absolutamente iniciante e com quase todos os componentes em fase de aprendizagem musical, ainda muito preliminar.
O troféu que ganhamos com o segundo lugar de "Revirada", no Festival "I Femoc", de 1977, acima em duas fotos

Como prêmio, ganhamos um troféu, que guardo até hoje na minha memorabilia. Nessa final do “FEMOC”, o público foi muito bom. Aproximadamente quinhentas pessoas compareceram ao ginásio de esportes do Colégio Estadual de Segundo Grau Oswaldo Catalano. E no sábado, 27 de agosto de 1977, fizemos o show da festa de entrega de troféus, para um público de aproximadamente duzentas pessoas. Antes de tocarmos, houve um minuto de silêncio pela morte de Elvis Presley...
Tocamos "Mina de Escola"; "Tudo Band"; "O Mundo de Hoje"; "Ah se você soubesse..."; "Consenso Geral", e uma versão livre (e pobre...) de "Meus Caros Amigos", do Chico Buarque.
E claro, "Revirada", a celebrar o nosso segundo lugar. Foi uma vitória e tanto para quem engatinhava na música. Recebemos vários convites para shows de Rock, que nunca realizaram-se, mas adoramos chamar a atenção dessa forma ! 

Em relação ao fato de não termos vencido o festival, mas chamado tanto a atenção, mesmo assim, sim, foi a tal questão da proporcionalidade. Muitas vezes, aquele elogio simplório da professorinha primária pode ter mais impacto na vida de uma pessoa, que uma grande realização obtida na vida adulta. Essa comparação cabe aqui, pois a alegria que sentimos por termos sido aplaudidos, termos ganhado o segundo lugar, e convidados a fazer o show de encerramento, duas semanas depois, foi enorme, em detrimento de coisas realmente maiores que obtive já como adulto e músico profissional.
Fora normal para os padrões de um festival amador, e mal organizado, que privilegiassem uma música "careta" para vencer o festival. Que perdoem-me aquelas garotas, que inclusive eu nem conhecia, e não eram da minha classe, mas a música, e a performance delas foram insípidas. Nem acredito realmente que a questão da ditadura reinante à época fosse o motivo dessa decisão em não conceder-nos o primeiro lugar. A questão ali foi a "caretice" do corpo de jurados, composto por professores do colégio. O único professor mais progressista da escola, foi o professor de português, "seu" Murilo, e ele não era do júri. Dos outros, não poderíamos esperar outra atitude.  

Surgiram dois ou três convites para tocarmos. Um deles foi do pessoal da banda de bailes, "A Gota", que alugou o equipamento para o festival. Mas tudo foi apenas o "blá-blá-blá", no calor da emoção. Depois esses contatos murcharam e nada aconteceu. Para nossa sorte, independente desses convites, tínhamos uma esperança boa para o mês de outubro. E logo mais contarei em detalhes, esse que seria (e foi na verdade), o ápice da carreira do Boca do Céu, sem dúvida. Não recordo-me de "briga" por causa do troféu. Lembro do Laert ter ficado com ele por uns tempos, e depois ele ter ficado definitivamente comigo. Está na minha memorabilia. Acredito até que os jurados deram-nos o segundo lugar para não contrariar o público, que aplaudiu-nos bastante, apesar das inevitáveis torcidas para as outras concorrentes. Sem querer ser chato, mas sendo realista, a música que venceu o festival, era fraca. Pobre na sua estrutura harmônica; cafona; com uma letra romântica, brega, e com interpretação muito sonsa. Nós não éramos bons como gostaríamos de ser, mas pelo menos tínhamos muita força de vontade, ao contrário daquelas meninas caretas, a cantar em uníssono como se estivessem na sala de estar de sua casa, na noite de natal, com o objetivo de encantar os seus avós... e tem mais : não tinha comparação a letra do Laert, com a música delas. Seria como comparar Gilberto Gil em relação a um compositor brega qualquer, daqueles que faziam sucesso no “Clube do Bolinha”. E a questão do troféu, poderia ficar com o Laert ou Wilton. Seria justo, sendo eles os compositores da canção premiada.
Animados por essas vitórias expressivas que a banda obteve no mês de agosto de 1977, inscrevemos músicas no Festival, “FICO”.
Esse festival era concorridíssimo, e tratava-se de um dos principais festivais colegiais de São Paulo, a contar com uma grande estrutura, inclusive tendo suas eliminatórias realizadas no ginásio do Palmeiras; equipamento de alto nível de som e luz; e transmissão na TV, pela Rede Bandeirantes. Inscrevemos nossas músicas com as inevitáveis fitas K7, com registros tosquíssimos de gravação caseira, mas foi o que podíamos fazer pelos nossos parcos recursos. Apesar disso, estávamos muito confiantes de que ao menos uma música classificar-se-ia. Enquanto aguardamos a lista oficial das músicas classificadas, ensaiávamos com afinco, instalados na edícula de minha casa.
E nesse ínterim, ainda em agosto, ao mudar de foco, lembro de ter assistido outra maratona sensacional, desta feita no ginásio da Portuguesa. O elenco da noite tinha “Som Nosso de Cada Dia”, “Mutantes”,”O Terço”, “Gilberto Gil”, “Novos Baianos” e “Hermeto Paschoal”. Uma lembrança incrível dessa maratona na Portuguesa de Desportos, foi no portão de entrada, onde em meio à multidão de cerca de cinco mil hippies, eis que saíram à rua, a conversar calmamente, Gilberto Gil e Paul de Castro, baixista dos Mutantes, naquela ocasião. 
Isso foi tão inusitado, que pegou-nos de surpresa, e foram poucos os caçadores de autógrafos que abordaram-nos, talvez pela estupefação que todos sentimos ao vê-los ao passar por nós, como se nada estivesse a acontecer. Lembro-me de vê-los a entrar em um bar nas proximidades do ginásio da Portuguesa, e pedirem guaraná, para delírio dos freaks que cercavam-me, incluso meus amigos...
E no início de setembro, mais uma aventura Rocker sensacional. Contarei com detalhes, a aventura de ver o “Led Zeppelin” no cinema, na primeira sessão, do primeiro dia de exibição oficial. Não anotei, portanto não tenho a data correta, mas foi no início de setembro de 1977, que o filme "The Song Remains the Same", do Led Zeppelin, estreou enfim no Brasil. Nem preciso descrever a excitação que isso causou-nos, pois além do Led Zeppelin ser uma banda "mega" no nosso imaginário, e campo de influências óbvias, era na prática, a única maneira de vê-los em ação, pois eram raríssimas as imagens do Led a tocar ao vivo, graças à estratégia mão pesada do seu empresário, Peter Grant. Além do mais, como tupiniquins de terceiro mundo, só mesmo os muito abonados, para sair da "Terra Brasilis" e ir ver ao vivo em algum palco de país de primeiro mundo. Sendo parte da maioria esmagadora dos não pertencentes à essa camada seleta, eu e meus amigos só poderíamos ver dessa forma, sob uma tela de cinema. 
Uma semana antes, a distribuidora do filme, em parceria com a gravadora WEA / Atlantic, promoveu uma avant-premiére, com direito a cocktail e reforço de um P.A., dentro de uma sala de cinema, para reproduzir o áudio com potência de show ao vivo. Eu quase arrumei convite para esse evento, pois meu amigo, o baterista, Cido Trindade, tinha um contato forte, que abriu-lhe essa possibilidade. Na hora decisiva, só foi possível obter convite para ele e sua namorada, e infelizmente eu perdi essa oportunidade.
Então, como pobre mortal, contentei-me em assistir a partir da exibição aberta ao público. Foi bem próximo ao feriado de 7 de setembro, provavelmente no dia 8, pois lembro-me bem que foi em uma quinta-feira. De todos os amigos e companheiros da banda, só o Wilton Rentero pôde ir, pois queríamos assistir logo na primeira sessão.
Lembro-me que estava um frio intenso e com leve garoa, o que forçava-nos a andar todos encapotados e certamente mais elegantes e Rockers. Chegamos ao Cine Majestic da Rua Augusta, bem próximo do cruzamento com a Av. Paulista, por volta do meio-dia, para esperar pela sessão das quatorze horas e já havia um freak sentado no chão, perto da bilheteria... e rapidamente vimos a chegar mais hippies; freaks e Rockers pelos dois lados da rua. Vou te contar, meu amigo leitor : que saudade tenho dessa época, com esses ecos woodstockeanos, ainda vívidos. Esse clima de porta de show, era sempre mágico, como se estivéssemos na porta do “Fillmore West”; “Winterland”; “Raibow Theater” de Londres... quando a bilheteria abriu enfim, a fila já era imensa. O rapaz que já estava lá antes de nós, comprou o ingresso, e com ele em mãos, fez pose e recebeu aplausos da massa freak. Fui o segundo e também recebi aplausos...
Esse clima de fraternidade e cumplicidade em um ideal, foi destruído logo a seguir, infelizmente, graças aos ventos do baixo astral que já sopravam em Londres, e com esses simpatizantes dessa causa esdrúxula, a comprometer-se a "destruir" tudo o que amávamos... que bela "atitude"... mas ainda peguei o fim dessa Era Hippie, e sinto-me feliz por ter essas lembranças preciosas em minha memória.
E quanto ao filme, as reações das pessoas na audiência, eram de show ao vivo. Quando o Robert Plant comia um cogumelo, na cena em que "interpreta" um cavaleiro medieval, as pessoas vibravam, soltavam gritos...
A cena do Jimmy Page, como bruxo na montanha, também provocava reações acaloradas. Fora pessoas a cantar e muita gente por não aguentar ficar sentado, e ir dançar pelos corredores, a tocar guitarras imaginárias... era inacreditável estar a ver o Led Zeppelin ao vivo, mesmo que sob uma tela de cinema, e a despeito da performance musical da banda nesse filme não estar cem por cento, honestamente ao analisar. E fui muitas outras vezes assistir, com outras companhias. Lembro-me de ter ido no sábado posterior, por exemplo e desta feita acompanhado do Laert e de uma série de outros amigos e conhecidos dele, Laert, também. Nesse sábado, lembro de ter sentado-me ao lado de uma amiga dele que estava a viajar pelo efeito de "bolas" e essa garota não parou um segundo em contorcer-se durante o filme, com picos de euforia em canções que ela devia gostar mais. E se o leitor prestar bem atenção nos relatos de coisas paralelas à minha banda, verificará que o ano de 1977, foi recheado de eventos muito marcantes, com shows, e efervescência cultural a estourar em outros ramos artísticos, apesar dos ventos de baixo astral que já sopravam na Inglaterra.
Capa do programa do Festival onde o Boca do Céu concorreu em duas eliminatórias, nos dias 7 e 14 de outubro de 1977 

No caso do FICO, tratava-se de um festival particular de um colégio chamado, Objetivo, mas tinha grande estrutura. As eliminatórias eram realizadas no salão de festas do Palmeiras, com cinco mil adolescentes ensandecidos na plateia; palco com P.A. e luz profissional; a presença da orquestra do maestro Záccaro para quem quisesse ter tal apoio e artistas mainstream para fazer os shows, a cada eliminatória etc. Vou esmiuçar a seguir a nossa experiência em tal festival...

Para a nossa alegria total, classificamos duas músicas no Festival FICO. Tocaríamos "Diva" e "O Mundo de Hoje". Havíamos enviado outras músicas, incluso "Revirada", nossa maior aposta, e certamente a mais forte do nosso repertório, mas sabe-se lá por que, as classificadas foram as que citei acima.
O antigo salão de festas do Palmeiras na primeira foto e o maestro Záccaro na segunda foto
 
Fomos tocar com aquele frio na barriga, na primeira eliminatória, dia 7 de outubro de 1977. Lembro-me em chegarmos por volta das quinze horas no Ginásio do Palmeiras, para o soundcheck, e ficarmos deslumbrados com o tamanho do palco; o equipamento, e o tamanho do salão, onde muitos shows de Rock e MPB aconteceram anteriormente, fora os tradicionais bailes de carnaval do clube. Passado o som com toda a rapidez peculiar com a qual os técnicos lidam com artistas desconhecidos, fomos esperar nossa vez para tocar. Foram horas a perambular pelas áreas permitidas dentro do Parque Antárctica, e quando abriram os portões para o público, deu aquela ansiedade, ao vermos aquela massa a entrar e rapidamente a abarrotar o salão. Seguramente, havia cinco mil pessoas presentes. Era um público formado por alunos, com cem por cento de adolescentes dispostos a bagunçar a todo custo. Sabíamos que ao tocarmos bem ou mal, seríamos hostilizados só por conta do bullying natural que representava aquela experiência infanto-juvenil. Antes, assistimos o soundcheck dos artistas mainstream que apresentar-se-iam após os concorrentes. 
Naquela primeira noite, seriam "Os Originais do Samba" e com sua formação clássica, com Mussum, o trapalhão, na formação dos sambistas. Então, quando o festival começou, ficamos naquela expectativa para chegar a nossa vez. E os concorrentes anteriores já haviam sido bem hostilizados... defenderíamos a música "Diva", nessa primeira eliminatória. Era uma canção meio taciturna do Laert, ao sair um pouco de suas características normais de humor, tinha uma letra introspectiva. Ele havia-a composto no piano, certamente inspirado no Milton Nascimento, e a letra era no estilo da MPB, dita "cabeça". Eis os primeiros versos de "Diva" :

"Diva, eu divaguei

Pela imensidão do tão pouco,

Pelo incomensurável... nada"...
O Laert Sarrumor cantou-a a tocar um piano, “Fender Rhodes 88”, lindíssimo, e seu sonho de consumo. Mas haviam dois aspectos a ser considerados :

1) Ele era iniciante no piano, não tinha grande desenvoltura, e...

2) Apesar de sonhar em ter um piano elétrico, Fender Rhodes, ele nunca havia tocado em um instrumento desses. Quem é tecladista, sabe que a tensão das teclas de um piano elétrico é muito mais sutil que a de um piano acústico tradicional. Então, ele estranhou demais na passagem de som, e sabia que estaria em uma situação difícil na hora de tocar para valer, e ainda com a incumbência de cantar e interpretar a canção que defenderíamos, o melhor possível.
Quantos aos demais, o arranjo para cada um era simples. O Osvaldo Vicino estava seguro ao fazer a base harmônica, Wilton Rentero faria contra / solos e desenhos para ornamentar a canção e eu e Fran Sérpico, faríamos uma cozinha bem simples, sem voos, mesmo porque, não sabíamos voar naquela época. Mas, a hostilidade era imensa por parte do público. Poderiam subir os Beatles ali, e seriam maltratados, pois essa era a determinação daquela horda de vândalos, como torcida uniformizada de futebol. Entramos no palco, e sob vaias e insultos, voaram diversos objetos inusitados. 
Uma moeda de CR$ 0,50 (para quem lembra-se dessas moedas de centavos de cruzeiros, dos anos setenta, há de recordar-se que eram enormes e pesadas), bateu na lente direita dos óculos do Laert e rachou-a. Dependendo de onde batesse, poderia gerar um hematoma de certa gravidade, pois tinha a massa de uma pedra, e com a deslocação aérea, ficava ainda mais pesada no impacto. O Laert assustou-se, é claro, mas fingiu naturalidade. Ao tirar os óculos para examinar o estrago, vi adolescentes rindo da situação, logo nas primeiras filas. Que babacas...
Ele estranhou muito o piano. De fato, ele martelava as teclas com a força típica de quem toca piano tradicional, mas no piano elétrico, a tensão das teclas é muito mais leve. Piano elétrico precisa ser tocado com menos força, e isso faz muita diferença na execução. Soma-se isso ao fato de que não era um grande pianista, e claro, estava nervoso, como todos nós, pela grandeza do evento em contraste com a sua / nossa, inexperiência naquele momento. Claro que a violência atrapalhou. Se fosse um público respeitoso, teria amenizado bastante a nossa performance. Mas se é que existe um lado bom (e eu acho que sim), é nesse tipo de situação que cresce-se, como em um batismo de fogo. Sim, a complementar o raciocínio anterior, claro que isso contribuiu para o crescimento da banda enquanto unidade. Certamente isso colaborou para amenizar a tensão em relação à segunda apresentação, uma semana depois.
De volta ao fato em si, o Wilton Rentero passou a ironizar os garotos hostis do público, ao deixá-los, possessos. Uma chuva de aviõezinhos de papel cobriu-o, que a rir, continuava a tocar...
Não tocamos mal, mas estávamos nervosos, claro. Pois além do nervosismo normal pela grandiosidade do Festival, em comparação à nossa insípida condição como banda iniciante, havia toda essa hostilidade. 
Sabíamos que a hostilidade era para com todos os concorrentes, sendo uma praxe, mas era o tal negócio : como reagiria qualquer imbecil daqueles que xingavam e arremessavam objetos, se tivesse que subir ao palco e tocar ? É fácil ficar lá embaixo a xingar...
Páginas internas do programa do Festival Fico, em sua sexta edição de 1977, e com fotos reais da plateia que enfrentamos na primeira eliminatória
 
E outra coisa, se tivéssemos tocado qualquer outra música mais movimentada do nosso repertório, teria sido mais fácil. Mas "Diva", era uma música introspectiva, difícil para ser tocada sob uma circunstância daquelas. Ao final, fomos desclassificados, resignamo-nos com a questão da hostilidade, e apesar de tudo, estávamos contentes, pois tocáramos em um palco com P.A. e luz de gente grande, para um público imenso para os nossos padrões de banda de garagem, e a TV Bandeirantes filmou tudo, a exibir uma semana depois. 

E como curiosidade, lembro-me de passarmos pelos "Originais do Samba" um pouco antes deles subirem ao palco para o seu show e o Mussum (ele mesmo, o "Trapalhão", que era componente da banda, também), brincar conosco, ao dizer-nos alguma coisa como : -"hei rockeiros, paz e amor" ou alguma bobagem / clichê do gênero. Não ficamos tristes, com nossa desclassificação, como já disse, pois ainda participaríamos da segunda eliminatória, ao defendermos uma outra música, chamada, "O Mundo de Hoje". Não víamos os jurados. Eles ficavam em uma bancada, bem longe da balburdia, e analisavam os concorrentes pelos monitores da TV Bandeirantes, que estava a gravar a eliminatória do Festival. Acredito que até dessem-se ao luxo de assistir replay, disponibilizado pelos técnicos da TV.
Nunca mais tive receio de subir ao palco depois disso. E a rigor, foi  só o meu quinto show na vida... bem, a sensação foi um misto de preocupação pela responsabilidade da apresentação, com alegria em estar sob uma situação de grande porte, ao menos na minha percepção daquela época. Havia uma boa dose de receio pela hostilidade inevitável vinda daquela horda de vândalos imberbes, também. Mas sinceramente, a sensação em estar sobre um palco grande, com P.A. e luz; equipamentos bacanas e cinco mil pessoas a olhar-te, fora as câmeras de TV, foi de uma grande realização pessoal. O Laert usou um piano elétrico, Fender Rhodes; o Fran tocou em uma bateria Ludwig, perolada e igual à do Ian Paice; e eu; Osvaldo, e Wilton, usamos amplificadores Duo Vox. Era muita coisa para uma banda formada por garotos inexperientes e com pouco técnica, com exceção do Wilton que estava alguns passos adiante de nós na musicalidade, e o Laert que era tão inexperiente quanto os demais, mas tinha a genialidade nata a seu favor. 
E chegou a segunda eliminatória. Iríamos defender nessa segunda participação, a música, "O Mundo de Hoje". Tratava-se de um blues, e curiosamente era uma ideia dos primórdios da banda, anterior à entrada do Laert, portanto de uma época que só o Osvaldo Vicino sabia tocar alguma coisa. É bem verdade que o Laert deu uma melhorada na letra, e também na melodia original, ao ficar então com crédito de autor, também. Estávamos bem confiantes e de certa forma vacinados contra a selvageria juvenil dos vândalos do FICO. Na segunda eliminatória, defenderíamos uma música um pouco mais adequada à execução perante um grande e bem ruidoso público, naturalmente. Mas não foi o ideal, pois tratou-se de um blues tradicional, com estrutura harmônica convencional, e sem nenhum grande atrativo impactante. "Revirada", nossa música mais forte, nem classificara-se. Talvez tenha sido desaprovada pelos jurados na filtragem geral, pelo teor da letra. Sendo o Fico um festival sob maior envergadura, e transmitido pela TV, não convinha deixar alguém abordar algo mais incisivo, nesse momento político muito difícil. Nunca é demais lembrar que naquela mesma época, a repressão da ditadura atacou violentamente os estudantes, em uma invasão ao campus da PUC.  

Tocamos e não fomos mal. Sem ter que tocar piano, Laert movimentou-se livremente como vocalista e frontman, mas a música não ajudava, no sentido de ser um blues. Não classificamo-nos novamente, mas ficou a sensação de dever cumprido, e a animação de sentir que a banda crescia. Agora, tínhamos a expectativa de ver a filmagem passar na TV. Seria a primeira vez que estaria a aparecer na TV, tocar, e claro que foi um marco. Naquela noite, o show de artista consagrado daquela segunda eliminatória, foi duplo. O trio vocal brega, "Harmony Cats" (formado por Gretchen; Sula Miranda e uma outra irmã das duas), e a seguir : "As Frenéticas", que estavam a explodir na mídia, naquele momento.
A banda das Frenéticas, tinha alguns componentes d’O Peso, uma banda setentista do Rock brasileiro, muito boa, o que conferiu ao show, elementos rockers na execução, a atenuar a "Disco Music" delas. Desclassificados, mas animados com a oportunidade para participarmos de um festival com maior porte, aguardávamos então com muita expectativa a exibição das eliminatórias do FICO, na TV Bandeirantes. Isso aconteceu duas semanas depois. De fato, foi a primeira vez que aparecemos na TV. Primeira e última, é bem verdade, pois o Boca do Céu nunca teve grandes oportunidades, e posso afirmar sem pudor que foi melhor assim, porque a banda era realmente muito iniciante.
Após essas participações no Fico, ainda ficaríamos um bom tempo a procurar novas oportunidades em festivais, e shows de pequeno porte em apresentações colegiais. Mas o ano estava por acabar, e a perspectiva seria mesmo para o ano de 1978. Claro que estávamos a evoluir musicalmente, mas como não éramos punks, nossa mentalidade era a de tocar um milhão de vezes mais do que tocávamos na nossa realidade ali naquele instante. Talvez se tivéssemos empolgado-nos com a "revolução pusilânime", seríamos mais felizes, ao usar a nossa ruindade musical como trunfo... calma ! Estou só a brincar... cartesianamente, ainda acho que luxo é luxo e lixo é lixo. Não compactuo com aquela inversão de valores, superestimada...
Vimos então a exibição na TV, e mesmo inebriados pelo glamour de vermo-nos na tela, tivemos o senso crítico para analisar nossos erros. Em "Diva", estávamos visivelmente nervosos com a reação selvagem da plateia, e em "O Mundo de Hoje", o som da mixagem da TV estava muito ruim. Além do mais, a música não era mesmo adequada para um festival.
Mesmo animados, enfrentamos problemas nos dois últimos meses de 1977. O Wilton Rentero passava por fase de pressões familiares e teve que arrumar um emprego "careta", onde inevitavelmente, precisou aparar o cabelo etc e tal. Osvaldo Vicino estava a começar um processo para afastar-se sutilmente, por interessar-se em coisas extra / Rock, que só perceberíamos claramente no ano de 1978, e o Fran Sérpico, que era mesmo o menos interessado desde o começo, também preferia desmarcar ensaios, entretido em seus estudos ou em prol de compromissos sociais. Em suma, paradoxalmente à animação Pós-FICO, tínhamos uma perspectiva estranha a pairar no ar...

Continua...

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