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domingo, 25 de janeiro de 2015

Boca do Céu - Capítulo 4 - Vivendo o Fim do Sonho Hippie




A amizade com o Wilton Rentero foi instantânea, e logo, eu; Laert, e ele, passamos a frequentar juntos o mesmo circuito freak da cidade. Shows; cinema; teatro, e exposições, e lá estávamos nós na porta, visual de hippies, e aquela euforia por estarmos envolvidos naquela atmosfera setentista maravilhosa. E nem desconfiávamos que estávamos no "final da feira", com aquela “vibe” indo para o ralo... mas aí é outra história. Um exemplo vívido disso que acabei de dizer no trecho anterior, ocorreu por exemplo no dia seguinte ao nosso primeiro show, quando fomos ao Teatro Municipal de São Paulo, assistir o show "Mutantes / O Terço tocam Beatles". 
Atmosfera mágica de anos setenta; aquele perfume de patchouli; todo mundo vestido de hippie chic; cabeludo; e com aquela esperança utópica de estar transformando o mundo cinzento com a força do amor...

Toda essa atmosfera “Woodstockiana” que chegara atrasada ao Brasil, alimentava os sonhos do Boca do Céu, e certamente era fator de incentivo na nossa trajetória. Sem esse clima, não teríamos tido tanta força de vontade, não tenho dúvida disso.
E no ano de 1977, o Brasil dava seus primeiros passos tímidos em direção aos shows internacionais. Após shows sazonais de Santana; Herman Hermit's; Jackson Five; Steve Wonder; Ray Charles; Ravi Shankar e Alice Cooper... mas creio que após o Rick Wakeman em 1975, a perspectiva começou a tornar-se mais concreta e nesse ano de 1977, tivemos duas surpresas agradabilíssimas desse porte internacional, e que tiveram suma importância no fator motivacional do Boca do Céu. Comentarei no decorrer da cronologia dos fatos. Em 1977, a cidade de São Paulo fervilhava de shows. Essa dinâmica vinha desde antes, pois em 1976, houveram várias maratonas de Rock que prosseguiram em 1977, por exemplo.


Foi em alguma noite de maio de 1977, cujo dia correto, não recordo-me, que eu; Wilton Rentero e Laert Sarrumor fomos ao Tuca (Teatro da Universidade Católica - PUC ), para assistirmos um show dos Novos Baianos. O show foi eletrizante do primeiro ao último segundo, como era a praxe daquela banda sensacional. Na primeira parte, eles tocavam os temas mais acústicos com ritmos brasileiros e na segunda parte, ficava só a sessão elétrica no palco, a que chamavam de "A Cor do Som". Era como se fosse uma banda dentro da outra, mas logo a seguir, o ex-baixista dos Novos Baianos, Dadi, acabou usando o nome para fundar outra banda com o mesmo nome e a história todo mundo conhece. Nessa hora, a veia Rocker deles explodia, literalmente, pois Pepeu; Jorginho, e Didi, três irmãos, simplesmente destruíam seus instrumentos para humilhar rockers radicais, que desdenhavam dos Novos Baianos por conta de não serem cem por cento Rock'n'Roll (supostamente), e terem esse lado brasileiro bem acentuado. 
Lembro que o Wilton Rentero conseguiu a palheta do Pepeu na última música e o quanto ficou eufórico por essa conquista. Aí o Laert Sarrumor tinha que ir embora, e eu e Wilton Rentero resolvemos ludibriar os seguranças do teatro, e tentar assim ficarmos para assistir a sessão maldita, gratuitamente. Naquela época, eram comuns as sessões duplas de shows de Rock, com o primeiro show às nove da noite e a segunda sessão à meia-noite, daí a alcunha: "Sessão Maldita". Conseguimos burlar a segurança, subindo ao palco e fingindo estarmos pedindo autógrafos dos componentes dos Novos Baianos, e quando surgiu uma brecha, entramos coxia adentro, e escondemo-nos nos camarins do Tuca. 
Foi uma experiência lúdica, pois o Paulinho Boca de Cantor e a Baby Consuelo ao invés de ficarem bravos com a nossa invasão, solidarizaram-se e acobertaram-nos, deixando-nos no camarim, sob a instrução de voltarmos à plateia, assim que o show da meia-noite estivesse para começar. Lembro da Baby brincando conosco, daquele seu jeito despachado e dizendo alguma coisa do tipo: -"Olha os dois malucos aí, estão assustados... relaxa aí, bicho, pode ficar aí numa boa, e assistir a sessão maldita..."


Estávamos de fato assustados por estarmos burlando a segurança do teatro, mas muito mais, na verdade, emocionados por estarmos nos camarins dos Novos Baianos, vendo-os pessoalmente num momento pós-show, e preparando-se para o segundo show; a movimentação dos roadies e técnicos fazendo reparos, e checando o equipamento etc. Aquilo era por demais lúdico para dois moleques sonhadores de 17 anos. Então, pouco antes de abrirem as portas para o público da sessão maldita, um roadie conduziu-nos à plateia, e assistimos novamente aquele petardo chamado "Novos Baianos"...


Na saída, por volta das duas horas da manhã, não tínhamos outra alternativa a não ser descer a Rua Monte Alegre, até a Av. General Olímpio da Silveira, e esperar um ônibus para a zona leste, onde eu morava no Tatuapé, e ele, Wilton Rentero, em Engenheiro Goulart, adiante da Penha. Mas não éramos somente nós... haviam nesse comboio, pelo menos uns cem freaks que tinham o mesmo objetivo. Chegando ao ponto, enquanto esperávamos a linha Penha / Lapa, eis que surge um pequeno comboio de viaturas da polícia militar. Com a truculência que era-lhes peculiar naqueles tempos de ditadura, chegaram enquadrando todo mundo. Fomos revistados; humilhados e os que portavam drogas, apanharam muito. E naqueles tempos de AI-5, eles poderiam mesmo fazer isso a seu bel-prazer. O sargentão parecia alucinado, e queria colocar todo mundo dentro de um ônibus e prender. Mas por uma sorte inesperada, resolveu enquadrar só os que portavam drogas (ao meu lado, havia um hippie desconhecido e que estava com pelo menos trinta comprimidos de “Mandrix” em sua bolsa, tratando-se de uma droga popular na época). 
Então, após um sermão moralista de ultra direita, exortando-nos a tomar cuidado; cortar o cabelo; e pensarmos em "Deus; família, e Brasil", deixou-nos em paz, finalmente. Foi uma experiência de uns trinta minutos, mas que pareceram horas...

Essa foto acima é o mais remoto registro fotográfico da minha carreira na música. Trata-se da formação em quinteto do Boca do Céu, quando o guitarrista Wilton Rentero entrou para a banda, aproximadamente em março de 1977. Não tenho a data exata da foto, mas pelos trajes leves, deduzo ser ainda de março, mais tardar abril de 1977. Foi clicada no corredor lateral de minha casa na época, que dava acesso independente à edícula onde realizávamos nossos ensaios, nessa fase da banda. Da esquerda para a direita : Laert "Sarrumor" Julio (voz e teclados); Fran Sérpico (bateria); Wilton Rentero (guitarra); Osvaldo Vicino (guitarra e voz) e eu, Luiz Domingues (baixo). A camiseta do Laert e a minha, foram pintadas manualmente por ele. Na dele, tem uma ilustração de seu próprio rosto, e na minha, apesar de pouco visível na foto, trata-se do logotipo da banda britânica, Rainbow. Apoiado nas minhas pernas, está o meu primeiro baixo, que já citei anteriormente nesta autobiografia. Era um baixo "handmade", imitação de Hofner.

Apesar desse baixo astral em ter tido contato direto com a repressão da ditadura, aquele período foi um dos mais luzidios que tive culturalmente. Aliado à euforia de ver a minha banda crescendo, embora aos olhos de hoje, é claro que eu considero as limitações artísticas que tínhamos, foi também uma época onde fui ver dúzias de shows; cinema; teatro; exposições e palestras, as mais variadas. Quando não era com o pessoal da banda, eram outros amigos ou com meus primos. 


Fora as inúmeras vezes em que ajudei o Laert a vender a sua revista "Sarrumorjovem", em lugares “descolados” da cidade. Lembro-me que nesse mesmo mês em que vi os Novos Baianos no Tuca (em duas sessões), ter visto também uma sensacional maratona no Sesc Vila Nova, no Teatro Pixinguinha. Nessa noite, assisti “Jorge Mautner”; “Made in Brazil”; “Bendengó”; “Papa Poluição”; “Flying Banana”, e “Hermeto Paschoal”.

Num outro sábado, maratona de Rock no ginásio da Portuguesa de Desportos, com “Mutantes”; “O Terço; “Made in Brazil”; “Sindicato”; “Novos Baianos”; “Joelho de Porco”...


Mas foi no final de maio, que enlouquecemos de vez. Um gigante do Rock aportava na terra tupiniquim : “Genesis”... era a tour do disco "Wind and Wuthering", lançado em 1976, e o segundo trabalho sem o mítico vocalista Peter Gabriel. Apesar da desconfiança inicial em torno do fato do baterista Phil Collins ter assumido o vocal solo da banda, essa continuidade do Genesis pós-Gabriel estava aprovada, pois o Collins deu conta do recado, pelo que apuramos ao ouvir os dois discos recém lançados. E nessa fase, a orientação da banda ainda era o Prog Rock que consagrara-a. Perdeu com a falta da teatralização toda do Peter Gabriel, mas o Collins revelou-se não só um excelente vocalista, mas também um frontman desinibido e muito carismático. 
Eu; Wilton Rentero; Osvaldo Vicino e Laert Sarrumor fomos ao Ginásio do Ibirapuera na noite do dia 20 de maio de 1977. Já havia assistido o show de Rick Wakeman em 1975, mas o Genesis foi demais. Ouvir "Supper's Ready" ao vivo no alto de seus gloriosos vinte e três minutos de duração, foi um “desbunde”. Quando chegou naquele trecho em que canta-se "Flower", duas flores infláveis imensas surgiram nas laterais do palco. E "desbundes" assim, só davam-me mais ânimo para sonhar com o Boca do Céu crescendo...

Lembro-me que apesar do frio de rachar, fui ostentando orgulhosamente uma camiseta que o Laert desenhara para mim, manualmente, com a capa do LP "Rising", do “Rainbow”.

Assistimos na arquibancada, como pobres mortais, mas víamos na ala vip, Rita Lee e membros do Tutti-Frutti, o Jet Set do Rock Brasuca...outra lembrança incrível : foi o primeiro show de Rock no Brasil com um artista internacional a usar raio laser, como efeito especial. 
Nesse vídeo acima, um trecho filmado numa velha filmadora "Super-8", contendo uma música do show do Genesis no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.
Esse é o link para assistir no You Tube :

E acima, o áudio do show de 21 de maio de 1977 no Ginásio do Ibirapuera de São Paulo, que um abnegado fã gravou e com boa qualidade. Bem bacana o Phill Collins esforçando-se para falar em português com o publico e a constatação que a banda vivia grande fase, com o som redondo, apesar dos ventos serem tenebrosos para o Rock Progressivo em 1977, mas aqui no Brasil nós nem percebíamos isso, naquele instante... ainda bem...  

O link para ouvir esse show do Genesis em São Paulo, na íntegra :
https://www.youtube.com/watch?v=HfiWwN7TRPo 

Quando os raios foram acionados, o público teve uma reação de “Jeca Tatu”, soltando em uníssono um "OOOOHHH", que foi engraçado, por exacerbar o nosso terceiro-mundismo envolto no atraso...

A banda só cometeu uma falha, mas na verdade quem errou feio o público "brazuca" com seu fanatismo despropositado. Quando voltaram para o bis, estavam todos usando camisetas do Santos FC. O raciocínio dos britânicos deve ter sido : qual é o time do Pelé ? Deve ser o mais popular, certamente... não contavam com a reação de repulsa dos corintianos; palmeirenses, e sãopaulinos na plateia...

Uma vaia mastodôntica deixou-os atordoados e rapidamente voltaram ao camarim para retornar então com as camisas amarelas da seleção brasileira... mais um atestado de “caipirice” que assinamos... mas alheios às nossas reações prosaicas, foi um grande show deles !

Uma das melhores lembranças de 1977, sem dúvida. Considerávamos todos os shows como um curso universitário para as nossas pretensões... observávamos cada detalhe, da organização do show à performance da banda. Ficávamos atentos ao som; a movimentação dos técnicos; luz; cenário; equipamento, efeitos... conversávamos o tempo todo sobre cada detalhe e constantemente o Laert emitia um boletim manuscrito, que líamos com atenção. Neles, escrevia minuciosamente todos os aspectos relativos à produção da banda. Esse boletim agradava-me muito, pois eu pensava igual à ele nesse aspecto. Sou adepto da organização; método, e foco no trabalho, com planejamento. 
E através desses boletins, organizávamo-nos da melhor maneira possível mas claro, dentro de nossas limitações.

Apesar dessa euforia toda pela profusão de coisas que vivenciávamos à época, incluso os progressos da banda, havia um ponto de preocupação. O baterista Fran Sérpico demonstrava ser o músico da banda que menos evoluía em comparação aos demais e era um claro reflexo de seu menor entusiasmo. 
Tal fator preocupava-nos, pois estávamos dando o máximo de nós, e ele parecia não ter o mesmo “gás”, disposição. Mas enfim, sempre acabávamos relevando, atribuindo à fatores escolares e/ou familiares. Sim, porque na idade em que estávamos, essas questões norteavam o nosso livre arbítrio, ou falta de, na verdade. Com exceção do Laert que já caminhava para os seus dezoito anos de idade, todos nós estávamos sujeitos às amarras familiares, e a banda corria riscos de perder membros, em casos de mudança de humor de nossos respectivos progenitores...

Mas, chegamos à conclusão de que no caso do Fran Sérpico, não havia esse tipo de impedimento, mas sim uma certa apatia pessoal da parte dele. Talvez apatia seja uma palavra muito forte. Digamos que o entusiasmo dele tinha uma graduação menor em relação aos outros quatro. Dessa forma, convocamos o Osvaldo Vicino para conversar de forma reservada com Fran, que era seu primo e assim, esclarecer o seu posicionamento.


Outro fato ocorrido nesse mês de maio, foi que o Wilton Rentero mostrou-nos um som de viola, com nítida influência nordestina, que havia composto. Na época, o Alceu Valença fazia sucesso com seu disco ao vivo, que convenhamos, era visceral e com “pegada de Rock”, visto que sua banda era praticamente o "Ave Sangria" inteiro, uma ótima banda nordestina de Hard-Rock, que era um tanto quanto obscura no sudeste / sul, mas que Rockers mais antenados, conheciam e apreciavam.

Infelizmente, o Osvaldo e o Fran rejeitaram essa sonoridade, por radicalismos, mas numa votação, eu e Laert apoiamos o Wilton. Desse riff de baião inicial, surgiu "Revirada", uma música de letra forte do Laert, atacando a ditadura, ainda que com os devidos disfarces metafóricos que havia aprendido a usar com Chico Buarque, principalmente. 
E com uma parte B, bem Rock'n Roll, composta posteriormente pelo Laert, acabaria tornando-se nosso maior trunfo no repertório, nos meses seguintes. Essa rejeição do riff nordestino, era fruto do radicalismo juvenil de Osvaldo e Fran. Não recrimino-os de forma alguma, pois haviam muitos rockers que eram radicais nesse sentido, durante os anos setenta. Era coisa de garotos que éramos em 1977, e no caso deles, por terem seu espectro de gostos musicais mais fechados, do que os demais. Eu era mais aberto, pois apreciava a MPB, via Caetano; Gil; Novos Baianos, entre outros, e portanto, estava mais acostumado à essa sonoridade.
Mas essa pequena crise logo dissipou-se, pois a música ficou muito boa. De certa forma, é a mesma fórmula que o Pedra seguiria em 2010, quando lançou "Queimada das Larvas nos Campos Sem Fim", onde existe uma parte “A”, bem calcada na sonoridade nordestina, e uma “B”, contrastando, com nítida pegada de Hard-Rock setentista. Além do mais, "Revirada" tornou-se rapidamente no nosso carro chefe, muito importante em festivais que participaríamos logo a seguir. 
Sim, considerando que era uma banda criada com músicos que estavam na verdade aprendendo a tocar, dá para louvar-se essa característica de diversidade, que atingiu em apenas um ano.


Claro, haviam desníveis. No início, só o Osvaldo sabia tocar um pouquinho e os demais eram estaca zero. Com a entrada do Laert, deu-se um salto de qualidade, com ele trazendo composições muito avançadas para o nosso nível baixíssimo de musicalidade. Isso fez-nos crescer, evidentemente.

E com a entrada do Wilton Rentero, que fazia aulas de violão clássico, o nível subiu ainda mais, puxando a banda para a frente. A questão da diversidade foi mérito do Laert, que enxergava na frente, sem dúvida. 
O gás era total nessa época, e foi assim com determinação e obstinação por anos a fio. Sempre esforcei-me para manter intacta essa energia nutrida nessa época, pois era a minha força motriz. 
Meus pais não tinham a dimensão da importância que eu dava para essa meta nessa época, por isso não tinha conflitos. Como não era rebelde e não cometia nenhuma estripulia juvenil, eles achavam que esse negócio de banda e visual de hippie, era uma fase, e que nos estertores da conclusão do curso colegial, e época de vestibular, tudo passaria. O clima esquentou no entanto com meu pai, só entre 1979 / 1980. Em 1977 e 1978, as pressões eram mínimas, e tive paz de espírito para desenvolver-me ao instrumento e sonhar com o sucesso do Boca do Céu, apesar de que, olhando hoje em dia, a banda só evoluiria para valer, se os cinco membros fossem cem por cento fechados nesse objetivo. Existem exemplos assim na História do Rock. 
Mas o Boca do Céu não tinha essa característica, a começar pelo baterista Fran Sérpico, que não alimentava o mesmo objetivo, Infelizmente. Dessa peneira, só eu e o Laert persistimos mais incisivamente e o Osvaldo de uma maneira mais branda. Wilton Rentero, fiquei sabendo pelo Laert (em maio de 2011), tornou-se professor. Osvaldo toca em bandas cover até hoje, mas como hobby, pois trabalha numa indústria farmacêutica, e Fran Sérpico tornou-se um executivo (nota : retomei contato direto com Fran Sérpico em 2012, através da rede social, Facebook, onde aliás, ele disponibilizou duas fotos raras do Boca do Céu, e fez uma bonita homenagem pública, citando-me e ao Laert com muito carinho, dizendo que tornamo-nos músicos profissionais de fato e seguimos carreira). 
Minha certeza era absoluta e irreversível. O mesmo vale para o Laert. A diferença entre nós é que ele nasceu artista, com um talento absurdo, e eu lutei contra a minha inabilidade para tal. Não quero dizer com isso que o Laert não lutasse, muito pelo contrário, sua determinação era ferrenha. Só realço que no meu caso, precisei lutar também contra a minha inaptidão. Só tornei-me músico porque tive muita força de vontade, visto que tinha talento zero para a música. Se eu tivesse passado por um teste vocacional à época, certamente seria desestimulado a tentar a carreira artística.

Animados com as perspectivas do Boca do Céu, mas cheios de euforia pelos shows que víamos toda semana praticamente, inscrevemos as músicas "Serena" e "Revirada" no Festival do colégio estadual, onde eu estava cursando o primeiro ano colegial, chamado Escola Estadual de 2° Grau Oswaldo Catalano, no Tatuapé, bairro da zona leste de São Paulo, onde fui morar no início de 1977. O Festival estudantil chamava-se "Femoc" (Festival de Música Oswaldo Catalano). Desta vez, ao contrário do festival "Fimp", onde mandamos um material muito mal produzido, caprichamos um pouco mais, e agora reforçados pelo Wilton, o som estava mais encorpado e com solos mais técnicos.


No mês de junho de 1977, o namorado da irmã do Osvaldo Vicino (Beth Vicino), chamado Nelson Gravalos, propôs-nos uma filmagem. Munido de uma câmera Super 8, ofereceu-se para filmar uma apresentação nossa. Como não tínhamos nada em vista e só a possibilidade de classificarmo-nos para o festival do meu colégio em agosto, nós marcamos uma filmagem na casa do baterista, Fran Sérpico.

Nesse dia da filmagem no quintal, Brasil e Alemanha fizeram amistoso no Maracanã (terminou com empate em 1x1). Enquanto arrumávamos o equipamento, víamos o jogo de soslaio...
 
Então, no dia 12 de junho de 1977, montamos o nosso simplório equipamento no quintal da casa, e tocamos algumas músicas. Depois ele filmou-nos em cenas casuais, conversando e andando a esmo pelo quintal. Essa filmagem ocorreu exatamente quatro meses depois de nosso primeiro show, no mesmo "palco". Em dezembro de 2016, o Fran Sérpico deu-nos de presente de natal a digitalização desse material. Em princípio, tem uma trilha sonora internacional (Van Halen), só para cobrir a lacuna, pois não tem áudio nesse vídeo. Mas logo some e ficam só as imagens da banda. Incrível, mesmo muito inexperientes, não é que tínhamos uma postura de mise en scené boa ? Uma demonstração enorme da nossa vontade que era imensa. Único registro em vídeo e histórico do Boca do Céu !!



Eis abaixo o Link para assistir no You Tube :

 

E abaixo, o link do mesmo vídeo, sem áudio algum, e com ficha técnica mais detalhada, numa produção de Jani Santana Morales, em dezembro de 2016.


Eis o Link para assistir no You Tube :



O Colégio Estadual de Segundo Grau Osvaldo Catalano, localizado no Tatuapé, zona leste de São Paulo, onde eu estudava em 1977, cursando o primeiro ano do 2° grau (colegial). E onde o Boca do Céu classificou-se para tocar no festival "Femoc".

E ainda no final de junho de 1977, tivemos uma boa surpresa: nossa música "Revirada", havia classificado-se para o festival do meu colégio. A eliminatória seria no dia 13 de agosto de 1977, e esse passou a ser o nosso maior objetivo então. Passamos a ensaiar com afinco nessa meta de apresentarmo-nos o melhor possível, e classificarmo-nos para a final.


Uma resolução também foi tomada nessa época : a família de Fran Sérpico estava cansada de ter seus sábados estragados pelos ensaios do Boca do Céu, e dessa forma, convenci meus pais a tornar a minha residência, o novo "QG" da banda.                                     

Foto clicada na entrada lateral de minha casa no Tatuapé, mais ou menos em março de 1977. O portão ao fundo era o caminho para a rua, e no lado oposto, do fotógrafo, ficava a edícula que virou o QG de ensaios do Boca do Céu. Um mistério : não lembro-me, nem ninguém que estava nessa foto, quem foi o autor do "click"...
 
De fato, nessa casa em que havia mudado-me no início de 1977, tínhamos uma edícula, com entrada separada na sua lateral, e banheiro privativo, portanto, dos males o menor, incomodaria um pouco menos a minha família. Mas a transição foi suave, pois os pais do Fran Sérpico eram pessoas dóceis...estavam cansados daquela rotina perturbadora, mas tiveram paciência para eu confirmar a mudança e dessa forma, ficou combinado passarmos a ensaiar na minha casa a partir de agosto, às vésperas de nossa apresentação no Festival. Nesse ínterim, continuamos ensaiando aos sábados na casa da família Sérpico, e após os ensaios, íamos a shows, cinema e/ou teatro.


Lembro-me de nessa época ter visto grandes filmes no saudoso cine Bijou, o cinema mais freak de São Paulo. Filmes de arte, geralmente de motivação contracultural, e documentários de Rock, passavam toda semana. 
Era uma alegria tomar contato com essa produção áudio-visual em tempos pré-internet, fora o aspecto social de conhecer pessoas “antenadas” nos mesmos ideais. 
Eram dúzias de Freaks que encontrávamos em todos os lugares, do Bijou às portas de shows de Rock. O aroma de Patchouli em todos esses lugares, é uma das referências mais maravilhosas que guardo na lembrança... em maio de 1977, o "Festival Balanço", da TV Bandeirantes de São Paulo, foi outro grande evento rocker que vimos."Balanço" era um programa da TV Bandeirantes de São Paulo, que seguia mais ou menos a linha dos programas "Sábado Som" e "Rock Concert", que foram exibidos na TV Globo. Na primeira metade daquela década (o "Rock Concert" ainda existia em 1977). E para comemorar o aniversário do "Balanço", foi feito um festival ao melhor estilo das maratonas de Rock setentistas, no Teatro Bandeirantes. Lembro-me que fui com o Laert Sarrumor; Wilton Rentero, e vários amigos freaks do meu bairro. 

Chegamos ao Teatro Bandeirantes, ainda sob a luz do dia, e o teatro já estava completamente lotado. Assistimos inicialmente sentados no chão, bem próximos ao palco. Das várias atrações, gostei demais do “Papa Poluição”; “Bendegó”, e “Jorge Mautner”. Entre as atrações mais "leves" da noite.

O Mautner fez um grande show. Era ele, acompanhado apenas do violão de Nelson Jacobina, e vez por outra fazendo pequenos solos de violino, mas os freaks adoravam a sua performance, cheia de energia e estímulos intelectuais em suas falas. O “Som Nosso de Cada Dia” foi impecável. Estavam tocando algumas músicas Prog-Rock tradicionais de seu repertório, e muitos Funks extremamente bem tocados do recém lançado novo disco,"Sábado e Domingo". O “Casa das Máquinas” também fez um show muito energético.

O “Made in Brazil” fez um show legal, bem naquela toada do Rock básico, sem maiores requintes. Lembro de estarmos eu e o Laert bem na frente do Palco e num dado instante, alguém aproveitar-se do fato do vocalista Percy Weiss estar com a boca bem aberta, num momento de esforço vocal, e assim, arremessaram-lhe uma bola de confetes comprimidos, visto que a produção do Made havia jogado do teto, uma chuva desses artefatos anteriormente. Ele ficou furioso, tirou o pedestal de lado e soltou um palavrão, xingando o arremessador fora do alcance do microfone, mas todo mundo ouviu ali na frente, tamanho o berro que ele deu. 
Lembro-me também do baixista Tico Terpins, do “Joelho de Porco”, azucrinando o Oswaldo atrás da coxia, e este, mesmo percebendo a provocação, e não revidar, continuando a tocar, focando em sua performance. 
Além da ótima performance da banda curitibana, “A Chave” . Gostei bastante do som dos rockers paranaenses, que numa primeira impressão, lembrou-me o Hard-Rock do "Budgie". A Chave foi uma das primeiras bandas da noite. E teve também uma banda de Blues-Rock chamada “Bagga's Guru”, onde tocava o futuro baixista da Patrulha do Espaço, Serginho Santana. Mundo pequeno, nem o Serginho imaginaria que seria baixista da Patrulha, poucos anos depois, e muito menos eu, que também seria baixista da Patrulha, vinte e dois anos depois dessa noite no Teatro Bandeirantes. O Joelho de Porco já estava com o argentino Billy Bond (ex-“La Pesada”), no vocal e o Billy foi o mestre de cerimônias da noite. 

Como mestre de cerimônias, o Billy era ótimo, mas seu sotaque porteño incomodou alguns xenófobos idiotas que ironizaram-no, pedindo-lhe para "falar português". Um exagero, pois ele falava bem, só tendo sotaque, o que era compreensível. Ficamos muito perto do palco (tocaram logo após o Made in Brazil), e o Laert que era grande admirador da banda, chamou o Tico várias vezes, que atendia-o fazendo gracinhas cênicas, bem naquela onda de humor que caracterizava-o. Mais uma ironia do destino, apenas cinco anos depois, o Língua de Trapo estaria gravando o seu primeiro disco no estúdio do Tico Terpins...


Outra boa surpresa, foi o show dos “Pholhas”. Aqui cabe explicar melhor. É que o Pholhas, era tradicionalmente um conjunto de bailes que ao aventurar-se no mundo da música autoral, optou por fazer um som pop quase na limite do brega. Lançaram vários trabalhos na primeira metade da década de setenta e o público Rocker desprezava-os por isso. Mas em 1977, resolveram lançar um LP de forte apelo progressivo, e foi o que tocaram no Festival, para tentar ganhar o público Rocker ali presente. Infelizmente, o público era irredutível e radical, pois mesmo vendo / ouvindo os membros tocando um Prog Rock muito competente, hostilizou-os do começo ao final. Nesse momento eu estava no fundo do teatro e via freaks indo embora contrariados e xingando a banda, acusando-os de serem bregas, "tentando" fazer Rock progressivo etc. Uma pena, pois eles tocavam muito bem, e as músicas daquele disco são excelentes. Eu tenho esse disco, e a despeito das letras serem muito fracas, aí sim um fator débil concreto, a parte instrumental e vocal é muito boa.

E assim foi o "Festival Balanço" da TV Bandeirantes. Mais uma maratona Rocker de muitas atrações, naqueles saudosos anos setenta.


Lembro de ter assistido no final de junho, uma peça teatral impactante no teatro do Sesi: a biografia de Noel Rosa, com o ator Ewerton de Castro, numa caracterização incrível. Isso para vocês verem, que não éramos Rockers radicais...

Aquela época, vista hoje em dia com o devido distanciamento histórico, era na verdade o final da feira...

Eu e a maioria das pessoas, não tínhamos essa percepção e vivíamos a euforia hippie de mudar o mundo, muito porque naquela Era pré-internet aberta ao público (já existia a internet, mas circunscrita à poucas universidades americanas e ainda em fase experimental), as mudanças demoravam mais para pulverizar-se. 
Portanto, somado à ditadura, o movimento hippie havia chegado com atraso no Brasil e em 1977, haviam ainda muitos indícios de sua força. Era de fato uma juventude que buscava música de qualidade e ligava a questão da música a outros ramos da arte.

Gostávamos de cinema; teatro; artes plásticas; literatura... eram as tais portas da percepção que buscávamos o tempo todo...


Cabe tocar num assunto diferente, agora : a questão do apelido "Tigueis" que eu ostentava foi da seguinte maneira pela qual iniciou-se : em 1974, eu estava na sétima série, e numa conversa entre amigos da escola, o assunto enveredou-se sobre origens de cada um ali. Ao indagarem-me, respondi que meus avós paternos eram portugueses. Dessa forma, começaram a chamar-me de "português". Daí em diante, sabe-se bem como funciona a cabeça de moleques de treze, quatorze anos, não é ? Começaram as brincadeiras, geralmente fazendo alusão ao fato de eu não ter muita inteligência por conta de ter sangue luso. Daí as corruptelas : "Português" virou "Tigueis", "Tiga" etc. 
Fixou-se em "Tigueis" enfim, e eu fui deixando. Esse apelido causou-me inúmeros aborrecimentos, principalmente quando eu comecei a usá-lo como nome artístico, determinação essa que jamais deveria ter feito. Rompi com isso em 1999, assim que comecei a trabalhar com a Patrulha do Espaço. Sei que gerou estranheza inicialmente, mas fico feliz por ver que hoje, muita gente nem saiba dessa particularidade de minha carreira.



Ainda em junho, assistimos mais um show multifacetado e rodeado de improvisos, no Crusp, um alojamento de estudantes da USP.

Eles sempre promoviam shows para arrecadar fundos e ter um pouco mais de qualidade de vida, visto que geralmente eram estudantes de origem simples e oriundos do interior de São Paulo ou de outros estados. 
O problema é que em 1977, a ditadura ainda rugia forte, e foi numa noite dessas em que assistíamos artistas como “Jorge Mautner”, o grupo de chorinho do bandolinista Isaías, e o “Bendengó” entre outros, que a polícia apareceu para quebrar o astral. Tinha tudo para virar um enquadro geral, com artistas e público indo parar no xilindró, quando por milagre uma mulher de um metro e meio de altura, convenceu os policiais de que ali era uma manifestação cultural inofensiva, e sem conotação política. 
Era uma atriz ainda não super famosa, mas caminhando para tal, chamada Bruna Lombardi. Ela estava ali para declamar seus poemas, que vendia em livretos mimeografados, coisa bem artesanal e hippie ao extremo.



Ainda nesse mês de junho, assistimos mais uma maratona de Rock, desta feita no ginásio do Corinthians. Lembro-me de ter ficado encantado com o som do “Humahuaca”, um grupo de Jazz-Rock afiadíssimo, onde tocavam três ex-músicos de apoio dos “Secos e Molhados” : Willie Verdarguer; John Flavin, e Emílio Carrera.
Dudu Chermont em dois momentos : nos anos 1970, com a Patrulha do Espaço, e tocando com sua ex-banda em 2003, pouco antes de falecer. Dá para ver o braço do meu baixo, na foto de 2003. 
                 

E vi também a nova banda do ex-vocalista do Made in Brazil, Cornélius "Lúcifer", chamada “Santa Fé”, onde um guitarrista muito jovem chamava a atenção, chamado Dudu Chermont, futuro Patrulha do Espaço. Num mundo que dá muitas voltas, jamais imaginaria que no longínquo ano futuro de 1999, eu seria um membro da Patrulha do Espaço, e o Dudu como ex-membro, faria algumas “canjas” em nossos shows. Pior ainda, como poderia imaginar em 1977, sentado numa arquibancada de um ginásio de esportes, e vendo-o tocar, que estaria lamentavelmente no seu velório e enterro em 2003 ?


As visitas ao cine Bijou continuavam frequentes. “Mad Dogs and the English Man”; “Janis” (famoso documentário cobrindo a vida e obra de Janis Joplin); “Monterey Pop Festival'1967”... só petardos, sem contar filmes de Werner Herzog; Dario Argento etc...Assistimos “Fearless With Vampires” do Roman Polanski, imaginando como a “família” de Mason pôde matar Sharon Tate; A cinebiografia do astro Folk, Woody Guthrie e por aí aproveitávamos ao máximo a sua programação...



Em julho, surgiu a ideia de ficarmos uma semana numa casa de praia da família Vicino. Seria a nossa primeira aventura intermunicipal como banda...

E assim, tiramos uma semana para essa viagem recreativa. A casa de praia da família Vicino foi-nos cedida, e ali ficamos por uma semana. Isso ocorreu na cidade de Itanhaém, litoral sul do estado de São Paulo. Só o Wilton Rentero não pôde ir nessa viagem, mas o quarteto esteve presente. 
Foto da viagem que o Boca do Céu fez à Itanhaém, no litoral sul de São Paulo, em julho de 1977.

E com dois violões, pudemos trabalhar mais músicas. A despeito de eu não gostar de praia (é nítido, até pela foto do Boca do Céu na praia, pois sou o único vestido formalmente, num ambiente praiano, foto essa disponível nos meus Blogs dois e três...), apreciei muito a viagem, claro, pois representava uma semana com minha banda, como se estivéssemos numa turnê. Era algo lúdico que estimulava a imaginação. Sentia-me como se estivesse num episódio da série “The Monkees”.

Vista da cidade de Itanhaém, no litoral do estado de São Paulo

Naturalmente tocamos muito, principalmente pelas madrugadas, na praia, com um céu incrivelmente estrelado e inspirador, mas apesar desse exercício todo, isso pouco acrescentou tecnicamente à banda, pois nós éramos muito fracos. Eu e Fran Sérpico ainda mais que os demais. Mas no cômputo geral, foi muito agradável. Rimos e conversamos bastante. Lembro de fazermos caminhadas por algumas trilhas. Itanhaém era uma cidade litorânea pequena, diferente de Santos que tem porte de cidade grande. Hoje em dia, cresceu demais como outras cidades vizinhas. Creio não haver mais no litoral paulista cidades pacatas com caiçaras e pescadores. A especulação imobiliária tratou de acabar com esse bucolismo remoto. 
Levamos também um aparelho de som, e muitas fitas K7. O Rock embalou nossa estada naquela casa, naqueles dias de julho de 1977...

Continua...

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