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segunda-feira, 13 de junho de 2016

1966, Já Dava para Sentir o Clima de Magia dos Sixties... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues


Muitas coisas acontecendo, efervescência dos "sixties" agora realmente borbulhando, e eu crescendo, tendo vencido a barreira da primeira infância, entrando na metade do caminho para ser um "menino grande", como dizia-se na época. No fim de 1965, havia mudado de residência como falei no capítulo anterior, mas era uma situação provisória, pois em poucos meses uma nova mudança estava programada pela família, e desta feita seria radical, mudando de bairro, e quadrante da cidade até, indo para a zona oeste de São Paulo. Nesse ínterim, assim que realizou-se o Reveillon de 1965, fui passar uma temporada na casa dos meus avós maternos e em tese, foi a primeira aproximação concreta que tive com eles, além das visitas ocasionais que tinha anteriormente, e começar também a interagir não só com meus avós, mas também com tios e primos, quando a seguir, uma série de viagens ao interior tornaram-se rotineiras, visitando e estreitando relação de amizade com esse lado da minha família materna.

Meus avós maternos moravam no coração da Vila Pompeia nessa época, zona oeste de São Paulo, e essa temporada de férias que ali passei, serviu como uma adaptação ao bairro, pois pouco tempo depois passaria a morar ali, também. Esse período na casa dos meus avós também tratou de estabelecer uma carga muito forte de influência cultural que passaria a receber da parte do meu avô materno. Homem de convicções firmes, era austero por natureza, mas também muito culto, num esforço pessoal admirável como autodidata, visto que não teve oportunidade de ter concluído curso superior como gostaria de ter feito, pelas circunstâncias de sua vida.

Pois foi dali em diante que meu contato com ele estreitou-se e sem dúvida que foi mais um agente influenciador sob o ponto de vista cultural, muito forte. Claro, nem tudo eram flores, se por um lado o peso cultural positivo que recebi foi muito grande por ouvir suas citações de textos e autores da literatura clássica; muitas aulas de história; ciência & espiritualidade, além das suas ponderações sobre a música erudita, bem embasadas pelo seu forte conhecimento e respaldadas por uma coleção de discos incrível que possuía, havia discordâncias (no campo da política e gestão pública, por exemplo), e que acentuar-se-iam quando tornei-me adolescente, naturalmente, mas em forma de debate respeitoso, jamais com rispidez.
Por ser bastante conservador e austero por natureza, enxergava os movimentos libertários que eclodiam ali naquele calor de início de 1966, com contrariedade, e por força de ser um amante da música erudita, detestava o Rock, a que considerava "barulho", além de abominar as mudanças comportamentais que vinham no bojo, notadamente o advento dos cabelos longos para rapazes, que contrariava-o em demasia.

Curioso, nessas semanas que desfrutei de sua companhia, andando pelas ruas do bairro nas tardes de sábado, achava engraçado ele resmungando entre os dentes, reclamando que haviam bandas de Rock aos montes ensaiando pelas garagens de residências. De fato, nessa temporada e reincidindo assim que mudei-me com meus pais para o bairro a seguir, andar pelas ruas da Vila Pompeia numa tarde de sábado entre 1966 e 1967, era constatar que dificilmente achava-se um quarteirão onde não houvesse ao menos uma banda ensaiando numa garagem. Cartão de visitas para receber 1966 pela ótica de gente idosa e avessa às transformações daquela década, a lembrança do meu avô resmungando entre os dentes : -"esses cabeludos"... nunca mais saiu da minha memória, ainda mais por eu mesmo tornar-me Rocker e cabeludo, de fato, anos depois...

Meus avós maternos moravam na Rua Ministro Ferreira Alves, no quarteirão entre as Ruas Augusto de Miranda e Dr. Miranda de Azevedo, perto da Praça Tupã, onde havia uma feira livre semanal e bem perto da Praça Cornélia, com a presença da Igreja Católica (Paróquia de São João Maria Vianney), e tendo ares bem interioranos.

Assim que mudamo-nos, apesar de ter vivido a minha então bem curta vida inteira no Belenzinho e adorar aquele bairro, passei a gostar muito da Vila Pompeia, também, mas não era uma novidade inteiramente, pois além dos meus avós maternos, várias tias da minha mãe, irmãs do vovô, moravam pelas ruas desse bairro e mesmo como visitante, eu já tinha uma familiaridade e simpatia por ele, com aquelas ruas, praças e seus símbolos, como a "moderna" loja de departamentos, Sears, onde muito anos depois, nos anos noventa, passou a ser o West Plaza, um dos Shoppings Centers mais charmosos da zona oeste de São Paulo. E claro, o Parque Antarctica, a sede esportiva e social do Palmeiras, com o estádio Palestra Itália incluso, e hoje reformado e modernizado como Allianz Parque. Bem, aquelas ruas montanhosas e ainda pavimentadas por paralelepípedos e que eu já tanto gostava, respiravam Rock'n Roll quando lá fui morar em 1966. Ver cabeludos pelas ruas, também tornou-se rotineiro, além do som das bandas ultrapassando as portas das garagens de tantas residências.

Minha residência ficava na Rua Clélia, no quarteirão entre as Ruas Mariquita de Toledo César e Tibério. Antes que corrijam-me, sim, eu sei que esse quadrante é na verdade parte da Vila Romana, um subdistrito do bairro da Lapa e teoricamente não é mais a Vila Pompeia. Mas sendo uma divisa de bairros e ficando tão perto, realmente todo mundo que mora ali considera-se dentro da Vila Pompeia e a Vila Romana é uma extensão natural de transição entre a Pompeia e a Lapa, portanto. 
Eu, Luiz Domingues, em 1966, com seis anos de idade, em frente a mais um Volkswagen que meu pai teve na década de sessenta (esse era marrom claro, coloração de fusca popularmente conhecida como "café com leite" nessa década).
 
Minha nova residência ficava a dois quarteirões da Praça Cornélia. No outro sentido da Rua Clélia, mais dois quarteirões e ficava uma fábrica imensa de refrigeradores e máquinas de lavar roupa. Ao meio dia (e às 18 horas, também, marcando a hora da saída), a sirene tocava alto, anunciando a hora do almoço e centenas de funcionários ficavam nas calçadas das Ruas Clélia; Barão do Bananal e Venâncio Aires, degustando a comida caseira de suas marmitas. Muitos anos depois e essa fábrica tornar-se-ia um super equipamento cultural para o bairro e para a cidade, o Sesc Pompeia, ou para muitos, Sesc "Fábrica" da Pompeia. Muitos anos depois e eu tocaria várias vezes nos dois teatros que ali seriam montados. Acostumado a viver numa casa grande desde sempre, foi estranho em princípio ir morar num apartamento, mas para amenizar, tratava-se de um imóvel grande e por ser a unidade do térreo, tinha um quintal, como se fosse uma casa. E como viver em condomínio não é fácil, presenciei rusgas, com meu pai tendo que reclamar constantemente aos vizinhos de andares superiores, maior rigor em coibir que pontas de cigarros e copinhos de plásticos com restos de bebida caíssem no nosso quintal, fora o barulho de festinhas que ultrapassavam o horário aceitável, com falatório; risadas e música sob alto volume a ecoar de vitrolas etc...

Nessa época, a Rua Clélia já tinha um trânsito muito forte de veículos, e que agravava-se com o fato de que ainda não existindo as Marginais Tietê e Pinheiros, todo o fluxo do tráfico, incluso ônibus de viagens intermunicipais e estaduais (caminhões, também), que chegavam das estradas vindos do interior, entravam em São Paulo pelo bairro da Lapa e seguiam pela rua Clélia como seu curso natural, indo em direção ao centro velho da cidade, para a rodoviária antiga, na Praça Julio Prestes, perto da Estação da Luz.
A Praça Cornélia em dois momentos : 1935 e 2011. Infelizmente não encontrei fotos dela nos anos sessenta, e melhor ainda se fosse de 1966 / 1967, época em que frequentei-a.  

Aos domingos, com ares super interioranos, mesmo numa cidade gigantesca como São Paulo já impunha-se, muitas famílias reuniam-se na Praça Cornélia, aproveitando o fato de que o padre da Paróquia São João Maria Vianney, ter mandado colocar serviço de som espalhado pelas árvores. Ali o som ecoava a tarde inteira, entre as missas dominicais matutinas, até a missa das 18 horas.


E por incrível que pareça, apesar da ação vir de um padre católico, e naturalmente conservador, ele não interferia na execução e assim, a tarde toda tocava música de qualidade, tanto a MPB, quanto o pop internacional. Foi ali num desses domingos de 1966, que ouvi o LP "Rubber Soul" dos Beatles, na íntegra, pela primeira vez e este sendo a última novidade do "Fab Four", saindo do forno. Deviam ser jovens que comandavam a discotecagem, naturalmente, não há outra explicação. Artistas da Jovem Guarda também batiam o ponto ali. Alguém devia adorar o Ronnie Von, pois suas músicas eram bem repetidas ali. E compositores que começavam a despontar por conta dos festivais de MPB na TV, caso de Chico Buarque; Edu Lobo e no ano seguinte, Gil; Caetano e outros. 

Como todo bairro, havia muitos cinemas espalhados. O mais próximo era o da própria Rua Clélia, alguns quarteirões no sentido da Lapa e chamava-se "Cine Nacional". Alguns anos depois, esse cinema que era enorme, tornou-se a casa de shows, Olympia, onde assisti inúmeros shows internacionais e apresentei-me também. Mas falando de 1966, lembro-me claramente de ter ido com minha mãe nesse cinema para assistirmos "The Sound of Music" ("A Noviça Rebelde"), mega clássico dos musicais e apontado como um ícone sessentista por excelência, mas que entediou-me sobremaneira. 

Bem, ali no alto dos meus cinco anos e meio aproximadamente, ainda analfabeto e diante de um filme longo ao extremo, falado em inglês e entremeado por canções... realmente foi cansativo. Tempos depois assisti com outra percepção e mesmo não dizendo que adoro-o, longe disso, acho um musical OK, com algumas boas canções e algumas cenas que são antológicas. Julie Andrews e Christopher Plummer são bons atores; a então garotinha Angela Cartwright estava por um triz para tornar-se uma figura querida na minha percepção pessoal por conta de uma personagem que ela interpretaria num dos seriados que mais empolgou-me naquela década, e claro, Robert Wise era um tremendo diretor. Admito tudo isso, mas mesmo adulto, continuo a não morrer de amores pelo filme, e de certa forma, além de entender a minha contrariedade ao vê-lo pela primeira vez em 1966, ainda acho-o longo e aborrecido no cômputo geral.  

Lembro-me de meus pais terem ido assistir "Dr Zhivago" ("Dr. Jivago"), no cinema, e voltarem tão encantados com o filme (não era para menos, uma obra de David Lean...), que meu pai comprou poucos dias depois o LP com a trilha sonora dele. Meu pai adorava comprar discos de trilhas de filmes e creio que passou-me esse prazer também, via DNA. Só fui ver Dr. Jivago anos depois na TV, mas o "Tema de Lara" já soava-me familiar há bastante tempo...

Avançando sobre os aspectos culturais desse ano, já que mencionei, sim, os festivais de MPB na televisão começaram a ganhar força. Muito pela música em si, mas como já mencionei em capítulo anterior, pelo aspecto da guerra ideológica perpetrada entre direitistas e esquerdistas e todos contra os Rockers "alienados". Alheio a isso, é claro que eu gostava de assistir pela música em si e não podia ser diferente com seis anos de idade.

O "Mug" foi possivelmente um dos maiores ícones do ano de 1966 no Brasil. O que era isso ? Um boneco criado por uma agência de publicidade e que caiu nas graças da classe artística, tornando-se febre total. Todo mundo tinha um "Mug" e claro, meu pai tratou de comprar um também, adaptado para ser pendurado no retrovisor do carro da família, na época um Citroen dos anos quarenta, apelidado de "Prefet", por muitos.

Escrevi uma matéria falando sobre a febre do "Mug" no meu Blog 1, em 2012. Eis abaixo o link, onde tem mais informações detalhadas sobre o tal boneco, e assim não preciso alongar-me neste capítulo :

http://luiz-domingues.blogpot.com.br/2012/06/mug-febre-de-1966-por-luiz-domingues.html

Na TV, as novelas começavam a ganhar maior popularidade, mas ainda eram pesadonas, com textos ao estilo de folhetins "mexicanizados", melodramáticos além da conta para o gosto brasileiro, apesar dos elencos formados por atores que eram a fina flor da dramaturgia, com muitos, para não dizer a maioria, com grande tradição no teatro e no cinema.

Uma novela chamada "Redenção", exibida na TV Excelsior, fazia sucesso na época, tendo um Francisco Cuoco ainda bem jovem como protagonista. Não era uma coisa massiva e hipnótica como veio a tornar-se pouco tempo depois, mas as novelas começavam a ganhar espaço.

Desenhos como The Flintstones e The Jetsons já existiam antes, mas foi em 1966 que passei a apreciá-los mais detidamente. Johnny Quest já era o meu predileto, sedimentado, mas eu estava pronto para as novidades e no caso, os chamados "Beatles Cartoons" entraram com tudo na minha vida. Com os quatro cabeludos de Liverpool adaptados como personagens de desenhos animados e claro, contendo suas músicas como mote, só auxiliaram a tornar-me cada vez mais fã do quarteto britânico.  

Um dos primeiros desenhos japoneses a tornar-se muito querido no Brasil, foi "Speed Racer". Era uma produção mais antiga, mas foi em 1966 que o descobri e passei a segui-lo. Mais que uma animação centrada no universo das corridas de automóveis, tinha o mérito de ter muita ação, por conta dos bastidores das corridas e invariavelmente envolvendo dramas, casos policiais e até aventuras com certo ar de misticismo, via Indiana Jones; Tin Tin, Allan Quatermain etc etc. 

O "Mach 5", carro do protagonista, tinha recursos extraordinários, numa tecnologia futurista para a época e outros personagens secundários da equipe de Speed Racer, além do misterioso oponente, o "Corredor X" são personagens queridos do imaginário de quem encantou-se com tal animação. E claro, música tema animadíssima e icônica... Go, Speed Racer, go !!! 

Desenhos das produtoras Depattie-Freleng e Mirisch também estavam entrando com tudo na grade da TV brasileira. Outra produtora que também existia e passei a acompanhar era a UIP (United Productions of America), cujo desenho, "Mr. Magoo", arrebatou-me. Que figura sensacional do velhinho míope fazendo loucuras e metendo-se em confusões sem perceber nada por enxergar mal, e assim não notar os perigos pelos quais passava. Mais que isso, o brilhantismo dos roteiros e da elaboração dos diálogos a garantir-lhe sacadas geniais, exatamente por não estar vendo as coisas e interagindo com desenvoltura, como se as visse.

Da Depattie-Freleng / Mirisch, claro que já estava ligadíssimo na Pantera Cor de Rosa e Inspetor Closeau, dois clássicos dessa produtora.

A Jovem Guarda deslanchou enfim. Em 1966 já tinha uma audiência enorme e estava viralizando de uma forma muito grande. Eu assistia e não vou dizer que vibrava, mesmo porque, apesar de minha pouca idade e consciência, achava a maioria dos artistas que ali apresentavam-se, fracos e a partir do segundo semestre desse ano, passei a ter um motivo forte para desejar que tal atração musical encerrasse sua exibição o mais rápido possível, pois o horário das 19:00 h. tornou-se sagrado doravante nas noites de domingo, depois que um seriado americano de Sci-Fi passou a ser exibido na TV Record.

Chamado "Lost in Space", literalmente "Perdidos no Espaço", em português, enlouqueceu-me instantaneamente pelo seu caráter Sci-Fi misturado ao gênero das "aventuras".

Foi meu primeiro contato direto com o mundo fantástico do produtor Irwin Allen, do qual tornei-me fã incondicional doravante, logo ligando-me igualmente em "Voyage to the Bottom of the Sea" ("Viagem ao Fundo do Mar"), outro seriado seu e que já era exibido desde 1964 por aqui, mas eu não havia percebido antes. Passei a adorar ambos, e logo viriam mais produções queridas desse grande realizador. A saga da família Robinson, que nada mais era do que a transposição da famosa história da literatura sobre a família de náufragos que sobreviveu sem recursos numa ilha deserta, para o espaço sideral, tornou-se febre mundial, elevando seus personagens, incluso o ultra simpático robot, à categoria de ídolos mundiais.

Até mesmo um personagem que era um vilão com todos os defeitos possíveis (ardiloso; sabotador; covarde; manipulador; intrigueiro; invejoso; indolente; mentiroso; egoísta e aproveitador entre outras coisas), passou a ser adorado por todas as crianças, no caso o "Dr. Smith", muito pelos méritos pessoais do ator Jonathan Harris que criou "cacos" (improvisos que atores criam fora do script), que o produtor Irwin Allen aprovou e incentivou que o ator usasse-os em cena. Seus gritos exagerados com caras & bocas histriônicas, amplificaram seu personagem. 

Ainda falando de Lost in Space, não só o personagem do Dr. Smith, mas a identificação que todo menino da minha idade teve com Will Robinson (interpretado por Billy Mumy), foi imediata. São muitos os amigos da minha faixa etária que já relataram-me que projetavam-se no personagem do Will, na base do "eu era o Will" e que fizeram-me ter a constatação de que não era só eu que pensava assim em 1966...

Fora os alienígenas sensacionais que interagiram com a família ao longo dos episódios, e o fato de todo mundo ser apaixonado pelas irmãs do Will e nutrir simpatia pelo patriarca e líder da expedição, John Robinson, além do piloto da nave (Júpiter 2), o Major West (Mark Goddard), nas cenas de ação onde a família corria perigo ante alienígenas hostis etc etc.

E uma observação não da época, pois com seis anos eu não percebia isso, mas ver a matriarca, Maureen Robinson (June Lockhart), cuidando da vida da família com aquela naturalidade, como se a vida transcorresse no subúrbio de uma cidade americana com casinhas sem muros e gramado, ao melhor estilo "American Way of Life", cuidando da roupa, cultivando horta e fazendo torta de maçã, mas tudo isso em planetas inóspitos e com fenômenos estranhos acontecendo o tempo todo, era no mínimo bizarro, mas era ficção, ora bolas... ha ha ha !!


E sobre "Voyage to the Bottom of the Sea" (Viagem ao Fundo do Mar"), tratava-se das missões de um submarino nuclear ultra moderno e equipado com artilharia de ponta (chamado "Seaview"), com o objetivo de cuidar da segurança dos Estados Unidos e países aliados, coibindo conspirações vindas de "nações hostis" (leia-se "União Soviética"), principalmente. Mas claro, em se tratando de Irwin Allen, esse mote de "guerra fria" durou só no decorrer da 1ª temporada, praticamente, pois logo os roteiros começaram a enfocar fantasmas; invasões alienígenas; monstros bizarros etc.

Geralmente não gosto de atrações que sejam ambientadas no mar. Todavia, tal seriado, com tanta aventura; fantasmagorias & alienígenas, cativou-me sobremaneira e figura desde então, entre os meus prediletos.

E admirador de militaria que já era por conta dos filmes de guerra que adorava, claro que identifiquei-me com os personagens, sendo uma tripulação militar. O Almirante Nelson; Capitão Crane; Chip Morton; Chef Sharkey, e os marujos Kowalski; Patterson; Rilley e Sparks, além de outros atores de apoio, tornaram-se figuras icônicas para sempre.

Isso sem contar os ruídos típicos do submarino Seaview. Trata-se de uma sonoplastia que quando ouço, remete-me imediatamente aos anos sessenta (Lost in Space também tem sua sonoplastia e trilha sonora maravilhosa, aliás, essas duas séries e as demais que Irwin Allen lançaria no futuro e das quais falarei nos próximos capítulos, são todas assinadas por um maestro / compositor sensacional, chamado John Williams, que fez inúmeras trilhas para filmes super famosos, incluso o clássica tema principal de "Star Wars", que tornou-o famoso mundialmente na década seguinte, anos setenta).  

Ainda falando dessa área de atrações da TV, foi em 1966 que tive uma alegria enorme motivada por uma produção desse veículo. Foi uma coisa singela, simples ao extremo, mas que produziu um efeito psicológico gigantesco para a minha satisfação, se amparada pela minha percepção infantil, logicamente.

Foi o seguinte : como muitas promoções que existiam na época e geralmente vindas de empresas no ramo de produtos alimentícios, a fábrica de pudins; gelatinas & flans em pó, Royal, oferecia um Kit de artefatos baseados na animação de marionetes, "Thunderbirds", que era queridíssima da criançada brasileira, eu incluso, como já havia dito em capítulo anterior. A ideia era juntar uma quantidade de caixinhas vazias do pudim desse fabricante (10 ou 12, não recordo-me), e enviá-las pelo correio, para em troca, receber o tal Kit relacionado à animação. Não pedi isso diretamente à minha mãe, mas ela o fez sem contar-me nada e quando num dia útil qualquer do inverno de 1966, o carteiro passou pela nossa rua, deixou um pacote com um volume considerável na nossa caixa de correspondência. Quando minha mãe abriu a caixa e deu-me o pacote, rasguei-o com o típico ímpeto infantil, e minha alegria na hora em que vi os produtos ali dispostos, foi inenarrável. Era tudo muito simples, é claro, dado o caráter dos custos que mal deviam compensar a indústria em questão pelo esforço empreendido, mas aos olhos de crianças contempladas como eu e tantas outras que marejaram os olhinhos ao abrir o pacote da Royal, não tinha preço...

Era uma faixa abdominal igual à dos personagens da animação; o quepe, e um cinturão com o coldre da arma (um revolver estilizado como "futurista", simulando uma arma "de raio laser"). Como cereja do bolo, uma carta padrão, com partes de citações pessoais datilografadas, em tom solene, concedendo-me a honraria de eu poder considerar-me doravante, o "Tenente" Luiz Antonio Domingues, membro da frota Thunderbird. Um gesto simples, respaldado por brinquedos baratinhos de plástico vagabundo e tecidos de chita, mas mexendo com o ego das crianças de uma forma absurda. Tanto que ao recordar desse evento singelo, acontecido há 50 anos atrás, gastei cinco parágrafos para tentar passar um pouco da emoção que senti na época, dada a sua importância naquele instante em minha vida.

Ainda falando de TV, seriados como "Guerra; Sombra & Água Fresca"("Hogan's Heroes"), uma visão divertida sobre a II Guerra Mundial e "O Agente da U.n.c.l.e.", entraram para a minha lista, fora muitos motivados pelo velho oeste. "Laramie" e "O Homem de Virginia" ("The Virginian"), chamavam-me a atenção, assim como "Gunsmoke" e "Maverick".

A saga de uma bruxa para lá de bonita e gente boa, que tudo o que desejava era ser uma dona de casa normal, também passou a agradar-me bastante. "Bewitched" ("A Feiticeira"), mostrava além da inverossimilhança (anti jeitinho brasileiro...), de uma pessoa recusar-se a usar seu poder para levar vantagem na base da malandragem, um mundo asséptico que desmanchava-se em pleno curso dos anos sessenta, ou seja, a glorificação do "American Way of Life", que no começo da década ainda era um padrão normal perpetuado, porém agora, no calor das mudanças de mentalidade provocadas pelas múltiplas revoluções sessentistas, ficava anacrônica numa velocidade espantosa. Contudo, a despeito dessa análise que faço agora como adulto e distante cinquenta anos do impacto inicial, digo que sempre gostei e continuo gostando de tal produção. Gosto da mensagem implícita e da produção em geral com as maluquices inerentes de uma família onde a esposa dedicada e "Housewife" padrão, era na verdade uma bruxa poderosa e mais que isso, cercada de familiares e parentes igualmente bruxos, mas os mais atrapalhados possíveis, criando situações embaraçosas para ela e seu marido (um sujeito todo certinho que sabia de tudo, mas detestava as facilidades da magia e queria sustentar a família como qualquer pai... trabalhando para ganhar dinheiro...).
Entre a Ponte do Rio Kwai e Lawrence da Arábia, fico com ambos... o grande David Lean ! 

Os filmes continuavam cativando-me. E mais velho, conseguia cada vez mais acompanhar filmes de complexidade maior, melhorando a minha capacidade de entendimento. Já dava para encarar George Stevens; Robert Wise; Jean Negulesco; David Lean e claro, Alfred Hitchcock...
Nessa altura, além do efeito acumulativo que já vinha trazendo na minha bagagem pessoal que já estava grande apesar da minha pouca idade, quanto mais eu assistia eu mais gostava e só continuava nesse caminho de cinéfilo inveterado, acrescentando cada vez mais filmes na minha cabeça.

Apesar de estar morando a três quarteirões do Estádio Palestra Itália, por não ter incentivo algum do meu pai que detestava futebol, ainda não foi nessa época que apaixonar-me-ia pelo manto sagrado verde. Mas faltava pouco para eu começar essa saga, apesar dos esforços incansáveis que meu avô materno fazia para tornar-me um sãopaulino, fanático como ele era. Enquanto não prestava atenção, meu time ganhava mais uma... era difícil não ganhar com aquela esquadra, chamada de Academia. 

E sim, teve Copa do Mundo em 1966, e já deu para acompanhar entendendo melhor, coisa que não havia sido possível na Copa anterior... 


 

Lembro dos comentários mais generalizados, pois não houve transmissão ao vivo, mas apenas vídeo tapes dos jogos do Brasil. Os comentários sobre a preparação maluca ainda no Brasil, com 44 jogadores convocados; os "frangos" do goleiro Manga (que era ótimo goleiro, mas como Valdir Perez em 1982, deu azar de falhar na hora errada); os portugueses caçando Pelé até contundi-lo; a polêmica expulsão do argentino Ratin, que depois fez desfeita ao Reino Unido; a zebra vergonhosa da Itália perdendo para a fraca equipe da Coreia do Norte e finalmente, a Alemanha sendo assaltada na final contra a Inglaterra (I'm so sorry my british friends, but it's true...).

Foi a Copa mais psicodélica, com a Swinging' London entrando no seu auge. E para muito historiador que mistura o conceito do Rock com o do futebol, não podia ser melhor a escolha de um país sede para a Copa do Mundo em 1966, do que a Inglaterra... perfeito, era onde as coisas estavam acontecendo de fato...

E no radinho sempre ligado em cima da geladeira da cozinha, Beatles, Stones e mais um montão de bandas de Rock que eu não sabia o nome, mas simpatizava cada vez mais. 

Na TV, o Festival da Record de 1966 foi bem apreciado na TV da sala de estar por toda a família. No meu caso, gostei muito do cantor, Jair Rodrigues ao defender a música "Disparada". Gostei da canção e do entusiasmo de seu intérprete, mas o que impressionou-me mesmo foi a "queixada de burro", um instrumento exótico usado por um percussionista que acompanhou o Jair. Criança, claro que achei sensacional o sujeito usar uma arcada de um animal para tirar um som muito peculiar. Morbidez a parte, a incrível sonoridade obtida com os dentes do animal chocando-se com o músico dando um golpe na mandíbula para provocar o choque das arcadas dentárias, foi espetacular. Anos depois, tal artimanha foi substituída por instrumentos construídos com madeira para imitar tal sonoridade e hoje em dia, as "queixadas de burro" são instrumentos de percussão vendidos em lojas de instrumentos com variedade de tamanhos e timbres, mas 100% feitos de madeira e não utilizando crânios de animais para tal finalidade. 

Tudo ficando colorido, música cada vez mais colorida também...1966 tinha uma vibração toda especial, difícil até de explicar por palavras. Digamos que era um clima de euforia de véspera. Fazendo uma analogia com o futebol, lembra aqueles segundos que antecedem a concretização de um gol, com a massa de torcedores levantando-se na arquibancada e já emitindo ruídos, aquele zum-zum-zum prévio e típico que antecede a explosão de euforia quando a bola estufa de fato, a rede do time adversário.
Eu, Luiz Domingues, em 1966, numa foto totalmente fortuita e clicada na antiga loja de departamentos, Pirani, no Bairro do Brás. Por sugestão do fotógrafo, ele ofereceu-me um acordeom ou violão de brinquedo para eu usar como ornamento. Nem pensava em tocar um instrumento nessa época e foi engraçado eu ter preferido o simulacro de violão, que como vê-se, tem quatro cordas e não seis como deveria ter, e não trata-se de um cavaquinho, mas de um brinquedo mesmo, simulando um violãozinho. Caramba, ficou profética, porque dez anos depois eu iniciaria uma trajetória musical real, através de um instrumento de quatro cordas, no caso, o baixo elétrico.  

Isso era tão nítido que até um menino de seis anos de idade, meu caso em 1966, percebia...
Como seria esse clima mágico multiplicando-se então em 1967 ??

Continua...    

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