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sexta-feira, 17 de junho de 2016

1968, O Ano que Nunca Termina na Minha Vida ... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues


Sentindo-me um "menino grande", quando 1968 entrou, eu estava enfim prestes a iniciar a vida escolar, sem entraves burocráticos de ocasião como houvera enfrentado em 1967.  

Queria alfabetizar-me e abrir um novo mundo de possibilidades, certamente (isso era um fato, eu queria devorar a leitura), mas a ideia de frequentar as aulas em si não animava-me, e pelo contrário, desagradava-me. Tímido ao extremo, tinha uma dificuldade grande de ambientar-me e fazer amigos. Não tinha perfil de brincar na rua, e não era nada acostumado a brincadeiras tradicionais, primeiro pela falta de companhia, e depois, pelo desinteresse em brincadeiras de características físicas e muito mais afeito às cerebrais, no sentido de usar a imaginação para brincar e não esforço físico. Jogar futebol só entraria na minha vida no ano seguinte, 1969.
Foto clássica e típica nas décadas de cinquenta e sessenta, fotógrafos apareciam nas escolas e ofereciam um pacotão de descontos para fotografar cada aluno, pulverizando o custo para os pais. Pelo fato de eu estar usando nesta foto acima, uma malha de lã (que era azul marinho, conforme o regulamento da escola exigia), que minha madrinha fez para mim na máquina "Lanofix", deduzo ser essa tal foto do outono ou inverno de 1968. Absolutamente ridícula a presença de uma lista telefônica sobre a mesa. Tudo bem que queriam improvisar algo que desse a ideia de leitura / estudo, mas convenhamos...uma lista telefônica ??  Eu, Luiz Domingues, em 1968, finalmente alfabetizando-me e tendo a oportunidade de absorver com muito mais velocidade, informações e cultura.

Portanto, quando minha mãe matriculou-me na escola estadual do bairro, que era muito próxima de casa, e comunicou-me que no início de fevereiro começariam as aulas, foi um misto de esperança pelo fato de poder aprender a ler e escrever numa primeira necessidade básica, mas profunda contrariedade por ser obrigado a perder horas do dia confinado num ambiente fechado em meio a um monte de estranhos. Nenhuma contra argumentação dos adultos dizendo que "seria legal" ter amigos da minha idade, convencia-me de que passar por isso não tivesse conotação de uma prisão e consequente incômodo, pelo que já observei anteriormente.

E foi mesmo o que aconteceu, nos primeiros dias, indo bastante contrariado e demorando bastante para enfim enturmar-me e fazer amizades. Logo que entrei, e sem ser alfabetizado como algumas crianças que tinham um avanço adquirido por terem frequentado curso pré-primário, a imensa maioria teve que submeter-se a um teste prosaico para que a direção da escola tivesse um critério inicial de distribuição dos alunos em classes, com uma sala para os mais "adiantados", e três para os que tivessem um estágio mais atrasado. 

Eu, Luiz Domingues, em 1968, com meu terninho cinza e todo orgulhoso por estar fazendo a transição social de usar "calça comprida" bem antes do "tempo", ainda vivendo uma época onde esse costume era arraigado culturalmente. Era de bom tom que meninos usassem calças curtas até pelo menos 12 anos de idade, e o início do uso das calças compridas era comemorado como o fim da infância. Mas tal hábito estava caindo, a reboque das transformações sessentistas, e logo entraria em desuso. Foto do acervo familiar.

E tal critério foi pedir a cada criança, um desenho com o tema "família". Não sou pedagogo; não sou professor; não sou psicólogo, portanto, não tenho como opinar se essa metodologia é correta ou não, com embasamento. Contudo, vendo como cidadão comum e leigo em educação escolar, creio que não, pois não consigo imaginar o que um desenho possa revelar sobre o nível intelectual de uma criança, quando no máximo serviria para revelar uma aptidão. Um desenho "feio" não pode desabonar ninguém, a meu ver, fazendo que o avaliador elabore um juízo de valor sobre a sua capacidade intelectual. Mas foi o que aconteceu-me, pois sou assumidamente um péssimo desenhista, portanto, mediante o melhor que eu pude fazer e que era um horror, foi o que eu entreguei à professora, e dessa forma, foi inevitável colocarem-me na pior classe possível.  

Inocente, tímido e extremamente pacato, meu perfil não era de forma alguma de uma criança irrequieta, com impulsos para destruir coisas; agredir física ou verbalmente quem quer que fosse, afrontar adultos etc. Dessa forma, no dia seguinte, quando vi-me em meio àqueles verdadeiros "Diabos da Tasmânia", subindo nas carteiras; agredindo-se mutuamente, e praticando atos de vandalismo com os materiais disponíveis ali, eu contrastava de uma forma absurda daquela turba, permanecendo quieto na cadeira, sem esboçar reações, a não ser eventualmente defender-me da colisão de objetos que eram arremessados a esmo. Com muito custo (eu diria berros ensandecidos e vários golpes de régua na sua mesa), a professora conseguiu obter minúsculas pausas, não de silêncio "trapista", mas apenas momentâneos períodos de arrefecimento daquela fúria exacerbada. Dois dias depois, uma outra professora, que na verdade devia ser alguém da diretoria, chamou meu nome e solicitou que acompanhasse-a, onde colocou-me numa outra sala, e com alívio, verifiquei que a maioria das crianças eram discretas, calmas como eu e salvo alguma infantilidade natural e sazonal, não havia nem de longe o clima de tumulto que a eu fora submetido nos dois primeiros dias de atividade escolar, em meio àqueles vândalos idiotizados.

Minha professora em 1968, e também em 1969, no segundo ano, foi uma mulher atenciosa; bondosa; calma, que tratava as crianças com um respeito muito grande e estimulava cada pequeno progresso que cada uma apresentava. Deixo aqui registrado seu nome, e meu eterno agradecimento à Dona Maria Tereza Rebouças da Silva, minha primeira e muito importante professora, responsável pela minha alfabetização.

E ali, mais calmo, pude enfim aprender o conteúdo curricular proposto, e a duras penas, por conta de minha timidez, fazer amizades. 80 ou 90% das crianças que estudavam naquela classe, permaneceram comigo em 1969 e 1970, e após três mudanças de colégio que tive de fazer entre 1971 e 1973, reencontrei-as como adolescentes em 1973, quando voltei a estudar na Escola Estadual de Vila Olímpia, já no curso ginasial.  

O bairro da Vila Olímpia, para onde eu e minha família mudamo-nos em novembro de 1967, era totalmente residencial nessa época. Haviam poucos estabelecimentos comerciais no bairro, e assim, as pessoas costumavam fazer suas compras em bairros vizinhos como Moema; Brooklin; Vila Nova Conceição e Itaim-Bibi. Somente na avenida Santo Amaro havia um movimento forte de trânsito, por ser um corredor viário importante, cruzando muitos bairros, vindo desde o centro por conta da junção com as Avenidas 9 de julho e São Gabriel, ligando ao Largo 13 de maio em Santo Amaro. E como era tradição na cidade de São Paulo em todos os bairros, na avenida Santo Amaro haviam inúmeros cinemas. Bem perto de casa haviam pelo menos cinco e entre 1968 e 1970, conheci todos. Outras características do bairro : a parte mais baixa, perto das margens do Rio Pinheiros, eram completamente desabitadas, havendo chácaras e muitos terrenos cercados, denotando loteados, mas sem construção alguma. Era uma parte do bairro onde haviam brejos e muita gente tinha costumes prosaicos, com espírito interiorano, do tipo caça às rãs, por exemplo, fora os muitos campinhos utilizados de forma livre para jogar futebol, com traves improvisadas pela molecada. Havia também uma central energética da "Light", a antiga companhia que controlava a distribuição energética na cidade de São Paulo. 
As três fotos acima mostram como a parte baixa do bairro, beirando o Rio Pinheiros, mudou completamente, ostentando nos dias atuais (2016), construções de alto padrão imobiliário.

Muitos anos depois, aquela parte do bairro tornou-se um ambiente de alto padrão imobiliário, com muitos escritórios; shoppings de luxo, e boites frequentadas por playboys e patricinhas da alta burguesia paulistana.
Aeronave da Varig em foto dos anos sessenta, na pista do aeroporto de Congonhas. Esse aí da foto, chamado "Electra", com hélices, servia à Ponte Aérea SP-Rio, que já era super movimentada na época. Mas também passavam outras aeronaves, jatos maiores sobre as cabeças dos moradores dos bairros da Vila Olímpia; Moema e Campo Belo, no percurso e procedimento de pouso em Congonhas.   

E a mais famosa marca registrada desse bairro, desde 1936, quando inaugurou-se o aeroporto de Congonhas e a Vila Olímpia, como rota de chegada da pista de pouso, passou a ter a presença dos aviões, com sua passagem já muito baixa, em processo de pouso em direção à cabeceira da pista de Congonhas, e com um barulho inacreditável. Logo eu e minha família acostumamo-nos e hoje, quando ando por aquelas ruas e ouço o barulho daqueles jatos enormes passando muito perto de nossas cabeças, sinto muita nostalgia, por incrível que pareça. Pois na escola, em 1968, e por todos os anos em que ali estudei, acostumei-me, assim como todo mundo, incluso os professores, a interromper falas, para esperar o barulho passar e dado o volume de voos que já existiam em Congonhas nos anos sessenta, era uma questão de poucos minutos entre uma onda de barulho e outra...

Outra característica atrelada à escola : as árvores nas calçadas que circundavam os quarteirões das Ruas Baluarte e Gomes de Carvalho, com esta última tendo o portão principal da escola, tinham flores amarelas e violetas, belíssimas e com um aroma delicioso. Aquele perfume era muito particular  (desconfio que sejam espécimes estrangeiras ali plantadas, pois nunca senti perfume semelhante em nenhuma outra árvore que tenha conhecido em outros bairros de São Paulo, e nem mesmo nas centenas de cidades que eu conheço do Brasil, por ter visitado-as tocando com as bandas por onde passei), que tornou-se tão icônico quanto o ruído dos aviões, e ambas as sensações associam-me imediatamente às lembranças múltiplas que eu ali colecionei em dois períodos da minha vida : de 1968 a 1970 e 1973 a 1976.  

Nossa residência era um sobrado amplo, de esquina, com duas garagens e um anexo com vários cômodos, onde pudemos fazer múltiplo uso, como nos tempos em que vivemos numa casa ampla no Belenzinho, no começo da década. Na Vila Olímpia, morávamos na Rua Quatá, esquina com a Travessa Uberabinha. Nossa casa, assim como pelo menos mais vinte casas vizinhas, foram demolidas por volta de 2005, e hoje funciona naquele espaço enorme, um edifício portentoso, sede de uma empresa poderosa. Tal travessa terminava de fato no córrego Uberabinha, que não era canalizado nessa época e vinha desde a sua nascente, nos lagos do Parque do Ibirapuera, fluindo em direção ao Rio Pinheiros. Em frente à entrada principal da nossa casa, na Rua Quatá, havia uma fábrica de televisores, de uma marca obscura. Era um galpão industrial grande, com duas construções, mas poucos funcionários. Não sei dizer, mas acho que fora construído com outra finalidade, para outro tipo de indústria e talvez estivesse alugado ou arrendado para essa pequena fábrica, que realmente era nanica no mercado.  
Alguns meses depois que ali cheguei, fiquei amigo dos filhos gêmeos do caseiro dessa fábrica, e que tinham um pouco menos de idade do que eu, apenas. Ali, a convite de meus amigos, brinquei de "guerra" algumas vezes em tardes de sábado e domingo, com a fábrica totalmente vazia e dessa forma, sentia-me num filme ambientado na II Guerra Mundial, com aquelas paredes de tijolinhos remetendo às ambientações do interior da França, e que davam-me a ilusão de estar dentro do seriado de TV,  "Combate". 

E por falar em brincadeiras, fora os jogos de guerra e o Forte Apache que eu adorava, um jogo entrou com tudo na minha vida nesse ano, e do qual tornei-me fã inveterado. Chamado "Banco Imobiliário"(em inglês chamava-se "Monopoly", ou Monopólio na tradução literal ou seja, uma ode ao capitalismo predatório...), era um jogo de tabuleiro com a possibilidade de ser jogado por até 6 jogadores, com o objetivo de cada um ir comprando imóveis residenciais e comerciais em ruas e bairros paulistanos (Jardim América; Avenida Paulista; Avenida 9 de julho etc), até equipamentos públicos (Estádio do Pacaembu, Parque do Ibirapuera, Aeroporto de Congonhas e outros), e cada vez que um adversário caia numa casa onde você era proprietário de um imóvel, um aluguel era cobrado. Portanto, vencia quem mais comprava imóveis e obrigava os adversários a pagar aluguel cada vez que paravam na sua propriedade.A versão que eu usava, era do meu primo mais velho, um Banco Imobiliário da "Estrela", lançado em 1953, e que tinha também ícones do Rio de Janeiro (Cassino da Urca; Pão de Açúcar, ruas de Copacabana, Ipanema e Leblon etc etc). Com cada jogador iniciando com um cacife em dinheiro, ou "dinheirinho" como a criançada falava, que eram imitações de cédulas com vários valores. Com o andar do jogo, inevitavelmente alguém ficava rico e os demais iam à bancarrota...
 

Claro que os movimentos eram feitos mediante dados, com cada jogador podendo avançar de 1 a 6 casinhas e a sorte assim era lançada, embora houvesse uma estratégia por trás. Aprendi a jogar e viciei-me no jogo, e embora analisando hoje em dia, questione a permissividade de um jogo que estimule crianças a serem especuladoras imobiliárias e "achem legal" levar pessoas à falência, não posso deixar de dizer que adorava o jogo...  

Falando dos signos culturais...

Alfabetizando-me rapidamente, tornei-me voraz leitor de jornais; revistas; livros e gibis. Já um fã inveterado do universo Marvel, não só gostava dos inúmeros heróis e suas aventuras solo, mas dos Vingadores, uma reunião de vários deles trabalhando em conjunto, em histórias épicas. 

E passei a gostar do universo DC Comics, também, a concorrente maior da Marvel, mas confesso, não na mesma intensidade. Colecionava as revistas do Batman; Superman e Aquaman, além da Liga da Justiça, a união dos heróis da DC trabalhando em equipe, tal qual Os Vingadores, da Marvel.

Na TV, a minha saga pelos seriados; filmes e animações ganhava o reforço de começar a acompanhar o futebol enfim com interesse declarado, fora os documentários que passaram a interessar-me também.   

Nessa altura já estava doido pelos episódios de The Time Tunnel, ("O Túnel do Tempo"), outra série sensacional do grande Irwin Allen. Misturando Sci-Fi e ação, além de ser totalmente calcada em História, era tudo o que eu gostava num seriado só.  

Dois cientistas viajando pelo tempo, caindo aleatoriamente em algum momento da história e qualquer localização geográfica, com a agravante da máquina do tempo construída pelo governo americano ainda não estar 100% pronta e segura, portanto, gerando assim a angústia de a cada episódio, não haver meios concretos de trazê-los de volta em segurança, garantia assim, a tensão necessária para o seriado.  

Roteiros sensacionais, ainda que com a mentalidade americana predominando, ao enxergar o mundo nos limites de seu umbigo apenas, com mais episódios mencionando a sua história interna do que aspectos da história geral, mas isso nunca incomodou-me.  

Tony Newman (interpretado pelo ator, James Darren); e Douglas Phillips (Robert Colbert), são os cientistas que caem nessa ciranda de viajar nesse lapso de tempo e enfrentam situações as mais perigosas, ao interagir com pessoas que no mínimo os consideram loucos por afirmarem serem viajantes do tempo vindos do futuro... (de 1968)...mas que na maioria das vezes eles nem podiam mencionar isso, e o simples fato de aparecerem com roupas estranhas ao ambiente e época já colocava-os em situações de perigo de vida. Bem, sobre o Túnel do Tempo, eis aí um dos seriados que mais apreciei nos anos sessenta, e que aprecio até os dias atuais.

Em 1968, também gostava muito da saga de uma outra garota com poderes mágicos, desta feita vinda do mundo das "1001 Noites das Arábias" e dentro de uma lâmpada, tal qual o gênio de Aladin...
Como não rir das maluquices e encantar-se com a beleza estonteante de Jeannie (Barbara Eden) ?  

A piada mais óbvia e que durou em todas as suas temporadas : como aquele astronauta imbecil não percebia que ela era apaixonada por ele (?), e indo além, na nossa percepção machista de povo latinoamericano, essa piada era ainda mais amplificada.  

Outra série que comecei a assistir e da qual apaixonei-me completamente, foi "The Mod Squad". Difícil haver um seriado sessentista, ambientado bem naquele furacão da contracultura de final de década, que mesmo não sendo explicitamente baseado no assunto (e pelo contrário, sendo baseado como quase um opositor, pois na verdade tratava-se de um seriado de teor policial), tenha refletido tão bem a "vibe" do movimento Hippie e o caminhão de mudanças comportamentais e culturais que veio a reboque.  

Apenas mostrando o que acontecia nas ruas, sem ser declaradamente apoiador das ideias, The Mod Squad, teve esse poder.  
E para não dizer que os personagens não eram "meio hippies", havia algo de transgressor neles, pela ficha pregressa de cada um na construção das suas respectivas personalidades, e mesmo no visual despojado, mais próximo dos Hippies do que na austeridade "wasp" da polícia americana. Três jovens, são presos por transgressões de pequena monta e um capitão da polícia de Los Angeles propõe que suas penas sejam abrandadas, se eles trabalharem à paisana para ele, como informantes (caramba que constrangimento...seriam espiões alcaguetes a serviço do sistema ??).  

Eles aceitam, mas qualquer julgamento moral cai por terra abaixo, pois mostram-se na verdade mais que leais, mas muito éticos na função, por incrível que pareça. Indo além, mostram-se totalmente do bem, trabalhando para prender malfeitores e muitas vezes limpar a barra dos cabeludos que pagariam o pato pelo preconceito.
Trilha sonora maravilhosa; cenas de rua em takes sensacionais mostrando a cara de Los Angeles entre 1967 e 1973; freaks; Hippies & Rockers de montão; bandas de Rock; festinhas psicodélicas etc etc.  

Ficou tão famoso o seriado na América que teve um ponto onde os atores mal conseguiam andar pelas ruas, ovacionados como astros de cinema. Link Hayes (interpretado por Clarence Williams III, um "negão" com cabelo Black Power e cheio de atitude Black); Pete Cochran (interpretado pelo ator, Michael Cole), um ex-playboy revoltado com a vida burguesa e que agora cabeludo, foi para as ruas viver o Flower Power; Julie Barnes (Peggy Lipton, uma das mais belas atrizes da América na época); e o Capitão Greer (Tige Andrews, um ator com bons serviços prestados ao cinema, aqui fazendo um policial durão e típico dos seriados policiais americanos, mas que afeiçoa-se aos três jovens e trata-os como verdadeiros filhos).
Veja acima a abertura oficial da série na sua primeira temporada, 1967-1968

Icônico demais, não tenho dúvidas que ao assistir o seriado com grande interesse, vendo todas as mensagens subliminares ali contidas, isso só foi reforçando o meu conceito sobre o movimento hippie e no reboque, apreciando todos os signos inerentes sob o ponto de vista cultural.

E claro, o nome da série já denotava tudo : "Esquadrão "Moderno"..."que curtição, bicho" !!

E por falar em ambientação Rocker, nada mais incisivo do que The Monkees. Uma série baseada no cotidiano de uma banda de Rock, com seus membros fazendo um som transitando entre o Bubblegum de meio de década e a psicodelia emergente.

O que dizer de um seriado que fez com que os atores animassem-se tanto com os personagens que interpretavam, que resolveram romper com a produção da TV e firmarem-se como uma banda de verdade, fazendo carreira, gravando discos ?

Como seriado, não há muito o que falar a não ser que era hilário, anárquico, parecendo em muitos aspectos o humor ácido dos Irmãos Marx, misturado com os Três Patetas, mas tudo ambientado no universo do Rock sessentista, com direito a muitas maluquices psicodélicas incríveis.
               Veja acima a abertura do seriado "The Monkees"

Não nego, se Mod Squad causou-se simpatia pela contracultura em termos amplos, em The Monkees, foi de fato a primeira vez que passou pela minha cabeça (como sementinha bem primordial), a ideia : quero ser componente de um grupo de Rock quando eu crescer...

Não vou afirmar que foi em 1968 que isso tornou-se uma resolução concreta na minha vida, mas uma semente foi plantada ali, vendo a interação criativa dos quatro cabeludos entre si e com o mundo; bastidores, e sobretudo ouvindo "Last Train to Clarkesville"; "Daydream Believer" e tantas outras canções do Monkees... 

Um seriado ambientado na época da independência americana, por isso um pré-Western, e que passei a acompanhar em 1968, foi Daniel Boone (interpretado por Fess Parker). Gostava muito das aventuras do pioneiro, lidando com as dificuldades inerentes de tempos difíceis numa América ainda toda fragmentada e sendo desbravada. O índio Mingo (interpretado por Ed Ames), seu melhor amigo, tinha a particularidade de ser dublado por um dublador brasileiro com uma voz ultra grave, com impostação de locutor de FM, e toda a criançada (eu, incluso), gostava de imitar as falas do índio, por conta dessa voz super cavernosa...   

"Maya", um seriado ambientado na Índia, contando as aventuras de dois adolescentes e um elefante, caiu no esquecimento para a maioria das pessoas, mas ali em 1968, muita gente gostava de ver e dentro dessa audiência, eu mesmo...

Fato musical de 1968, a consolidação de Wilson Simonal como artista mega popular, mas com um nível artístico excelente, sem cair em apelações popularescas, muito pelo contrário. Notável também, a presença de Miriam Makeba, uma artista sulafricana sensacional na TV brasileira com sua irresistível "Pata Pata".

1968 também marcou a revolução na dramaturgia das novelas, com Beto Rockfeller, uma trama modernérrima para a época, largando mão dos dramalhões mexicanos e partindo para um tipo de novela coloquial, perto da nossa realidade social e com muitos ícones jovens, mostrando o astral quase hippie em alguns aspectos. Isso sem contar o personagem do ator / dramaturgo, Plínio Marcos, chamado "Vitório", amigo do Beto (Luiz Gustavo), e que era divertidíssimo, adorado pelas crianças, com aquele sotaque ultra paulistano igual ao da Miriam Batucada : -"Ô Beto...orra, Bitcho"...

Sobre Miriam Makeba,  escrevi uma matéria falando sobre sua carreira e citando sua passagem pelo Brasil em 1968, para o meu Blog 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/09/a-ginga-e-coragem-de-miriam-makeba-por.html

E "Divino Maravilhoso", um programa completamente maluco, comandado pelos "tropicalistas", Gil; Caetano; Mutantes; Tom Zé e outros doidos. Não durou muito, infelizmente, pois calhou com o momento em que a ditadura de direita apertou o cerco e passou a tratar de usar a censura com mão de ferro, para tirá-lo do ar. Mas eu gostava da aquela loucura total que faziam.

Sobre desenhos animados, um que descobri em 1968 e adorava, por ser baseado numa obra de Julio Verne, era "Viagem ao Centro da Terra", uma produção da Filmation. Incrivelmente interessante por ser baseado na obra homônima de Verne, adorava-o, assim como logo a seguir a mesma Filmation lançou outro desenho nessa linha Sci-Fi que também gostava muito : "Viagem Fantástica", baseado na história da nave miniaturizada que era injetada no corpo humano, entrando no sistema sanguíneo de um ser humano e tendo o tamanho de uma célula, promovendo ações dentro do organismo da pessoa para destruir células cancerígenas. No desenho (ao contrário do filme que fizeram, também dos anos sessenta), as missões não eram necessariamente dessa espécie, mas eram igualmente muito interessantes. Ainda falando de desenhos, uma nova safra da personagens criados pelos estúdios Hanna-Barbera chegava. Peter Potamus, Magila (Maguila, o gorila), e outros. Já eram infantis para o meu tamanho na época, mas eu achava-os bons. Mais compatíveis comigo, a saga do Quarteto Fantástico, assim como do Homem Aranha e do Homem Pássaro, vinham pela Marvel, mas eram animados de fato, contrastando com a safra dos "desanimados de 1966", que já havia mencionado. Mas os traços eram idênticos aos dos gibis, portanto, bem legais.

The Herculoids; Mightor (um troglodita com poderes, acompanhado de um dinossauro, e não o Deus do Trovão, da Marvel); Space Ghost; Shazam (ho ho ho, meus amiguinhos...); e mais outros, formavam uma boa safra de cartoons de fim de década de sessenta. 

Fora a obviedade dos Beatles Cartoons, desenhos animados com personagens que evocavam a atmosfera do Rock sessentista, começaram a surgir. Era uma tendência que iniciava-se e prolongaria-se até os anos setenta. Um exemplo forte foi a animação "The Impossibles" ("Os Impossíveis"), cujos personagens eram três super heróis com poderes a combater o crime, e cujas identidades secretas eram as de três músicos que compunham um grupo de Rock (sei que ele não é de 1968, mas foi nesse ano que passei a acompanhá-lo), portanto, quando estavam apresentando-se, eram estilizados como cabeludos, usando figurinos psicodélicos, tocando e cantando sobre um palco que transformava-se em seu carro / nave.

"Coil", o Homem Mola; Multi-Homem, e o Homem Fluído eram heróis e Rockers, simultaneamente, já reforçando a ideia dos conjuntos de Rock estarem na crista da onda, sendo absorvidos pela sociedade ao ponto de chegarem às crianças no formato de animações. E não era um processo decadente de aceitação por osmose, mas pelo contrário, era nítido que os produtores estavam pescando os sinais culturais no ar, e os jogando de pronto na sua linguagem, sem esperar o tempo passar. E o grito de guerra desses personagens era : "Tally-Ho" (!!), traduzido para "E vamos nós"...!! 

Assisti no cinema, embora já fosse um filme "velho" (1965), o meu primeiro filme do gênero Spaguetti-Werstern, chamado "O Dólar Furado". Era diferente dos "westerns" normais que eu tanto assistia na TV, porque parecia mais lento, mais detalhista. Mas só anos depois é que eu fui conhecer bem o gênero, e tornar-me um fã da arte de Sergio Leone e seus pares. Suprema ironia para os americanos, é como diz Clint Eastwood : "ninguém faz western melhor que os italianos"...mamma mia, é vero !!

Outra lembrança de 1968 na tela grande foi "O Calhambeque Mágico" ("Chitty Chitty Bang Bang"). Meus pais levaram-me novamente ao "Comodoro / Cinerama", para ver algo com som stereo e projeção "cinemascope". Pena que tal filme seja um musical um tanto quando enfadonho e não um filme de guerra como tanto queria ter visto naquela tela impressionante. Tratava-se de uma fantasia sobre um cientista maluco que inventava engenhocas e metia-se em muitas confusões etc etc. Dick Van Dyke é um ator até interessante, mas salvo uma ou outra cena bacana, saí frustrado da sala de cinema, ante aquela obra histriônica.


Na música, 1968 foi o ano em que assumi que acompanhava-a de fato, e embora não tendo nenhuma intenção de romper com vários estilos que ouvi por influência dos pais; avós e pessoas mais velhas em geral, por "rebeldia", mesmo porque nunca tive esse perfil enquanto personalidade, nesse ano comecei a nutrir simpatia explícita pelo Rock; Folk Rock e a Black Music.

Além de todas as fontes que já citei e tendo o rádio como uma delas, tornou-se um hábito não mais escutar as emissoras de rádio que meus pais gostavam, mas tendo o meu próprio radinho, procurar a programação que mais interessava-me. E nesse caso, fui parar no dial da Rádio Excelsior de São Paulo, que tinha como seu slogan : "A Máquina do Som". Ali, efetivamente, dei meu primeiro mergulho espontâneo, ouvindo com bastante regularidade a programação. Fiquei doido com artistas como Otis Redding; Wilson Pickett; The Mamas and the Papas; Donovan; The Lovin' Spoonful; Procol Harum; Petula Clark; The Animals; Mutantes; além de muitos outros e claro, Beatles e Stones inclusos.

Ouvia "Sittin' of the Dock of the Bay" com o já saudoso naquela época, Otis Redding, inúmeras vezes, e nunca cansava-me de reescutá-la. "Monday, Monday" e "California Dream", com The Mamas and The Papas; "Whiter Shade of Pale", com Procol Harum...

Ouça abaixo (Sittin'On) The Dock of the Bay", com o grande Otis Redding, um dos meus cantores de Soul Music prediletos, senão o maior deles.



Gostava imensamente de "Batmacumba" e "Ave, Genghis Khan" dos Mutantes, que tocaram muito, assim como Gilberto Gil e Caetano Veloso, e outros artistas mais obscuros, mas muito instigantes como "De Kalafe", e o cantor Fábio, super citado na biografia de Tim Maia, e que em 1968, lançou uma canção de uma ousadia e tanto, chamada "Lindo Sonho Delirante", muito psicodélica, e claro, o acrônimo desse título diz toda a intenção desse freak paraguaio, e que só podia mesmo ser amigo do Tim Maia...  

Ouça abaixo, "LSD"..."Lindo Sonho Delirante", com Fábio : 


Outro sucesso do Fábio em 1968, foi "Stella", uma canção que tocou muito no rádio, cujo uso de um "delay" quando ele pronunciava o nome de "Stella", era comentado e imitado por todo mundo na época. Ouça abaixo a canção "Stella", que tocou bastante na "Máquina do Som", um blues bonito, ainda que tenha um certo ranço de guarânia meio brega no arranjo, além da interpretação do Fábio nessa canção, um tanto quanto "careta", fora o indisfarçável sotaque mezzo castellaño / mezzo guarany.

E assim foi, considero o ano de 1968, quando realmente assumi que gostava e procurava conhecer o Rock, de fato.

Mais maduro, chegando aos oito anos de idade, o noticiário interessava-me bastante nessa altura. Alfabetizado, devorava o jornal, revistas de atualidades e já interessando-me muito pelo noticiário cultural, falando de filmes e música, principalmente.  

Em 1968, a notícia de que os hippies paulistanos estavam fazendo uma feira todo domingo na Praça da República, no centro de São Paulo, despertava comentários de repulsa de parte da opinião pública "careta", mas eu não conseguia mais contaminar-me com a formação desse conceito contrário da parte dos adultos conservadores, e no embalo que estava ganhando com tudo o que absorvia e citei neste capítulo até aqui, simpatizei de pronto com a ideia.

Escrevi uma matéria contando a história da Feira Hippie da Praça da República, no meu Blog 1. Eis o Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/08/feira-hippie-da-praca-da-republica-de.html
Foto da Feira Hippie de Portobello Road em Londres, por volta de 1968 

E por falar em freaks, foi em 1968 também que eu vi pela primeira vez na vida um Hippie cabeludo de fato, andando na rua, e fiquei impressionado pela sua roupa, absolutamente incrível. Tratava-se de uma casaca militar ao estilo do século XVIII, que pensando hoje em dia, onde esse sujeito arrumaria uma peça tão incrível assim, senão na Portobello Road de Londres, ou no mercado das pulgas de Paris ? Fora isso, usava uma bota de cano longo, muitos colares hippies ao estilo miçangas no pescoço, uma echarpe muito psicodélica amarrada no pescoço e tinha uma cabeleira até quase o meio das costas, usando uma barba espessa. Analisando agora, o sujeito parecia-se com o George Harrison em fotos de 1970, por ocasião do lançamento do seu LP solo, "All Things Must Pass".
Foto do George Harrison em 1970, e o freak que eu vi na rua em em 1968, estava bem parecido com ele, nessa foto acima.
 
Fiquei tão surpreendido em ver essa inusitada figura numa tarde de um dia útil qualquer de 1968, indo para a escola, que meu semblante de estupefação causou-lhe um sorriso típico daqueles de quem acha graça do espanto alheio. Aconteceu na Rua Baluarte, nos quarteirões entre as ruas Quatá e Casa do Ator, no caminho da minha escola. Não digo que a partir desse dia deixei o cabelo crescer e pedi roupas hippies aos meus pais, mesmo porque eu era um simples molequinho ainda nem tendo completado a troca de dentição infantil, mas tal impacto que tive só reforçou a simpatia pelos signos Rockers; Hippies & Freaks ainda mais, sendo mais uma gotinha a reforçar o oceano onde no futuro, eu mergulharia. 

Outro fato forte de 1968, foi a tremenda polêmica que o disco solo lançado por John Lennon em parceria com sua então nova namorada (a artista plástica japonesa,Yoko Ono), fazendo muito barulho na imprensa. Lembro-me bem das discussões acaloradas, embora só fosse tomar contato com o disco em si, muitos anos depois, já nos anos setenta. 

O casal retratado inteiramente nu na capa e contracapa, causou furor, e como se não bastasse esse choque visual, tratava-se de uma obra não musical, mas totalmente experimental, contendo a gravação de ruídos produzidos pelo casal, como grunhidos e gritos.

Isso gerou nitroglicerina para a imprensa cair de pau, usando de todo o seu arsenal de comentários conservadores possíveis e imagináveis, evocando preconceito; incompreensão e tomada de posição em tom de reação, como sempre é esperado da parte de quem tem tendências fascistoides.  

Na política, os acontecimentos do fim do ano tornaram a atmosfera sombria. Lendo o noticiário, não entendia com propriedade, é óbvio, mas deduzia que o AI-5 decretado era um ato que trouxe medo generalizado. Independente das opiniões dos simpatizantes e opositores às medidas tomadas pelos ditadores militares, minha impressão e dedução tinha fundamento.

Foi também em 1968 que eu assumi gostar de futebol, a despeito da contrariedade de meu pai que odiava o ludopédio, e também assumi meu amor pelo verde esmeralda.

Ademir da Guia flutuando com a cabeça erguida e jogando futebol com a fleuma de um jogador cerebral de xadrez, tornou-se um ícone tão forte quanto meus ídolos na música; cinema; seriados, histórias em quadrinhos etc etc. Pensando na posição em que ele jogava e não comparando com jogadores como Pelé e Maradona, penso que só vi até hoje (2016), um único jogador com técnica; fleuma e elegância semelhante ao Ademir da Guia : Zinedine Zidane, o astro francês que demoliu o Brasil nas Copas do Mundo de 1998 e 2006. 

Numa década tão vitoriosa para o Palmeiras, justo no ano que passei a ver VT de jogos e acompanhar transmissões tradicionais do rádio, tive uma decepção, mas que no futebol é fato corriqueiro, e por isso de fato, é o maior esporte do planeta, pois ser superior tecnicamente, ao contrário de outras modalidades, não garante vitória e assim, a segunda chance de ser campeão sulamericano foi para o ralo, e não que o time do Estudiantes de La Plata, da Argentina fosse um time ruim, pelo contrário, era forte, campeão argentino e com vários jogadores da seleção de seu país. Todavia, a Academia I do Palmeiras era uma máquina de jogar bola e de forma muito bela, portanto, foi uma pena perder essa final. Paciência, não considero-me "pé frio" por isso, e no ano seguinte meu time daria-me alegria, conforme contarei no próximo capítulo. 

Ainda falando de esporte, teve Olimpíadas e desta feita, a Cidade do México foi a cidade-sede. Marcante a comemoração dos atletas negros norte-americanos que ganharam medalhas e no pódio, fizeram a saudação "Black Power".  

Lembro-me bem dos comentários nos noticiários falando disso, exaltando a afronta política que representava, mas radicalismos dos "Black Panthers" a parte, tinha o peso das reivindicações justas pela igualdade racial e direitos civis assegurados aos negros na América do Norte e certamente servindo de exemplo para todos os povos que ainda achavam normal a segregação racial.

A Rainha da Inglaterra, Elizabeth II, na Avenida Paulista em frente à nova sede do Masp, onde havia acabado de inaugurá-la oficialmente, em 1968

Quando a Rainha Elizabeth II veio em visita oficial ao Brasil em 1968. Minha escola foi pré escolhida para figurar juntamente com outras na massa de estudantes que seriam perfilados para ver o cortejo de sua majestade em seus compromissos oficiais pela cidade de São Paulo e entre eles, creio que o mais marcante foi quando ela em pessoa inaugurou a nova sede do MASP (Museu de Arte de São Paulo), na avenida Paulista. Ficamos eufóricos com essa perspectiva e chegamos a receber bandeirinhas de plástico do Brasil e do Reino Unido, que usaríamos na manifestação, mas nossa participação foi cancelada e isso gerou muita frustração...

Escrevi uma matéria falando sobre a vinda da Rainha da Inglaterra à São Paulo em 1968, no meu Blog 1. Eis o Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/08/quando-rainha-andou-pela-pauliceia-por.html

Outro evento de 1968 e que acabou fazendo conexão com minha vida escolar, já contei previamente no capítulo relativo à 1963, por conta de que falava a respeito de uma coleção de livros que ganhei dos meus pais naquele ano ("Trópico"), ter motivado algo que realizaria-se em 1968. Relembrando, portanto : em 1963, fiquei tão impactado pela coleção de livros chamada "Trópico", que assim que alfabetizei-me o mínimo para poder registrar minhas ideias num papel, tratei de começar a escrever um livro nos mesmos moldes daquela coleção enciclopédica.

A capa do meu singelo livro, "O Mundo em Qualquer Época", que comecei a escrever em 1968...

Nomeei-o como "O Mundo em Qualquer Época", contendo uma série de pequenas dissertações sobre passagens da história geral da humanidade, e claro, sob a visão de um menino de 8 anos de idade, absolutamente ingênuo e com a agravante da caligrafia sofrível e parcos recursos de redação, além da precariedade gramatical e ortográfica.

Guardo com carinho, portanto, como uma relíquia de memorabilia, essa brochura singela escrita a lápis.

Um exemplo dos textos que estão escritos em forma de micro dissertações, desse livro que cito. Na página 12, uma micro redação falando sobre a civilização egípcia; e na 13, um relato explicando a Guerra de Secessão norteamericana. 

A relação com a escola foi singela também, pois minha mãe levou o meu "livro" para a professora, a meiga Dona Maria Tereza avaliá-lo e relevando todas as ressalvas óbvias que fiz acima, ela ficou tão entusiasmada com minha iniciativa que muito incentivou-me a escrever redações no ano seguinte, quando do avançar do 2º ano primário e falou-me várias vezes que eu levava jeito para escrever.
Só fui investir fortemente nesse lado escritor, quando em 2010 comecei a interagir na internet, e em 2011, assim que mergulhei mesmo na produção de textos, escrevendo como convidado em vários Blogs, para em seguida abrir os meus blogs particulares etc etc. Mas mesmo que tardiamente, sou muito grato à Dona Maria Tereza pelo incentivo, que em tese, nunca saiu da minha cabeça.     

Ao final de 1968, a minha escola organizou uma bandinha prosaica que apresentaria-se num teatro, como forma de celebrar o final do ano letivo. Eu não pensava em tocar instrumentos musicais como uma determinação, embora sutilmente esse conceito já estivesse lá no fundo do meu subconsciente, por tudo o que já citei neste capítulo, principalmente pelos fatos que fizeram com que eu aproximasse-me cada vez mais da música e do Rock em específico, seriado "The Monkees" incluso...

E nesses termos, quando a professora de artes começou a organizar a bandinha, lá por outubro de 1968, perguntou a cada criança se sabia tocar algum instrumento musical e salvo lapso de memória de minha parte, não haviam menininhas pianistas, coisa comum em se imaginando a cultura tradicional em que vivíamos, onde era de bom tom colocar meninas na tenra idade para estudar piano, tampouco garotinhos violonistas. Portanto, todos foram colocados como "percussionistas", numa forma muito simplória, é evidente, percutindo instrumentos sem noção musical alguma e com a missão de cantar acompanhados da professora ao piano. As canções propostas eram do cancioneiro infantil folclórico brasileiro, do tipo "Atirei o Pau no Gato" e coisas do gênero, e não eram muitas, três ou quatro somente, pois era óbvio que as crianças não decorariam um "set list" complexo e extenso...  

E no meu caso, fui designado a tocar "triângulo", um instrumento tradicionalmente usado nos combos de música nordestina. Com timbre muito agudo e bom para manter ritmo contínuo, no caso fui instruído a tocá-lo da forma mais simples possível em se considerando não ter noção musical alguma. Aliás, foi o que ocorreu com todos, e com a professora só tratando de coibir a caótica tendência das crianças atravessarem a condução do piano, atrapalhando-a, e claro que a única coisa realmente musical que seria ouvida ali era seu piano, amenizando os efeitos devastadores de um coral infantil desafinado e pior ainda, sob a percussão sem cabimento da parte de pequenos incautos...

Entrada principal do Teatro Paulo Eiró, com seu painel famoso em alto relevo.

Feitos esses "ensaios", a apresentação foi marcada para dezembro de 1968, no Teatro Paulo Eiró, localizado no bairro do Brooklin, quase divisa com o bairro do Alto da Boa Vista, na zona sul de São Paulo. Teatro muito bonito e de propriedade da prefeitura, é mais um desses teatros municipais que São Paulo tem espalhados por vários bairros da cidade. Evidentemente que a plateia foi formada exclusivamente por familiares dos alunos, e não havia outra expectiva que não fosse essa.

E assim aconteceu numa noite de dezembro de 1968...
            Foto interna e bem mais atual do Teatro Paulo Eiró

Não tinha ainda a determinação assumida de ser artista nessa época quando eu "crescesse", mas de fato, foi a primeira vez que eu pisei num palco na minha vida. E não era um palco qualquer, mas de um teatro bem estruturado, com cenotécnica; iluminação profissional; coxia; ótimos camarins e palco estilo "italiano", com dimensão grande. Ele não foi usado de forma integral, não só pelo caráter prosaico da atração que éramos, mais se tratando de uma celebração fechada e de ordem escolar, naturalmente. Por isso, e também porque o teatro estava sendo usado para encenações teatrais, havendo um cenário parcialmente desmontado atrás das coxias, e isso eu me lembro bem, pois haviam vários objetos de cena que chamaram-me muito a atenção.

E claro que na época eu não ligava-me em nada disso que refere-se à detalhes de produção, mas analisando hoje em dia, é óbvio que usaram carga mínima de iluminação e na minha lembrança, lembro-me de luzes brancas em sua maioria, e poucos spots com gelatinas azuis e vermelhas, talvez só para dar um acabamento muito sutil, privilegiando mesmo a brancura em clima de "luz de serviço", como fala-se no jargão da iluminação de espetáculos.  

Meus pais nem pensaram em fotografar a apresentação, e não lembro-me de outros pais que tivessem feito o mesmo. Nunca soube de nenhuma foto oficial providenciada pela escola.
Todavia, em 2015, tive uma surpresa incrível da maneira mais fortuita possível. Já trabalhando fortemente na formatação dos capítulos da minha autobiografia na música, jamais pensaria que seria possível achar uma foto desse evento. Mas numa madrugada, olhando notícias num site da internet, deparei-me com uma matéria falando sobre uniformes usados na rede pública estadual de ensino do estado de São Paulo, ao longo de muitas décadas. Estava olhando fotos do início do século XX, e fui vendo a evolução dos uniformes através de fotos em sua maioria, provenientes de acervos particulares etc etc. Separei a matéria entre os "favoritos", e no dia seguinte, cheguei a chamar a minha mãe para ver também, achando a exposição divertida. Foi quando uma foto do final dos anos sessenta chamou-me a atenção, pela sua legenda : "bandinha musical do Grupo Escolar de Vila Olímpia, em apresentação de 1968"...não podia ser !!! 

Era inacreditável estar olhando para aquela foto !!
Não havia crédito, sinto muito, pois adoraria citá-lo, mas o importante é que esse tesouro estava diante de meus olhos.
Identifiquei-me, e a muitos coleguinhas da minha classe, turma do 1º ano do curso primário, do Grupo Escolar de Vila Olímpia, de 1968...

Eis a foto abaixo :
Sou o quarto menino, à direita, na fila mais alta, e em se considerando que tem uma criança encoberta na mesma fileira. 

1968 fechou-se com essa experiência de subir num palco pela primeira vez. Onze anos mais tarde, em novembro de 1979, eu estaria nesse palco novamente, tocando na banda de apoio do cantor / pianista / compositor, Tato Fischer, um trabalho avulso que realizei fora de uma banda autoral minha, mas em tese, meu primeiro trabalho profissional, pelo fato de ter sido remunerado para tal, em quatro apresentações ali no Teatro Paulo Eiró, numa mini temporada. Para saber detalhes dessa passagem de 1979 que citei, procure os capítulos referentes aos "Trabalhos Avulsos" no texto da minha autobiografia, que encontram-se nas postagens de fevereiro de 2015, no arquivo deste Blog.  
          Menino Luiz Domingues, 8 anos de idade em 1968...
  
1968 foi um ano dos mais ricos para a minha percepção e do qual tenho lembranças das mais queridas da vida inteira. Não só pelas questões pessoais / familiares, nem mesmo as mais prosaicas dentro do espectro infantil, mas pela carga cultural que foi avassaladora e praticamente dando início à um processo irreversível de paixão pela música e pelo Rock. Tenho uma saudade imensa de 1968, e mesmo sabendo que muitas pessoas tenham imagem pesada desse ano por conta da política no Brasil, no meu caso, a lembrança pessoal é muito querida.


Continua...

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