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domingo, 19 de junho de 2016

1969, Indo para o Mundo da Lua... - Minha Ligação Inicial com o Rock, na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues


Numa década de tantos estímulos culturais tão fortes, com fatos grandiosos acontecendo o tempo todo e despertando debates acalorados de uma sociedade perplexa, que parecia não estar contabilizando todas as novidades com a mesma rapidez com a qual elas apresentavam-se, claro que o quinhão da corrida espacial teve seu papel e foi muito forte.  

Por forte propaganda, é claro, e com óbvias intenções políticas, a opinião pública foi massacrada pela cobertura da corrida espacial. A intenção era usar isso como um trunfo ideológico entre direita e esquerda e cada milímetro que americanos e soviéticos avançavam nessa corrida, era espetacularizado na mídia de tal forma a fazer com que a população, mesmo as pessoas mais humildes e alheias aos avanços da ciência, interessarem-se e acompanhassem as missões Gemini e Apollo da parte dos americanos, e Sputnik; Vostok e Soyuz, dos soviéticos.

Então, imagine para um moleque de 9 anos de idade (doido por filmes Sci-Fi; Lost in Space; The Invaders, e Star Trek, além dos gibis de Super-Heróis, sempre falando de alienígenas), o efeito devastador dessa cobertura nos meios de comunicação ?  

Lembro-me bem, o domingo, dia 20 de julho de 1969, foi um dos dias que mais esperei chegar. E já vinha acompanhando dias antes, passo a passo, com a transmissão da partida da nave em Cabo Canaveral / Florida, e boletins diários ("eles já estão na órbita da Terra"; "já estão a "X" mil kilometros da Terra"; entraram na órbita da Lua"...).

Portanto, quando o domingo foi anunciado como o dia oficial da chegada da nave na Lua e com transmissão ao vivo, não podia acreditar que estava sendo uma testemunha da história. E aos 9 anos de idade, com minha cabeça cheinha de literatura Sci-Fi, eu esperava, inocentemente, ser possível que os astronautas pudessem achar vestígios de alguma civilização alienígena, e nem precisava ser algo grandioso. Pequenos objetos estranhos já fariam-me pular de alegria pela sala de estar de minha casa, de euforia.  

Mas não ocorreu, é claro. Já era sabido pelos cientistas que o satélite em questão era inóspito, sem gravidade; sem ar, sem nenhum resquício de vida sequer. Era só uma formação rochosa gigante e que não tinha nada além de pedra e areia...portanto, gostei muito da expectativa toda, o primeiro passo com aquela bota enorme deixando uma pegada na Lua ("um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade"...), que tirou a minha respiração, mas o desfecho foi deveras decepcionante. 

Por favor, tragam Dr. Smith; o Robot; Will Robinson; Spock & Kirk, David Vincent e o Surfista Prateado...que são muito mais interessantes para lidar com exploração espacial e alienígenas...

Alguns dias depois, a chegada do módulo com os astronautas caindo no oceano, também foi transmitida ao vivo. A professora substituta, que estava dando aulas na ocasião por um afastamento momentâneo da minha professora titular, Dona Maria Tereza, propôs que a nossa classe fosse inteira até à sua residência, bem no meio da tarde, em pleno horário de aulas, para assistir na sua sala de estar, tal evento. Sua ideia era colocada para as crianças como uma oportunidade importante de termos uma atividade extracurricular com teor científico histórico, e que de fato, o era mesmo, é claro. Mas lembrando dessa passagem, anos depois, não consigo também não pensar que a estratégia dessa mocinha tinha dupla intenção, e assim, tirar um "refresco" das maçantes horas aturando pirralhos, contrastava com a vontade dela em assistir o evento, é lógico. E nesse caso, sua lábia em convencer a diretora dessa pequena loucura a ser feita fora da escola, foi genial.  

E lá fomos nós, cerca de 38 crianças caminhando do portão secundário da escola, que ficava na Rua Casa do Ator, para a residência dela, na mesma rua, e do outro lado da calçada. Numa sala de estar pequena, aquele monte de crianças sentou pelo chão, onde foi possível e olhos grudados na velha TV em Preto e Branco, vimos a transmissão, bem maçante, mas com o locutor Hilton Gomes dando-lhe ares emocionantes, fazendo-nos crer que era algo épico. Era mesmo, devo admitir, mas longe de ser algo estimulante para crianças de 8 e 9 anos, ver um bólido cair no oceano, ser resgatado pelos marinheiros americanos e mais nada...  
Outra típica foto de escola, lá estou eu de novo, Luiz Domingues,  no cenário montado improvisadamente no pátio, durante o período de recreio, numa tarde qualquer de 1969. Acervo familiar
 
Ainda falando de escola, em 1969, eu já havia descontraído-me bem mais e havia enfim feito algumas amizades, mas sem no entanto mudar minha característica pessoal de calma e discrição. Gostava muito da professora, Dona Maria Tereza e ela percebendo meu apreço pela escrita, estimulava-me a escrever redações, mesmo quando isso não era um exercício exigido coletivamente. Em momentos onde haviam recreações estimulando a livre criação, e a maioria preferia desenhar, Dona Maria Tereza propunha-me a criação de textos, dos quais ela levava para a sua casa e trazia-os corrigidos gramatical e ortograficamente, e sempre fazia uma observação sobre o meu desempenho, incentivando-me a prosseguir a escrever.

Fora a chegada do Homem à Lua, três coisas marcantes ocorreram em sala de aula que são lembranças queridas. A primeira foi que a professora incentivou as crianças a convidar os respectivos pais para entrevistas, com o objetivo de cada um falar de sua profissão. Nem todo pai pode ir, é claro, pelo horário, mas muitos  prontificaram-se a colaborar e foi bastante estimulante ter o "seu Milton", meu pai, ali falando sobre seu trabalho, explicando o funcionamento da Câmara Municipal, o que faziam os vereadores e como funcionava a máquina legislativa municipal. Um dos mais ovacionados, foi o pai de um amigo meu chamado Wladimir, que marceneiro habilidoso que era, levou vários artefatos que fazia com madeira, além da sua caixa de ferramentas.
Na entrada da nossa residência, na Rua Quatá, eu, Luiz Domingues, ao lado de mais um Volkswagen que meu pai teve na década de sessenta. Este era de uma cor exótica, fora das cores tradicionais da montadora, sendo dourado, bem forte e que logo ganhou o apelido de "douradinho", chamando a atenção nas ruas. Meu pai está ao volante. No canto superior esquerdo, tem um pedaço da fábrica de televisores, com seus dois galpões industriais bem grandes. Foto de 1969, numa tarde após o almoço, preparando-me para ir para a escola e meu pai voltar ao trabalho. Acervo familiar.  

Outra atividade muito legal, foi quando num dia, a classe formulou perguntas para alguns artistas idosos que moravam num retiro chamado "Casa do Ator", na rua de mesmo nome e vizinha da nossa escola, pela face do enorme pátio que tínhamos. Era uma instituição que dava abrigo a artistas veteranos e sem recursos no fim da vida, ou seja, era um asilo corporativo. A maioria dos idosos que ali moravam eram artistas circenses, mas justificando o nome, haviam alguns veteranos atores, também. E o pai do meu amigo Wladimir (Sr. Orlando Chiari), fez um microfone todo estilizado de madeira, para as entrevistas serem conduzidas pelos alunos. Sentimo-nos "importantes", como verdadeiros jornalistas usando tal artefato...

E finalmente, a terceira atividade que marcou em 1969, foi quando a professora instituiu um dia para atividades artísticas entre os alunos. Seríamos artistas e plateia, uns para para os outros. Nem pensava em música, embora estivesse apreciando-a cada vez mais, mas no entanto, não tinha contato algum com instrumentos musicais.

Por isso escolhi um show de mágica, porque meu pai havia presenteado-me com um jogo de mágica chamado "Houdini", que continha um Kit com alguns truques básicos envolvendo cartas de baralho; lenços que enrolavam-se e desatavam o nó de forma surpreendente, pequenas transformações envolvendo química, como água tornando-se "vinho", mediante algum reagente "secreto"; moedas "mágicas" que desapareciam e surgiam em lugares inusitados etc etc. Minha mãe fez uma capa e uma cartola para eu usar. Treinei durante a semana inteira para não fazer feio, e lá fui eu. Mas a gritaria dos coleguinhas mais preocupados em desmascarar-me, frustrou a minha expectativa. Bem, não fui nada convincente como "mágico".

Fora disso, em 1969, o segundo ano primário foi muito tranquilo, com a segurança de estar ambientado e com uma professora muito compreensiva, que eu gostava muito. Só fiquei triste (e toda a criançada da classe), quando no último dia de aula, ela comunicou-nos que no 3º ano, que cumpriríamos em 1970, ela não estaria mais conosco e que uma nova professora daria-nos aulas. Mas assim era a vida, pessoas que entram e saem o tempo todo de nosso convívio. Expresso mais uma vez aqui o meu agradecimento à Dona Maria Tereza Rebouças da Silva, por toda a ajuda que prestou-me em 1968 e 1969, não só pelas aulas, muito importantes por si só, mas também pela sua docilidade e principalmente pelo incentivo que deu-me para escrever, percebendo o meu apreço pela atividade. Dedico os capítulos sobre 1968 e 1969 à essa bondosa professora, da qual nunca mais tive notícias e que ao elaborar tais relatos, pesquisei na Internet para saber alguma notícia sua e nada encontrei. Espero que esteja viva e bem, e também deduzo que tenha a idade octogenária, ou quase isso nos dias atuais, 2016.

Último ato do meu ano letivo de 1969, com o boletim nas mãos dos meus pais e a notificação que estava aprovado para cursar o 3º ano do curso primário em 1970, meus pais queriam comemorar a minha façanha e seguimos então para o bairro do Brooklin, onde jantaríamos num restaurante. Chovia, nesse que era um dia do início de dezembro e no cruzamento da avenida Santo Amaro com a avenida Morumbi, vimos uma senhora na ilha entre as pistas a tentar atravessar com tempo curto ante um carro que aproximava-se. Foi imprudência dela, pois ali tinha semáforo, bastava esperar, mas ela achou que dava e não contava que a pista molhada traísse-a com um escorregão. Daí foi a freada e a visão terrível de sua cabeça chocando-se com o farol esquerdo de um Karmann Ghia branco, o sangue e a chuva que não parava...

Meu pai abandonou nosso carro de imediato e foi socorrer a senhora. Uma ambulância chegou relativamente rápido e levou-a para o hospital mais próximo, e nunca mais soubemos de seu estado e nem mesmo seu nome. Só sei que meu pai usava um terno branco nesse dia, que ficou inutilizado depois do banho de sangue que levou, misturando-se à água da chuva, e nosso jantar foi cancelado. E pior que isso, a cena ficou perpetuada na minha memória.


No campo da cultura...


Ainda aproveitando o gancho escolar com o qual tratava acima, o fato de estar bem melhor alfabetizado, com o segundo ano completado, fez com que minha vida de leitor voraz intensificasse-se. Além dos gibis e dos jornais e revistas que vinha devorando desde 1968, quando juntei as sílabas primordiais e comecei a entender a linguagem escrita, os livros entraram com força na minha vida. Numa primeira instância, passei a ler a biblioteca caseira, priorizando coleções que eu já tinha desde a tenra infância, como os contos dos Irmãos Grimm, e os tomos do "Trópico", que adorava desde 1963, mas que só havia absorvido parcialmente por conta de ouvir minha mãe ler em voz alta, suprindo o meu analfabetismo. Agora, que estava independente nesse quesito reli-os, e no caso dos tomos do "Trópico", foram muitas releituras.
Acrescentando novas perspectivas, seis coleções com muitos tomos cada, entraram com tudo na minha vida entre 1968 e 1970, graças à onda de livros lançados em capítulos avulsos em forma de fascículos nas bancas de jornais, com o objetivo de serem encadernados a posteriori, com capa dura sendo vendida ao final dos capítulos entregues. Eram típicas produções da Editora Abril Cultural, que ganhei de minha madrinha, que teve a paciência de comprar os fascículos por meses a fio, encaderna-los e entregar-me prontinhos, de presente. Duas coleções eram de história; uma de geografia; outra de psicologia /comportamento / sociedade; um dicionário da língua  portuguesa bem robusto, em três tomos, e a última, histórias bíblicas, também em três volumes e um livro pequeno como complemento, trazendo biografias de santos da Igreja Católica.  

As coleções de história chamavam-se : "Grandes Personagens da Nossa História" e "Grandes Personagens da História Universal". Muito apreciador da matéria, desde muito pequeno, claro que fiquei louco com as duas coleções, que guardo com muito carinho até hoje.  

A coleção sobre geografia, chamava-se : "Geografia Ilustrada", que gostava muito, também, mas que obviamente ficou defasada muito rapidamente.  

E a mais intrigante e que coincidiu com o fim da infância e começo da chamada "pré-adolescência" (esse termo, aliás, nem era usado na época e a mentalidade usual era a de que a infância esticasse até os treze/quatorze anos e a adolescência começasse lá pelos quinze, sem fase intermediária entre as duas...), foi  : "O Livro da Vida".
Praticamente um livro enfocando aspectos da psicologia, sociologia e ciências sociais em geral, chamou-me a atenção para temas adultos, de uma forma singular.

Aprendi muitas coisas sobre o comportamento humano, do ponto de vista psíquico, lendo as matérias dessa coleção, assim como foi uma boa introdução ao estudo do funcionamento geral da sociedade.

Devo dizer no entanto, que anos depois revendo tais matérias, tornei-me crítico de muitos pontos de vista ali expressos. Não obstante ter sido publicado entre 1969 e 1970, a visão dos psicólogos e sociólogos que deram suporte aos redatores que escreveram-nas, é muito conservadora e em muitos aspectos, atacou com veemência a contracultura, sem fazer a leitura isenta, mas pelo contrário, sob preconceitos enraizados e idiossincrasia pura. Ainda bem que desenvolvi um senso crítico para separar as coisas e não aceitar assim as coisas ali ditas em vários aspectos, como uma verdade inexorável... 

Mas o importante é que os livros estavam na estante, e alfabetizado, estava desfrutando deles !!

Falando de TV...  

Bem, se "Mod Squad" era meu seriado policial predileto desde o ano anterior, nesse ano de 1969 (e assim permaneceria nos anos vindouros e eternamente, eu diria), passei a gostar também bastante de "Mannix", cujo tema musical de abertura eu reputo ser um dos mais belos da história da TV, e claro, assinado por um mestre, o compositor / maestro, Lalo Schifrin.  

"Joe 90", na mesma onda de "Thunderbirds" (filmagem com marionetes de plástico), era muito interessante, com a saga de um cientista jovem e fora de série.  

"Tarzan", com Ron Ely, apesar de destoar do Tarzan dos filmes trintistas que eu adorava (com o ator tosco, Johnny Weissmuller), era bacana e eu afeiçoei-me. Tudo bem, era um Tarzan que dirigia jipe, falava bem etc etc, mas eu gostava.

"Lancelot Link", um seriado feito com macacos estilizados como agentes secretos, era hilário. Aliás, seguindo a tendência da época, haviam aparições de bandas de Rock com chimpanzés como componentes...

"The Flying Nun" ("A Noviça Voadora"), foi sem dúvida um dos mais adocicados e tolos seriados já produzidos, e naturalmente que não tinha um mote que agradasse-me integralmente, mas apesar de seu excesso de candura, acabei gostando da atrapalhada irmã Bertrile (Sally Field). "Daktari" e "Jim das Selvas" também entraram no meu cardápio de seriados de aventuras. 


E "Night Gallery" ("Galeria do Terror"), entrou para o rol de favoritos. Se já adorava "The Twilight Zone", era mais do que natural que seguisse com entusiasmo outra série de Rod Serling, e mesmo sendo menos Sci-Fi e mais terror, gostava imensamente daqueles contos com atmosfera lúgubre, muito semelhantes aos filmes da produtora britânica, Hammer, embora fosse um produção americana.  

Muitas séries mais antigas e que estavam na grade da TV em reprise, passei a gostar, também. Apesar de ser um dramalhão quase em tom folhetinesco de novela, gostava de "Peyton Place" ("A Caldeira do Diabo"), que quando descobri, achei ser algo relacionado ao terror, por conta de seu nome, mas logo notei que tratava-se de mais um título ridículo que um "gênio" do marketing inventou, destoando completamente do título em inglês. Na verdade, era uma alusão ao fato da série ser ambientada numa minúscula cidade interiorana americana, e haver uma rede de fofocas e intrigas entre seus habitantes. Em suma, quase uma novela mexicana, mas tudo bem, Mia Farrow bem novinha fazia tudo valer a pena...

Caso também de "O Santo", uma série que eu já gostava em 1965, mas que voltei a assistir em 1969. E claro, "The Avengers", uma série britânica sensacional, calcada em espionagem.
"Garrison's Gorillas", sensacional igualmente, por ser ambientada na Segunda Guerra Mundial e inspirada no filme "The Dirty Dozen", onde soldados degenerados recebem o perdão de seus crimes ao formarem um esquadrão para missões de alta periculosidade. Bem, seriado ambientado na Segunda Guerra Mundial, nem precisava ser bom para eu gostar...

Quando a TV Record anunciou que "Lost in Space" ("Perdidos no Espaço"), sairia do ar e uma nova série de Irwin Allen a substituiria, fiquei muito contrariado. Como assim não vai passar mais ?? E nessa época, nem sonhávamos com videocassete, que mal haviam sido lançados na América e no Brasil entrariam no mercado só em 1982...portanto, e agora ? Nunca mais vou ver o Dr. Smith ??  

Então, quando os primeiros episódios de "Land of the Giants" ("Terra de Gigantes"), começaram a passar, confesso que assisti-os com uma certa birra e não dando o braço a torcer, dizia que não gostava...  

Cheguei a adquirir raiva do personagem "Fitshugh"(interpretado por Kurt Kasznar), pois não admitia que um vilão "inferior" substituísse o meu querido Dr. Smith (Jonathan Harris)...
Claro, com o tempo fui deixando de lado a má e tola impressão e assim, apreciando a saga dos passageiros da "Spindrift", que queriam apenas viajar de Los Angeles à Londres naquela nave supersônica do "futuro de 1983"...e foram parar num planeta igualzinho à Terra, mas com um detalhe : todos são gigantes e os terráqueos, "Little People", ou "pequeninos" como a dublagem em português traduziu e imortalizou entre nós...  

Não é a minha série predileta do Irwin Allen, continuo achando as demais que já citei amplamente em capítulos anteriores, melhores, mas gosto bastante de Terra de Gigantes e inevitável, quando coloco para funcionar os  DVD's dos dois Box Set que possuo com a série completa, assisto os capítulos com muita nostalgia dos domingos de 1969 e 1970.

Em 1969, acompanhei e apreciei muito uma série ambientada no velho oeste (mais uma...), chamada "High Chaparral". Sei que já elogiei muitas trilhas de seriados, mas devo ressaltar que o tema de abertura de "High Chaparral", é de uma beleza ímpar, com "cara" de Western, e muito vibrante, tanto quanto "Bonanza".  

Em termos de desenhos animados, estava conhecendo e apreciando coisas como : A Corrida Maluca; Breezly & Sneezly; A Família Buscapé; a safra da Deppatie-Freleng (A Formiga e o Tamanduá; Tijuana Toads; Rolland and Rattfink etc), foram animações que acompanhei. 

 Sobre filmes na TV, nessa altura, fim de década, a produção sessentista mais recente também já era exibida na grade da TV, embora as sessões com filmes clássicos das décadas de vinte em diante, continuassem passando fartamente. Filmes feitos quase em tom de seriado, com curta direção, como os enfocando Sherlock Holmes (com Basil Rathbone fazendo o Sherlock, que era um ator que eu reconhecia dos filmes de "capa e espada" dos anos trinta, e quarenta), e Charlie Chan, ou seja, dois personagens sensacionais da literatura policial em filmes das décadas de trinta e quarenta, ótimos.  

E foi por volta de 1969 que também comecei a ter contato com filmes de arte europeus, mas pela via da TV. Assisti filmes de Fellini e Truffaut na TV.  

Um filme que era na verdade dos anos cinquenta (falo do remake de 1959, pois tal história já havia sido realizada como filme, nos anos trinta), e que quando foi exibido na TV Excelsior em 1969, gerou comoção além do normal, foi "Imitation of Life" ("Imitação da Vida"), um drama de bom nível, é verdade, contando a saga de uma mulher e sua filha tentando sobreviver e com a ajuda da empregada doméstica e também mãe de uma menina da mesma idade da filha da patroa, que acabam sendo criadas juntas. Então elas ficam ricas, pois a empregada acaba criando uma panqueca de receita inimitável e que industrializada, faz enorme sucesso. Até aí nada demais, mas o conflito racial por conta da filha da empregada que sendo mulata quer ser tratada como "branca", dá a tensão ao filme, pois ao maltratar a própria mãe, causa a comoção. O enterro da mãe negra, ao estilo dos cortejos fúnebres de New Orleans gerou choradeira e de fato, a audiência naquela noite foi tão expressiva que foi motivo de notas nos jornais, no dia seguinte. "São Paulo chorou", como disse o apresentador "Bolinha", ao ver a arrependida personagem Sarah Jane correndo aos prantos atrás do caixão de sua mãe. Sinceramente, gosto mais da versão dos anos trinta (1934, para ser preciso), com Claudette Colbert, mas essa versão mais melodramática é boa, também, apesar dos excessos. 

Lembro-me com saudade das sessões de filmes épicos por ocasião da Semana Santa de 1969. Ter visto canastrões como Victor Mature e Charlton Heston fazendo heróis bíblicos, é uma lembrança boa desse ano.  

Adorava assistir os filmes Western de um ator chamado Audie Murphy, e tornei-me ainda mais seu fã quando descobri que ele era um herói de guerra "de verdade", condecorado e tudo, que tornara-se ator por acaso.  

Também foi por volta de 1969 que assisti meus primeiros filmes do Alfred Hitchcock. Fiquei louco por "Saboteur" ("Sabotador"), e ""Dial M for Murder" ("Disque M para Matar").  

Sobre "Saboteur", escrevi resenha no Meu Blog 1. Eis o Link abaixo para checar minhas impressões sobre tal obra : 

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/06/saboteur-hitchcock-teoria-da.html 

Tornei-me muito fã do ator Sidney Poitier, vendo alguns de seus filmes que já passavam na TV, de sua filmografia de fim de anos cinquenta e início dos anos sessenta, mesmo caso dos filmes do Jerry Lewis e da "Turma da Praia", com Frankie Avalon & Cia, produções do começo da década e claro, a filmografia do Elvis até então, incluso "King Creole", que é o meu predileto.

Um programa muito soturno, e que beirava o mau gosto pelo seu caráter de um verdadeiro "Tribunal da Inquisição", foi uma atração da TV Record que chamava-se "Quem Tem Medo da Verdade" (?). Com um tom perverso, um promotor atacava um réu, que era sempre uma personalidade do mundo artístico, social ou esportivo e mesmo que seu "advogado" (geralmente uma celebridade, igualmente), argumentasse bem, o tribunal do júri quase sempre condenava a personalidade, num tom sombrio, carcomido de preconceitos.

Escrevi uma matéria falando dessa atração de mau gosto na TV, trazendo mais detalhes, no meu Blog 1. Eis abaixo o Link para saber mais disso :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2015/05/quem-tem-medo-da-verdade-por-luiz.html
                         O controverso jornalista, Clécio Ribeiro

Outro programa polêmico que surgiu nesse ano de 1969, foi comandado por um jornalista chamado Clécio Ribeiro. Sujeito temperamental e conhecido pelas grosserias (era um dos "jurados" mais agressivos de "Quem Tem Medo da Verdade", que citei acima). Nessa atração que apresentava na TV Bandeirantes, seu foco era "provar" todas as evidências que fomentaram a lenda urbana que o baixista dos Beatles, Paul McCartney, havia morrido em 1966, e que a banda estava desde então com um sósia em seu lugar. A lenda urbana existia de fato e a quantidade de supostas evidências era enorme, contidas em diversos "sinais" espalhados pelas capas dos discos, nas músicas em si e nos promos da banda para o cinema e TV. Clécio exaltava-se com as capas dos discos e fotos na mão, colocava trechos de músicas que teriam "mensagens codificadas" e mediante seu estilo agressivo, segurava a audiência, semanalmente nessa ladainha.

Sobre essa lenda urbana, também produzi uma matéria, aliás enorme, e que obrigou-me a desmembra-la em três capítulos. Eis abaixo o Link dos três capítulos, para saber dessa história, com detalhes. Depois conte-me se acredita que o Paul McCartney morreu em 1966, e esse sujeito que está vivo e fazendo shows até hoje lotando estádios de futebol, é na verdade um sósia chamado, Billy Sheers...

McCartney Vivo ou Morto - Capítulo 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/05/mccartney-vivo-ou-morto-parte-1-por.html 

McCartney Vivo ou Morto - Capítulo 2 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/05/mccartney-vivo-ou-morto-parte-2-por.html 

McCartney Vivo ou Morto - Capítulo 3 : 

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/05/mccartney-vivo-ou-morto-parte-3-por.html

Um programa exibido na TV Cultura, também despertou-me a atenção. Mesmo sendo criança ainda, já admirava e queria entender o mundo dos adolescentes. E nesse programa, chamado "Jovem Urgente", apesar das conversas serem meio pesadas para o meu caso, tendo só 9 anos de idade na ocasião, gostava de ver as questões levantadas pelo psiquiatra Paulo Gaudêncio, como mediador, questionando uma plateia de jovens sobre assuntos tabu, como sexo; relação com os pais; rebeldia; drogas etc etc. Ousado demais para 1969 e com a ditadura militar entrando no seu pior momento, era inacreditável que tenha ido ao ar e durado um certo tempo, até. Mas papo cabeça a parte, o que eu gostava mesmo era ver as atrações musicais. Ali tocaram os Novos Baianos; Mutantes e outros artistas ditos "jovens" e isso era sensacional...

Já que falei sobre música... 

Em 1969, minha aproximação com o Rock já era forte. Através das ondas da Rádio Excelsior, novas descobertas ia fazendo, além de tudo o que já sabia acumulado dos anos anteriores em que vinha acompanhando. Nessa altura, já tinha conhecimento do som e das figuras de Jimi Hendrix e Janis Joplin e achava incríveis os seus sons que ouvia na rádio e também o visual ultra hippie que via nas fotos. 

Descobri também o som de "Sly and the Family Stone", e claro, foi uma das descobertas que fizeram com que eu criasse um vínculo eterno de admiração com essa banda que eu adoro.

"Shocking Blue" com a incrível vocalista Mariska Veres; a banda grega "Aphrodite's Child"; e o "Steppenwolf"  cujo compacto contendo "Born to Be Wild", meu primo mais velho possuía e um dia vendo o meu interesse que era maior que o dele, acabou doando-me, são exemplos de descobertas que fiz em 1969.
Os Mutantes já eram realidade no meu rol de predileções. Nessa altura, "Ando Meio Desligado" já tocava bastante, assim como outras músicas e claro que adorava os comerciais que eles fizeram para a Shell, na época. Aliás, eu relacionava as imagens dos comerciais, cheia de energia Rocker e jovem, aos seriados de "The Mod Squad", que eu adorava, pois era a mesma formação afinal de contas : três freaks, uma moça linda e dois rapazes cabeludos.

No bojo, muita música pop descartável também vinha para a minha audição, mas ouso dizer, até o pop comercial da época tinha seus encantos. E aos poucos, ia tomando conhecimento dos grandes nomes do Rock.

Quatro notícias envolvendo o mundo do Rock e da contracultura em geral, foram amplamente divulgadas na imprensa e eu recebi-as com muita atenção.

1) O novo disco dos Beatles saiu e com uma capa inusitada e que parecia uma ideia banal na época, mas que ninguém, muito menos eu, poderia imaginar que aquilo seria uma das capas mais icônicas não só da história do Rock, mas da música em geral e da indústria fonográfica. O Fab Four atravessando a rua em direção ao estúdio Abbey Road, onde gravaram todos os seus discos, em Londres. "Só isso"...


2) Para reforçar todo o tipo de ataque ao movimento Hippie; contracultura; cultura pop & afins, a morte bárbara da atriz Sharon Tate e alguns amigos, durante a invasão de sua residência, por um grupo de fanáticos dispostos a trucidar pessoas inocentes em prol de...de...o que mesmo pregavam esses sádicos imbecis ?? Pois é, era uma seita maluca denominada "Família", liderada por um psicopata chamado Charles Mason e que dizia ouvir vozes a dar-lhe instruções para afrontar o sistema e que as mensagens que captava eram sinais subliminares que descobria nas letras de canções dos Beatles, notadamente músicas do LP "White Album" de 1968. Usando o sangue de suas vítimas, escreveram trechos de letras desse disco pelas paredes da mansão de Sharon Tate, que na época era casada com o cineasta polonês, Roman Polanski. 


Pronto...era tudo o que a imprensa conservadora precisava para cair de pau nos hippies, pois Manson e seu bando de abduzidos tinham visual de hippies, além de toda essa loucura sobre as letras das canções dos Beatles, e certamente seriam doidões alucinados e incontroláveis, movidos a LSD e outras drogas bem identificadas / estigmatizadas com a imagem dos cabeludos em geral etc etc.
Foi um duro golpe para o movimento, ser confundido em seus propósitos por conta de uma cambada de criminosos psicopatas...

3) Sim, em agosto, a imprensa noticiou o Festival de Woodstock. Muito incomum darem esse tipo de notícia, primeiro pelos motivos óbvios, e em segundo lugar, porque ao contrário de "Festivais de Rock" da atualidade, que são ultra comerciais e mais parecem-se com uma lanchonete dessas americanizadas que tem em toda esquina, ali, havia uma pureza de propósitos absoluta e portanto, não havia essa ideia mercantilista em cima do Rock. Ali era um Festival com ideais culturais pura e simplesmente e o fato de ter atraído mais de 500 mil pessoas de forma incrivelmente surpreendente e espontânea, com uma plateia formada por Hippies, chamou muito a atenção. Claro, comentários em tom de desaprovação foram a maioria e aos nove anos, já tinha uma certa percepção de que os comentários não procediam e eram em 99% , fruto de ignorância; preconceito ou por professar interesses contrários. 

4) Quando a peça "Hair" foi encenada no Brasil em 1969, gerou uma polêmica incrível na imprensa. Falar sobre Movimento Hippie; Cabeludos; Rock; Drogas, desobediência civil; protestos anti guerra do Vietnã e a questão do "amor livre"chocou a conservadora sociedade brasileira e com a agravante de estarmos em plena fase de endurecimento total da ditadura militar de direita.

Revolucionária ao extremo, a peça driblou todas as adversidades e foi um sucesso tão grande no Teatro Aquarius de São Paulo, que sobrepujou toda a onda de críticas.

Claro que chamou-me a atenção essa movimentação toda e apesar de que eu demoraria um bom tempo para conhecer a peça em seu teor e decorar as músicas (que adoro), na época, além de tudo isso, as regravações das músicas do espetáculo por artistas do universo pop, só reforçou a minha simpatia por "Hair".

Um exemplo dos mais significativos seria a versão de "Aquarius" e "Let's Sunshine in", duas canções fortíssimas da peça, que o quarteto vocal de Soul Music, Fifth Dimension lançou, que eu adorava ouvir no rádio e que também logo pude assistir como promo de TV.

Ouça / veja abaixo a versão do Fifth Dimension para as duas músicas que citei acima : 

Sobre "Hair", peça teatral de 1968, com 1ª montagem brasileira de 1969, e filme de 1979, escrevi uma matéria em 2011 para o Blog do Juma. Eis a republicação em meu Blog próprio, em 2012, com o Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/01/hair-deixe-luz-do-sol-brilhar-por-luiz.html

Simonal, que eu já gostava desde 1966, vendo-o constantemente na TV, estava explodindo em 1969. E agora eu gostava ainda mais, porque ele estava ainda mais perto dos signos que estavam influenciando-me. Mais perto da Soul Music do que do Samba-Jazz que notabilizara-o antes, ficava ainda mais atrativo ao meu gosto, fora o visual que também estava mais jovem, com bandana na cabeça, parecendo hippie. Gil e Caetano estavam em Londres, mas Tom Zé estava aí e era o doido da vez.

Comecei a prestar atenção numa cantora baiana de voz incrível e com uma postura super hippie, chamada Gal Costa. Adorava ver suas performances na TV, acompanhada por músicos freaks, numa loucura só. 

Minhas primeiras alegrias no futebol vieram em 1969...
Acompanhando agora conscientemente o futebol, foi nesse ano, tardiamente eu sei, que comecei a interagir com a bola, nas brincadeiras com amiguinhos.

E estava atrasado em relação aos demais, pois a maioria dos meninos da minha idade já tinha uma técnica de domínio dos fundamentos, e eu não. Demorei para melhorar no trato à bola.
Em 1969 e 1970, eu era considerado "grosso" pelos amiguinhos e eles tinham razão, eu era mesmo. Só fui esboçar melhorias em 1971, por conta de ter esforçado-me para melhorar minha técnica,
e só lá por 1973, senti-me apto para competir em igualdade de condições, tecnicamente falando.

E em 1969, tive minha primeira alegria verde, conscientemente, também...Palmeiras, Campeão Brasileiro de 1969...e vamos para a Libertadores de 1970... 

A notícia da morte de Cacilda Becker, uma atriz muito celebrada no meio teatral, teve grande projeção na imprensa. O fato de ter passado mal durante uma performance no palco, só engrandeceu o imaginário geral, dando conta de que morrera exercendo sua arte com a máxima dignidade possível. Meu conhecimento sobre tal artista restringia-se aos teleteatros que a vi encenar na TV Bandeirantes no ano anterior, 1968, e através de reprises de um filme que ela fez nos anos cinquenta, "Floradas na Serra", que aliás, gosto muito.

Perdidos no Espaço havia saído da grade da TV, por ter encerrado sua 3ª e derradeira temporada. Mas em 1969, ainda era tão forte a sua fama entre crianças e adolescentes, que um álbum de figurinhas causou furor nas bancas.

Meu pai comprava pacotes e mais pacotes para o meu deleite e claro que a excitação pela expectativa em abrir cada pacotinho e achar uma figurinha rara, foi um dos prazeres infantis mais incríveis que guardo na memória. Colar uma a uma no álbum, usando goma arábica, fazendo aquela sujeira incrível e deixando as mãos inteiramente meladas, fora o forte odor da cola que impregnava-se na roupa para desespero da minha mãe, são lembranças muito queridas. Bem, acho que consegui dar um panorama geral do que o ano de 1969 representou na minha vida.

Agora era seguir em frente, um pré-adolescente com múltiplos interesses, em franca expansão cultural a encarar a chegada de 1970...pra frente, Brasil...mas...onde está o motor da Variant, hein, Rogério Cardoso ??

Continua...

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