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quarta-feira, 15 de junho de 2016

1967, A Explosão Hippie Aqui e Agora - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues

 

Chegou o ano de 1967, e claro que eu não sabia, mas seria o ano da explosão sessentista total. Se fosse enumerar a quantidade de coisas importantes que aconteceram nesse ano, seria válido para compor este capítulo, mas para não fugir ao padrão dos anteriores, só vou comentar o que impactou-me diretamente, como criança que era, aos sete anos de idade e não vivenciando com toda a potencialidade como eu gostaria de ter absorvido.  

Falando da minha percepção pessoal, claro que os respingos foram grandes e mesmo sendo criança ainda e rodeado de adultos antipatizantes de todas essas coisas referentes à cultura Pop; contracultura; arte em geral e a música dita "jovem", com o Rock na linha de frente e em voga. Indo direto ao assunto então...  
                       Eu, Luiz Domingues, em foto de 1967.

Muito bem adaptado ao bairro da Vila Pompeia, em 1967 estava determinada a minha inserção na vida escolar. Nessa época, eram muito poucas as crianças que tinham experiência de pré-escola antes de entrar no ensino fundamental oficial. Claro que já existiam escolas infantis, mas a mentalidade arraigada na sociedade fazia com que a maioria das crianças só fossem para a escola aos sete anos de idade e analfabetas, começando da estaca zero o processo de alfabetização. Poucas tinham tal processo já adiantado por terem frequentado o curso de "pré-primário" aos seis anos, e mais raras ainda as que tinham experiência de socialização prévia, adquirida em estágios vivenciados em escolas infantis, chamadas pelo imaginário popular da época, como "Jardim da Infância".
E foi o meu caso, não tendo frequentado essas escolas infantis informais, indo direto da vivência caseira / familiar para o banco escolar formal, mas, um fato burocrático e desagradável, impediu que isso fosse feito no seu prazo normal, portanto, não foi em 1967 que iniciei minha vida escolar, como deveria ter ocorrido, mas em 1968, no ano seguinte.  
Eu, Luiz Domingues em outra foto de 1967. O "Verão do Amor" pegando fogo em 1967, e eu só era um molequinho brasileiro, distante da contracultura, mas sutilmente absorvendo-a, apesar da pouca idade, e da total falta de proximidade com os acontecimentos artísticos / estéticos e comportamentais envolvendo a contracultura, via Rock. 

Ocorreu que uma determinação nova da secretaria estadual de educação, passou a vigorar em 1967, e dando conta de que só aceitaria a inserção no sistema escolar, de crianças com sete anos completos quando do prazo estipulado para matrículas, ou seja, em em janeiro desse ano que se iniciou. Não faço ideia qual teria sido a motivação adotada pelo Estado de São Paulo para tomar tal atitude, mas só sei na prática que qualquer criança nascida de fevereiro a dezembro de 1960, não pode ser matriculada em 1967, dessa forma, prejudicando-as. Foi o meu caso e graças à isso, só fui poder ser matriculado em 1968, alfabetizando-me tardiamente, com 7 anos e meio, passando para o segundo ano primário com 8 e meio, e assim sucessivamente, sempre de forma fragmentada na minha cronologia escolar.  
Luiz Domingues em foto de 1967, com mamãe Maria Luiza e papai Milton.
 
Foi chato, minha mãe ficou bem contrariada com a recusa de minha matrícula na secretaria da escola, mas teve seu lado bom, porque ao entrar enfim, coincidiu com outra mudança residencial da família, e assim, fui construir minha iniciação escolar em outro bairro, localizado num outro quadrante da cidade e portanto, marcou uma nova fase para mim. Bem, isso é assunto para o próximo capítulo. Por enquanto, o que importa aqui é que não comecei a estudar em 1967, e ao não frequentar as aulas no colégio, que chamava-se Grupo Escolar Experimental Dr. Edmundo de Carvalho (nos dias atuais a escola foi rebatizada como Escola Estadual Raul Cortez, em homenagem ao saudoso ator), decretou-se involuntariamente que não fincaria raízes ali naquele bairro, no âmbito escolar, mas em outro bairro, que nessa época eu nem sonhava que iria ser meu novo lar.  
                          Luiz Domingues, em foto de 1967 

Fora disso, nesse ano eu recordo-me muito de ter bastante interação com o bairro. Aos sete anos e num esforço de fomentar a minha socialização, como esforço educacional da parte dos meus pais, já realizava tarefas prosaicas como ir à padaria da esquina das ruas Clélia e Tibério, comprar pão e leite para a família, e outras pequenas compras em estabelecimentos comerciais do entorno de casa.
Foto de pouca qualidade extraída da doceria Pólem da Rua Clélia, e moderna, como encontra-se nos dias atuais. Quando inaugurou em 1967, pertencia à uma família argentina que vendeu-a ao atual proprietário, em 1972. 

Era também um prazer visitar a doceria Pólen, no mesmo quarteirão, em frente praticamente ao meu prédio, recém inaugurada em 1967 (e que está lá até hoje, 2016), quando tornou-se habitual, com meu pai comprando tortas e doces de várias espécies, devidamente degustados em frente ao monitor da TV, assistindo "Perdidos no Espaço"...  

Outro hábito adquirido eram jantares em restaurantes das redondezas, com a família. Haviam vários, apesar da Vila Pompeia ser um bairro bem residencial. Entre os prediletos, tinha uma pequena cantina na Rua Clélia, bem perto de casa, acessível mediante uma curtíssima caminhada, e outro restaurante maior (e que existe até os dias atuais, 2016, se bem que com outra denominação), na avenida Pompeia, no cruzamento com a Rua Desembargador do Vale.  

Visitas ao Cine Nacional da Rua Clélia tornaram-se rotineiras, e ali, filmes épicos bíblicos, ou de motivação histórica em geral, além de comédias malucas do Jerry Lewis, foram vistos com profusão. 


Foi em 1967 também que visitei uma sala de cinema diferenciada, chamada "Comodoro", ou "Cinerama" no imaginário popular. Tal sala era gigantesca e contava com o que havia de mais moderno em tecnologia para a época, com uma tela panorâmica em curvatura, sendo necessário três projetores simultaneamente para o seu funcionamento perfeito, além de dois operadores de áudio para garantir o stereo. Estava preparada para exibir filmes em 3D, Panavision e Cinemascope. Era portanto ideal para exibir filmes épicos, mostrando grandes batalhas ou desastres, com imagens arrebatadoras e som potente, envolvendo o espectador dentro do filme, propriamente dito.  

Uma pena, ao invés de um filme de guerra ou histórico, com batalhas para aproveitar bem essa super experiência sensorial, meus pais escolheram ver uma comédia infantojuvenil, bem mais amena, mas bacana, chamada "Dr.Dolittle", produção americana, mas ambientada na Inglaterra, contando a história de um veterinário com ares de cientista maluco (interpretado pelo ator, Rex Harrison), e que conseguira "decifrar" a linguagem dos animais ao falar com eles em seus "idiomas" respectivos. Não é nenhuma maravilha, mas foi bacana assistir naquela tela inacreditável e sob um som incrível, com os ruídos dos animais vindos de toda parte, graças ao stereo bem equilibrado na sala de exibição.  

Visitas em outras salas de cinema espalhadas pela cidade também tornaram-se rotineiras. Lembro-me de frequentar o Cine Astor do Conjunto Nacional, ambos na avenida Paulista, geralmente em sessões noturnas e dominicais, após o jantar. 

Enquanto isso, minha ligação com a sétima arte via TV, prosseguia firme e forte, cada vez mais. Uma das lembranças mais sensacionais que tenho desse ano de 1967, foi a da exibição de um filme com cenas fortes e creio que inapropriadas para crianças, mas que meus pais não preocuparam-se em deixar-me ver. Chamado "O Caso dos Irmãos Naves", obra prima do cineasta paulistano Luiz Sérgio Person, e que até hoje ninguém explicou-me como pode ter sido exibido na TV, no próprio ano de seu lançamento, coisa muito incomum para a época, mas sobretudo pelo seu teor, com a abordagem de uma história real, ocorrida em Minas Gerais nos anos trinta, dando conta de dois irmãos acusados injustamente de um crime de roubo, no qual eram as vítimas em realidade, e pior que isso, sendo barbaramente torturados e humilhados para confessarem um crime do qual não haviam praticado, mas na verdade, eram vítimas. Assistindo aquele filme com cenas chocantes, mas indignado pelo fato de estar verificando um ato de injustiça insuportável diante de meus olhos, essa exibição impressionou-me em demasia e além de ter tornado-me doravante um fã da filmografia de Luiz Sérgio Person, tal história só veio a reforçar o meu sentimento arraigado de repúdio à injustiça.  

Fora desse evento que foi impactante ao extremo para mim, filmes de várias vertentes e nacionalidades continuavam a encantar-me sobremaneira. Inclusive filmes brasileiros de décadas anteriores, mais notadamente os filmes da década de cinquenta, também eram exibidos com constância. Passei a ser um fã de diretores como Watson Macedo; Alex Viany; Roberto Santos e toda a filmografia da Vera Cruz, uma produtora cinquentista que entrou no mercado para imitar os grandes estúdios americanos e mesmo não tendo o mesmo montante de recursos que seus pares hollywoodianos, fez bonito, lançando filmes históricos e muito bem acabados.

Já que citei a TV, minha paixão por seriados; animações; filmes, programas musicais e os noticiários, intensificava-se. Em 1967, além de tudo o que já gostava e seguia (algumas atrações, há anos), muitas novidades recém lançadas ou que já existiam, mas só descobri ali, incorporaram-se.  

Um dos seriados que mais gosto, é de 1967, e fazia com que esperasse ansiosamente pela chegada das noites de quinta. Adorava "The Invaders" ("Os Invasores"), uma história Sci-Fi sensacional sobre uma invasão da parte de uma civilização alienígena, com o objetivo de dominar a raça humana, para que eles pudessem tomar o nosso Planeta como seu, visto que o mundo deles estava em vias de extinção. "Disfarçados" como humanos, estavam espalhando-se sorrateiramente para exercer um domínio brando, sem violência, mas aptos a serem violentos se fosse necessário. Somente um homem percebeu essa conspiração e desesperadamente tentava convencer as autoridades sobre esse maquiavelismo de alienígenas infiltrados e claro, ninguém acreditava nele, tomando-o como a um lunático. Angustiante ao extremo, é mais levado na base da teoria da conspiração do que num show Sci-Fi tradicional, mas claro que tem esse lado extraterrestre em alguns aspectos vez por outra, com a descoberta de bases dos alienígenas; naves e maquinários / armas deles.  

David Vincent presenciando um alienígena evaporando sob uma luz vermelha que eliminava seus corpos em caso de morte, na primeira foto. Abaixo, um dos alienígenas desaparecendo da maneira citada. 


O arquiteto David Vincent (interpretado pelo ator, Roy Thinnes), deixa de lado sua vida profissional e pessoal e o seriado mostra, capítulo a capítulo, sua luta para desmascarar os alienígenas e convencer as autoridades sobre a invasão em curso, e isso quando não fala com generais ou senadores que são alienígenas infiltrados e claro que faziam de tudo para sabotar Vincent e tentar tirá-lo de circulação. Marca registrada e que a molecada adorava, toda vez que conseguia matar um alienígena, este desintegrava-se, algo proposital da parte deles mesmos, que não queriam deixar vestígios e provas de sua existência e uma marca indelével : por uma falha tecnológica da parte "deles", todo alienígena tinha um dedo da mão, duro, sem mobilidade. Era uma forma de Vincent detectar se o suspeito era humano ou não.  

 

Eis acima, o tema de abertura e mais vários trechos de música incidental usada na trilha de The Invaders em duas partes. Sombria, tensa e nada "Peace & Love", em contraste com a good vibe aquariana da explosão Hippie em erupção de 1967, mas bela, sem dúvida alguma. Composição e arranjos de Dominic Frontiere. 

Enfim, uma produção da Quinn Martin, que geralmente produzia seriados de teor policial, mas que fez esse Sci Fi sensacional, angustiante, mas do qual sou fã eterno. E a trilha sonora é sensacional, incluso a sonoplastia para os objetos; as naves dos alienígenas, e o tema musical de abertura que é assustador, mas lindo.   


Outros três seriados envolvendo espionagem e teoria da conspiração que eu gostava muito nesse ano e nos posteriores, foram "The Wild Wild West" ("James West"); "Get Smart" ("O Agente 86"), e "Mission : Impossible" (Missão Impossível"). Um era ambientado no velho oeste e chamava a atenção exatamente por ter esse mote anacrônico com as histórias montadas como pensava-se sobre o tema no século XX, mas tudo ambientado e adaptado às condições do velho oeste americano do século XIX, onde tudo o que envolvia tecnologia, era na base de engenhocas construídas com os meios da época. Fora a elaboração de diálogos mordazes dos personagens principais e vilões; música espetacular e o glamouroso modo de frisar em "still" os ganchos antes dos breaks comerciais, com a cena sendo transposta para uma ilustração igual, mas estilizada como arte do século XIX, e ambientada no universo a evocar os famosos "gamblers", jogadores de poker profissionais que passavam pelas cidades para ganhar dinheiro nas jogatinas dos saloons... Já o outro seriado ("Agente 86"), era igualmente genial mas totalmente baseado no humor a satirizar os  filmes de agentes secretos, notadamente James Bond, o maior ícone sessentista do gênero. Inacreditável como era simpático o ator protagonista, Dom Adams. E finalmente, "Mission: Impossible"("Missão Impossível"), absolutamente mirabolante, com o clássico mote da instrução em forma de fita que auto destruiria-se em segundos; a música tema sensacional e aquele clima de suspense por ver a equipe realizando missões literalmente impossíveis para desbaratar organizações criminosas e conspiradores contra o governo, com soluções inacreditáveis. Esse era um seriados prediletos do meu pai na ocasião, e a lembrança de o assistirmos juntos e vibrando em ver aquelas loucuras engenhosas é das mais saudosas para mim.

Big Valley, um seriado classudo e ambientado no velho oeste, também apreciava bastante nessa época, assim como "Run for Your Life" ("Alma de Aço"); e "Gentle Ben" ("Ben, o Urso Amigo").

Reprises de seriados mais antigos como "The Abbott & Costello Show" (feito para o cinema, nos anos 1940), além de seriados dos anos cinquenta, passavam em profusão e claro que os apreciava. "As aventuras de Robin Hood"; Zorro; As Aventuras do Super Homem (de 1951), e uma série policial sensacional como "Naked City" ("Cidade Nua") : -"existem 8 milhões de pessoas em Nova York...8 milhões de histórias"...


Mas uma série em específico ficou queridíssima. Era uma produção do ano anterior, mas como quase tudo chegava no Brasil com um ano de atraso, normalmente, só comecei a acompanhá-la em 1967. Enquanto os americanos assistiam a segunda temporada e já estavam apaixonados por uma série, é que começávamos a vê-las por aqui, na sua primeira temporada. Raros os casos de defasagem menor ("The Invaders" foi uma exceção na época, que eu lembre-me). Portanto, o Batman que impactou-me primeiro, não foi o sombrio, original e clássico dos gibis da DC Comics, e aqui no Brasil lançados pela editora Ebal, mas sim o da série de 1966, sendo bufão; caricato, e absolutamente inadequado para quem gosta do personagem original sério, mas é tão genial que tornou-se icônico nos anos sessenta.

Absolutamente anárquico, com corte de edição "modernérrimo" e ultra psicodélico, o Batman de Adam West, e o Robin, de Burt Ward é que arrebatou-me fortemente pela estética e pela loucura total de sua produção e maneirismos mega pop.

Tudo ali era sixties "pacas", absorvendo e jogando tudo no ventilador para impregnar-se pelas paredes. Roteiros malucos; inverossimilhança total; música genial; figurinos os mais doidos; vilões geniais, a onomatopeia dos ruídos das brigas em balões a imitar a linguagem dos gibis...tudo ali era genial demais, apesar da produção beirando o trash total.
Uma hora eu vou escrever uma matéria grande sobre a série Batman de TV, e ressaltar a enorme quantidade de astros veteranos do cinema que interpretaram essa galeria incrível de vilões. Na segunda foto, por exemplo, que luxo ver o diretor Otto Preminger, um loucaço inveterado, interpretando o vilão "Mr. Freeze" ("Senhor Gelo"). Nessa foto acima, contracenando com a atriz Dee Hartford como sua cúmplice e vilanesa. Dee Hartford era atriz de confiança de Irwin Allen, tendo atuado em todas as suas séries. Em "Perdidos no Espaço", por exemplo, interpretou a inesquecível "Varda", uma androide que gerou ciúmes no Robot da família Robinson...

Além de tudo, a quantidade absurda de astros de cinema, muitos veteranos dos anos trinta e quarenta, como atores convidados e geralmente fazendo vilões incríveis, asseguravam que realmente não tinha como não adorar tudo aquilo, e que perdoem-me os fãs do "verdadeiro" Batman (como o personagem foi criado e concebido, soturno e sombrio), mas eu vou de Adam West..."Santa Ignorância, Batman" !!

Mais uma série de Sci-Fi que tornou-se paixão eterna..."Star Trek", "Jornada nas  Estrelas" e aquelas aventuras incríveis vividas a bordo da Enterprise. Queria muito ser teletransportado para dentro da nave pelo "senhor Scotty", e aventurar-me ao lado do Capitão Kirk; Sr. Spok; Dr. "Bones" e toda aquela tripulação incrível. E aquele tema musical de abertura, hein ? Vocalise humano, theremim ou sintetizador nos seus primórdios, o que é aquilo ?? Bem, como diria o Sr. Spock : -"Fascinante"...  

E outro grande marco de 1967 para um menino de sete anos de idade, foi a campanha que uma indústria petrolífera fez com a Marvel, onde a cada "X" litros de gasolina, o cliente ganhava um boneco de um Super Herói da Marvel. Mais que isso, tal campanha alavancou o lançamento de cinco heróis Marvel no mercado editorial brasileiro, que foram lançados simultaneamente em edições históricas de suas respectivas revistas solo (pela editora Ebal), e concomitante, estavam atrelados ao lançamento do desenhos animados de cada um, na TV brasileira, no caso a TV Bandeirantes de São Paulo, Canal 13, que estava recém inaugurada, e anunciou tal novidade sensacional na sua grade infantil.  

Com um bombardeio desses, é claro que fui fisgado e massacrei meu pai diuturnamente para somente abastecer o carro da família nessa rede de postos. Também passei a ganhar todo mês a edição da revista de cada herói Marvel; colecionei os bonecos, e tornei-me fã dos desenhos na TV. Cabe salientar que tais animações, que eram produções de 1966, tinham uma peculiaridade que era criticada ou ironizada pelos adultos em geral, mas que era o seu verdadeiro charme, e tinha um propósito concreto. Eram desenhos com o mínimo de movimentos, como os desenhos normais, praticamente reproduzindo em frames / stills, as tiras das histórias em quadrinhos. Para quem acompanhava os gibis, era portanto, como ver na TV, e sem a necessidade de ler os balões, porque havia áudio com falas; música e sonoplastia, as mesmas histórias lidas nas revistas.

Por tal característica, essa produção de cinco heróis Marvel de 1966, é também conhecida entre os colecionadores, como "Desenhos Desanimados da Marvel". O "desanimado"em questão referindo-se ao fato de não haver quase nenhuma animação de fato, mas tornou-se prato cheio para detratores que usaram o termo com outra conotação para imputar-lhes a pecha de "chatos"...  

Bem, que se danem os caluniadores, pois eu e tenho certeza, um monte de gente que via-os em 1967, adorava-os. E no meu caso, adoro-os até hoje. Falo sobre Thor; Capitão América; Hulk; Homem de Ferro  e Namor / O Príncipe Submarino. 

Outra animação que apreciei bastante em 1967, é tão obscura nos dias atuais, que até na internet é difícil obter informações. Chamada "Space Angel" ("os Anjos do Espaço"), era uma animação focada no gênero Sci-Fi, com as aventuras da tripulação de uma nave, sob o comando de Scott McCloud. Tinha uma similaridade com os desenhos "desanimados" da Marvel, pois seguia a mesma linha minimalista de movimentação mínima, praticamente só com os lábios dos personagens movendo-se quando falavam. 

Outro desenho que muito gostei e por uma via inusitada despertou-me a atenção para a mitologia grega, foi "Hercules". Não era 100% fidedigno aos textos clássicos da mitologia, contendo licenças poéticas compreensíveis para atingir o público infantil, mas
eu nem percebia isso na época, certamente. O importante é que apreciei muito a atração e dali em diante, o assunto Mitologia Grega entrou para o meu rol de interesses.
As séries de Irwin Allen que já passavam, "Perdidos no Espaço" e "Viagem ao Fundo do Mar", eram paixões consolidadas, mas logo chegaria uma terceira produção que tornou-se tão querida quanto e que mexeria comigo de forma ainda mais incisiva por tratar de um tema que eu adorava : história...questão de meses, no início do ano seguinte e eu mergulharia nessa nova aventura fantástica.

Para falar de uma produção nacional, adorava o programa do Zé do Caixão na TV. Era tosco ao cubo, mas achava-o genial e confesso que tinha muito medo. Perturbador e inesquecível na minha memória, um episódio sobre uma suposta revolta dos mortos num cemitério, levantando-se das tumbas e na mais clássica atitude de filmes de zumbis, caminhando para atacar os "vivos" enquanto entoavam um mantra macabro :  -"vocês perturbaram o sono dos mortos"...quando estavam quase chegando à rua e atacariam os vivos, a energia acabou no meu bairro. Lembro-me do meu pai falando no escuro : -"bem, o negócio é ir dormir, então"...e eu pensando -"dormir como, agora" ??? 
Para impressionar-me ainda mais, isso ocorreu na véspera de feriado do Dia de Finados, em 2 de novembro de 1967...de fato, foi difícil conseguir dormir, com cada ruído no escuro podendo ser um zumbi aproximando-se, afinal de contas "nós -os vivos-", os havíamos perturbado em seu sono eterno...  

Ainda falando da TV, é claro que a efervescência sixtie estava na tela. A experiência incrível de assistir o Festival da Record de 1967 ao vivo na TV, e sendo um dos maiores festivais de todos os tempos, senão o maior dentro da MPB, é inesquecível.
Vi tudo, com minha família junto e não só recebendo o impacto primordial desse histórico acontecimento, como ouvindo as opiniões de meus pais, pró e contra artistas, estéticas, visual etc.

Ali os primeiros ecos hippies de fato, saltaram-me aos olhos, vendo cabeludos além do corte Beatle a que todos os "caretas" já reclamavam, causando choque, fora estarem usando roupas absolutamente incríveis, total "Swingin' London" ou "Haight-Ashbury" de San Francisco / USA. Vi os Beatnicks; Mutantes; e a loucura de Caetano e Gil contrastando com artistas "comportados" em seus smokings e acompanhados por orquestras tradicionais. Vi o repórter Randal Juliano cutucando e ironizando Arnaldo Baptista enquanto soltava baforadas (repórter fazer entrevista fumando...coisa inimaginável nos dias atuais); vi Sérgio Ricardo tendo um chilique e quebrando seu violão, para atirá-lo na plateia que vaiava-o (mal sabia eu que Pete Townshend estava habituado a fazer isso com suas guitarras, em Londres, mas por questão de performance, e não por uma contrariedade pessoal...), e muito mais...  
So close ...so distance to Rock'n Roll...eu na Rua Clélia, e o QG dos Mutantes na Rua Venâncio Aires, poucos quarteirões de diferença, em 1967...
 
E também não sabia na época, mas eu morava a quatro quarteirões da residência dos irmãos Dias Baptista...  

É como diz o título do documentário sobre tal festival : "uma noite em 67"... e eu a vivenciei !! E por isso, sou um privilegiado, ainda que fosse na sala de estar da minha residência, pelo tubo de uma TV em preto e branco... 


Fora isso, promos de bandas de Rock começavam a passar na TV com maior profusão. Tapes de programas britânicos; americanos; franceses; italianos; alemães e espanhóis, além da Jovem Guarda que pegava fogo e tentativas de programas concorrentes, caso do Ronnie Von (que era todo montado como uma história de carochinha, para dar mote à ideia do Pequeno Príncipe de Exupery), e dos Incríveis, ambos na TV Excelsior.

E havia o humor anárquico da "Família Trapo", uma sitcom filmada ao vivo com público e aberta a improvisos. Tratava-se de uma gozação com a família "Trapp", do filme "The Sound of Music" ("A Noviça Rebelde"), mostrando o cotidiano de uma família com personagens incríveis, ótimo texto e muita criatividade.  
Na primeira foto, a fachada da loja Hi-Fi da Rua Augusta, uma das mais concorridas da cidade de São Paulo pelos Rockers à procura das novidades saindo do forno e que foi uma entre outras em que formou-se fila na porta no dia em que o novo disco dos Beatles saiu em 1967 (Sgtº Pepper's Lonely Hearts Club Band...)

No rádio, lembro-me nitidamente de uma reportagem (na rádio Bandeirantes por sinal), feita para anunciar que haviam filas em diversas lojas de discos de São Paulo, formadas por fãs dos Beatles que sabiam que naquele dia o novo LP da banda, chamado "Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band" seria disponibilizado para a venda. E foi no rádio também, que ouvi a notícia que um festival de Rock acabara de acontecer na Califórnia, atraindo "hippies" cabeludos, numa das primeiras menções que ouvi sobre o Festival de Monterey em agosto de 1967.

O som de Otis Redding e The Mamas and the Papas tocava a todo vapor, assim como as canções pop da bela cantora francesa, Françoise Hardy, além de muitos outros artistas legais.

Posso dizer que estava muito próximo de começar a interessar-me verdadeiramente pelo Rock, pois comecei a descobrir mais artistas além da obviedade dos Beatles e Stones e artistas nacionais da dita Jovem Guarda. Seria em 1968 que eu assumiria estar de fato gostando e procurando conhecer melhor, mas em 1967, os primeiros indícios já estavam no ar...

Saindo dessa área musical, digo que apesar de meu pai ter tido toda a boa vontade do mundo em dar-me um "Autorama" de presente de aniversário, quem mais aproveitou-o de fato foi ele mesmo. Achei incrível o presente; a montagem da pista em "8"; os carrinhos voando (as vezes, literalmente fora da pista, espatifando-se nas paredes), mas o que eu gostava mesmo era de brinquedos de militaria ou com referências espaciais. Uma metralhadora da II Guerra Mundial; uma pistola Laser dos personagens de "Perdidos no Espaço"; ou o rádio comunicador da tripulação da "Enterprise", de "Jornadas nas Estrelas" teriam agradado-me mais...mas valeu, pai, a intenção foi ótima !!

No campo esportivo, assim como no Rock, a semente para começar a acompanhar de fato o futebol estava germinando. Não digo que foi ainda em 1967 tal mergulho definitivo, mas o noticiário esportivo começou a prender minha atenção e por conta própria, soube que o Corinthians fez um gol no último minuto, contra o São Paulo que estava vencendo por 1 x 0. Com o empate, o São Paulo que tinha o título na mão, foi obrigado a fazer um jogo desempate contra o Santos e perdeu, por 2 x 1. "A bola pune" com diz o técnico Muricy Ramalho e histórias que viram lendas, são marcas registradas do ludopédio.

Bem, o Santos foi campeão paulista de 1967, mas meu time, e que eu ainda não havia assumido como tal, mas pelo qual já nutria simpatia velada, além de receber pressão para assumir-me como seu torcedor por parte de tios que também eram torcedores dele, ganhou dois títulos nacionais nesse ano. Campeão da Taça Brasil e Campeão Brasileiro (que na época chamava-se "Torneio Roberto Gomes Pedrosa"), dois campeonatos distintos, mas com peso igual, e por conta disso, iria disputar a Taça Libertadores de 1968. 

Em 1967, fui com meus pais ao 7º Salão da Criança de São Paulo. Foi numa noite de outubro, com temperatura fria apesar de estarmos em plena primavera, e com a tradicional garoa a umedecer-nos as vestimentas. Estava absurdamente cheio o Pavilhão da Bienal no Parque do Ibirapuera, onde realizava-se na ocasião. Adorei um avião prateado que imediatamente remeteu-me à conquista do espaço, tema recorrente no imaginário sessentista para milhões de meninos da minha idade.


Haviam muitos stands de fabricantes de brinquedos expondo suas novidades, assim como muitas indústrias de alimentos e guloseimas fazendo suas promoções e persuadindo os pais a comprarem seus produtos tão adorados pelos pequenos. Bolo Pullman; barras de chocolate de várias marcas; balas; gomas de mascar; drops Dulcora. Mentex; Suco em pó Ki-Suco; Sorvete Kibon; Pudim e Gelatina Royal; Toddy; Nescau & Ovomaltine; todos os refrigerantes possíveis e imagináveis...enfim...tudo o que o tal mercado focado no paladar infantil pudesse existir na época, ali estava representado e apresentando promoções.  

E até o mercado de moda infantil foi explorado, com desfiles de moda para crianças e pré-adolescentes. Chegamos a entrar num desses stands fechados, porque minha mãe queria descansar e isolar-se um pouco do tumulto da feira. Fiquei impressionado com o som, vindo de um P.A., que aliás, obviamente que eu não sabia o que era um "Public Address System", mas que atingira-me com uma volúpia sonora com a qual eu nunca havia deparado-me até então. Executando Rock internacional em voga, não consigo dizer claramente o que tocou, mas era muito empolgante. Devia ser material de bandas britânicas e americanas de Rock, e mesmo que fossem obscuras, o que poderia-se esperar de um material fresquinho de 1967 nos ouvidos, com aquela potência sonora que era enorme e inédita na minha vida ? Claro que sai dali muito impactado e tendo gostado muito dessa vibração. 

Além disso, no imaginário de um menino de sete anos de idade, ver aquelas meninas que deviam ter entre dez e treze anos no máximo; bonitas; com aquela pose toda; desfilando com aquele som, deixou-me boquiaberto. Achei-as lindas; sofisticadas, inatingíveis... Por cerca de meia hora fiquei torcendo para crescer mais rápido e deixar de ser um molequinho tímido de sete anos de idade apenas, mas a vida não funcionava assim e tive que amargar ainda uma longa jornada para poder interagir com "meninas grandes" e lindas como aquelas...ha ha ha !!

No final do ano, em dezembro, a minha família programou nova mudança de residência. Fomos para a Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, para morar numa casa ampla, com espaço suficiente para eu armar o meu verdadeiro "set de cinema" que era o meu Forte Apache, reforçado por diversos outros jogos que acoplei e muitos soldados; cowboys e índios que fui anexando de forma avulsa ao longo dos tempos. Nessa altura, eram centenas de figurantes nos ataques ao Forte; contra ataques aos acampamentos dos Apaches; emboscadas às caravanas; bandidos atacando bancos de cidadezinhas, tudo acontecendo ao mesmo tempo num tremendo conceito de "cinemascope"...sentia-me o Cecil B.De Mille dirigindo aquela loucura toda e contrariando a minha mãe que não compreendia porque a minha brincadeira não concentrava-se apenas num cantinho a facilitar a locomoção, mas ocupando todos os espaços com os brinquedos...na época eu não tinha um poder de argumentação muito forte, mas certamente que se pudesse na época, a resposta seria que tratava-se da produção de um filme em "Panavision"...

E assim 1967 chegou ao final.  

A nuvem psicodélica estava esparramada na cabeça de todos, e começava a contaminar a sociedade que a absorvia por osmose. 

Mesmo com a contrariedade esperada vinda dos conservadores que enxergavam naquilo um perigo aos seus valores tradicionais (e era isso mesmo, afinal de contas), para quem vivia aquela euforia aquariana, foi o momento mais ímpar do século XX, em termos de expressão cultural e revolução comportamental, superando a loucura dos anos vinte (com a explosão do cinema e movimentos artísticos sensacionais como o expressionismo no cinema; surrealismo e dadaísmo). Desta vez, a explosão multicultural estava mexendo com mudanças significativas no âmago da sociedade, quebrando paradigmas de fato e não restringindo-se ao seleto mundo de intelectuais confinados em galerias de arte ou nos bastidores da emergente indústria do cinema, como ocorrera nos anos vinte.  

Desta vez estava tomando as ruas e preocupando as autoridades / governo cujas respectivas inteligências não estavam conseguindo fazer a leitura precisa do que aquilo representava. Não era uma simples infiltração arquitetada por forças políticas e ideológicas e motivadas por ideais esquerdistas, nem mesmo amparadas pelo anarquismo puro, mas algo não identificável, porém que os preocupava muito, no sentido de que apontava para um movimento natural de desobediência civil em massa. E não havia uma liderança clara que pudesse ser combatida pela força bruta ou por esforços sutis de ridicularização dos inimigos, armas recorrentes para sufocar rebeliões, há séculos. Não havia um Mahatma Gandhi com um cajado na mão falando de não-violência e boicote pelo jejum. O que havia era arte explodindo em várias frentes ao mesmo tempo, com a música na linha de frente, levando uma onda de contestação natural dos valores antigos da sociedade, questionando o sistema, mas não a fim de derrubá-lo simplesmente, mas subliminarmente, corroendo-o pelo desprezo absoluto, via desapego dos valores materialistas, em função de uma vida mais frugal, fraternal, sem violência, sem ganância, e com todos os males que tais sentimentos negativos trazem a reboque de forma inevitável. 

Isso sem contar um dos pilares fundamentais que essa efervescência proporcionou, ao fazer a ponte do ocidente com a espiritualidade do oriente. 

Nem Madame Blavatsky com seus pares da Sociedade Teosófica, que havia dado sua colaboração ímpar em meados do século XIX e início do século XX,  jamais chegou perto do que o Rock conseguiu ao trazer o som da cítara e da tabla, das ragas e dos mantras para o mundo ocidental de ferrenha mentalidade material, espalhando a reboque não só tal musicalidade, mas toda a filosofia por trás disso.

"Mágico" é pouco para expressar o que isso representou para o avanço da humanidade.  

Escrevi uma matéria falando sobre a contribuição incalculável que George Harrison deu à humanidade ao trazer para a música dos Beatles e posteriormente em sua carreira solo, tais elementos vindo da Índia :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2013/06/harrison-aproximou-india-para-nos-por.html 
Primeiro evento transmitido ao vivo para o mundo inteiro via satélite, os Beatles tocaram ao vivo uma música inédita que estava sendo lançada, chamada "All You Need is Love" ("Tudo o que você precisa é Amor"), não tem nada mais aquariano e flower power que isso para representar o que foi 1967...

Essa euforia eu não entendia na época, certamente. Só fui analisar isso a posteriori, claro. Mas mesmo sendo apenas uma criança; ingênuo; sem nenhuma sofisticação intelectual além do normal para a minha idade de então; sob a influência educacional e cultural da família e parentes, estes por sinal sem nenhuma simpatia pelos acontecimentos que ocorriam e pelo contrário, com muitas contrariedades explícitas como carga de opinião formada a influenciar-me, eu posso afirmar que mesmo assim, em meio a adversidades, minha lembrança é de nutrir simpatia pelas informações que recebia dos meios de comunicação (e acrescento que em via de regra, a abordagem da parte dos difusores era negativa, em tom de contrariedade ou pela via jocosa).

Encerrando, 1967 foi um ano muito importante na minha formação cultural e mesmo não sendo perto do ideal do que hoje eu gostaria de ter absorvido, recebi muitos pingos da onda psicodélica na minha cabeça e isso gera-me uma sensação de prazer e orgulho por ter tido tal privilégio. Só por ter decretado que tudo o que os humanos precisam é de amor, 1967 já teria sido genial, mas isso foi só uma cereja em cima do bolo psicodélico... 

Turn on, Tune in and Drop Out...


Que viesse 1968...

Continua...

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