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quarta-feira, 1 de junho de 2016

1960, o Ano em que Nasci - Minha Ligação Inicial com o Rock, na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues

Nasci em 1960, ano que na verdade encerrava a década de cinquenta, como ano "dez" da década, embora a maioria das pessoas pense ser todo ano terminado em zero, o ano inicial de uma nova década.

Pensando nesse ano em específico, havia muita música boa no ar; a televisão já tinha dez anos de atividades no Brasil e prosperava.
Havia tantas salas de cinema espalhadas pela cidade que fazia parte da vida de todo mundo ir assistir filmes, constantemente, e quase todos citavam atores como citam-se jogadores de futebol.
E sim, o futebol também dominava as conversas por todas as partes, na mesma medida em que o som frenético dos locutores esportivos era uma trilha sonora comum. A política também era discutida com paixão e evidente, já haviam as falcatruas, o mar de lama e a corrupção a assolar-nos...

Computadores eram artefatos futuristas e inimagináveis para o cotidiano de pessoas comuns, somente plausíveis em filmes de teor "Sci-Fi" ou em desenhos animados. A comunicação de massa era pelo rádio e a TV, e claro, os jornais e revistas. Telefones, só os fixos e com os aparelhos públicos espalhados pelas ruas, mas nem orelhões existiam nessa época ainda, mas sim cabines. Os jornais eram em preto e branco, com poucas fotos e muitos textos. Coloridos, só os gibis e as revistas.

O linguajar coloquial era tão bem falado, que comparado-se aos dias atuais, ficamos com a impressão que éramos um povo erudito...
A ambientação de 1960, era inteiramente coadunada com valores conservadores, fazendo com que a impressão da passagem de tempo fosse lenta. Portanto, as grandes transformações comportamentais que a década de sessenta traria, ainda estavam latentes. Era um mundo fortemente cinquentista, mas com fortes valores de décadas anteriores ainda muito presentes. Em vários aspectos, o mundo que recebeu-me ainda era bem vintista; trintista; quarentista, em múltiplos signos e valores, para o bem e para o mal. 
As mulheres sofriam pressão brutal sociocultural, mas no calor dos acontecimentos, eram poucas as que queixavam-se ou rebelavam-se. No mundo em que cheguei, quase todas eram "belas; recatadas e do Lar". Toda a mamãe era do dona de casa e criava seus filhos geralmente com apoio das vovós. E os pais eram provedores, trabalhando duro de segunda a sexta, só dedicando-se à família nos finais de semana. Raro era o lar onde essa regra não cumpria-se. Outro signo forte era o do catolicismo. Com quase 98% da população sendo adepta dessa religião cristã, eram fortes os signos desse domínio cultural.

E o mundo de 1960, era dos fumantes sem dúvida alguma. Nesse ano e por muitos anos vindouros, ninguém importava-se ou nem sequer cogitava não fumar em ambientes fechados. Ambientes esfumaçados e roupas impregnadas desse odor horrível eram comuns ao extremo. Raro era o adulto que não fumava, e havia todo um tabu ritualístico (pela falsa sensação de status que o tabaco proporcionava), e hipócrita (da parte dos adultos, e quase todos viciados), em coibir e vigiar os adolescentes que queriam a todo custo ingressar no vício, mas que inevitavelmente entrariam, repetindo o comportamento padrão dos pais, dos avós etc etc...

São Paulo já era uma metrópole, mas ainda não havia solidificado-se como a maior cidade do Brasil. Todavia, foi questão rápida para assumir tal posto e num ritmo vertiginoso, crescia de uma forma assustadora. Contudo, ainda era muito tranquila e segura; limpa; e em alguns aspectos, com ares europeus. As estações do ano eram bem definidas e demoraram décadas para começar a bagunçar-se como verificamos nos tempos atuais. No outono fazia frio e no inverno, era um estágio além, "frio de rachar". Festas juninas eram sob frio intenso e as fogueiras de Santo Antonio; São João e São Pedro vinham a calhar nas quermesses espalhadas pelos bairros. São Paulo era a dita "terra da garoa" e não era exagero, pois de fato, garoava toda noite durante as estações de outono e inverno, e boa parte da primavera, também.

Meus pais moravam no Brooklin, bairro da zona sul de São Paulo, quando nasci, mas minha mãe deu-me a luz no Hospital São Camilo, no alto do pico mais elevado da Avenida Pompeia, que para quem conhece São Paulo, sabe ser uma avenida que parece-se com um tobogã. Tal decisão familiar foi motivada pelo fato dos meus avós maternos morarem na Vila Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo. Portanto, coincidência, posso dizer que nasci no bairro que ganharia fama, poucos anos depois, por ser o berço do Rock paulistano / paulista e brasileiro. Eu também moraria nesse bairro, mas alguns anos depois, e oportunamente falarei disso.

Nasci em julho de 1960, sob um frio tipicamente paulistano, de inverno. Recebi o nome de Luiz Antonio Domingues.

"Luiz" para homenagear a minha mãe, Maria "Luiza", e "Antonio", para homenagear meu avô paterno, oriundo de Cantanhede, uma pequena cidadezinha perto de Coimbra, Portugal. "Domingues" é o sobrenome da família do meu pai, e na tradição lusitana, fiquei só com o sobrenome patriarcal como nome oficial nos documentos. Mas por relação sanguínea e emocional, sou também Barretto com dois "T", família da minha mãe.

Nasci portanto na Vila Pompeia, mas tecnicamente falando, morava no Brooklin, porém por um breve período, pois ainda em 1960, mudamo-nos para o bairro do Belenzinho, na zona leste de São Paulo. Ninguém que morava nesse bairro e nessa época, referia-se ao seu nome dessa forma diminutiva, mas sim como "Belém". 
Aprazível ao extremo, tinha ares de uma pequena cidade interiorana, com a praça da matriz, no caso o Largo São José do Belém e sua paróquia homônima; o comércio no Largo e no seu entorno, estendendo-se até a Rua Belém, ligação com a Avenida Celso Garcia, principal acesso entre o centro da cidade e diversos bairros da zona leste, numa linha reta, até o bairro da Penha. De lá saía o trólebus, ônibus elétrico, linha "Praça da Sé - Largo São José do Belém" e anos depois outra linha, Belém - Pinheiros, que atravessava o bairro do Brás; passava pelo centro velho da cidade, Praça Roosevelt, e descia toda a Rua Augusta, até chegar ao bairro de Pinheiros, na zona oeste da cidade.  

Paróquia São José, no Largo São José do Belém, em foto bem mais atual. 
Eis acima uma foto do famoso Trólebus (ônibus elétrico), linha Largo São José do Belém - Praça da Sé, passando pela Rua Belém em direção ao Largo, seu ponto final. Essa foto deve ser mais do final dos anos sessenta / início dos anos setenta, pelo aspecto do próprio Trólebus, com carroceria mais próxima dos ônibus tradicionais a diesel, visto que os primeiros carros dessa série eram com design diferente, importados da Inglaterra, no final dos anos quarenta. Acervo de Barry Blumstein.

Havia dois cinemas no miolo do bairro, fora os mais de vinte espalhados na avenida Celso Garcia, do Brás, bairro vizinho, até a Penha. Dois colégios católicos tradicionais (Agostiniano São José e Maria Auxiliadora), e dois estaduais, o Amadeu Amaral, no Largo São José de Belém, em frente à igreja, numa construção do início do século XX, e um hoje desarticulado, na Vila Maria Zélia, uma vila construída para operários, fechada e com vida própria, parecendo um burgo medieval, com saída para a Rua Catumbi. Como quase todos os bairros de São Paulo naquela época, o Belenzinho era um reduto de colônias estrangeiras aqui radicadas. Encravado entre bairros maiores como Brás; Pari; Mooca e Tatuapé, o Belém tinha italianos, embora estes fossem mais massivos no Brás e Mooca; portugueses espalhados desde o Pari; e espanhóis, embora estes fossem mais volumosos no Tatuapé e Penha. Mas havia também um grande contingente de famílias gregas. Hoje em dia o bairro tornou-se um reduto de imigrantes bolivianos, que anteriormente já haviam ocupado os bairros do Pari e Canindé, por volta dos anos noventa.
Músicos rondando as mesas, alegrando o jantar das famílias do bairro, em foto antiga do restaurante "Formiga", no Largo São José do Belém.
 
As melhores padarias do bairro eram a Nacional, do Largo e a Tupã, na esquina das Ruas Herval e Álvaro Ramos. Os melhores restaurantes, o "Formiga", também no Largo e a cantina de Romeu Pellicciari (um ex-jogador do Palmeiras, na verdade do antigo Palestra Itália nos anos trinta e quarenta), na rua Irmã Carolina.
Não havia a avenida Radial Leste nessa época, e muito menos a Avenida Sarah Salim Maluf, que é a fronteira que divide o Belém do Tatuapé, bairro vizinho. Nessa época, ali ficava um conjunto de chácaras ocupadas por famílias japonesas e cuja produção de hortaliças, abastecia as pequenas "vendas" (mercadinhos de pequeno porte), ainda com aspecto bem antigo, que havia em profusão pelo bairro. Já existia a linha do trem de subúrbio, que vinha da Estação da Luz em direção ao extremo da zona leste, e cidades vizinhas da grande São Paulo, até Mogi das Cruzes. Mas o Metrô só chegaria ali no bairro, no início dos anos oitenta.
Nossa casa ficava na Rua Redenção, entre os quarteirões das Ruas Herval e Toledo Barbosa. Vizinho de parede de nossa residência, ficava uma fábrica artesanal de objetos de decoração, como cristais e murano. Muitos dos itens de decoração de nossa casa, foram comprados ali, e eu adorava aqueles objetos com formas malucas e super coloridas, já antecipando meu apreço pela psicodelia, talvez.
Na esquina, havia um chaveiro; um salão de barbeiro e uma farmácia, mas era pouco o comércio ali naqueles quarteirões, quase que estritamente residenciais em suma. O grosso do comércio ficava no Largo e no seu entorno. Só havia um único prédio de apartamentos ali naquele entorno, na esquina das ruas Herval e Pimenta Bueno, ainda assim, de apenas três andares, sem elevadores. Fora ser aprazível como uma pequena cidade interiorana adorável, nesse bairro havia uma raiz familiar forte que deu-me todo o respaldo para sentir-me muito bem ambientado em meus primeiros anos de vida. Ali era o bairro onde meus avós paternos moravam desde os anos vinte, e onde meu pai nasceu, e criou-se. Ali morei na minha primeira infância quase inteira, e recebi minhas primeiras cargas de influência cultural que esboçarei contar em tópicos, comentando ano a ano, o teor da experiência adquirida.

Por enquanto, eis abaixo um mosaico do mundo que rodeava-me no ano em que nasci, 1960 :   
Um fac-símile da capa da Folha de São Paulo, do dia em que eu nasci, 25 de julho de 1960, publicado como efeméride em 2010, quando completou-se 50 anos desse dia.
Bebê Luiz Antonio Domingues nos braços do papai Milton, e companhia de mamãe Maria Luiza, com cerca de um mês de vida, agosto de 1960, no bucólico quintal da casa dos padrinhos, no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo. Acervo familiar.

São Paulo em 1960 estava assim : 
O Viaduto do Chá em 1960, com a visão do Magazine Mappin ao fundo. Tratava-se de uma loja de departamentos ao estilo norte-americano, e que era uma referência para todos os paulistanos. 
Visão da Avenida São João, no centro antigo da cidade de São Paulo, em 1960. Impressionante o aspecto de asseio e ausência de mendicância. Impossível não reparar no belo cinema de rua à direita da foto (Art Palácio). O bonde ao fundo e a elegância das pessoas no trajar, fazem com que a imagem confunda-se com a de uma cidade europeia ou norte americana.
Natal de 1960, e o comércio do centro alardeando suas promoções. Ao fundo, a parte de trás do Teatro Municipal. Na pista, a imponência do belo Simca Chambord...
Outra visão do Viaduto do Chá, com o edifício Matarazzo ao fundo. Hoje em dia, tal edifício é a sede da Prefeitura de São Paulo. 
Os bondes eram muito tradicionais, mas já incomodavam os motoristas de ônibus e carros particulares que queixavam-se de sua presença nas vias. A desculpa usada, atribuindo sua inviabilidade com o início das obras do Metrô em 1968, foi motivo para desativá-los para sempre. Lastimo muito essa mentalidade.
Praça da Sé em 1960, e uma amostra de como era impressionante a frota de carros de décadas passadas ainda circulando. Tudo bem que a década de sessenta viu a proliferação da produção nacional, notadamente os "fuscas' da Volkswagem, invadirem com tudo as ruas da cidade, mas ainda viam-se muitos carros das décadas de vinte; trinta; quarenta, e cinquenta pelas ruas. Quase todos os táxis eram velhos Chevrolets da década de quarenta, vide o da foto acima. Prova cabal que eram veículos fortes, concebidos para durar muito, ao contrário da estratégia do descarte, adotada pela indústria, tempos depois. "Compre; quebre e recompre", passou a ser o lema / mantra das montadoras, e com o devido beneplácito das autoridades...
Visão do Vale do Anhangabaú do início dos anos sessenta. 
Visão noturna do centro de São Paulo, em 1960, que já borbulhava como cidade com vocação para eventos culturais; gastronomia, e vida noturna. 
Evento memorável para a cidade em 1960, a realização do 1º Salão do Automóvel, num dos pavilhões do Parque do Ibirapuera, tornando-se tradicional na cidade, até os dias atuais. 
Jânio Quadros, o controverso e folclórico ex-prefeito da cidade de São Paulo e Governador do Estado, elegeu-se presidente do Brasil.

Outro grande acontecimento óbvio de 1960, foi a inauguração da cidade de Brasília, e consequente mudança de toda a estrutura do poder federal para a nova capital do país.

Sobre a cultura, eis alguns lançamentos de 1960...

Começo falando sobre cinema :  
"The Apartment", uma comédia romântica, mas com forte fundo social, também, foi um filme que encantou em 1960. Acima, um "frame" desse filme com os atores Jack Lemmon e Shirley Maclaine, seus protagonistas. 
"Spartacus", a saga do escravo / gladiador que comandou uma revolta contra o Império Romano, estrelado por Kirk Douglas e sob direção do então emergente diretor britânico, Stanley Kubrick, foi um épico de 1960.
"La Dolce Vita", um emblemático filme de Federico Fellini e cujas presenças de Marcello Mastroianni e Anita Ekberg, encantaram os cinéfilos em 1960.
Outro emblema de 1960, o filme "Psycho", de Alfred Hitchcock, quase matou os espectadores de susto nas salas de cinema, tamanha a tensão que gerou.
Um dos meus filmes prediletos do gênero "Sci-Fi, "The Time Machine" é mais uma película lançada no ano em que nasci.
Com atores monstruosamente bons e veteranos dos anos trinta como protagonistas (Fredric March e Spencer Tracy), "Inherit the Wind" ("O Vento Será a Sua Herança"), tem uma discussão boa sobre as teorias evolucionista e criacionista, em meio a diálogos mordazes e bem embasados. Ótimo lançamento de 1960.
Duas comédias malucas de Jerry Lewis, lançadas em 1960. Era o início de sua carreira solo, recém separado da parceria com o cantor / ator Dean Martin e pouca gente achava que sozinho lograria êxito, mas a década de sessenta foi dele, conforme comprovou-se nos anos posteriores.
 
Outro Sci-Fi impressionante..."Village of the Damned" ("A Cidade dos Amaldiçoados"), e aqueles alienígenas mirins que assustavam com aquele olhar ameaçador...
Que elenco... que western... que trilha sonora...
Tempo bom em que os filmes de terror da produtora britânica Hammer eram exibidos nas grandes salas de cinema. Neste, o grande Christopher Lee não interpretou Drácula, mas Peter Cushing estava ali, intrépido a enfrentar o vampiro mor...
Luchino Visconti é sinônimo de cinema de alto padrão. Neste, clássico entre seus clássicos, "Rocco e seus Irmãos", é um tremendo filme de 1960.
Outro diretor gigante e classudo entre os gênios italianos dessa época, Antonioni brindou-nos com "L'Avventura". O filme foi vaiado no festival de Cannes, mas hoje é reconhecido como um clássico de todos os tempos... como é ridícula a vida dos "formadores de opinião", tão apressadinhos na sua mania de tornar tudo "cool" ou "uncool", criando "hypes" midiáticos...
Mais uma aparição importante de Mastroianni, sob a batuta de Mauro Bolognini. "O Belo Antonio" é outro filmão de 1960.
E havia espaço ainda para medalhões do passado, como John Huston, ainda em grande forma...
E tema adulto "forte"... com a Liz Taylor "causando"...

 "Nunca aos Domingos", com a exuberante Melina Mercouri, e nada melhor que cinema grego num bairro como o Belenzinho, com tantos imigrantes desse emblemático país milenar ali instalados.
"La Ciociara", ou "Duas Mulheres" como ficou conhecido no Brasil, abordou as agruras da Segunda Guerra Mundial na Itália, vista pelo ponto de vista de uma mãe tentando proteger a filha pré-adolescente a todo custo do fascismo e dos abusos da guerra, por parte de inimigos ou aliados, tanto fazia. Sophia Loren arrebenta, sob a direção de Vittorio De Sica.
Uma das melhores comédias brasileiras de todos os tempos... e como era bom o Trio Irakitan, tanto na música, quanto na veia cômica de seus componentes, como atores !!
Outra comédia brasileira sensacional e contando com a figura escrachada de Dercy Gonçalves, e a beleza de Odete Lara... 
Misto de drama e policial com a "mocinha" Eliana, num raro papel de vilania.

Alguns livros lançados em 1960 :
"To Kill a Mockinbird", obra de Harper Lee abordando o racismo nos Estados Unidos, e que motivou a criação de um filme posteriormente baseado no livro, com título homônimo, mas que no Brasil foi rebatizado como "O Sol é para Todos".
"Quarto de Despejo", o impressionante livro escrito por uma "mulher coragem", chamada Carolina Maria de Jesus, simples; semianalfabeta, e favelada, sobre sua própria situação de miséria.
Em 1960, quando esse romance foi lançado, não era o primeiro sobre a saga de um agente do serviço secreto britânico, chamado James Bond. Mas sua fama só viria a partir de dois anos depois, quando o primeiro filme baseado no personagem de Ian Fleming foi lançado...
Ah, o existencialismo... quanto barulho fazia na época as ideias de Jean Paul Sartre no meio acadêmico e resvalando no mundo político, via sociologia. "Crítica da Razão Dialética", saiu em 1960.
Em 1960, as chagas abertas pela II Guerra Mundial ainda não haviam sido cicatrizadas. Esse livro de William L.Shirer é considerado um dos melhores apanhados sobre a ascensão e queda do nazismo. São seis volumes, e acima, está a capa de um deles.
"Ai de Ti, Copacabana", é um dos melhores livros de crônicas já escritos por um autor brasileiro, no caso, Rubem Braga.
Em 1960, Clarice Lispector lançou "Laços de Família". 

Nas ondas do Rádio :
O Progresso da TV não matou o rádio como os pessimistas de plantão preconizaram dez anos antes. As emissoras de rádio continuaram a ter papel importante na difusão cultural e pelo contrário, muitas parcerias criativas com a TV, fizeram com que os dois veículos fortalecessem-se, andando juntos. Uma novidade ocorrida em 1960, e que afetou positivamente o mundo radiofônico foi de cunho tecnológico, com o advento das transmissões via satélites, melhorando a qualidade das transmissões e rapidez na divulgação de notícias. 

Na TV :
Com dez anos de funcionamento, a TV já tinha um papel importante na vida das pessoas em 1960, embora nem todo lar possuísse um aparelho para o entretenimento da família.
A TV Tupi, emissora pioneira, era uma das grandes estações daquele momento, naturalmente, mas que tinha na Record, uma oponente em franca expansão e que a superaria naquela década.
Em 1960, a TV Record comemorou sete anos de vida e sendo o canal "7", alardeou isso com profusão. Já caminhava para ser a melhor emissora da década nova que chegava e o melhor que tinha a oferecer ainda nem o mais otimista de seus produtores, poderia imaginar...
E começava a saga da TV Excelsior, o famoso "canal 9", uma emissora que nasceu em 1960, e com mentalidade progressista, cheia de inovações, e que prometia...
TV Paulista, uma emissora que lutava para manter-se na base do improviso total, mas que teve seu quinhão de atenção dos paulistanos. 
E havia uma TV Cultura ocupando o canal 2, mas não era estatal nessa época. Emissora nanica, quase não tinha audiência.

No mundo da música : 
Esses cinco garotos de Liverpool / Inglaterra, eram completamente desconhecidos do grande público em 1960. Sua maior proeza até então fora promover boas apresentações reproduzindo covers de Rock'n Roll; Blues; R'n'B, e Skiffle, em casas noturnas de sua cidade natal. Nesse ano de 1960, aventuraram-se a tocar em casas de tolerância na zona portuária de Hamburgo, na Alemanha. O baixista apaixonou-se por uma menina alemã e deixou a banda, pouco tempo depois, obrigando um dos três guitarristas a assumir o baixo doravante. O baterista saiu (ou "foi retirado", para dizer melhor), dois anos depois por pressão de um produtor musical, sendo substituído por outro amigo deles, de Liverpool. Mas convenhamos, alguém em sã consciência poderia imaginar que essa banda viraria o mundo de cabeça para baixo, olhando para eles ali em 1960 ? 
Will You Love me Tomorrow ? Grande sucesso do grupo feminino vocal de R'n'B, The Shirelles.
Uma grande fera do Rock cinquentista, Roy Orbison fez sucesso em 1960, com "Only the Lonely". 

Chubby Checker lançou "The Twist", bem no mês e ano em que nasci, julho de 1960. Veja acima o delicioso astral cinquentista que permeava o mundo em que cheguei.
Outro sucesso de 1960, "A Taste of Honey", com Bobby Scott.
Ray Charles regravou uma canção composta em 1930, pelos compositores Hoagy Carmichael  e Stuart Gorrell, chamada "Georgia on my Mind".... nada mau para ser lançada em 1960, tornando o mundo melhor para a minha entrada nele...
Uh...ha... Sam Cooke, e sua "Chain Gang" !!
The Everly Brothers e sua "Cathy's Clown...
Super em voga na época, entre o Rock cinquentista e a "British Invasion" de 1964, o som instrumental de bandas como o The Ventures, fazia muito sucesso, evocando Rock'n Roll; Surf Music; R'n'B; e outros derivados. "Walk Don't Run" foi sucesso com os Ventures em 1960.
Celly Campello, irmã do Rocker, Tony Campello, lança "Banho de Lua", uma adaptação para o português de um Rock italiano chamado "Tintarella Di Luna". Tendência que tornar-se-ia hábito na década de sessenta, regravar música pop italiana e / ou francesa, por artistas brasileiros, em adaptações para o português.
Sergio Murilo, outro Rocker adocicado (no bom sentido do termo, visto ser um artista bacana), e típico dessa época de entressafra, lança "Broto Legal".
Viajando na onda espacial super na moda, e que só esquentaria nessa década nova que estava chegando, o primeiro disco do cantor Miltinho, um cantor de samba, cheio de bossa, brincou com isso.
 
E essa é para arrebentar... a grande Etta James lançou esse blues dilacerante em 1960 : "At Last". Acima, para degustar e entrar no clima de 1960...

No mundo dos quadrinhos :
Eis três, entre tantos lançamentos sensacionais que a "Ebal", uma editora icônica para quem seguia quadrinhos no Brasil, colocou nas bancas em 1960. Nessa época ainda não, logicamente, mas poucos anos depois, tal editora seria muito importante na minha vida, abrindo-me mais um universo paralelo... 
Dava-se tanta importância aos concursos de beleza nessa época, que era uma pergunta recorrente em exames vestibulares : quem venceu o concurso de Miss Brasil neste ano ? Pois é, em 1960, foi Gina MacPherson...

Nos esportes :
Não ligava-me em futebol em 1960, obviamente, mas digamos que comecei bem a minha saga verde, mesmo só vindo a entender isso bem depois...
1960 foi um ano bissexto, e que teve Olimpíada na cidade eterna, Roma...
Éder Jofre ganhou o título mundial de Boxe, categoria "galo", e fez sucesso na imprensa de 1960.
Foi inaugurado nos arredores de Genebra / Suíça, um laboratório chamado Cern, responsável pela construção do maior equipamento de pesquisa para a aceleração das partículas em todo o mundo. A estátua da Deusa Shiva na entrada de tal laboratório, sugere claramente uma aproximação entre ciência e espiritualidade e a tal "partícula de Deus" que ali foi descoberta muitos anos depois, talvez seja só o começo de uma nova Era de descobertas que façam convergir numa só direção, ideias preconizadas pelas duas correntes.
Países exportadores de petróleo organizaram-se criando a "Opep", em 1960.
E assim foi 1960, o ano em que nasci...

Continua...

6 comentários:

  1. Sensacional, me lembrei muito das histórias que meu pai contava sobre São Paulo do final dos anos 50, ele veio morar na nossa cidade em 1954, neto de uma francesa e de um holandês. me dizia como São Paulo era elegante, com jeito de Europa, nessa época. Quanta coisa importante aconteceu no ano de seu nascimento. Ah sim,e meu bairro onde nasci, o Belém. Muito bom sentir essa nostalgia e alegria no coração com sua narrativa.

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  2. Mas que maravilha que tenha gostado !!

    O objetivo dessa nova série de adendos é traçar um histórico como o Rock e a música em geral entraram na minha vida, mas por força das circunstâncias normais do desenvolvimento humano, os dois primeiros capítulos, por retratarem 1960, o ano em que nasci, e 1961, ano em que só tinha um ano de idade, não tenho lembranças culturais para retratar, mas só recordações primitivas do meu mais remoto desenvolvimento cognitivo.

    Sendo assim, optei por fazer um apanhado do mundo que me cercava nesses dois anos iniciais, com aspectos culturais em predominância.

    Sobre o que seu pai lhe contou, é a mais pura verdade. São Paulo tinha ares europeus, um asseio impressionante, educação nas ruas, recato etc etc.

    A respeito do Belém, fiquei muito feliz por ter despertado essa nostalgia para você que também lá viveu. Eu o conheci ainda bem parecido com uma cidade interiorana, absolutamente tranquilo e delicioso de se viver. Apesar de não ser mais a mesma coisa, quando caminho por aquelas ruas, meus olhos marejam.

    Sim !! Bastante coisa bacana ocorreu em 1960 e eu acabei cortando muitas outras que havia colocado, porque o capítulo havia ficado gigantesco. Muita coisa eu sabia de cabeça, principalmente a parte de cinema, mas pesquisando, vi que tinha muita coisa legal, mesmo.

    Esteja convidada a prosseguir lendo. Postarei a cada dois dias, um capítulo novo por todo o mês de junho de 2016, enfocando os anos de 1960 a 1975.

    De 1976 em diante, o foco maior é a autobio já publicada, mas haverão novos adendos, em forma de crônicas, no futuro, falando do período 1976 em diante, também.

    Gratíssimo por ter lido, gostado, emocionado-se e comentado com elogio !

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  3. Sim Luiz, continuarei a ler com muito prazer.

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  4. Incrível como tenho uma familiaridade com São Paulo mesmo nunca tendo morado lá, isso desde a infância, quando lia os quadrinhos da turma da Mônica que se passava no bairro do Limoeiro, que era onde eu queria morar. Até hoje apesar de grande metrópole, as regiões que conheci de SP me passam esse ar interiorano em alguns momentos, muitas ruas arborizadas, pessoas muito bem educadas, muito agradável. Esse mesmo ar de familiaridade sinto em relação a vc querido amigo Luiz, que como já disse, mais me parece um irmão!

    Muito legal passear pelo passado, sempre muito agradável reviver coisas boas!

    bjos amigo!
    Fernanda Valente.

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  5. Mas que maravilha que tenha apreciado o texto que elaborei, e cujo objetivo é claro em traçar um panorama sobre o ambiente que cercava-me sob vários aspectos, no ano em que nasci.

    Agora entendi a sua ligação com a cidade de São Paulo de onde vem, remontando à Turma da Mônica, nada mais singelo.

    Os bairros de São Paulo, nos quatro quadrantes da cidade, são assim mesmo como descreveu : pequenas cidades interioranas com vida própria, pracinhas; vilas, a igreja da matriz e seu comércio etc etc.

    Acho que o bairro que citou, "Limoeiro" faz parte da ficção da Turma da Mônica, sendo uma invenção do Maurício de Souza. Salvo engano colossal de minha parte, não existe um bairro chamado "Limoeiro" na vida real. Talvez ele tenha inventado esse nome para aproximar-se da realidade do "Bairro do Limão", onde possa ter vivido, este sim, um tradicional bairro da zona norte da cidade, perto de outros bairros importantes, como a "Casa Verde" e "Santana".

    Sobre o meu texto, deixo o convite : escreverei capítulos com esses adendos à minha autobiografia musical, cobrindo até o ano de 1975. Assim cubro toda a parte que antecedeu o início da minha trajetória na música, em 1976.

    E sobre sua observação mais pessoal, que bonitas palavras. Sua gentileza e doçura emocionaram-me, certamente.

    Beijos, querida amiga Fernanda Valente !!

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