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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 10 - Pedra II...Sabe o Que é Isso, Banda ? - Por Luiz Domingues

É bom recordar ao leitor que nessa época, 2008, eu ainda não acessava a Internet, por incrível que pareça...
E por ficar alheio ao mundo virtual (e só começaria a interagir a partir de 2010), eu ficava sempre a margem das novidades, sendo o último a saber de tudo o que dizia respeito a banda, e até em relação a minha pessoa e minha carreira como um todo, além de tudo o que envolvia os trabalhos que eu fizera no passado.

Portanto, em se considerando que já acumulava uma carreira de 32 anos de existência naquela época, com muitos trabalhos e alguns deles de repercussão, era natural que na Internet e nas redes sociais, falassem de minha pessoa e de tais trabalhos, sem que eu tivesse noção do que acontecia. Nesses termos, uma figura que eu conhecera nos anos oitenta e que tivera uma relação de trabalho e amizade, aproximou-se do Pedra pela Internet e numa primeira instância parecia interessado em realizar entrevistas comigo e Xando, falando de bandas oitentistas por onde passamos respectivamente, A Chave do Sol e Harppia, no caso do Xando.

Tratava-se de Antonio Celso Barbieri, um agitador e produtor cultural que eu conhecera em 1984, quando este estava envolvido com a produção do evento "Praça do Rock", onde A Chave do Sol apresentou-se diversas vezes. Depois disso, entre 1985 e 1986, nossa relação progrediu, com Barbieri produzindo muitos shows da Chave do Sol, até que em 1987, ele tenha tomado a resolução de deixar o país, indo morar em Londres, onde radicou-se e mora até os dias atuais.

Nos anos noventa, quando eu estava no Pitbulls on Crack, houve a possibilidade dele tentar ajudar essa banda de alguma forma, e um material foi enviado em mãos para ele, através de um amigo que para lá viajou de férias em 1997, mas ele acabou não podendo fazer muita coisa na ocasião, para ajudar. Nos anos 2000, 2001 para ser específico, Barbieri veio ao Brasil passar férias, e deu certo de assistir um show da Patrulha do Espaço, onde eu estava na ocasião, numa casa noturna de São Paulo, mas nenhum negócio foi combinado, sendo apenas uma reunião de confraternização. Então, agora era a primeira vez em, anos, que ele estava interessado em produzir alguma coisa com uma banda minha, pois fui informado que ele estava muito impressionado com o som do Pedra.
Já fazia muitos anos, ele mantinha um Site bem organizado e muito acessado, chamado "Memórias do Rock Brasileiro", onde depositava textos expressando suas memórias que remontam aos anos sessenta e setenta, e sua militância mais incisiva como produtor a partir dos anos oitenta, além de muito material acumulado sobre bandas brasileiras em geral, principalmente as que teve contato, trabalhando. Portanto, apreciando o nosso som e nessa altura, o disco II já estava saindo e o Xando havia disponibilizado-o para audição, ele rapidamente soltou uma matéria no seu site tecendo elogios rasgados, e como eu conhecia-o de longa data, sabia : Barbieri não é de rasgar seda a toa. Se estava elogiando, era porque impressionara-se de fato.



Não demorou e ele fez uma proposta irrecusável à banda : queria produzir um vídeo clip ! Claro que aceitamos, mesmo porque tínhamos dois bons clips produzidos em película de cinema e vários promos de internet referentes à músicas do primeiro disco, mas agora estávamos sem perspectivas de produzir um clip no mesmo nível e um disco novo estava saindo do forno. Barbieri empolgou-se e passou a interagir fortemente com a banda, portanto, e seus e-mails e depoimentos na saudosa Rede Social "Orkut" eram diários praticamente, deixando-nos a par de seus planos. Foi quando num dia desses, ele disse-nos que estava encantado com um vídeo experimental que vira na internet, feito por um artista canadense chamado Paul Wittington. Mais que isso, tal vídeo era assombrosamente próximo da metragem da música "Longe do Chão" do nosso novo disco e que, pasmem, encaixava-se visualmente de uma forma tão perfeita à música e suas nuances, que parecia ter sido concebido para ela e vice-versa.

Carecendo de poucos ajustes que ele mesmo providenciaria em sua ilha de edição lá em Londres, estava animadíssimo para fazê-lo. Lógico que aceitamos, e dinâmico ao extremo (e eu o conhecia de muitos anos, e sabia que ele era assim, portanto), não surpreendi-me quando soube que ele já havia feito contato com  o artista canadense e havia pago uma quantia exigida pelo mesmo para outorgar-lhe direitos exclusivos sobre a imagem. Sendo assim, oferecendo como um presente para a banda, além de pagar uma boa quantia para o rapaz, e perder horas numa ilha de edição, isso por si só era sensacional para nós, mas o que não poderíamos imaginar, era que tal clip com essa animação casando-se de uma forma incrível com a nossa música, ofertar-nos-ia uma surpresa incrível, assim que fosse ao ar.

Ainda fechado para o público, vimos a prova final do clip e ficamos muito impressionados com a qualidade da animação e a sincronia incrível que tinha com a música e de fato, a edição do Barbieri fora mínima, em alguns detalhes apenas, suprimindo algumas tarjas escritas em inglês e com nenhuma conexão com nossa música, substituindo por palavras básicas em português e dentro do contexto da canção. Ficamos super animados, tínhamos um clip a altura dos anteriores e vindo muito a calhar com o lançamento do novo álbum. Então, o Barbieri abriu ao público em geral no You Tube, e algo muito incrível ocorreu...

O que ocorreu, foi que assim que o Barbieri lançou o vídeo clip no You Tube, antes mesmo de iniciar seus esforços de divulgação entre seus contatos, uma explosão viral começou a ocorrer. Demoramos algum tempo para entender o que ocorria, pois era algo muito fora da nossa realidade, como artistas que militavam no underground da música, apenas. Era um dia de ensaio e a banda estava numa pausa, tomando um café na sala de estar da residência do Xando, quando ele foi ao estúdio para dar uma olhada no monitor de computador que ficava ali, e voltou abismado para dizer-nos que havia alguma coisa errada, pois nosso vídeo novo entrara a pouco minutos no ar, e já passava de 1500 views !!

Desacostumados a ter um tipo de reconhecimento viral nesses termos, ficamos todos atônitos e ele mesmo, Xando, sendo o mais acostumado a lidar com a Internet, desde meados dos anos noventa, contemporizava a situação para evitar que especulássemos algo fora da nossa realidade, tentando dar explicações sobre "bugs" de internet etc e que provavelmente essa contagem não estava certa, e que logo o You Tube corrigiria tal anomalia, dando portanto, o número mais compatível com a nossa projeção dentro do mundo underground da música. Mas quando voltamos ao ensaio, o número não parava de crescer vertiginosamente e já passava de 2000 views, numa questão de meia hora.

Foi quando o Xando viu e passou-nos a informação que não era erro não, e que o vídeo entrara na capa de indicações do You Tube, portanto estava "viralizando" naturalmente, daí essa escalada astronômica !! No mesmo momento, Barbieri estava enlouquecido em Londres, ligadíssimo no fenômeno e eufórico, mandava-nos mensagens a todo instante comentando os números, e já havia usado tal acontecimento para realçar seus esforços pessoais de divulgação.

No dia seguinte, já passava de 18 mil views e não parava de crescer e suscitar comentários, a maioria positivos, falando de nossa música e nossa banda, e da parte de pessoas completamente alheias ao nosso espectro artístico e dessa maneira, era uma acréscimo de popularidade inacreditável para uma banda como a nossa. E por incrível que pareça, apesar de estarmos sendo expostos e submetidos à avaliação de pessoas que nunca haviam ouvido falar de nós, e que nem tinham familiaridade com o Rock, sequer, a quantidade de comentários positivos era gigantesca e absolutamente surpreendente para nós...

No bojo desses comentários, haviam rockers também, e lembro-me de um rapaz do Peru, que era seguidor de Vintage Rock e que teceu um longo elogio à banda, mostrando-se surpreso com a qualidade de nossa música e sobretudo pelos signos setentistas claramente expressos na nossa obra. Ora, usando de um dito popular : " estava melhor que a encomenda", e digo mais, muitíssimo melhor !!
Só lembro-me de um comentário negativo, o que era inacreditável pela mega exposição para pessoas de todo tipo de cultura musical.
Esse rapaz maldoso disse, laconicamente: -"Imagens = Bom; Música = Bosta"...

Nesse caso, mais parecia um típico "troll" de Internet, desocupado e nem ficamos chateados, logicamente. Com o passar dos dias, o número não parava de aumentar. Era uma sensação incrível que experimentávamos, algo inédito para o tipo de artista que éramos / somos, sempre a margem dos grandes movimentos de exposição midiática. Em três dias, já passava de 50 mil views, e não dava mostras que iria estancar. Nesse ínterim, a imprensa especializada, mais próxima de nós, notou o barulho e começou a soltar notas falando sobre o fenômeno, e claro que ficamos muito contentes com esse resultado inesperado.

Da parte do Barbieri, a animação era total e ele falava que chegaríamos a 100 mil views em pouco tempo e que assim que isso ocorresse, começaria a travar contatos com gravadoras britânicas para tentar algo para nós e aí, começou a articular uma turnê europeia, e de fato, ele tinha contatos não só em Londres mas outras cidades inglesas, e de outros países. Segundo disse-nos, era algo "pé no chão", é claro, na base de apresentações em pequenas casas e eventuais festivais, mas que passando dos 100 mil views, ficaria mais fácil alinhavar tudo. Bem, tudo isso era muito inesperado para nós. Nossos planos eram simples : queríamos lançar o novo disco, fazer o máximo de shows possíveis em São Paulo, talvez alguma coisa em alguma cidade interiorana, e no máximo tentar algo no Rio de Janeiro, mas ir para a Europa, assim embalados por um repentino sucesso viral de internet, estava sendo algo muito inusitado. Não deu outra, mais alguns dias e estávamos quase batendo na casa dos 100 mil views, e isso era uma cifra astronômica para uma banda do nosso patamar.

Então, Barbieri já estava planejando tudo sobre nossa ida e ficamos incumbidos de deixar a documentação em dia, atualizando passaportes. De nossa parte, imbuído da vontade de ajudar, o iluminador Wagner Molina também tinha muitos contatos na mídia e no show business. Ele prontificou-se a ajudar-nos e marcou comigo uma ida à rádio Gazeta FM, onde tinha amigos e mediante esse mote do estouro do clip no You Tube, mais o lançamento do novo álbum, quis forjar uma música nossa na programação da referida emissora, e sem ter que pagar "jabá", apenas usando o fenômeno do estouro do clip e seu prestígio pessoal. Claro, perguntou-nos se aceitaríamos fazer um ou mais shows gratuitamente para a emissora numa permuta, e aceitamos a troca, que mesmo sendo uma espécie de jabá velado, se fosse cumprido a posteriori, ou seja, na base da máxima : "primeiro executem nossa música maciçamente, depois cumprimos os tais shows", era um pouco menos aviltante à nossa dignidade.

Fui com ele, mas na hora de conversar com os maiorais da referida emissora, Molina pediu para eu ficar de fora da sala de reuniões.
Clima pesado, dava para sentir, e uma mulher que fazia parte dessa cúpula ficou medindo-me de uma forma pouco amistosa e impetuosamente falou-me que quando viu-me, achou que eu fosse o "empresário" da banda, e não o artista em questão. Ora, uma maneira grotesca de dizer que julgava-me "inadequado" visualmente, principalmente pela idade, naquela altura para completar 48 anos de idade, portanto aparentando uma maturidade que deixara-a perplexa em seus parâmetros pessoais em termos do que é o show business, e sobretudo pelos conceitos de gestão de carreira que artistas do mundo brega seguem, com personal stylist & gestores de carreira acostumados a fazer com que boias frias transformem-se em galãzinhos padronizados, da noite para o dia, uma regra que sobrepuja a música e a arte em muitos anos luz, nesse planeta brega onde vivem.

Ali já perdi qualquer ilusão que o estouro do clip ou mesmo a intervenção do Molina resolveria a questão. Emissora fechada no mundo brega por ofício e vocação, a Gazeta FM não tocar-nos-ia nem que pagássemos o dobro do jabá que costumavam cobrar de duplas sertanejas; pagodeiros; e artistas da cena do "Axé Music" e "Forró", seu padrão de atuação como rádio popularesca. Isso porque não é só uma questão de dinheiro, mas de princípios traçados por marqueteiros e formadores de opinião. 

Nesses mesmos dias em que nosso vídeo era um fenômeno no You Tube, estávamos agendados para participar de um programa de internet, muito mais próximo da nossa realidade underground. 

Tratava-se de um programa chamado : "Loucuras do Alexandrelli", um talk show conduzido pelo rapaz em questão, com produção de Celia Coev (que conhecemos nesse dia, e hoje é uma amiga muito ativa nesse mundo de programas de TV de Internet), para uma emissora virtual chamada "Just TV". Fomos ao programa embalados pelo sucesso que o vídeo de "Longe do Chão" estava fazendo e a entrevista foi boa, com direito a algumas músicas tocadas ao vivo e "mezzo" acústicas, inclusive eu mesmo atuei usando o baixo semi-acústico que pertencia ao saudoso baixista Renê Seabra, que emprestara-me na ocasião.

Figura louca, que era um misto de Cazuza com Sérgio Malandro, o Alexandrelli conduzia seu programa de forma histriônica, mas devo dizer que divertimo-nos muito com toda aquela loucura da parte dele. Rapidamente também, levamos uma cópia do Clip de "Longe do Chão" para o programa que a banda "Irmandade do Som" produzia para a Rede NGT, e uma cópia também para a programação geral dessa emissora. Ali tocávamos com muitas exibições, desde 2006, e nossos clips de "O Dito Popular" e "Sou Mais Feliz" eram sucesso na grade da emissora, e no programa em específico. Eu e Rodrigo representamos o Pedra apenas numa entrevista, sem intervenção tocando ao vivo, em conversa conduzida pela vocalista e dançarina da banda, Cris "Boka de Morango". Infelizmente não tenho cópia desse vídeo, assim como o do "Loucuras do Alexandrelli". Com clip explodindo no You Tube; shows agendados, e mais o disco saindo do forno, dava-nos a sensação de que finalmente estávamos recuperando o embalo perdido no final de 2006, com o ano de 2007 tendo sido muito difícil para nós.

O Clip de "Longe do Chão", produzido por Antonio Celso Barbieri em 2008, contando com a animação "Android 207", do artista canadense, Paul Wittington :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=tyFjiBlphNo


E nesse embalo, o Barbieri sinalizou com um segundo lançamento de vídeo clip, exatamente para tentar aproveitar o sucesso do "Clip do Robot", como fora apelidado o vídeo de "Longe do Chão", fazendo alusão ao seu personagem principal, o "Android  207".
Abro parêntese para explicar que o Clip de "Longe do Chão era uma animação e tratava-se de um robot em miniatura, com uma aparência um tanto quanto macabra / fantasmagórica, numa situação de experiência sensorial / cognitiva, sendo observado em situações de dificuldades ante obstáculos, tentando achar uma saída dentro de um intrincado labirinto. 

E de fato, ele mostrou-nos rapidamente o novo clip, que promoveria a canção "Projeções", fazendo uma animação simples, mas muito bonitinha, utilizando as ilustrações da capa do novo álbum, Pedra II, de autoria de Diogo Oliveira e com sua autorização, logicamente. Estava tudo pronto para lançarmos o segundo clip do novo disco quando...


Empolgados com tudo o que estava ocorrendo, jamais poderíamos supor que um mal entendido gigantesco, provocaria uma ruptura abrupta e triste, acabando com a euforia...
Foi assim : quando Barbieri mostrou-nos o segundo clip, da música "Projeções", notamos que ele colocara uma tarja anunciando seu site. Nada mais justo que inserisse uma propaganda de seu site e era o mínimo que poderíamos fazer por ele em termos de retribuição por tudo o que estava fazendo em nosso favor, gerando um verdadeiro portal de oportunidades inimagináveis para a carreira da nossa banda.
Contudo, discordávamos da forma como a tarja aparecia, bem no meio do clip, e um tanto quanto exagerada em sua dimensão, tirando ligeiramente o foco do clip em si. Isso também acontecia com o clip viralizado de "Longe do Chão" e entre nós, achávamos tal procedimento inadequado, mas em meio à euforia gerada pelo resultado no You Tube, nunca tivemos uma conversa franca sobre esse problema e assim, quando ficou pronto o Clip de "Projeções", vimos que ele insistira nesse procedimento e nessa altura, já estávamos prontos para falar abertamente sobre essa queixa de nossa parte. Todavia, um fato fortuito e quase que involuntário, causou um incidente, e mudou o rumo da nossa relação com Barbieri, estragando a parceria. Ocorreu que o Rodrigo colocou uma cópia do Clip novo, ainda sem a tal legenda no ar, e quando o Barbieri viu a postagem, enlouqueceu. Da parte do Rodrigo, sua intenção não fora maquiavélica para prejudicar o Barbieri, é claro que não. Em sua ingenuidade, achou que adiantaria o serviço e que "depois", mediante uma conversa, tudo esclarecer-se-ia com Barbieri, visto que na ficha técnica, todo o crédito para ele estava todo correto e com direito à menção ao seu site, o que era o justo e mínimo de nossa parte para retribuir tudo de bom que ele estava fazendo por nós e certamente ainda faria.

Mas era o tal negócio... como explicar para o delegado, que "nariz de porco não é tomada", como diz-se popularmente ?? Imagino o Barbieri lá em Londres, cheio de entusiasmo para com a banda, abrindo o seu monitor e vendo que o clip fora lançado de forma unilateral e sem a tarja de seu site, sendo que o esforço de produção era todo seu ? O que deve ter sentido ?  Claro que sentiu-se traído, apunhalado pelas costas, e no calor da discussão (e foram dias de E-Mails tensos travados entre ele e Xando, que absorveu a bronca por ter acesso direto aos endereços oficiais da banda e portanto recebendo a artilharia pesada de Barbieri), o rompimento das relações foi inevitável. Foi um mal entendido inacreditável que gerou um resultado tão forte, ou maior ainda que o surpreendente sucesso do primeiro clip, eu diria. O Rodrigo só queria lançar o novo clip sem a tarja e nós também achávamos que ela era inconveniente, esteticamente falando. Pensávamos que se na edição, o Barbieri colocasse com toda a justiça e direito, sua propaganda no início e no final do clip, ao estilo da edição da MTV ou VH1, ficaria perfeito para ambas as partes e queríamos tratar disso com ele. Portanto, a precipitação inocente do Rodrigo em postar antes de combinar a modificação com o autor dos clips, gerou esse mal estar de um tamanho gigantesco.

Da parte do Barbieri, ele sentiu-se usado e traído e não era esse o caso, de forma alguma, pois o Pedra era formado por quatro homens de bem, que jamais tomariam uma atitude assim contra ninguém, quanto mais um amigo que estava dando-nos uma mão incrível naquele momento. Contudo, no calor da raiva, eu entendo que era difícil para ele, Barbieri, enxergar a situação com tal frieza e constatar que fora apenas um erro lastimável que cometêramos, e sem nenhuma intenção de prejudicar o nosso benfeitor, o que aliás seria uma maluquice sem sentido algum de nossa parte.
Como resultado, após discussões ríspidas das duas partes, Barbieri retirou o clip de "Longe do Chão"do ar e cancelou o lançamento do clip de "Projeções". Meu caro leitor, diante de tudo o que já falei sobre o episódio desses clips, em especial o do "robot", dá para mensurar o tamanho do prejuízo artístico que essa decisão de retirá-lo do ar, causou-nos ??
Então, cessando a animosidade, mas com o selo amargo do rompimento de relações, Barbieri pediu nossa atitude em forma de cavalheirismo, para que também retirássemos o vídeo de "Longe do Chão" do ar, pensando em nossas postagens, e claro que o fizemos, em termos de lisura. E a minha situação pessoal nesse imbróglio, como ficou ?

Sim, porque dos quatro, eu era o que mais conhecia o Barbieri, por conta dos inúmeros show que ele produziu da minha banda nos anos oitenta, A Chave do Sol, e minha impressão sempre fora a melhor possível sobre sua pessoa, em todos os quesitos, notadamente a sua força como produtor entusiasmado e empreendedor, assim como a lisura no trato financeiro. Pelo lado humano, o considerava / considero, um amigo. Mas ali em 2008, eu vivia um pequeno dilema pessoal, pois não acessava a internet, não sabendo nem o be-a-bá dos computadores, que possibilitasse-me dirigir-me à uma Lan House do bairro e comunicar-me com ele, quando certamente o chamaria para uma conversa esclarecedora entre amigos, e sei que ele ouvir-me-ia com outros ouvidos.
Por outro lado, não poderia também ser contra o pensamento da minha banda e seus interesses, além de que particularmente, também achava que a história da tarja estava exagerada e deveria ser modificada.

Então, avançando um pouco na cronologia, mas só para encerrar esse episódio da relação Pedra / Barbieri, digo que por ocasião do Natal de 2008, arrumei o endereço postal dele em Londres, e enviei-lhe uma carta manuscrita, tradicional, ponderando sobre tudo isso e expressando o meu lamento pelo mal entendido que gerou prejuízo e perda para todos e que eu estava chateado em nome da nossa amizade que vinha desde os anos oitenta. Eu precisava tomar essa atitude, por tudo o que já expressei antes, mas sobretudo pelo fator limitante de não ter comunicação virtual e ter passado a imagem de conivente ou omisso nessa situação. Alguns dias depois, avançando em janeiro de 2009, recebo uma carta muito bonita, manuscrita por ele, mostrando-se emocionado com minha manifestação e reiterando que apesar do aborrecimento gerado, ele tinha certeza de que isso não abalaria a nossa amizade de décadas, e que ficara muito emocionado com a minha manifestação isolada e sincera.

Não demonstrou no entanto, nessa carta, que havia entendido e absorvido o ponto de vista do Pedra nessa confusão, mas era o tal negócio, eu não poderia exigir que ele entendesse, pois era questão de fórum íntimo dele. O tempo passou, o Pedra acabou, passou mais um tempo e o Pedra voltou (não preocupe-se, leitor, pois volto à cronologia assim que terminar este raciocínio)...
Então, em 2013, passados cinco anos desse lamentável episódio, sem alarde, sem propaganda, Barbieri repostou os dois clips do Pedra no You Tube.

Claro que a repercussão foi muitíssimo diferente, haja vista que hoje, 2016, o clip de "Longe do Chão" ainda está com "700 e poucos views", num padrão até abaixo do que o Pedra gerou em seus promos, normalmente ao longo de sua história. Mas fiquei contente por ele ter tido tal atitude e também por colocar os créditos de uma forma bem mais razoável, fazendo sua justa propaganda, mas sem tirar o foco dos dois clips em si. Mais que isso, ambas, o clip de "Projeções", também, são belas produções que ele fez e merecem muito estar no ar para que as pessoas usufruam deles.

 
O Clip de "Projeções", criado em 2008, mas só lançado oficialmente em 2013. Produzido por Antonio Celso Barbieri, baseado nas ilustrações de Diogo Oliveira  

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=wL9NQ59CikY


As músicas e as imagens em ambos, casam-se de forma extraordinária, e atribuo ao Barbieri a feliz percepção de ter feito tal junção, fora o trabalho todo da produção e o seu costumeiro entusiasmo em produzir, agitar, empreender...
Por volta de 2014, ele abordou-nos, timidamente, como se a relação estivesse normalizando-se, aventando a possibilidade de participarmos de um festival com artistas brasileiros em Londres. E nessa altura, eu já interagia fartamente na Internet, e participei das conversas. Não deu certo, coisas assim são complicadas e tudo bem, a vida seguiu. Nossa amizade pessoal continua normal, falamo-nos por telefone quando ele veio ao Brasil em 2015, e infelizmente eu estava convalescendo por ter enfrentado duas cirurgias decorrentes de um problema de saúde que tive no início desse ano, e por isso não encontramo-nos pessoalmente.
Vez por outra ele publica textos meus que aprecia, em seu site, e isso deixa-me feliz e honrado, certamente. Foi assim então a história dos clips produzidos por Antonio Celso Barbieri, e apesar do desfecho lastimável que tivemos em 2008, a vida seguiu para o Pedra, apesar da perda incalculável que isso gerou na época.
Chateados ao extremo pelo ocorrido, mas tínhamos shows para fazer...

Nosso próximo compromisso seria no local onde apresentamo-nos em fevereiro, participando do festival "Grito Rock". Conforme já havia mencionado, fomos muito bem tratados pela direção do espaço em si, o "Centro Cultural Cidadão do Mundo" e ali surgira o convite para fazermos um show inteiro, no espaço, desconectado com a ideia do festival. Fizemos nossa divulgação padrão, e ao contrário do show no Festival citado, claro que faríamos uma apresentação completa, e isso denotava um esforço acrobático para acomodar o equipamento todo, promovendo a utilização dos teclados, visto que a apresentação no referido festival fora de choque, com poucas músicas apenas e só privilegiando o repertório de músicas com duas guitarras, para facilitar a logística.

Chegamos ao final da tarde no espaço, muito mais preocupados em fugir do trânsito, e não é fácil sair de São Paulo rumo a São Caetano do Sul no final da tarde e início da noite. Recebidos com entusiasmo pelos responsáveis da casa, estávamos com bastante tempo, e com muita paciência, fizemos a ginástica maluca de colocar todo o equipamento naquele palco tão tímido, e fazer tudo funcionar. Já sabíamos de antemão que o P.A. disponibilizado pela casa era bem simples, e claro que far-se-ia mister observar a dinâmica bem espartana, sob o risco de não ouvir-se as vozes e prejudicar assim a performance geral. Apesar de ser uma banda de excelência musical inquestionável, o Pedra tinha um sério defeito e que nunca corrigiu-o a contento, que era o fator dinâmica. Pelo fato de Rodrigo e Xando terem o costume de tocarem muito alto, a banda sempre padeceu nesse aspecto, infelizmente. Não por maldade da parte deles, de forma alguma, mas por terem esse comportamento arraigado, escoravam-se em desculpas típicas de guitarristas sobre "válvulas que precisam da pressão X para atuar melhor" e obter o timbre, ou a dupla amplificação, mesmo em ambientes minúsculos, como fator preponderante para ter o "stereo" em certas circunstâncias etc etc. Tais argumentos eram verdadeiros, tecnicamente falando, mas eram base para detalhes que aos ouvidos leigos eram absolutamente irrelevantes e na prática, com toda essa massa de equipamentos, ficava impossível tocar num volume razoável, sendo que na "hora H", tocando em casas noturnas tímidas, sob ação de P.A.'s bem fraquinhos, como esse em questão, a inteligibilidade das letras ficava hiper prejudicada e isso gerava frustração para a banda.
Esse e o fator da dificuldade de estabelecer uma agenda sustentável foram os dois pontos cruciais que mais atormentaram a banda ao longo de sua história. Haveria uma banda de abertura, mas que num arranjo bem caseiro, não representaria nenhum estorvo, pois seria a banda do nosso roadie, Daniel Kid.

Usando o nosso equipamento sem problema algum, seria um prazer dar essa oportunidade à banda "Daniel Kid e os Rockers". Soundcheck realizado, todos saíram para jantar nas imediações, mas eu fiquei na casa. Estava descansando no camarim improvisado no mezanino da casa, quando ouço a voz de uma pessoa amiga conversando com os donos do estabelecimento, que eram amigos dela em comum. Tratava-se de Cris "Boka de Morango", dançarina e cantora da banda "Irmandade do Som", que tão bem recebera-nos em seu programa na rede NGT, ao final de 2006.

Rara foto desse show, na verdade uma foto de bastidores, no camarim do Centro Cultural Cidadão do Mundo, em maio de 2008. Da esquerda para a direita : Rodrigo Hid; Cris "Boka de Morango" e Luiz Domingues. Foto : Grace Lagôa

Moradora de São Caetano do Sul, quando soube que ali tocaríamos, programou-se para ver-nos e foi um prazer recebê-la, naturalmente, uma pessoa muito querida por nós que tornou-se nossa amiga desde 2006. Um problema estrutural ocorreu lamentavelmente com a banda de abertura. O guitarrista havia tido um problema e a banda preparou-se para atuar com um guitarrista substituto, mas este adoecera no dia da apresentação. Corajosamente, Daniel Kid e o baterista fizeram uma apresentação hiper improvisada, aproveitando o fato de que o baterista também tocava violão e assim, num duo de violões e vozes, fizeram uma performance acústica e curta. Achei bem bacana a predisposição de ambos em não cancelar a apresentação e improvisar ainda que com prejuízo artístico, pois estavam prontos para uma apresentação elétrica com toda a potência da banda, mas isso não foi possível. Nosso show foi OK, conseguimos dar o recado mesmo numa apresentação com palco apertado, gerando incômodos físicos até. O pessoal do espaço foi super simpático e apreciamos a hospitalidade, mas o público foi pequeno, infelizmente. Noite de 2 de maio de 2008 no Centro Cultural Cidadão do Mundo, em São Caetano do Sul / SP, com cerca de 25 pessoas na casa. O que animava-nos nesse momento, apesar do episódio chato com os vídeos, foi a perspectiva de termos mais datas marcadas para bem breve, o que era muito bom.
O próximo show, seria um micro festival a ser realizado numa casa noturna velha conhecida nossa, mas cuja organização era de uma agência produtora nova que parecia imbuída da vontade de crescer e aparecer. Ótimo, gente empreendedora era / é, sempre bem vinda.

Recebemos convite da parte de uma produtora que dizia representar um escritório de agendamento de shows novato no meio, e que tinha planos de entrar no mercado para promover shows com bandas de Rock, autorais e off-mainstream.
Na conversa inicial, apesar de ser bem jovem, mostrava-se articulada e desinibida, além de que sua argumentação parecia marcada pela prudência, ao estilo "pé no chão", sem inventar coisas fora da realidade, sonhando com produções exageradas, e sobretudo com resultados mirabolantes, em se considerando que tratariam com artistas como nós, que militavam no underground da música.

Bem, nesses termos, por que não aceitar a proposta inicial que seria um balão de ensaio para a produtora, organizando um show triplex numa casa noturna com razoável infraestrutura (refiro-me ao "Café Aurora", localizada no Bexiga, bairro central de São Paulo), e da qual já conhecíamos por termos apresentado-nos ali em duas ocasiões anteriormente ? Indo além, a companhia que teríamos nesses shows compartilhados, seria ótima, ao lado dos amigos das bandas "Tomada" e "King Bird".

Pois então aceitamos o convite e mesmo não esperando muita coisa de uma bilheteria compartilhada em quatro partes, e pior ainda em se considerando que o show fora marcado para um dia útil dificílimo para atrair público, uma terça-feira, vimos com alegria que a tal mocinha parecia estar fazendo as coisas direito, porque agendou uma entrevista na emissora Brasil 2000 FM para agitar o micro festival, e claro que aceitamos ir para promover o show, ao lado de alguns componentes do "Tomada". No dia do show, o clima de camaradagem era muito grande entre as bandas, e não era para menos, pela amizade ali generalizada. O Tomada tocou primeiro, e haviam trazido consigo o guitarrista Martin Mendonça, guitarrista da banda de apoio da Pitty, uma cantora que havia alcançado um patamar médio na música, entre o underground e o mainstream, portanto, tinha um certo prestígio no meio e estava envolvido com eles, produzindo o seu novo álbum. O King Bird tocou o seu som mais pesado, um Hard-Rock com muitos signos setentistas bem bacanas, mas não fechando no som retrô, propriamente dito. Seu som na verdade pendia para o moderno e esbarrava em alguns aspectos no Heavy-Metal. Músicos de excepcional gabarito e muito gente boa no trato pessoal, gostei muito em compartilhar um show com eles. Quando fomos chamados ao palco, lamentavelmente e por ser uma terça, a casa já não tinha o pico de público que iniciara a noitada e os que ali permaneceram estavam num estado etílico alterado, portanto a impressão que eu senti ali, foi que esperavam de nós uma atitude de banda de entretimento para embalar a sua bebedeira, mas o Pedra tinha uma proposta artística muito sofisticada para esse tipo de expectativa hedonista .

          No estúdio da Brasil 2000 FM, concedendo entrevista

Nesses termos, foi uma apresentação sem sinergia com o público e tirante poucos ali presentes que foram para ver-nos, em detrimento das outras bandas, realmente não foi uma noite feliz para o Pedra.
Acontece, tal como jogador de futebol que entra em campo com a intenção de vencer o jogo sempre, músico também só sabe ao palco para fazer uma apresentação perfeita e que agrade inteiramente o público, mas isso nem sempre acontece. No caso dos jogadores, porque tem adversários com o mesmo objetivo, no nosso, são mil fatores, indo das falhas técnicas do equipamento à falta de sinergia com o público. Uma pena...

Enfim, bola para frente, teríamos um novo show em breve, e não queríamos que esse show com resultado pífio, aliado ao baixo astral que tivéramos com a retirada dos novos clips do ar, fato amplamente já relatado anteriormente, tirasse-nos o ânimo para os próximos compromissos. Sobre a garota e sua agência produtora, sumiram, e nunca mais tivemos notícias... e claro que isso não surpreendeu-nos, na medida que sabíamos há muito tempo que produzir shows de Rock dá trabalho, e os frutos dessa semeadura demoram para florescer. Noite de 13 de maio de 2008, Café Aurora em São Paulo, com cerca de 80 pessoas na casa.


O próximo show seria novamente de choque, portanto adequado para shows compartilhados com outros artistas, e nesse caso, tratava-se de um festival. Iríamos novamente tocar na Feira da Vila Pompeia, uma tradicional festa popular deste bairro simpático da zona oeste de São Paulo, costumeiramente realizado na terceira semana de maio.

O leitor mais atento há de recordar-se que ali fizéramos o nosso primeiro show, exatamente dois antes antes, portanto, haveria de ser simbólico para nós uma nova participação com tantas coisas ocorridas nesse ínterim, e apesar das dificuldades inerentes à uma banda independente do underground da música, tínhamos crescido em vários aspectos. Nessa feira, o "Palco Rock" é tradicionalmente o mais concorrido, com certa dificuldade para agendar-se uma participação, tamanha a demanda de postulantes, incluso bandas de outras cidades e estados que sabem que a Feira da Pompeia é uma vitrine para as suas aspirações. Mas tentamos uma cartada nova como estratégia e quando negociamos a nossa participação, pedimos para tocar num outro palco, destinado à atrações off-Rock, transitando entre a MPB moderna e outras vertentes, tais como a World Music; música étnica, e até artistas de tendências experimentais. Não que estivéssemos negando nossas raízes, como uma assumida banda de Rock, mas queríamos ter a chance de tocar para um público diferente, no afã de conquistar novas frentes e além disso, a concorrência era bem menor em um palco assim, pois estávamos acostumados a lidar com a dificuldade em agendar-se espaço no Palco Rock.

O lado obscuro dessa estratégia, seria o resultado prático, pois apesar da habitual bagunça que o "Palco Rock" tem na sua produção e logística, é de fato o que mais atrai público. Dessa maneira, sabíamos de antemão que não teríamos um público de milhares de pessoas como acontece todo ano no "Palco Rock", mas apostávamos na presença de um público diferente e que talvez começasse a descobrir-nos como artistas além de, seguramente, termos mais espaço para tocar, visto que a logística do "Palco Rock" é sempre tumultuada e quando o artista sobe ao palco, inexoravelmente é muito maltratado por produtores do festival que estão um num estado de "pilha de nervos" pelos atrasos, e descontam em você toda a pressão pela bagunça da qual eles são os únicos responsáveis....
Fora isso, o tempo para tocar, geralmente programado para ser meia hora para cada artista, acaba reduzindo-se com os atrasos e relembrando, quando tocamos em 2006, esperamos horas para tocar e quando subimos ao palco, tocamos a primeira música e ao iniciarmos a segunda canção, já estávamos sendo violentamente pressionados a encerrar a nossa apresentação. Portanto, isso também pesou na nossa decisão de procurar espaço em outro palco, talvez menos concorrido e portanto presumivelmente mais confortável em termos de tempo. Tal palco chamava-se "Palco Atitudes". Acho que já exprimi a minha opinião para a conotação errônea que a palavra "atitude" assumiu no universo do Rock pós-anos oitenta, e a autêntica bronca que nutro por tal expressão forjada por marqueteiros e jornalistas mal intencionados.

Erro na interpretação do release oficial do evento, neste site, anunciaram-nos como se fôssemos tocar no Palco Rock.

Portanto, já causava-me uma impressão ruim tal nome denotando uma intenção obscura, para ser ameno...
Mas tudo bem, apesar disso, eu estava motivado para tocar e como os demais, estava apostando na eficácia de nossa estratégia. Mas tudo foi por água abaixo quando fomos notificados que havíamos sido escalados para tocar às 12:30 horas, ou seja, um horário ingrato pelo calor e fatal baixa frequência, pois mesmo com a Feira já tendo um bom público circulando nas ruas nesse horário, fatalmente não era o público consumidor de música e sim o contingente interessado nas centenas de barracas de comidas & bebidas, e artesanato. E não deu outra, quando chegamos ao palco montado na esquina das ruas Ministro Ferreira Alves e Tucuna, havia um público muito pequeno assistindo o artista que apresentava-se antes de nós. Sinceramente não lembro-me o nome da banda em questão. Apenas recordo-me que era um quarteto igualmente, mas nitidamente os músicos não tinham uma escola rocker como nós, pela pegada. Faziam um som pop, mezzo anos oitenta / mezzo MPB "moderninha" ao sabor dos artistas da gravadora "Trama", para definir de uma forma generalizada. Quando acabaram, percebi que a produção desse palco era nitidamente mais amistosa do que a grosseria típica dos sujeitos que produzem o "Palco Rock", e isso reconfortou-me pela escolha que fizéramos.

Fomos chamados a apresentarmo-nos e nosso show foi bem legal, com o som bem equalizado nos monitores. O lado mau, foi que o público não melhorou grande coisa quando começamos. Para ser sincero, em se comparando com a multidão do "Palco Rock", eu diria que era irrisório, com pouco mais de 50 pessoas na frente do palco, o que foi muito decepcionante para nós. Para contrariar o que falei parágrafos acima, digo que tocamos "quase" confortavelmente em termos de tempo, pois uma produtora começou uma leve pressão na penúltima música prevista de nosso set list, querendo cortar nosso tempo, alegando atrasos.

Foi ameno, é verdade, mas depois que saímos, subiu ao palco uma banda que na minha ótica agiu errado duplamente. Primeiro, que os sujeitos tocaram uma ou duas músicas autorais e as demais, covers, e pior ainda, covers de artistas de qualidade muito duvidosa no cenário do mainstream daquela época. E segundo, porque seu set foi quase o dobro do nosso, e ninguém importunou-os para encurtar e deixar o palco. O Xando ficou chateado, lembro-me bem, e na primeira oportunidade que a mocinha que incomodara-nos passou por nós ele cobrou-a, falando que a banda em questão estava tocando o dobro do tempo e ainda por cima não tinha cabimento estarem fazendo covers num espaço que era para música autoral. A mocinha ficou naquele discurso padronizado ao estilo "call center", dando desculpas esfarrapadas e só faltou dizer : -"estaremos analisando sua queixa, senhor"...
Resumindo, fizemos uma tentativa e não logramos êxito no nosso intento. Tocamos num palco desinteressante, num horário inóspito, e para um público sofrível. Não havia nenhum artista significativo do meio artístico para dar élan à nossa escalação no mesmo dia, e o razoável conforto que supostamente tivemos por não enfrentarmos a truculência típica perpetrada pelos sujeitos do "Palco Rock", não valeu a pena.
Como consolo, dava para almoçar tranquilamente, e ir para casa assistir a rodada do futebol pela TV...

Uma última nota curiosa sobre esse dia, não tem nada a ver com a banda em si. Aproveitando a Feira em curso, Ivan foi dar uma volta com a família, visto que havia trazido a esposa e seu casal de filhos.
Seu caçula, Lucas, não tinha nem dois anos ainda, e naquela semana havia levado um tombo caseiro e estava com o rosto ostentando um pequeno hematoma. Contudo, nesse dia estava alegre e excitado pela agitação da Feira, e por ter visto o pai tocar, nem lembrava-se do machucado. Bem nessa época, um caso policial que repercutia nacionalmente, dava conta de um pai e sua esposa, madrasta de uma menina de seis anos, que eram acusados de assassinar a criança, tendo-a jogado pela janela de um apartamento bem alto. Pois o que é a junção entre a estupidez humana e o poder da mídia... o passeio da família foi encurtado porque Ivan e sua esposa, Beth, foram hostilizados verbalmente por alguns populares, que julgaram ser o hematoma no rosto do menino, uma agressão de seus pais... em suma : "Santa Ignorância, Batman"...
Agora, era focar no lançamento do novo disco e mais shows, somente em julho.

A tentativa de inserirmo-nos no mundo dos festivais de música independente era uma estratégia que estávamos adotando em 2008, paralelo aos esforços para finalizar e divulgar o novo álbum.
Já tínhamos logrado um pequeno êxito inicial ao termos sido escalados para participar do Festival 'Grito Rock", ainda que tal festival era muito pulverizado e o local onde fomos apresentarmo-nos, extremamente modesto e portanto, incapaz de promover uma grande repercussão. O lado bom em específico nesse caso, foi que conhecemos pessoas bacanas que gerenciavam o pequeno espaço que participou da organização geral do tal festival, e em tal pequeno centro cultural, as portas foram abertas ao Pedra, para uma apresentação extra, portanto, apesar de ter sido uma oportunidade de pequena monta para os nossos esforços de expansão, foi válido, claro.

Mas o Rodrigo, que havia tomado a dianteira em cavar espaço para o Pedra nesses festivais independentes, continuou seus esforços pela internet e com alegria, recebemos a notícia de que havíamos sido escalados para um tradicional festival realizado no interior de São Paulo, na cidade de Araraquara. Tratava-se do "Araraquara Rock", que realizaria a sua sétima edição. Promovido numa arena ao ar livre, ao estilo concha acústica, mostrava-se em tese muito maior que o festival Grito Rock, pelo menos em se comparando ao modesto espaço onde participáramos em São Caetano do Sul.
Animamo-nos, claro, pois seria bacana mostrar o nosso som numa cidade interiorana pujante como Araraquara e num festival que já tinha uma tradição nesse mundo da música independente.

Mas havia o lado ruim, e coloque ruim nisso, pois seguindo o padrão de 99.9% dos festivais independentes, as condições logísticas para os artistas eram de extrema aspereza. Sem cachet para início de conversa, a regra desses festivais era a de que estavam "oferecendo a oportunidade do artista apresentar-se num palco e com equipamentos legais", portanto, na ótica perversa dessa organização, isso por si só já era uma chance de ouro para qualquer artista do underground sonhando com a sua ascensão na carreira.
Essa mentalidade atroz, por si só já era absurda, pois se partirmos do pressuposto que os organizadores desses festivais ligados à essa organização, captavam recursos da Lei Rouanet, tirante as despesas operacionais e logísticas e uma justa parte dessa renda para ser dividida entre seus gestores, por que achavam que o cachet dos artistas não deveria ser pago e pelo contrário, embolsados sabe-se lá por quem ? Fora os recursos da Lei, atraindo dinheiro não tributável de empresas, havia cobrança de ingressos para o público. Mesmo tendo a contrapartida de cobrar barato do público em geral, como condição sine qua non imposta pelo governo como incentivo à cultura, a verdade é que tratava-se de uma renda extra. Fora os pequenos patrocinadores por fora; a comercialização de comida e bebida no espaço e o merchandising com lojinha a todo vapor vendendo bugigangas referentes ao festival em si ou relacionadas aos artistas que apresentar-se-iam.

Mas o que era ruim poderia piorar... não obstante o fato de não pagarem cachets aos artistas e todo aquele circo armado só justificava-se pela presença dos artistas, não pagavam despesas de traslado; hospedagem e alimentação, ou seja, o básico do básico do básico da relação contratado / contratante. Resumindo, esse mundo de festivais independentes que realizavam-se, institucionalizou uma mentalidade cruel, semelhante ao padrão de donos de casas noturnas de pequeno porte, que recusam-se a pagar cachets para bandas e nem mesmo prontificam-se a dar-lhes o mínimo de estrutura, sob a alegação torpe de que "faz muito" em deixar que toquem em sua casas, como se isso fosse um favor. Em suma, além de não ganhar cachet, pequeno que fosse, não teríamos nenhum verba de ajuda de custo.

Praxe desse tipo de festival, era um "pegar ou largar", com a aquela mentira deslavada sendo usada como pano de fundo, ou seja, "show de investimento de carreira". Uma coisa foi participar do "Grito Rock" em São Caetano do Sul, uma cidade "colada" em São Paulo, onde nossa despesa operacional foi mínima com a gasolina e o cachet de dois roadies que bancamos do bolso. Outra, era ir até Araraquara, cerca de 300 Km de São Paulo, tendo que arcar com a despesa de viagem e eventualmente hotel, refeições, fora o nosso operacional com roadies, e talvez técnicos de som e luz.

Tirar uma banda de Rock de casa, custa dinheiro. É como entrar num táxi e o motorista acionar o taxímetro com uma tarifa mínima, mesmo antes de engatar a primeira marcha do carro...
Naquela dúvida entre pegar ou largar, e de nada adiantava argumentar com o pessoal do festival pois essas eram suas "normas", ponderamos que seria bom participar para divulgar o novo disco no interior e quem sabe ganhar prestígio, com mídia agregada etc etc.

Confirmamos nossa participação e ficamos contentes em saber que duas bandas amigas estariam conosco nesse festival, além de outras tantas desconhecidas. Uma era o Baranga, e a outra era na verdade um combo montado de última hora para acompanhar o baixista Marcelo "Pepe" Bueno que estava numa aventura solo, divulgando seu recém lançado disco solo na praça, em paralelo à sua banda, o Tomada. E nessa banda, contando com grandes amigos nossos, como Denny Caldeira e Marcião Gonçalves nas guitarras e o espetacular Roby Pontes na bateria. Era uma banda improvisada e com poucos ensaios para acompanhá-lo nesse tarefa, mas de antemão eu sabia que daria tudo certo, tamanha a qualidade dos músicos que escolheu para formar tal banda de apoio.

Com muito esforço, paciência e "lábia", o Rodrigo conseguiu dobrar a resistência ferrenha dos organizadores e estes aceitaram pagar parte da despesa da van que contratamos, meno male...
Viajamos portanto no dia do show e tivemos uma logística diferente, pois Xando e Ivan estavam em São Carlos na noite anterior onde cumpriram um compromisso particular e sendo assim, sendo absolutamente na rota e apenas 30 Km antes de Araraquara, combinamos de apanhá-los nessa simpática cidade. De São Paulo, lembro-me que partimos com a sempre ótima companhia de Roby Pontes e Marcião Gonçalves, que iriam tocar com Marcelo Bueno.
Viagem tranquila, o motorista era muito gente boa e grande parte do percurso eu fui conversando com ele, e apreciei muito a sua condução segura, sem nenhuma loucura, pelo contrário, muito prudente e responsável. Quando entramos em São Carlos, foi extremamente fácil encontrarmo-nos com Xando e Ivan, que aguardavam-nos numa mesa de barzinho, em frente ao hotel onde muitas vezes eu e Rodrigo havíamos hospedado-nos naquela cidade, viajando com a Patrulha do Espaço. Foi quando um hippie velho abordou-nos na mesa, oferecendo seus trabalhos de artesanato e vendo-nos cabeludos e com a van abarrotada de instrumentos, deduziu que éramos uma banda. Até aí nada de mais, esse tipo de contato efêmero é costumeiro pelas ruas, quando um bando de cabeludos chama a atenção naturalmente. Acontece que o rapaz disse-nos que era músico também e que havia tocado com Sérgio Sampaio nos anos setenta...
Não era Renato Piau, guitarrista que gravou o disco do Sampaio de 1972 ("Eu quero Botar meu Bloco na Rua"), é bom esclarecer. Não recordo-me do seu nome, mas lembro-me que usava o sobrenome "Bahia". 

Inacreditável, não era mentira e quando falamos-lhe que havíamos gravado "Filme de Terror" do mestre Sampaio, ele emocionou-se.
Claro que ganhou um disco de presente e sua vez de emocionar-nos deu-se quando o Xando apanhou uma guitarra na van e emprestou-lhe para tocar e ele, mesmo com guitarra desligada, tocou músicas do disco do Sampaio. Que momento bacana e ao mesmo tempo triste, pois ele não aparentava estar bem, socio-financeiramente falando, sobrevivendo com artesanato e perambulava pelo interior de São Paulo de cidade em cidade, juntando dinheiro para realizar seu sonho de voltar à sua cidade natal no nordeste, acho que no estado da Bahia. Então, mesmo tendo esse momento inusitado ali em São Carlos, os ponteiros do relógio teimavam em não parar, e assim, apesar de estarmos perto, tínhamos que voltar à estrada e completar o percurso até Araraquara...


 
Chegamos na cidade de Araraquara, no final da tarde. A bela cidade mostrava seu entardecer, e justificava o seu apelido de ser a "Morada do Sol", cidade pujante por ter uma forte indústria; comércio, e tradição longeva em sua agricultura baseada no cultivo da laranja, alimentando grande parte da produção nacional e exportando muito, principalmente para o mercado norte americano.
Dirigimo-nos imediatamente ao local do show, e chegamos um pouco antes do horário pré determinado para o soundcheck.
Ali nos bastidores do local, foi muito prazeroso ter uma longa conversa com o guitarrista do Baranga, Deca, com o qual toquei por cinco anos no Pitbulls on Crack. Fazia tempo que não conversávamos e colocamos as novidades em dia, quando soube que havia sido papai de novo, por exemplo.  

Ficamos contentes por ver que o equipamento locado era de qualidade, tanto no P.A., quanto monitoração e backline com amplificadores de gabarito internacional, e uma carcaça de bateria de boa qualidade e em condições para não deixar nenhum baterista na mão. Fizemos o soundcheck e num gentil oferecimento de Marcelo Bueno, fomos ao hotel onde ele estava hospedado, e usamos as dependências para um repouso, banho e arrumação geral. Além das bandas amigas que citei, haveria várias atrações antes de nós, a maioria bandas transitando entre o Heavy-Metal e o Indie Rock, estes com a sua típica raiz Punk. Que eu lembre-me, havia apenas uma banda com um certo nome nesse mundinho do Indie Rock, e que chamava-se "Charme Chulo". Acho que eram do Paraná e pelo pouco que recordo-me, não era uma banda ruim como é praxe no mundo "indie", e até soava-me agradável, meio que lembrando o som de bandas britânicas de estilo "bubblegum", dos anos sessenta. E a atração headline da noite era uma banda ultra incensada na mídia, desde os anos noventa e na minha opinião, tal reverência era exagerada ao cubo, superestimando um trabalho que não justificava-se dessa forma. O "Nação Zumbi" e seu indie que virou mainstream, não convencia-me de forma alguma com aquela fórmula indigesta de misturar Punk-Rock / Heavy Metal com folclore nordestino, mas tudo bem, sem preconceitos ou nenhuma menção de haver qualquer animosidade, mesmo porque nem conhecia-os e não tinha absolutamente nada contra seus componentes, pessoalmente. Apenas não gostava / gosto de sua estética; ideias; sonoridade e ideais na música.
A noite avançou e os shows já estavam a todo vapor. Da coxia, vi uma banda, um power trio com som pesado, algo no limiar do Heavy-Metal. Garotos novos, tocavam bem e apesar de eu não gostar dessa sonoridade, vi no semblante e no gestual deles que estavam tocando com uma garra incrível e era nítido que queriam aproveitar a chance de estar tocando no sul, ainda que não num grande centro como São Paulo ou Rio, mas numa cidade interiorana paulista de porte. Eram de alguma cidade pequena de Pernambuco, acho, e tinham vindo de ônibus, com instrumentos na mão e um sonho. Claro que admirei isso e mesmo não sendo uma sonoridade que eu aprecie e apoie, desejei-lhes toda a sorte do mundo na sua carreira. Nem lembro-me do nome da banda, mas tomara que tenham atingido degraus acima no seu nicho de atuação, anos depois.

Tocou Marcelo Bueno e sua banda de apoio. Eram boas canções desse seu disco solo ("Nariz de Porco não é Tomada", uma clara brincadeira com sua própria banda), e valorizadas pela categoria dos músicos que acompanharam-no, parecia uma banda de carreira tocando, com entrosamento, e brilho. Foi bem bacana o show, mas claro, completamente desconhecido do público, não causou comoção. Mas eu gostei muito, assistindo da coxia. Chegou a vez do "Charme Chulo" e o som deles também soou legal. Da coxia, ouvindo uma "rebarba" do side fill, achei que o peso e os timbres estavam legais na monitoração. Quando fomos chamados a tocar, o público estava grande e assim que começamos, vi a figura ímpar de Gustavo Arruda na plateia, mas bem perto do fosso dos fotógrafos. Vocalista da banda "Homem com Asas" de São Carlos, cidade vizinha. Éramos amigos desde o tempo em que eu e Rodrigo éramos componentes da Patrulha do Espaço, e nossas respectivas bandas interagiram bastante entre os anos de 2001 e 2004.

Começamos a tocar e a monitoração estava ótima. Pelo "Side Fill", eu ouvia com nitidez até o tilintar da minha palhetada nas cordas. O bumbo da bateria do Ivan absolutamente "gordo" e aveludado por uma bela frequência, as guitarras com brilho etc etc. Como é bom tocar em boas condições sonoras, e como isso é raro na vida de quem milita no underground da música, infelizmente...
Começamos com "Megalópole" um tema instrumental transitando entre o Acid Rock sessentista e o Jazz Rock setentista. Intrincado e exigindo precisão de todos, saiu magnificamente bem, estávamos bem ensaiados. Numa análise fria, alguém poderia criticar a escolha de tal música para abrir um set de show de choque. Compreendo que talvez gerasse estranheza generalizada, mas eu acho que foi uma boa escolha, pois trouxe um diferencial para nós, em meio a tantas bandas com um som uniforme, usando e abusando dos clichês do Heavy Metal e pior ainda, o punk sofrível das bandas "indie", acho que abrir o show com aquela complexidade sonora, no mínimo causou um impacto aos ouvidos habituados a ouvir serras elétricas, ou a massa amorfa dos indies. Tocamos também "Se Você for a Fim"; "Letras Miúdas" e "Filme de Terror" do disco inédito, além de "Estrada" e "O Galo Já Cantou" do primeiro disco. Um set curto, ao estilo de show de choque, naturalmente.


Eis acima, "Letras Miúdas" no Araraquara Rock de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Z9etj5cOGTI


Lembro-me do Gustavo Arruda gritando entre os intervalos das músicas. Elogiava a banda aos berros, e isso era bem legal da parte dele e depois ele confidenciou-me que além de querer ajudar, estava achando a mixagem do nosso show, excelente e de fato, estávamos soando muito bem no P.A., segundo ele. Claro que ficamos contentes com essa informação. Nosso show não causou comoção igual à do Gustavo entre o restante do público, mas isso estava dentro da normalidade para um artista desconhecido das pessoas ali presentes. O Baranga assumiu o palco e lembro-me do Deca enlouquecendo, jogando para o alto e bem alto a sua Fender Stratocaster, sem receios. Conhecia-o de longa data dos tempos do Pitbulls on Crack, e sabia de sua performance ensandecida no palco, portanto. No camarim, a empresária do "Charme Chulo"  abordou-nos e quis trocar contatos conosco dizendo-se impressionada com a nossa performance, e que talvez  encaixasse-nos em alguma oportunidade futura. Nunca aconteceu nada, mas foi válido dar vazão ao contato, é claro. E era uma moça linda, bastante sensual e que monopolizou todas as atenções dos bastidores do festival. As piadas sobre a presença provocante da bela moça, avançaram madrugada adiante, certamente


Eis acima "Se Você for a Fim", no Araraquara Rock de 2008



Eis o Link para assistir no You Tube ;
https://www.youtube.com/watch?v=EG0Tft6t0pY


Bem, o ambiente estava agradável entre tantos amigos presentes, mas nosso plano não era dormir na cidade, e assim, deveríamos entrar na van e partir para São Paulo imediatamente. Mas aí começou a minha longa agonia para agrupar todo mundo, pois a dispersão foi enorme. Fazendo a função de "road manager", eu enlouqueci completamente, pois cada vez que localizava um membro da nossa comitiva e conduzia-o à van, outros que ali estavam, haviam sumido de novo. O motorista levava na brincadeira, informando-me que os rapazes estavam cansados de esperar dentro do carro e saíam sob a alegação de que procurariam os demais e claro que o objetivo era outro...

Enfim, foram duas horas em que enlouqueci completamente, pois era o único sóbrio ali e quanto mais tentava colocar ordem, mais achavam engraçado ver-me agoniado com a situação. Enfim, daria tudo para ter um road manager profissional ali e de pulso firme naquele instante, pois definitivamente não tenho paciência para ser monitor de acampamento escolar...

Outra ocorrência, foi o Gustavo Arruda, que levara um amigo, ex-colega da Universidade Federal de São Carlos, e que era de Juiz de Fora / Minas Gerais. Esse rapaz era muito articulado, como todos os amigos do Gus, Rockers intelectualizados, e fanático pelo guitarrista irlandês, Rory Gallagher, ficou animadamente contando-nos suas andanças pela Irlanda para acompanhar festivais em memória do saudoso guitarrista, e também disse-nos ter ficado impressionado com a nossa performance. Bem, depois das manifestações aos berros do Gus durante o nosso show...ha ha ha...

        O local do Festival, uma arena ao estilo concha acústica

Bem, finalmente consegui reunir todos os membros da nossa comitiva na van e partimos, com quase três horas de atraso em relação à nossa previsão inicial e a constatação: ser um abstêmio em meio aos etílicos, não é fácil... é preciso ter um saco escrotal muito elástico, com o perdão da expressão deselegante...
Festival Araraquara Rock, dia 12 de julho de 2008, com cerca de 1000 pessoas na plateia...
Disco saindo do forno, a próxima parada seria de novo no interior de São Paulo...


Já com o segundo álbum em mãos, nosso próximo compromisso ocorreu novamente no interior de São Paulo, e numa ação pouco usual na vida do Pedra, infelizmente. No dia seguinte faríamos o show de lançamento em São Paulo, capital. Digo que era uma grande pena mesmo que uma banda com um trabalho pautado pela excelência artística que possuía, tivesse tão poucas oportunidades de estabelecer uma agenda sustentável e dessa forma, ter dois shows seguidos em cidades diferentes era uma exceção e jamais a regra, como merecíamos e queríamos, certamente. Bem, conjecturas em forma de lamentos à parte, lá fomos nós para Piracicaba em 17 de julho de 2008, para apresentarmo-nos na unidade do Sesc daquela cidade super pujante e bem aprumada.

Preciso retroagir um pouco, no entanto, pois existe uma pequena história pregressa para explicar o porque de conseguirmos um show no Sesc de Piracicaba, se ainda não havíamos tocado em nenhuma unidade dessa rede sociocultural na nossa própria cidade, São Paulo. Ocorre que meu primo, Emmanuel Barreto, havia morado uns tempos nessa cidade de 2007, até o o início de 2008, quando esteve empregado num estúdio de gravação e ensaios, ali recentemente estabelecido. Tal estúdio era de propriedade de uma amigo dele, que eu conhecia também e que fora dono de um estúdio em São Paulo, no final dos anos noventa, onde minha banda, Sidharta, chegou a ensaiar, e posteriormente, a Patrulha do Espaço, também fez seus primeiros ensaios, por volta de abril de 1999. O estúdio chamava´se "Alquimia" e ficava localizado no bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, e o nome do rapaz era Claudio, apelidado "Formiga", e que aliás era um bom guitarrista.

Enfim, fazendo contatos com a cena musical da cidade, conheceu muita gente e logo foi apresentado à uma produtora do Sesc Piracicaba, e então começou a batalhar por uma data para o Pedra.
Esse trâmite não foi nada fácil, pois não éramos famosos no mainstream e de nada adiantava argumentar que "éramos bons"; "éramos uma banda de Rock com elementos de MPB e Black Music, e não Heavy Metal" (como geralmente os leigos enxergam o Rock, generalizando-o como um barulho perpetrado por e para gente da faixa infanto / juvenil), etc etc. Jogo duro na negociação, finalmente a mulher agendou-nos, mas não colocando a menor esperança de que arregimentássemos um público mínimo, não escalou-nos no teatro como queríamos, mas num palco lounge, da lanchonete da instalação. Não é nenhum demérito tocar num ambiente assim nas unidades do Sesc em geral, pois a infra estrutura de palco e equipamento é de primeira qualidade, haja vista os shows que ocorrem normalmente na Chopperia do Sesc Pompeia ou na "Comedoria" do Sesc Belenzinho, ambas com estrutura melhor que muito teatro por aí.

Mas sem dúvida que nossa aspiração seria o Teatro, com a perspectiva das pessoas sentarem-se ali para nos ver / ouvir, e não para comer e beber ao nosso som de fundo...
Paciência, claro que aceitamos o agendamento e assim processou-se.

Fomos para Piracicaba no dia do show e com bastante tranquilidade. Viagem rápida (188 Km de São Paulo, apenas), estrada excelente e astral legal porque tínhamos dois shows para fazer nessa semana, portanto, a motivação era total. A unidade do Sesc é muito bonita, localizada num belo bairro residencial daquela cidade e próxima ao seu charmoso e famoso rio, o rio Piracicaba, cantado em prosa e verso, e cenário de vários esportes ligados à canoagem, pela sua forte correnteza. Passamos por uma banca de jornais a caminho e ficamos contentes por constatar que havíamos saído em vários jornais impressos locais, com boas matérias.

A tal produtora mostrou-se surpresa com isso, e nessa altura já devia estar caindo na real que não éramos uma banda de Pop Rock iniciante, mas tínhamos substância, história e resultados já registrados para contar, e claro que nosso show deveria ter transcorrido nas dependências do bom teatro da unidade, mas, paciência...
Montamos o backline e ficamos contentes por verificar que o técnico de som era extremamente simpático e competente. Rápido e eficiente, deixou-nos com um ótimo som de monitor no palco e um confortável som no P.A.. em se considerando que era uma situação diferente a de tocar num lounge de lanchonete ao invés de um teatro. Contou-nos várias histórias de artistas que havia sonorizado no teatro. Soundcheck feito com muita tranquilidade, fomos descansar e esperar a hora de tocar.

Havia um horário, é claro, mas pelas circunstâncias, não necessariamente as pessoas apareceriam ali para ver-nos. Sendo uma lanchonete, o entra e sai era frenético e tínhamos a total consciência de que poderíamos enfrentar todo tipo de situação adversa ali. Mas o rapaz, que chamava-se Danilo, disse-nos para ficarmos tranquilos, pois hostilidade ali era impossível. O máximo que poderia acontecer era uma debandada, se o som não agradasse e outro ponto, palmas e manifestações positivas como gritos e assovios eram raros. A cada término de música, a tendência era o silêncio. Ok, estávamos avisados...
Quando chegou a hora de tocarmos, o lounge tinha aproximadamente 100 pessoas presentes. Começamos a tocar e a cada fim de canção, poucas palmas e a maioria em silêncio. Muitos nem olhavam para nós, ignorando-nos retumbantemente.


"Saiu de Férias" no Sesc Piracicaba, em 17 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=3rjmyu-dM_o

Um rapaz que sentou-se bem na frente na primeira mesa, tomava café e lia um jornal. Era um jornal local e deu para ver nitidamente quando ele estava na página do caderno cultural onde havia uma longa reportagem sobre nós, com direito a uma grande foto da banda. Nem assim ele levantou a cabeça por um minuto sequer, por curiosidade tola que fosse, para checar se os sujeitos da foto éramos nós em cima do palco, tocando... hilário !! Finalmente após acabar de ler o jornal inteiro, levantou-se e partiu sem olhar para nós... ha ha ha !!
Fomos tocando, sem importarmo-nos com essas reações estranhas e quando o show acabou, o técnico disse-nos que fora um sucesso, pois apesar do quase silêncio nas mesas, haviam gostado, pois em contrário, teria ocorrido uma debandada em massa logo na primeira música e que isso era costumeiro ali...
Numa mesa, havia um casal e uma moça, que foram uns dos poucos que aplaudiam e sorriam para nós, vendo o show com atenção.  abordaram-nos e compraram os dois discos da banda. Haviam gostado e acho que tornaram-se fãs doravante...
Na van, voltando para a casa, o motorista do veículo, que era uma indicação do Rodrigo, havia mostrado-se sério, um senhor reservado, na viagem de ida. Mas na volta, mais ambientado conosco, começou a contar "causos" envolvendo clientes malucos que atendera em ocasiões passadas. Uma das histórias que contou-nos é impublicável aqui, e nem vem ao caso especificar, mas digo que foi uma das mais hilárias que já ouvi e gerou uma epidemia de gargalhadas que deixou-nos com os respectivos abdomens doendo, de tanto que rimos. Aos membros da banda que lerem este trecho e a equipe técnica que acompanhou-nos nessa viagem (principalmente o Samuel Wagner, roadie, que quase teve um colapso de tanto que riu), deixo só uma dica interna para lembrarem-se : foi a história da "cumbuca"...
No dia seguinte, o compromisso era nobre : lançamento do álbum Pedra II, no Centro Cultural São Paulo. Em Piracicaba tocamos no dia 17 de julho de 2008, na unidade do Sesc Piracicaba, com 100 pessoas na estranha plateia, e pelo visto, só com três prestando atenção...

Era chegada a hora do grande lançamento em São Paulo, do nosso novo álbum, Pedra II. Com uma capa espetacular; um nome pomposo; e um conjunto de ótimas canções, tínhamos em mãos uma grande obra, que talvez tenha superado o primeiro disco, sem nenhum demérito ao anterior que também acho ótimo.


Contudo, era claro o nosso amadurecimento como banda, fazendo um disco cheio de coloridos memoráveis, tanto na qualidade das composições, quanto na excelência dos arranjos. Tinha a questão do apuro nas letras um ponto de honra para a banda e com a mão de ferro do Xando nesse quesito, que chegava a exagerar em sua exigência nesse aspecto.

Bem ensaiados e com surpreendente sequência de shows, atípico para a história da banda, lamentavelmente, chegamos ao Centro Cultural São Paulo para preparar o nosso palco bem cedo, logo no início da tarde.




 
Montamos tudo com rapidez e tivemos o apoio sempre bem vindo do iluminador Wagner Molina, que era garantia de tornar nosso espetáculo algo muito mais valorizado, graças à sua capacidade e criatividade para conceber um mapa de iluminação espetacular.






Sem banda de abertura, tampouco outras intervenções como havíamos feito com uma trupe de teatro e a performance ao vivo do artista plástico, Diogo Oliveira, em duas ocasiões anteriores, a ideia ali era fazer um show de Rock tradicional e mais longo, tocando o máximo de músicas do novo álbum, mescladas com algumas do primeiro disco, logicamente.




Estávamos num momento muito bom, tecnicamente falando, e apesar de alguns revés ocorridos recentemente, nosso astral estava bom, animados pela sequência de shows e lançamento do disco, refletindo-se no palco, com uma energia boa que transpassava ao público.




Portanto, a lembrança que eu tenho desse show no Centro Cultural São Paulo, em 2008, é da banda estar soando muito bem.

"Longe do Chão no CCSP - 18 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=_JhlxQOhQOY


De fato, foi um ótimo show e acredito que fizemos um belo espetáculo de lançamento, a altura do grande disco que estávamos apresentando aos fãs, críticos e sem soar piegas e presunçoso, mas sendo realista, para o mundo. 


"O Dito Popular", com direito à menção de "Papa Was A Rolling Stone" - Centro Cultural São Paulo - 18 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=I07o8Rxj0J8


O único ponto negativo nessa equação, foi o público tímido que compareceu ao Centro Cultural São Paulo, mas havia uma desculpa na ponta da língua : o fato de cair numa sexta-feira, e naquele horário padrão das 19 horas desse teatro, ou seja, uma hora de trânsito engarrafado em São Paulo, apesar de julho ser mais ameno por conta das férias escolares.


Então, talvez isso fosse um consolo, mas claro que apesar disso, nossa banda lançando um disco dessa qualidade merecia a casa lotada, e quiçá, numa temporada de cinco dias seguidos com casa cheia todas as noites. 

"Projeções" no Centro Cultural São Paulo - 18 de julho de 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=U6Z-o3IOL-Y

Então, foi assim, um show ótimo, de uma banda afiada e motivada, lançando um disco excelente, mas só com 80 pessoas na plateia...
Dia 18 de julho de 2008, no Centro Cultural São Paulo.

Depois que lançamos o disco novo no Centro Cultural São Paulo, em julho de 2008, comemoramos os elogios que o disco foi recebendo por parte da imprensa e nas Redes Sociais da Internet, notadamente o Orkut, que ainda era a Rede mais usada nessa época, embora começasse a dar seus primeiros sinais de desgaste.
Os bons comentários animavam-nos, mas isso não refletia exatamente em oportunidades de novos shows e novamente entramos numa fase difícil, com escassez de oportunidades e aí o clima interno da banda deteriorava-se, como acontece com toda banda que fica sem perspectivas imediatas.

Uma reaproximação do agente Marco Carvalhanas aconteceu, e desta vez ele sinalizou com uma possibilidade de intercâmbio com uma emissora de rádio AM de uma cidade da Grande São Paulo, chamado Franco da Rocha. Seria uma permuta ao estilo das habituais negociações que ocorrem em emissoras de grande porte, com o "jabá" velado sendo cobrado em formato de shows ao vivo promovidos pela emissora. Nesse caso, por ser uma emissora pequena de uma cidade muito carente, é óbvio que os shows seriam sem infra estrutura grande e pelo contrário, realizados em pequenos palquinhos de madeira improvisados e sem chance alguma de realizarem-se ao vivo, sendo regidos pela palhaçada da dublagem.

Nunca o Pedra havia passado por um "mico" assim, e eu contava nos dedos de uma só mão, a quantidade de vezes que passei por situações parecidas com trabalhos anteriores que realizei. A priori, só lembro-me das ridículas dublagens feitas no Teatro "Pimpão", que fiz com A Chave do Sol e o Língua de Trapo para o programa de Rádio, Balancê, da Rádio Globo / Excelsior, nos anos 1980, e uma dublagem ao vivo no Palácio das Convenções do Anhembi, para um programa da TV Record, com A Chave do Sol, também na década de oitenta.

Quando passei a situação para os companheiros, claro que eles ficaram divididos entre a indignação e o escárnio pelo caráter brega e ridículo de tal situação. Eu também sentia o ranço brega forte nessa situação e duvidava da eficácia para o nosso anseio artístico de uma empreitada desse tipo. Uma coisa era fazer shows nos salões suburbanos da baixada Fluminense para reverter em aparições no programa do Chacrinha, mas outra bem diferente seria encarar shows em bairros carentes de uma cidade da Grande São Paulo, para ter execução de uma música nossa na programação de uma rádio popularesca de baixa audiência e com espectro de ouvintes muito distante do nosso nicho alvo. 

Trocando em miúdos, a expressão certa era : para que ?
Exatamente a mesma coisa era unânime entre os quatro, e até o Carvalhanas que fez a proposta também tinha essa consciência, é claro. No entanto, a questão era : podíamos dar-nos ao luxo de recusar sumariamente uma proposta de divulgação, mesmo não sendo algo fundamental para nós ? 


Naqueles picos de escassez de oportunidades que o Pedra enfrentava costumeira e infelizmente, quando um fato novo acontecia, diante desse panorama, era quase uma obrigação agarrar a oportunidade, mesmo que acarretasse posterior arrependimento.

Éramos como andarilhos no deserto e quando aparecia um pequeno oásis à nossa frente, não dava para questionar se a água disponibilizada era de qualidade ou não...
Nesses termos, mesmo a contragosto porque não era a melhor das oportunidades, aceitamos fazer e teoricamente a música "Nossos Dias" do nosso disco Pedra II, entrou na programação da tal emissora; seria trabalhada até popularizar-se e aí, no primeiro "show" promovido pela emissora na cidade, compareceríamos e faríamos uma dublagem da canção ao ar livre. Alguns dias depois, uma entrevista ao vivo com um locutor de tal emissora foi agendada. Eu falaria num domingo a tarde com o rapaz por telefone e realmente isso aconteceu. Não lembro-me de seu nome (aliás, nem da emissora...), mas recordo-me no entanto que o rapaz era bem comunicativo e simpático, e apesar de fazer perguntas óbvias, denotando não ter a mínima noção do tipo de artistas que éramos e usando dos clichês habituais que são usados no mundo brega para entrevistar artistas populares, a intervenção foi boa.

De fato, "Nossos Dias" começou a tocar e por ser possivelmente a canção mais pop do disco, podia ser executada mesmo em emissoras populares e acho que com chances de tornar-se um sucesso nessa camada da população. Mas apesar do Carvalhanas falar com o rapaz da rádio constantemente, e eu mesmo ter falado algumas vezes, os tais shows de permuta nunca ocorreram. Se por um lado era um alívio não participar de eventos tão fora do nosso espectro artístico, por outro, nunca ficamos sabendo qual seria a real receptividade de uma música como "Nossos  Dias" numa camada popular. Poderia ter sido um balão de ensaio e tanto para aferirmos algo que era incompreensível para nós.

Outro evento ocorrido em 2008 e também envolvendo rádios, veio da parte do nosso amigo Osmar "Osmi" Santos Jr. e coincidentemente, um dos autores da canção que mencionei acima. Muito experiente no meio radiofônico, "Osmi" tentou ajudar-nos mais uma vez, intermediando um contato na rádio Eldorado FM, aí sim, uma emissora de muito respeito no mundo radiofônico paulista e brasileiro. Levamos nosso material lá, selecionando músicas como "Nossos Dias"; "Meu Mundo é Seu", e "Projeções", mas na ótica de seus mandatários, tais canções eram "pesadas" para os padrões deles e pior ainda, consideradas "juvenis". Mandaram dizer-nos que o espectro da emissora era o de padrão "adulto". Era rir para não chorar, na idade que nós tínhamos, ouvir uma asneira tão despropositada dessas. Mas o "Osmi", profundo conhecedor dos bastidores do mundo do Rádio, explicou-nos que não era para ofendermo-nos, pois isso era normal na visão deles, radialistas. Consideravam qualquer coisa que soasse, minimamente "pesada" como "Rock", e mediante tal rótulo, estigmatizam o artista em questão como dirigido a adolescentes e crianças. Ou seja, era uma classificação tão imbecilizante e obtusa, que lembrava a estupidez dos quadros que serviam a censura na época da ditadura militar, verdadeiras bestas analfabetas, literais e funcionais.

Tentando ajudar ainda e não deixar-nos esmorecer em relação a tentarmos uma adequação para podermos tocar em rádios de porte, e ainda não contaminadas inteiramente com a vergonha do "jabá", "Osmi" contou-nos que um expediente usado por artistas de gravadoras majors, era o de suprimir guitarras em versões especialmente concebidas para tocar nas rádios, e assim driblar o paradigma imbecil de que no rádio não pode tocar música mais pesada. Segundo contou-nos, muitos artistas faziam isso e assim asseguravam execução maciça nas emissoras, fazendo sua popularidade aumentar. Na sua opinião, era uma imbecilidade tremenda e ele mesmo, sendo um Rocker de carteirinha, odiava essa "Lei" velada que existia dentro das emissoras, com exceção das rádios Rock, logicamente. 

Sua explicação para o caso era claríssima, e chocou-nos pela simplicidade dos fatos : algum idiota que militava numa emissora de rádio, décadas atrás, devia odiar Rock e passou a boicotar bandas que apresentavam peso acima do que seu gosto pessoal permitia.
Nessa predisposição, rejeitava músicas nesse parâmetro e isso espalhou-se em outras emissoras. Em suma, era um paradigma imbecil e que ninguém sabia exatamente de onde veio e qual a razão da rejeição, mas tradição criada, todo mundo foi perpetuando essa estupidez e isso está aí até os dias atuais.

Com a sugestão lançada, e em se considerando que o Xando tinha o estúdio à disposição, seria uma questão de poucas horas para pegar o track bruto da música "Sou mais Feliz"; suprimir a guitarra e acrescentar um violão "riscado" sem muitos desenhos rítmicos; abaixar teclados e baixo um pouco mais, e mixar uma nova versão "light" da canção. Apesar de estarmos lançando um disco novo e termos três músicas com potencial pop excepcional, que já citei acima, o "Osmi" insistiu numa estratégia de trabalharmos "Sou Mais Feliz", porque ela tocava na sua emissora, a Brasil 2000 FM, até aqueles dias de 2008, e portanto, seria mais fácil obter um efeito cascata se entrasse também na programação da Eldorado. Segundo ele, quando uma cascata formava-se no mundo das rádios, tal precipitação tendia a obrigar outras emissoras a viralizar a música, mesmo não havendo a maldita cobrança do jabá, portanto, era uma chance.

Perdeu-se tempo nessa operação, mas claro que valia a pena a tentativa e assim que uma nova versão de "Sou Mais Feliz" ficou pronta, o "Osmi" a pôs para tocar na Brasil 200 FM, já na estratégia de caso a Eldorado aderisse, a cascata radiofônica estivesse pronta para iniciar-se. Mas... a versão ultra light de "Sou mais Feliz" foi rejeitada e o programador mais uma vez insistiu na tese de que o Pedra não fazia uma música "adulta", e que buscasse execução em rádios "jovens". Numa boa, sem rancor algum com a Rádio Eldorado FM e seu staff, mas se "Sou mais Feliz", na sua versão normal do disco, já era adequada para tocar, na minha opinião de músico, imagine então essa versão que seria aprovada até pelos fiscais do "Psiu"(para quem não é paulistano, explico que o "Psiu" é um órgão da prefeitura de São Paulo que fiscaliza casas noturnas que excedem o barulho durante a noite e madrugada), e seus indefectíveis medidores de decibéis...
Então é isso, quem sabe um dia o Xando lança essa curiosa versão light de "Sou mais Feliz" como peça curiosa da discografia da banda, e seria bem legal nesse aspecto.

Outro fato novo que aconteceu nesses meses finais de 2008, deu-se também no campo do jornalismo. Um jornalista top, crítico musical de uma revista de circulação nacional e ouso dizer, a maior do país, abordou-nos via E-mail. Disse que havia achado o nosso trabalho interessante, pesquisando na Internet e gostaria de ter nossos discos para uma análise mais aprofundada. Particularmente, achei inacreditável que um jornalista do mundo mainstream abordasse-nos espontaneamente e dessa forma simpática, solícita. Desde os anos oitenta, acostumara-me a ser hostilizado nesse mundo da superfície do mainstream, e o que sempre esperava desse tipo de jornalista da camada superior, era desdém e rabo preso com a maldita mentalidade niilista, perpetrada pelos seguidores de Malcolm Mclaren.

Mas esse rapaz, mostrava-se alheio à essa cartilha fascista e nefasta, portanto estava sendo sincero, o que era extraordinário, não só para o trabalho do Pedra, mas enxergando muito além, eu diria que era um fato inédito na minha carreira toda. Ao longo da minha carreira, e o leitor atento há de recordar-se dos capítulos anteriores de bandas pregressas que tive, eu citei muitos nomes de jornalistas que considero verdadeiras feras desse ofício, com canetas fortes e caráter ilibado, porém em sua maioria militando em órgãos pequenos e médios do jornalismo cultural. Sendo assim, creio que tirante minha estada no Língua de Trapo, que era uma banda bem relacionada em esferas maiores do jornalismo, um crítico musical top, militando num órgão de primeira grandeza e que abordasse com simpatia sincera um trabalho meu, era algo inédito na minha carreira e naquela altura já ostentando mais de 32 anos de labuta.

Respondemos o E-mail e entregamos os discos no endereço residencial desse jornalista e dias depois, ele respondeu que havia gostado muito do som, mas não muito das letras. O Xando que tinha verdadeira obsessão por tal quesito em si, ficou chateado e estupefato, pois na sua ótica, as letras eram um dos grandes trunfos da nossa banda. Eu também achava / acho isso, ainda que com maior cautela. Dias depois, em outra conversa por E-Mail, estreitou relações e quis conhecer-nos pessoalmente e depois de quebrado esse gelo inicial onde o tratávamos com um cuidado especial devido a sua posição num órgão de imprensa gigante no mercado, fomos ficando amigos e maravilha, o rapaz era / é gente boa pacas...
Ex-aluno de jornalismo da... claro... Cásper Líbero, a faculdade de jornalismo que andou paralela à minha carreira musical desde os primórdios do Língua de Trapo e lá estava eu de novo estreitando amizade com outro jornalista "casperiano"...

Inconformado pelo fato de uma banda como a nossa ser ignorada no mundo mainstream, falou coisas que foram dardos no meu coração, mas positivamente, eu diria... suas afirmações sobre falta de oportunidades e reconhecimento para trabalhos como o Pedra também poderiam ser atribuídas a trabalhos anteriores que fiz, notadamente com A Chave do Sol e a Patrulha do Espaço, portanto, ouvir isso da boca de um jornalista mainstream era um bálsamo para a minha alma. Sua afeição pela banda foi total, mas daí a abrir seu computador e escrever resenhas para os nossos discos havia uma dificuldade.

Claro que tinha que respeitar a hierarquia de sua redação e não dependia só de sua vontade pessoal, contudo, era óbvio que enxergava qualidade em nós, e se dependesse dele, na primeira oportunidade dar-nos-ia uma mão. E só para constar : depois que ficamos amigos e tivemos liberdade, o Xando perguntou-lhe sobre ele não ter apreciado as letras na primeira avaliação que fizera, e ele retrucou que confundira com outra banda, e isso era normal em se considerando que ouvia materiais o dia inteiro e escrevia diversas resenhas.  Seu nome era Sérgio Martins e ele era o crítico musical da Revista "Veja".

Fazendo um balanço final sobre o ano de 2008, ele começou marcado pelo acúmulo de frustradas tentativas em recuperamos o embalo de 2006, perdido ao longo de um 2007 muito difícil para a banda. A estratégia proposta pelo Rodrigo ao buscarmos espaço no mundo dos festivais independentes foi muito válida, e só no decorrer do tempo nós fomos perceber que esse mundo era corroído. Mas tudo bem, encaramos o "vivendo e aprendendo" e fizemos dois shows em tais festivais, abrindo porta para um terceiro, graças a esse esforço dele, Rodrigo. Tivemos um momento de intensa motivação quando fomos surpreendidos pela viralização do vídeo clip da música "Longe do Chão", e parecia que retomaríamos o embalo de 2006, e o superaríamos até, mas tudo virou pó da noite para o dia e por conta de uma mal entendido tremendo...
Nosso maior orgulho em 2008 foi o lançamento do álbum Pedra II, o segundo trabalho oficial da banda, pleno de atrativos musicais e visuais.


Vídeo promocional do CD Pedra II, produzido em 2008

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=r3782u2SXzk

 
Emendamos uma sequência de shows interessantes, inclusive fora de São Paulo. Outra grande surpresa foi ganhar o apoio sincero de um jornalista mainstream, do porte de Sérgio Martins. Bem, e após o show de lançamento, caímos de novo num momento de ostracismo...

2008 terminou com o Xando muito incomodado com esses altos e baixos na trajetória da banda, e tendo uma ideia para ver se o panorama de 2009 mudava. E tal ideia só ganhou corpo mesmo, quando um fato novo apareceu e animou-nos mais uma vez.
Sérgio Martins, esse grande jornalista musical do mundo mainstream, ligou-nos, e disse estar com uma pauta já em andamento para sua revista mega famosa de circulação nacional, a "Veja". Ele queria acompanhar os bastidores de turnês de alguns artistas. Viajaria com artistas do mainstream em meio às suas turnês milionárias e recheadas de mordomias e conforto; viajaria com um artista médio, em condições boas, mas bem abaixo do luxo das mega estrelas, e por fim, encararia a dura realidade de um artista do underground, viajando e tocando com parcos recursos. Estávamos convidados portanto a ter um jornalista top, acompanhado de um repórter fotográfico dessa grande revista, viajando conosco e cobrindo 24 h por dia as nossas dificuldades e virtudes; nossos esforços para vencer adversidades; mas também a determinação de levarmos a nossa música onde fosse, angariando público e simpatia das pessoas.

Só tinha um detalhe, o Pedra era uma banda sem agenda, com uma dificuldade gerencial terrível nesse sentido, e não havia perspectiva alguma de show, nem para São Paulo. Mas esse jornalista fora taxativo : seu editor queria que ele viajasse para cobrir turnês e para figurarmos nessa reportagem, no mínimo deveríamos apresentar duas datas em cidades interioranas para chamar isso de turnê, e justificar nossa participação na reportagem...

Dava para dispensar sair numa mega reportagem recheada de fotos na Revista "Veja" ?
Portanto, o Xando tirou da cartola uma ideia e materializou dois shows no interior de São Paulo para janeiro de 2009, garantindo assim ao jornalista Sérgio Martins, que estávamos prontos, e ele poderia fechar conosco para essa etapa de sua reportagem de campo. Dessa forma, 2009 tinha tudo para garantir-nos uma guinada, e assim animamo-nos mais uma vez para encarar tal desafio.

Continua...

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