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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 7 - Vai Escutando... - Por Luiz Domingues


Outro assunto que corria paralelamente, era o festival internacional que participaríamos. O produtor Marcelo, recebeu-nos para vários encontros, onde finalmente percebemos que o festival estava concretizado. Contudo, muitas coisas mudaram em relação às conversas iniciais. 

A primeira coisa é que estava descartada a realização no Estádio da Portuguesa de Desportos, conforme a projeção inicial. Nessa altura dos acontecimentos, os Mutantes estavam voltando oficialmente, mas com a formação baseada ao máximo na original, e não a da fase progressiva, e sendo assim, estavam descartados também.
Assim como Alice Cooper e Whitesnake. 

Mas a boa nova era que o "Uriah Heep" estava confirmado, o que dava um caráter internacional. E, por outro lado, duas bandas de Heavy-Metal nacionais, o "Salário Mínimo" e o "Tropa de Choque" estavam confirmadas. Haveria uma terceira banda nacional, que seria o "Exxotica", mas por problemas burocráticos, foi descartada logo a seguir. Não tenho nada contra as três bandas, onde aliás tenho amigos, caso do Salário Mínimo e do Exxotica. Admiro a luta de todas e respeito-as. Mas por outro lado, achava equivocadas as escolhas do produtor Marcelo. Essas bandas não tinham nada a ver com o Pedra e minimamente a ver com o Uriah Heep. Muito mais conveniente seria alojá-las num festival de seu nicho, ou promovendo-as como abertura de bandas internacionais condizentes do mundo do Heavy-Metal. E poderia ter sido ainda pior, pois o seu assistente queria a todo custo encaixar a banda que produzia. Com todo o respeito, mesmo reconhecendo que o sonho daqueles garotos era o mesmo de todo mundo que envolve-se na música, eles não tinham condição técnica mínima para tal empreitada, e mesmo que reunissem condições, seria uma disparidade estética ainda maior que as bandas de Heavy-Metal que citei acima. Com muito custo o rapaz rendeu-se às evidências, e os garotinhos "emo" de tal banda ficaram de fora do Festival.

Na mesma semana em que realizamos as filmagens da parte dramatúrgica do novo vídeo clip, tivemos um novo show no Café Aurora. Desta feita, tocaríamos dividindo a noite com o "Carro Bomba" e o "Baranga".

Fizemos a divulgação tradicional com cartazes e filipetas, mas em escala reduzida, visto que esse tipo de esforço estava cada dia mais ineficaz, em razão da internet e as suas redes sociais. O show foi impecável musicalmente, pois estávamos afiados e vindo de uma sequência de shows.120 pessoas aproximadamente estavam na casa, nessa noite de 11 de agosto de 2006. 

Como fato curioso, recordo-me que o dono do estabelecimento estava tenso, pois temia um calote do público. 

A explicação é cabível para quem não é de São Paulo : o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da USP, tem uma tradição estudantil de muitas décadas. Como a data de seu aniversário é o dia 11 de agosto, que inclusive cede-lhe o nome, promove pela cidade inteira, o chamado "pendura", ou seja, alunos entram em bando em restaurantes e pedem pratos e bebidas caras, para anunciarem ao final que não pretendem pagar a conta. Não importam-se em promover escândalo, tampouco intimidam-se com a reação dos donos das casas, presença da polícia e muito menos com eventual enquadramento nas delegacias de polícia, justamente por serem estudantes de direito e conhecerem as famigeradas "brechas da Lei"... 

Por isso, o dono do Café estava preocupado, pois a qualquer momento uma mesa cheia de jovens com pedidos perdulários, poderia anunciar o "pendura", em nome da tradição do "C.A. 11 de agosto"...
Apresento duas músicas provenientes desse show de 11 de agosto de 2006, no Café Aurora. Tratam-se de "Se Agora eu Pulo Fora", e "Amanhã de Sonho". O cinegrafista foi o meu primo Emmanuel, que demonstrou firmeza, pois nota-se um movimento manual muito suave que mais parece o de um "travelling" de cinema, mas acreditem, foi na mão mesmo, e utilizando uma antiquada câmera Mini-VHS.
 
"Se Agora eu Pulo Fora"

Eis o Link para assistir no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=UyVEn5THZFY  


"Amanhã de Sonho"

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=6QAn1XKYrxA

Da esquerda para a direita, Daniel Alvim (ator); Claudia Cavalheiro (atriz), e Eduardo Xocante, diretor do vídeo Clip de "Sou Mais Feliz"

E o novo vídeo clip ficou pronto. O resultado final ficou excelente, sendo considerado por todos como superior ao primeiro onde divulgamos a música "O Dito Popular". Claro, havia cenas reais de um show ao vivo do Pedra, mais a parte dramatúrgica com um casal de atores profissionais, que valorizou demais o trabalho. 

As cenas externas filmadas na Av. Paulista no período noturno, ficaram muito charmosas. A urbanidade caiu como uma luva, dando um caráter muito próximo ao que o Pedra representa como banda.
Em princípio, o clip foi levado à MTV, programa "Alto Falante" da Rede Minas e à Rede NGT onde o clip de "O Dito Popular" era veiculado com muita força, desde 2005. Na MTV e no Alto Falante, não tivemos nem resposta...
 


O vídeo clip oficial de "Sou Mais Feliz". 
 
Direção de Eduardo Xocante. Atores : Daniel Alvim e Claudia Cavalheiro. Figuração : Lu Vitaliano, Daniel Kid, Emmanuel Barreto, e a banda.  
 
Eis o Link para assistir no You Tube : http://www.youtube.com/watch?v=NIfcVYiuZNA



Após o lançamento desse clip e antes de participarmos do Show internacional que faríamos em setembro, uma estranha figura entrou em nossa vida, prometendo uma empreitada de realizações.
Nessa altura do campeonato, não éramos mais crianças e percebemos de imediato que o sujeito não era exatamente o manager de nossos sonhos, contudo, como estávamos tendo uma sequência inicial muito boa, graças a uma série de ações bem sucedidas desde maio desse ano de 2006, principalmente, precisávamos de uma pessoa a gerenciar tais oportunidades.
Sabíamos que mesmo com todo esse impulso, precisávamos de um empresário, pois as oportunidades estavam aparecendo, e chegaria num ponto que ficariam inalcançáveis para nós. 
Um amigo nosso falou que conhecia um sujeito que era empresário de artistas de pequena e média projeção, e que costumava vendê-los no circuito de Sesc's. Tínhamos tentado abordar empresários mais qualificados, mas nenhum quis encarar uma banda "Zero KM", ainda que formada de músicos experientes de outros trabalhos etc etc. Então aceitamos falar com esse rapaz e uma reunião foi marcada em seu apartamento, numa noite de agosto de 2006.  

Logo de início, vimos que o ambiente estava tumultuado, porque sua filhinha de uns quatro ou cinco anos de idade, era uma criança incontrolável. Pai e mãe levavam um "baile" dela, que não parava de aprontar suas peraltices. Difícil conversar nessas circunstâncias e tudo piorou quando descobrimos que o sujeito era quase surdo total, tornando a conversação cansativa por tudo ter de ser feito aos berros, literalmente, para ele compreender o que falávamos.

A esposa dele muitas vezes fazia a interlocução, por estar acostumada a lidar com ele e também era interessada na conversa, pois era assessora de imprensa e trabalhava junto com o marido, na pequena produtora de ambos. 

Eles não sabiam ao certo quem nós éramos, mas como estávamos numa fase de franca ascensão, fazendo shows, com resenhas super positivas saindo em jornais e revistas importantes, e com música tocando na rádio e dois vídeo clips assinados por um diretor tarimbado, os olhos de ambos cresceram, naturalmente. E havia a perspectiva de um show internacional em breve, a ser realizado numa das melhores casas de espetáculos de São Paulo, portanto, logo de início o sujeito percebeu que não tratava-se de uma banda qualquer, sem respaldo algum.

Outra coisa, ele passou a falar de seus contatos pessoais e citava a rede do Sesc como seu grande trunfo, onde dizia estar acostumado a vender seus artistas. Bem, entrar nesse circuito de shows era um desejo nosso, e mesmo não conhecendo-o suficientemente bem para assegurarmo-nos de que realmente tinha esse poder de fogo em mãos, fechamos o negócio, mesmo que apenas verbalmente.
Daí em diante esse sujeito entrou na nossa vida, mas seria por muito pouco tempo... 

Além de surdo, ele desenvolvera uma anomalia vocal, por perder a referência de sua voz.  Então, tínhamos que berrar com ele para que entendesse o que falávamos, enquanto ele respondia com uma voz fanha, que comia as sílabas das palavras, vez por outra. E sem nenhum constrangimento, mesmo com essas dificuldades de dicção e escuta, o sujeito falava pelos cotovelos, era prolixo ao extremo.
Não vou revelar o seu nome, para não causar-lhe nenhum constrangimento público, mas doravante na narrativa, chamarei-o de "R", inicial de seu nome.


E sem nenhum constrangimento por conta dessas dificuldades de comunicação, o "R" tinha a famosa "lábia" de empresário. Além de prolixo, gostava de praticar o autoelogio, falando sobre seus feitos e contatos na área. Até aí, tudo bem, pois não dá para ser introvertido nessa profissão, mas claro que certos excessos preocupavam-nos. 

A esposa dele era no entanto mais comedida e dessa forma, tínhamos um equilíbrio entre o histrionismo de "R" e o pé no chão, dela. As primeiras ações combinadas se concentrariam em tentar colocar a banda no circuito de shows da rede Sesc. Ele dizia ter contatos fortes e que costumava vender os shows do cantor / compositor Kiko Zambianchi, nesse circuito. Até o dia em que o visitamos em seu apartamento, ele não sabia ao certo quem éramos. 

Talvez a intermediação feita pelo nosso amigo em comum que  apresentou-nos não tenha impressionado-o o suficiente. Mas, mediante os fatos, ou seja, depois de ver os dois vídeo clips; examinar o site; ouvir o disco e tomar conhecimento que tínhamos música sendo veiculada numa FM de São Paulo, isso mudou, mas não como achávamos que mudaria. Ao longo da narrativa isso ficará claro...
Em princípio ficamos animados, mas o fato é que essa animação foi fugaz. O sujeito passou a ter atitudes muito estranhas no decorrer dos próximos dias, desabonando-o completamente. Aproximando-se a data do nosso show internacional, queríamos testá-lo também como manager e nesse caso, "Road Manager". Era necessário, porém, foi um grande erro que cometemos, como contarei a seguir.


 
Pois então, o "R" passou da animação inicial aos chamados "perdidos", esquivando-se ao telefone e deixando-nos confusos sobre seu interesse, ou completo desinteresse. Mas, aproximava-se a data do Festival Internacional onde estávamos inseridos, e resolvemos apostar numa chance para ele mostrar se tinha condições de representar-nos. 

Talvez tenha sido o nosso maior erro em relação a ele em específico, e também com o festival em si, pois essa tomada de posição gerou constrangimentos no dia do show, conforme relatarei logo mais. Antes de falar do show propriamente dito, preciso dizer que o simples comunicado ao produtor do festival, que levaríamos um manager que havia recém fechado conosco, causou um mal estar. Mas não deveria, pois muito pelo contrário, quando o procuramos inicialmente, o nosso propósito era o de pleitear que ele empresariasse-nos. A história do Festival atropelou essa nossa conversação, e como era também muito interessante para nós, acabamos entrando na dele que recusava-se a falar sobre qualquer outro assunto. 

Mesmo com nossa insistência em deixar claro que queríamos falar sobre a gestão de nossa carreira, ele estava focando apenas no festival. Portanto, ficamos perplexos por ele mostrar-se melindrado, pois durante meses, ficamos aguardando algum sinal dele, mas ele nunca sinalizou claramente que teria um interesse em nós, pós-festival. Seria compreensível que estivesse muito atarefado por essa produção, mas bastaria deixar isso claro, coisa que nunca fez. E para corroborar essa tese, havia o assistente dele, que forçava a barra para a banda de adolescentes "emo" que apadrinhava, entrasse nessa posição. Também compreensível que tivesse essa intenção, apesar da fragilidade técnica e artística daqueles molequinhos "emo". A seguir, falarei sobre a coletiva de imprensa do Uriah Heep, em que fomos convidados a assistir na véspera do show, que tem histórias boas para contar e até uma micro filmagem, postada no You Tube, desde 2006.


Matérias ótimas saindo na imprensa escrita; música tocando numa FM de São Paulo, e clips filmados em película de cinema e assinados por um diretor de um curriculum do tamanho de um bonde... estávamos num embalo incrível, e participar de um show internacional, parecia ser a cereja do bolo para nós nesse ano de 2006, de tantas conquistas...

Antes de chegar à semana do evento propriamente dito, foram muitas reuniões e questões burocráticas a serem vencidas, naturalmente. Mas enfim entramos na semana do festival.

E na antevéspera do show, dia 26 de setembro de 2006, o produtor Marcelo Francis pediu que dois membros da banda fossem à coletiva de imprensa que o Uriah Heep concederia, com posterior cocktail. Eu e Ivan Scartezini comparecemos representando o Pedra, e ainda acompanharam-nos, Samuel Wagner, Daniel "Kid" e meu primo, Emmanuel Barretto. Os três estavam trabalhando como roadies desde o início das atividades da banda e o Emmanuel acumulava o posto de "film-maker", registrando com sua câmera, diversos momentos "off" da banda (muitos já usados para compor promos de You Tube, mas ainda com muitos inéditos que um dia serão lançados). 

O local designado para tal ação foi o auditório bem estruturado da Universal Music, no bairro de Santana, zona norte de São Paulo. 
Assim que chegamos e enquanto esperávamos a recepcionista cadastrar-nos e fornecer-nos crachás, vi o assessor do Marcelo, conversando com uma mulher. Não sei se ela era jornalista ou produtora, mas certamente era alguém do meio musical, e ele falava enfaticamente que banda emo que apadrinhava, seria "o grande diferencial do mercado em 2007"... 

Nunca esqueci-me disso, pois além de ser um absurdo, denotava que seu foco era 100 % calcado nessa premissa, e que se dependesse dele, o Pedra não teria espaço na produtora do Marcelo, num "momentum" pós-Festival. Autorizados a subir, entramos no amplo salão e percebemos que estava muito cheio de convidados. Eram jornalistas de diversos veículos, incluso mídia mainstream, o que surpreendeu-me de certa forma, visto ser o Uriah Heep, uma banda quase sempre subestimada. Uma banda cover faria um micro show posteriormente, tocando covers do Rock internacional 1960 / 1970, e era garantida a sua qualidade, pois tratava-se do "Whomp", liderada pelo Oswaldo Malagutti, dono do estúdio Mosh, e ex-baixista dos Pholhas. Foi quando fomos convidados a entrar no recinto do auditório, para assistirmos a coletiva de imprensa do Uriah Heep.


A coletiva surpreendeu-me, pois o Uriah Heep sempre foi uma banda subestimada, desde o seu auge, e o que dizer então naquele momento de 2006, com aqueles senhores obesos e de cabelos pintados para disfarçar o aspecto grisalho, quiçá cabelos brancos por inteiro ?

Fora as figuras óbvias do jornalismo especializado, haviam muitos jornalistas representando órgãos mainstream e certamente impressionei-me com a ação da assessoria de imprensa do festival, onde vislumbrei matérias em diversos jornais, com o foco no Uriah Heep naturalmente, mas certamente com o Pedra sendo citado.
A despeito de algumas perguntas tolas de um ou outro desavisado e / ou deslocado jornalista que vive de "hypes do mundo indie" (-"o que vocês acham do Artic Monkeys" ?), o nível das perguntas foi bom, e eu apreciei as respostas.

Uma questão em especial, impressionou-me. Um jornalista (acho que era do Diário de São Paulo), perguntou em geral aos cinco componentes, qual seria a motivação de manter a banda viva com quase quarenta anos de carreira.

O baterista Lee Kerslake tomou a dianteira, e respondeu que se havia público interessado em comprar discos e ingressos para shows, não fazia nenhum sentido desmanchar a banda e ficarem em casa vendo futebol na TV. Uma resposta singela; sincera, e muito plausível...

E gostei do Bento Araújo, meu amigo e editor da Revista Poeira Zine, que fugindo das perguntas óbvias, dirigiu-se ao baixista Trevor Bolder e pediu-lhe suas impressões sobre o tempo em que era do "Spiders from Mars", a banda de apoio do David Bowie, no auge de sua carreira, na fase Glitter.


Ele no entanto ficou meio constrangido e respondeu laconicamente que esse trabalho houvera sido realizado no início dos anos setenta, e que portanto fora legal, mas não tinha muito o que dizer naquele momento. Sem dúvida que a pergunta colocou-o numa espécie de constrangimento, por estar ali para falar do seu trabalho com o Uriah Heep. De certa forma eu entendo-o, pois como no meu caso tive várias bandas ao longo da minha carreira, também acho chato ter que responder sobre trabalhos antigos, quando a pauta é sobre o trabalho atual. Indo além, recordo-me de uma entrevista na emissora 89 FM, da qual participei representando o "Pitbulls on Crack" e o baixista Lee Marcucci estava presente para falar do Neanderthal. Em dado momento ele irritou-se, porque a repórter só fazia-lhe perguntas sobre a Rita Lee & Tutti-Frutti, e ele teve que ser incisivo, dizendo-lhe que estava ali para falar do "Neanderthal".



Voltando à coletiva do Uriah Heep, assim que entramos no recinto, vi que vários convidados fotografavam e filmavam a vontade. 

Frame da filmagem feito na coletiva de imprensa, quando o Uriah Heep tocou ao vivo, rapidamente para os jornalistas presentes.

Dessa forma, disse ao meu primo Emmanuel ir ao meu carro no estacionamento e apanhar a câmera que havíamos desistido de levar, julgando que seríamos impedidos de fazer isso.



Voltando rapidamente, ele filmou a partir do momento do cocktail, pós-coletiva, e essa filmagem com cerca de 30 minutos contém várias cenas interessantes. Dá para ver todos os membros do Uriah Heep que muito simpáticos, distribuíam autógrafos enquanto comiam numa mesa. Tem um pedaço do show do "Whomp", tocando "Footstopin' Music" do Grand Funk, e dá para ver diversas pessoas conhecidas. Músicos; jornalistas, produtores etc.




Eu e o Ivan, mais os roadies Daniel Kid e Samuel Wagner, que aliás foi filmado solicitando autógrafo do Lee Kerlake. Dá para ver o Bento Araújo conversando com o Mick Box, também. Além do Emmanuel de câmera na mão, apanhando autógrafo do Trevor Bolder. Tem também uma canja do Uriah Heep, tocando com os instrumentos e equipamento do Whomp. Eles tocaram "Easy Livin'", provocando um frenesi. Mas também sofreram muito com a completa desorganização sonora da monitoração. O vocalista Bernie Shaw chegou a brincar com o fato de estarem em meio a um caos de microfonias, mas tocaram assim mesmo. 


 

Eu fui flagrado conversando com o baterista Ademir Urbina, ex-Língua de Trapo, num recanto mais distante do palco. E depois que o Uriah Heep tocou, eu percebi que estavam movimentando-se para deixar o recinto, quando pedi ao Emmanuel que filmasse a partida deles. Aproveitamos e fomos saindo também em direção aos elevadores. Dessa forma, fomos filmados em meio aos membros do Uriah Heep enquanto aguardavam o elevador, além de seus dois roadies, e sua técnica de P.A.



A filmagem do Uriah Heep tocando Easy Livin' foi editada e postada no You Tube, no mesmo dia. E as imagens do cocktail foram aproveitadas parcialmente em montagens de promos do Pedra, posteriores. Mesmo assim, na imagem posterior a jam, e que está no You Tube, eu e Samuel Wagner aparecemos caminhando entre os componentes do Uriah Heep em direção ao elevador do saguão, no final do vídeo.

Mas a qualquer momento, as imagens não aproveitadas ou mesmo a íntegra dessa filmagem poderá vir a tona. Tudo isso ocorreu no dia 26 de setembro de 2006. A seguir, falarei sobre o dia do show, com muitos detalhes.

Eis abaixo o vídeo da Jam do Uriah Heep e seus bastidores, na coletiva de imprensa. 
O Link para assistir a canja do Uriah Heep, e eu e andando com os componentes da banda, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=Ub5uFdiI1n4  

E chegou o dia do show...
Era 28 de setembro de 2006, uma quinta-feira e particularmente um dia que nunca esqueço-me, pois era data de aniversário do meu pai, e nesse ano, foi a última que vez que ele comemorou-a, pois veio a falecer dois meses depois. Mas falemos de coisas alegres e pertinentes à narrativa...

Marcamos encontro na casa do Xando, cedo, cerca de 11:00 h. da manhã, pois a hora de chegarmos ao Via Funchal, estava marcada para as 14:00 h. Claro, havia um esforço do produtor Marcelo, para que o cronograma funcionasse dentro do programado. Com poucos atrasos, nossa comitiva estava reunida no Overdrive Estúdio, e com a presença do empresário  "R". O sujeito teria enfim o seu grande teste, mostrando-nos toda a sua mobilização como "road manager", lidando com todas as atribuições nesse sentido. No primeiro teste, "aparentemente" passou, pois responsabilizou-se pela contratação de uma van e chegou no horário combinado.

Eu cheguei ao Overdrive com vários jornais em mãos e contente com a constatação de notas e pequenas matérias em vários, com o nosso nome inserido, ainda que o destaque fosse para o Uriah Heep, naturalmente. Meu primo Emmanuel filmou essa concentração no Overdrive, a partida na Van, chegada ao Via Funchal; camarim do Via Funchal, e boa parte do processo de Soundcheck. O show, infelizmente, ele não filmou quase nada, pois fomos impedidos pelos seguranças da casa, mas isso eu conto depois.

Ainda falando da concentração, o clima era de animação total e sentíamos ser o coroamento de uma fase excelente pela qual passávamos. Num crescente, fomos ganhando espaços e participar de uma abertura de show de um dinossauro britânico setentista, parecia ter caído como uma luva nesse plano de expansão que estávamos cumprindo, nesse ano de 2006.

O empresário "R" era uma incógnita, contudo. Falante, dizia estar planejando muitas coisas para nós, mas concretamente falando, estava ali conosco sem ter movido uma única palha para que estivéssemos no patamar onde encontrávamo-nos naquele instante.
Éramos um produto com atributos, fazendo barulho na mídia, indo abrir um dinossauro mundialmente famoso e o sujeito demonstrava não entender o que isso representava, e sem nenhuma pretensão ou esnobismo de minha parte, não era pouca coisa para que não percebesse o potencial. Nessa van, levamos três roadies : Samuel Wagner, Daniel "Kid" Ribeiro e Emmanuel Barretto, meu primo e film-maker oficial do making off. Grace Lagôa, esposa do Xando, foi preparada para fotografar e como convidada, Lu Vitaliano, atriz & cantora, e esposa do Rodrigo à época. Mais tarde, Elizabeth Scartezini, esposa do Ivan, compareceu também unindo-se a nós no camarim, mas apenas como convidada, sem funções específicas na equipe. Também estavam conosco, naturalmente, o empresário "R" e o motorista da van, cujo nome, esqueci. Lembro-me bem que momentos antes da partida, "R" quis fazer um lanche na padaria próxima ao estúdio, e numa conversa reservada comigo e Xando, expôs seus planos. Parecia fácil para ele, montar uma tour e colocar-nos num circuito seguro de shows, com cachet valorizado, mas conforme contarei logo mais, eram apenas bravatas.

Por volta de 13:00 h, a van estava carregada com todo o nosso equipamento. Levamos o nosso equipamento de palco completo e instrumentos. Levei dois baixos, o Xando levou três guitarras e o Rodrigo, outras duas. Fora kit de teclados e peças fundamentais de bateria, pois o Ivan usaria uma carcaça Luthier, de fabricação do baterista / empresário, Tibério Correa.

No percurso até o Via Funchal, fomos conversando animadamente e tranquilos de que faríamos um grande show, mesmo porque tínhamos a certeza de um som de P.A. de alto nível, visto que nosso técnico e produtor de estúdio, Renato Carneiro, estaria presente no show, operando-nos. Chegamos no Via Funchal, alguns minutos antes do horário combinado...


O primeiro problema que enfrentamos logo de pronto, foi não haver nenhum produtor do evento para recepcionar-nos e fazer os trâmites iniciais de acomodar-nos no camarim e informar-nos sobre a montagem de equipamento para o soundcheck. Claro, isso não arranca pedaço de ninguém, e fomos interagindo com os próprios funcionários do Via Funchal, logo descobrindo o nosso camarim. Aliás, um bom camarim, amplo e confortável, mas no último patamar, ou seja, longe do palco, e da comunicação com a produção.

Nesse "flyer" acima, ainda existia a foto do guitarrista holandês Jan Akkerman (ex-"Focus"), como atração do festival, mas sua participação havia sido cancelada, infelizmente.
 
Era evidente que o Uriah Heep seria alojado no melhor camarim, e com isolamento para evitar contatos indesejáveis. Já esperávamos isso, claro. Todavia, as outras duas bandas participantes do evento, talvez por terem relação de amizade mais estreita com o produtor do festival, foram privilegiadas, ficando num patamar da casa, intermediário e nós, alojados no mais tímido e distante dos camarins.

Foto recortada do cartaz, de autoria de Marcelo Francis, o produtor do evento

Claro, cada de um nós com enorme bagagem por atuar no underground há décadas, não reclamou, e até achou bom o camarim (e era mesmo, sem "mimimi"), mas estava clara uma diferenciação, e isso era chato. E ficou pior, pois ao longo da tarde e da noite, coisas desagradáveis ocorreram por parte da produção e sendo muito honesto, de nossa parte, também. Explico, logo falando de nossos erros, dizendo que na verdade foi um só, que no entanto, gerou uma séria de animosidades que só intensificaria o clima entre nós e a produção do Festival.

              O produtor do evento e guitarrista, Marcelo Francis

Foi o seguinte : quando tivemos o primeiro contato com o produtor Marcelo, o nosso objetivo era que ele interessasse-se em ser nosso empresário. A ideia do Festival obscureceu essa possibilidade inicialmente. Mas claro que aceitamos participar, pois seria por si só, muito legal, e talvez motivasse-o no futuro a trabalhar conosco, mais focado em nós. Mas nesse ínterim, passaram-se muitos meses, e o Pedra teve um impulso inicial até surpreendente por conta da execução radiofônica; clips na TV; sequência de shows e matérias super positivas na imprensa escrita e Internet. Vendo que o Marcelo só estava focado no Festival, precisávamos urgentemente dar um passo adiante, arrumando um agente. E apareceu aquela figura exótica do "R", que já mencionei aqui anteriormente. O "R" não havia arrumado-nos absolutamente nada além de muito "Blá-blá-blá", mas como estava conosco na ocasião, foi junto acompanhar-nos no Via Funchal, e na nossa concepção, seria um teste para ver como agiria como Road Manager. Então, o clima que já não era muito favorável entre nós e o Marcelo (por motivos que nunca descobrimos, pois nunca fizemos-lhe absolutamente nada de errado até então, e pelo contrário, estávamos cumprindo regiamente todas as solicitações dele no campo burocrático e obedecendo o cronograma de horário, fielmente como estabelecido), piorou, pois o atabalhoado "R", foi interpelar com prepotência Marcelo e seus subordinados, pelo fato de estarmos no pior camarim, não haver água na geladeira, lanche etc...
Esse foi o nosso erro, pois já havíamos detectado ser "R", um sujeito estranho e tenso. Não sabemos exatamente como foi esse contato dele com a produção do Festival, mas sentimos as retaliações e o clima azedo, ao longo do dia.

No camarim do Via Funchal, em algum momento antes do soundcheck. Foto : Grace Lagôa
Fomos percebendo o clima tenso com os subordinados do produtor Marcelo, e não entendíamos tal comportamento, pois de nossa parte, não havíamos dado motivo algum para tal. Demorou para percebermos que o clima deteriorava-se a cada minuto, por conta das ações atrapalhadas e cheias de soberba descabida por parte de "R".
        O nosso roadie, Daniel "Kid", no camarim do Via Funchal
 
Quando percebemos que ninguém apareceria no camarim para  chamar-nos, tomamos a dianteira e começamos a colocar nosso equipamento no palco, para esperar a nossa vez de fazer o soundcheck. Pelo cronograma do evento, a banda "Tropa de Choque" deveria passar o som, inicialmente, para depois o Salário Mínimo. A seguir viríamos nós, e por fim o Uriah Heep.
Bem, logo de imediato, digo que esse cronograma estava errado. 
Independente de tratar-se de uma banda internacional e consagrada, o Uriah Heep, por ser a atração principal (headliner), deveria passar primeiro, estabelecendo a ordem inversa, deixando a última banda, pronta para ser a primeira atração como "open act".

Mas, além do cronograma estar equivocado, o Pedra era a única banda presente no Via Funchal naquele instante, e quando os técnicos do equipamento de P.A. viram-nos colocando nossas coisas na coxia imensa do teatro, pediram-nos para adiantar o soundcheck.

Num esforço colaborativo, instruímos nossos roadies a começarem a montagem rapidamente. De fato, não custava nada adiantar, e ganhar tempo, mas era um procedimento errado por uma questão de ordem que qualquer músico deveria saber, claro. Quando já estávamos quase prontos para os primeiros passos da passagem de som, chegaram os membros do "Tropa de Choque" e um pequeno desconforto instaurou-se, com eles pensando que estávamos atropelando-os. Um membro dessa banda chegou a questionar o Rodrigo, cujo Kit de teclados era maior que a da tecladista deles, sobre o espaço cênico mínimo que teriam. Claro que não entendeu que estávamos só posicionando-nos para o Soundcheck e nossos equipamentos não ficariam no palco, durante esse procedimento técnico, e o show deles, própria e evidentemente dito.
No palco do Via Funchal, momentos antes da realização do soundcheck. Foto : Grace Lagôa

Então recolhemos os nossos equipamentos para a ampla coxia da casa e voltamos ao camarim, para respeitar o cronograma original, todavia, tudo já estava atrasado e obviamente já dava para notar que tornar-se-ia uma bagunça, com direito a confusões inerentes.
Os roadies do Uriah Heep chegaram a seguir, e todo o cronograma foi mudado, pois eles exigiram preparar o som de seus patrões, imediatamente. Ah... a velha subserviência tupiniquim para com gringos europeus...

Restava então esperar que dessem-se por satisfeitos para que sobrasse algum espaço para que o Pedra e o Salário Mínimo pudessem ter algum tempo. Os roadies do Uriah Heep ficaram mais de duas horas andando para lá e para cá, sem fazer nada muito objetivo, a não ser checar o sinal de cada amplificador. O roadie específico de guitarra do Mick Box, um sujeito holandês chamado "Christos", e que era sósia do guitarrista Tony Babalu, detectou um ruído nas cabeças Marshall que o Mick Box usaria, e diante do impasse dos técnicos do PA não saberem dar uma explicação para tal situação, e muito menos a técnica de som do Uriah Heep, o produtor Marcelo teve um lampejo de criatividade, chamando um dos melhores especialistas em ajustes de amplificadores de São Paulo, um rapaz chamado Lasco (que por sinal é um bom guitarrista, e dá aulas de guitarra, também), que por coincidência, é muito amigo do meu primo Emmanuel, que trabalhava na equipe, como roadie.

Mas só soubemos de tudo quando vimos o Lasco com suas ferramentas, desmontando as duas cabeças na coxia do teatro. Segundo apuramos, era uma incompatibilidade de ajuste em relação à corrente elétrica da casa, portanto, feito isso, as duas cabeças Marshall pararam de emitir aquele ruído incômodo. Enquanto isso, no camarim, "R" pediu-nos licença para sair, levando-se em consideração que tudo estava "sob controle" (como assim ??), e que voltaria a seguir, trazendo-nos um lanche, visto que a produção do evento abandonara-nos e sequer haviam aparecido para verificar se havia água no camarim, e de fato, as geladeiras estavam vazias. Ficamos sabendo que os outros camarins estavam abastecidos com lanches, bebidas e energéticos, cedidos por patrocinadores, e certamente esse sentimento de desprezo incompreensível até então, começou a incomodar-nos. Nesse ínterim, alguns ficaram entediados com essa espera mastodôntica, incluso eu, e voltamos ao palco para ver o andamento da suposta passagem de som do Uriah Heep. Nada objetivo ocorria naquele instante, comendo um tempo precioso que haveria de fazer muita falta, logo mais. O Rodrigo, vendo que os roadies do Uriah Heep não sabiam tocar teclados, e estavam fazendo uma checagem pobre, apertando uma ou outra nota a esmo do órgão Hammond, ofereceu-se para ajudar, e tentar acelerar o processo.

Sentando-se ao órgão Hammond, iniciou a execução de "Rainbow Demon", arrancando suspiros dos gringos. Os roadies gostaram da performance dele da canção, fidedigna ao disco clássico "Demons and Wizards" do Uriah Heep, e a passagem do Hammond deslanchou, enfim. Outra curiosidade, foi flagrar um outro roadie do Uriah Heep olhando os meus baixos. De longe, vi-o admirando-os, e o gringo chegou a colocar a mão para sentir o braço de ambos, e com sua lanterninha, examinar detalhes nos respectivos headstock de ambos. Quando deram por esgotada a sua "passagem de som", o tempo para o Pedra e Salário Mínimo, eram exíguos. E como se não bastasse isso, tivemos uma série de aborrecimentos com os técnicos do som contratado, pois a má vontade com a qual trataram-nos, e o resultado pratico da passagem do monitor, foi desastroso com tanto descaso.


É bom reforçar a informação, nesse cartaz acima, ainda constava a foto do guitarrista holandês Jan Akkerman (ex-Focus), como atração do festival, mas ele a cancelara em cima da hora, com o material gráfico promocional já preparado.

Nesse ínterim, o nosso "empresário", o sr. "R", estava ausente há horas, passeando com a Van que nós contratáramos com o nosso dinheiro, e certamente não estava fazendo nada de nosso interesse pelas ruas. A passagem de som foi tensa, extremamente mal feita e tivemos vários exemplos de maus tratos.

Nossa única sorte, foi que o P.A. foi operado pelo Renato Carneiro. Na impossibilidade de contar com o nosso outro técnico, Renato Sprada, preferimos que o Renato Carneiro operasse o som do P.A., garantindo que o nosso som chegasse ao público da melhor maneira possível. Ele viu a maneira aviltante com a qual os técnicos da empresa contratada para fazer o som estavam tratando-nos e pediu-nos resignação e muita paciência, pois era o tratamento padrão que dispensavam a artistas fora do mainstream. Isso não era novidade para nenhum de nós, talvez com exceção do Ivan que não havia atingido esse grau na carreira ainda, acostumado com pequenas apresentações até então.

Numa determinada hora, um imbecil cujo nome esqueci-me (mas também não citaria para não dar fama a energúmenos), ironizou o fato do Rodrigo pedir mais volume de voz no monitor próximo aos teclados, gritando para o outro idiota da mesa de monitor : -"o cara quer se ouvir que nem a Xuxa"...
Por pouco o Rodrigo não reagiu a altura, mas resignou-se para não piorar as coisas, e durante o show sofrermos retaliações, sabotagens etc.

Eu levei meu set de amplificador e caixas, mas os cretinos não plugaram a mandada do Direct Box do meu amplificador no meu set de monitor de chão, tampouco no Side Fill. Era evidente que na hora do show, ninguém da banda ouviria o meu baixo (talvez nem eu, a não ser que tocasse muito perto do meu amplificador, ouvindo só a emissão das minhas caixas), prejudicando a performance de todos, principalmente do Ivan, que precisava ouvir o baixo com precisão para manter o ritmo na bateria, e vice-versa, eu precisava ouvi-lo muito bem.

O Xando ficou muito longe de nós pelo mapa de palco prejudicado pela absoluta má vontade dos sujeitos em buscar adaptações.
Enfim, foi uma das mais rápidas, tensas e mal elaboradas passagens de som que fizemos em toda a carreira do Pedra e a nossa única certeza era a de que o som da frente seria perfeito para o público, por conta do Renato. De imediato, ele, Renato, fez amizade com a técnica do Uriah Heep que estava perdida ali, por falta de alguém da produção que falasse inglês minimamente, e ele auxiliou-a, ajudando-a na equalização do P.A.,e dando dicas valiosas sobre várias frequências que deveria evitar, principalmente de graves no lado direito baixo da casa, onde havia um ponto de reverberação acústica. E vendo a sua competência, logo foi convidado a operar o show das bandas que antecederam-nos, pois se dependesse do técnico da empresa contratada, teria sido mais um exemplo de má vontade, como no caso dos responsáveis pela monitoração de palco.


De volta ao camarim, tínhamos a certeza de que o som para o público seria perfeito, mas no palco, seria um caos absoluto. Além da má vontade dos técnicos, havia um clima de deboche e petulância por parte deles, muito grande. Tanto que o produtor do show, Marcelo, teve uma briga violenta com eles, pois flagrou um episódio desses, envolvendo o baixista da banda "Tropa de Choque", que houvera sido maltratado por esses energúmenos.

Mas, não era só isso que nos incomodava. O clima de abandono da produção para conosco, persistia. Ninguém aparecia no camarim para nada, nem dar instruções sobre o cronograma do festival. A geladeira permanecia vazia, enquanto sabíamos que os camarins das outras bandas haviam recebido suprimentos fornecidos por patrocinadores. A nossa única explicação para tal comportamento, era a presença histriônica do pseudo empresário "R". Vai saber o que o atabalhoado "R" falou para o produtor Marcelo e seus subordinados ?

E para piorar as coisas, o "nosso manager", havia ausentado-se, usando a nossa van para suprir seus interesses pessoais e só voltou ao camarim, por volta das 20:00 h, com um lanche improvisado que mandamos comprar, pois se dependesse da produção, ficaríamos à mingua. Então, uma garota que o produtor havia contratado para ser hostess do evento, finalmente apareceu e trouxe um pacote de pão de forma e porções de mussarela e presunto. Parecia constrangida e deu a entender que tal ação havia sido ordenada para atender a reivindicação de "R", e que certamente desagradara o produtor do show.

Bem, visto posteriormente, claro que dá para imaginar a cena, com o sujeito interpelando com arrogância o produtor do show e desagradando-o, num momento inoportuno, visto que Marcelo provavelmente estava com a cabeça cheia de problemas decorrentes da produção geral do evento. Então, dá para entender, ao menos parcialmente, a maneira pela qual azedara a nossa relação com o produtor do evento, e o motivo pelo qual estávamos sendo segregados nos bastidores...
Um pouco antes de irmos ao palco para o nosso show, o "R" protagonizou uma cena constrangedora, porém hilária !
Reuniu-nos em volta dele e como um técnico de futebol na última preleção antes do time entrar em campo, e deu-nos "instruções" de última hora. Segundo ele, se o som estivesse ruim, deveríamos parar de tocar e exigir uma melhor equalização. Um olhou para o outro e não precisou ninguém verbalizar nada. Sentimo-nos no jardim da infância...
Era chegada a hora, enfim. Fomos ao palco para o nosso show...


Subimos ao palco e aprontamo-nos para tocar. Pela coxia, víamos um público razoável de seguramente mais de mil e quinhentas pessoas, e posteriormente, ficamos sabendo que na nossa apresentação, havia cerca de 1800 pessoas presentes, praticamente a lotação final de pico, do show do Uriah Heep. A tensão estava no ar, com os técnicos do P.A. contratado, batendo boca com os músicos da banda que antecedeu-nos. A atitude desses elementos era muito desrespeitosa e sabíamos que receberíamos o mesmo tratamento, ou até pior.

Enquanto subíamos do camarim para a coxia do teatro, ouvimos os últimos acordes da última música da banda anterior. Irritado pelo tratamento vil dispensado pelos técnicos petulantes e prepotentes, o vocalista China Lee, do "Salário Mínimo", fez um discurso inflamado sobre o tratamento sempre diferenciado que as bandas internacionais tinham em relação às nacionais etc etc. Claro, ele tinha razão por estar chateado, mas particularmente, achei que esse destempero, ainda que respaldado, foi muito excessivo, pois o público não sabia da história dos bastidores, e dessa forma, o discurso ficou demais para seus ouvidos. Mas paciência, posso entender o descontentamento dele, embora fique a ressalva que o problema realmente era a incrível má vontade desses energúmenos, mesmo com o produtor do evento, chamando-lhes a atenção com veemência, horas antes. Eu emprestei o meu amplificador para o baixista do Salário Mínimo, mesmo porque, tinha / tenho amizade com o vocalista China Lee, e solidarizei-me com o fato do mapa de palco deles ser semelhante ao nosso e por conta disso, estarem sendo também prejudicados pela má vontade dos técnicos em seguir o rider técnico de cada banda, por pura preguiça e desdém. O Emmanuel estava pronto para capturar imagens do show pela coxia, mas uma produtora da casa, veio adverti-lo para desligar a câmera, sob pena de ser imposta uma multa de valor absurdo. A questão era : cobrar como ? Iria exigir os documentos dele e emitir uma multa de pessoa física ? Ou exigiria o CNPJ do Pedra, como se fôssemos uma empresa ? Ha ha ha... deveríamos ter filmado tudo, e passado a multa para o "R"...


Mesmo coibido pela produção da casa, o Emmanuel conseguiu filmar alguns segundos da coxia, nos momentos em que esperávamos o sinal da produção para entrar em cena. A bagunça da organização era imensa, e contamos mesmo com nossos roadies, pois aqueles elementos do som alugado não estavam nem aí para nós.

                                     Foto : Grace Lagôa

Ninguém da produção do festival estava por perto para dar-nos um sinal verde para entrar, e pelo fato da coxia ser grande, o Xando entrou pelo outro lado e iniciou seus efeitos de guitarra que davam início à nossa apresentação. Dava para ouvir o som da guitarra dele ecoando no P.A., fazendo um efeito fantasmagórico, com alavanca, semelhante ao barulho de um navio apitando em alto mar.

                                     Foto : Grace Lagôa

Contudo, inadvertidamente, alguém da casa disparou um áudio daqueles falando sobre normas de segurança dos bombeiros etc. A bagunça era total. O Xando esboçou parar, mas desligaram o disparo de áudio, e o nosso show começou, mesmo nessa tensão.

                                    Foto : Grace Lagôa

Tocamos nossa "intro" normal da ocasião, que era um trecho da Ópera Rock, "Jesus Christ Superstar", e emendamos em "Madalena do Rock'n Roll". O som do monitor estava caótico. Simplesmente, por pura preguiça, os energúmenos responsáveis pela monitoração de palco não colocaram o baixo nos monitores, tampouco no "side fill". Com isso, meu som era o das minhas caixas tão somente. Posso imaginar o sufoco com o qual o Ivan tocou, sem ouvir o meu baixo.

                                   Foto : Grace Lagôa

Os teclados estavam pouco audíveis, assim como a voz do Rodrigo, e a guitarra do Xando eu só ouvia da reverberação do P.A. Quanto à batera, somente ouvia bumbo, caixa e chimbau, com as demais peças muito baixo. Como estávamos muito bem ensaiados, tocamos mesmo assim, nessas condições horríveis, mas muito seguros.

                                        Foto : Grace Lagôa

De minha parte, minha performance foi energética, e pelas fotos que temos, dá para notar isso tranquilamente. Inclusive, a minha foto de avatar da extinta Rede Social, Orkut, era desse show. Veja abaixo :

                                    Foto : Grace Lagôa

Emendada à primeira música, tocamos "Vai Escutando". Nessa altura, apesar da monitoração caótica, eu sentia uma segurança muito grande e vendo o público, via que muitas pessoas sorriam, outras dançavam, e gesticulavam positivamente para nós.

                                  Foto de Ricardo Zupa

Era incrível, mas mesmo sendo uma típica situação desconfortável de ser um show de abertura para uma banda internacional, nós, mesmo na incômoda posição de desconhecidos e indesejados pelo público do dinossauro setentista, estávamos agradando !!
O fato de "Vai Escutando" ter muitos elementos de Soul Music, com outros de brasilidade, destoava totalmente da pegada das bandas anteriores, que atuaram naquele espectro do heavy-metal oitentista.

Olhei para a coxia num dado instante, e vi o Mick Box e o Lee Kerslake, acompanhados do roadie do Mick Box, e do tradutor oficial e cicerone do Uriah Heep, Rodrigo Werneck. Estavam com um ótimo semblante e apontando para nós, conversavam entre eles de forma positiva e depois do show, o Werneck confirmou que estavam gostando do nosso som.

                                    Foto : Grace Lagôa

Quando esse primeiro bloco de canções, encerrou-se, palmas muito efusivas vieram da plateia. Era muito surpreendente para nós, pois banda de abertura sempre tende a ser hostilizada e ainda mais pelo fato do Pedra ser praticamente uma banda "zero Km" naquele momento.

                                    Foto : Grace Lagôa

Portanto, estar ali, abrindo uma banda internacional veterana, diante de seu público sedento por vê-los, já era complicado, imagine com a agravante de sermos desconhecidos e estarmos tocando músicas que tais pessoas nunca ouviram...
Para piorar, o público não sabia, mas tocávamos em péssimas condições sonoras, graças àqueles energúmenos preguiçosos e desdenhosos.

                                    Foto : Grace Lagôa

Nossa única sorte era o fato do Renato Carneiro estar pilotando o P.A., portanto, muito da nossa segurança dava-se por esse fator, ou seja, saber que para o público o peso e a equalização estavam primorosos, além do fato de estarmos muito bem ensaiados. A terceira música foi "Reflexo Inverso". 

                                  Foto : Grace Lagôa

Como essa música tinha uma parte final com elementos progressivos acentuados, também caiu bem para o público do Uriah Heep, com ouvidos preparados para tal aventura. 

                                     Foto : Grace Lagôa

Nesse quesito (sem demérito para as demais, mas sendo realista), nós éramos, mesmo sendo desconhecidos, a banda mais próxima da sonoridade do velho Heep, em detrimento das demais que apresentaram-se antes.

                                                       Foto : Grace Lagôa

E não deu outra, com o final apoteótico que lembrava "O Terço" em seus melhores momentos, agradamos em cheio, aumentando as palmas ao final da execução e arrancando até alguns gritos, como se fôssemos a atração principal.

                                      Foto : Grace Lagôa

A última música era "O Galo Já Cantou" e o Rodrigo foi para a guitarra. Os roadies do Uriah Heep ficaram surpreendidos com essa versatilidade dele, e comentaram com o tradutor, Rodrigo Werneck, que isso fazia-os lembrarem-se do Ken Hensley. Nesse momento, o Xando arriscou uma fala descontraída ao microfone, e eu achei excessivo. Eu não arriscaria dessa forma, mas por sorte, o público estava ganho, e respondeu de forma surpreendente ainda...
Ele disse : -"vocês querem mais uma " ?

                                    Foto : Grace Lagôa 

O normal seria uma saraivada de xingamentos, "dedos" apontados indicando que fôssemos embora, sinais de "adeus" irônicos etc. Contudo, uma reação em uníssono, pediu que tocássemos, demonstrando que tínhamos vencido essa batalha. Tocamos, e o solo final de ambos, Xando e Rodrigo, esticou bastante, dando um clima "Stoneano" ao final de nossa apresentação.

                                    Foto : Ricardo Zupa

A sensação de dever cumprido foi ótima e ainda pude ouvir na coxia o Lee Kerslake comentar com um roadie sobre o Ivan : -"Fantastic Young Drummer" !! Só por esse comentário, já teria valido a pena todo o esforço. Fomos para o camarim descansar, recompor-nos e trocar de roupa, com o sentimento que era ótimo para todos. Havíamos tido muitas dificuldades, mas o resultado final não poderia ter sido melhor.

Fotos do show no Via Funchal, de Grace Lagôa e Ricardo Zupa (com marcas d'água contendo seu crédito)
 
De volta ao camarim, nosso sentimento de vitória era total.
A reação calorosa de uma plateia que tinha tudo para hostilizar-nos, aliada às adversidades tremendas que enfrentamos no som caótico de monitoração (fora a hostilidade e desdém absoluto dos técnicos terceirizados), dava-nos a certeza de que apesar de tudo, havia valido a pena.

Recompostos, fomos à coxia para ver o show do Uriah Heep. Mesmo ficando numa posição estratégica para não atrapalhar o movimento dos roadies dos britânicos, deu para ver grande parte do show. O clima no entanto estava muito tenso entre os "Heepers".
Muitíssimo menos acostumados ou melhor, não acostumados a lidar com monitorações caóticas do que qualquer artista brazuca, o Uriah Heep sofreu muito !! O vocalista Bernie Shawn chegou a mexer diversas vezes na mesa do palco, para tentar corrigir o caos sonoro que atormentava-os. Toda deixa que tinha para sair do palco era usada para tentar amenizar o desastre sonoro.

Vimos o baterista Lee Kerslake levantar-se diversas vezes da bateria e esbravejar com o técnico brazuca. Fora os roadies que davam recados aos montes, cobrando soluções para o Rodrigo Werneck, o tradutor da banda, colocar para o atônito e perdido técnico. Convenhamos, tentar corrigir defeitos de equalização num show ao vivo, corresponde a substituir um piloto de avião, em pleno voo...
Isso só valorizou a nossa proeza de tocar naquele caos sonoro, sem errar, sem cruzar, e sem desafinar vocais. Só estando muito bem ensaiado e acostumado com a adversidade absoluta para conseguir tocar nessas condições. No caso do Uriah Heep, o mérito deles era estarem bem ensaiados, porque não estão acostumados com essa insalubridade. No nosso caso, o fato de ao contrário, raramente termos boas condições, fez de nós resilientes por excelência...
No mais, tive o prazer de ficar bem perto da caixa Leslie do órgão Hammond e apreciar seu efeito mágico e de sabor sessenta / setentista.

Num dado momento, estava com o Rodrigo e a esposa do Ivan aproveitando aquele som maravilhoso da caixa Leslie e o vocalista Bernie resolveu ganhar impulsão extra, passando correndo perto de nós, antes de voltar ao palco, numa de suas entradas triunfais...

O Emmanuel filmou alguns segundos do Uriah Heep no camarim, nos momentos que antecederam sua entrada inicial no palco.
Discretamente, porque a vigilância da casa não permitia etc etc. Os britânicos entraram cantando algo folk engraçado, mas só entre eles, como brincadeira interna, sem que fizesse parte do show. Pareciam os "sete anões da Branca de Neve", cantando na mina onde trabalhavam...
Pelo Rodrigo Werneck, soubemos que o roadie do Mick Box  elogiara-nos muito. Ele gostou da categoria da banda e a versatilidade do Rodrigo, cantando; pilotando teclados; tocando guitarra e tudo muito bem.


Estávamos com o sentimento de dever cumprido, no camarim. E ainda eu tive tempo para confraternizar com o China Lee, vocalista e líder do Salário Mínimo, com o qual encontrei-me no andar superior, onde ficava o seu camarim. A conversa girou em torno do futebol, pois ele tem estreita relação com o assunto, já que é fanático torcedor da Portuguesa de Desportos, e já foi até presidente da sua maior torcida uniformizada, a "Leões da Fabulosa".

Rimos de passagens engraçadas que ele contou sobre apuros que ele passara em estádios, e o Emmanuel estava junto, ouvindo e interagindo, embora não filmando. Ninguém da produção do evento veio despedir-se de nós. O comportamento deles foi arredio do começo ao fim, e como já comentei anteriormente, a única explicação plausível para tal atitude, foi a indisposição com o pseudo empresário "R", que tivemos a infelicidade de arrumar às vésperas do evento, e sobretudo, pela imprudência de o testarmos num evento desse porte e sim, correndo o risco dele envergonhar-nos com suas atitudes amadorísticas e histriônicas.

Bem, se esse foi o nosso erro, mesmo assim, ainda acho que não merecíamos ter sido tratados daquela maneira, pois o nosso comportamento foi extremamente profissional, respeitando os horários acordados e não gerando nenhum problema à organização do evento. Pelo contrário, fomos solidários e ajudamos em alguns aspectos, inclusive ao levarmos o nosso técnico, Renato Carneiro, que foi providencial, pois auxiliou diretamente as outras bandas e principalmente a técnica do Uriah Heep, que não teve apoio da produção, visto que ninguém da equipe técnica contratada, falava inglês.

E dessa forma, além da comunicação, o Renato auxiliou-a de forma técnica, lidando com a equalização. A contrapartida dessa cooperação instantânea, foi que ela gentilmente deixou o Pedra atuar com a pressão sonora quase igual à do Uriah Heep, quando a praxe do show business, seja de que banda de abertura atue com 20% da capacidade do P.A. O último ato dessa história, deu-se no estacionamento da casa. Muito simpático, o Mick Box apareceu, acompanhado de um roadie, que carregava duas guitarras dele. Ele conversou com o Xando brevemente, enquanto nossos roadies encerravam o carregamento da Van.

Eu que sou fã do Uriah Heep, não participei desse momento na íntegra, pois quando cheguei ao estacionamento, o Mick Box estava quase despedindo-se. Mas passei pelos demais componentes, quando cruzei rapidamente por eles, que caminhavam em direção ao elevador. Voltamos ao estúdio contentes com o saldo positivo de ter agradado o público em sua maioria, arrancando aplausos, coisa muito difícil de obter-se em sendo uma banda de abertura para um show de dinossauro internacional, e ainda por cima, sendo uma banda praticamente estaca zero, em termos de projeção, como o Pedra era naquela ocasião.

A ideia agora, era usar esse saldo em nosso favor, aliado ao bom barulho que estávamos fazendo com matérias positivas elogiando o CD, mais execução radiofônica e clips bem feitos, em película de cinema, e com assinatura de um diretor famoso no meio. E uma parcela dessa esperança, deveria ser depositada nas mãos de "R", o "manager" que supostamente alinhavaria tais elementos e  transformaria em oportunidades para a banda. Deveria...


Já na madrugada, tínhamos indícios de que nossa participação houvera sido vitoriosa. Vários comentários já pululavam na internet e naquela ocasião, a grande febre era a Rede Social, Orkut.



Muito legal a resenha desse rapaz, mas não consigo imaginar onde ele enxergou "heavy-Metal" no nosso som...

No dia seguinte e nos posteriores, muitas resenhas foram publicadas em sites e Blogs, e essa tendência repetiu-se algumas semanas depois, quando muitas resenhas do show, citando a nossa boa participação, foram publicadas em revistas especializadas.



Nesta resenha de Internet (não consegui descobrir o nome do Site, tampouco do resenhista que assinou-a), insistiram na ideia de que apesar da nossa banda ter apresentado muita qualidade técnica e sonoridade muito mais próxima à da atração internacional, o Uriah Heep, havia um "esquema" para favorecer-nos. Se soubesse a verdade dos bastidores, ficaria chocado com a realidade, certamente. Contudo, tivemos a sorte dos nossos clips passarem sim e o som de lounge ser nosso disco, por um único motivo : o nosso técnico comandou o P.A.

O sentimento era bom e indo além, sabíamos que precisaríamos capitalizar esse "momentum" e como já disse, era a hora do nosso "manager", o estrambótico "R", agir...


Paula Witchert, representando o Site "Revista Eletrônica", acertou na mosca : éramos a banda com sonoridade mais coadunada com o Uriah Heep.

Mas os dias foram passando e o sujeito, sumiu. Não respondia E-Mails, tampouco telefonemas, deixando-nos atônitos com tal comportamento injustificável.


Nossa paciência esvaía-se, quando finalmente o Rodrigo conseguiu falar com o elemento. Mostrando-se irritado, disse que estava muito "ocupado". Ao ser questionado sobre devolver os CD's e DVD's com os quais tínhamos fornecido-lhe para poder trabalhar, respondeu rispidamente que o nosso prejuízo não poderia ser menor que o dele, que gastara com despesas de correio...

Isso extrapolou qualquer expectativa nossa de considerar as atitudes dele, tresloucadas. Que despesas ? Que correio ? Ora, ora, não tínhamos mais 12 anos de idade para acreditar em desculpas esfarrapadas desse naipe...



Muito bacana elogiarem-nos na Rock Brigade, mas cabe a ressalva, só tocamos uma menção à música "The Mule", do Deep Purple, acoplada ao arranjo da nossa música "Reflexo Inverso", e não um "alguns covers" como afirmaram, mas sim, o público reconheceu-a e delirou mesmo...

Agora, incompreensível mesmo, é tentar entender o por que dele ter desistido de trabalhar em nosso favor, pois o "momentum" que atravessávamos, era excepcional.




Não só pelo êxito em abrir um show internacional e agradando o público (coisa rara demais, sabemos disso), mas pelas matérias excelentes sendo publicadas na mídia escrita; música tocando numa FM de São Paulo; clips bem produzidos e crescente movimentação pela internet. Quanto à atitude de abandonar-nos sem justificativas, aí é questão de índole, e portanto prefiro nem comentar mais nada. Só acrescento que equivale àquela prática infantojuvenil de tocar campainhas residenciais e sair correndo...
A vida seguiu sem "R", claro...


 
E por falar em boas resenhas sobre o primeiro CD, eis a transcrição literal do que o jornalista Antonio Carlos Monteiro, escreveu nas páginas da revista "Rock Brigade", n° 240, de julho de 2006 :

"A discussão é cabível : até que ponto a reverência ao passado recente é saudosismo saudável e até que ponto é saudade mal curada ?
Porque nunca se falou nos anos 60 (menos) e 70 (mais), no que se refere ao Rock, como nos tempos atuais e a discussão sobre se isso é bom ou ruim, parece interminável.
Este quarteto paulistano talvez tenha conseguido encontrar o ponto exato para tratar do assunto.
Pra começar, Rodrigo Hid (V/G), já tocou na Patrulha do Espaço; Luiz Domingues (B), foi D'A Chave do Sol, do Pitbulls on Crack e da Patrulha, além de incontáveis outras bandas; Xando Zupo (G), tocou com o Harppia e com o Big Balls (o batera Ivan Scartezini entrou depois de o disco ser gravado).
Ou seja, é um povo com estrada e experiência suficiente pra não cair fácil nessa armadilha. Assim, o Pedra tem um som calcado lá no passado, é óbvio, mas olha pra frente, sem medo de incorporar novas tendências e novas sonoridades à sua música.
Os flertes são vários, até a Soul Music, o Funk e a música brasileira dão as caras por aqui, só que sem jamais perder o foco, que é o Rock bem tocado, mas sem ser cerebral, feito por músicos que não tem a tôla pretensão de brilhar mais que a música.

Nota : 9,0"


Bem, a crítica está ótima, sem dúvida. Ficamos contentes pelo Tony (Antonio Carlos Monteiro, jornalista exemplar e experiente, que eu conhecia desde os anos oitenta, quando ele trabalhava na revista Roll), ter enxergado que éramos uma banda de Rock sim, mas aberta à outras tendências, e ele acertou sobre alguns dos estilos que influenciavam-nos.

Gostei muito também da colocação final, quando exaltou o fato de que não exagerávamos nos virtuosismos, sob o risco de tirar o foco da música em si. De fato, sempre trabalhamos de uma maneira muito focada nesse sentido. Não somos, como músicos, nem nunca seremos, mais importantes que a própria música que fazemos.
Essa colocação tinha uma razão de ser. Como o Tony já de muitos anos estava na Rock Brigade, uma publicação que focava 99 % de sua linha editorial no Heavy-Metal, e seus múltiplos derivados, esse tipo de preocupação era cabível dentro desse universo, pois existem tendências dentro desse mundo, que brigam entre si, por conta desse conceito. Contudo, como não tínhamos nem de longe, qualquer conotação dentro desse universo, para nós, não havia sentido algum.

E o mesmo em relação à questão de sermos ou não influenciados pela música dos anos 1960 e 1970. Eu tenho essa influência decisivamente em minha formação pessoal, particularmente, mas o Pedra não desfraldava essa bandeira. E, essa preocupação também é típica do mundo do Heavy-Metal, onde existe essa obsessão pela idade cronológica dos artistas e sobretudo, o seu comprometimento com estéticas que saem de moda numa velocidade estonteante.
Daí ele ter aberto a resenha, com essa colocação, que é uma preocupação forte dentro desse mundo no qual os leitores daquela revista, vivem. Explicadas essas considerações, creio que a resenha foi excelente e o fato de ter sido publicada num veículo de um mundo que não era o nosso, por adequação estética, uma prova de respeito muito grande por parte do jornalista, pois mesmo sendo um velho amigo e mesmo por isso, ele teria total liberdade para dizer-nos abertamente que achava inadequado publicar tal resenha naquele veículo, e nós teríamos entendido perfeitamente.


Outras boas resenhas do CD, que saíram nessa época, transcrevo aqui, neste momento. Primeiro, a micro resenha que o jornalista Daniel Vaughan publicou no Site da MTV :

"O grupo traz dois  ex-membros da Patrulha do Espaço, o vocalista e guitarrista Rodrigo Hid e o baixista, Luiz Domingues, aliados ao experiente guitarrista Xando Zupo. O som do Pedra  remete ao Rock dos anos 70, com levadas de soul / Funk ao estilo do Dobbie Brothers. "Sou Mais Feliz" é uma das melhores canções do disco, ao lado de "O Dito Popular"."

Daniel Vaughan  


Outra interessante, foi publicada num site chamado "Tons Diversos", mas desconheço a autoria de quem a redigiu :

"Pedra acaba de lançar seu primeiro CD. É uma banda nova em todos os sentidos. Seu conceito sonoro, as temáticas das letras e o desprendimento com estilos pré-formados dão um frescor genuíno à estreia do grupo, que tem seu CD espalhado pelas melhores lojas, em todo o país. A banda inicia sua tour de lançamento e estreia nas rádios, com a música "Sou Mais Feliz", cujo video clip estreia em setembro na MTV, Multishow e Rede NGT. O Clip filmado em 16 mm., tem a direção de Eduardo Xocante e a participação especial dos atores Claudia Cavalheiro e Daniel Alvim. Formada por músicos experientes, esbanjando um vigor de estreia, a banda Pedra é Rodrigo Hid ( Guitarra, piano, teclados e voz); Xando Zupo (Guitarra e Voz); Luiz Domingues (Baixo e Voz) e Ivan Scartezini (Bateria).
O Alto astral da estreia fica claro em "Sou Mais Feliz", "Se Agora eu pulo Fora"; "O Dito Popular", "Madalena do Rock'nRoll" e o rockaço de "O Galo Já Cantou".
"Amanhã de Sonho" tem cara de Hit radiofônico e "Reflexo Inverso" é talvez a mais poderosa composição do álbum, climática e executada com esmero. Musicalmente, o disco surpreende pelas composições e pela agradável sonoridade. No palco, o Rock é sólido e de assimilação garantida.
Vá lapidando esse disco a cada audição, pois essa Pedra é preciosa !"


Bem, primeiro comentando a resenha de Daniel Vaughan para o site da MTV, tenho a dizer que apesar de curta, foi positiva. Perceber o influência da Black Music foi uma boa perspicácia da parte dele, e comparar-nos ao "The Doobie Brothers", uma lisonja e tanto.
Claro, uma falha, mas não o culpo, o Xando também foi membro da Patrulha do Espaço, no início dos anos noventa. Quanto a segunda resenha, no Site "Tons Diversos", as observações de quem a escreveu foram pertinentes e ficamos contentes com os elogios, claro.


 
Em outubro de 2006, o "momentum" era ótimo, por conta de toda essa movimentação que criamos a partir de fim de maio e junho em diante, principalmente. Mas havia um elemento desabonador nessa questão, que não mensurávamos nessa época, por falta de visão, naturalmente. Sem um empresário; manager; agente; ou no mínimo uma pessoa desbravadora que propusesse-se a vender o "peixe" Pedra, toda a movimentação que fizéramos tendia a esvair-se ralo abaixo, com uma facilidade espantosa.

Banner no Site Wiplash, anunciando o lançamento do álbum, em 2006

E foi o que ocorreu, infelizmente, pois quando parecia que as portas insinuaram-se abrir, era necessário alguém para precipitar de vez esse movimento, e fazer "acontecer" tal abertura, de fato. E na ausência absoluta de uma pessoa nessas condições, vimos escapar pelos dedos a possibilidade de galgar mais degraus, nessa surpreendente escalada que tivemos, pelos próprios meios.

                          Matéria no Site "Tocando Guitarra"

Enfim, não é nenhuma novidade que as coisas processem-se dessa forma em qualquer setor da vida, e no mundo artístico, parece ter um acento ainda maior, tal prerrogativa. Claro, não tínhamos essa visão na ocasião, com a frieza que o distanciamento histórico permite-me nesta análise, agora (2016). 

Resenha do disco no Site A Barata, do poeta / agitador cultural, Luiz Cichetto "Barata"

Pelo contrário, estávamos muito animados pelo "momentum" e achando ser questão de dias, no máximo semanas, ter novas investidas firmes rumo a degraus mais elevados.


A sigla "RPB" era uma mera jogada de marketing que usamos, e sua ideia tinha vindo do Rodrigo. Significava "Rock Popular Brasileiro" e não queria dizer absolutamente nada, em suma...mas certos órgãos da mídia acabaram comprando a proposta jogada no Release do disco e usaram-na, caso dessa resenha publicada no Site "Futrico", aliás um site de fofocas de atores de novelas e subcelebridades da TV aberta, portanto, agradecemos a publicação, mas era um mundo estranho para nós e vice-versa...

Nessa linha de pensamento, a qualquer momento, surgiria um empresário com vontade de trabalhar, e com talento e contatos para conduzir a banda para lugares melhores.

Boa resenha assinada por Marcia Janini, para o Site Musicão. Percebeu que éramos uma banda multifacetada, com diversas influências e citou músicas que apreciara, dando-lhes elogios de quem realmente ouvira com atenção o trabalho.

Alguém com um nível minimamente profissional, não precisava ser um mega empresário poderoso (claro que se aparecesse, aceitaríamos de bom grado alguém desse porte...). Mas o tempo foi passando e ninguém assim, com essa qualificação mínima, interessou-se.


O amigo Alexandre "Wildshark" fez uma bela resenha no Site "Rock on Stage. Conheço-o de longa data e sei que é um radialista / músico e agitador cultural experiente, além de bastante versado no ramo.

Era melhor ficar sozinho do que ter um sujeito sem noção como o "R" ? Claro que sim, mas ficar sozinho não era nada saudável para nós, ainda mais num momento onde se tivéssemos alguém "esperto", no bom sentido do termo, teríamos subido alguns degraus a mais, já naquele momento.

Bento Araújo dispensa apresentações como jornalista, crítico de Rock e editor da Revista Poeira Zine. Aqui, resenhou nosso disco para o Site Show Livre

Nesses termos, além das execuções radiofônicas que prosseguiram com força (até surpreendentemente para nós), e as matérias com resenhas do disco, que continuaram saindo com teor muito positivo, entramos numa fase difícil de agenda.



Como sempre em suas matérias, Marcos Cruz elaborou uma resenha extensa e recheada de detalhes, para o Site Wiplash. Curiosa a sua linha introdutória, no entanto, abordando a expectativa prévia de um possível desapontamento em relação ao trabalho, talvez comparando-nos a bandas que optaram pelo Pop radiofônico comercial proposital, apesar de ter em suas linhas, músicos egressos de bandas de Rock históricas. Foi o caso de algumas como "14-Bis" e "Rádio Táxi" em âmbito nacional, e o "Asia", no campo internacional. A louvar-se a sua sinceridade em deixar claro que havia duvidado de nós, principalmente eu e Rodrigo que ele admirava por nossa passagem longeva pela Patrulha do Espaço, e nesses termos, bacana ter gostado e a resenha acabar de forma positiva, com ele quase que desculpando-se por ter duvidado que o Pedra fosse uma banda "não vendida" ao sistema...

Talvez o canto do cisne desse ótimo impulso de 2006, tenha sido uma aparição num programa de TV, onde tivemos espaço farto para falar e tocar ao vivo.

                 No catálogo da distribuidora Tratore, em 2006

Uma pena que fosse um programa de pouca repercussão, por ser veiculado numa estação de baixa audiência, que nem era da grade da TV paga, tampouco estava na grade da TV aberta. Nesse limbo do "UHF", ficava escondida a Rede NGT, uma estação com ótimos propósitos, boa estrutura técnica e sobretudo, aberta a dar espaço a artistas independentes, sem estar contaminada com a maldita máfia do jabá. Conto a seguir, essa etapa...

Nesses termos, fomos convidados a participar de um programa nessa rede de TV, o NGT, chamado "NGT Independente", em outubro de 2006. O programa era apresentado pelos membros de uma banda, chamada "Irmandade do Som" e tinha o nobre objetivo de dar espaço a bandas independentes e sem chances na mídia mainstream.

Um dos vocalistas da banda "Irmandade do Som", conhecido pela alcunha de "Chapéu de Couro"

Fomos muito bem recebidos pelo pessoal dessa banda, e de fato, simpatizamos bastante com eles, tornando-nos amigos doravante, principalmente o "Chapéu de Couro"; Carlos Zoffo e Cris "Boka de Morango". Foi um programa bem agradável, com a possibilidade de tocarmos duas músicas ao vivo e uma boa conversa, conduzida pelo extrovertido Carlos Zoffo, um dos vocalistas daquela banda. Um fato curioso ocorreu durante a gravação da entrevista : enquanto entrevistava-nos, o telefone celular do Carlos tocou e querendo fazer um gancho de improviso, ele atendeu-o, e usando seu interlocutor na brincadeira, foi dizendo coisas do tipo : -"que legal que está gostando do som do Pedra neste dia tal de tal", referindo-se à data em que gravávamos o programa. Com isso, esqueceu-se de que a data correta que deveria ser mencionada, seria o sábado posterior, onde efetivamente o programa iria ao ar...


Quando ele percebeu a gafe, "travou", e despertou uma gargalhada coletiva de seus colegas da banda, técnicos da TV, e de nós também. Ele era muito legal e caiu na risada, também, cortando o constrangimento. O que ocorreu a seguir, foi que fizemos um novo take da entrevista, que foi legal, mas o take estragado estava melhor, devido ao astral descontraído com o qual estava  desenrolando-se. Uma pena, mas TV é assim mesmo. Carlos era muito extrovertido; gente boa e arrancava risadas com seus improvisos e seu jargão que tornou-se até uma piada interna para nós, por muitos meses : -"sabe o que é isso, banda" ?
Ele usava tal expressão para dirigir-se a bandas amadoras que assistiam o programa e sonhavam ali apresentar-se, usando o nosso exemplo e de outras bandas boas que ali apresentavam-se, para incentivar os moleques aspirantes a artistas a estudarem e ensaiarem com afinco, numa preocupação didática, louvável.  
Na parte musical, tocamos "Madalena do Rock'n Roll" e "Vai Escutando". Estávamos muito afiados e ajudados pela boa vontade da banda e dos técnicos, tivemos uma mixagem de som para a TV, acima da média normal do que geralmente vê-se por aí. Então, foi uma performance excelente, com as músicas soando muitíssimo bem.

Luiz Domingues e Emmanuel Barreto, em foto no estúdio da Brasil 2000 FM, em julho de 2006

E o meu primo, Emmanuel, estava presente atuando como cinegrafista de making off. Existe uma filmagem desses bastidores todos, incluso o take interrompido da entrevista, com a gafe do entrevistador Carlos. Um dia vai para o You Tube...
Quanto às músicas, estão disponíveis no You Tube, desde 2006.
Uma pena que a Rede NGT tivesse uma audiência pequena, ficando nesse limbo entre a TV aberta e a paga. Suas intenções eram / são nobres no tocante à uma programação de nível cultural muito legal, sem estar contaminada com o vírus do jabá e parecendo de certa forma, com a conduta de TV's dos anos 1960, como a TV Record, por exemplo, preocupada com cultura.



http://www.youtube.com/watch?v=idpeNRd4Ob0

Após essa boa aparição na TV, onde fomos bem recebidos, pudemos falar com tranquilidade, e tocar ao vivo com um som legal, só lamentávamos que a estação em si, não tivesse uma audiência digna de suas boas intenções culturais. Eram os últimos dois meses de 2006, e não tivemos mais perspectivas de shows, infelizmente.

A música "Sou Mais Feliz", continuava tocando com boa profusão numa estação FM de São Paulo, mas não havia indício de que entrasse em outras estações, por extensão. Realmente, o fato de tocar em uma, já era extraordinário por si só, em se considerando que dobrava-se a primeira década do novo século / milênio e a cultura maldita do "jabá", estava para lá de sedimentada, há anos...


Legal sair com resenha num jornal mainstream e popular que geralmente abria espaço apenas para manifestações culturais popularescas, mas convenhamos, só na cabeça do desconhecido jornalista que escreveu, para deduzir que nosso objetivo de vida era seguir os passos do "Jota Quest"...particularmente, acho essa banda muito competente, mas se ele tivesse ouvido nosso disco mais detidamente e ostentasse, sobretudo, uma cultura musical mais avantajada, não teria escrito essa asneira...

Tivemos mais algumas matérias de revistas, com críticas positivas sobre o CD, e creio que foi só o que aconteceu de positivo nesse finzinho de 2006.




Na Revista Roadie Crew, nº 93, que saiu em outubro de 2006, falaram o seguinte sobre o Pedra I :

"Mais uma banda de Rock pesado em português, estilo que parece ter um grande renascimento nesses últimos anos. Temos vários exemplos de bandas que seguem esta linha de som, como Tomada, Carro Bomba, Baranga, 1853, Exxótica, Mahabanda e agora também o Pedra, que embora mais leve, que seus companheiros de estilo, não perde a qualidade. O grupo é formado por Luiz Domingues (Baixo e vocal); Xando Zupo (Guitarra e Vocal); Pedro Hig (Vocal, Guitarra e Teclado) e Alex Soares (bateria, convidado para a gravação do álbum).
Para o meu gosto pessoal, acho que as músicas poderiam ser mais pesadas, mas isso é algo que vai variar de pessoa para pessoa que ouvir o disco. Destaques para , além da qualidade da gravação, a guitarra de fundo de "Amanhã de Sonho", que lembra "Always With Me, Always With You", de Joe Satriani; "Reflexo Inverso", que me lembrou o April Wine; a "zeppeliniana" (especialmente pelo Slide Guitar), "Estrada"; e para a minha predileta, "Me Chama na Hora".
 

Nota : 7.0

Carlo Antico"


Bem, claro que sou agradecido ao Antico por ter feito essa resenha, em termos de boa v
ontade e principalmente por ter esmerado-se, colocando um microscópio para achar aspectos positivos nesse trabalho (não que ele não seja bom, quando é público e notório que o é), mas levando-se em consideração que o resenhista era / é, notadamente um aficionado do Heavy-Metal. Portanto, achei muito interessante o seu esforço pessoal para pescar qualidades em meio a um tipo de trabalho que passa longe de seu rol de predileções, portanto, um sinal de respeito. Feita essa ressalva que é muito importante para destacar-se, vamos aos fatos :

1) Maneirismo típico de críticos musicais do mundo do Heavy-Metal / Hard-Rock oitentistas, ele gastou quase a metade de sua resenha enfatizando o fato de nossa banda ter a predisposição artística de escrever letras em português. Ora, isso só é surpreendente para quem habita esse nicho fechado e obcecado por essa questão, pois é claro que usávamos o idioma português como língua oficial em nossas canções, e nem passava pela cabeça, cantar em inglês, coisa corriqueira no métier do Heavy-Metal.

2) Numa falha lastimável na digitação da ficha técnica... quem é "Pedro Hig" ??? Na nossa banda, eu conheço o Rodrigo Hid, conforme consta na ficha técnica do disco, e no release oficial que seguiu em anexo para a redação dessa Revista.

3) Gostei da honestidade do resenhista ao afirmar que para o seu gosto pessoal, o trabalho deveria ser mais pesado. Isso deixa claro que o nosso trabalho não fazia sentido para ele, a grosso modo, mas por isso mesmo, louvo a sua extrema boa vontade em resenhá-lo, quando em seu lugar, alguém sem a mesma lisura e consideração, teria descido o malho na obra, usando de sua idiossincrasia "metálica" ou na melhor das hipóteses, nosso disco teria sido preterido pelo editor, julgando-o fora de propósito para aquela publicação (o que de certa forma, é uma verdade). Bem, claro que ele era leve demais para o gosto do rapaz, em suma.

4) Cada pessoa faz uma leitura conforme suas lentes pessoais, isso é fato da vida. As associações que estabeleceu entre algumas canções nossas e o trabalho de artistas internacionais, foi mera visão dele e nada tinha a ver com a realidade. Onde ele lembrou do guitarrista "Joe Satriani", digo que esse referido músico não é referência para nenhum de nós, em hipótese alguma. No meu caso em particular, só sei que ele existe, mas daí a conhecer alguma música sua, existe um abismo. Respeito o trabalho do "April Wine", mas não é nem de longe uma banda que admire, tampouco meus companheiros.
A associação mais próxima que fez, foi com o "Led Zeppelin", mas mesmo assim, se fosse um jogo de "Batalha Naval", seu tiro teria acertado a água, pois no caso da canção "Estrada", a influência mais correta ali é o "Southern Rock" de bandas como "Allman Brothers Band"; "Lynyrd Skynyrd"; "Foghat"; "38 Special"; "Marshall Tucker Band"; "Alabama"; "The Doobie Brothers", e congêneres. E por fim, uma surpresa : ao afirmar que sua canção predileta era "Me Chama na Hora", denotou que absorveu a batucada de samba explícita que existe na música. Nesse caso, nada mau para um fã de Heavy-Metal, que tende a ser fechado em suas convicções. Discos de Heavy-Metal na mesma seção de resenhas ganharam notas mais altas, o que era normal, em se tratando de uma típica revista especializada no nicho. Mas uma nota "7", para um disco de uma banda nada a ver com esse mundo, foi excepcional, eu diria. Hoje em dia, eu não perderia o meu tempo em encaminhar um trabalho do Pedra para tal publicação. Deixo a ressalva que não tenho nada contra ela e pelo contrário, tenho até um grande amigo em seu staff, o excepcional jornalista, Antonio Carlos Monteiro. Contudo, o Pedra não pertence a esse mundo e ter um trabalho ali resenhado não ajudava-nos em nada, numa primeira instância. Em segundo lugar, podia até causar um incômodo, pois a despeito de sermos deslocados naquele mundo, pela amizade e respeito que nutrem por nós, claro que vão resenhar tudo o que enviarmos, mas sempre fazendo ressalvas como o Carlo Antico estabeleceu, para explicar ao seu leitor tradicional que uma banda como o Pedra é um alienígena ali para eles, mas tem seu valor etc etc. Essa é a realidade e fica sempre a questão do respeito mútuo para profissionais que dignam-se a falar de nós, apesar das disparidades entre o trabalho e os propósitos da publicação em si.
Portanto, saúdo e louvo a revista "Roadie Crew", e Carlo Antico por essa resen
ha.


O grande embalo inicial estava diminuindo, sem dúvida, e claro que hoje em dia, é muito fácil de enxergar tal dificuldade que estávamos vivendo, pelo distanciamento histórico. Na época, sentíamos uma queda, mas relevávamos, atribuindo-a ao inevitável "fechamento do Brasil", que ocorre de dezembro a março, num costume enraizado desde 1500...



Outra resenha que alegrou-nos pelo seu conteúdo positivo, saiu publicada na revista Cover Guitar, apesar de ser uma publicação dirigida para músicos, praticamente, claro que era uma honra e comemoramos o fato de ter-nos avaliado com muitos elogios. Eis abaixo a íntegra da resenha :




"Pedra

Desde já, reconheça-se o mérito de um grupo nacional que decide, em seu disco de estreia, enveredar por uma atmosfera setentista sem soar datado e cheirando a patchuli. Só que o fato de seus integrantes não serem marinheiros de primeira viagem - a banda foi formada a partir de uma verdadeira debandada da lendária Patrulha do Espaço, de onde vieram os guitarristas Xando Zupo e Rodrigo Hid (que também toca teclados) e o baixista Luiz Domingues - certamente pesou na hora de transformar este disco em uma bela e agradável surpresa. Desenvolvendo um paciente, acurado e competente trabalho de composição e arranjo, a banda mostra que quando criatividade, bom gosto e conhecimento musical se unem à técnica, se fecham os caminhos que levam à indiferença. Há ecos psicodélicos dos Allman Brothers em determinados licks de "Me Chama na Hora" e nos quase sete minutos de "Reflexo Inverso", em que Xando e Rodrigo dão demonstrações de eficiência ao tecer uma teia harmônica muito bem cerzida. "Misturo Tudo e Aplico" e a ótima "O Galo já Cantou" são daquelas canções que poderiam estar em um disco do Trapeze de Glenn Hughes, o mesmo acontecendo com o Rockão "Madalena do Rock'n Roll".
Até mesmo aquilo que seria o ponto fraco em muitos grupos do gênero - as baladas -, o Pedra se dá bem na delicadeza Rocker de "Amanhã de Sonho". Ainda vamos ouvir falar muito deste grupo..."


RT


Bem o "RT" em questão é o jornalista Régis Tadeu,e nesse caso, não só um dos maiores conhecedores de música e Rock do jornalismo musical brasileiro, como bem famoso por ser muito exigente. Muito boa a resenha, mas como era / é típico da crítica musical brasileira, o início da reflexão do jornalista, é marcado pela insistência em bater na tecla do que é "datado" e no nosso caso, exalta-se o fato de que soávamos setentistas, mas sem o aroma de "Patchouli", ou seja, deveríamos ficar contentes com o fato de termos passado nesse teste de detecção de naftalina ??
Ha ha ha... na mentalidade do jornalista, isso era uma coisa a ser louvada como um mérito e sem desmerecê-lo de forma alguma, pois sua intenção foi boa, mas trazendo outra reflexão a baila, eu pergunto : quando os jornalistas musicais vão libertar-se dessa preocupação com o tempo ? Acredito que muito melhorariam no exercício de seu trabalho, se finalmente convencessem-se de que música é atemporal. Nos demais aspectos levantados, uma crítica muito positiva, exaltando pontos que sobressaíram-se segundo sua percepção pessoal e reconheço que com conhecimento de causa. A citação dos "Allman Brothers" em relação a música "Me Chama na Hora", não bate com a minha percepção pessoal, pois acho que "Estrada" cabe melhor na comparação estilística, mas isso em nada desabona a crítica dele a meu ver. Claro que por tratar-se de uma publicação dirigida a guitarristas e aspirantes, o foco centrou-se mais na performance de Xando e Rodrigo. Natural, que fosse assim.
Comparação com o "Trapeze" muito honrosa, naturalmente, e o fato de ter elogiado "Amanhã de Sonho" do jeito que fez, denotou que em outras avaliações de outros artistas, talvez não tivesse tanta paciência com baladas. Ponto para nós, portanto. A frase final, talvez tenha sido a mais emblemática da resenha e representa tudo o que um artista quer que um jornalista fale de seu trabalho : "Ainda vamos falar muito desse grupo". Ou seja, tem o peso de uma profecia, proferida da parte de quem geralmente usa como trunfo profissional acertos em avaliações para o futuro. Em suma, apreciamos e agradecemos a resenha muito positiva.


Por outro lado, já trabalhávamos em músicas novas, que avolumavam-se, insinuando a vontade de pensar num segundo disco. E assim encerrou-se o ano de 2006...


Entrevista com os guitarristas do Pedra, Xando Zupo e Rodrigo Hid, para a revista Guitar Player em 2006, logicamente focando mais em questões técnicas da performance e equipamento de ambos, praxe dessa publicação dirigida a músicos e aspirantes a

Antes de adentrar na cronologia enfocando o ano de 2007 para o Pedra, é uma hora boa para esmiuçar um pouco melhor o álbum de estreia da banda, faixa a faixa. Como o leitor já sabe, esse álbum começou a ser gravado no início de 2005, mas só veio a ser lançado na metade de 2006, por uma série de fatores.

Primeiramente, porque as sessões de gravação ficaram muito espaçadas. Nosso técnico de som e produtor do álbum, Renato Carneiro, trabalhava como técnico de P.A. de uma dupla sertaneja mainstream (Zezé Di Camargo & Luciano), e fazendo 25 shows por mês em média, geralmente em rincões distantes do centro-oeste, norte e nordeste do país, portanto, sua disponibilidade para estar em São Paulo era mínima, e mesmo assim, claro que nos poucos dias de folga, tinha seus afazeres pessoais, fora estar angustiado por viver longe da esposa e dos filhos em idade escolar, portanto, sobrava pouco tempo para vir cuidar da nossa gravação e mixagem.

Outro fator, logo no início da gravação, ainda contávamos com um quinto membro, o guitarrista Tadeu Dias, que infelizmente deixou a banda de forma abrupta, e forçou-nos assim a apagar suas guitarras e fazer com que Xando Zupo regravasse as partes dele, visto que não daria tempo para o Rodrigo assumir essa tarefa. No "frigir dos ovos", com os atrasos posteriores, claro que o Rodrigo poderia ter feito isso sem prejuízo algum à banda, em detrimento do tempo hábil para tal.

Tivemos problemas com o baterista Alex Soares, infelizmente e que culminou com sua saída antes do lançamento do disco, aliás, antes mesmo de sua finalização técnica. Até cogitamos uma regravação com Ivan Scartezini refazendo toda a bateria, mas seria uma loucura, visto estar tudo pronto, inclusive as partes vocais e a inserção de músicos convidados.

Também tivemos atrasos em relação a arte final da capa do CD. Até essa parte resolver-se e incluo nisso a questão do encarte e diagramação do texto, que também consumiu-nos bastante tempo.
No fim, atraso consumado, creio que a apresentação visual e o áudio do produto, corresponderam às expectativas e até superaram-nas em certos aspectos.

Era indiscutível a qualidade artística do material composto; os arranjos; a performance individual de cada instrumentista / vocalista; a química conjunta; o bom gosto da escolha dos músicos convidados e sua contribuição; e sobretudo, a competência técnica do operador de áudio / produtor, Renato Carneiro. Nessa feliz conjunção de fatores, creio que o álbum Pedra, ou Pedra I, como foi carinhosamente batizado, logrou êxito.

É sem dúvida, o melhor áudio que eu tive na minha carreira inteira, só comparado igualmente ao álbum seguinte, Pedra II, que foi gravado nas mesmas condições e com o mesmo Renato Carneiro no comando dos botões, e um pouco mais abaixo, mas quase de forma imperceptível, o álbum Fuzuê !, lançado em 2015, mas este sem grande intervenção de Renato Carneiro. Fica a ressalva que escrevendo este trecho em 2015, e tendo em conta o fato de que não encerrei a minha carreira, posso ter ainda outros discos tão bons, ou melhores do que os citados em termos de qualidade de áudio, e assim espero, mas até o presente momento, nesse quesito, permanecem insuperáveis. O timbre dos meus instrumentos atingiu o pico de qualidade com esses trabalhos e o Renato confessou-me tempos depois, que nas suas andanças na estrada e interagindo com outros técnicos, colhia elogios rasgados para tais gravações e especialmente aos timbres de baixo, com distinções nítidas entre cada modelo que usei, respeitando e exaltando o máximo de suas características naturais, e com um peso e timbre, verdadeiramente incríveis.

E ainda mais quando ele tornou-se técnico de P.A. dos Mutantes em sua volta após 2006, e excursionando com eles pela Europa, impressionou gringos ao tocar o som no P.A de teatros e shows ao ar livre, quando perguntavam-lhe que banda era essa, e intrigados por cantarmos em português que soa-lhes exótico.

Certa vez, um técnico de um festival onde ele operou os Mutantes que apresentaram-se em Liverpool, na Inglaterra, ficou encantado com a sonoridade e não acreditava que um som de baixo matador daqueles tivesse sido gravado no Brasil, que ele devia subestimar, naturalmente em seus conceitos. Puxa, o som dos meus dois Fender, e meu Rickenbacker "causando" na cidade dos Beatles... nem em sonhos poderia conceber algo parecido...
Sobre a parte artística, eis o que penso de cada faixa :

"Sou mais Feliz" : 
Eis o Link para ouvir no You Tube :
 
https://www.youtube.com/watch?v=kgtwdKgWuOk

Era nossa aposta mais pop, mas orgulhosos de que a canção; seu arranjo; sua letra, e a performance individual de cada um, remetiam a uma espécie de pop sofisticado setentista, do nível dos "The Doobie Brothers"; "Al Stewart"; quiçá até "Steely Dan", sem querer ser presunçoso. Gravei com meu Fender Jazz Bass e busquei o som aveludado e típico das gravações clássicas de R'n'B e Soul Music dos anos sessenta. A frase da parte A que criei, é repetida em looping e privilegia a sustentação rítmica do riff da guitarra, e em minha opinião, imprime muito balanço à canção. Já na parte B, optei por improvisar sem limites, buscando o máximo do groove da Soul Music, e acho que fui feliz nesse passeio livre que fiz e imortalizou-se na gravação. Gosto da melodia e da interpretação do Rodrigo, e dos backing vocals, que não gravei no disco, mas ao vivo, para dar liberdade ao Xando para ele poder improvisar no seu solo, eu que passei a fazer doravante.

Acho que o trabalho de guitarras do Xando é muito feliz em todos os sentidos. O riff original que é sua criação, e que deu origem à canção, é genial por si só, mas todo o arranjo que criou é muito bom, incluso na escolha de timbres e uso e abuso de efeitos de pedais. Ele só preservou um desenho rítmico que fora criação do Tadeu Dias, porque é realmente muito bonito, mas de resto, tudo o que ouve-se ali de guitarras é sua criação. Nos teclados, o Rodrigo gravou com um piano Fender Rhodes emprestado do Marcello Schevano e que usamos muito no nosso tempo juntos, os três, na Patrulha do Espaço. O que dizer de um timbre clássico de um Fender Rhodes ? É absolutamente fantástico.

"Vai Escutando" : 
Eis o Link para ouvir no You Tube :
 
https://www.youtube.com/watch?v=MJiHYRWISdk

Não posso afirmar que não gosto de alguma faixa desse disco. Não é demagogia, nem proselitismo, realmente gosto de todas, mas uma ou outra, acho que gosto um pouco mais. É o caso de "Vai Escutando", muito provavelmente pelo fato dela soar-me mais Soul Music que as demais e eu adoro tal escola da Black Music, e refiro-me à Soul Music situada entre as décadas de cinquenta e metade da década de setenta, naturalmente.

Gravei com o Fender Precision, e o timbre nessa faixa ficou tão espetacular, que virou referência para o Renato Carneiro timbrar outras canções não só desse disco, como do seguinte, para buscar a sonoridade que eu queria do Precision. Em suma, um "estalo" médio-agudo, mas com um corpo de grave incrível, imprimindo peso e uma sonoridade agressiva e metálica e entenda bem o leitor, refiro-me ao aço propriamente dito, da siderurgia.

Certa vez, uma produtora musical e amiga minha, insistiu em criticar a linha melódica dessa canção, atendo-se ao fato de que a respiração do Rodrigo na sua interpretação, estava errada. Até acho que ela tem uma certa razão, e poderia ser diferente mesmo, mas não tenho queixa do jeito que ele burilou essa melodia, e gravou-a.
Gosto muito do interlúdio funk (acho uma lástima ter que fazer um adendo, pela inapropriada cooptação da palavra "Funk" para designar o lixo anticultural que assolou a nação fortemente após os anos 2000, mas quando falo "Funk", é óbvio que não refiro-me a isso, e sim ao "verdadeiro Funk", derivado do R'n'B e Soul Music clássicas), que considero bastante sofisticado, e o Rodrigo foi genial nos teclados pelas suas criações, execução e escolha magnífica de timbres, principalmente no uso do sintetizador Mini Moog.
Ao final, a ideia de fazer uma citação à "Partido Alto" do Chico Buarque, acho bacana e deu um verniz, é claro, mas na época eu temi ter problemas com Ecad e a editora que detém seus direitos, mas para todos os efeitos, os créditos estão bem claros no encarte do CD.

"Se Agora eu Pulo Fora": 
Eis o Link para ouvir no You Tube :
 
https://www.youtube.com/watch?v=eh7IgcOzkXU

Falei sobre gostar de todas as músicas, e é verdade. Falei que também tem algumas que gosto um pouco mais, e esta é uma das que gosto um pouco menos. É uma canção curta, intensa e tem força dramática, não nego. A harmonia e a maneira com a qual a melodia principal delineou-se, são legais. O que não aprecio muito é a letra, que tem uma visão "Bukowskiana" da vida, viés que eu detesto. Como espiritualista que sou e absolutamente aquariano, esse negócio de junkie existencialista vivendo em quartinhos fétidos; escuros e decadentes, para o meu gosto soa-me deveras deprimente, e não sou favorável a ser difusor desse conceito, glamorizando-o. Mas eu gostava de tocá-la ao vivo pela batida da bateria, os acordes soltos e ressoando em notas semibreves preenchendo o compasso inteiro; dos bons solos, e das junções com bendings das duas guitarras.

Gravei com um Jazz Bass para buscar exatamente o timbre "gordo" e típico desse baixo, privilegiando as semibreves em profusão.

"Me Chama na Hora": 
Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Xv0vFSQLoqU 

Como o Xando queria o conceito da música anterior ficar unida a esta, como uma espécie de continuidade da história que queria contar na letra, muita gente confundia e achava que eram uma canção só, mas não, são independentes, ainda que irmãs em alguns aspectos. Essa canção tem forte influência de Jazz Rock na parte A, tem também um interlúdio "funkeado a la anos setenta", no meio, e na parte final, quando volta à parte A, o Xando sugeriu a inserção de uma percussão de escola de Samba, ao estilo "Samba Enredo", mesclada sem concessões ao riff nervoso de Jazz Rock. Sabíamos que isso causaria estranheza para muita gente, notadamente fãs e jornalistas que conhecia-nos por trabalhos pregressos centrados no Rock, sem concessões. E certamente, que era uma maneira explícita de deixar claro aos radicais de plantão, que o Pedra era uma banda de leque aberto para múltiplas sonoridades e não fechadas somente na pureza do Rock.

Caio Inácio, percussionista convidado, e que gravou a Escola de Samba inteira nessa faixa citada...

A inspiração dele veio de uma música do Lobão, que admirava e a lembrança desse artista sendo hostilizado pelo público xiita do Sepultura, ao apresentar-se acompanhado da bateria da Escola de Samba Mangueira, no Festival Rock in Rio, de 1991. Nunca  esqueço-me, um crítico que não entendeu direito a nossa proposta, escreveu sobre essa música : -"parece Pink Floyd sendo interpretado pelo Zeca Pagodinho"... ha ha ha, uma das críticas mais hilárias e também injustas que já li sobre um trabalho meu...
Gravei com Fender Precision e o timbre é matador, tanto nas partes agressivas de inspiração Jazz Rock, quanto no groove sempre inspirado em "Sly and the Family Stone", "Funkadelic / Parliamant" e bandas desse naipe, ficou excelente.

"Amanhã de Sonho" :

Eis o Link para ouvir no You Tube :
 
https://www.youtube.com/watch?v=yyQqj1kRKAw

Essa era uma ideia que eu tinha desde 2003, e tentava inserir nas composições da Patrulha, visando o álbum "Missão na Área 13", mas não consegui, infelizmente. Quando iniciei atividades com o Pedra, mostrei a ideia ao Xando e ele gostou, burilando-a. Ficou um pouco fora do que eu imaginava originalmente, mas reconheço que  tornou-se uma balada boa, com potencial pop e um dado muito interessante, depois de lançada oficialmente, tornou-se uma das mais pedidas nos shows, e eu sinceramente não pensava que tornar-se-ia tão querida do público. Guardadas as devidas proporções, e sei bem como funciona a cabeça de produtor / predador do show business mainstream, ela tinha potencial pop para invadir estações de rádio FM; inserir-se em trilha de novela da Globo; e cair na boca do povo, em larga escala. Gosto muito da delicadeza generalizada e da performance de todos. Rodrigo cantou-a de uma forma muito poética. A parte B foi criada pelo Xando, e parece "The Police" na minha ótica. Não gosto dessa banda e de sua concepção de fazer música calcada em agudos exagerados. O excesso de som processado do Police, incomoda-me profundamente, e eu acho que a parte B dessa canção quase partiu para esse caminho pasteurizado. Mas tem atenuantes, como o uso de um simulador de mellotron a la "Beatles" ("Strawberry Fields Forever"), que é muito legal e os backing vocals com apoio de flanger que soam psicodélicos.

O mote da letra é legal a meu ver. Buscar a visão de uma menina naquela transição da mudança de corpo na adolescência x hormônios & medo inerente, é um tema bom, e quando a letra foi concluída pelo Xando, nós brincamos que essa música cairia como uma luva para acompanhar uma personagem feminina adolescente da novela "Malhação" da TV Globo. Acho que poderia mesmo...
Mas também acho que a letra exagerou um pouco na dose, e quase soa piegas, analisando hoje em dia. De qualquer forma, em se considerando que o Pedra nunca chegou nem perto do mainstream, foi extraordinário notar que era provavelmente a mais querida entre as mulheres, e foi elogiada até por críticos notadamente exigentes e intransigentes, como Régis Tadeu, por exemplo, que citou-a como uma boa balada pop, com méritos e qualidade.

"O Dito Popular" :
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https://www.youtube.com/watch?v=a7XOjXJf48E

Assim que entrei na banda em outubro de 2004, essa era uma das poucas canções que o Xando tinha concluída para dar início ao projeto. Trata-se de um Funk-Rock bem anos setenta, com ótimo Riff inicial; excelente refrão; e uma base de solos muito bem engendrada, com forte identificação Rocker setentista. A letra, reputo ser uma das melhores do álbum, traçando uma colagem de diversos ditos populares, de uma forma muito bem alinhavada. Tem um senão de minha parte e que foi objeto de discussão entre eu e Xando, até que ele insistisse em manter sua ideia original na gravação : o recurso de um palavrão em sentido de interjeição.
Seu argumento era o da contundência a expressar a revolta pelo conteúdo de uma letra com intenções de protesto contra a política e o sistema em geral, aliado ao fato de que o coloquial despojado cairia melhor. Eu ao contrário, encaro o palavrão como chulo e desnecessário, e argumento que para fazer-se contundente não é necessário baixar o nível do vernáculo e pelo contrário, sou absolutamente contra o artista que nivela-se pelo baixo espectro educacional para fazer-se entender pelo povo. Isso é baixar o nível e assim, o artista colabora com a decadência em favor da subcultura ou pior ainda, da anticultura. Penso que falar errado de propósito ou usar expressões chulas, não dá estofo artístico algum a ninguém, e pelo contrário, só retarda a melhoria do nível educacional e cultural do povo. Mas e o Adoniran Barbosa ? Pois é, licença poética e genialidade incontestável, mas seu caráter prosaico, assim como de Mazaroppi e Luiz Gonzaga, nunca partiram para o chulo. Enfim...
Outra coisa, se não entendem o que falo, busquem o dicionário e aprendam uma nova palavra enriquecendo seu vocabulário, mas daí a falar errado para fazer-se entender, é algo que não aceito como argumento. Era um mero detalhe, mas gerou discussões acaloradas, no bom sentido, porém acabou prevalecendo a opção pelo palavrão explícito. Sempre cantei ao vivo, respeitando tal opção e proferindo um sonoro palavrão, sem nunca deixar de fazê-lo pela dignidade artística da banda, mas nunca gostei disso. Então, está lá : -"e aí Fodeu"... paciência.

Gravei com Fender Precision, e acho que tirei um timbre muito vibrante, lembrando bastante o som do "Trapeze" e consequentemente, o som do "Deep Purple" da formação Mark IV. É puro "Come Taste the Band", na minha opinião. Sendo a primeira música que trabalhamos, por conta de ser o primeiro clip ainda em 2005, um ano antes do disco ficar pronto, chegou a tocar um pouco na Brasil 2000 FM e veiculado com muita profusão em programas da Rede NGT de TV, além de uma efêmera participação na MTV. Comemoramos também as seis exibições no canal Multishow, ao final de 2005, dando-nos a falsa expectativa de que explodiria.
Sinceramente, tinha todas as condições para tornar-se popular no mainstream, apesar da sonoridade Rock, com solos agressivos e não coadunados com a mentalidade mumificada dos donos do poder no Show Business. Em minha ótica, é uma ótima música, com muitos atrativos.

"Madalena do Rock'n Roll" : 
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https://www.youtube.com/watch?v=G1yvX8cLdPM

Essa música o Xando tinha guardado de tempos remotos, quando ainda nem pensava no projeto do Pedra. Trata-se de um riff muito bom, que de certa forma lembra a sonoridade bluesy do Led Zeppelin à época do Led Zeppelin II, de 1969. A letra foi construída em torno de boatos de que pessoas que gostavam da minha atuação e do Rodrigo na Patrulha do Espaço, estavam desapontadas por nós dois termos deixado a banda e unido-nos ao Xando para fazer o Pedra. Era portanto, uma ciumeira descabida e absolutamente inoportuna, pois tais pessoas não levaram em consideração que nossa saída da Patrulha era inevitável e que o Pedra apareceu como opção, e depois...
Fazendo uma analogia horrorosa, mas que serve para ilustrar, é como se uma pessoa fosse odiada por vizinhos que ficaram sabendo que ela casou-se de novo, sem saber que o casamento anterior estava encerrado e a nova esposa não foi a causadora da dissolução do casamento anterior. Baseado nessa premissa, o Xando escreveu essa letra alfinetando gente em geral que pensa e age dessa forma criticando as demais sem conhecer os fatos em sua realidade, ou seja, prejulgando. Isso fora o "muro das lamentações" em que se colocam e pior ainda, não suportarem a alegria alheia em detrimento de seus fracassos pessoais.

Gravei com o Rickenbacker e desta feita, o Renato Carneiro teve mais dificuldades, mas isso não é novidade em se tratando desse instrumento que poucos sabem tirar som, no Brasil. Sua briga com os choques que as frequências médio-aguda em profusão desse instrumento, sua marca registrada, tinham com teclados, notadamente o piano acústico que Rodrigo usou, foi grande, mas com boa vontade ele chegou num bom termo. Para quem conhece bem a sonoridade típica de um Rickenbacker, é fácil de identificar seu timbre característico e como no meu arranjo pessoal usei bastante o recurso do "glissando" (ato de escorrer o dedo sobre a corda, fazendo com que várias notas deslizem, sendo tocadas ao mesmo tempo, e fiquem difusas, sem definição harmônica / melódica definida), que tratou de acentuar ainda mais o timbre lindo dele. Gosto bastante das guitarras do Xando, especialmente suas intervenções de slide. A melodia é bem bacana e o Rodrigo, rasgou a voz com muita qualidade. A parte dos solos, tem uma dose de experimentalismo muito interessante, uma ideia do Rodrigo, que imprimiu acordes dissonantes e notas jogadas a esmo, nos teclados, intercalando-se com partes soladas com musicalidade "normal", principalmente no uso do órgão Hammond. Ficou bastante "Hermeto Paschoal" e intrigante a meu ver.


"Reflexo Inverso" :
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https://www.youtube.com/watch?v=_ZM1lABj_EE


Muito interessante essa canção que tem muitas nuances, e por ter várias partes, é interpretada como uma peça de Rock Progressivo por muitos fãs e críticos, que identificam-na como a uma suíte tipicamente progressiva. Não está errada não essa avaliação e tendo a concordar com ela, em linhas gerais. A parte "A" da canção tem muita influência de música brasileira. Dá para identificar fácil o "Clube da Esquina" de "Milton Nascimento" & Cia., tem "Elis Regina" e pasmem, acho que uma dose de "Ivan Lins" na conjunção harmônica da canção. Mas ela muda radicalmente a seguir e traz o elemento Rock, ainda que evocando o dito Rock Rural setentista. Ali passeiam "Sá; Rodrix & Guarabyra"; "O Terço" e "Beto Guedes", certamente. O final épico, com vocais fortes e "tecladeira" setentista a todo vapor, realmente lembra muito O Terço em seus melhores momentos da carreira.

Gravei com Rickenbacker novamente, e gosto da sonoridade ali inserida. E claro, por gravar com esse baixo, se achavam que parecia uma suíte Prog Rock setentista, Prog tornou-se, definitivamente, com o Chris Squire que habita minhas memórias afetivas setentistas, soltando seus cães impiedosamente sobre o track...
Letra muito boa, fazendo um jogo de espelho e máscaras, buscando questões subjetivas, e de certa forma doloridas das entranhas do ser humano, aqui não tenho ressalvas, mas só elogios.

"Misturo Tudo e Aplico" :
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https://www.youtube.com/watch?v=u_B0kqLIJCg

Talvez o único exemplar genuinamente Hard-Rock do disco, e acredito, que para muitos fãs de trabalhos anteriores meus, do Rodrigo e do Xando, tal canção representava a real expectativa que nutriam sobre o resultado de nosso trabalho. Para muitos, o disco inteiro deveria soar dessa forma, acredito. Bem tudo ali soa "gordo", como é de esperar-se de um Hard-Rock estilo setentista, Timbrão de teclados, notadamente o órgão Hammond evocando mestres Hard como Jon Lord; Ken Hensley e Vincent Crane, por exemplo; Riff forte de guitarra; baixo pesado etc etc.

O trompetista Robson Luis, nosso convidado especial na gravação do álbum e que criou o clima de mariache mexicano nessa faixa.

Gosto bastante de tudo, incluso a inusitada intervenção de uma mini "orquestra" de trompetes ao final, trazendo melodias "mariaches" e naquela época as "paletas" mexicanas ainda não haviam tornado-se moda no Brasil...
Não aprecio a letra. Outra citação à vida junkie, mas sob um viés vazio, de mentalidade oitentista baseada na absoluta falta de propósito, uma marca registrada daquela geração sem ideais. Se ao menos falasse em algo minimamente válido como o conceito do "Open Mind" sessentista, no viés da busca de um escape, ou mesmo a visão cinquentista e "Beatnick" de mergulho numa busca frenética e sem pontuação ortográfica, pelo sentido da vida fora do sistema, deixando-se levar pela vida na estrada, ainda vá lá, mas junkie sem sentido algum, realmente não dá... dê-me licença e procure dar um outro rumo à sua vida, senhor junkie sem eira nem beira...
Ataquei novamente com Fender Precision e busquei inspiração em bandas setentistas mais "duras" do Hard britânico, como "Budgie"; "Sir Lord Baltimore"; "Toad" etc.

"Estrada" : 
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=UpqyLBbHDjM


Gosto muito dessa canção que foi a primeira colaboração que o Rodrigo trouxe à banda, assim que chegou, no finzinho de 2004.
Muita gente considera-a Hard-Rock estilo britânico, mas eu penso nela como Southern Rock americano.  Tanto o riff inicial quanto as partes "B" e "C", remetem-me à tradição dessa escola estilística. Gosto muito dessa construção das três partes, e dos arranjos feitos coletiva e individualmente. A base do Rodrigo, com leslie, é uma maravilha aos meus ouvidos sessenta / setentistas. Gosto bastante das intervenções do Xando com slide, também. Na parte "C", onde também baseou-se a sessão de solos, eu soltei a mão e busquei o som de Fender Precision do baixo de Berry Oakley e Lamar Williams, dois baixistas que passaram pelo "Allman Brothers Band".

Melódicos e com muito senso de preenchimento rítmico, imprimiram tal conceito para esse estilo e eu adoro... muitas notas colcheias, preenchendo bem cada compasso, e para esse tipo de música, mais é mais...
A letra é sui generis, eu diria, pois apesar dessa sonoridade toda de Southern Rock, não buscou elementos rurais como é típico dessa escola, mas investiu na relação Homem-Mulher. Acho uma boa letra, bem construída, e com algumas colocações que até surpreendem para quem prestar atenção. Minha singela contribuição ao arranjo geral, foi a sugestão de inclusão de Backing vocals na parte final. Por três vezes, Rodrigo; eu, Luiz Domingues, e Xando, cantamos "Uh Uh Uh", usando técnica de falsete, e minha inspiração foi explícita no "Mad Dogs and the Englishmen", com "Joe Cocker; Leon Russell & Cia", naquela malandragem maravilhosa do Blues de New Orleans.

"O Galo Já Cantou" :
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=IcKU1fLgg_c


Claro que gosto da sonoridade Rock' n Roll crua e nua dessa música. Como fã inveterado dos "Rolling Stones", como não apreciar ? E gosto bastante da quebra insólita desse conceito dentro da música, quando numa parte "C" muito inesperada, o pop quase tropical invade-a, e dá um colorido muito grande.
As duas guitarras trabalham de forma muito sincronizada o tempo todo; aprecio muito o timbre forte do baixo Fender Precision, e acho bacana a inserção de um exótico fade in, quando as pessoas pensam que a música acabou, mas ela volta. E muita gente deve ter assustado-se se demorou para dar stop no CD player após um longo espaço de silêncio, pois a música retorna, "do nada". E assim encerro minhas impressões sobre as faixas.

Acrescento que a atuação do baterista Alex Soares é comedida no disco e isso foi um dos motivos pelos quais gerou-se uma discórdia e ele acabou deixando a banda e tendo sido creditado como "convidado" e não membro oficial (embora a principal razão, e eu já falei mas vou frisar, foi que quando ele saiu, o material gráfico estava prestes a ficar pronto e a solução foi suprimi-lo, após sua saída). 


Uma menção não citada em lugar algum, mas é importante deixá-la aqui, um amigo meu e do Rodrigo, desde o tempo em que estávamos na Patrulha do Espaço, chamado curiosamente também Rodrigo Oliveira (o Rodrigo Hid chama-se Rodrigo de Oliveira Hid oficialmente no seu RG), deu-nos um apoio e tanto, trazendo seu PC ao estúdio Overdrive e acoplando seu HD onde tinha "plugins" de um programa sensacional de timbres de teclados vintage, e assim colaborou bastante para que os timbres dos teclados desse disco, soassem ao máximo com sonoridades sessenta /setentistas.
Thiago Skloaude foi o responsável pelo Lay-Out da capa e o próprio Rodrigo Hid cuidou das lâminas internas do encarte.
Fábio Mulan deu o suporte na diagramação do texto do encarte
As pontuais colaborações de músicos convidados, enriqueceram o trabalho, não tenho dúvida. Gratidão a Caio Inácio e Robson Luis.
Em suma, valendo-me de tudo que já disse anteriormente, um trabalho excelente, e do qual orgulho-me bastante como peça artística, e também como produto comercial de alto padrão no mercado da música.

Ouça o álbum na íntegra : 
Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=IcKU1fLgg_c 


Continua...

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