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domingo, 17 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 11 - Filme de Terror - Por Luiz Domingues




Com um incentivo desse porte, ou seja, a oportunidade de sair numa reportagem de várias páginas na maior revista semanal do país, claro que não poderíamos perder a chance. Dessa forma, o Xando teve a ideia ótima de contactar nosso amigo Junior Muelas, o baterista da "Estação da Luz", banda sensacional de São José do Rio Preto, e propôs-lhe dois shows compartilhados no interior de São Paulo, onde Muelas tinha contatos, e poderia auxiliar-nos nessa tarefa de arrumar condições mínimas para tocarmos.

       Foto promocional do espetacular grupo, "Estação da Luz"
 

A contrapartida seria a oportunidade para "A Estação da Luz" tocar conosco e mesmo sendo um dos shows em sua própria cidade, portanto onde estavam habituados a apresentar-se, seria uma oportunidade bacana de fazer um show com uma banda da capital e mesmo estando no mesmo patamar de grandeza, nós tínhamos muito mais mídia agregada, e isso seria legal para eles. E no caso de um segundo show em outra cidade interiorana, a vantagem era óbvia para as duas bandas.

Fora isso, a grande motivação mesmo seria a presença do jornalista e seu repórter fotográfico juntos conosco e que mesmo indiretamente olharia para a banda dele, também, e claro que isso animou Muelas, pensando na oportunidade que também respingaria em sua banda. Sobre a casa onde tentar-se-ia fechar um show, além do Muelas ter contato com seus mandatários e costumeiramente ali apresentar-se com sua banda, haviam possibilidades ótimas para nossas duas bandas.

Em primeiro lugar, tratava-se de uma casa de espetáculos atípica no interior de São Paulo, por abrir suas portas com frequência para artistas autorais off-mainstream, caso raro em se tratando da mentalidade generalizada da parte de proprietários de casas noturnas. O segundo ponto, era que tinha uma ótima estrutura de equipamento de som e luz, portanto, dava para fazer um espetáculo de qualidade em seu palco. E uma terceira vantagem, era que tal casa tinha uma filial em outra importante cidade interiorana, no caso, Ribeirão Preto. Portanto, a matriz de São José do Rio Preto geralmente proporcionava a possibilidade de agendar-se automaticamente um segundo show na filial de Ribeirão Preto.

Tal casa chamava -se "Vila Dionísio" e além de abrir as portas para artistas do underground, esse estabelecimento também promovia shows de artistas de médio porte, e até alguns que já tinham tido espaço significativo no mundo mainstream e naqueles dias já não gozavam dessa prerrogativa. Bem, para agendar os shows do Pedra, não seria uma negociação fácil pela obviedade de não sermos artistas militando no mainstream, portanto, convencer os dirigentes da casa usando a fortuita argumentação de que éramos uma "boa banda" e com discos "legais" e elogiados em órgãos especializados, não era garantia de nada. E nessa altura, nem pensávamos em pleitear um cachet digno, mas estávamos convencidos de que se conseguíssemos verba para cobrir as despesas operacionais, já estava bom demais.

Foto a esmo, não é de nossa apresentação, apenas ilustrando como era o espaço próximo ao palco

Muelas tinha consciência plena de todas as dificuldades inerentes nessa negociação e usando de seu poder de influência com os proprietários usou o argumento mais premente como cartada definitiva e logrou êxito. Ou seja, o fato de que um jornalista da Revista Veja estaria cobrindo os shows com total foco visando uma reportagem e que fatalmente as duas casas seriam citadas e retratadas em fotos, nas páginas da maior revista brasileira. Diante de tal perspectiva alvissareira, os dirigentes convenceram-se de que valia a pena contratar-nos e assim, graças aos esforços do Xando e de Junior Muelas, que foi incisivo como agente de campo e hábil negociador.

Habemus turnê... a fumaça branca espalhou-se no céu da Vila Mariana... faríamos dois shows no interior de São Paulo, nas cidades de São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, compartilhando-os com a ótima banda, "Estação da Luz". Ligamos para o jornalista Sérgio Martins, e demos-lhe a boa nova que tínhamos os shows marcados e portanto, estávamos prontos para o mote de sua reportagem. Ele já havia viajado com uma mega estrela mainstream numa etapa de sua tour cheia de mordomias pantagruélicas; havia concluído matéria com um artista mediano e popular, no caso, o grupo de pagode "Inimigos do HP", viajando em ônibus confortável e agora teria que encarar a dureza de uma banda com infraestrutura muito aquém das que experimentara, ralando numa van com o sol a pino do verão interiorano paulista, e uma banda com equipe modestíssima de apoio etc etc...
Bem, era exatamente o que ele queria, já que a reportagem tinha como pauta expor as diferentes realidades do show business brasileiro.


O acerto que Junior Muelas conseguiu com a direção das duas casas onde apresentar-nos-íamos, representava um pouco mais do que toda a nossa despesa logística para viajar à essas duas cidades interioranas. Portanto, sob outras circunstâncias, seria bastante discutível aceitar tais condições, apenas baseado na efêmera perspectiva de angariar-se novos fãs e ter um eventual apoio de mídia local. Pagando um aluguel caro para uma van servir-nos em uma micro tour de cerca de mil Km de rodagem, só mesmo pelo investimento concreto de carreira que era estar numa mega reportagem de muitas páginas de uma famosa revista semanal, e com forte chance de ser a reportagem principal da edição, com direito a capa.


Preparamo-nos ensaiando um bom set list, fazendo um mix de nossos dois álbuns já lançados e se havia uma coisa que não preocupava-nos, era a parte musical. Contratamos a van e mais uma vez o Rodrigo indicou-nos aquele senhor que levara-nos para Piracicaba no ano interior. Um motorista bastante competente, seguro na direção e gente boa, e conforme já contei, quando empolgava-se, gostava de contar "causos" que são impublicáveis aqui, mas que invariavelmente tornava o percurso, um show de stand up comedy, como bônus do seu serviço de transporte. Sérgio Martins chegou na hora combinada, acompanhado de seu repórter fotográfico, um rapaz chamado Otávio Dias, que estava junto com ele nessa pauta, e viajara com os outros artistas que mencionei antes, também. Seguimos viagem com muita tranquilidade, assistindo vídeos que o Xando levou de sua casa, mas muito mais focados em conversar. Paramos para um "pitstop" na altura de Rio Claro, e a primeira ocorrência engraçada da viagem aconteceu sob uma árvore. Estávamos do lado de fora do posto, quando esperávamos companheiros que ainda estavam pagando a conta de seu lanche. Lembro-me que eu estava com Xando e o roadie Edgard Veçoso (que substituíra Daniel "Kid" que não pode viajar conosco dessa vez), além do fotógrafo Otávio, da revista Veja, quando pássaros que estavam na árvore resolveram soltar seus dejetos escatológicos sobre nós, de uma única e súbita vez, como se fosse uma "molecagem" proposital. Fomos ágeis e ninguém sujou-se, mas a cena foi das mais hilárias, posso garantir. Nem Mel Brooks parodiando Alfred Hitchcock, poderia conceber uma gag tão engraçada.

Seguimos em frente, e quando a tarde começava a cair, avistamos a bela São José do Rio Preto à nossa frente, com seu porte de cidade grande mediante uma pequena selva de pedra urbana e bem proeminente. Encontramo-nos com o pessoal da "Estação da Luz" num ponto previamente combinado, e estes conduziram-nos como guia até a porta do estabelecimento. Que prazer ver Junior Muelas, um amigo leal nos ideais como poucos que conheci nesses meus tantos anos de carreira. Muelas é um ferrenho Rocker aquariano e vive o sonho, não tenho dúvida disso.

Com ele, a vocalista da banda e sua esposa, Renata Ortunho, que na época ainda era sua namorada. Simpática ao extremo, foi / é a companheira ideal que os Deuses do Rock designaram para Junior Muelas. Alberto Sabella, o tecladista da banda e um multi instrumentista brilhante, na verdade, estava junto também.
Descarregamos a van e rapidamente fizemos o procedimento para o soundcheck. Com apoio do equipamento da Estação da Luz e sua camaradagem ímpar, foi tudo muito prazeroso nesse processo, atenuando o cansaço pela viagem e o forte calor que fazia, marca registrada de toda aquela região do estado, e ainda mais sendo janeiro... estava um mormaço incrível.

Estabelecimento bem montado, parecia ser a típica casa noturna que devia atrair a juventude burguesa da cidade e de localidades vizinhas. Mas Muelas garantiu-nos que apesar disso ser um fato, os rockers locais a frequentavam também, e que pelo fato dos proprietários serem generosos com a cena Rock autoral, havia uma tradição de shows de Rock na casa, apesar do aspecto burguês.
De fato, informaram-nos que os gaúchos do "Cachorro Grande" haviam tocado ali uma semana antes com casa lotada, e apreciando o som deles, bem influenciado pelos sixties.

Enfim, tudo apontava para uma noitada prazerosa, com um som legal e com a possibilidade do jornalista Sérgio Martins assistir uma boa performance nossa, e também da Estação da Luz, que era / é uma banda que eu gosto muito e sei que luta com enorme dificuldade para manter-se ativa em meio à uma cena hostil. Bem, sobre esse panorama, nenhuma novidade para a minha existência, que na época já passava dos 48 anos de idade, caminhando para os 49...
Na viagem, Sérgio agiu como um amigo, conversando e rindo sobre vários assuntos que surgiram dentro da van, mas agora ele nitidamente estava trabalhando, pois observava tudo e eu via-o fazendo anotações. O fotógrafo Otávio Dias flagrou-me observando-o e disse-me : -"o Sérgio observa e anota tudo. Não  engane-se que no percurso dentro da van, ele prestou atenção em todos os detalhes, ele não para nunca de trabalhar, mesmo quando parece relaxado e distraído".

Achei incrível, pois apesar de não ter formado-me, eu sempre admirei o jornalismo e o destino fez-me interagir com inúmeros profissionais dessa área, desde os remotos tempos da formação do Língua de Trapo, portanto, apreciei muito ver a metodologia de um jornalista da estatura profissional de um Sérgio Martins, em ação.
Brincamos muito durante o percurso, sobre ele ser "o inimigo", ou seja, uma menção aos jornalistas que costumavam cobrir turnês de bandas de Rock nos anos sessenta e setenta, e que o cineasta Cameron Crowe tão bem retratou no seu filme autobiográfico, "Almost Famous" ("Quase Famosos"), contando sua trajetória antes do cinema, como crítico de Rock da Revista Rolling Stone.

O próprio Sérgio divertia-se com as piadas e brincava também, mas não deixava de ser lúdico estarmos viajando com um jornalista de uma revista Top do mercado editorial brasileiro. E mesmo sendo a pauta focada no mote das comparações entre três artistas de condições muito diferentes do show business, e não a nossa obra e performance em si, claro que dava um "frio na barriga" saber que dois jornalistas estavam ali cobrindo e prestando atenção em tudo.
Feito o soundcheck, jantamos e fomos para o hotel para descansar e arrumarmo-nos. O casal de fãs fiéis do Pedra, Fausto & Alessandra, viajou para ver-nos nos dois dias e hospedou-se no mesmo hotel que nós. Era impressionante a fidelidade que demonstravam, estando presentes em quase todos os shows que fizemos, desde 2006, e até em cidades distantes de São Paulo, não furtavam-se à oportunidade de estar sempre presentes e uniformizados, ostentando camisetas com o logotipo da banda.

  Sergio Kaffa, já envelhecido, como o vi em Rio Preto, em 2009 

Fomos para a casa noturna e logo que entramos, vimos que havia um ambiente reservado com uma outra banda tocando. Era uma atração paralela que tocava num lounge distante do palco principal. Reconheci no veterano baixista uma figura conhecida do Rock brasileiro setentista. Era Sergio Kaffa, que tivera passagem pelo Terço no final dos anos setenta. Muelas falou-me que conversava sempre com ele, mas que ele mostrava-se arredio com rockers que queriam que ele contasse histórias dos anos setenta. Bem, o negócio era respeitar o sentimento dele, que devia ter seus motivos para não gostar de lembrar do passado. A Estação da Luz começou seu show. Mesclando canções próprias do futuro CD que planejavam gravar com vários clássicos do Rock brasileiro setentista, aos meus ouvidos e percepção, foi agradável ao extremo. Sou suspeito para falar, conhecia Muelas e Sabella desde 2001, e agora com os ótimos Vagner Siqueira no baixo e Christiano Carvalho na guitarra, mais a voz doce de Renata Ortunho, o quinteto era a meu ver, simplesmente espetacular, pela excelência musical, acrescido das intenções retrô que particularmente eu adoro.

Onde seria possível, numa casa noturna em pleno 2009, ouvir uma banda tocando "Os Pingo da Chuva" ("Pingo" no singular, de propósito), dos Novos Baianos com uma excelência dessas ? Falei para o Muelas depois do show : -"não ouvia essa música sendo tocada ao vivo, desde os shows dos Novos Baianos que assisti nos anos setenta"...
Show impecável, aqueceram bem o público, apesar de não haver muitos rockers na casa, e a predominância ser de Maurícios & Patrícias no saguão...
Chegara a nossa vez e vendo o Sérgio Martins ajeitar-se num lugar de boa visibilidade para assistir-nos, e Otávio Dias com suas câmeras a postos, começamos o nosso show...


Iniciamos um gás muito forte, no afã de ganhar o público não acostumado à nossa música, e o Pedra tinha essa carência por não estar exposto na mídia, e quando enfrentava um plateia desconhecida, padecia de não conseguir uma sinergia adequada.
Não havia nada de errado com nossa música, muito pelo contrário, o padrão de excelência de nossas composições era ímpar, todavia, a mais simplória das razões fazia com que a empatia não fosse estabelecida imediatamente e isso era uma grande pena, e claro que frustrava-nos.

E tal razão, era que o Pedra não era uma banda que encaixava-se em casas noturnas orientadas para abrigar "baladas". Sua música cerebral e extremamente bem elaborada / arranjada, não dava para ser absorvida para plateias não interessadas em desejar receber tal carga artística. Portanto, o que aconteceu foi que o ânimo da plateia foi arrefecendo-se paulatinamente a cada música que tocávamos...

Independente disso, e sabedores que a despeito do frenesi que seria ótimo causarmos, mas não conseguimos, o que estava em jogo ali também era fazermos uma boa performance para os repórteres da da revista Veja que cobriam o nosso show. Não era o mote da reportagem, sabíamos, mas claro que uma performance boa deveria impressioná-los e muito provavelmente respingaria na matéria, e isso era muito importante para nós. Lembro-me do fotógrafo, Otávio Dias falando-me que logo que começou o show, havia achado que eu era o mais "pilhado" no início do espetáculo e naquele conceito bem do métier dos audiovisuais e cuja fotografia também respira, ele focou mais em minha performance, considerando que eu estava "explodindo".

Foi verdade, pois a necessidade de imprimir uma boa performance e tentar ganhar o público, não haveria de ser pelo repertório que eles ignoravam retumbantemente, mas pela explosão do mise-en-scène, e devo esclarecer que todos tocaram dando o seu máximo, não fui só eu, embora o Otávio tenho captado um entusiasmo maior da minha parte naquele instante. Enfim, tocamos o set list completo e apesar da sinergia não conquistada em São José do Rio Preto, a missão foi cumprida a meu ver, pois demos o nosso melhor.
Voltamos para o hotel extenuados na somatória viagem / show e pudemos descansar bastante, visto que a distância entre São José do Rio Preto e Ribeirão Preto é de 203 Km, aproximadamente, portanto, não carecia que viajássemos logo pela manhã e assim, tivemos uma boa noite de sono reparador...

O cartaz do show de Ribeirão Preto, no dia seguinte. Acervo e cortesia de Junior Muelas



                       Acervo e cortesia de Junior Muelas

Acordamos refeitos do cansaço, almoçamos ainda em São José do Rio Preto e partimos para Ribeirão Preto no início da tarde.
Por terem que voltar para Rio Preto e nós para São Paulo no pós-show, o pessoal do Estação da Luz viajou em carros particulares para Ribeirão Preto, em comboio conosco. Uma pena pois havia espaço na nossa van para o quinteto, e teria sido um enorme prazer viajarmos juntos, aproveitando um clima de "tour", tão raro para as nossas respectivas bandas, infelizmente.

Um fato assustador ocorreu-nos nesse percurso e foi algo absolutamente insólito...
Conversámos e ríamos, bastante despreocupados, pois a condução do "Seu" Valdir era ótima no volante da van, quando sentimos que ele freou bruscamente e um objeto indefinido num primeiro instante, de cor preta, veio voando em nossa direção e foi tão rápido que tornou-se impossível evitar o impacto no parabrisa da van.

Era um enorme urubu que morrera em pleno ar e veio mergulhando em nossa direção, mas de uma forma repentina, que o motorista não pode evitar a colisão com seu corpo desfalecido. O impacto foi tão grande que além de fazer um barulho enorme, naturalmente, avariou o parabrisa, mas por sorte, não estilhaçou-o e pudemos seguir viagem. Paramos logicamente para avaliar o estrago e de fato, o "seu" Valdir assegurou-se de que dava para prosseguir e jogando uma água básica para tirar o sangue da pobre ave, seguimos em frente... 

Segundo o "seu" Valdir e o Otávio Dias que viajavam na frente, a ave deve ter morrido de causas naturais, talvez um infarto, pois voava normalmente ao lado de outras aves, quando mergulhou subitamente numa queda mortal...
Mundo animal a parte, tínhamos um show de Rock para fazer em Ribeirão Preto...



Depois do susto com o urubu e talvez contrariando a superstição de que tal animal dá azar (na verdade, acredito que quem deu azar foi ele, que morreu daquele jeito triste ali na estrada), chegamos a Ribeirão Preto com aquele calor típico que é marca registrada da cidade o ano inteiro, mas em janeiro e com o verão no auge, realmente é um calor muito forte. Ficamos muito surpreendidos, positivamente falando, com as instalações da filial da casa Vila Dionísio de Ribeirão Preto, pois era nitidamente mais bem decorada, com tudo novo em folha e segundo apuramos, era essa mesma a razão, ou seja, tratava-se de uma unidade bem mais nova.

O palco era infinitamente superior, dando a impressão que houve planejamento ali e lembrou-me de certa forma, palcos de casas de médio porte que existiram em São Paulo nos anos oitenta e noventa, casos do Aeroanta e Woodstock, por exemplo. Havia também um bom camarim, e com direito à um caminho labiríntico que ligava à ótima cozinha industrial ali instalada.

O equipamento era de qualidade, e nitidamente superior ao da matriz de São José do Rio Preto. Com P.A. de porte, já animamo-nos por saber que haveria uma pressão sonora de show de Rock em teatro, portanto, claro que isso motivou-nos ainda mais. E havia um bom backline na casa, portanto, sobre o som estava tudo ok, e a luz era boa para o tamanho da casa, mas luz depende muito da criatividade do iluminador e não conhecendo o trabalho do Pedra, tampouco da Estação da Luz, dificilmente seria algo além de uma iluminação mecânica, sem mapeamento inteligente algum.
Feito o soundcheck com relativa rapidez, ficamos satisfeitos e o técnico era gente boa, e foi bastante objetivo, sem "milongas".

Deu tempo para aproveitarmos um bom descanso ali mesmo na casa, antes de voltarmos ao hotel para banho e arrumação.
Localizado num bairro nobre da cidade (Sumaré), numa rua paralela da Avenida 9 de julho, já esperava que a casa atendesse aos anseios da jovem burguesia local, portanto, não haveria de atrair rockers, e além do mais, as duas bandas não gozavam de grande projeção midiática, portanto, não tínhamos grande ilusão a tocarmos para uma casa lotada e formada por Rockers inveterados.
Ficamos num ótimo hotel moderno no centro da cidade, perto da Praça XV de novembro, e quando voltamos ao Vila Dionísio, começava a escurecer e chegavam as primeiras pessoas na casa.

Estação da Luz em ação, no Vila Dionísio de Ribeirão Preto. Acervo e cortesia de Junior Muelas

O Estação da Luz subiu ao palco e começou seu show. Assisti o início da apresentação deles da coxia e o som de palco, mesmo com os retardos típicos do áudio (refiro-me ao "delay"), parecia redondo. Fui assistir mais um pedaço da plateia, fazendo aquele caminho maluco pela cozinha, e na frente estava muito bonito, com uma pressão sonora legal, mas com altura equilibrada, com tudo soando bem mixado e numa altura agradável, sem agressões sonoras para o público. A luz, como prevíamos deixava a desejar, com um iluminador preguiçoso, praticamente operando a mesa como uma iluminação sequencial de árvore de natal e observando pontos de escuridão, porque, claro que não deu-se ao trabalho de afinar os spots conforme o mapa de palco das bandas, ou seja, o básico do básico sendo desrespeitado por preguiça, seguramente. Não entendo iluminador que não tenha a hombridade de pegar uma escada e pessoalmente ir afinar os spots, pois se está ali, supõe-se que desejou ser iluminador, portanto, se não afina os spots, como é possível ter prazer em fazer uma iluminação com luzes fora de foco ? Bem, é incompreensível, mas é o que mais acontece quando lida-se com iluminador que não conhece o trabalho do artista.

  Estação da Luz em ação. Acervo e cortesia de Junior Muelas

O show do Estação da Luz foi encantador a meu ver. Seu repertório de música própria era muito bom, com ótimas intenções; influências e lembrava muito a determinação que eu tive com o Sidharta e consegui implantar na Patrulha do Espaço, com um conceito total de compromisso com o retrô; com o vintage; através de resgate não só musical, mas amplo, em múltiplos ícones. Pois o Estação da Luz vivia / vive isso intensamente, e para a minha percepção, era algo muito estimulante e emocionante.

                Estação da Luz. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Voltei para o camarim quando notei que o show do Estação caminhava para o seu final, e lá aguardei-os no seu pós show, onde  cumprimentei-os efusivamente sobre a sua ótima performance.
Chegou a nossa vez e digo que fizemos um show melhor que o de São José do Rio Preto. Talvez pela maior qualidade de equipamento, nossa performance foi muito mais robusta pela minha lembrança pessoal.

Pedra em ação em Ribeirão Preto / SP. 25 de janeiro de 2009. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Não havia um bom público na casa, certamente bem menos que o show na outra cidade e claro, tratava-se de um domingo, portanto um dia mais difícil para atrair público. Mas ao contrário da juventude burguesa e baladeira que viu-nos na noite anterior (e que foi dispersando pelo fato de não encontrar motivação na nossa música desconhecida aos seus ouvidos, para gerar a euforia que sempre esperam encontrar em baladas de sábado a noite...), o público de Ribeirão era jovem, mas não adolescente, dessa maneira, educadamente assistiu-nos sentados em mesinhas e aplaudindo com educação a cada música encerrada.

              Pedra em ação. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Um momento que poderia ter tornado-se um baixo astral para nós, soou no entanto até leve pela abordagem ingênua de um rapaz, que mandou um garçom enviar-nos um recado manuscrito, onde perguntava : -"vocês não tocam nenhuma música do Creedence Clearwater Revival" ? Quando o bilhete chegou para nós, o Xando antecipou-se e respondeu-lhe ao microfone, que éramos uma banda autoral e que infelizmente não tocaríamos Creedence, mas que esperava que ele, o rapaz, estivesse apreciando nossas músicas...
O rapaz respondeu em voz alta de sua mesa que : -"tudo bem e que éramos uma banda muito boa"...

Pedra em Ribeirão Preto ' 2009. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Sendo assim, isso refletiu bem o tipo de público educado que estava ali presente e mesmo não tendo sintonia com o nosso trabalho, tinha ao menos paciência e educação para apreciar uma banda de qualidade tocando, o que no mínimo, foi muito respeitoso em se considerando toda a situação. Para efeito da matéria da Veja, isso era uma síntese da nossa situação em estarmos no underground da música e sendo Sérgio Martins um jornalista com sexto sentido muito aguçado, eu conjecturava em silêncio comigo mesmo, que não poderia ter sido melhor como fator de impressão perante seus olhos, pois muito mais desastroso para a nossa imagem seria um ambiente hostil.

  Pedra em Ribeirão Preto. Acervo e cortesia de Junior Muelas

Claro, sei perfeitamente que Sérgio relevaria um revés desse porte, mesmo porque ele tinha um bom conceito sobre a nossa banda e obra, portanto, teria o discernimento para separar as coisas como homem culto e profissional experiente que era. Todavia, comemorei internamente o fato da reação ter sido bastante educada da parte daquele público ali presente. Meu primo Emmanuel estava na cidade e avisou um outro primo nosso em comum, chamado Rogélio (com "L" mesmo, eu não errei), que tinha uma produtora de vídeo na cidade. Claro que show de Rock não era sua especialidade, pois costumava filmar festas, cerimônias de casamento e afins, mas gentilmente compareceu ao Vila Dionísio e filmou o nosso show, e o do Estação da Luz, também.

"Longe do Chão" no Vila Dionísio, de Ribeirão Preto em 25 de janeiro de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=04AEWu6mDpk


Algumas músicas desse nosso show foram postadas no You Tube, posteriormente, mas não todas. Torço para que o Xando lance as demais e o show inteiro, posteriormente, na sua versão na íntegra desse show. E assim foi nosso show no Vila Dionísio de Ribeirão Preto, em 25 de janeiro de 2009, com cerca de 80 pessoas na casa.
Um casal vindo de uma cidade vizinha chamada "Sertãozinho", veio para ver-nos e abordou-nos no camarim no pós-show. Eram fãs da Patrulha do Espaço e sabendo que eu e Rodrigo éramos egressos daquela banda, interessaram-se em conhecer o Pedra tornaram-se fãs, levando os dois discos para sua casa. Fomos para o hotel dormir com o sentimento do dever cumprido. Foram shows bons, tecnicamente falando, e nosso principal objetivo nessa empreitada interiorana fora alcançado, sem dúvida, pois viajáramos com um jornalista top de uma revista de primeira grandeza, acompanhado de seu repórter fotográfico que clicara-nos não só nos shows em si, mas documentou todos os bastidores da viagem; soundcheck, check in e check out de hotéis, nossas refeições etc etc. 


"Reflexo Inverso" no Vila Dionísio de Ribeirão Preto em 25 de janeiro de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=FwpFA06Zxko

Em suma, Sérgio tinha em suas anotações e respaldado por amplo material fotográfico, uma reportagem em mãos em seu estado bruto, e assim que chegasse à redação de sua revista era só sentar-se em frente ao seu monitor de computador e digitá-la. E por falar em Martins, ali no saguão do hotel despedimo-nos, pois ele não voltaria conosco, visto que tinha passagem de avião comprada e de Ribeirão Preto foi direto para o Rio de Janeiro onde na segunda-feira entrevistaria um figurão do mundo do samba. Acordamos na segunda-feira e despedimo-nos dos amigos do Estação da Luz que seguiriam para São José do Rio Preto. Sua boa vontade em viabilizar essa micro tour fora notória, principalmente da parte do amigo Junior Muelas, um daqueles "amigos; irmãos de fé e camarada" que prazerosamente fiz durante a minha trajetória musical inteira, eu diria. Muelas vibra o Rock como deve-se, é um Rocker de "R" maísculo.

A viagem de volta para São Paulo foi tranquila, sem urubus na nossa vida e mais silenciosa pelo fato de estarmos cansados pela somatória do final de semana todo de trabalho e rodagem. Chegando a São Paulo, levamos o fotógrafo Otávio Dias até sua residência no Brooklin, na zona sul da cidade. O tempo foi passando e o Sérgio não sinalizava que a matéria na revista sairia e claro que não o pressionaríamos para saber dessa informação. Mas o tempo foi passando e nada aconteceu. Não sou jornalista, mas como o leitor já sabe desde os primeiros capítulos da minha autobiografia musical, eu sempre tive relação estreita com essa profissão e seus bastidores, portanto, claro que deduzi que a revista em questão, apesar de ter linha editorial ampla, tinha na política e na economia, seus principais pilares, portanto, matérias grandes sobre cultura em geral, só aconteciam ali quando não havia nada bombástico em Brasília, ou no mundo para falar-se de política, sobretudo.

Indo além, com o tempo passando a matéria, mesmo antes de ser publicada vai envelhecendo e chega num ponto que nem faz mais sentido, jornalisticamente falando, e foi o que aconteceu. Uma grande pena, pois esmeramo-nos para realizar esses shows e numa banda com os graves problemas gerenciais que tínhamos, era um raridade termos dois shows em cidades diferentes, colados, dando sensação sequencial de "turnê". Dessa forma, nosso esforço foi em vão nesse sentido da matéria não ter sido publicada, mas valeu por tudo e claro que nem eu, e nenhum dos companheiros lamentou por nada. E Sérgio Martins sinalizaria com uma oportunidade tão boa quanto, ao final de 2009, e dessa vez aconteceria, mas no momento oportuno da cronologia eu detalharei, certamente. Vida que seguia, teríamos um novo compromisso em março de 2009, mas matérias e resenhas falando sobre o álbum Pedra II, estavam saindo...


Pedra em Ribeirão Preto em janeiro de 2009. Acervo de Junior Muelas

Passada a tentativa de ter-se uma abertura sem precedentes numa revista de circulação nacional do mainstream, e já sabendo que não lograria êxito por fatores alheios à nossa vontade, e também da parte do jornalista Sérgio Martins, estávamos novamente encarando a nossa realidade underground e permeada pelos seus obstáculos inerentes. Os meses de fevereiro e março foram escassos em oportunidades, só havendo um show, e logo mais falo dele.
O que animava-nos um pouquinho eram as matérias e resenhas exaltando o CD Pedra II, mas naquela altura, com a internet solidificada e a maioria das pessoas gastando seu tempo nas Redes Sociais, notadamente o Orkut (este já desgastado em 2009, é bem verdade, mas ainda com relativa força), publicações impressas tradicionais estavam perdendo espaço, e sendo assim, uma boa resenha era comemorada por nós, logicamente, mas não repercutia como em épocas passadas, infelizmente. Eis alguns exemplos :



 
1) Roadie Crew n° 120 

Logo no início de 2009, numa enquete promovida pelos colunistas da revista Roadie Crew, o jornalista Antonio Carlos Monteiro citou-nos duas vezes entre os melhores de 2008 em sua opinião, nas categorias "melhor álbum" e "melhor capa".


2) Roadie Crew nº 123

"O som é calcado no Rock dos anos 60 e 70, com o maravilhoso órgão Hammond, à frente - se bem que a turma não se constrange em colocar em vários momentos aquele groove gentilmente cedido por gêneros como Soul Music e Funk. Já as letras são em português e vez por outra enveredam por temas que tem tudo a ver com a psicodelia dos mesmos anos 60 e 70. E aí que vem a questão : como fazer tudo isso funcionar sem soar datado, sem gosto de comida requentada ou cheiro de naftalina ? Pois é isso o que faz o segundo disco do quarteto paulistano ser especial ser especial. Rodrigo Hid (guitarra, vocal, violão e teclados), Xando Zupo (guitarra e vocal), Luiz Domingues (baixo e vocal) e Ivan Scartezini (bateria) são veteranos na cena rockeira brasileira, e já aprenderam, na base da abnegação, do sacrifício e de uma autêntica paixão pela música, como operar esse tipo de, digamos assim, pequeno milagre.
Então, "II" consegue evocar aqueles tempos que, para muitos, foram determinantes e inesquecíveis na história do Rock deixando claro que se trata de uma produção do Terceiro Milênio.
Ousado, o Pedra se permitiu até mesmo abrir o disco com "Filme de Terror", tema do "maldito" Sérgio Sampaio, compositor à frente do seu tempo e que jamais conseguiu o seu devido reconhecimento.
Como se o repertório impecável, a execução irretocável, e até uma produção eficientes não bastassem, a banda ainda se deu ao luxo de ser diferente na "embalagem", que vem em formato inovador e traz uma história em quadrinhos assinada pelo ilustrador Diogo Oliveira.

Nota 9,0"

Antonio Carlos Monteiro 


Bem, já falei diversas vezes ao longo da minha autobiografia que tenho muita consideração, respeito e admiração enorme pela categoria do jornalista Antonio Carlos Monteiro. Ele, nessa altura, 2009, já acumulava muitas resenhas de discos meus em bandas diferentes, desde 1985, sempre enxergando com olhar clínico cada obra, e com isenção ética exemplar, visto que nossa amizade pessoal desde os anos 1980, nunca obscureceu sua opinião sobre qualquer resenha, entrevista ou matéria que escreveu sobre trabalhos que realizei, e não foi diferente nessa resenha do CD Pedra II. Outro ponto que já destaquei quando citei-o em capítulos anteriores, é o fato de que por trabalhar em publicações mais fechadas no nicho do Heavy-Metal (Revista "Metal"; Revista "Rock Brigade" e Revista "Roadie Crew"), Tony Monteiro tinha por hábito situar ao seu leitor padrão, duas questões que são verdadeiras obsessões para os adeptos do Heavy-Metal : cantar ou não em português; e aparentar ser "datado"...
Não era culpa dele, naturalmente, mas compreendo a sua necessidade de sempre tocar nesses dois pontos que são nevrálgicos para os amantes do Heavy-Metal, e só lastimo que isso fizesse-o perder espaço na lauda a que tinha direito, para poder eventualmente falar de outros aspectos do nosso disco, e sei que ele gostaria de assim proceder. Fora isso, só tenho a agradecer por uma resenha tão bem escrita e enaltecendo a nossa obra.



3) Revista Guitar Player nº 155

"Se o trato visual de um disco fosse suficiente, Pedra II estaria no topo das paradas. A banda caprichou e colocou o CD dentro de uma história em quadrinhos. mas, como o que conta é a qualidade das músicas, vamos em frente. No caso do Pedra, a banda já havia mostrado a sua competência no trabalho anterior.
A banda é a mesma : Rodrigo Hid (guitarra , voz e teclados), Xando Zupo (Guitarra , voz), Luiz Domingues (baixo e voz) e Ivan Scartezini (bateria). Os principais compositores das 12 faixas, são os guitarristas Zupo e Hid, mas há faixas de outros músicos, como "Filme de Terror", de Sérgio Sampaio- figura lendária da música brasileira. Tudo bem que há o "II" no título do disco, mas Pedra II vai além de apenas uma continuação.Está repleto de boas ideias e vitalidade. A sonoridade do repertório está mergulhada na sonoridade dos anos 1970. O Rock do Pedra mantém seu peso, mas ganha o groove de Soul, a ginga do baião, pitadas de Folk e a sombra do Deep Purple. Se "Rock'n Não" tem um solo cuspindo faísca, a balada "Longe do Chão" se desenrola no belo riff amarrado por um solo denso. A dobradinha de solos em "To Indo a Mil", também ficou legal. No miolo do disco está a instrumental "Megalópole", que emoldura alguns dos predicados técnicos da banda. O suingue da levada nos encara a encarar a saraivada de solos. O clima é meio Tommy Bolin. Depois, Zupo e Hid se alinham em uma elegante sequência de guitarras harmonizadas. Uma música que chama atenção".

H.I.S.


Uma excelente resenha escrita pelo colunista cujas iniciais não consegui identificar (desconfio tratar-se de Henrique Inglêz de Souza). Exaltou a capa; a sonoridade; o potencial técnico e a qualidade das músicas, além de enaltecer a ideia de ter uma releitura de Sérgio Sampaio. Revista especializada em guitarra, claro que prestou mais atenção nesse quesito e seus protagonistas em nossa banda, caso de Zupo e Hid. Mas ao contrário do que pensar-se-ia, não exagerou em analisar com minúcias tal quesito, e sua resenha foi construída num formato tradicional, sem ater-se apenas à performance dos guitarrista e seus equipamentos e instrumentos usados etc etc.



4) Revista Rock Brigade nº 259

"A alquimia ficou popular por misturar elementos da química, física, astrologia, arte, metalurgia, medicina, misticismo e religião. E a música, seja como límpida expressão artística ou como força particular interior, continua cada vez mais como uma espécie de elixir da vida. Seja na tradição da Yoga ou da própria alquimia, a busca do elixir da imortalidade provém de práticas de purificação espiritual- que pode ocorrer através da música. Num mar de energias e emoções, a música da banda Pedra transmuta metais inferiores em ouro; criando uma panaceia musical universal.
Se depender dessa Pedra II, todos os males musicais que atormentam o mundo atual serão erradicados de forma sublime e prazerosa. Os capitães dessa missão são Rodrigo Hid (violão, guitarra, teclados e voz), Xando Zupo (guitarra e voz), Luiz Domingues  (baixo e voz) e Ivan Scartezini (bateria e voz).
Em seu segundo registro, o Pedra traz um som único, esbanjando frescor pelos poros, como na instrumental, "Megalópole", ou no clima único de "Longe do Chão", uma faixa com mais de sete minutos de pura inspiração e com uma linha de baixo como há muito não se vê por aí...
"Projeções" tem um leve aroma de Rock Rural, só que com um viajante som de cítara para embalar; enquanto que "Jefferson Messias" nos remete aos deliciosos e incomparáveis anos sessenta.
Se recusando a ficar amarrado nas influências do passado, o Pedra avista o horizonte com "Letras Miúdas", se recusando a acreditar em algo que não venha do coração. Outra agradável surpresa é a versão da banda para a clássica "Filme de Terror", peça chave da carreira de um dos nossos maiores compositores, Sérgio Sampaio. Falando em música brasileira, "Meu Mundo é Seu" é um exemplo vigoroso da qualidade da música que continua sendo cunhada aqui na Terra do Sol.
Acompanhando as vibrações sonoras, o Pedra alarga ainda mais as possibilidades interativas desse novo ainda século, fornecendo também uma história em quadrinhos que acompanha o CD, cortesia do artista multimídia, Diogo Oliveira. Para esse grupo paulistano, a busca pela Pedra Universal, ou pelo Santo Graal chegou ao fim.
Não é exagero dizer que Pedra II é a Opus Magna da banda; ou seja, sua grande e mais definitiva obra".

B.A.


Bem, aqui eu sei quem é o resenhista e "B.A." designa Bento Araújo, um jornalista Top que eu admiro muito e tenho o prazer em ter amizade pessoal. Editor da espetacular revista Poeira Zine, nessa época assumira o cargo de editor da revista Rock Brigade, que passava por profunda reformulação em sua redação. Alheio aos maneirismos do mundo do Heavy-Metal, que sempre caracterizaram a linha de conduta dessa publicação, Bento não ateve-se aos paradigmas típicos de jornalistas desse nicho, tampouco de seus leitores padrão, portanto, não tocou em tópicos "tabu" como o fato de "cantarmos em português", ou sermos ou não "datados"...
Sendo persona fora desse nicho, tais questões nem passavam pela sua cabeça e assim, sua resenha foi escrita como se estivesse publicando em outro tipo de revista, quiçá na sua própria, o Poeira Zine. Outro fato a ser destacado, que esta resenha é uma das mais poéticas que já li. Inspirado ao extremo, fez várias citações subliminares a trechos de letras de nosso disco, evocando aspectos místicos, sendo assim, sua linha mestra de raciocínio, falando em alquimia / busca da elevação via Santo Graal, justificou-se. Indo além, creio que a inspiração nesses aspectos, digamos, "iniciáticos", ficou muito bonita a meu ver, embora faça a ressalva que o Pedra nunca desfraldou tal bandeira, e se havia misticismo embutido na nossa obra, era sutil e perpetrado pelas letras do Rodrigo nesse sentido, poucas aliás, pois o Xando não gostava dessa linha de criação. Mas em suma, gostei muito que o jornalista Bento Araújo tenha tido essa visão do Pedra II e convenhamos, apesar de alguns aspectos destoantes, há sim um misticismo implícito, não só pela canção "Projeções", mas também pela capa em alguns signos desenhados pelo Diogo Oliveira, principalmente a mandala.
Sobre as considerações mais musicais, Bento foi preciso e isso não surpreendeu-me, pois sabia de antemão e de muito tempo, de sua avassaladora cultura sobre o Rock das décadas de sessenta e setenta e por isso, era óbvio que sua antena aguçada "pescaria" diversas influências nas nossas músicas e arranjos, nesse aspecto.
Por fim, quase um voto de esperança para que o Pedra atingisse seus objetivos, mas estendendo à uma súplica para que dias melhores viessem para a música (e se em 2008 / 2009 estava difícil de aguentar o panorama mainstream, o que dizer de 2016, quando escrevo este trecho e vemos com estupefação uma queda vertiginosa em relação ao panorama da época que citei ?).
É um teste de resiliência e tanto para quem cresceu absorvendo a música em geral e o Rock em específico, sob patamares estratosféricos...
Não porque falou bem, pois o leitor atento que leu toda a minha autobiografia, sabe muito bem que eu aceito crítica negativa, desde que com embasamento e senso construtivo, mas esta resenha foi uma das melhores que já tive sobre um trabalho meu, e creio que para o Pedra, também em sua história.





5) Revista Guitar Player nº156 

Uma excelente entrevista específica com nosso guitarrista Xando Zupo, onde perguntas técnicas foram feitas, honrando as tradições de uma revista setorizada, obviamente, todavia, com bastante espaço para o artista falar de aspectos mais subjetivos da criação da banda e do novo álbum como foco, naturalmente.



O próximo compromisso seria em março de 2009, e numa casa de espetáculos rústica em Santo André, no ABC Paulista. Tratava-se do "Central Rock Bar", uma casa de orientação Rocker e que abria suas portas para bandas autorais, e só por esses dois fatores, já era para ser comemorado na cena Rocker, agonizante do underground daquele fim de primeira década de novo século / milênio, tamanha era a sensação de estrangulamento que todos, não só o Pedra, sentíamos em crescente, e muito preocupante progressão.

O lado chato era tratar-se de uma casa simples, sem uma infra estrutura razoável que fosse em termos de equipamento de som & luz e portanto, mesmo levando o backline da banda, a sonoridade para o público não seria das melhores com um P.A. insuficiente e de má qualidade. E a luz também era extremamente deficiente, portanto, desanimava saber que tocaríamos quase no "escuro".
Por outro lado, o Pedra tinha um histórico de dificuldades em agendar shows, e sempre que tal escassez de oportunidades começava a deteriorar o clima interno da banda, semeando discórdias, chegávamos à conclusão de que deveríamos deixar de lado as preocupações mais técnicas em só fazer shows em casas com condições melhores de infraestrutura, e abraçar a estratégia de bandas coirmãs nossas, como o "Tomada"; "Carro Bomba"; "Baranga", e "Cracker Blues", para ficar nas mais próximas de nós pelas relações de amizade, que tinham a sua política de atuarem em qualquer lugar que abrissem-lhes as portas, sem preocupar-se com infra estrutura, adaptando-se às dificuldades. É bem verdade que essas bandas que citei tinham espectro musical transitando entre o Blues-Rock; Rock tradicional; e o Heavy-Metal, portanto, suas necessidades para soar bem eram muito mais simples dois que as nossas, devido à nossa característica de fazer uma música com muito maior número de sutilezas nas composições e arranjos, e sobretudo pela pretensão de ter nas letras um carro forte e daí, ser necessário ter qualidade sonora para o público ter inteligibilidade nesse aspecto de nosso trabalho.

Então, quando ficávamos acuados, sem perspectivas de atuar como achávamos que deveria ser, imbuíamo-nos de um senso coletivo de boa vontade para encarar shows em locais inadequados, caso do Central Rock Bar. E nesse caso, teríamos a companhia de duas bandas legais, uma já amiga de longa data e cuja minha ligação  pessoal remontava ao fato de ter sido professor de baixo de seu baixista, falo de Marcelo "Pepe" Bueno e seu "Tomada"; e a outra, com quem tocaríamos pela primeira vez, mas já conhecíamos, o "Massahara". O pessoal do Massahara era extremamente simpático, e seu trabalho era 100% calcado em som retrô dos anos setenta, lembrando muito o trabalho que eu Rodrigo fizéramos na Patrulha do Espaço e mais remotamente no Sidharta. Era mais pesado que o Estação da Luz, mas igualmente fechado na ideia de recriar não só musicalmente, mas no visual de seus componentes, a atmosfera do Rock setentista, portanto, para o meu gosto pessoal era um prazer tocar com eles. Claro que fiquei amigos dos seus componentes, aliás até hoje e certamente para sempre...

Houve um bom esforço de cooperação entre as bandas para a divulgação e apoio logístico no palco, com equipamento compartilhado. Outro fator chato do "Central" nessa época, era o fato de ser um salão de médio porte, mas o palco ser muito pequeno, portanto tal incômodo a mais limitava qualquer banda que ali apresentasse-se. Anos depois a casa passou por uma boa reforma, comprou som e luz de melhor qualidade é bem verdade, e eu chegaria a tocar ali com outra banda, no caso com Kim Kehl & Os Kurandeiros em 2012, mas isso é história contada no capítulo adequado dessa outra banda. No dia do show, o Massahara tocou primeiro e mostrou seu som bem calcado no Hard-Rock setentista de bandas como "Budgie"; "Pink Fairies" "Sir Lord Baltimore" e "Toad", para não estender demais essa lista, e tinham também influências de Rock Progressivo, soando como os Mutantes da fase "Tudo Foi Feito Pelo Sol", o que era bem bacana aos meus ouvidos sequiosos por Rock dessa estirpe.

Uma foto obtida na Internet, com a ambientação Rocker, porém rústica do "Central Rock Bar", de Santo André /SP, nos anos 2000
 
O Tomada ocupou o palco a seguir e fez seu show sempre alto astral, e com a qualidade que era-lhe peculiar. Contudo, tanto o Massahara quanto o Tomada estavam sendo bastante prejudicados pelo som ruim do P.A. da casa. Mesmo usando um backline de qualidade, o que ouvíamos era uma quase maçaroca sonora e isso era péssimo para as duas bandas e claro que seria para nós também.

Portanto, antes mesmo de subirmos, nosso ânimo já estava prejudicado, pois sabíamos de antemão, que mesmo que observássemos uma postura de estabelecer dinâmica exemplar, o som não seria dos melhores para o público. E não deu outra, nosso show foi marcado pela preocupação em coibir exageros sonoros na parte instrumental para dar a melhor condição possível às vozes. Acho que tal determinação fez com que tivéssemos tido uma inteligibilidade melhor que as demais bandas nesse quesito, pois  esforçamo-nos muito, mas mesmo assim, receio não ter sido o suficiente para coibir totalmente a maçaroca do pequeno e ruim P.A. da casa. A despeito disso, lembro-me que tivemos muitos momentos de intenso swing, em improvisos funkeados a la anos setenta, que fizemos e isso foi bem legal, arrancando aplausos de quem ligou-se nesse lampejo de criatividade extra. Demos o nosso máximo e acredito que pela performance musical bem inspirada, saímos razoavelmente felizes do palco, por isso, mas no cômputo geral, a conclusão que tivemos nos dias posteriores, era de que shows assim em locais sem melhor estrutura, não valiam a pena pois pouco agregavam em termos de público e mídia e pior, estressavam-nos pela frustração de brigar com as condições de palco inóspitas e pior ainda, não deixavam uma boa impressão ao público, principalmente pelo quesito "letras", praticamente impossíveis de serem entendidas num equipamento deficitário assim. Aconteceu no dia 7 de março de 2009, com cerca de 100 pessoas presentes. Não tenho fotos e vídeos desse show, infelizmente.



Passado esse show de março no Central Rock Bar, iniciamos nossa gangorra de contradições novamente. Fazendo o balanço das adversidades sofridas, era óbvio que o Pedra não tinha um perfil artístico que desse-lhe a versatilidade para tocar em casas noturnas não adequadas para um som com nossa complexidade instrumental e sobretudo pelo texto a ser conferido nas letras. E diante dessa conclusão, imbuímo-nos da convicção de que não valia a pena insistir em tocar em casas noturnas desse tipo, independente de ter qualidade na infra estrutura, caso das unidades do Vila Dionísio onde tocamos no interior, e portanto, tratando casos como o do Central Rock Bar, como agravante pelo equipamento inadequado. O que era comum nos três casos, era a falta de interesse do público em geral que frequenta tal tipo de estabelecimento em clima de "balada" e não para consumir música autoral complexa, sedento por arte, música e cultura, como quem vai prestigiar um artista no teatro.

Menção honrosa ao Central por ter ambientação mais rocker, é bem verdade e apesar dos pesares, o público presente gostou do nosso show, ao contrário das unidades do Vila Dionísio, onde a qualidade sonora e de iluminação eram melhores, mas frustramo-nos em ter sonoridade ruim e escuridão, portanto, condições inadequadas para darmos o nosso melhor ao público. Quando chegávamos nessa conclusão, vivíamos a convicção de que a solução era ter paciência e esperarmos para termos uma oportunidade melhor e assim, experimentávamos o outro lado dessa gangorra emocional angustiante que permeou a história do Pedra de 2007 em diante, praticamente.

E quando chegávamos nessa conclusão, restava-nos pensar em dar vazão à energia acumulada fazendo músicas novas. E mesmo tendo o CD Pedra II ainda quente no nosso imaginário e dos fãs do trabalho, começamos a trabalhar em novas ideias e uma nova safra de composições começou a nascer.

Por exemplo, Rodrigo mostrou-nos um riff que estava trabalhando sozinho em casa, e que agradou-nos em cheio. Parecia algo bem regional, com sabor nordestino, mas de nítida pegada Rocker, meio psicodélico, remetendo aos compositores "malditos" da psicodelia nordestina, ao estilo de artistas como "Zé Ramalho"; "Lula Cortes"; "Geraldo Azevedo"; "Alceu Valença"; "Belchior"; e "Ednardo", para citar alguns apenas. Gostamos muito do riff e realizando jams, o Xando sugeriu uma parte "B" mais Rock, urbana e nitidamente influenciada pelo "Led Zeppelin". Tal junção aparentemente dispare, casou-se de uma forma muito feliz a meu ver. Trabalhando na letra e melodia, o Rodrigo trouxe uma opção que tinha tudo para desagradar eu e Xando, por razões diferentes, baseado em nossas respectivas percepções pessoais e creio já ter explicado isso em capítulos anteriores. Resumindo para o leitor relembrar : no meu caso, tendo a não gostar de regionalismos criados por artistas que não tem aquela realidade como verdade em sua vida. Como paulistanos, ultra urbanos que éramos / somos, não aprovava a ideia de letras usando expressões regionais e maneirismos de outras regiões do país onde não nascemos ou vivemos, portanto, subtraindo assim a "verdade" expressa na poesia / melodia entoada.
Já o Xando, mostrava-se avesso a essa questão, não atendo-se ao meu ponto de vista, mas por simplesmente preferir temas existenciais em suas letras.

                     Ilustração de Cordel, por J. Borges

Enfim, dois opositores contumazes para bloquear a tendência do Rodrigo a recorrer a esse tipo de expediente rural que ele apreciava / aprecia, mas quando ele mostrou-nos a letra, ficamos impressionados pela sua qualidade. Sim, era praticamente uma abordagem de literatura de cordel, ultra nordestina e distante da nossa realidade / verdade cultural, mas de uma beleza incrível no jogo de palavras e imagens propostas na poesia. Irrecusável, portanto e assim nasceu "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim", que de tão forte que ficou em seu arranjo final, incorporou-se imediatamente ao repertório dos shows e tornou-se querida de nosso público, instantaneamente.


Quando o arranjo foi finalizado, ficamos com a impressão que tal canção era uma "colisão" entre o som do Zé Ramalho e do Led Zeppelin, com partes distintas, mas que completavam-se de uma forma até mágica.

Outra dessa safra, "Pra Não Voltar", mostrava-se um Hard Rock muito vigoroso, cheio de partes interessantes compostas pelo Xando e com forte influência setentista. O Xando logo demonstrou grande apreço pela letra que escreveu e particularmente não gosto, pela visão "Bukowskiana" que eu não aprecio. Segundo ele, tratava-se de uma história baseada em fatos reais, sobre um amigo tendo problemas em livrar-se das drogas, e a letra versa sobre o tema, falando da angústia, do vazio desse rapaz entregue ao vício, num quartinho fétido de um hotelzinho de quinta categoria etc etc. Não é o tipo de imagem / abordagem que eu gosto, pela obviedade de ser antagônica aos meus princípios, mas admito que a música ficou boa.
Uma terceira canção que surgiu nessa época, outra ideia boa do Xando, transformou-se num Hard Rock muito bem engendrado, com muita substância nos arranjos, transitando entre o "Led Zeppelin" e o "Deep Purple", com bastante intervenção de teclados etc etc.

Tal canção chegou a ser gravada posteriormente, mas só ganhou uma letra muito tempo depois e lamentavelmente não entrou no disco "Fuzuê" de 2015, tampouco foi lançada como single. Lastimo, pois é uma canção forte com ótimos arranjos individuais e coletivos e tem grandes momentos de inspiração que tenho certeza, provocariam comoção entre os fãs. Torço para que o Xando lance-a um dia. Mais uma que veio da criação do Xando, demorou um pouco para ganhar contornos finais e ficou quando pronta, bastante cerebral, eu diria, pois tem uma certa influência do Jazz-Rock e o Prog Rock setentistas, mas diversos elementos Hard, também. Num dado instante, o Xando teve uma ideia inusitada sobre a conclusão de sua letra e nós aprovamos tal resolução. Ele propôs que cantássemos numa língua estrangeira, para dar uma diferenciada, muito mais que querer com isso atingir mercado internacional. Numa primeira instância, cogitou a obviedade do idioma inglês, mas a seguir, teve uma ideia melhor a meu ver, ao sugerir o espanhol.
De minha parte, sempre quis ter uma música jogada no meio do repertório, cantada num idioma estrangeiro, como fator de diferenciação. Sei que isso não era uma ideia original, muitos artistas já haviam feito isso antes, caso dos Mutantes, por exemplo, que tinham peças em espanhol; inglês, e francês, no seu repertório clássico.

No meu caso, cheguei a sugerir no meu tempo de Patrulha do Espaço, que aproveitássemos algum tema de estilo progressivo para inserir uma letra em italiano, numa menção clara aos artistas de Rock progressivo italiano que gostávamos, e na ocasião, Marcello Schevano, Rolando Castello Junior e Rodrigo Hid apoiavam-me na ideia. Não surgiu a oportunidade, mas teria sido lindo... auguri...
Então o Xando propôs criar em espanhol, e evocar assim as suas raízes oriundas da sua família materna com descendência espanhola, e as lembranças de seu avô / abuelo e tias-avós espanholas, trazendo o sotaque ibérico que ecoava nos seus ouvidos etc. Apesar de ser italiano por parte paterna, o lado espanhol calava mais fundo na sua formação, e assim ele cravou escrever algo na língua de seu "abuelo".

Nasceu assim "Mira", uma música nervosa em linhas gerais e cantada aos gritos, num espanhol não muito convincente da parte do Xando, mas gramaticalmente todo checado, isso eu asseguro.
Uma quarta música nasceu dessa safra, mais uma ideia do Xando. Quando mostrou-nos seu esboço ao violão, pareceu-nos uma balada quase Blues, e eu gostei muito da sonoridade que remetia, ao menos na minha percepção pessoal, aos compositores ditos "malditos" da MPB setentista e que tinha aquele pé no Rock e aura hippie que eu aprecio muito.

Gostei muito da harmonia; melodia, e do primeiro esboço de letra, ainda que a temática mais uma vez não agradasse-me, pois era o enfoque novamente numa visão de mundo que eu não aprovo, com aquela quase subserviência à comodidade diante de uma vida mundana, hedonista etc, com a ressalva que neste caso, era quase um lamento da personagem em torno de suas más escolhas na vida.
Num primeiro esboço, a parte "B" que ele concebera, era idêntica à cadência harmônica de uma música do George Harrison.

Eu adverti-o disso e mediante audição procurando no Google, ele constatou e suprimiu-a, mas com pesar, pois já havia acostumado-se a essa resolução harmônica. Demorou dias para buscar uma outra inspiração, e chegou a dizer-nos que engavetaria a canção, mas nós o incentivamos a não desistir e ainda bem, ele não descartou-a, pois assim que achou uma solução alternativa para construir uma parte "B" inédita, nasceu "Só", uma canção forte, muito bonita e que o público do Pedra passou a acompanhar nos shows, doravante.
E finalmente, uma música do Rodrigo, denominada "Amém, Metrópolis", foi incorporada ao repertório do Pedra, embora a sua concepção inicial não tenha tido essa finalidade.

                               Lu Vitti, cantora e atriz

Explico : tal canção fora composta originalmente para fazer parte de um CD que Rodrigo e Xando tencionavam produzir, para a cantora / atriz, Luciane Vittaliano, ou Lu Vitti como ela é conhecida atualmente (2016). Nessa época, Lu era casada com Rodrigo e estava focada em lançar um disco seu. Mas tal produção acabou não logrando êxito por motivos alheios a esta narrativa em si e não cabe explicação, portanto. Mas no que concerne-me, tal música ficou disponível e o Rodrigo ofereceu-a para entrar em nosso repertório e ele e Xando adoravam-na, mesmo porque estavam envolvidos com sua gravação para o álbum da Lu, há semanas.

    João Bosco, um compositor cerebral e violonista sui generis

Tratava-se de um samba "nervoso", com certa característica jazzistica e que lembrava, se tocada só ao violão, o estilo do João Bosco, ou seja, uma espécie de Bossa Nova mais próxima do Rock, pela pegada tensa, do que ao samba tradicional. Quando mostrou-nos a música, gostamos e nosso arranjo tratou de imprimir uma pegada muito forte de influência rocker, e mesmo com o Rodrigo tendo feito sua base com violão, a cozinha com pegada lembrando a fúria dos Novos Baianos, e uma guitarra Rock imposta pelo Xando, tornou a música muito contundente.

Nossa aposta era na surpresa que causaria aos fãs, pois tratava-se explicitamente de um samba... mas tocado por Rockers e com convenções complexas, claro que chamava demais a atenção.
Outro fato, tal canção tinha / tem uma letra de forte cunho sociopolítico, criticando as falcatruas dos políticos e poderosos de plantão, portanto, nós a considerávamos muito forte. Mais músicas novas seriam compostas e arranjadas, e esse era o lado bom de ficarmos sem grandes perspectivas de shows, pois fechávamo-nos no Overdrive Studio, e criávamos novidades.




Uma proposta interessante surgiu para dividirmos um show com os nossos amigos do "Tomada", no Centro Cultural São Paulo.
Um dos poucos lugares que ainda abriam portas para artistas autorais do off-mainstream, o Centro Cultural São Paulo era garantia de fazer-se um espetáculo digno, com boa infra estrutura de som; luz & instalações, mas depunha contra o fato de ter uma burocracia massacrante. E outro fator desagradável e que já remontava há anos, o espaço apesar de ser maravilhoso arquitetonicamente falando, e estar super bem localizado, com uma estação de metrô acoplada às suas instalações, não costumava mais ter as multidões de outrora, mesmo com artistas consagrados do mainstream ali apresentando-se. Inexplicável fenômeno, mas a realidade era essa, e já fazia tempo que apresentava essa dinâmica desagradável.


Independente disso, o Pedra já havia tocado ali várias vezes, e mais uma oportunidade certamente que seria ótimo para nós, mesmo sendo um show compartilhado, portanto reduzindo nosso set list a 40, 45 minutos no máximo. Sem perspectivas de shows só para nós tão cedo em nossa cidade, claro que aceitamos dividir com o Tomada. Além do mais, os rapazes eram amigos de longa data e portanto, o clima de camaradagem seria total nos camarins e na cooperação nos esforços de divulgação e backline compartilhado mutuamente. No soundcheck desse show, tudo corria bem quando começamos a fazer os trabalhos preliminares de nosso set up. Tocaríamos por último, portanto realizávamos a praxe do soundcheck invertido para que o Tomada aprontasse-se, e seu set up ficasse arrumado para o seu show, inicialmente. Eu estava caminhando pelo palco, esperando a microfonação ser testada e meu equipamento pessoal já estava todo pronto. Foi quando de repente ouço um grito horripilante da parte do Xando, mas conhecendo-o, e sabendo que tem espírito brincalhão, por uma fração de segundos achei ser uma brincadeira de ocasião com o Renato Carneiro que estava interagindo com o técnico do teatro nesse momento.

Aliás, eu e todo mundo, pensamos inicialmente tratar-se de alguma brincadeira entre os dois, mas algumas frações de segundo depois, todos ligaram-se que havia algo grave ocorrendo, pois ele estava no chão, contorcendo-se e gritando, com um microfone Shure SM 58 grudado em sua mão !! Instaurou-se o pânico e a gritaria com várias vozes dando voz de comando ao mesmo tempo e a maioria clamando para que o técnico da casa desligasse o disjuntor geral que alimentava o palco inteiro de energia elétrica.

O Xando berrava agonizando e foi uma cena horrível. Já tinha visto músico levar choque no palco e eu mesmo já tinha experimentado isso algumas vezes, mas de leve, apenas tomando um susto com a carga elétrica passando pelo lábio em eventuais encostadas na cápsula de microfones cantando ao vivo ou choques leves ao tentar arrumar um pedestal de microfone energizado.

Gary Thain, baixista do Uriah Heep, levou um choque violento no palco, durante um show em 1974, isso era um fato histórico do Rock. 

Foi quando o Renato Carneiro, muito experiente em operar P.A.'s gigantescos e alimentados por verdadeiras usinas de eletricidade, fez o mais óbvio e que ninguém pensou. Puxou o cabo do microfone com força pela parte emborrachada e o destruiu, interrompendo a corrente elétrica... ok, coloquem na conta do Pedra, depois...

No camarim do CCSP, em 16 de maio de 2009. Da esquerda para a direita : Xando Xupo; o jornalista Thomas Lagôa e Luiz Domingues. Foto de Grace Lagôa

Tudo isso foi uma agonia de uns dez segundos, não mais que isso, mas parecia ter durado horas, principalmente o Xando que sofreu e assustou-se muito, naturalmente. Chamaram o eletricista do Centro Cultural e cogitou-se cancelar o show, pois isso aí estava além da percepção do técnico de som, mas era uma questão de energia, e obviamente estava perigoso para todos. A enfermeira plantonista do Centro Cultural foi chamada e examinou o Xando superficialmente, medindo pressão arterial e batimento cardíaco. Uma pequena queimadura em sua mão foi produzida, incômoda, mas não de gravidade maior.

O certo teria sido cancelar tudo, pelo estado de saúde do Xando, com ele dirigindo-se à um Pronto Socorro imediatamente, e o show cancelado. Mas valente, não quis de jeito nenhum fazer isso, e insistiu muito que não cancelasse-se o show, a não ser que o eletricista vetasse-o por razões de segurança.



Terminada uma checagem inicial, o eletricista alegou que não havia mais riscos, mas todos ficamos apreensivos. Depois do ocorrido, histórias começaram a ser contadas e deram-nos conta que num recente show do Golpe de Estado ali apresentado, o Hélcio Aguirra fora vítima de um choque também. Em suma, o Centro Cultural estava com problemas e não demorou poucos meses, fechou suas portas para uma grande reforma, mais do que necessária. Voltando ao show, o Xando ficou meio "jururu", perdendo a sua costumeira maneira expansiva de comunicar-se e brincar com todos. O susto foi grande e não era para menos, com aquela corrente elétrica passando pelo seu corpo e torrando-o, literalmente.

Mesmo assim, insistiu em não ir ao médico e não cancelar sob hipótese alguma a nossa participação. Atitude de uma hombridade ímpar e muito corajosa, sem sombra de dúvida. Descansando no camarim, foi refazendo seu ânimo, mas mesmo com toda a boa vontade em prosseguir, a verdade é que o episódio lamentável estragou-lhe o dia. Tocou sem transparecer nada ao público e até brincou com o ocorrido ao microfone, mas a verdade é que isso tirou seu humor habitual. O Tomada tocou, e eu assisti grande parte de seu show pela famosa escada que dá acesso ao camarim. Um show energético e nessa época, a banda estava em grande fase com uma formação que tinha muita química e uma garra de palco incrível, com Lennon Fernandes e Marcião Gonçalves nas guitarras.
Sabia pelo Marcelo Bueno que eles haviam convidado um pessoal que os estava sondando para conversar sobre suporte digital, venda de músicas virtualmente etc. Gentil como sempre, ele indicara-nos também para essa turma de jovens empreendedores, mas nós não havíamos recebido nenhum contato da parte deles.

Leia uma resenha desse show, no site "Alquimia Rock Club", assinada pelo jornalista Fabiano Cruz :

http://www.alquimiarockclub.com.br/resenhas/391/

Fizemos o nosso show e apesar do problema com o Xando e pela paranoia que ficamos em não tocar nos microfones e sobretudo não encostar os lábios quando fôssemos cantar, os quatro, foi um show muito bom.

Pedra no CCSP em 2009. Luiz Domingues no destaque. Acervo de Fabiano Cruz

Minha lembrança desse show, foi a de uma das nossas melhores performances ao vivo, tamanha a sinergia que conseguimos estabelecer com o público, apesar de estarmos internamente abalados com a história do choque no soundcheck. Os jornalistas Bento Araújo; Régis Tadeu, e Sérgio Martins assistiram-nos e o Bento contou-nos que o Régis Tadeu que é um crítico muito exigente, estava encantado com a nossa performance ao vivo. Ele conhecia o som dos discos do Pedra e inclusive escrevera resenhas ótimas a nosso respeito, mas ao vivo, o surpreendemos pela coesão musical, intensidade e sinergia, e segundo disse aos demais colegas, fazia anos que não via uma banda soar assim ao vivo. Na segunda feira subsequente mandou-nos E-mail até, anunciando que programaria entrevista e até exagerando, dizia que enfocar-nos-ia nas suas quatro revistas que editava. Isso nunca aconteceu de fato, mas eu sei que o mundo do jornalismo é volátil e alguma obstrução ocorreu e quando poderia ter acontecido, tal entusiasmo dele deve ter arrefecido-se, sem problemas e sem mágoas, absolutamente, sei como isso funciona.

Pedra no CCSP em 2009. Xando Zupo no destaque. Acervo de Fabiano Cruz

Ainda tocando, já estávamos no bis, quando percebi que a reação do público super calorosa e correspondendo à percepção dos três jornalistas top que citei, deve ter impressionado o pessoal da tal proposta de mídia digital que fora ali para ver o Tomada, pois vi-os apontando para nós e rapidamente saindo da parte do mezanino superior de onde assistiram os shows.

                  Rodrigo Hid no destaque. Acervo de Fabiano Cruz

Não deu outra, assim que chegamos ao camarim com o show finalizado, e recebendo os amigos e fãs, fomos abordados por esse pessoal. Passando por cima de qualquer protocolo de aproximação e tampouco fazendo "joguinhos" sociais dissimulados, foram direto ao assunto : gostaram do nosso som, impressionaram-se com a interação com o público e queriam contratar-nos também para o seu projeto...

Vendo aquela cena e já ostentando quase 49 anos de idade e com 33 anos de carreira, eu só assistira uma manifestação assim em filmes, desses que fazem as pessoas acreditarem que artistas são abordados desse jeito, sem mais nem menos e contratados entusiasticamente por um empresário "Manda Chuva", que alavanca-os para o Mega Sucesso da noite para o dia...

"Se você for a Fim" no Centro Cultural São Paulo em 16 de maio de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=TMJ9PQlhH4I


"Sou Mais Feliz" no Centro Cultural São Paulo, em 16 de maio de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AgS0U1ekN98


Nunca havia visto uma abordagem tão direta assim e... calma... primeiro digam-nos quem são vocês, o que pretendem... que poder de fogo tem em mãos... ou seja, o básico do básico do manual da prudência... 


"Filme de Terror" no Centro Cultural São Paulo, em 16 de maio de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AJoC2fc_h7U


Lembro-me que eram todos muito jovens, aparentando serem universitários recém formados, três ou quatro rapazes e uma moça. De positivo, além da extrema objetividade, era o fato de que demonstravam estar extremamente motivados com seu projeto. Isso era ótimo, claro, jovens empreendedores com vontade de fazer algo no mercado para arrebentar e ganhar muito dinheiro, era no mínimo um fato positivo. Contudo, do que tratava-se afinal a sua proposta ?
Noite de 16 de maio de 2009, Centro Cultural São Paulo com 200 pessoas, e show compartilhado com os amigos do Tomada...


"Megalópole" no Centro Cultural São Paulo em 16 de maio de 2009
Eis o Link para assistir no You Tube : https://www.youtube.com/watch?v=Te8B4gQ4XmU



Após o show do Centro Cultural São Paulo, recebemos uma comissão desses jovens empreendedores que citei anteriormente, para entendermos de fato, qual era a sua proposta para nós.
Numa noite de segunda-feira no nosso estúdio de ensaios, a moça que chamava-se Raquel, e era advogada, acompanhada de dois rapazes bem jovens, cujos nomes não recordo-me, mas que apresentaram-se como recém formados em análise de sistemas, explicaram-nos seus planos.

Estavam contratando bandas autorais, de estilos variados, mas 99% ligadas ao Rock de uma forma geral, para montar um cast ao estilo das antigas gravadoras, porém visando colocar tais artistas numa plataforma digital de vendas de faixas individuais e álbuns inteiros numa segunda instância. Estavam inseridos dentro da equipe de trabalho de uma gravadora tradicional que ainda trabalhava com plataforma de CD convencional e no caso, chamava-se "Atração".

Tal gravadora era relativamente nova no mercado, mas praticamente poderia ser considerada uma continuidade do antigo selo Lira Paulistana, comandado pelos mesmos dirigentes que geriam o histórico teatro Lira Paulistana de São Paulo. A ideia desses veteranos empresários era ótima ao fundarem a gravadora "Atração", pois queriam ocupar o vácuo deixado pela antiga Lira Paulistana. Com o propósito de seguir tal linha artística ousada, a aposta era em contratar artistas do underground e trabalhar em ritmo de parceria com todos, na mesma linha que norteou a velha gravadora Lira Paulistana. No entanto, a Atração ainda rezava pela cartilha antiga da produção fonográfica e não estava com os olhos atentos ao presente, com a cena de fim de primeira década dos anos 2000, mostrando o caminho digital cada vez mais forte.

Dentro dessa prerrogativa, é que esse grupo de jovens fez contato com os veteranos dirigentes dessa gravadora, e levou-lhes a ideia de que precisavam abrir-se à nova realidade do mercado fonográfico e nesse contexto, estabeleceram uma parceria, assumindo então um departamento digital dentro da empresa e com relativa autonomia, como por exemplo, a formação do cast. Sendo assim, pelo simples fato de representarem a gravadora "Atração", que era uma empresa de pequeno porte, em fase de crescimento para tornar-se média em breve, mas principalmente por ser uma continuidade da antiga Lira Paulistana, e ter em seus principais mandatários, pessoas que eu admirava pela produção feita na década de oitenta, já havia uma credibilidade.

Indo além, a ideia de buscar-se formas modernas de encarar a indústria fonográfica, e a discussão do dia era a mídia digital paga para "download", era bem vinda e para arrematar a tese de que a conversa era boa, nossa impressão inicial sobre tais jovens que  abordavam-nos era ótima, pensando na sua juventude e vontade de buscar caminhos novos. E de fato, pareciam muito entusiasmados com seu projeto. Além da simples ideia de comercialização de música em plataforma virtual, eles tinham outras ideias e que  interessaram-nos bastante, falando em ações que até fugiam de uma abordagem normal de gravadora, e entrando no campo da produção de shows e divulgação.

Falaram-nos de prover shows com patrocínios interessantes para promover o cast que estivessem representando, e claro que achamos bem bacana a ideia. Lógico, apesar de todo o entusiasmo inicial de uma primeira reunião, pedimos tempo para pensar.
Seguiram-se outras reuniões, e fomos conhecer as dependências da gravadora "Atração", que na verdade usava o velho edifício da antiga gravadora Continental, próximo ao Parque Dom Pedro II, no centro velho de São Paulo. Lá dentro, as dependências quase vazias, com poucos funcionários, impressionava por dois aspectos : a grandiosidade das instalações, ainda que naquele instante tudo parecesse um set de filmagens de um filme ambientado nos anos setenta, e a constatação de que apesar de estar tudo limpo e arrumado, era um edifício "fantasma", com a gravadora "Atração" usando apenas um andar, e o restante estar desocupado. Vou adiantar a cronologia para explicar a situação desse contato, depois volto ao ritmo normal da narrativa.

Várias reuniões foram feitas e nós aceitamos participar desse projeto. Ponderamos que não tínhamos nada a perder em ter uma gravadora cuidando de nossas vendas virtuais e pelo contrário, precisávamos desse tipo de suporte moderno apontando para o futuro, e além disso, apostamos nas ações prometidas pelos jovens em paralelo, como shows coletivos para promover a gravadora e as bandas, e numa época muito difícil, onde oportunidades eram raras, não podia-se desperdiçá-las. Mas o tempo foi passando e mesmo com contrato assinado, não víamos nada de concreto acontecendo. A boa desculpa era até plausível no sentido que estavam esforçando-se para fazer tudo funcionar etc etc, mas na prática, nada acontecia.

A única coisa que víamos era que eles contratavam mais e mais bandas e estava chegando num ponto onde ficava inviável trabalhar cumprindo as promessas, pois a demanda estava ficando enorme para eles. Mais reuniões aconteceram e no fim de 2009, até um cocktail foi oferecido na sua sede, quando representantes de diversas bandas contratadas agruparam-se para eles anunciarem que resultados concretos aconteceriam no início de 2010, mas... quando 2010 chegou, "tudo continuou como dantes, no quartel de Abrantes"...
Para resumir, sei que essa garotada não era mal intencionada e pelo contrário, queriam muito trabalhar e colocar seus planos em prática, e sobretudo, ganhar muito dinheiro. Mas, o buraco do show business / indústria fonográfica, era bem mais abaixo, e lutando internamente com os dirigentes da gravadora e suas ideias mais antigas do mercado, pareciam não estar conseguindo o espaço que queriam. Vendo por fora e sem nenhuma intenção de fazer uma crítica ácida, mesmo porque, particularmente nenhum de nós tinha nenhuma queixa pessoal contra nenhum desses jovens, muito menos eu, mas a minha impressão era a de que eles erraram em contratar tantas bandas, preocupando-se em rechear o cast, antes de haver algo concreto a oferecer. Seguramente queriam contar com muitas galinhas de ovos de ouro em seu poder, antes que outros concorrentes fizessem-no. Segundo ponto, não digo que era intenção deliberada ou mesmo maquiavélica dessa rapaziada, mas ao contratarem tantos artistas simultaneamente, além da obviedade de diluírem sua capacidade de atender cada um individualmente, parecia que criaram um sistema com várias torneirinhas para abastecer uma única cisterna... ou seja, se cada torneirinha produzisse uma gota que fosse, na base da quantidade, o tanque deles enchia-se...


Ora, isso passava a não ser interessante para as bandas, com tanta diluição, mas para eles, era um caminho aberto para uma situação de acomodação, vendo as gotinhas sofridas de cada uma, vertendo para eles numa quantidade significativa. Essa situação foi arrastando-se e avançou por 2010, quando resolvemos pedir desligamento do projeto, mas este estava tão inoperante que recebemos uma resposta engraçada de uma funcionária da gravadora : -"é só rasgar o contrato, senhor... não precisa promover burocracia jurídica para promover rescisão"...
Então está bem... papel picado e jogado no lixo... vida que seguiu...
Volto à cronologia de 2009, onde estava.


O próximo compromisso a ser cumprido, seria sui generis numa primeira leitura...
Fruto de um contato oferecido pelo nosso amigo Marcelo "Pepe" Bueno, baixista do Tomada, fizemos contato com uma casa localizada numa cidade do interior de São Paulo e agendamos apresentação para o final de maio de 2009. Vivíamos tempos de resolução em termos de não mais tocarmos em casas noturnas com ambientação para baladas de "Playboys & Patricinhas", e / ou casas que ainda que fossem de orientação rocker, não oferecessem infra estrutura mínima para o show sair tecnicamente a contento.

Contudo, segundo relatos de Marcelo, mas também reforçados por outros músicos que haviam apresentado-se nela, tal casa era diferenciada, pois tinha aura de um mini centro cultural e seu proprietário era um colecionador de discos e rocker de carteirinha, que fazia de sua casa, um recanto para apreciadores muito antenados, pois disponibilizava seu acervo para degustação, mediante uma sala de audição super aconchegante, ao estilo europeu e tal dependência era um anexo da casa de shows, podendo ser desfrutada pelo seu público. Tal casa chamava-se "Acervo do Tuzzi".

Claro que empolgamo-nos com essas notícias, e tocar num ambiente assim seria no mínimo um prazer para nós, independente de haver um bom resultado artístico e financeiro que justificasse nossa ida à simpática cidade interiorana de Bragança Paulista, cerca de 100 Km de São Paulo, quase na divisa com Minas Gerais. Tudo era bacana e estimulante para nós nessa produção, fugindo ao padrão de uma casa noturna tradicional onde o Pedra não sentia-se à vontade em apresentar-se, por vários motivos que já expus anteriormente, e tampouco seria um salão rústico para rockers beberrões, onde também não sentíamos adequação para a nossa proposta artística. Mas havia um senão... falando com o proprietário, ele foi sincero e disse-nos que não havia nenhum equipamento na casa, portanto, além do backline, teríamos que levar um P.A. e também não havia uma iluminação de show, teríamos que levar um equipamento de luz ou contentarmo-nos em tocar com luz de serviço, como banda "lounge" de restaurante...
Estava bom demais para ser verdade ser um Centro Cultural para Rockers... mas ponderamos e naquele espírito de mutirão e boa vontade, o Xando prontificou-se a levar o P.A. de seu estúdio de ensaio, e dessa forma, fechamos com o rapaz. Uma banda de abertura foi sugerida pelo dono da casa, naquela predisposição de que ajudariam a reforçar o público e sabedores que não éramos famosos no mainstream ao ponto de chegar numa cidade interiorana e causar comoção, aceitamos, por prudência. No dia do show, parecido com o que ocorrera-me em junho de 2006, quando perdi uma prima querida no dia de um show, o Xando desta feita recebeu a notícia do falecimento de um tio. Situação um pouquinho diferente da que acontecera-me, no entanto, mesmo sabedor que seu ente querido estava há dias na UTI de um hospital, em estado terminal, a notícia oficial de seu passamento foi-lhe comunicada já a caminho da estrada, dentro da van e quando alguém perguntou-lhe se queria cancelar o show e comparecer ao funeral, ele disse-me que já havia despedido-se de seu tio no hospital e que não ficaria com a consciência pesada em não prestigiar o rito do velório / sepultamento. Mais uma atitude corajosa, denotando sacrifício pessoal, visto que dias antes fora protagonista de um grande susto no Centro Cultural São Paulo e também ali fora destemido ao firmar compromisso em continuar com o show, em detrimento de sua situação pessoal desconfortável, fato narrado anteriormente. Bem, seguimos em frente rumo à estrada Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte. A van que contratáramos fora indicação do Rodrigo e ao contrário do "seu" Valdir, que levara-nos a viagens interioranas anteriores, desta feita ele não estava disponível e indicou-nos um colega seu.

Van novinha em folha, tudo sob controle, mas quando o motorista desceu  para falar conosco, seu porte físico era tão avantajado, que foi inevitável não cumprimentá-lo brincando com o fato e as piadas começaram a girar em torno dele ser segurança da banda doravante ou "é melhor não contraria-lo de forma alguma" e bobagens do gênero. A nossa sorte foi que o rapaz era extremamente gente boa e brincalhão também, portanto, a empatia foi instantânea e ele entrou no espírito das brincadeiras numa boa, riu e também falou várias bobagens desse estilo. Mas a brincadeira tinha fundo de verdade, porque apesar de ser motorista, ele também fazia bico como segurança em casas noturnas da zona leste de São Paulo, e logo avisou que brincadeiras a parte, se precisasse, nesse ou qualquer outro show, ele estava à nossa disposição para contemporizar "tempo ruim"...
Piadista também, mas com aquele porte ao estilo Arnold Schwarzenegger, certamente que viajamos seguros ao extremo...
Quando chegamos ao local, que era um pouquinho afastado do perímetro urbano da cidade, vimos que a entrada para a van era um pouco estreita. Com cuidado e paciência, o rapaz colocou a van num melhor lugar possível para descarregar-se, mas uma pequena diferença de metragem estava impedindo a abertura total da porta, e assim prejudicando o trabalho dos roadies para descarregar. Manobrar naquele espaço apertado seria um estorvo e aí ele mostrou a sua força, levantando a van na mão, como em demonstrações de fisiculturismo e arrancou aplausos dos funcionários da casa... foi hilário...
Montamos todo o equipamento e foi muito trabalhoso, pois a infra estrutura não era das melhores, e vários improvisos precisaram ser feitos para ligar tudo e não sobrecarregar a fonte energética da casa.

O lado bom, era que exatamente como haviam descrito para nós, o "Acervo do Tuzzi" era um recanto cultural ultra aconchegante e a sala de audição famosa, fazia jus aos comentários, pois tinha à disposição, milhares de CD's e vinis, tudo do mais alto bom gosto, predominando o Rock Progressivo setentista em profusão.
Não dava para sentar naquelas poltronas estilo vitorianas e degustar um chá britânico ouvindo alguma banda adorável de seu gigantesco acervo de discos, porque o tempo urgia, mas constatamos o quão bacana era o espaço do Sidney, nosso hospitaleiro anfitrião.
Já começava a anoitecer quando demo-nos por satisfeitos com o auto soundcheck. Se havíamos logrado êxito fazendo loucura semelhante um ano antes no Teatro X em São Paulo, não preocupava-nos repetir a dose num ambiente nitidamente menor, embora com características diferentes, pois não era totalmente fechado, mas com aberturas laterais, ao estilo de um grande quiosque. Ao contrário da maioria de bandas de abertura que eu já tivera na minha vida profissional antes, a banda que apresentar-se-ia antes de nós, era absolutamente estranha. Até hoje eu não entendi a proposta artística daqueles garotos. Olhando e ouvindo ali na hora, a grosso modo parecia estarem dentro de uma vertente "indie", mas ouvindo mais detidamente, apesar da sonoridade acre e permeada de experimentalismos nada pop, cheguei a pensar que talvez tivessem influência de bandas da vertente KrautRock setentista e convenhamos, não seria nada difícil uma banda com tal proposta insólita para o mundo de 2009, tocar isso, em se considerando que o "Acervo do Tuzzi" era antes de mais nada, um espaço para degustação de Rock, e frequentado costumeiramente por colecionadores de discos e conhecedores da matéria.

Portanto, por incrível que pareça, especificamente ali, não seria de admirar-se que uma banda fosse influenciada por KrautRock setentista. Vai saber se aqueles garotos não eram fãs de "Guru-Guru"; "Can"; "Amon Düül II"; "Neu"; "Popol Vuh"; "Tangerine Dream", e tantos outros exemplos de bandas dessa vertente ?...
Só não aprovamos a postura dos garotos, que chegaram com instrumentos na mão e sem muita cerimônia foram aconchegando-se no palco usando nosso backline e bateria, sem pedir licença etc e tal. Bem, passou sete anos do ocorrido em relação a quando escrevo este trecho (2016), por isso, espero que tenham aprendido que não funciona desse jeito, e que conversar com os donos do equipamento previamente, é conduta profissional a ser observada. Tal banda chamava-se "Verticais Hussman", que talvez denunciem o que queriam fazer artisticamente, visto que tal nome denota refrigeradores e frezeers de origem germânica. Há uma linha tênue entre o experimentalismo e a criatividade. Quem arrisca-se nessa seara difícil, tem que ter muita consciência disso.
Os rapazes deram seu recado pleno de estranheza blasé e chegou a nossa vez. Um pouco antes deles terminarem, o proprietário disse-nos que a casa estava muito mais cheia que as suas melhores noites, e que estava surpreendido por isso. De fato, havia um congestionamento na pequena estrada vicinal que trazia pessoas da cidade para esse lugar semi rural.

Enfim, bacana se fosse pelo esforço da banda de abertura, mas receio que não fosse, pelo som que praticavam e pela atitude de não trazer nenhum amplificador que fosse para apresentarem-se, denotando que muito provavelmente nada haviam feito para ajudar na divulgação. Começamos a tocar e todas as mesas estavam preenchidas. Não era um público rocker formado por entendidos do assunto e colecionadores de discos, público padrão da casa, mas haviam várias famílias com crianças até, como se fosse um restaurante. Muito estranho, será que estavam ali por acaso ?
Um grupo de amigos do dono, e que estavam ali desde a tarde no soundcheck, foi extremamente simpático e pela conversa que tivéramos nesse período vespertino, eram experts na história do Rock e mostraram-se muito interessados em conhecer nosso trabalho. Ouvindo rapidamente algumas faixas de nossos dois discos lançados, haviam gostado das sonoridades e feito observações precisas sobre influências que captaram na nossa música, denotando terem grande conhecimento, mesmo.

Foi muito curioso, mas na segunda música, demonstraram no semblante que não estavam gostando, levantaram-se e foram aproveitar o resto da noite na discoteca da casa. Nunca entendi tal postura, visto que o som estava bom, nossa performance OK, e no período da tarde, haviam gostado do som e disseram-se ansiosos por ouvir-nos ao vivo. O que teria acontecido para contrariarem-se dessa forma ??  Não que isso tenha subtraído meu sono naquela noite, mas fiquei muito intrigado, pois estava acostumado a enfrentar plateias formadas por incautos e ser ignorado retumbantemente nessas circunstâncias, mas aqueles sujeitos tinham tudo para entender a proposta da nossa banda e ao abandonarem o show com aquela expressão facial, foi algo surpreendente para a minha estupefação. Fomos aplaudidos educadamente pelos demais e curiosamente, pessoas que não aparentavam serem "experts" em história do Rock, e que ficaram até o final, aplaudindo e sorrindo para nós. O mundo é surpreendente, mesmo...
Ali, onde pensamos que o público diferenciado entender-nos-ia como raramente entendiam-nos em outras casas noturnas, a sinergia não aconteceu...

Para uma banda com dificuldades para achar eco em seus anseios artísticos, esse show poderia denotar um verdadeiro "balde d'água fria" em nosso combalido ânimo. Por sorte, apesar dos pesares, o fator financeiro correspondeu a contento, minimizando a nossa barra ali. Outro aspecto animador, era a hospitalidade extrema do proprietário, o Sidney. O lado bom foi que fazia um frio de rachar no fim de outono, naquela região ligeiramente serrana, e a ótima pizza que foi-nos servida posteriormente, tratou de aquecer-nos.

Tal experiência de não estabelecer uma conexão a contento com o público, parecia perseguir-nos e claro que tal fator haveria de ser um verdadeiro vírus a atormentar-nos e não medíamos, mas corríamos o risco dessa predisposição tornar-se uma metástase.
Infelizmente, não tenho fotos; vídeos, tampouco material de portfólio desse show. Dia 30 de maio de 2009, sábado. Acervo do Tuzzi, Bragança Paulista / SP, com 120 pessoas na plateia, e 3 "entendidos" de rock a não apreciar nosso trabalho...



Conforme já havia falado em capítulos anteriores, o Rodrigo estava desde 2008, imbuído da estratégia de inserir-nos no mundo dos festivais independentes. Dezenas de contatos foram feitos com festivais em todo o país e já havíamos participado de dois nesse ano de 2008, já amplamente relatados, em São Caetano do Sul e Araraquara. A maioria dos demais que abordamos, nem respondia aos contatos; alguns respondiam educadamente, mas sendo evasivos quanto à nossa participação, e teve até caso de resposta sincera de que consideravam a nossa banda "inadequada" ao espírito do seu festival em si, e nesse caso, eu particularmente agradecia aos Deuses do Rock a nossa não inclusão, visto que eram festivais recheados de atrações do espectro do "Indie Rock", portanto, artistas desprovidos de qualquer técnica musical, mínima que fosse, para considerarmos sua obra como algo musical...

Foi quando mais ou menos no final de abril recebemos a comunicação que estávamos escalados para o "PMW", um festival de maior porte, realizado em Palmas, a capital do estado do Tocantins. Claro que paramos para pensar, pois a proposta era igualmente indecente : sem cachet e sem ajuda no transporte... o único suporte anunciado seria traslado interno; hotel e restaurante. Pegam ou largam ? Bem, Palmas não era logo aí... cogitar uma van ou carros particulares, nem pensar. Fazendo as contas dessa operação e cotando passagens aéreas, chegamos à conclusão de que a solução seria o avião, onde ganharíamos tempo; conforto; e economia, sendo que o maior prejuízo seria a impossibilidade de bancarmos passagens para nossa equipe técnica de apoio. Seria portanto, uma viagem no espírito do escotismo, com todo mundo ajudando-se nas dificuldades inerentes de uma viagem e produção desse nível, e contar com a competência e boa vontade de profissionais locais para suprir nossas necessidades básicas no show.

Diante dessa situação, a pergunta era : valeria a pena viajar para tão longe; pagar a despesa do bolso, não ganhar cachet...?
Pois é... tais perguntas entraram na ordem do dia, até a data limite que deram-nos para confirmar ou desistir do Festival. Ponderamos que era um festival maior dentro do esquema desses festivais independentes e apuramos que quem dispunha-se a tocar nele, praticamente selava participação em outros de maior porte em Goiânia, Recife, e outras capitais do país. Pesava para nós, a nossa costumeira dificuldade em abrir frentes, formar agenda sustentável etc etc. Por isso, num gesto de boa vontade dos quatro, resolvemos encarar a loucura de viajar para tocar tão longe, pagando do bolso, mesmo com contrapartida muito fraquinha. Compramos as passagens e no dia 13 de junho de 2009, fizemos uma aventura maluca de fazermos um "bate e volta" para Palmas / TO, com "apenas" 3522 km na soma entre ida e volta...
Nosso voo até Brasília saiu bem cedo, e a conexão para Palmas por volta das 11 horas da manhã, portanto ficamos no aeroporto de Brasília um tempo bem grande, esperando pelo segundo voo e claro que isso cansou-nos...
Pelo lounge do aeroporto de Brasília, passamos pela comitiva do "Pato Fu", que haviam tocado no mesmo festival, na noite anterior.
Finalmente entramos na segunda aeronave, e o visual da paisagem nesse segundo trecho realmente impressiona, pela natureza. Um enorme espaço de mata e rio, praticamente até o nosso destino final. 

Chegamos ao pequeno aeroporto de Palmas e uma equipe da produção aguardava-nos. Fomos levados para o hotel no centro da cidade. Extremamente plana, parecia uma cidade que estava sendo planejada para crescer, com um traçado de largas avenidas mas ainda desertas praticamente, e um centro tímido, aparentando ser uma localidade do porte de cidades interioranas pequenas do estado de São Paulo. O calor era muito forte, e batia na casa dos 34º mais ou menos, segundo apuramos. Havíamos deixado São Paulo no fim da madrugada com 10º ...
Fomos conduzidos ao restaurante conveniado do festival e sem queixas até então, estava tudo bacana, com produtores subalternos educados conduzindo-nos, orientando etc. Não haveria soundcheck, o primeiro ponto negativo... caramba um festival grande e nós sem técnico próprio e sem roadies, à mercê de um som desorganizado. Foi quando disseram-nos que haveria um acerto de monitor minutos antes do show e não haveria problema, pois um outro show estaria ocorrendo em outro palco e assim, teríamos esse tempinho. Sinal amarelo ligado...
Sem ter o que adiantar, resolvemos descansar e a jornada aérea fora cansativa. Mas como pegar no sono pesado com aquele calor e não havia ventilador que amenizasse a situação ? Mas muito pior, foi constatarmos que havia um pequeno corredor que passava atrás do quarto onde alojaram-nos e que dava acesso à um pequeno salão. Lastimavelmente, haviam alugado o salão naquela tarde para uma reunião de um partido político e mediante um pequeno P.A., os palestrantes foram falando, falando...

Foi quando a discussão inflamou-se e aos berros, um vereador local falava : -"que se f... se sair na imprensa... se quiser publicar, que publique"... tal frase foi repetida entre nós, durante semanas a fio, principalmente pelo Ivan que imitava-o à perfeição e asseguro-lhes, parecia diálogo escrito pelo Dias Gomes para o personagem de Odorico Paraguaçu, absolutamente folclórico !!
 

Tínhamos boa companhia no festival e no hotel. Nossos amigos do "Baranga" estavam escalados também para aquela noite. Mas o restante das atrações era formada por bandas Indie predominantemente das regiões Norte / Nordeste e Centro / Oeste do Brasil, com nossa exceção e algumas outras poucas vindas do sul / sudeste. Uma dessas até comoveu-nos, de certa forma, pois os rapazes disseram-nos que tinham ido de carro, um "Fiat Uno", com a banda inteira e instrumentos, saindo de Curitiba / PR. Ou seja, era uma esperança ferrenha em considerar tal festival importante para eles, ou puro espírito de aventura, vai saber...
As atrações headliner seriam Mundo Livre SA, um veterano desse mundo incensado do Indie, e B Negão, ex-vocalista da banda carioca, Planet Hemp. Fomos levados ao ambiente do festival e a estrutura para o público e os palcos para os artistas eram bacanas, mas parava por aí. Camarins legais só para os headliners, pois artistas "'menores" foram colocados em camarins improvisados, sem infra alguma. Ao pedirmos algumas cadeiras de plástico para um funcionário do festival, este perguntou-nos demonstrando estupefação : -" vocês querem cadeiras ??

Ao ouvir nossa resposta de que sim e era o mínimo para esperarmos horas pelas nossas apresentações (o pessoal do Baranga estava conosco), o rapaz esbravejou que não faria nada disso e se quiséssemos cadeiras que fôssemos procura-las por aí...
Ninguém respondeu-se com rispidez, apenas entreolhamo-nos e rimos entre nós diante de uma grosseria tão fora de propósito. Caramba, não havia uma pessoa mais graduada da produção por perto, e esse funcionário agindo assim...
Esquecemos da história, quando vimos o rapazinho arrastando algumas cadeiras mediante um carrinho de apoio. Ele chegou perto de nós e foi colocando as cadeiras no chão e quando chegou na última, teve uma atitude destemperada e atirou-a com raiva para fora do carrinho e esbravejou alguma coisa que nem entendemos. Absolutamente bizarro. O tempo foi passando e o Xande Saraiva, vocalista / guitarrista do Baranga, veio da área dos palcos e disse-nos que faltava pouco para chegar a nossa vez, mas nenhum, absolutamente nenhum produtor do festival aparecia para dar informações. Entre nós, as duas bandas, resolvemos ajudarmo-nos em regime de mutirão e levamos nossos instrumentos e acessórios para perto do palco, já que estávamos convencidos de que ninguém da produção ajudar-nos-ia. Chegou a nossa vez, subimos ao palco e arrumamos o nosso set up nós mesmos, sem roadies. O roadie do festival deu uma ajuda básica, mas sem nossos roadies acostumados com nossas necessidades, realmente era dureza fazer isso ali correndo, na zoeira total. A sorte, era que um show comia solto no palco ao lado e o grande público estava entretido com essa apresentação e então, pudemos ter uma privacidade mínima num momento delicado e um pouco embaraçoso para nós. Quando estava tudo ligado, o técnico abriu só o nosso monitor e promoveu ajustes básicos e muito preliminares. Era só uma "levantada" básica, como diz-se no jargão dos músicos, muito longe de um soundcheck decente, mas diante das circunstâncias, até apreciamos a boa vontade do rapaz em dar-nos um mínimo de condições, sendo que geralmente outros técnicos nem dar-se-iam a esse trabalho.
Acabou o show do palco ao lado, e o público veio caminhando lentamente para a frente do nosso. Não era a mesma multidão que estava no outro. Naturalmente, nem todos interessavam-se em assistir todos os shows e a dispersão era natural. Quando deram-nos o sinal verde para começar...



Começamos a tocar e a reação estava acima da nossa expectativa, pois para um público que nunca ouvira falar de nós, estavam gostando da nossa performance. Com uma sinergia legal, o fato do som no palco estar muito abaixo do ideal em termos de monitoração, isso nem perturbou-nos, pois entramos num embalo bom de performance. Era um show de choque (incrível, "bate e volta" de quase 4 mil Km e para tocar 30 minutos...), e já na primeira música o Rodrigo estava todo lambuzado de batom.

Um vocalista de uma banda Indie que tocara antes de nós, estava muito maquiado e havia empesteado a cápsula do microfone. O Rodrigo não prestou atenção nesse detalhe e assim que começou a cantar, ficou todo manchado e quando acabou o show, um sujeito veio falar que achara a "atitude" do nosso vocalista incrível ao cantar maquiado... ha ha ha, esses indies eram muito engraçados.
Finalizamos o nosso show e arrancamos aplausos. Se houve uma recompensa para uma loucura desse tamanho, creio que a reação daquela plateia tratou de pagar-nos. Cansados e tendo que acordar muito cedo para embarcar rumo a Brasília, assim que encerrou-se o show do Baranga, partirmos para o hotel, tentar dormir duas ou três horas apenas.

Mas houve uma longa espera para a van que fazia o transporte para o hotel aparecer, e assim, só ao término do show do B Negão conduziram-nos à van. Fomos para o hotel na companhia do guitarrista da banda de apoio desse artista, e as ruas estavam completamente desertas. Não dormirmos nada praticamente, e ainda era escuro quando estávamos arrumando-nos e com a van na porta do hotel, pronta para levar-nos para o aeroporto. Voamos para Brasília absolutamente cansados e desta feita, a conexão para São Paulo estava marcada para sair num espaço de tempo curtíssimo em relação à nossa chegada na capital federal. Xando e Ivan eram fumantes inveterados (o Xando largou o vício tempo depois, ainda bem), e saíram desesperados da aeronave para dar uma "tragada" no famigerado "bastão fedorento de antecipação da morte", e como para realizar tal desejo, só saindo do terminal, esses minutos perdidos nessa caminhada e tempo para fumarem um pouco, quase fez-nos perder a conexão.

Saímos em disparada com instrumentos e mochilas, mas os funcionários informaram-nos que o avião já estava encerrando o procedimento de entrada de passageiros e começaria a taxiar. Foi quando chegamos no corredor e a aeromoça já estava quase fechando a porta, mas deu tempo enfim...
Impressionante, parecia cena clichê de filme pastelão...
Chegamos em São Paulo e ainda tivemos um dissabor, ainda que de pequena monta. Ao passarmos pelo saguão do desembarque, onde pessoas esperam amigos e entes queridos geralmente, havia uma multidão e ouvimos muitas pessoas chamando-nos de "bichas e veados"... vendo-nos com nossas cabeleiras rockers (se bem que o Rodrigo e o Ivan estavam com cabelos curtos nessa época), confundiram-nos com a enorme quantidade de homossexuais que estavam desembarcando em São Paulo, vindos de vários voos, e cidades diferentes, para participar da Parada Gay que aconteceria naquele dia na Avenida Paulista... só faltava-nos essa...
Exaustos, e apesar do show ter sido bom, em termos, a sensação de que o sacrifício fora grande demais para um resultado tão pífio para a banda, levou-nos de novo aos questionamentos que sempre traziam à tona a questão das estratégias de atuação, para abrirmos novas frentes. Para agravar, teve a questão dos discos. Um funcionário do festival abordara-nos no hotel e disse que se havíamos levado discos da banda para vender, estes deveriam ser entregues à organização do festival que comandava uma barraca oficial de vendas. Um acerto seria feito a posteriori. Não eram muitas cópias, cerca de 20 de cada, Pedra e Pedra II, mas sabíamos que haviam vendido, pois assinamos autógrafos após o show, em algumas capas para pessoas que compraram-nos, certamente.
Mas tal acerto não foi feito no pós show e disseram-nos que receberíamos um E-mail com os números oficiais de tal contabilidade, depositariam o dinheiro devido e devolveriam cópias não vendidas, via correio.

Já achamos aquilo excessivo, pois tamanha burocracia para valores de baixa monta deveriam ter sido acertados ali in loco, com discos não comercializados devolvidos etc e tal. Todavia, os dias foram passando e nada do E-mail. O Rodrigo mandou vários E-Mails e nem resposta davam. Um dia, o Xando ficou muito indignado com a situação e ligou para Goiânia, na sede da tal associação que comandava esses festivais independentes e por sorte (ou azar, eu diria), foi atendido por um de seus mandatários, uma figura extremamente arrogante, e que destratou-o. Atendendo com soberba, disse que bandas deveriam mandar materiais por E-mail e que o Xando estava perturbando-o. Mas o Xando insistiu, dizendo que não era nada disso e que só ligara para saber do acerto dos discos. O sujeito só piorou as coisas quando disse-lhe que não acreditava que estava sendo importunado por causa de uns "disquinhos" e em seguida, bateu-lhe com o telefone "na cara". Somado aos acontecimentos todos que vivemos em Palmas, esse ato foi a gota d'água para convencermo-nos definitivamente, que o caminho dos festivais independentes era contaminado por uma máfia tão asquerosa quanto a que domina o show business no mainstream. Poucos meses depois desse episódio, denúncias chegaram à imprensa dando conta do esquema milionário de favorecimento aos tais festivais e sua turma de artistas protegidos dentro da organização. Muita discussão veio à tona e fez muito barulho até meados de 2011. Esfriou, mas agora, 2016, creio que é só uma questão de tempo para a Operação Lava Jato, que investiga os escândalos de corrupção na Petrobrás, chegar nessa ramificação, que faz parte do mesmo tronco, em essência. Se ainda tínhamos a ingênua esperança de que os festivais poderiam ser um caminho alternativo para a banda tornar-se mais conhecida, agora estava descartado esse meio. E mais uma vez, o dilema : esperaríamos oportunidades boas em teatros e / ou unidades do Sesc, ou  submeter-nos-íamos a tocar em casas noturnas não afeitas à uma banda com proposta artística muito mais profunda que a média das bandas autorais de nossa época, ainda muito mais que qualquer banda desprovida de tais propósitos e praticando apenas o entretenimento ? Uma esperança bateria à nossa porta, menos de um mês depois dessa aventura no Tocantins...



Um equívoco do jornalista que redigiu essa nota no Guia do "Estadão", o show estava marcado para o teatro e não para o "espaço de vidro", um salão anexo da galeria... por que não prestam atenção nos releases que recebem ??

O famoso Luiz Carlos Calanca, dono da loja / gravadora, Baratos Afins, era curador de um espaço na Galeria Olido, no centro da cidade, ao lado das Grandes Galerias, onde funciona a Galeria do Rock. Ali, costumava promover shows triplos, uma vez por mês num espaço anexo chamado "Galeria de Vidro", um espaço no andar térreo do complexo, todo envidraçado e que tem comunicação com a rua, no caso a esquina da Avenida São João, com a Rua Dom José de Barros.

Mas a notícia que o Luiz deu-nos era melhor ainda, pois havia conseguido a liberação do espaço maior, que consistia no teatro super bem aprumado, e que outrora fora o cinema Olido, clássico do centro da cidade de São Paulo em décadas remotas e passadas. Ficamos animados logicamente, porque o teatro possibilitava fazer uma produção muito mais caprichada, com som e luz de qualidade e sem a famigerada aura de "balada" das casas noturnas, tocar em teatros era o nosso ideal, nossa meta.

Contudo, nada era perfeito e o Luiz foi logo avisando-nos que a Secretaria Municipal de Cultura oferecia tudo, menos cachet... seria portanto um típico "show de investimento de carreira"...
Ai ai ai, eu ali perto de completar 49 anos de idade e tendo que ouvir essa balela, nessa idade... era rir para não chorar, mas por outro lado, vindo do Luiz Calanca, que não tinha culpa alguma nessa dinâmica e tratava-se de um amigo de longa data, compreendi numa boa. Além do mais, baseado em experiência próxima pregressa, tocar de graça, mas com uma estrutura toda favorável, era muito mais vantajoso para o Pedra do que ir até Palmas, voar em quatro aeronaves num "bate-e-volta" maluco de quase 4 mil Km's para fazer um show de choque de meia hora...

No Teatro da Galeria Olido, aproveitaríamos para fotografar; filmar e quiçá gravar o áudio em condições superiores de qualidade. Fora o conforto de estarmos na nossa cidade, portanto, se tudo desse errado, era só entrar no carro e estar em casa em meia hora, chamando uma pizza pelo telefone...


Outro aspecto era o de atrair público e mídia, portanto, fora a contumaz mania de achar-se que artista não precisa ganhar dinheiro, mas que deve agradecer por oportunidades de tocar (experimente falar para um técnico de som, que ele deve trabalhar operando o áudio de um show, mas não vai ter cachet, e sua recompensa será que as pessoas "reconheçam" o seu valor profissional e "um dia", vão te contratar, pagando...). Bem, o fato é que aceitamos fazer, e fomos informados que duas bandas tocariam também compartilhando o espaço. Seriam "Carro Bomba" e "Cavalo a Vapor". Conhecíamos as duas, o "Cavalo a Vapor" era veterana banda de Hard Rock egressa dos anos oitenta e que estava voltando às atividades; sobre o Carro Bomba, tinha uma história de proximidade conosco por conta da nossa ligação com Marcello Schevano, e também pelo fato de termos interagido bastante em 2006, compartilhando shows, conforme já relatei. Tudo certo, fomos para o show e seria parte das festividades do "Dia Mundial do Rock". Particularmente acho isso mais uma bobagem inventada pelo comércio para alavancar vendas, tipo "Dias das Mães", "Dia da Criança", "Natal" etc etc, mas sem reclamações, se esse era o mote, fomos em frente. Chegamos ao teatro no horário combinado e além dos nossos roadies, só teríamos apoio do nosso iluminador, Wagner Molina, pois nossos técnicos de som, os dois Renatos, Carneiro e Sprada não poderiam auxiliar-nos nesse dia. O jeito seria confiar no técnico da casa, e mesmo ele sendo bom e solícito, por não conhecer o trabalho da banda, claro que não era a mesma coisa de poder contar com nossos técnicos que conheciam bem o trabalho.

Na porta do teatro, havia uma equipe de reportagem da Rede TV. Estavam gravando matéria na Galeria do Rock ao lado, com o mote do "Dia do Rock" e o próprio Calanca avisara-os que haveria um show de Rock no Teatro Olido. Mas os funcionários do teatro não haviam nem chegado para abri-lo e quando perceberam que o processo para montar o palco e poder ter condições de filmar uma banda tocando, demoraria pelo menos duas horas, desistiram. Infelizmente o repórter em questão fez um comentário bastante deselegante e desnecessário ao dirigir-se à sua equipe formada por cinegrafista e iluminador, falando : -"vamos embora, não vale a pena esperar tanto para filmar essas bandinhas"...
Ora, de fato, as três bandas que apresentar-se-iam ali eram artistas do underground, longe da badalação do mainstream e se ao menos uma fosse minimamente conhecida nesse mundo maior, ele teria tido outra postura. Tudo bem... não aparecíamos no "Faustão", mas também não ficamos chateados em não aparecer de forma anônima num programa jornalístico e provavelmente com uma abordagem desdenhosa e jocosa, tratando-nos como retardados rockeiros fazendo "malocchio", caretas idiotas e constrangedoras para qualquer ser humano que ultrapassou a faixa etária dos dez anos de idade...

Um lounge na ala dos camarins do Teatro Olido. Da esquerda para a direita : Ivan Scartezini; Marcião Gonçalves; Luiz Domingues e Diogo Oliveira. Foto de Grace Lagôa

Os camarins do teatro eram amplos, mas bastante bagunçados, pois ali nos dias úteis, costumava ser usado para ensaios de diversas orquestras, entre as quais a Jazz Sinfônica e a Orquestra Municipal de São Paulo, além de diversos grupos de Ballet patrocinados pela Secretaria. Portanto, apesar de serem amplos e muitos, estavam abarrotados de instrumentos e peças de figurino desses artistas que ali ensaiavam costumeiramente. O Luiz Calanca chegou e deu-nos a notícia de que o show não poderia passar das 20 horas, de forma alguma. Ora, como se começaria às 18 h., e seria dividido entre três bandas, além do tempo perdido entre as três fazendo as trocas de set up ?  Era inviável, mas combinamos de enxugar os respectivos set list das três bandas, mas mesmo assim, uma catástrofe estrutural trataria de arruinar toda essa boa vontade...
O clima no camarim era ultra amistoso entre Pedra e Bomba, fora os amigos em comum das duas bandas, que ali estavam conosco, casos de Diogo Oliveira e Marcião Gonçalves. Conhecíamos o guitarrista do Cavalo a Vapor, Luiz Sacoman, muito gente boa, mas os demais componentes da banda eram da sua nova formação, e não os conhecíamos.

Jon Lord, o mítico tecladista do Deep Purple, na Virada Cultural de São Paulo, em 2009

Feito o soundcheck, achamos o som disperso pelo fato de haver pouca estrutura de monitoração e o palco ser enorme. De fato, ali ensaiavam e apresentavam-se orquestras sinfônicas. Contaram-nos que Jon Lord e Rick Wakeman usaram o palco desse teatro para ensaiar suas respectivas apresentações em edições da Virada Cultural de São Paulo. O Jon Lord, questão de poucas semanas antes.

Rodrigo Hid em ação no Teatro Olido, em julho de 2009. Acervo de Fabiano Cruz

Sobre a luz, apesar do Molina pilotá-la, não dava para esperar sua costumeira criatividade, pois não recebeu a cooperação do técnico do teatro e seus assistentes para afinar os spots. Pelo contrário, o rapaz colocou-se numa posição infantil e amadora ao ficar melindrado pela presença do Molina, o que era bastante surpreendente, pois muitos artistas chegam para apresentar-se em teatros ou quaisquer outros espaços e levam suas respectivas equipes técnicas. É praxe entre técnicos de som e luz, cooperar com colegas que trabalham de forma fixa com artistas, mesmo porque, ninguém sabe operar melhor o som e a luz de um artista do que os técnicos que trabalham exclusivamente com eles. Enfim, mesmo sendo tal tipo de atitude bastante amadorística da parte do rapaz, acostumado a lidar com isso, Molina deu de ombros e fez o que podia para dar-nos uma luz legal, mesmo sendo longe do que ele normalmente produzia

  Pedra em ação no Teatro Olido em 2009. Acervo de Fabiano Cruz

Mas antecipei-me, pois antes dos shows acontecerem, havíamos combinado uma ordem de apresentação de comum acordo com todos, incluso o curador do evento, Luiz Calanca. Todavia, um fato novo ocorreu, e o pessoal do Cavalo Vapor pediu para tocar antes, mudando a ordem. Tudo bem, não mudaria nada, desde que não houvessem atrasos, pois o tempo estava milimétrico, e qualquer vacilo de uma banda, atrapalharia as demais. Então, ficou acertado que essa banda abriria, mas faltando poucos minutos o Luiz Sacoman disse-nos que o baixista da sua banda estava com um problema de atraso e demoraria uns minutos para chegar. Naquele impasse, chegamos a cogitar mudar a ordem e isso deveria ter sido feito efetivamente, mas ele insistiu que o rapaz estava chegando e não haveria prejuízo às demais. O Luiz era / é um colega sério, de ótima índole e jamais pensaríamos que estaria prejudicando o andamento do cronograma para tirar vantagem para a sua banda, de forma alguma. Contudo, na prática, já estava conturbando todo o planejamento. Chegou num ponto insuportável, com quase vinte minutos além das 18 horas, e o rapaz da banda que faltava ainda não havia chegado. Já era inviável trocar o set up para outra banda entrar e assim, sugerimos ao Luiz que sua banda começasse imediatamente sem baixo mesmo. Coisa horrível de fazer-se para qualquer artista, entrar sem sua formação completa, mas não havia outra alternativa diante da perda de tempo. O Cavalo a Vapor entrou e estavam chateados com a pressão que o Luiz Calanca fez e admito, nós também exercemos, mas não era nada pessoal, tampouco para atrapalhar a apresentação da banda. Infelizmente o tempo urgia e se havia um culpado nessa história, se bem que isso é muito relativo também, seria o baixista do Cavalo a Vapor, por atrasar num compromisso de sua banda e falando claramente, todos estavam ali na hora combinada do soundcheck, ou seja, horas antes do espetáculo ter que começar. Nós por exemplo, mobilizáramo-nos para estarmos ali por volta das 12 horas. Contrariados, começaram a tocar sem seu baixista. Este chegou lá pela terceira ou quarta música em que estavam tocando, vindo correndo pela plateia, e com o seu baixo no "bag" às costas. Com a banda tocando, arrumou-se, e assim que foi possível, passou a tocar junto. Fica o benefício da dúvida para o rapaz, pois pode ter tido problemas de locomoção, ou estava vindo de um compromisso, curso ou outra coisa qualquer, mas...que culpa tínhamos dessa desorganização interna dessa banda em específico ? E mais um dado, se nós ou o Carro Bomba tivéssemos tocado antes, nada disso teria ocorrido, era simples...
Quando encerraram seu show, entregaram-nos o palco com tempo muito comprometido. Fizemos o possível para fazer a troca de set up a toque de caixa, e cortamos algumas músicas do nosso set list.
O som estava disperso como já comentei, mas vendo nos vídeos, a mixagem do P.A. estava razoável para o público, e devia ter uma boa pressão.

Luiz Domingues atuando com o Pedra no Teatro Olido, em julho de 2009. Acervo de Fabiano Cruz

Tocamos um mix dos nossos dois discos e algumas músicas novas que já estávamos incorporando aos shows. Em dado instante, vimos o pessoal do Carro Bomba na coxia, e o Luiz Calanca sinalizando para encerrarmos imediatamente. O Xando viu e anunciou que faríamos a última música, cortando ainda mais, mas nesse ínterim, vi o vocalista do Carro Bomba, Rogério Fernandes chamando-me perto do amplificador. Fui até ali, e ele disse-me para fazermos o nosso som até o fim, que eles já haviam desistido de tocar...

Rodrigo Hid em destaque. Show do Pedra no Teatro Olido em julho de 2009. Acervo de Fabiano Cruz

Até trocarmos o set up, eles seriam forçados a fazer um show de 10 minutos, abaixo do padrão de um show de choque.


"O Dito Popular", com menção a "Papa Was A Rolling Stone", no Teatro Olido em 11 de julho de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=VJ8kxB45BWA

Lastimável a situação, fiquei muito envergonhado ali naquele momento, embora a culpa não fosse minha ou da minha banda, diretamente. 

 "Rock'n Não" no Teatro Olido em 11 de julho de 2009

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=oWai3hydrEs

Falei para o Xando tocar o show para frente e numa atitude de simpática, ele chamou Rogério Fernandes e Marcello Schevano no palco para tocarmos juntos num improviso, e ali explicou-se ao público que o tempo havia estourado e o show do Carro Bomba estava cancelado. Alguns fãs específicos do Carro Bomba, que estavam na plateia, aborreceram-se, "chiaram" e tinham razão em contrariar-se. Então, o Luiz Calanca surgiu no palco e pedindo desculpas pelo ocorrido, prometeu que numa nova edição desse show mensal, o Carro Bomba tocaria sozinho, sem compartilhar o palco com outras bandas, recuperando seu prejuízo dessa noite. De fato, soube que isso ocorreu mesmo, tempos depois e não surpreendi-me, pois conheço o caráter do Calanca, um amigo do bem, e ele estava muito chateado pelo ocorrido, sendo o curador do evento.

Em suma, três bandas num tempo exíguo não dava... e dali em diante o Calanca passou a marcar só duas, um pouco melhor. Se eu fosse o curador desse teatro, marcaria uma só, para reduzir a zero a possibilidade de constranger o artista no palco com pedidos para reduzir o show, atormentando-o da coxia... ha ha ha...

Leia uma resenha desse show escrita pelo jornalista Fabiano Cruz, para o Blog Alquimia Rock Club :

http://www.alquimiarockclub.com.br/resenhas/570/

Apesar dos pesares, pensando no Pedra, acho que foi um bom show e se levar em consideração o famigerado argumento falacioso do "investimento de carreira", claro que nada mudou na nossa vida doravante, a não ser alguns vídeos postados no You Tube, onde um palco imponente retrata-nos com uma dignidade artística...

   Pedra no Teatro Olido em julho de 2009.Foto : Grace Lagôa

Aconteceu no dia 11 de julho de 2009, um sábado, no Teatro da Galeria Olido, na avenida São João, centro de São Paulo.
A lamentar-se a baixa frequência de público. Num sábado a tarde, com ingresso gratuito, por que apenas 100 pessoas dignaram-se a ir ao Teatro Olido para ver três shows, em plena Avenida São João, com duas estações de metrô muito próximas, ônibus para todos os lados e tempo bom ? Depois ficam de "mimimi" nas Redes Sociais, reclamando que as bandas acabam... e por acaso esses que reclamam, prestigiam-nas ?

                     Foto : Grace Lagôa



Passada a experiência do Teatro Olido, nossos amigos do Tomada e do Massahara convenceram-nos a tocar num show triplex, mais uma vez no Central Rock Bar, de Santo André, no ABC Paulista.
Nada contra a casa, pelo contrário, seus proprietários eram simpáticos e a ambientação Rocker. Mas já havíamos tocado ali anteriormente e tínhamos convencido-nos de que não era conveniente levar nosso show para uma casa que não reunia condições melhores de som e luz, prejudicando nossa execução e na nossa concepção, já havíamos chegado à conclusão de que não valia a pena tocar em condições insalubres, onde as pessoas receberiam nossa música prejudicada pelas condições técnicas desfavoráveis.

No pós-show, com os amigos : Da esquerda para a direita : Allan Ribeiro (baixista do Massahara); Luiz Domingues; Marc Matherson (meu ex-aluno e hoje em dia, 2016, baixista da banda de Próspero Albanese) e Ricardo Schevano (também meu ex-aluno, e baixista do Baranga e Carro Bomba). Acervo de Marc Matherson

Mas, sucumbimos à animação dos amigos e se havia um aspecto positivo em tocar-se nessa casa, certamente era pela sua ambientação Rockers e apesar dos pesares, no show anterior haviam 200 pessoas na casa e relevando a escuridão e o som ruim, demonstraram ter gostado. OK, fomos então ao Central com nossos amigos, na noite de 21 de agosto de 2009, e usamos do mesmo expediente, ou seja, não levamos teclados, pensando no palco de dimensões reduzidas e na falta de qualidade sonora disponível, simplificando, faríamos um set list só de músicas executadas com duas guitarras. O Pedra tinha essa versatilidade por ter esse dinamismo do Rodrigo tocar vários instrumentos, portanto, havia a ala de músicas com duas guitarras e também a dos teclados.

Portanto, vendo pelo lado da praticidade, sim, tínhamos essa possibilidade de fazer shows otimizados. Todavia, o que parecia uma vantagem, também passou a incomodar-nos internamente, pois a banda parecia incompleta se não mostrasse seu potencial todo, por inteiro e esse passou a ser também um argumento contra fazer shows em casas não preparadas integralmente. Brincávamos entre nós, mas havia um fundo de verdade : fazer shows só com as músicas de guitarras, eram shows de 1/2 Pedra... um subproduto de nós mesmos. Enfim, nossa banda era sofisticada artisticamente ao ponto de termos dificuldades de fazermo-nos entender bem sem condições mínimas de produção de som e luz, no entanto, palcos melhores com infra estrutura à altura dessa excelência musical não abriam-nos suas portas, normalmente...

Nos bastidores desse show com Marc Matherson, meu ex-aluno e mais um dos meus ex-pupilos dos quais orgulho-me em ver como grandes músicos na atualidade. Acervo e cortesia de Marc Matherson

Pedra no Central Rock Bar em agosto de 2009.Acervo de Fabiano Cruz

Sobre o show do dia 21 de agosto, houve uma agravante. Ao contrário do show anterior no Central, meses antes, ao menos o público fora bacana, com 200 pessoas na casa, mas desta feita, o comparecimento baixo numa noite fria de inverno, desanimou-nos bastante. Com apenas 50 pessoas presentes, mais som ruim e luz deficitária, era a certeza de que no decorrer da semana voltaríamos à inevitável "DR" na nossa próxima reunião semanal e a gangorra voltaria à tona : tocar ou não em shows com condições inadequadas ?


Promo produzido nessa época, mesclando diversas imagens de shows passados, para a música "Rock'n Não"
Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=r3782u2SXzk



Xando Zupo no destaque, atuando com o Pedra no Central Rock Bar em agosto de 2009. Acervo de Fabiano Cruz

Leia a resenha sobre esse show, escrita pelo jornalista Fabiano Cruz, em seu Blog : Alquimia Rock Clube :

http://www.alquimiarockclub.com.br/resenhas/782/   


                     Hid & Zupo ! Acervo de Fabiano Cruz

Mas notícia boa ao final de agosto era que estávamos organizando-nos para gravar as novas músicas compostas, e entre elas, algumas que já faziam sucesso nos shows. E era mais uma vez, uma safra de ótimo material.



Entretidos com a gravação das novas músicas, passamos o mês de setembro, e boa parte de outubro cuidando dessa produção. Sem poder contar muito com o Renato Carneiro que estava a mil por hora envolvido com os Mutantes, excursionando, e logo mais ele voltaria a trabalhar com duplas sertanejas (foi trabalhar com Bruno e Marrone, onde engatou uma longa permanência), o Xando tomou a dianteira e resolveu bancar-se como operador, tocando a gravação e segundo ele, Renato, nas brechas possíveis viria dar uma escutada e se necessário estabelecer correções e dar dicas.

Confiamos nele, pois nos dois primeiros discos, o Xando acompanhou todo o processo do trabalho do Renato praticamente, e como um aprendiz, absorvera muita informação. Interessado em entender o mundo do áudio; tecnologia; equipamentos e técnicas inerentes, praticamente fez um curso intensivo ao acompanhar tais produções, exaustivamente. Então, sem medo e num ritmo de cooperação para ajudar modestamente, eu e Rodrigo também colaboramos com ações simples, como dar "play e rec" em eventuais overdubs da gravação das guitarras e das vozes do Xando, quando este estaria logicamente impossibilitado de operar, por não ser um "polvo"...
Gravamos as músicas que citei anteriormente, dessa safra nova que surgira em 2009 : "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim"; "Só"; "Pra Não Voltar" ; "Mira", "Amém Metrópolis", e um Hard Rock que foi gravado sem letra e título definido, mas que já tinha uma melodia pronta, portanto, arriscamos gravar para não perder a produção e definirmos a letra a posteriori, Essa canção ganhou letra e título, enfim, todavia seu desfecho eu conto bem mais para frente, pois ela acabou engavetada por um tempo enorme.

Nesse ínterim, recebemos um convite da parte da diretoria do Central Rock Bar para mais uma apresentação. Desta feita, não teríamos a presença de bandas amigas, mas sim duas bandas novatas com a incumbência de abrir o nosso show, num sistema bem definido de "Open Act" e "Headliner". Bem, as condições da casa não eram as melhores, já expliquei isso amplamente, mas sem nenhuma outra perspectiva de show em vista, a não ser uma festival que o Rodrigo havia mandado material desde 2008 e respondera, mesmo depois de que resolvêramos não mais participar desse tipo de festival. Mas, segundo o Rodrigo disse-nos, tal festival não era ligado àquela organização suspeita do centro-oeste do país. Em princípio, pensamos em participar, pois as condições seriam um pouco melhores do que ocorrera em Palmas, mas mesmo assim, não haveria cachet, uma praxe para essa gente, e seria numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. O grande chamariz desse festival seria a presença de um artista internacional de peso, no caso, Glenn Hughes, ex-baixista e vocalista do Trapeze e Deep Purple.

Bem, viajar para tão longe, ainda que o transporte fosse pago por eles, não ajudava muito, e ainda mais, o festival tinha um clima meio "Heavy-Metal", portanto, caindo na real : o que esse esforço poderia render para nós ? Nessa época o Xando passou por um problema de saúde e teve que repousar uns dias, portanto, mesmo que estivéssemos super motivados a participar, não daria mesmo para irmos, e assim cancelamos. Ainda bem que não fomos, pois como dizia um grande guitarrista amigo meu, e que já partiu para "o outro lado" : -"francamente"...
Fechamos então com o Central, e de fato, era a única perspectiva dali, outubro, até o final do ano em termos de shows e para 2010, haviam possibilidades surgindo de coisas melhores, mas nada oficialmente fechado. Portanto, achamos prudente fazer o show nessa casa, apesar dos pesares já amplamente relatados anteriormente.

As bandas que abririam nosso show, eram bastante desconhecidas até nos subterrâneos do underground. Ok, todo mundo tem que começar "do nada", também já passei por essa etapa duríssima de começo de carreira. Chamavam-se "Soulzeira" e "Neoprimatas". Assisti o show de ambas, para prestigiá-los naturalmente. O nome "Soulzeira" já me soou bem e de fato, os garotos demonstravam ter uma influência da Soul Music, mas não com os dois pés dentro da pipa, esmagando a uva da "Motown", como eu gostaria que fosse, porém mais parecendo terem influências mais "modernosas" dentro do universo da Black Music. Mas tocavam bem, isso já era um ponto positivo para eles. Já a segunda, com sonoridades indie, era realmente sofrível, e espero que tantos anos depois esses garotos tenham evoluído, ou desistido. Quando subimos ao palco tímido do Central Rock Bar, confesso, bateu um desânimo generalizado. Nosso show foi com o freio de mão puxado, diante das adversidades, mais casa com pouco público. Aconteceu na noite do dia 17 de outubro de 2009. Não tenho registros visuais desse show, infelizmente. Saindo da ilusão dos festivais, mas pressionados pela escassez de oportunidades melhores, o Rodrigo cavou uma oportunidade de show em uma outra cidade e estado. Seria um show compartilhado com uma banda amiga de Joinville / Santa Catarina, chamada "Os Depira", formada por ótimos músicos que conhecêramos em nosso tempo de Patrulha do Espaço, em nossas andanças por ali, eu e Rodrigo.

Com apoio dos amigos, conseguimos marcar uma noite compartilhada com "Os Depira" em tal cidade, tocando numa casa noturna local, chamada Don Rock. O cachet oferecido era bem baixo, e na ponta do lápis, cobria a despesa da viagem, com uma pequena, modesta mesmo, margem para a banda. Teríamos hospedagem num hotel de categoria (Hotel Mercury), e refeições, mas no frigir dos ovos, era muito esforço para um resultado bastante duvidoso na prática. Todavia, pressionados pela escassez de perspectivas de apresentações, embarcamos em mais uma loucura.

Fomos no carro do Xando, que era um bólido com características de "quase van", e portanto, com um backline mínimo e contando com apoio dos amigos do "Os Depira", ficou tudo acertado.
Viagem bem tranquila, com cerca de 635 Km, o que não chega a ser perturbador num carro confortável, lá fomos nós...

Eu, Luiz Domingues, nas ruas de Joinville, assim que chegamos à cidade no dia 24 de outubro de 2009, fazendo uma gracinha tola para a câmera do Xando. Na frente, Rodrigo e Ivan, caminhando.

Muito bem recebidos pelos amigos de "Os Depira", na casa em questão (Don Rock), ficamos contentes por ver que uma pequena matéria havia saído num jornal local, e de certa forma isso lembrava-me os tempos de fazer turnês com a Patrulha do Espaço.
Mas o Pedra não tinha esse nome, e não gerava expectativa em cidades e estados diversos, caso da Patrulha.


Acima, fotos do "Os Depira" em ação, e seu público acompanhando-os naquela noite

O show do "Os Depira" foi ótimo, super energético, mas devíamos levar em consideração ao compararmos com a reação do mesmo público a posteriori, em relação ao nosso show, que estavam tocando na sua cidade, ante seus amigos e fãs, super acostumados ao seu trabalho, conhecendo sua obra, cantando os estribilhos das suas canções junto com a banda, de forma muito natural. Chegou nossa vez e começamos a tocar com uma energia forte, mas já na terceira canção, o público foi retirando-se do local, de uma forma até constrangedora para nós. Chegou num ponto em que não fazia mais sentido levarmos o nosso set list até o seu final, e encerramos.
Nossos amigos do "Os Depira", contemporizaram, dizendo-nos que a reação fora desagradável, mas era comum ali, e que as pessoas estavam bem embriagadas e costumavam ignorar qualquer banda que não conheciam, dispersando. Infelizmente, isso chateou-nos, é claro, mas na minha visão, era a bilionésima prova cabal de que o problema não éramos nós como músicos, tampouco o material, e muito menos a banda em si. Mas o Xando estava nervoso e fez um comentário questionando o nosso trabalho, e eu discordei dizendo-lhe que achava normal enfrentarmos situações assim, pelo simples fato de sermos desconhecidos. Contudo, nervos à flor da pele, ali começou uma discussão feia e que na rua agravou-se com o Ivan e o Rodrigo também entrando no mérito, e todos alterados tentando achar culpa e culpados, o que foi na verdade, muito desagradável para todos. Já no hotel, com os ânimos mais serenizados, todos pediram desculpas uns aos outros pelo destempero, mas a verdade era uma só : a escassez de oportunidades estava minando a nossa banda e esse processo corrosivo, vinha desde 2007, de fato, quando o embalo de 2006 perdeu-se, e nunca mais o recuperamos plenamente, mas apenas tivemos lampejos de bons sinais. O show foi no dia 24 de outubro de 2009, no Don Rock, em Joinville, Santa Catarina. Deviam ter mais ou menos 80 pessoas no local, na hora que Os Depira fizeram seu show, mas depois, no nosso...


Na viagem de volta, ainda em Santa Catarina, num posto de beira de estrada...

Já no dia seguinte, na viagem de volta, estávamos "de bem" uns com os outros, mas nosso grande problema, permanecia sem solução aparente, contudo poucos dias depois...
Nossa sorte, é que ainda em outubro, receberíamos um convite irrecusável e que tinha toda o jeito que tirar-nos-ia do momento de desânimo que atravessámos, e foi mesmo o que aconteceu...



O jornalista Sérgio Martins de fato havia tornado-se um admirador de nosso trabalho. Já expressei anteriormente o quanto eu achava inusitado um jornalista top de veículo mainstream ter esse tipo de visão de um artista outsider como nós, diante do jogo de cartas marcadas que o jornalismo cultural mainstream faz uso há décadas. Porém, Martins era isento, honesto e sem rabo preso com interesses escusos, tampouco mumificado num conceito paradigmático que engessara o jornalismo musical, no setor do Rock, bem entendido, desde muito tempo.

Ele lembrara-se de nós ao final de 2008, quando convidou-nos a participar de uma mega reportagem que faria para a Revista Veja, o seu veículo, cobrindo a banda durante uma turnê, na estrada etc e tal. Isso concretizou-se em janeiro de 2009, com a viagem acontecendo de fato, conforme já relatei, mas frustramo-nos todos, incluso o próprio Martins, pela não publicação da mesma. Agora, ele abordar-nos-ia de novo, com outra proposta tão excitante quanto, e portanto irrecusável...

Fomos convidados a participar de seu programa audiovisual para a Internet, com a chancela da Revista Veja, chamado "Veja Música".
Ora, programas de música na internet existiam aos montes. Programas para tocar ao vivo, talk-shows e um sem número de outras produções pulverizadas no mundo virtual. Mas um programa da Revista Veja, "eram outros quinhentos", como fala-se popularmente e claro que nosso ânimo subiu imediatamente depois desse convite.

É evidente que aceitamos e uma troca de E-mails foi realizadas nos dias entre outubro e novembro, conversando sobre tal produção.
Tocaríamos quatro músicas e realizaríamos uma entrevista. Outro dado que Martins passou-nos, era que seria uma apresentação acústica. Pensamos em "Projeções" e "Meu Mundo é Seu" como opções naturais para ter um arranjo acústico e de fato tais canções eram praticamente assim nas suas gravações originais e a eletricidade inserida era delicada, não tirando o sabor quase acústico que possuíam.

Conversamos muito sobre a terceira canção e por insistência do Xando, fechamos em "Filme de Terror", alegando que pegaria bem expor nossa versão do clássico de um compositor dito "maldito" da MPB setentista. Ok, um argumento bom, mas uma música de nosso repertório próprio também teria caído muito bem, para mostrar-nos mais como éramos, enfim...

E em relação à quarta música, ainda discutíamos entre nós as possibilidades quando o Martins fez-nos um pedido : -"façam uma releitura de algo que surpreenda-me, com um arranjo de vocês, mostrando sua personalidade, mas sem mutilar a obra, seja de quem for". Pensamos bastante, e já que "Filme de Terror" estava inclusa e representava a MPB, nossas primeiras especulações sobre a quarta música recaíram sobre o Rock internacional. Ora, haviam milhares de opções que agradavam aos quatro, e que certamente influenciaram o Pedra, direta ou indiretamente. Pensamos também na Black Music, uma árvore cheia de galhos a influenciar-nos fortemente, igualmente. Lembro-me que Sitting of the Dock of the Bay", do Otis Redding e "Atlantis" do Donovan, foram bem citadas, entre outras.

Mas não conseguíamos bater o martelo sobre nenhuma canção, embora particularmente eu adore as acima citadas. Foi quando voltamos a falar de MPB e a primeira opção que agradava a todos, sem reservas de um ou outro, era o Clube da Esquina. Muitas músicas que gostamos citadas, e apesar de adorarmos todas, percebemos que seriam escolhas baseadas em clichês...
Xando sugeriu um compositor da MPB que ele apreciava muito, figura mais moderna, dos anos 1990 / 2000, chegou a comentar com Martins, mas deu azar deste detestá-lo... chegou a ser engraçada a reação do Martins falando mal desse artista, e internamente nós sabíamos que a opinião do Xando era diametralmente oposta. Não revelarei o nome do artista, que particularmente eu não acho-o assim tão abominável quanto o Martins considera-o, mas tampouco "genial" quanto avaliava o Xando, aliás, longe disso, bem longe. Mas deixa para lá...
 
Foi quando o Xando citou o Guilherme Arantes e o Rodrigo vibrou imediatamente. Em torno de seu nome, foram sendo feitas várias conjecturas a favor, sobre a trajetória e a personalidade artística do Guilherme, mas também sobre o quanto seria bom para nós tal escolha. Demorou mais um tempo e escolhemos "Cuide-se Bem"...
Trabalhamos num arranjo acústico, e aí cabe destacar que não seria 100% acústico. A ideia de três violões e percussão, primeira opção natural nesse caso, foi descartada de pronto. Isso deixar-nos-ia numa situação de fragilidade musical e não poderíamos desperdiçar a oportunidade de aparecer num veículo da importância da "Veja", nessas circunstâncias adversas.

Na obrigatoriedade de ser "acústico", chegamos à conclusão que tendo a cozinha tradicional, ainda que comedida, seria uma garantia de dar-nos uma base firme, sem ficar leve demais. Além do mais, tocar "baixolão" não é a minha. Aquilo não tem som de nada e o Ivan também não estava apreciando tocar instrumentos de percussão, e aí, acho que fizemos a escolha certa. Já o caso do Xando era ainda mais dramático nesse sentido pois ele é um músico que tem pouca ou nenhuma afinidade com um violão. Claro que ele toca-o, mas toda a orientação profissional dele, por gosto e por formação, fora direcionada para a guitarra, portanto, ele também achava que tocar violão ali naquela apresentação, seria desconfortável e não representaria condizentemente a sua contribuição normal ao som da banda. Portanto, ele tomou a dianteira e comprou um violão elétrico, com um captador, quase um híbrido de guitarra semi acústica e com braço mais próximo da espessura de uma guitarra e cordas leves (acho que 009, corrija-me se eu estiver errado), dava para digitar como guitarra, fazer "bendings" e usar o slide, se fosse o caso.

O único membro da nossa banda, totalmente à vontade com a sonoridade acústica, era o Rodrigo. Grande fã da MPB da velha Guarda; Folk em geral; e de música de raiz caipira, para ele, tocar violão de nylon; aço; ou fazer uso de um de 12 cordas, era mais do que natural e vou além : ele era / é, muito bom nisso. E assim, quando comunicamos que a quarta música escolhida seria "Cuide-se Bem" do Guilherme Arantes, Martins gostou muito da nossa escolha e mostrou-se ansioso por ouvir a nossa versão acústica dessa canção.

Ensaiamos com tranquilidade, pois eram apenas quatro canções.
Então, Martins marcou a data e passou-nos as coordenadas dessa produção. Seria gravada / filmada num bom estúdio localizado na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, no início de dezembro de 2009.



Fechado o repertório e bem ensaiados nessa questão dos arranjos semi acústicos especiais para a ocasião, só aguardamos as coordenadas do Sérgio Martins a respeito da produção do seu programa, Veja Música. Seria realizado num estúdio bem montado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, e na minha avaliação, mediante informações vindas da parte de fontes minhas, tal estúdio tinha como um dos seus proprietários, o tecladista Constant Papineanu, que fora componente do "Peso", banda brasileira seminal dos anos setenta.

Não recordo-me com exatidão da data, mas tenho certeza que foi na primeira quinzena de dezembro de 2009. Uma van disponibilizada pela produção veio buscar-nos no estúdio Overdrive, nosso QG, o que poupou-nos da penosa missão de irmos com carros particulares e desgastar-nos com questões pueris como encontrar estacionamentos nas imediações, por exemplo. O estúdio era amplo, com uma técnica à moda antiga dos estúdios de gravação, com seu maquinário gigante, inúmeros paramétricos e uma mesa daquelas onde basta uma rápida olhada e imediatamente vem à mente um valor de milhares de dólares. A produção da revista Veja alugava tal estúdio para a filmagem, com um suporte de áudio excelente para o artista apresentar-se bem, e também terceirizava uma equipe de filmagem. Quando chegamos, fomos informados que outros artistas estavam filmando sua participação e demoraria um pouco para chegar a nossa vez. A dinâmica ali era de gravar dois programas completos, otimizando a utilização do estúdio e equipe de filmagem.

E os artistas que estavam filmando naquele instante eram Zezé Di Camargo & Luciano, a dupla sertaneja mega mainstream.
Seu staff pessoal era enorme... haviam dado-se ao luxo de levarem um P.A. próprio, para prover a monitoração idêntica a que estavam acostumados a ter em seus shows, com muitos roadies e seu técnico particular. Não critico, pelo contrário, apesar de ser exagerado (bem exagerado, por sinal), pois o equipamento do estúdio era de primeira qualidade, eu, se estivesse no patamar de condição deles, com dinheiro e status mainstream, faria o mesmo, em prol da qualidade máxima do meu áudio.

E haviam os maneirismos típicos de artistas que habitam o mainstream, notadamente nesse universo da música brega-sertaneja, pois um verdadeiro séquito de funcionárias responsáveis pela imagem da dupla, estavam ali trabalhando nesse sentido. Montaram uma sala de maquiagem e cabeleireiro, fora uma verdadeira "lavanderia / tinturaria", onde duas mulheres responsáveis pelo figurino da dupla trabalhavam a todo vapor, passando roupas deles e colocando-as organizadamente em araras, parecendo uma produção de desfile de modas. O desafio de Sérgio Martins à dupla foi interessante. Acusados de serem artistas bregas  aproveitando-se da inocência da música de raiz caipira, caso da maioria dessas duplas que dominam a difusão cultural mainstream há anos no Brasil, Martins convidou-os a falar da verdadeira música caipira e não a "brega music para cornos" que a maioria professa em suas carreiras, e mais que isso, cantarem clássicos desse universo em arranjos absolutamente acústicos e condizentes com as suas tradições brejeiras. O Rodrigo, que entre nós quatro era o que mais interessava-se em música de raiz, foi assistir a performance da dupla, na técnica e voltou dizendo-nos que o som estava super "redondo", como fala-se no jargão dos músicos, denotando estar com qualidade.Terminada a filmagem da performance musical da dupla, e também o seu bloco de entrevista com Martins, aguardamos a lenta desmontagem do equipamento extra que haviam levado. Confraternizamo-nos com os músicos, todos gente boa e sem estrelismos, que bom. Ficamos observando o trabalho da equipe de roadies levando os "cases" para o caminhão da dupla.

Perto de nós, pobre banda de Rock do mundo underground, aquele staff da dupla parecia algo monstruoso a mostrar-nos a disparidade total que separava-nos de forma abissal. Um bom "raio x" do que é ser artista no Brasil, mas não coadunado com a expectativa popular, todavia indo além, mostrando claramente como no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, é impossível ter sua dignidade respeitada fora do mainstream, portanto, estar no "Veja Música" era uma rara oportunidade a que não estávamos acostumados, muito diferente da dupla em questão que habitava / habita o espaço de difusão de massa, há décadas. Nada contra tais artistas, mas apenas pensando como o Brasil é cruel nesse sentido, pois monopólio esmagador é um horror. Não acho que o Pedra poderia ser mega popular como uma dupla sertaneja, pensando no nível educacional e cultural do povo brasileiro, mas deveria haver um espaço mínimo onde artistas outsiders ao gosto popular pudessem atingir seu nicho e ter uma difusão razoável que fosse, gerando possibilidade de subsistência num circuito mediano, mas com solidez sustentável...
Ajeitamo-nos com nossa modesta equipe de apoio, e usando o equipamento do estúdio, sem nenhum problema, fizemos um bom soundcheck e sem direito a pausa, porque com o sinal verde dos técnicos, a equipe de filmagem foi orientada a entrar em ação.

Tocar "Meu Mundo é Seu" nessa circunstância, veio a calhar, pois já tratava-se de uma canção de forte apelo à MPB e praticamente acústica em sua concepção final no nosso disco. Com o Rodrigo conduzindo-a num violão tradicional, com cordas de nylon, a base soava quase como uma Bossa Nova. O baixo e a bateria comedidos, não parecendo nem de longe uma cozinha de banda de Rock, voluptuosa como eu e Ivan formávamos normalmente e com o Xando fazendo praticamente seu arranjo de guitarra, delicado por natureza na gravação original, e agora num violão eletrificado, tal canção soou bastante leve, como queríamos para a apresentação.
Era no nosso imaginário, uma maneira também de mostrarmo-nos à um público imensamente maior que o que normalmente conhecia-nos e acompanhava, de uma forma despojada de preconceitos para quem tem visão deturpada do Rock, e espera uma outra coisa, quando dizemos sermos "rockers". Portanto, uma forma de angariar simpatia e até surpresa para pessoas que acham que "rockeiro" é um cabeludo retardado, que age como um adolescente defasado e expressa-se usando um vocabulário medíocre, fora a pobreza do "malocchio", um paradigma dos mais infelizes, sem dúvida alguma.

Tocamos "Filme de Terror" e mesmo sendo um arranjo bem semelhante ao que fazíamos de maneira elétrica, por ter esse sabor semi acústico, ganhou uma natural aura de "Country Music". Não que fosse nossa intenção e esse estilo não fazia parte do espectro de influências básicas da nossa banda, mas os solos e dedilhados de contra solos que nossos guitarristas executaram, naturalmente trouxe esse sabor à tal execução / performance. Era uma aposta boa na menção à um artista maldito da MPB setentista, e possivelmente "pegaria bem" para a imagem da banda, perante um imenso público novo que conhecer-nos-ia através desse programa.

"Projeções" soou muito bem também, justamente por ter uma forte identificação com a música Folk, emitindo sinais de influências múltiplas dentro desse universo que é amplo por natureza, já que "folk", subentende raiz folclórica e isso, falando como musicólogo que não sou, mas tenho uma pálida noção, abre campo para várias interpretações sobre de onde vem as influências, etnicamente falando. Portanto, fora toda essa questão teórica, na prática, o que importava-nos ali, era a qualidade da canção, seu arranjo, interpretação, e a letra espiritualizada escrita pelo Rodrigo, que possibilitava-nos mostrar ao grande público, outra nuance nossa, denotando ecletismo artístico de nossa parte.

E finalmente, por sugestão de Martins, tocamos uma releitura que  surpreendeu-o, mas que na hora, tocando-a pela primeira vez, não tínhamos noção de como repercutiria. Fizemos um arranjo que privilegiou o uso do slide pelo Xando, dando à canção uma feição diferente de seu arranjo natural da parte do Guilherme Arantes, com o piano na condução básica, e a eletricidade da banda de apoio. Chegamos a cogitar fazer uma versão semelhante à original e o Rodrigo tocaria piano sem problemas, mas prevaleceu a ideia de a executarmos com dois violões.

Ficamos contentes com a performance e o resultado da captura ficou excelente, quando o conferirmos rapidamente na técnica, posteriormente. Na hora da entrevista, vi que Xando e Rodrigo posicionaram-se para conversar com Martins, e ingenuamente pensei que eu e Ivan gravaríamos um outro bloco em separado, para conversar em duplas, visando não perder o foco da entrevista e não tumultuar. Mas, ao término da filmagem do bloco com Xando e Rodrigo, percebemos que não havia tal intenção da parte de Martins e sua produção, portanto, sem problemas, na edição do programa apenas Xando e Rodrigo representar-nos-iam. Tudo bem, o recado seria dado com qualidade. Informaram-nos que a mixagem do áudio da performance ao vivo da banda ficaria pronta em uma semana, mas a edição do programa demoraria mais. Segundo Martins, com festas de fim de ano, a tendência é que o programa fosse lançado só no início de 2010.


Estávamos muito felizes pela oportunidade e nosso agradecimento ao Martins tinha o peso da constatação que sua lisura profissional como jornalista isentava-o totalmente de qualquer especulação de terceiros mal intencionados, acusando-o maliciosamente como um protecionista, por escalar-nos para o programa, por ser nosso amigo. Já o conhecíamos bem nessa altura e se convidou-nos, fora pela sua percepção profissional de enxergar em nossa banda e trabalho em si, qualidade. Isso animava-nos ainda mais, pois estar ali num veículo de imprensa mainstream não era uma oportunidade qualquer, mas praticamente uma deferência. Começamos o ano de 2009 com um forte indício de que a Revista Veja dar-nos-ia um espaço sem precedentes na história da banda, mas que revelou-se em frustração, por motivos alheios à nossa vontade e do Martins, também. Agora, estávamos encerrando o ano de 2009, com outra grande oportunidade no mesmo veículo e estávamos animados com tal perspectiva que fazia com que o fim de 2009 e início de 2010, tornasse-se alvissareiro para o Pedra...





                     Acervo de Fabiano Cruz

O ano de 2009 encerrava-se, e o balanço para o Pedra foi mediano.
Começamos o ano com a grande novidade que seria ter sido enfocado numa mega reportagem da Revista Veja, a maior do país e consequentemente uma oportunidade de ouro para subir um patamar, a pleitear uma chance no mundo mainstream. Mas a matéria não vingou, apesar do esforço que fizemos para poder estar nela, e isentamos o jornalista Sérgio Martins e seu repórter fotográfico, Otávio Dias por essa falha, porque não tiveram culpa alguma nesse processo frustrante, e pelo contrário, também foram prejudicados nessa história. E ademais, jornalismo é assim mesmo, e eles como profissionais experientes podem ter chateado-se na época, mas rapidamente superaram a perda do esforço empreendido.

                     Acervo de Junior Muelas

Mas no nosso caso, como artistas outsiders do underground, a perda de uma oportunidade assim tinha outro significado, naturalmente.
Contudo, resilientes pela longa labuta na aspereza do estágio off-mainstream em que sempre trafegamos (e neste caso, raciocinando individualmente, computo a carreira inteira e a absoluta semelhança que o trabalho do Pedra tinha, em termos de dificuldades, com trabalhos pregressos meus), a vida seguiu sem o glamour de estar nas páginas da Revista Veja. Voltamos ao nosso dilema crônico, quando vimo-nos sem a ilusão da reportagem, voltamos a falar da necessidade de abrir-se caminhos para apresentarmo-nos. Sem um empresário dinâmico e astuto o suficiente para gerir tal necessidade que tínhamos, fizéramo-nos representar por pessoas de boa vontade, porém sem traquejo algum com o show business para tentar entrar de vez no circuito do Sesc. Mas, a despeito de sua boa vontade e esforço, não conseguíamos lograr êxito.

Então, lá fomos nós de volta aos questionamentos internos, numa desgastante sequência de "DR's"("discussão da relação"), que só minavam a já não tão boa convivência interna da banda.
Tocar em qualquer casa noturna, como muitas de nossas bandas de amigos faziam sem parcimônia e enfrentar plateias de bêbados desinteressados para absorver uma música mais cerebral como a nossa, ou só tocar em palcos mais nobres com infra estrutura condizente para a nossa arte mais sofisticada que o Rock festeiro ou peso pesado que os nossos amigos praticavam, e que consequentemente não viam dificuldades para expressar-se e interagir com tais plateias ? Nessa gangorra emocional, a banda oscilava e isso aconteceu muitas vezes em 2009, pois com outras bandas à nossa volta tendo uma agenda mais robusta, frustrávamo-nos em ter tão poucas chances de apresentarmo-nos ao vivo. E quando essa pressão aumentava, decorrente do fato das boas oportunidades mais adequadas às nossas necessidades técnicas que não surgiam, nós partíamos para a experiência de apresentarmo-nos em casas noturnas e aí, ficávamos frustrados com a reação gelada de plateias formadas por rapazes e moças completamente desinteressadas em ouvir uma banda autoral cujo trabalho tinha complexidades inerentes em sua proposta artística e sobretudo, de nossa parte, não havia nenhuma intenção em entretê-los.

Além disso, a péssima qualidade de estrutura da maioria dessas casas era um fator a atrapalhar-nos e frustrar duplamente. Entre a cruz e a espada, recolhemo-nos novamente ao estúdio, e criamos mais cinco músicas de extrema qualidade. Nesse aspecto, 2009 foi bom, não posso negar. E por fim, uma luz no final do túnel ao recebermos um convite irrecusável da parte do jornalista Sérgio Martins, e participarmos de um programa de internet com a chancela da Revista Veja, portanto, uma oportunidade tão boa quanto a que tivemos no início do ano, da parte do mesmo profissional, representando a mesma publicação. E assim encerramos 2009, com canções novas de muita qualidade e prontas para serem lançadas num eventual novo disco e com perspectiva de dar um bom salto na carreira, sendo apresentado à um público muito maior que o do nicho do Rock underground, onde transitávamos normalmente, graças à uma grande oportunidade que tivemos no final do ano, mas que só iria repercutir mesmo no início de 2010.

                         Acervo de Fabiano Cruz
Continua...

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