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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 8 - Happening - Por Luiz Domingues

O início de 2007, foi marcado por uma diminuição drástica de agenda. Todo o embalo bom de 2006, parecia ter esvaído-se e só não digo que a fase foi de total baixa, por conta de ainda termos as boas notícias de que a música "Sou Mais Feliz", ainda tocava numa emissora de rádio, e matérias & resenhas saíam revistas e jornais, fazendo a divulgação do primeiro CD lançado.

A falta de uma empresário ainda pesava, e desprevenidos nesse sentido, não tínhamos como aproveitar o "momentum" positivo das ondas altas, e quando quebravam na areia, para movimentá-las novamente, era quase como um começar tudo de novo. Todavia sem desânimo, aproveitamos para concentrarmo-nos em ideias novas e de fato, uma nova safra de músicas foi surgindo, começando a insinuar um novo álbum, ainda que no início de 2007, fosse algo diáfano...
O primeiro show do ano, só ocorreria no mês de março, mas de uma forma inusitada, quando uma oportunidade apareceu para que em fevereiro fizéssemos um show, sem muito tempo prévio para planejar, mas aproveitamos para colocar em prática, uma ideia que já tínhamos anteriormente.

Pensamos em unir três modalidades artísticas num só espetáculo, num autêntico happening sessentista. E dessa forma, tocamos, dividindo o palco com uma outra banda; mas também com intervenções teatrais com atores; e performances de um artista plástico genial, pintando ao vivo, simultaneamente. Foi corrido, mas acabou tornando-se um dos shows com mais atrativos visuais que fizemos, e sobre o qual, conto a seguir...

Recebemos o telefonema de um funcionário do Centro Cultural São Paulo, convidando-nos a ocupar a data de um artista que repentinamente havia desistido dela. Era bastante em cima da hora, mas aceitamos assim mesmo, e de uma forma arrojada, resolvemos colocar em prática a ideia de fazermos algo além do tradicional show, apesar de ser paradoxalmente ainda mais difícil produzir algo mais sofisticado, com pouco tempo para tal. Convidamos então uma nova banda recém formada, mas por músicos experientes e talentosos, que gravitavam na nossa órbita, costumeiramente.

                      O grande Cezar de Mercês, ex-O Terço 

Eram : Marcião Gonçalves (Guitarra / Baixo e Voz); Caio Ignácio (Bateria / Percussão e Voz), e Cezar das Mercês (Baixo / Guitarra e Voz). Essa nova banda que formara-se, recebeu o nome de "Parabelum", nome que designava uma gíria antiga para identificar a pistola "Luger", muito usada por oficiais nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial.

Outro convidado, foi um grupo de Teatro, chamado "Comédia de Gaveta", com a proposta de fazer dois sketches, um no início do espetáculo, e outro, entre as apresentações do Parabelum e do Pedra, aproveitando a troca de set up das bandas. E a quarta atração, seria intermitente, com a presença ao vivo do artista plástico, Diogo Oliveira, que pintaria diversas telas, num ritmo frenético, deixando o público sem saber para onde olhar, literalmente.

Todo o conceito, evocava os happenings dos anos sessenta, e como há décadas tal concepção estava obscurecida, principalmente aqui no Brasil, tinha tudo para surpreender o público. Mesmo parecendo muita coisa para um curto espaço de duração, de apenas uma hora e meia, realizamos uma reunião com todos os artistas envolvidos, e ficou claro para todos, a necessidade de haver um rigoroso controle de tempo.

Fizemos uma divulgação rápida, correndo contra o relógio de um show marcado às pressas, mas animados pela possibilidade de um espetáculo diferente, que certamente impressionaria o público.
Não era uma grande sacada inovadora a meu ver, pois remetia aos happenings sessentistas, mas essa realidade estava tão distante de nós, que era óbvio que surpreenderia a esmagadora maioria do público.

O Parabelum faria seu show de estreia. Tratava-se de um trio com a proposta de fazer um som aberto, passeando pelo Rock vintage; MPB;World Music; Folk, e até a música étnica. A grande estrela, claro, era o Cezar de Mercês, pela estrada percorrida no Rock e MPB etc. Mas os outros elementos, eram músicos de grande qualidade e versatilidade. O guitarrista / baixista Marcião Gonçalves, é um raro exemplo de multi instrumentista que executa com maestria mais de um instrumento, além de cantar e compor bem. E o percussionista / baterista e cantor, Caio Ignácio, domina a linguagem da percussão, como poucos, além de ser compositor, também.

A ideia era fazer um show curto, pois nem tinham um grande repertório ainda em mãos, e claro, executariam músicas do Terço e da carreira solo do Cezar, o que aliás era esperado pelo público, pois sabíamos que a presença do Cezar, atrairia um público do Terço, visto que há muito tempo ele não apresentava um show ao vivo, sendo que nos últimos tempos, dedicava-se a tocar na noite, em combos jazzisticos e instrumentais. Portanto, estávamos contentes pela inclusão do "Parabelum", que abrilhantaria a noite, certamente.  


Já o grupo de Teatro "Comédia de Gaveta", havia preparado duas sketchs curtas como participação no evento. Abririam o espetáculo, com uma criação coletiva deles, evocando o teatro grego clássico, e fazendo uma ligação com os tempos atuais, e o show de Rock enquanto instituição. E no meio, entre uma banda e outra, prepararam uma sketch mais contemporânea, onde o humor seria a tônica e uma confusão seria criada pela quebra de um LP raro dos Beatles, acidentalmente, causando discórdia entre os personagens. Da parte do artista plástico, Diogo Oliveira, estávamos ansiosos pela sua participação, justamente por sermos sabedores de sua genialidade. Tínhamos certeza de que ele seria um estouro no espetáculo, pela sua incrível criatividade, e pelo fato de ser um grande músico igualmente, além de estar conectado com a vibe sessentista até os ossos, sua interação com a música, seria total, portanto. E chegou o dia do espetáculo...



Era o dia 3 de fevereiro de 2007, e o espetáculo começou na verdade, na fila da bilheteria, pois os atores da trupe "Comédia de Gaveta", improvisaram performances, chamando a atenção das pessoas que compravam ingressos.

Da esquerda para a direita, Luiz Domingues gesticulando alguma observação de última hora, provavelmente sobre troca de lâmpadas, pelo visto; o jornalista Thomas Lagôa (ao fundo); Rodrigo Hid e Xando Zupo, irmanados. Foto : Grace Lagôa

Enquanto isso, os preparativos finais eram feitos no palco, e nos camarins.

                     soundcheck do Parabelum. Foto : Grace Lagôa

Pela magnitude que o espetáculo ganhou, ainda bem que estávamos no Centro Cultural, pois todos os camarins estavam ocupados, e o CCSP tem vários, disponíveis.

As atrizes Lu Vitaliano (usando peruca cor de rosa) e Lucia Capuchinque (peruca platinada), no camarim, com o seu assistente de produção ao fundo. Foto : Grace Lagôa

Isso porque a trupe de Teatro ocupou três camarins, com uma das salas sendo usadas como sala de maquiagem. Mesmo tendo uma participação menor, em termos de tempo em cena, o pessoal da trupe veio com profissionalismo, trazendo muitas opções de figurino, objetos de cena e dois maquiadores, para caracterizar os atores e atrizes.

                     Soundcheck do Pedra, Foto : Grace Lagôa

Lembro-me que eram seis atores, e dois maquiadores no staff.

Backline do Pedra no palco, e Diogo Oliveira no mezanino, ajustando sua instalação cenográfica  

Bastidor descontraído no soundcheck. Da esquerda para a direita : Xando Zupo (de costas); Diogo Oliveira (camiseta branca), e o guitarrista Superb, Carlinhos "Jimi", que estava ali só para assistir e acompanhar a sua namorada na época, a atriz Ana Paula Dias, que participaria do espetáculo, atuando com o "Comédia de Gaveta". Foto : Grace Lagôa

Da parte do artista plástico Diogo Oliveira, estava tudo certo, também. Além de trazer o cavalete e seus arsenal de telas; tintas, e pincéis, o genial Diogo também montou uma instalação belíssima, que serviu como cenário geral do espetáculo. Era simples, mas muito louca, bem no astral "sixties" de um happening, mesmo não sendo uma bandeira desfraldada por ninguém ali, principalmente o Pedra.

Super friends em ação ! Descontração no camarim, com Luiz Domingues; Xando Zupo; Marcião Gonçalves, e Cezar de Mercês. Foto : Grace Lagôa

E da parte do Parabelum, acertaram seu soundcheck, na ordem inversa de apresentação, já ficando com seu set up pronto para iniciar o espetáculo. Nossa produção informou-nos que o público que fazia fila na bilheteria era significativo e diante dessa perspectiva, estávamos animados com o andamento dessa produção, delineando um ótimo espetáculo.

Nosso roadie, Samuel Wagner, preparando os incensos, um bom hábito trazido dos nossos tempos de Patrulha do Espaço e que persistiu no Pedra por algum tempo...Foto : Grace Lagôa

Eu, Luiz Domingues, no soundcheck, timbrando o Fender Precision
Foto : Grace Lagôa

 
Foi sem dúvida, o show que fizéramos até então, mais agitado nos bastidores, descontando o Festival em que abrimos o Uriah Heep, em 2006. O frenesi de atores; músicos e pessoas ajudando na produção, foi intenso. Essa movimentação por si só, já era bastante estimulante para todos, e certamente que tal vibração foi primordial para o sucesso do espetáculo.

Um pouco antes do nosso show, e eu já "paramentado"...Da esquerda para a direita, em pé : Ivan Scartezini; Diogo Oliveira; Daniel "Kid"; Roby Pontes (baterista superb e futuro "Golpe de Estado"). Sentados : Thomas Lagôa; Luiz Domingues; Xando Zupo, e Rodrigo Hid. Foto : Grace Lagôa

Como já disse, houve intervenções improvisadas dos atores, abordando as pessoas na fila da bilheteria, já causando um pequeno frisson prévio.

Lu Vitaliano em ação no palco, e interagindo no mezanino acima, as outras atrizes, Lucia Capuchinque (esquerda), e Ana Paula Dias (direita)

O show começou enfim, e o primeiro sketch do grupo teatral "Comédia de Gaveta", iniciou-se. O mote do sketch, era uma menção à Comédia grega clássica, mas adaptada livremente de forma a aludir ao show de Rock que Parabelum e Pedra fariam a seguir. Os atores usaram maquiagem pesada e indumentária muito chamativa, mesmo com poucos recursos financeiros, pois usaram de muita criatividade para tal.


O texto, que parecia um pouco rebuscado no início, amenizava-se na metade e final do sketch, e apesar da performance ter sido um pouco prejudicada pela falta de bom senso do público, arrancou muitos aplausos ao seu término, e criou assim uma atmosfera muito bacana para o Parabelum entrar e fazer seu show. De que forma foram prejudicados ? Ao contrário da reação típica de um público teatral acostumado a observar tal dinâmica de espetáculos, o público de um show musical não tem essa predisposição natural de guardar o silêncio e a discrição.

Com o Parabelum já a postos para iniciar seu show, as atrizes encerravam seu sketche. Da esquerda para direita : Ana Paula Dias; Caio Ignácio à bateria; Lu Vitalliano; Lucia Capuchinque e Cezar de Mercês no canto direito, segurando um baixo híbrido entre o acústico e o elétrico. Foto : Grace Lagôa
 
Sendo assim, a trupe teatral teve que esforçar-se para interpretar o texto, em meio ao falatório sem noção das pessoas na plateia. Fora o fato de que no início do show, é inevitável o entra-e-sai de pessoas no auditório, provocando um deficit de atenção para quem já está instalado, e a fim de aproveitar o show. Então, desacostumados com essa novidade que estávamos imprimindo, o público atrapalhou um pouco o desempenho dos atores / atrizes, mas nada que fosse tão desastroso. Tanto foi assim, que ao final, os aplausos foram acalorados, deixando-os gratificados.

Haveria uma segunda intervenção da trupe, entre os shows do Parabelum e do Pedra. Paralelamente, nesse início, o artista plástico Diogo Oliveira já estava em ação. Num primeiro momento, estava colocado num canto do palco, com pouca iluminação, propositalmente, para não desviar a atenção do sketch teatral. Mas paulatinamente, a iluminação colocou-o num destaque, e sua atuação pintando telas ao vivo, foi elogiadíssima. Uma primeira e espontânea reação muito legal em relação à performance dele, foi da parte de muitas crianças que estavam presentes. Assim que começou o espetáculo teatral, muitas preferiram não prestar atenção na performance dos atores e saindo de seus assentos, sentaram-se ao redor do Diogo, vendo-o pintar de perto.

            Diogo Oliveira em ação, pintando suas telas ao vivo

Vi essa cena, sentado na plateia, pois nesse momento, havia deslocado-me no escuro para assistir. Aliás, eu e todos do Pedra.
E foi muito bacana ver a performance de ambos, o Comédia de Gaveta e Diogo Oliveira. Quando as atrizes deram a deixa do final de seu Sketche, esse mote evocava diretamente o Parabelum, dando uma ideia de espetáculo alinhavado. Essa foi uma bela solução, pois deu sentido ao happening que propúnhamos. Os atores mal saíram de cena, e o Parabelum já tocava os seus primeiros acordes !

Cezar de Mercês ao vivo, executando seu baixo híbrido, mezzo elétrico / mezzo acústico. Foto : Grace Lagôa

O show do Parabelum foi muito agradável. Pude assistir alguns trechos da coxia, mas não inteiro, pois seríamos os próximos, e estávamos naquele momento, ocupados com os nossos preparativos, naturalmente.

Baterista; percussionista e cantor, Caio Inácio em ação com o Parabelum. Foto : Grace Lagôa

Mas pelo pouco que vi, e sobretudo olhando a reação do público, o show estava agradando em cheio, apesar de ser uma estreia, literal, e haver uma grande quantidade de canções absolutamente inéditas, com exceção de algum material do Cézar, tanto do Terço, quanto de sua carreira solo, que naturalmente promoveu reações muito mais acaloradas da plateia, pelo fator reconhecimento.

Pelo fato do Marcião Gonçalves ser versátil, e o Cezar de Mercês, também, eles revezavam-se entre o baixo e a guitarra, com ambos tocando bem os dois instrumentos. Foto : Grace Lagôa

"Comédia de Gaveta" em ação na segunda sketch, enquanto o Pedra ajustava-se (dá para ver o Ivan Scartezini arrumando sua bateria, mexendo no ajuste do seu surdo). Da esquerda para a direita : Lu Vitalliano (em pé); Ana Paula Dias; Lucia Capuchinque e o ator à direita, infelizmente não guardei seu nome. Foto : Grace Lagôa

Findo o show do Parabelum, os atores e atrizes da trupe "Comédia de Gaveta" voltaram ao palco, invadindo-o performaticamente enquanto os componentes do Parabelum ainda despediam-se do público.

Desta feita, o sketch não tinha o peso de uma evocação à Grécia antiga, mas tratava-se de uma situação de comédia contemporânea.
A novidade de última hora, foi a inclusão do Marcião Gonçalves como participante.

Marcião Gonçalves atuando no sketche do Comédia de Gaveta. Foto : Grace Lagôa

Não tão repentino assim, pois o convite para participar já tinha surgido nos bastidores. O Marcião não é um ator propriamente dito, com técnica e estudo, mas por ter uma personalidade forte, ser extremamente desinibido e muito espirituoso, reunia condições de atuar com atores profissionais, amparado por eles, e sendo criativo, coisa comum para ele. E não deu outra, sua atuação na base do improviso e sendo muito despachado, arrancou gargalhadas da plateia...

O tema do sketch era simples : um grupo de amigos reúne-se na casa de um deles e conversam sobre música. Todos gostam de colecionar vinis antigos, e num dado instante, uma personagem senta-se acidentalmente sobre um vinil pirata e muito raro dos Beatles, e uma confusão generalizada instaura-se, quase chegando ao "pastelão" desenfreado. Muito simples, claro, e mais parecendo uma sketch de programa popular de humor da TV, mas o tempo que dispunham era mínimo, e esse sketch era programado para ser curto, propositalmente, para cobrir a lacuna entre os shows do Parabelum e Pedra, e devidos ajustes no "set up" do Pedra, que entraria em cena a seguir. Funcionou, apesar de curto e simples, pois o público divertiu-se muito com a trapalhada proposta, e dessa forma, nem percebeu o frenesi dos roadies para a troca de bandas.
E o Marcião Gonçalves brilhou mais uma vez, como comediante nato que é...

Hora do Pedra pisar no palco do Centro Cultural São Paulo... Ivan Scartezini alegre pela última dose de vinho antes de ir para o show; Luiz Domingues sentado e Xando Zupo apoiado na bancada do camarim. Foto : Grace Lagôa


 
Rodrigo Hid e Xando Zupo no camarim, no horário do soundcheck
Foto : Grace Lagôa

 
O nosso show estava pronto para começar, e o sentimento no Centro Cultural São Paulo, era de que o terreno estava sedimentado para que fosse um sucesso. Com tudo o que já tinha acontecido nessa multiplicidade toda do happening, o público estava para lá de contente e a vontade. 

Portanto, salvo algum desastre muito improvável, sentíamos que daria tudo certo, mesmo antes de subir ao palco, pela atmosfera criada previamente. E de fato, foi assim que transcorreu, ao menos aos olhos do público, pois de nossa parte, a monitoração estava bem esquisita, muito diferente da que havíamos acertado no soundcheck. Como pode acontecer algo assim ? 

No tempo dos equipamentos analógicos, os técnicos anotavam todas as marcações feitas, com o uso de muita fita crepe e canetinha de "pincel mágico". E na Era digital, isso tornou-se ainda mais fácil, bastando copiar todo o ajuste, criando um "preset".

Contudo, o fato é que no nosso show, tivemos dificuldades, de monitoração, embora soubéssemos claramente que na percepção do público, estava sendo um ótimo show. No meio da canção "Jefferson Messias", o Diogo Oliveira fez uma intervenção performática espetacular, que havíamos combinado previamente.

Bem na hora mais aguda da música, onde imprimimos uma performance psicodélica absolutamente experimental, ele pintou uma tela em poucos segundos, arrancando aplausos da plateia. Duas das atrizes do "Comédia de Gaveta", seguraram uma tela e ele fez traços rápidos, bem no meio do palco, e foi mesmo espetacular.




Ao final do nosso show, voltamos para um "Bis" e músicos do Parabelum, mais os atores da trupe de teatro e o Diogo, participaram.



Tocamos "O Galo Já Cantou", e uma verdadeira festa instaurou-se no palco, com muita gente dançando, inclusive a filha do Ivan, nosso baterista, a pequena Melissa Scartezini que dançou junto às atrizes, mostrando desinibição, e na idade que ela tinha à época (seis anos de idade), deve ter divertido-se muito com a bagunça.

No camarim, o sentimento de que a ideia lograra êxito, era clara. O público adorou esse espetáculo múltiplo. Tudo isso aconteceu no dia 3 de fevereiro de 2007, com 220 pessoas passando pela bilheteria do CCSP.

Abaixo, veja / ouça : "O Galo Já Cantou", desse Show-Happenning que descrevi nos parágrafos anteriores.

Centro Cultural São Paulo - 3 de fevereiro de 2007


Eis o Link para assistir no You Tube :

http://www.youtube.com/watch?v=wcM7NeqUFzk



Passada essa etapa do show / happening, montamos um projeto, com o intuito de tentar vendê-lo em outros espaços. Mas sem um empresário, agente ou contato, mínimo que fosse, ficava muito difícil viabilizá-lo para valer. Concomitantemente, a grande onda na qual surfamos, da metade de 2006 até o fim de setembro,  quebrara-se na praia. 

Quando estávamos vivendo o momento, mesmo já sendo bastante experientes, claro que mesmo percebendo-o, não o admitíamos, pois no calor dos acontecimentos, não pode-se esmorecer, a grosso modo. Mas era um fato, e em consequência direta, ficamos sem perspectivas de imediato em termos de shows, e não havia muito mais o que fazer sobre divulgação do primeiro álbum, a não ser esbarrar nas portas impossíveis de abrirem-se para artistas independentes do underground.

Só restava-nos portanto, mergulhar de cabeça no processo de composição de novas músicas e começar a pensar no segundo álbum. Uma tentativa de agendar apresentações num circuito alternativo, redundou em frustração, pois apresentarmo-nos em casas que não tinham absolutamente nenhuma ambientação para a nossa proposta artística, não fazia sentido. Tocamos no Manifesto Bar, um reduto de apreciadores de Hard-Rock e Heavy-Metal oitentistas, predominantemente, e assim, o sentido de tocar-se numa casa fechada num nicho tão específico, e fora dos nossos padrões, realmente pouco ou nada acrescentaria à nossa escalada. Não sei se posso considerar bom ou mau, o fato de que pouca gente compareceu ao evento, nessas circunstâncias...
Dividimos a noite com uma banda Pop-Rock, chamada "Arsenico", cujo baixista era um ex-membro do Big Balls (Pedro Crispi), banda que o Xando Zupo teve nos anos noventa. De fato, tocar no Manifesto Bar não acrescentou-nos nada, e ficamos com a sensação de um ensaio aberto, tão somente. Foi no dia 1° de março de 2007, com um fraco público de 20 pessoas presentes. Em minha opinião, esse show era um reflexo da "onda quebrada no mar", que mencionei anteriormente. Definitivamente, era a hora de promover mudanças na estratégia, e talvez o melhor naquele instante, fosse um mergulho nas novas músicas. E foi o que fizemos...

Muitas ideias novas já estavam sendo desenvolvidas nessa altura.
Se por um lado, chateava-nos estar sem perspectivas de shows naquele instante, por outro, a motivação pelas músicas novas e iminente preparação de um novo álbum, era por demais animadora.
Músicas como "Longe do Chão", "Letras Miúdas", "Se Você For a Fim", e "Jefferson Messias", já tinham um corpo inicial e passavam por fase de apuro, ainda que não tivessem títulos oficiais à época.

Lembro-me que no caso de "Jefferson Messias", a definição por esse nome para a canção, surgiu alguns meses depois, apenas.
O fato, é que no seu nascedouro, a música tinha a inspiração psicodélica sixties, por conta do riff de teclado, e sobretudo por seu timbre característico, mais parecendo o do órgão Farfisa, do que o Hammond.

Então, nas primeiras elucubrações, a apelidamos de "Jefferson Airplane", numa alusão indevida eu diria, pois a maravilhosa banda de Slick, Kantner  & Cia., não tinha teclados em sua formação clássica, portanto, o apelido mais adequado deveria ser "The Doors"; "Vanilla Fudge"; "Iron Butterfly"; "Young Rascals"...
Bem, independente disso, o importante é que a música foi desenvolvendo-se e definida a parte "A", onde a menção psicodélica americanizada era explícita, o Xando trouxe um riff diferente que tornou-se a parte "B". Aparentemente um riff mais setentista, e de característica de Hard-Rock, na minha ótica, por isso, lembrava-me muito o trabalho do "Captain Beyond".

O grande Lee Dorman, baixista que admiro bastante, tendo tocado em duas bandas que aprecio : "Iron Butterfly" e "Captain Beyond"

E assim, na minha cabeça, tal mosaico supostamente dispare, fazia sentido, pois fiz a conexão "Iron Butterfly / Captain Beyond", e o elo dessa junção era o Lee Dorman, extraordinário baixista que atuou nas duas bandas. Uma loucura experimental seria colocada como parte "C". No início, era apenas uma brincadeira, mas tornou-se oficial quando a proximidade de entrarmos em estúdio, fez-nos perceber que o experimentalismo poderia soar muito bem na gravação oficial.

Roger Waters e seu Fender Precision, outra referência forte na minha vida como baixista e apreciador do Pink Floyd

E nessa parte "C", evoquei o Roger Waters para buscar minha inspiração, com o experimentalismo da psicodelia de Canterbury dando as cartas...

Cezar de Mercês, um ídolo do Rock setentista brasuca, que tornou-se amigo e parceiro de composição numa banda minha...

O Rodrigo começou a trabalhar na linha melódica e escrever a letra, mas num dado instante, travou num trecho. Passou-se um bom tempo até ter uma ideia ousada e salutar.

 
O áudio do disco, de Jefferson Messias :

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=iUEy_onTQj4


Recorreu à um amigo da banda e grande artista que admirávamos, o Cezar de Mercês, que trouxe a continuidade ideal e sugeriu o título oficial da canção, em cima da brincadeira do seu apelido. "Jefferson", que aludia ao "Jefferson Airplane", tornou-se um personagem, ganhando a alcunha de "Messias", como uma espécie de profeta apocalíptico ou coisa que o valha.

O Xando Zupo sugeriu que fizéssemos uma releitura de algum clássico do Rock ou da MPB, para incluirmos nos shows e no novo álbum. Sua argumentação era de que seria "cool" realizar tal empreitada, dando um verniz diferente ao disco etc etc. O Rodrigo pareceu gostar da ideia logo de início, e o Ivan mostrou-se neutro, mas pendendo para o "sim", mais acentuadamente.

Eu confesso que não gostei da ideia em princípio, pois tenho a tendência de não achar necessário para um artista, escorar-se em outro para galgar um degrau na carreira. Não tenho dúvida de que as releituras cometidas pelos Beatles, Stones, Who, Led Zeppelin e Cream (só para citar poucos exemplos), em seus primeiros álbuns, são bacanas, mas gosto muito mais do material próprio que criaram, não tenho nenhuma dúvida, também. Não posicionei-me contra, pois não sou nenhum chato e / ou xiita, que cria casos dentro de uma banda para fazer valer uma opinião, mas se dependesse de meu posicionamento natural, jamais tal proposta seria feita, sequer.

Com a tendência de 3/4 da banda gostarem da ideia, é claro que a ideia vingou e daí em diante, passou-se à "fase B", com as inevitáveis listas de sugestões. Logo descartou-se alguma canção internacional, pois foi consenso que seria muito mais interessante lidar com alguma coisa da MPB. Entre tantas coisas que gostamos da MPB, é nas décadas de 1960 e 1970 que residem nossas predileções, e daí, pensar no "Clube da Esquina" parecia algo muito natural. Mas também poderia ser óbvio demais gravar alguma coisa daquele álbum, ou mesmo canções avulsas do Lô Borges; Beto Guedes; Milton Nascimento e outras estrelas dessa egrégora.

Então, o Xando sugeriu alguma coisa diferente, igualmente setentista e com um pé no Rock, também. Era uma canção do disco do Sérgio Sampaio, mas não "Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua", como seria óbvio. Era uma canção chamada "Filme de Terror". Com letra acintosamente calcada em metáforas cutucando a ditadura em voga (o disco é de 1972, mas talvez o Sampaio a tenha composta em 1970, 1971, ou até antes), era perfeita para fazer o link com outro tipo de horror, não o da ditadura, mas o de uma sociedade com medo de facções criminosas organizadas, como era o panorama da metade da primeira década do século XXI.

Um dos "malditos" da MPB setentista, o grande Sérgio Sampaio

Em termos musicais, a música apresentava uma estrutura harmônica quase de Hard-Rock, com bela melodia e no arranjo original, não havia peso, mas uma pegada Rocker setentista era insinuada, principalmente por um fraseado tercinado, executado pelo guitarrista que acompanhou-o na gravação do LP. Bem, quando começamos a criar o nosso arranjo, preservei essa ideia no baixo, mas com muito mais peso e pegada rocker, usando o John Entwistle como referência e isso ficou tão marcante, que anos depois, um rapaz postou comentário no You Tube, numa das inúmeras versões vivo que essa música tem exposta nesse portal, dizendo que tínhamos "roubado acintosamente" algumas músicas do "Rush", e citou-as.

De fato, há uma semelhança, mas é o tal negócio : eu segui a orientação do arranjo original ao gravar as frases tercinadas feitas pela guitarra, como escuta-se no disco do Sampaio ("Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua", de 1972); e tenho pouca ou nenhuma influência do "Rush" na minha formação musical. Quando faço uma tercina, a referência para a minha memória afetiva é sempre o John Entwistle (The Who), e não o Geddy Lee (Rush). Nada contra o Rush, tampouco o Geddy Lee, absolutamente... 


"Fly By Night" e "Caress of Steel", dois discos do Rush, lançados  nos anos 1970, que tenho em meu acervo pessoal

Até acho legal o Rush e tenho dois discos dessa banda na minha estante, mas não é nem de longe, uma influência importante na minha formação musical, portanto, nesse caso, tratou-se de uma coincidência e convenhamos, que eu saiba, o Geddy Lee não entrou com protocolo no INPI para patentear a tercina...

 
O áudio de "Filme de Terror", do disco :  

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ikraNlVWsT0

Assim nasceu a ideia de termos "Filme de Terror" no nosso repertório...



Outras canções estavam brotando nessa fase em que ficamos sem perspectiva concreta de shows. De fato, era a hora de entrar em estúdio e aproveitar uma nova safra que germinava. Lembro-me que "Longe do Chão", foi desenvolvida a partir das ideias que o Xando apresentou. Toda a parte de composição básica, veio dele, mas alguns detalhes incorporados deram um charme especial à canção.

"The Band", uma banda que adoro e muito dignificou o Folk Rock aberto a múltiplas outras tendências, nos anos sessenta e setenta
 
Por exemplo, o rufo de caixa, que abre a música, foi uma ideia que o Ivan trouxe e deu uma pitada de Folk-Rock à música, dando-lhe uma aura de "The Band". As intervenções de Hammond que o Rodrigo trouxe, a la "Allman Brothers", também contribuíram demais à sonoridade.

E claro, a parte final, com um um desfecho grandioso, dando um cenário perfeito para o solo épico do Xando Zupo. Desde o começo da concepção do arranjo, o Rodrigo também teve a ideia de colocar ao final da canção, alguns elementos psicodélicos, remetendo aos Beatles. Uma colagem de coisas malucas, como vozes; ruídos e afins. Eu nem preciso explicar muito que gostei dessa ideia desde o princípio, e claro que opinei a favor, apoiando-o.

 
O áudio de "Longe do Chão", do disco :  

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=L2Bzzed4pbo



"Se você for a fim", era uma ideia de Funk-Rock, trazida como riff pelo Xando. De certa forma, remetia ao "O Dito Popular", do nosso primeiro álbum, e claro que tinha muito do "Aerosmith", e também do "Deep Purple" na formação do Mark IV.

Com o tempo, a música acabou ganhando uma parte "C", sugerida em ensaio por eu mesmo. Na hora, ocorreu-me a ideia de quebrar o swing funkeado, com uma intervenção Prog Rock. Aquela parte "C" é muito no estilo do "Greenslade", uma obscura banda Prog britânica e setentista, cujo trabalho eu sou fã. Quando a fechamos e passamos a ensaiar para a gravação, o Ivan logo notou que essa parte "C", apesar de ter sido inspirada em Prog Rock setentista, tinha também um ritmo que lembrava muito o baião nordestino.

E não deu outra...quando a gravamos, no penúltimo módulo da Parte "C", em sua ronda final, colocamos zabumba; triângulo e acordeon, dando feição mesmo de baião nordestino. Assim como em "Me Chama na Hora", do primeiro disco, onde colocamos uma batucada brasileira de escola de samba interagindo com um riff de Hard-Rock, desta feita colocamos o famoso "power-trio" nordestino interagindo conosco. Desta feita, porém, não chamamos convidados. O Ivan gravou a percussão típica e o Rodrigo fez a intervenção no acordeon...
O boato sessentista (alô, Carlos Imperial !), de que Luiz Gonzaga teria uma versão de "Asa Branca" gravada pelos Beatles, não passava de uma armação para criar celeuma...

Aliás, leia minha matéria falando desse boato, em meu blog 1 :
http://luiz-domingues.blogspot.com.br/search?q=Beatles+e+Luiz+Gonzaga. 



O áudio de "Se Você For Afim", do disco :
Eis o link para escutar no Yoy Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=AAsr6_ebAL0



Mas que o Pedra mandou um trio nordestino na sua música, isso foi fato...



Outras canções que surgiram, foram "Letras Miúdas" e "Saiu de Férias". Em "Letras Miúdas", de minha parte, criei um fraseado bem no estilo do John Entwistle, logo na introdução da música.
Confesso que gosto muito dessa intervenção contundente logo de início, pois a queda brusca que faço, assim que a melodia começa, dá um efeito dinâmico muito bacana, e ao vivo, isso acentuava-se ainda mais. A letra é muito boa, e as partes "B" e "C"  são muito interessantes por trazerem influências legais de Hard-Rock.
Na minha avaliação, a parte "B" é puro "West, Bruce & Laing". 


E na "C", a lembrança do "Uriah Heep" em "The Magician's Birthday", é grande na minha percepção, principalmente pelas semelhanças harmônicas e claro, pela intervenção do Slide.
No caso de "Saiu de Férias", o riff inicial foi uma ideia que levei à banda, com a influência do "Free", num riff  bem Blues-Rock.


Levei também uma segunda parte que queria que soasse "British Invasion' 64", bem com o estilo do "The Kinks".

O Xando incorporou uma parte "C" muito interessante, absolutamente "Led Zeppelin", e dessa forma a música tornou-se bastante atraente, ainda que minha intenção inicial fosse que ela soasse mais "sixties". Contudo, a letra que ele escreveu, apesar da contundência da sua temática, praticamente estigmatizou a música como algo meio panfletário e confesso, não era o que desejava para ela.

Como o Xando tem uma personalidade forte, e ficou empolgado com o rumo que a letra adotou doravante, acabou sendo gravada nesses moldes, dando alfinetadas nas religiões, exploração da fé das pessoas humildes, e nas superstições decorrentes dessa exploração.
O tema é bom; a tomada de posição é interessante; e eu compactuo com tais visões em linhas gerais, mas por ser sujeita à má interpretação, tornou-se um fardo verificar que teríamos que invariavelmente, "explicá-la"...

Algum tempo depois que o CD foi lançado, uma pessoa perguntou-me se éramos "contra" os evangélicos, por conta dessa música. Claro que não, mas assim como ela ofendera-se achando isso, creio que a música poderia gerar esse questionamento para qualquer religioso, e não só os evangélicos a vestir tal carapuça. Se entendida dessa forma, ofenderia budistas; kardecistas; islamitas; cristãos em geral; judeus etc etc...

E pelo lado artístico, só pelo simples fato dessa dubiedade gerar tal tipo de controvérsia, é claro que já tornou a canção um fardo para a banda, no sentido de que explicar não é função do artista, mas nesse caso, não justificar poderia render antipatias irremediáveis.
Pouco tempo depois, o Xando não desejou incluí-la mais no set list dos shows. Creio ter arrependido-se das colocações feitas, ainda que saibamos que não trata-se de ataques às instituições religiosas, tampouco contra a fé das pessoas. Mas sem dúvida que sua empolgação e teimosia pela manutenção de tal letra como definitiva para a conclusão no disco, ocasionou a sua condenação ao limbo.
Lamento, pois a parte musical é muito legal. Complementando, a voz grave, estilo "Ike Turner", nos backing vocals, é minha. Apreciei muito gravar e cantar ao vivo, ainda que em poucas ocasiões.



 
O áudio de "Letras Miúdas", do disco :

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=HsBqUyoWwaI

 

O áudio de "Saiu de Férias", do disco :

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=YpLtTFxCQk0



"Meu Mundo é Seu" era uma canção que o Rodrigo trouxe pronta de casa. Era o seu lado "MPB voz e violão", que sempre foi forte, mas principalmente no Pedra, tinha muito maior possibilidade de vazão, do que na Patrulha do Espaço, é óbvio. A canção chegou para a percepção dos demais, praticamente como ela ficou conhecida no pós-gravação e inclusão no Pedra II, mas a letra era completamente diferente, e a interpretação da melodia, tinha outro contorno. Em princípio, a letra que o Rodrigo trouxe montada, falava de regionalismos. 

Particularmente, eu tenho uma resistência enorme a esse tipo de poesia, por um motivo muito simples : acho que assume-se um risco imenso de soar falso, pelo simples fato de não corresponder à realidade de quem não nasceu e foi criado num ambiente rural. Uma coisa é ouvir um disco de MPB de um artista folk de Minas, ou do Nordeste e achar bonitas as imagens por ele propostas, falando de coisas eminentemente regionalistas e ainda mais, usando e abusando de palavras que são expressões idiomáticas típicas de tais regiões. Mas outra completamente diferente, é forjar tal poética, falando por exemplo, de frutas; vegetação; e animais com nomes exóticos, que não fazem sentido para quem nasceu e foi criado na urbanidade da cidade de São Paulo, nosso caso.


Na minha ótica, isso soaria falso, denotando apenas que tal influência existe enquanto produto artístico, mas as imagens evocadas, não fazem parte do imaginário do artista, no caso, o Rodrigo e por extensão, nós mesmos. Explanei tal opinião para ele, que entendeu meu ponto de vista, mas defendia o seu, achando não ser nociva a ideia de falar como se fosse um artista interiorano, acostumado com tais imagens por serem de seu habitat natural.

Mas o Xando veio com outra argumentação. Meio que na minha linha, mas divergindo também, e indo por uma via paralela, achava que tal linha de MPB, muito regionalista demais, destoava do "todo" do disco. Era também um raciocínio a ser observado, é claro. Após muitas conversas, onde houve até o risco da música ser descartada por destoar do restante da obra, o Rodrigo aceitou considerar uma nova letra e dessa forma, o Xando acabou trabalhando com algo mais próximo da MPB via Chico Buarque, o que para nós, acredito ter sido muito mais conveniente, não só pela urbanidade, mas sobretudo pelo tipo de abordagem até de um assunto trivial, como é a relação homem / mulher.

Creio que o resultado da letra e a interpretação do Rodrigo nessa canção falam por si só. "Meu Mundo é Seu" é uma das músicas mais queridas do disco e teve / tem no público feminino, uma audiência maciça. Quanto à gravação dela em si, o Rodrigo idealizou uma intervenção simples de percussão. 

Convidamos o percussionista Thiago Sam, que já houvera participado de uma intervenção ao vivo conosco (junto a Caio Ignácio e Roby Pontes, em 2006, no show de lançamento do primeiro disco, em 2006, no Centro Cultural São Paulo). No estúdio, Sam trouxe ideias muito criativas que enriqueceram a canção.




 

Usou uma folha de zinco, que dá um efeito fantasmagórico, mas não lúgubre, na parte "B", além de um "Ovo" (um pequeno instrumento em formato de um ovo de galinha e com material arenoso no seu interior, o que dá ao músico a possibilidade de manipulá-lo ritmicamente como um condutor de pulsação, imprimindo um balanço na música), na condução na parte "A" e um efeito étnico muito bonito com o chamado "Vaso" (tal instrumento oco por natureza e semelhante à um vaso de plantas, produz  matizes de sons secos e de alcance grave e médio, simulando a sonoridade de uma tabla indiana), também na condução geral, dando um ar exótico à canção.

 
O áudio de "Meu Mundo é Seu", do disco :  

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=UtvBQ7sLkQQ



"Rock'n Não" tem uma história retroativa. Foi logo no começo dos trabalhos da banda, que surgiu coletivamente um tema em meio à uma Jam-Session. Parecendo um Funk-Rock, insistimos um pouco na brincadeira, e chegamos a gravar aquela ideia embrionária.
Logo surgiu a ideia de fazermos uma vocalização que lembrava a de bandas Funk-Rock, como "Parliament"; "Funkadelic"; "Sly and the Family Stone", e similares da época, mas a meu ver, aquele tema lembrava mesmo era o "War", a espetacular banda negra com um vocalista branco, ou seja, Eric Burdon, não um cantor qualquer...

Empolgamo-nos com o tema, mas como nessa altura já tínhamos o repertório do disco quase definido, acabamos abortando a ideia de trabalharmos nela imediatamente, para concentrarmo-nos nos preparativos da gravação do primeiro álbum e de fato, não era o momento para perder tempo desenvolvendo uma nova canção.
Ficou então engavetada aquela Jam, ainda com as presenças de Tadeu Dias e Alex Soares ainda na formação do Pedra.

Quando estávamos começando a pensar no segundo disco, alguém  lembrou-se daquela Jam remota do fim de 2004, e quando ouvimos a gravação daquele ensaio, voltou a vontade de desenvolver aquele riff embrionário. Claro que a música ganhou diversos outros atrativos além daquele riff funkeado e cheio de swing. A parte "A", inclusive, sofisticou-se com uma linha cheia de swing, ganhando uma parte "B" e uma parte "C" que tem sabor "Beatle", lembrando bastante "Hey, Bulldog", mas descarto qualquer menção de plágio, mas sim uma inspiração.

Uma pequena intervenção jazzistica que eu sugeri, também ficou muito bonita quando o Rodrigo criou um desenho sofisticado e bastante dissonante ao piano.

E finalmente a parte "D", final, onde baixou o "Grand Funk Railroad" da sua fase Soul em nós, e no maior estilo "Shinin' on", o groove comeu solto. Na letra, o Xando estava bastante chateado com conversas entre jornalistas sobre "hype", "formação de opinião" e "estéticas vilipendiadas ou enaltecidas indevidamente".
Sem dúvida que esse lado obscuro do jornalismo, é um dos tentáculos da máfia que domina a música mainstream e determinante para que muitos artistas sem nenhuma qualificação técnica, estejam na crista da onda em detrimento de gente boa demais a ficar condenada ao limbo eterno da obscuridade. Daí, ter escrito coisas como -"Não to dizendo nada", -"Será que vão me ouvir ?" e outras frases contundentes para reclamar dessa triste realidade, onde não obstante o fato de ser muito difícil almejar um lugar ao sol, na verdade é deprimente verificar que na realidade, tem gente empenhada em não deixar você chegar lá pelos seus méritos e qualidade. Assim, "Rock'n Não " é um grito da parte de quem está farto em dar "murros em ponta de faca", mas sobretudo contra os que ostentam-nas e riem de quem fere-se diante de tais barreiras intransponíveis nesse esquema de cartas marcadas.

 
O áudio de "Rock'n Não", do disco :

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=tseoDRrn_tI


A história de "To Indo a Mil" é interessante, pois diz respeito à uma etapa anterior da minha carreira e a de Rodrigo Hid, também.
Essa canção que era dele há muitos anos, na verdade era uma criação que trouxe logo no início dos trabalhos do Sidharta, banda que fundamos juntos em 1997. Nessa ocasião, chamava-se "Estar Feliz Consigo". Tratava-se de uma música bem ao estilo do R'n'B da velha guarda, estilo "Motown", com três partes bem construídas.

No tempo do Sidharta, foi arranjada nesses moldes da Black Music clássica, e era uma das nossas maiores esperanças de êxito para a carreira da banda, no futuro que projetávamos. Quando o Sidharta fundiu-se à Patrulha do Espaço, essa canção acabou ficando de fora dos planos iniciais da banda, mas particularmente, sempre acreditei no potencial pop que ela possuía.

Tanto foi assim, que eu e Rodrigo providenciamos a gravação de uma demo onde só eu e ele participamos, visando inscrever tal canção no Festival que a Rede Globo lançou em 2000. O Junior não quis entrar em estúdio oficialmente, mas não opôs-se ao nosso esforço isolado e assim, gravamos de uma forma muito caseira, utilizando um port-studio de 8 pistas, e o uso de uma bateria eletrônica. Claro que era uma gravação simples, mas mesmo assim, acredito ter ficado digna e suficiente para o envio ao festival. Claro que não fomos classificados, mas acredito que nem se a tivéssemos gravado oficialmente com a banda inteira e num estúdio de qualidade, teríamos logrado êxito, visto que num festival desses, a
possibilidade das cartas marcadas é grande. E por que mandamos, mesmo assim, sabendo tratar-se de algo quase impossível ? 

Ora, na dúvida, a única certeza que temos na realidade é que só não ganha mesmo na loteria, quem não faz uma aposta...
O tempo passou e essa canção acabou não sendo mesmo aproveitada pela Patrulha do Espaço. Quando o Pedra iniciou suas atividades, o Rodrigo também não lembrou-se dela por ocasião do primeiro disco, mas quando começou a movimentação em prol do segundo, ele resgatou-a da gaveta. Eu entusiasmei-me, é claro, pois sempre apreciei-a e acreditava muito no seu potencial pop. Acreditava inclusive que ela encaixar-se-ia ainda melhor à mentalidade do Pedra, do que mesmo no Sidharta, e certamente mais em relação à Patrulha do Espaço.

Mas a música passou por algumas modificações, principalmente na questão da letra que foi totalmente reformulada e na melodia que ganhou modulações bem diferentes. A estrutura rítmica permaneceu na estética da Black Music clássica, contudo, embora de minha parte, a linha do baixo tenha mudado um pouco, acompanhando a criação do Ivan, diferente do que o Zé Luiz Dinola fazia no tempo do Sidharta.

A letra teve a colaboração do Xando, que sempre gosta de participar ativamente desse quesito, mas teve também uma sutil colaboração da atriz / cantora Lu Vitaliano, que inspirou um frase na construção da letra. Tal inspiração foi considerada vital e daí, seu nome ter sido incluído como parceira na composição. A música entrou enfim no "Pedra II" e tornou-se bem requisitada nos shows da banda.

 
O áudio de "Tô Indo a Mil", do disco :

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=w4KdYfcmjfU



Entre tantas Jams que uma banda de Rock faz naturalmente em seus ensaios, e durante o soundcheck de shows, é muito natural que surjam temas interessantes que tem o potencial para tornarem-se futuras músicas, ainda que na referida jam, só um esboço dessa produção seja aproveitado normalmente. O Pedra nunca foi uma banda que baseasse a sua criação em jams. Na minha carreira toda, isso aconteceu com bastante frequência na Chave do Sol e na Patrulha do Espaço, mas o Pedra, assim como o Pitbulls on Crack, também, foi uma banda onde geralmente os dois guitarristas traziam criações com as quais vinham trabalhando individualmente. No caso do Pitbulls, a criação era 99% da parte do Chris Skepis que compunha músicas em enorme profusão.

Mas, "Megalopole" foi um raro exemplo de música do Pedra que surgiu de uma Jam, inicialmente, mas claro, passou por várias burilações até ganhar o arranjo final que está registrado no álbum Pedra II. Na sua parte "A", o Riff inicial é bem "Acid-Rock" em princípio, lembrando o estilo de Jimi Hendrix. Mas o acréscimo de várias intervenções jazzísticas / fusion, agregam o elemento "Jazz-Rock", fortemente, na parte "B".

Tem um quê de Funk, via "Som Nosso de Cada Dia", também, e na parte "C", que encerra esse tema instrumental, Rodrigo e Xando trabalham um entrelaçamento de vozes de guitarras, que particularmente acho belíssimo. É a única música instrumental do Pedra, desse álbum que construíamos, mas gostamos tanto dela, que incorporou-se ao set list de shows ao vivo e isso foi sintomático em se tratando do fato do Pedra ter nas letras, uma preocupação forte em exprimir ideias etc. 

Portanto, sendo a palavra tão importante para a banda, a unanimidade por "Megalopole" ser sempre executada ao vivo, denota que a consideramos forte e emocionante o bastante para figurar no repertório de shows. A questão do título é uma menção subliminar ao fato de sermos uma banda paulistana e portanto nossas raízes estarem na urbanidade da mega cidade.

 
O áudio de "Megalópole", do disco :  

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=-g6NBDWsR3Q


Em relação a "Projeções", era mais uma canção que o Rodrigo trouxe pronta de casa. Se em "Meu Mundo é Seu" a proposta era a da evocação da MPB antiga, talvez bebendo no samba canção baiano de Dorival Caymmi, por exemplo, "Projeções" tinha outro direcionamento. 

Uma canção Folk, com forte influência da música de raiz caipira do interior de Minas Gerais e São Paulo, coisa de violeiro do interior, eminentemente rural etc. Não sou um musicólogo, mas tenho um pouco de noção dessa matéria, portanto, bastou ouvir as primeiras audições dessa música em estado bruto, apresentada pelo Rodrigo ao violão para a banda, para que na minha cabeça disparasse a ideia de haver uma conexão com o Folk europeu, também.

E se for analisar por esse prisma, certamente o pesquisador vai estabelecer a conexão, igualmente, e passa por uma série de fatores, entre os quais, o fato histórico de que a raiz da música portuguesa e da espanhola, idem, tem forte influência da música árabe, pelos séculos de domínio mouro na península Ibérica. E por conseguinte, a música árabe de uma maneira generalizada, tem raízes na música indiana, portanto, quando se houve música de raiz de violeiros, todas essas percepções vem à tona.

"Gryphon", uma banda britânica Folk-Prog da pesada, nos anos setenta
 
Então, na hora de pensar num arranjo para a banda, de minha parte e do Rodrigo, ficou evidente que tal pegada "Folk" remetia ao Prog Rock setentista. E assim procedemos, buscando a sonoridade caipira de um violão de 12 cordas conduzido pelo Rodrigo com maestria; o baixo Rickenbacker buscando a sonoridade clássica do Prog setentista; e a introdução de uma parte "C" onde o solo do Xando, cheio de efeitos de delay, claramente trouxe um sabor "Steve Howe" à canção.

Outro elemento muito bacana que foi incorporado e foi ideia do Rodrigo, foi o dos backing vocals com uma certa intenção de evocar a sonoridade da música indiana, buscando os chamados "comas", metade da metade de um tom ocidental comum, portanto, trazendo exotismo. E para reforçar tal conceito, na concepção final de estúdio, foi acrescido o efeito de um flanger, para reforçar o exotismo indiano que entrou na música tal como uma pitada de "Curry" na receita final. Outro dado notável, foi a inclusão de uma delicada intervenção de cítara, executada pelo Diogo Oliveira, um artista incrível que transborda talento por todos os poros. 

Não obstante o fato de ter feito a capa e o Gibi HQ que envolve a sua concepção de lay-out, por ser um grande músico, também, abrilhantou a obra tocando cítara em "Projeções". No quesito letra, o Rodrigo também já a tinha pronta desde casa. A temática espiritualista é leve, não panfletária e pode dar margem à uma interpretação não religiosa, portanto, é bastante feliz a meu ver.

Indo além, acho que tem momentos de brilhantismo, com alguns versos que são muitíssimos inspirados e dignos de nota como verdadeiros aforismos, tamanha a sua força. Ao vivo, a tocamos muitas vezes, e com sucesso, sempre. 

 
O áudio de "Projeções", do disco :

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=8nIGYz1Nink


Bem, faltou falar de "Nossos Dias". O amigo Osmar "Osmi" Santos Junior (nada a ver com o locutor esportivo), abordou-nos certa feita e disse-nos que tinha uma canção que poderia soar bem numa interpretação elétrica do Pedra. 

Numa visita à emissora Brasil 2000 FM, o Pedra confraternizando-se com seus principais dirigentes. Osmar é o terceiro da esquerda para a direita, usando camiseta dos Beatles e jaqueta vermelha, e Rubinho, é o último, na extrema direita, ao lado do Ivan, usando jaqueta verde. Foto : Grace Lagôa

Ele é compositor há muitos anos e tinha um monte de canções em parceria com o guitarrista Tony Babalu, mas de uns tempos para cá, estava desenvolvendo um trabalho também com outro parceiro, o compositor e letrista, Tom Hardt.

               O compositor / cantor e instrumentista, Tom Hardt

As canções do Osmar eram ecléticas. Conhecia muitas delas, orientadas na linha do Rock'n Roll clássico, outras puxadas para o Blues e muita coisa influenciada pelo Folk e pela MPB setentista.
Com Tom Hardt, a veia MPB e Folk estava mais aflorada e nessa específica canção que mostrou-nos, a pegada de "Soft-Rock" remetia ao trabalho de artistas desse espectro setentista, como "James Taylor"; "Carly Simon"; "Carole King"; "Cat Stevens"; Jim Croce; "Al Stewart" e congêneres, mas havia um quê de "modernidade" também, via "Jack Johnson" e "Dave Mathews", que eram artistas contemporâneos surgidos aos olhos do grande público nos anos 2000, mas que obviamente bebiam das mesmas raízes de artistas setentistas que citei. Portanto, pareceu-nos uma oportunidade bacana de ter um Soft-Rock que soasse moderno, mas ao mesmo tempo, fosse evidente a raiz vintage, e portanto era confortável e prazeroso para nós.

Outro aspecto interessante, era o fato de que a ideia de ter uma composição criada por um artista de fora dos quadros da banda, que soou-nos algo despojado, digamos. Já tínhamos uma releitura no disco, com "Filme de Terror", mas o Sérgio Sampaio era um artista consagrado, apesar de fazer parte do rol dos ditos artistas malditos da MPB setentista e ser falecido. 

Em "Nossos Dias", era uma abordagem diferente, com a possibilidade do Pedra gravar o trabalho de uma dupla de compositores não estabelecidos no mainstream, portanto, eram artistas como nós, buscando um lugar ao sol. A música propriamente dita tem uma estrutura harmônica simples, mas bem composta e engendrada. Tem um pequeno sabor R'n'B, principalmente na parte "A", onde uma cadência de terça maior busca tal referência. De minha parte, criei uma linha de baixo simples, mas procurando introduzir groove de Soul Music. O dilema era : fazer o balanço, mas contendo-o, sem deixar exagerado e assim, garantindo a simplicidade. Foi o que o Ivan fez também na sua criação à bateria. O Rodrigo, que é um grande violonista por toda a sua influência de MPB e música de Raiz Folk, percebeu que nessa canção o negócio era ser simples e assim, sua condução base é feita com uma batida rítmica, evitando arpejos.

E o Xando, apesar de ser grande fã de James Taylor, demorou para achar seu arranjo de guitarra. A melhor ideia que ocorreu-lhe, foi o uso de harmônicos pululando sobre a canção, trazendo uma improvável influência do "Van Halen" que também é típica referência dele.

A canção ficou bastante interessante com esse arranjo, e com uma duração que era o sonho de consumo para programadores de emissoras de rádio e divulgadores de gravadoras : com míseros dois minutos e uns poucos segundos. Ficou leve, alegre e simples, mas ao mesmo tempo, não destoando das composições próprias da banda, e quem  a ouve, percebe ser uma gravação do Pedra, com suas características habituais.

A letra é poética e leve também, falando de tomada de posição na vida etc etc, portanto tinha tudo para agradar o público feminino principalmente. E o melhor de tudo, soava moderna e poderia agradar fãs de Jack Johnson, mas certamente agradaria apreciadores do Soft-Rock setentista quiçá do Folk sessentista, também. De fato, "Nossos Dias" agradava bastante o público nos shows, e era uma canção recorrente no nosso set list.

 
O áudio de "Nossos Dias", do disco :  

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=fFU6eCDhAVw


Continua...

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