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domingo, 31 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 14 - Uma Volta Estranha - Por Luiz Domingues

    Tocando com Os Kurandeiros, em 2012. Foto : Lara Pap 
 


A vida havia seguido o seu curso, após o final declarado do Pedra, no início de 2011. Logo nos primeiros meses após a dissolução dessa banda, eu recebi vários convites para fazer parte de novos trabalhos musicais e um novo campo de atividade abriu-se quando um Blog convidou-me para escrever matérias periodicamente, fazendo com que tornasse-me seu colunista fixo. Eu sempre gostei muito de escrever, mas por anos obscureci tal tendência e agora, com quase cinquenta e um anos de idade, uma porta abrira-se, e eu finalmente assumiria o que achava que seria, desde os meus oito anos de idade, mas que a música tratara de desviar na minha adolescência. Sim, eu era um escritor, também, e a partir de 2011, antes tarde do que nunca, dei vazão a esse aspecto da minha criação. Daí vieram convites da parte de outros Blogs, a motivar a criação de Blogs próprios e participação em revistas impressas, também.



Luiz Domingues tocando com Kim Kehl & Os Kurandeiros em 2011, no Espaço Cultural Gambalaia de Santo André / SP. Foto : Natália Eidt
Comecei a escrever esta autobiografia a partir de junho de 2011, uma outra ação da qual era cobrado por amigos e fãs de trabalhos realizados anteriormente. Essa parte, falando do hiato entre o fim do Pedra e o início da minha participação na banda Kim Kehl & Os Kurandeiros, está contada mais detalhadamente nos capítulos iniciais dessa banda, onde iniciei participação em agosto de 2011.
Resumindo aqui, quando maio de 2012 chegou, eu estava no Kim Kehl & Os Kurandeiros e acumulando o "Nudes", banda de apoio de Ciro Pessoa, chamada "Nu Descendo a Escada". Além de estar entretido como colaborador de mais de seis Blogs; uma revista; e com dois Blogs próprios a todo vapor, fora a minha autobiografia que dava passos iniciais na sua longa construção desta própria narrativa. 
Luiz Domingues & Xando Zupo no camarim da casa de espetáculos, Avenida Bar, de São Paulo, em 2007. Foto : Grace Lagôa
Foi quando recebi um E-mail da parte do Xando Zupo, e com direcionamento para Rodrigo e Ivan, com o intuito de convocar uma reunião dos ex-componentes do Pedra para um dia útil, no período da tarde. Sem entrar em detalhes, o E-mail dizia ser uma reunião para comunicar um fato envolvendo o Pedra, e na hora, já imaginei que tratar-se-ia do compromisso pendente que deixáramos, em relação a um show compartilhado (na verdade, um micro festival), com apoio da Lei Rouanet, e que finalmente teria sua confirmação. Portanto, tal reunião provavelmente visava entrar nesse mérito e motivar assim que nós tomássemos providências, mobilizando-nos para tal. Não havia porque imaginar outra coisa. 
Pedra em ação na casa de espetáculos Avenida Bar em agosto de 2007. Foto : Grace Lagôa
Quando cheguei ao estúdio Overdrive, após a confraternização com os ex-colegas e dez minutos de conversa sobre reminiscências do nosso passado em comum, o Xando tomou a palavra e falou que nós já havíamos tido a experiência de estarmos no Pedra, e agora de não estar mais, dessa forma, nessa balança onde tínhamos as duas faces dessa realidade, ele chegara à conclusão que era melhor estar dentro e baseado nessa expectativa pessoal sua, queria saber a posição de cada um a respeito, pois gostaria de reativar a banda, principalmente para finalizar o disco engavetado com o fim das atividades em 2011. Rodrigo e Ivan mostravam-se bem propensos a aceitar tal ideia e mais uma vez, assim como já ocorrera por ocasião da decisão que fora tomada pelos três em 2011, para encerrar a banda, minha impressão ali era que eles já estavam combinados sobre a "volta" e eu, seria o último a saber. 
Luiz Domingues no estúdio da emissora Brasil 2000 FM, em 2006. Foto : Grace Lagôa
Xando brincou, recordando-se que eu fui de fato o único contra o fim do trabalho em 2011 e agora, praticamente o que queriam fazer era uma confirmação do que eu pregara naquela época, ou seja, não havia necessidade alguma de anunciar publicamente o final da banda e um período de férias, acordadas entre nós, secretamente, não teria criado nenhum mal estar para a banda e tampouco para os fãs, naquela ocasião. Ter parado por um tempo, não teria sido muito diferente de estar naquela realidade que ostentávamos, com profunda escassez de oportunidades de shows ao vivo, portanto, a opinião pública mal notaria a diferença entre estar no limbo por opção própria ou por falta de chances. 
Luiz Domingues em ação com o Pedra no Sesc Vila Mariana em maio de 2010. Foto : Grace Lagôa
O tempo provou, portanto, que minha concepção na época do "fim" em 2011, não era errada. Não quero arvorar-me como “dono da verdade”, tampouco tripudiar dos colegas, mas entre um leque de atitudes que a banda poderia ter tomado naquela altura, creio que anunciar um final oficial, só trouxe-nos prejuízo. Ponderando sobre isso, em primeiro lugar, a ideia da "volta" não passava pela minha cabeça. Eu não quis acabar em 2011, fiquei chateado, conforme já descrevi, mas absorvi rapidamente a contrariedade, a vida tratou de abrir-me novas possibilidades e... eu estava feliz com as novas portas que haviam sido abertas, e eu entrado. Portanto, quando ouvi o Xando falando, e com a total concordância dos demais, tal proposta não soava-me tão espetacular quanto era para eles. 
Pedra em show no Teatro X de São paulo, em 2008. Foto : Grace Lagôa
Não que eu não tivesse apreço e consideração pela história construída no Pedra, tampouco a amizade e convívio com eles, como pessoas. Ao contrário, o trabalho tem um quilate artístico indiscutível e do qual muito orgulho-me. No entanto, meu sentimento em maio de 2012, não era o de ficar eufórico pela possibilidade da banda voltar, porque eu estava gostando de trabalhar em outras bandas, além de minhas atividades literárias. Dessa forma, minha primeira reação, foi de estupefação, contrastando com a quase euforia com a qual eles tratavam a hipótese. 
Luiz Domingues com o Pedra em 2006, ao vivo no café aurora de São Paulo. Foto : Grace Lagôa
Imaginava que a reunião fosse para tratar de um show pendente, e no entanto, queriam falar sobre uma retomada do trabalho. Então, se houve algo de positivo na minha percepção ali naquele momento, foi a perspectiva de retomar o disco inacabado e o lançá-lo, eliminando uma pendência que eu achava desagradável pelo desfecho que teve com o final abrupto da banda em 2011. Isso foi falado pelos três. Retomar a produção do disco engavetado pela metade, era a meta número um, e por esse aspecto, achei justo fazer parte desse esforço, mas daí a considerar uma volta oficial, não era uma ideia que agradava-me inteiramente. Indo além, o Xando falou que não repetiríamos os erros do passado, e agora com astral renovado, não haveria pressão por resultados, portanto, o que mais contaminara a nossa relação entre 2004 e 2011, certamente que fora a escassez de oportunidades, gerando uma agenda pífia e que por conseguinte, criou um clima de desgaste psicológico e expresso em rusgas, através de inevitáveis sessões de "DR". Vivendo uma nova fase de sua vida, Xando havia parado de fumar, mostrando estar a cuidar muito melhor de sua saúde e isso era ótimo, pois estava fazendo-lhe muito bem, e claro que eu apoiei-o e apreciei muito saber disso. 
Foto promocional do Pedra nas dependências do estúdio Overdrive, em São Paulo, por volta de 2008. Click de Grace Lagôa 
Portanto, não tinha porque não acreditar que a ansiedade que sua personalidade forte gerava anteriormente, estivesse muito apaziguada e nesses termos, o Pedra poderia trabalhar na conclusão desse disco pendente, com tranquilidade, sem pressões e revivendo os bons tempos iniciais da banda, entre 2004 e 2006, quando a convivência interna era serena, sem tensões. Mesmo assim, eu não estava mais com aquela vibração de outrora e dividido, nutri sérias dúvidas sobre essa "volta" dar certo, mesmo que aparentemente fosse só pelo objetivo de concluir o disco. 
Luiz Domingues em ação com o Pedra no Teatro Olido de São Paulo, em 2009. Foto de Fabiano Cruz

Minha estupefação inicial e ceticismo, contrastava com a alegria dos três em voltar com a banda, e repetia portanto o padrão da época do final da banda em 2011, só invertendo as expectativas, mas novamente eu sentindo-me isolado, perdendo sempre em votações de resoluções, num placar de três a um para eles...
O Pedra posando no andar do camarim do Sesc Vila Mariana em 2010. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Xando Zupo; Ivan Scartezini e Rodrigo Hid. Foto : Grace Lagôa
Diante desse turbilhão, caberia de novo o Pedra na minha vida ? Por respeito à obra e aos companheiros, aceitei o convite em fazer parte dessa volta, mas nitidamente não era a mesma coisa de outrora em minha vida, portanto, ao contrário da expectativa dos companheiros, não tinha o mesmo efeito de alegria que eles estavam experimentado por tal volta das atividades. Era de certa forma, a repetição do placar de 2011 : três a um para eles, de novo...
Foto realizada no dia dessa reunião de proposta de volta do Pedra, visando finalizar o álbum interrompido de 2011. Em pé, Ivan Scartezini e Xando Zupo. Sentados : Luiz Domingues e Rodrigo Hid. Foto : Grace Lagôa
Quando a foto tirada no dia da reunião, foi publicada na rede social Facebook, suscitou muitas especulações. O Xando, que sempre adotou postura mercadológica de fazer promessas em público em nome da banda, esboçou intenção de usar a foto como motivo para tal, mas desta vez eu pedi-lhe para não precipitar-se, não escrevendo nada. Daí, ele apenas postou-a, dizendo de forma fortuita que encontráramo-nos naquele dia para tomar um café, numa reunião de ex-colegas, meramente fraternal. Menos mal dessa forma, sem falar em "volta", "disco sendo retomado" ou qualquer outra coisa. Todavia, como já disse, a especulação foi grande, e muitos comentários postados deram conta da criação de uma boataria. Pelo inbox, muita gente procurou-me perguntando, inclusive jornalistas, mas eu não confirmei nada, apenas disse que talvez houvesse uma possibilidade, mas aquela reunião fora motivada para um café e conversa entre colegas de uma banda extinta. 
Luiz Domingues no dia do último show do Pedra em 2011, no Melograno Bar, de São Paulo. Foto : Sandra Lozada
Outro aspecto, ainda falando da reunião, tive que deixar bem claro que aceitava fazer parte desse projeto, mas que não sairia de forma alguma das demais bandas onde estava tocando. Não havia nenhum cabimento deixar os Kurandeiros, e o Nudes, supostamente pelo fato do Pedra estar voltando à cena, e nessa altura do campeonato, com quase cinquenta e dois anos de idade e trinta e seis de carreira, minha concepção romântica de fidelidade à uma só banda, fator que carreguei a vida toda com rigidez ferrenha, já não existia mais. Adaptado à realidade moderna e graças aos próprios Kurandeiros que desdobravam-se no Nudes, também, praticamente, eu já não raciocinava nesse parâmetro ético antigo, nessa altura. Feitas tais considerações, os primeiros passos dessa volta das atividades do Pedra formam marcados pela análise do material que tínhamos a ser resgatado para a possível finalização do disco interrompido. E nesse caso, o Xando sinalizou que poderia aproveitar músicas que havia composto e gravado durante o hiato pós fim do Pedra / 2011. De fato, ele havia criado um combo chamado "Mulad Trem", com a presença do Ivan Scartezini; além de Marcião Gonçalves no baixo, e o extraordinário, Diogo Oliveira na guitarra, além de dois músicos que eu também conhecia e havia interagido nos tempos iniciais de minha entrada nos Kurandeiros : a cantora Renata "Tata" Martinelli, e o saxofonista, André Knobl. Ambos músicos super talentosos, interagi muito com os dois em vários shows dos Kurandeiros entre 2011, e o início de 2012.  
"I Was a Telling Lie", de James Taylor, na interpretação do Mulad Trem. Ensaio gravado no estúdio Overdrive em 2012. https://www.youtube.com/watch?v=aV6jeCO5flQ

Tal banda gravou algumas músicas e chegou a lançar um material bacana para a internet, filmado ao vivo e com ótima qualidade de áudio e imagem, mesclando com algumas releituras, inclusive de música internacional. Pelo que vi, parecia que queriam buscar mercado para tocar na noite, fazendo um repertório inspirado no Soft Rock de qualidade, via James Taylor, Carly Simon e afins. Bem, desse trabalho, Xando cogitou pensar em resgatar algum material que encaixasse-se para o novo trabalho do Pedra. Rodrigo também tinha algumas canções novas compostas, e dessa leva haveria de sair uma nova safra para dar início aos novos esforços. Assim, entre junho e outubro, passamos a resgatar a rotina de anos anteriores, com o ensaio semanal as segundas, um dia estratégico para uma banda cujos membros tocavam em outras bandas, e geralmente tinham as quintas; sextas, e sábados comprometidas com apresentações pela noite, e a novidade era que agora eu também estava nesse rol. 
Como primeira ação concreta anunciando uma volta das atividades do Pedra, o Xando colocou-se no estúdio e resgatou o especial ao vivo que fizéramos no final de 2010. Boa ideia, pois ele ficara bom na época, tecnicamente falando, e com o fim das atividades da banda, um mês depois, ficara engavetado desde então. Aproveitando o embalo, refez o contato com o amigo Osmar "Osmi", e engatilhou um lançamento oficial desse material na Rádio Brasil 2000 FM, e claro, marcando publicamente agora, a volta da banda ao cenário artístico. Isso ocorreu em 3 de julho de 2012, e eis abaixo o vídeo desse especial :
O especial ao vivo, "Overdrive Sessions". Gravado em dezembro de 2010 no Overdrive Studio. Gravação e Mixagem : Xando Zupo & Renato Carneiro. Lançado em julho de 2012. 
Eis o Link para assistir / ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=QFoGy5qZQMU


Eis o Link para assistir / ouvir no Vimeo :
https://vimeo.com/73821006


Outra novidade, o jornalista Dum de Lucca, que escreveu em vários veículos mainstream anteriormente, e há anos tinha seu Blog super acessado dentro do portal da Revista Dynamite, era um entusiasta da nossa banda, declaradamente. E assim que percebeu que estávamos anunciando uma retomada dos trabalhos, apressou-se e realizou uma entrevista.

Eis o link para ler tal entrevista na íntegra :
http://dynamite.com.br/jukebox/2012/07/o-pedra-continua-rolando/


Mas contrariando a conversa inicial de maio, onde falou-se que a banda observaria uma postura "amena" nessa volta, quando a realidade mostrou-se apenas com ensaios e contando com poucas novidades positivas em termos de divulgação, o velho fantasma da escassez de perspectivas x irritação interna, começou a sondar-nos. Infelizmente, quando a reunião de maio realizou-se, e falou-se que "daqui para frente, tudo vai ser diferente", tal afirmação não havia convencido-me inteiramente. As pessoas não mudam assim tão radical e rapidamente, portanto, internamente eu sabia que se as oportunidades surgissem, esse novo "Pedra Peace & Love" poderia levar a carreira assim, mas em caso contrário, as velhas tensões voltariam, fomentadas pela ansiedade e certamente intensificadas se a agenda fosse pífia. Portanto, lá por setembro / outubro, uma sinalização começou e a tensão de 2007 / 2010 parecia estar voltando, como um velho fantasma a assombrar-nos. Mas eis que o fator sorte um dia sorriu para nós...
Um telefonema vindo de uma unidade do Sesc, e motivado por um fato quase inacreditável, parecia estar sinalizando que os ventos dessa volta soprariam de outra forma, a nosso favor e afastando a tenebrosa tensão interna. 

Disse anteriormente que uma notícia de cunho inacreditável ocorrera lá pelo final de outubro, dando-nos alento. No entanto, o fator que parecia aleatório numa primeira visão, tinha seu fundo de lógica, é claro. O fato foi o seguinte : quando lançamos o CD Pedra II, nos idos de 2008, muitos materiais foram levados para diversas unidades do Sesc, visando oportunidades para shows. Em alguns casos, mais de um material chegou na mesma unidade, porque muitas pessoas prontificaram-se a ajudar-nos desde então, gerando repetição de abordagem. Contudo, as únicas respostas concretas que tivemos naquela fase inicial da banda, ocorreram em duas oportunidades, uma no Sesc Piracicaba, no interior do estado; e outra no Sesc Vila Mariana, na capital. E como já expliquei anteriormente, os produtores do Sesc, criaram um paradigma, há muitos anos, dando conta de que todos os artistas que apresentam-se em suas unidades, necessariamente são enquadrados em "projetos temáticos", e raramente o show ocorre só pela força do nome do artista, e / ou de sua obra. Dentro dessa lógica, um projeto que criaram no Sesc Consolação, ligando música e história em quadrinhos, favoreceu-nos quando algum produtor viu nosso material de 2008, numa pilha de outros tantos materiais, e ali prevaleceu o formato HQ que Diogo Oliveira criara para a capa desse disco. Em suma, era inacreditável que um material de 2008, tivesse ficado esquecido na mesa dos produtores dessa unidade, e agora ligassem-nos, coincidindo com o fato da banda estar de novo na ativa, ignorando completamente o fato de que a banda acabara em 2011, e ficara mais de um ano inativa...
Seria um sinal ? Bem, misticismo a parte, o contato da produção do Sesc Consolação chegou em ótima hora, quando a tensão começava a instaurar-se nos bastidores da banda e, abriu um caminho para uma sucessão de outras boas novas que fizeram com que o final de 2012, e início de 2013, fosse animador para nós.
Fechado o show, além de ensaiar para uma apresentação após tanto tempo, a única preocupação seria a de produzir um áudio / visual com o tema da HQ para justificar a inclusão da nossa banda no projeto temático proposto. 
Tal incumbência foi facilmente providenciada pelo grande Diogo Oliveira, que produziu um “promo” a ser exibido durante o show, com imagens geradas a partir das próprias ilustrações que criou para a capa do CD Pedra II. Um verdadeiro golpe de Jefferson Messias... ou seja, um improviso meramente para cumprir uma obrigação burocrática, e mais uma vez provando que os tais "projetos" que os produtores do Sesc tanto gostam de inventar, são pura balela, pois na maior parte dos casos, a conexão entre artista e tema, não batem... não é preciso criar subterfúgios para atrair público.
Fechado e sacramentado, o show do Sesc Consolação estava marcado para o dia 19 de novembro de 2012. 

Numa questão de sorte e azar, uma produtora de rádio que eu conhecera na Rede Social Facebook, chamada Silvana Castro, havia encantado-se com o Pedra, que não conhecera anteriormente, mesmo sendo experiente no meio radiofônico, e tendo trabalhado em emissoras como a 97 FM (fora produtora do locutor "Jota Erre", uma figura mítica ali, e que também trabalhara na 89 FM), e igualmente na Brasil 2000 FM. Silvana abordou-me no Facebook e perguntou se nós aceitaríamos conceder uma entrevista na Rádio CBN... ora, é claro que sim, e isso era a parte da sorte em questão. O azar, é que a entrevista só pode ser agendada para depois do show do Sesc Consolação, portanto, não deu para ser utilizada como ferramenta de divulgação do show em si... mas falo disso depois...

Acima, uma foto minha de 1978 e abaixo, uma cartaz outdoor de anunciando show de Gilberto Gil na velha unidade do Sesc Vila Nova 
A unidade do Sesc Consolação, para quem não conhece São Paulo, é uma das mais antigas dessa instituição, e tem muita história. Tal sede da Rua Dr. Vila Nova, no bairro da Vila Buarque, centro de São Paulo protagonizou shows históricos em suas dependências (quando era chamada de Sesc Anchieta / Teatro Pixinguinha), e nos anos setenta, eu mesmo assistira ali, inúmeros deles, absolutamente incríveis. Ali assisti Zé Ramalho; A Cor do Som, Caetano Veloso; Hermeto Paschoal; Alceu Valença; Bendengó; Papa Poluição; Made in Brazil; Jackson do Pandeiro; Jorge Mautner etc etc, entre 1977 e 1979, além do Festival Universitário de MPB de 1979, da TV Cultura, que revelou Arrigo Barnabé; Premeditando o Breque e outros. Portanto, eu estava honrado em apresentar-me num espaço que tinha tanta história, e que significara muito para a minha formação cultural, nos idos dos anos setenta, quando inebriado estava em construir uma carreira artística, seguindo os passos de todos esses artistas que ali assisti. Os tempos mudaram, os shows não ocorriam mais no antigo Teatro Pixinguinha, como naquela década, e agora o espaço reservado para tal finalidade musical era quase intimista, num anexo perto da antiga quadra de esportes (onde também vi vários shows).
Tivemos um problema sério para estacionar, pois não deixaram-nos usar o estacionamento da instituição. Com nossos carros abarrotados de equipamentos e poucas vagas de rua num dia útil, naquela região super povoada de São Paulo, foi um pequeno sufoco para descarregar o backline da banda, e assegurar vagas para os respectivos automóveis de nós quatro. Após esse pequeno estresse, conseguimos finalmente colocar nossas coisas para dentro da unidade e ali, mediante a clássica burocracia da instituição, até chegar ao palco, foi uma sucessão de elevadores, corredores e funcionários sempre criando empecilhos para a circulação rápida que necessitávamos. 
Bem, quando o backline finalmente chegou ao local do show, vimos que os técnicos estavam ali esperando pela nossa montagem pessoal. Equipe terceirizada, eram sujeitos com postura alheia, quase denotando falta de foco. Sei lá por que motivo, pareciam contrariados por alguma questão interna entre sua empresa e o Sesc, e claro que não tinha nada a ver conosco, mas mal respondiam nossas perguntas básicas e assim, preocupamo-nos com o desenrolar de um soundcheck tenso e pior ainda, uma operação deixando a desejar na hora do show. 

Rodrigo Hid & Xando Zupo em ação com o Pedra no Sesc Consolação. Novembro de 2012. Foto : Fabiano Cruz
 
Mas aos poucos, a tensão entre eles foi dissipando-se e o Xando que é sempre expansivo com estranhos, foi minando a resistência soturna desses tipos, inserindo-os em piadas e "causos", com o gelo derretendo. Não ao passo de tornarem-se nossos "amigos", mas estabelecendo um clima ameno para garantir um bom andamento no trabalho. Mesmo assim, o soundcheck foi muito lento e cansativo, porque o técnico estava nitidamente perdido sobre quais medidas tomar para coibir microfonias das mais desagradáveis. Mesmo com o Xando tendo boa noção do assunto e dando-lhe dicas técnicas e básicas, o rapaz parecia nervoso e não dava jeito nas situações mais complicadas e com um P.A. de pequeno porte que ali encontrava-se, alguém mais experiente teria resolvido muito rapidamente. Um funcionário dessa empresa terceirizada confidenciou-nos que o rapaz que operava o som, era um novato, um ajudante e que aspirava ser técnico, mas estava ainda a fazer aulas como aprendiz. Por azar nosso, o técnico titular não iria e o novato é que faria a operação da mesa / mixagem. Nossa sorte, foi que o nosso técnico, Renato Sprada, que não iria trabalhar conosco naquela noite, apareceu repentinamente para assistir o show e mesmo em cima da hora, com o público já para entrar no local do show, fez algumas correções básicas, inibindo apitos insuportáveis e que destruiriam o show.
Luiz Domingues em ação com o Pedra no Sesc Consolação, novembro de 2012. Foto : Fabiano Cruz

Soundcheck cansativo ao extremo, quando fomos ao camarim, já faltava pouco para o início do espetáculo. Não deu para ter aquele relaxamento adequado de ante-show, mas tudo bem. Quando entramos, e a primeira música do show era "Megalópole", tinha programado-me para iniciar o show usando o Rickenbacker. O nosso roadie, Daniel "Kid", era muito experiente e trabalhava comigo e Rodrigo, desde as nossas respectivas passagens pela Patrulha do Espaço. Ele sempre preparava os meus baixos e equipamento, desde 2002. Contudo, assim que iniciei a tocar o riff em uníssono com as guitarras de Xando e Rodrigo, meu instrumento estava completamente desafinado. O que tinha acontecido ?? Ele afinara-o momentos antes; o ar condicionado do teatro estava ameno e as tarraxas do meu instrumento estavam em perfeitas condições de normalidade, sem nenhuma avaria. Nunca descobri, mas é patente que algum sabotador foi lá e desafinou de propósito. Por vandalismo ? "Trollagem" ? Bem, rapidamente sinalizei para o Daniel auxiliar-me, fazendo a troca de instrumentos com a música em curso e no segundo módulo, eu já estava de volta à música tocando, desta feita usando o Fender Jazz Bass. Mais para o meio do show, voltei a usar o Rickenbacker novamente e ele estava perfeito, portanto, o começo com duas cordas completamente desafinadas fora obra de uma sabotagem misteriosa. Só podia ser essa a explicação. Por quem ? Para que ? Nunca descobri...
Pedra em ação no Sesc Consolação, 19 de novembro de 2012. Primeira foto de Fabiano Cruz e as duas posteriores, de Grace Lagôa 
O show foi bastante emocionante pela carga de comoção que havia depositada em torno da expectativa do público presente. A lotação máxima era diminuta naquele micro teatro de bolso, mas além de esgotada, muita gente ficou sem ingresso e quando anunciamos o show, teve uma reação de apoio e regozijo por parte de fãs que estavam contentes com a nossa volta à cena artística.
Um trecho muito curto mas bastante significativo da música "Estrada", capturado pelo baixista superb, Norton Lagôa, que estava na plateia. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=YvqOyJDRToY

"Filme de Terror" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=5pqZq4QAWhE


Muitos fãs antigos da banda estavam presentes, em estado eufórico. Houve até um instante de improviso e que foi muito bonito da parte do grande Cezar de Mercês, nosso amigo e parceiro de composição, que num hiato de silêncio do show, levantou-se de seu assento e fez um discurso inflamado enaltecendo a nossa banda. Foi muito inspirador; emocionante e bonito para todos nós, isso eu asseguro.
"Longe do Chão" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Filmagem de Kico Stone. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=lhYyIUQxvUs
Aqui, a versão na íntegra de "Estrada". Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ivMlHWRgcLE 
 "Sou mais Feliz" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube
https://www.youtube.com/watch?v=6qxfOwzMAXk
"Luz da Nova Canção" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=zim0mjtfEHE
"Só" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=TyJvBX-xzXE


As músicas foram sendo executadas com bastante segurança, e a banda mostrou estar de volta à velha forma.
"Jefferson Messias" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=v4ErQdDf2ik 
"Projeções" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=S4v9VyJnq7g


Sobre o set list, era bem mesclado com músicas dos dois discos anteriores, mais os singles de 2010, e algumas novas que já estavam incorporando-se, caso de "Luz da Nova Canção" (curiosamente em parceria com o Cezar de Mercês que citei acima), e "Os Teus Olhos", uma delicada canção composta pelo Rodrigo. Um amigo que eu conhecera por ser apoiador dos Kurandeiros, chamado Kico Stone, apareceu e film-maker de primeira linha (eu costumava brincar com ele, chamando-o de "D.A. Pennebacker do Rock Paulistano"), filmou e tornou-se doravante um admirador do Pedra, também, sempre filmando e postando trechos de nossos shows, no seu canal de You Tube.
"To Indo a Mil" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=xOIoMeKzCaw
"Nossos Dias" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=SZ1I7vF7e2k
"Letras Miúdas" no Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=h1mE2NWuf5E

Apesar de ter transcorrido num pequeno espaço, esse show foi marcante para a banda e para o público que assistiu-o. Isso deu uma injeção de ânimo para a banda, sem dúvida e aliada a essa apresentação, outras boas novas precipitaram-se numa cascata até o final do ano, dando-nos um grande alívio, já que a velha tensão e o dilema clássico do Pedra sobre tocar em qualquer lugar ou esperar para tocar em lugares com boas condições, apenas, estava ameaçando-nos novamente...
Todos os vídeos acima sugeridos, foram produzidos e editados por Michel Camporeze Téer e Fausto Oliveira (com exceção de vídeos de Kico Stone e Norton Lagôa, destacados no início), fãs e amigos abnegados da banda desde os primórdios do Pedra, tendo assistido quase todos os shows que fizemos desde 2006, na primeira fase do trabalho. As câmeras da filmagem, foram feitas por eles, também e com apoio de Nazir Correa; Vera Mendes e Alessandra Oliveira. Sesc Consolação, 19 de novembro de 2011, segunda-feira, e com sessenta pessoas na pequena arquibancada (lotação máxima, acreditem...) : esse foi o show da "volta" do Pedra.
     Resenha muito bacana desse show, escrita pelo jornalista Fabiano Cruz em seu Blog, Alquimia Rock Club. Eis o Link abaixo :
http://www.alquimiarockclub.com.br/resenhas/3730/
No camarim do Sesc Consolação em 19 de novembro de 2012. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Rodrigo Hid; Xando Zupo e Ivan Scartezini. Foto : Grace Lagôa
No camarim do pós-show, a euforia era geral entre os membros da banda e os fãs que abordaram-nos. Mas eu, particularmente, já não nutria o mesmo sentimento. Longe de minha intenção ser chato e cortar o prazer alheio, mas eu não conseguia sentir o mesmo pela banda, mantendo-me numa postura não tão esfuziante, muito mais comedida que a dos demais colegas. Um sintoma emblemático ? Creio que sim, lamentavelmente...

Passado o bom show realizado no Sesc Consolação, tivemos, poucos dias depois, a oportunidade de uma entrevista numa emissora de rádio centrado no jornalismo 24 horas por dia, mas com espaço para revistas culturais em sua programação. Era o caso do programa "Sala de Música", que fizemos na Rádio CBN de São Paulo, uma emissora pertencente à Rede Globo, portanto operando em rede nacional. Era um contato da radialista Silvana Castro, conforme já frisei anteriormente e que gentilmente trabalhou nos bastidores para oferecer-nos essa oportunidade de divulgar o trabalho num âmbito muito maior do que geralmente atingíamos. O apresentador desse programa, o radialista João Carlos Santana, fez contato comigo via rede social Facebook e colheu informações prévias para preparar a pauta. Muito simpático na abordagem virtual, deu-me a impressão de que a entrevista seria descontraída e boa para nós. E foi. Eu e Xando fomos ao estúdio da CBN no bairro de Santa Cecília, no centro de São Paulo, e tal emissora usava as antigas instalações da Rádio Excelsior e também da Rádio Globo. Muito bem recebidos pela equipe de produção da emissora, fizemos na verdade uma entrevista gravada, pois ela só iria ao ar no sábado subsequente, com uma repetição no domingo, já avançando pela madrugada de segunda-feira. Conversa muito boa, o radialista João Carlos Santana foi muito simpático, deu para dar o recado, acredito, mas na hora que ouvimos o programa editado, tivemos uma pequena decepção, pois as músicas que tocaram, não foram executas na íntegra. Tudo bem, imagino que uma emissora desse porte, operando em rede nacional e centrada no jornalismo, não poderia dar-se ao luxo de tocar muitas músicas, mesmo em se tratando de uma revista cultural, mas cortar quase pela metade também...faça-me o favor...
Eis abaixo o vídeo dessa gravação da entrevista, e era uma tendência cada vez mais frequente no radialismo, usando o recurso da internet e das redes sociais para "vitaminar" a atração e claro que isso também foi bom para nós.
Eis o Link da entrevista no programa "Sala de Música", na CBN, de novembro de 2012 (mais que foi ao ar no início de dezembro), para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=SSvYO4gYtc4


Outra boa novidade : o artista plástico Diogo Oliveira criou na mesma época, um clip institucional para divulgar a agência de publicidade onde trabalhava, e usou nossa música "Megalópole", como trilha sonora do material de divulgação. Absolutamente criativo, como é de seu feitio, no vídeo Diogo aparece fazendo uma pintura em uma parede, nas instalações da agência, usando nossa música, como “BG”. Incrível, como tudo em tudo o que faz normalmente, Diogo mais uma vez ajudando-nos, pois o vídeo fez um bom barulho nas redes sociais.

Assista esse vídeo no Vimeo :
https://vimeo.com/user6199714
 
O próximo passo para a banda, seria um show no projeto "Harmonizasom", a ser realizado no Bar Melograno, e com curadoria de meu velho amigo, Laert Sarrumor. Foi muito curioso estar marcado para participar de mais uma edição do projeto "Harmonizasom", no Bar Melograno, porque em pouco mais de um ano e meio antes, o Pedra havia apresentado-se no mesmo local e dentro do mesmo projeto, encerrando sua trajetória e agora, estaria de volta com carga total, aparentemente motivado por um bom astral. Laert Sarrumor recebeu-nos de forma radiante, pois ele era um entusiasta declarado da banda, desde os seus primórdios e ficara nitidamente frustrado quando o Pedra fez um show no seu projeto, anunciando fim de atividades. Dessa forma, quando soube através do Rodrigo, que a banda estava voltando às suas atividades, encaixou-nos no projeto, cuja curadoria era sua e de sua esposa, Marcinha, que era / é a empresária do Língua de Trapo, a colocar assim seu prestígio à disposição e dessa forma, obtivemos uma repercussão midiática muito interessante, em se considerando tratar-se de uma apresentação intimista de bar. 
Até nota na coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de São Paulo, tivemos, e convenhamos, sair ali não é nada fácil, primeiro que não trata-se de uma coluna eminentemente cultural, mas híbrida entre esse campo e o social, portanto, ela mais fala de vernissage e lançamento de livros, focando em socialites que prestigiam tais eventos mais centrados nas camadas mais nobres da sociedade. Bacana também que estávamos inseridos num rol de artistas mais próximos da MPB, e essa era uma pretensão do Pedra desde o seu início, portanto, considerávamos salutar abrir novas portas e expandirmo-nos além do mundo do Rock underground, onde habitávamos normalmente. 
Eu e minha clássica implicância com a mídia... ora, quem é "Xandoo" ? Pronuncia-se "Xandu", tipo "Xanadu", ou seria com sotaque anglo-americano, "Quizánduu" ? Ha ha ha... esses jornalistas...
Havia dois dilemas técnicos sobre essa apresentação no Melograno : o espaço exíguo e o P.A. minúsculo. A casa era muito bonitinha em suas instalações e decoração, mas a infra estrutura para apresentações musicais ali era adequada apenas para apresentações intimistas de voz & violão e não queríamos fazer uma apresentação acústica. Portanto, reduzimos o equipamento ao mínimo, levando menos da metade do backline e assumindo que não microfonaríamos a bateria e os amplificadores. E sobre a questão do espaço, quando chegamos com nosso equipamento ainda no período da tarde, o gerente colocou a mão na cabeça, a imaginar onde colocaríamos tudo aquilo e era menos da metade do nosso backline...
Com "jeitinho", fomos arrumando as coisas e claro que mesmo ocupando muito mais espaço do que os artistas que ali apresentavam-se normalmente, usariam (creio que pelo menos quatro mesas para clientes foram desmontadas para ocuparmos o espaço). Sobre o equipamento, o Rodrigo conhecia bem o técnico da casa e tudo ficou armado para usarmos o parco P.A. apenas para as vozes, assumindo sonoridade de ensaio, com bateria in natura, e instrumentos com amplificação comedida.
Bem, apesar de todo esse caráter minimalista, conseguimos preservar os timbres e a pegada da banda, aliás corroborando a tese de que dava para dar o recado com qualidade, sem necessariamente ter a pressão de som, um pecado que o Pedra cometeu na sua carreira como um todo, infelizmente. Quando o Laert chegou, além da festa natural por ver-nos e comemorar que a banda voltava e finalmente numa situação muito diferente da anterior que fora melancólica, também ficou pasmo por termos acomodado a banda para uma apresentação elétrica, naquele espaço que conhecia bem como curador do projeto, mas também como artista, tamanha a quantidade de vezes em que ali apresentara-se com o mini combo reduzido do Língua de Trapo, chamado : "Os Três do Língua".
As pessoas foram chegando e fiquei contente em verificar que havia muitas que ali compareceram pelo Pedra, e não habitues da casa ou do projeto do Laert, tão somente. Mais que isso, a apresentação foi ótima, mantendo um padrão de dinâmica muito disciplinado, por conta do P.A. muito fraquinho que ali existia e nessa economia sonora, quem ganhou foi o público, que recebeu uma apresentação fina, de extrema qualidade sonora e mesmo sendo nós, uma banda aberta para transitar entre a MPB; Black Music, e Folk, a nossa amálgama primordial sempre foi o Rock, portanto, era nossa pegada habitual.
Ao final do show, Pedra posando com o meu velho amigo e companheiro de duas jornadas (Boca do Céu e Língua de Trapo), Laert Sarrumor
Ficamos muito contentes sobre a sonoridade e o resultado, com o público apreciando muito a noitada. Uma presença ali deixou-me muito feliz, pois fez com que naquela noite eu estivesse reunido com companheiros de muitas jornadas da minha carreira. Fora o fato natural de estar com Rodrigo Hid na formação do Pedra e este sendo um companheiro de Sidharta e Patrulha do Espaço, e do baterista Carlinhos Machado estar na plateia (tocávamos juntos desde 2011, nos Kurandeiros), foi um prazer ver o guitarrista Aru Junior entrando no ambiente para prestigiar o show, acompanhado de sua esposa, Rosane e o grande Gerson Conrad, eterno Secos & Molhados. Aru já era guitarrista da Trupi, banda de apoio de Gerson Conrad, cujo baterista era também Carlinhos Machado. Portanto, lá estava eu com o Pedra, mas convivendo com Laert Sarrumor, com quem trabalhei no Boca do Céu e Língua de Trapo; Serginho Gama & Paulo Elias Zaidan, do Língua de Trapo; Aru Junior (Terra no Asfalto), e Carlinhos Machado (Kim Kehl & Os Kurandeiros).
"Cuide-se Bem", ao vivo no Bar Melograno, em 17 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=zO6WdsJKhLs


Noite agradável portanto, ocorreu no dia 17 de dezembro de 2012, com cerca de cem pessoas no local e absolutamente lotado pelo tamanho diminuto da casa. Mostrando que o final de 2012 sinalizava bons ventos, tínhamos um novo show em São Paulo em quatro dias e para o Pedra, que tinha uma dificuldade histórica em manter agenda sustentável, era mesmo um grande indício. A próxima apresentação seria um show compartilhado com outras duas bandas, e fora um convite vindo da parte do baixista do Tomada, Marcelo "Pepe" Bueno.
A ideia seria um show triplo na casa de shows, Gillan's Inn, naquela época localizada na Rua Caio Prado, bem perto do cruzamento com a Rua da Consolação, portanto, para quem não conhece São Paulo, um local muito boêmio, perto de uma infinidade de teatros e casas noturnas, na região da Praça Roosevelt, centro da cidade. Além de nós e o Tomada, tocaria também o “Balls”, uma boa banda paulistana de Hard-Rock, cuja sonoridade lembrava-me o trabalho de bandas como o “Knock-Out”, dos anos oitenta e o “Blues Riders”, em plena atividade. As instalações da casa eram bem interessantes, com decoração muito próxima de pubs britânicos, e o proprietário, um rapaz chamado Luiz, sabia exatamente a medida do que tinha em mãos e queria para sua casa. Com cultura rocker, sua ideia era louvável em abrir espaço para bandas autorais, mas claro que também abrigava bandas cover na sua programação. A casa tinha uma estrutura de som e luz, bacana, mas havia um problema estrutural ali e que não era culpa de seu proprietário : no palco, haviam duas vigas que faziam parte da sustentação daquela edificação, portanto, aquilo limitava tremendamente o palco, fazendo com que qualquer banda ficasse com espaço cênico muito prejudicado. Hoje em dia, e acho que desde 2014, salvo engano de minha parte, a casa mudou-se para outro espaço, e ostenta agora um palco de padrão de teatro, com infra estrutura muito melhor. 
Pedra no mínúsculo palco da antiga sede da casa noturna, "Gillan's Inn. 21 de dezembro de 2012. Fotos de Naty Farfan
Mas nesse dia, não havia outro meio e realmente a banda, aliás não só nós, mas as demais, sofreram com o espaço limitado com aquelas inconvenientes vigas. O show foi marcado para a véspera de uma data que estava sendo comentada na mídia com força, por ser supostamente o fim do calendário Maya, sinalizando que o mundo, supostamente “acabaria”. Brincando com o fato, toda a nossa divulgação foi baseada nisso e o mote "Venha passar seu último segundo de vida ouvindo Rock", foi usado de várias maneiras. A brincadeira espalhou-se pela internet, e o chamado "último show de Rock de nossas vidas" atraiu bastante gente. Gostei muito da presença de queridos amigos ali presentes. Meus amigos, o poeta Julio Revoredo e sua esposa, Regina; Edil & Marilu Postól; Fernando Minchillo, enfim, uma confraternização da minha velha sala de aulas, dos anos noventa.
Sobre os shows, gostei bastante dos riffs do Balls, uma banda que eu conhecia apenas pelo nome, mas ali constatei seu potencial, que apreciei muito. O Tomada vivia fase fantástica nessa época, e sua apresentação foi bem azeitada, gostei bastante, também. E o Pedra vivia um momento ótimo, sem nenhuma pressão interna, com astral leve, e praticamente repetindo o padrão da apresentação anterior, com a diferença de que tocamos de forma mais Rock, com maior pressão do que o show intimista do Melograno. O único inconveniente foi que por conta do palco muito limitado, suprimimos o uso dos teclados, fazendo um set list somente executando músicas com duas guitarras. Tudo bem, isso tecnicamente não atrapalhava-nos, mas artisticamente era um prejuízo, pois mostrava só uma faceta da nossa banda e nós
tínhamos outras.

 
"To Indo a Mil" no Gillan's Inn, 21 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=0G2TB_plKNw  
"O Galo Já Cantou" no Gillan's Inn, dia 21 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=422T3e4V5v8

Set list mais curto que o normal, mas não necessariamente de choque, demos um ótimo recado naquela noite.


"Se Você For a Fim", no Gillan's Inn, dia 21 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=X9xp5zW16fc  
"Estrada" no Gillan's Inn, no dia 21 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=QADVZVD8GhU


Ao final, Oswaldo Vecchione, o baixista e histórico líder do Made in Brazil, apareceu, tendo assistido o final do nosso show.  
"Pra não Voltar", no Gillan's Inn, no dia 21 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=nio8kz1mc4A  
"Os Teus Olhos", no Gillan's Inn, no dia 21 de dezembro de 2012. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=b6gcDZhT5HY

O mundo não acabou... nenhum cataclisma ocorreu na virada do dia 21 para 22, e particularmente, nunca achei que ocorresse algo tão radical pela questão do fim do calendário Maya. Acredito sim, que uma mudança pode ter começado ali, mas de forma sutil, mais pensando em questões energéticas. O show foi bom, viramos bem o ano de 2012 para 2013 e no embalo, o ano de 2013 começou com boas novas. Dia 21 de dezembro de 2012, com cento e cinquenta pessoas no Gillan's Inn, o Rock aconteceu e nenhum mega meteoro chocou-se com o planeta Terra... só as vigas do estabelecimento atrapalharam-nos. O ano de 2013 entrou, e o embalo de fim de ano em 2012, dera-nos uma tranquilidade para pensar nas gravações, finalizando o disco inacabado de 2010, enfim. 

Mas os ventos positivos pareciam abrir novas frentes. Logo que o ano virou, recebemos o convite do Sesc Belenzinho para uma apresentação em seu belo teatro. Com cachet muito digno, num patamar que achávamos ideal pela nossa qualidade artística, é claro que interpretamos tal convite como uma comprovação de que uma nova fase estava chegando para nós, pois uma meta gerencial nossa, desde os primórdios da banda em 2004, era entrar de forma definitiva no circuito do Sesc, apresentando-se em suas unidades periodicamente de forma sustentável, como muitos artistas médios que conhecíamos e estavam nessa rotina segura há anos. Tendo tocado no Sesc Consolação há bem pouco tempo atrás e agora recebendo o convite para tocar no Sesc Belenzinho, claro que essa impressão criada pela dedução lógica, contaminou-nos positivamente. Mas como sempre, apesar do convite espontâneo, havia um mote, como era uma praxe velada entre os produtores do Sesc na sua maneira de trabalhar. Falo da insistência paradigmática em aterem-se aos famigerados “projetos temáticos”. E nesse caso, seria uma espécie de festival nostálgico sobre os anos setenta, e nesse contexto, haveria shows de bandas dessa época, e bandas novas que vibrassem nessa estética. Por sorte, o programador do Sesc Belenzinho era o mesmo que agendara-nos em 2010 na unidade do Sesc Vila Mariana, e enxergava em nós, a similaridade com a estética setentista. Mas honra seja feita, o curador do festival seria o Zé Brasil, líder do histórico Apokalypsis, banda setentista que estava a todo vapor desde a metade dos anos 2000, com uma volta das suas atividades. Com a confirmação da data, Cida Cunha, uma pessoa amiga da banda e que muito esforçou-se para ajudar-nos no ano de 2010, entrou em ação. Aliás, ela já voltara a ajudar-nos em relação ao show do Sesc Consolação, sinalizando que retomaria sua função como produtora e com pretensões a tornar-se uma empresária, um dia, e sendo assim, foi atrás da tradicional burocracia massacrante que o Sesc exige para ali trabalhar-se. Animado com a perspectiva de um show num teatro de grande estrutura, o Xando contratou uma equipe de filmagem, visando fazer um DVD do show, e com o intuito de postar no You Tube, a seguir. Tratava-se de amigos, no caso o film-maker Capo Neto, e que teria como assistente, um velho amigo nosso e Rocker histórico, o vocalista Nando Fernandes, muito famoso no mundo do Heavy Metal principalmente e certamente uma das grandes vozes do Brasil nesse segmento. Nando é um tremendo amigo legal, que eu conhecia desde os anos oitenta e até relacionei-o numa história paralela no capítulo dos meus trabalhos avulsos, envolvendo uma gravação que fizemos no estúdio Mosh, em 1997.
Preparamo-nos para fazer um bom show, também pensando nessa filmagem, mas sem grandes novidades no set list, apenas seguindo o padrão dos shows anteriores, ou seja, uma mescla dos dois discos; mais os singles de 2010, e algumas músicas novas que estavam surgindo e foram sendo incorporadas ao repertório, caso de "Os Teus Olhos", aliás, uma bela canção de autoria do Rodrigo.
"Longe do Chão" no Sesc Belenzinho em 9 de fevereiro de 2013. Filmagem de Kico Stone. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=fkiHcip0jvw 
"Cuide-se Bem" no Sesc Belenzinho em 9 de fevereiro de 2013. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=fBoRlqkAwT4 
"Luz da Nova Canção", no Sesc Belenzinho, no dia 9 de fevereiro de 2013. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=zKfgKL8ZFbk

O único senão para esse show do Sesc Belenzinho, era o fato dele ter sido arrolado para o sábado de carnaval. Tudo bem, nesse tipo de circunstância sempre alguém apressava-se em argumentar que o público de uma banda de Rock não gosta de carnaval e pelo contrário, tocar num feriado assim tornar-se-ia um trunfo para nós, ao invés de um empecilho. Mas também havia a questão de que muita gente que não aprecia o carnaval, aproveita o feriado para viajar, ou seja, um argumento forte e plausível, também.
Paciência, absorvemos o fato sem problemas, e em nada diminuiu a nossa animação para fazermos o melhor show possível. Chegamos ao Sesc um pouco antes do horário estabelecido, mas apesar daquela unidade ser novinha em folha e gigantesca, mais uma vez os engenheiros pensaram em tudo e de fato é uma unidade deslumbrante a atender os moradores do bairro, mas pouco pensaram na estrutura para receber artistas... o fato de não haver um estacionamento reservado, com acesso fácil aos dois teatros ali presentes, é para lamentar-se e isso acontece em quase todas as unidades, devo observar com pesar. Então, quando tentamos parar no estacionamento aberto ao público em geral e sendo cobrados por isso, outro absurdo, fomos informados que estava lotado e que deveríamos aguardar em fila...
Pedra em ação no Sesc Belenzinho, em 9 de fevereiro de 2013. Fotos : Grace Lagôa
Claro que isso já era estressante ao extremo, pois estávamos com quatro carros particulares abarrotados de equipamentos e isso era surreal pelo incômodo gerado, e sem contar o fator segurança e a perda de tempo logístico que prejudicava-nos tremendamente numa situação assim. Por fim, abriram uma “exceção” e indicaram-nos uma entrada de serviço, mas que era exígua, e não dava para estacionar nesse pequeno pátio que servia apenas para a retirada de lixo da unidade. Tal espaço tinha um elevador de serviço enorme, desses de padrão de elevador de carga de aeroportos, do tamanho de um container e ali descarregamos com certa pressão da parte de funcionários, por não ser uma prática usual no seu protocolo. Nenhum funcionário tratou-nos mal, mas era impressionante como algo que deveria ser a rotina da unidade, foi tratado como algo extraordinário, fora do padrão de serviço deles e gerava uma tensão desconfortável e que respingava sobre nós. Por fim, quando já retirava o meu carro, um funcionário "aconselhou-me" a não deixá-lo naquela face da unidade, situada na Rua Tobias Barreto, que dá de frente com o cemitério da Quarta Parada. Segundo ele, havia muita ocorrência de roubo de automóveis ali... ora, sei que o rapaz era só um funcionário, mas como não ficar chateado em ir trabalhar num lugar daquele tamanho e não haver uma mísera vaga de estacionamento assegurado para o artista fazer seu show despreocupado ? E claro que eu sabia que em frente ao cemitério da Quarta Parada havia uma bandidagem básica, pronta a atacar pessoas que visitavam tanto o Sesc quanto o próprio cemitério. Enfim, resignei-me, e parei ali mesmo a confiar que horas depois sairia à rua e veria meu bólido intacto, a esperar-me...
Pedra em ação no Sesc Belenzinho, em 9 de fevereiro de 2013. Fotos de Gace Lagôa
Já preocupado em chegar ao palco e começar a supervisionar a montagem do palco, nesse dia tínhamos uma equipe de apoio ligeiramente mudada. Daniel "Kid" não podia trabalhar conosco, e assim, contamos somente com Samuel Wagner da equipe de roadies tradicionais, e dois novos componentes : Ivan Pieri e Jurandir "Jura". No caso do Ivan Pieri, tratava-se de uma amigo de longa data e que também era músico (baixista), e que especializara-se na profissão de roadie e naquela altura, trabalhava com artistas do mainstream, ligados ao pop rock, como Sandy & Junior e a banda do filho de Fábio Junior, o Fiuk. No caso do "Jura", este era ainda mais experiente. "Jura" era roadie e braço direito de Guilherme Arantes desde os anos setenta e fora roadie dos Secos & Molhados no seu auge de 1973 / 1974, e recuava até antes, tendo sido roadie nas montagens teatrais de "Hair" e "Jesus Christ Superstar".
Ele foi comigo no carro, contando-me histórias incríveis de sua vivência com esses trabalhos e claro que gostei muito de ouvir suas reminiscências espetaculares. Teríamos o reforço do "mago da luz", Wagner Molina, cuidando de nossa iluminação, e a operação do som, ficaria a cargo de Renato Sprada, um técnico que admiro muito e cujas histórias eram tão espetaculares quanto as do "Jura", em termos de lembranças dos anos setenta. O técnico do Sesc, estava sendo extremamente simpático e solícito, até que num dado instante, cravou-me uma pergunta insólita : -"cara, você não é o "Tigueis" que tocava na Chave do Sol, nos anos oitenta" ? Disse-lhe que sim (esse apelido que persegue-me...), e aí já deduzi que eu deveria tê-lo reconhecido também, mas não conseguia lembrar-me com clareza. Foi quando ele falou-me : -"sou o Lito, era o guitarrista do "Máscara de Ferro"...
Pedra em ação no Sesc Belenzinho em 9 de fevereiro de 2013. Fotos : Grace Lagôa
Lembrava-me dessa banda, que militava no mundo do Heavy-Metal brasileiro oitentista e notabilizara-se por caprichar no visual, apresentando-se vestidos como cavaleiros medievais e usar cenário com tais motivações, como um belo castelo cênico etc etc.
Que bacana, se o clima de cooperação já estava bom antes, depois dessa, a camaradagem intensificou-se ainda mais. O soundcheck e a afinação da luz, foram muito bacanas. Com a dupla Molina & Sprada trabalhando juntos e em sintonia, a garantia de que o show seria bonito era enorme. Ainda mais tendo a cooperação dos técnicos do Sesc, e no caso, o amigo Lito. Recebemos a informação por parte da Cida Cunha que já havia uma boa fila na entrada do teatro, o que animou-nos, naturalmente. No camarim, o clima era ótimo. Com a certeza de que o show seria bom, apenas relaxamos e aguardamos a chamada. Só teve um pequeno momento de stress, quando o Lucas, filho caçula do Ivan Scartezini, sumiu por alguns instantes pelos bastidores. Ele tinha cinco para seis anos nessa época, e claro que naquela cenotécnica enorme, era um ambiente muito perigoso para um menino tão pequeno, inclusive com a presença de uma enorme escada íngreme que dava acesso aos camarins. Mas o garoto apareceu para alívio de seus pais, Ivan e Beth Scartezini, e excitado pelo ambiente, claro que desejava explorar tudo ali, naturalmente. Público já acomodado no auditório, os três sinais clássicos do teatro soaram, as luzes apagaram-se e nós subimos ao palco... 
Pedra no Sesc Belenzinho em 9 de fevereiro de 2013. Fotos : Grace Lagôa
Iniciamos com "Megalópole", numa pegada bem nervosa, arrancando palmas entusiasmadas da plateia. O show foi evoluindo e a recepção do público foi respondendo com grande entusiasmo. Renato Sprada colocou pressão sonora de show de Rock. Era a marca registrada dele, um técnico de orientação rocker que era / é. A filmagem de Capo Neto e Nando Fernandes ficou ótima e mostra a banda numa forma muito boa, dando o recado com ênfase e convenhamos, com um palco bem estruturado, luz e som de primeira, tudo ajuda, inclusive o bom astral que a banda estava atravessando naquele momento. Após o show, tivemos uma receptividade excelente no “lounge” de entrada, visto que o Sesc não permitiu visitas ao camarim. Laert Sarrumor & Marcinha; Zé Brasil & Silvia Helena; Tony Babalu & Suzi Medeiros, o poeta Julio Revoredo & Regina Célia, além de muitos outros amigos.
Contávamos que esse sucesso todo abrisse-nos de vez as portas do Sesc, mas não foi o que ocorreu, quando no decorrer do tempo, ficou claro que assim como no Sesc Consolação em 2012, o fato de tocarmos no Sesc Belenzinho em 2013, não caracterizou uma sequência definitiva dentro dessa instituição, mas apenas meras oportunidades sazonais. Sesc Belenzinho, 9 de fevereiro de 2013, com cerca de duzentas pessoas na plateia (não lotou, mas consideramos um bom público pelo fato de ser sábado de carnaval e ter caído uma tempestade na cidade, nesse dia).
O show completo do Sesc Belenzinho em 9 de fevereiro de 2013. Produção de Capo Neto e Nando Fernandes.
Eis o Link para assistir no You Tube : https://www.youtube.com/watch?v=58rCSpin0cY  
Passado o ótimo show do Sesc Belenzinho, tivemos logo a seguir uma entrevista num Blog de muitos acessos, mas completamente fora da nossa realidade. Foi o seguinte : numa rede social chamada "LinkedIn", fui abordado por uma garota bem jovem que vendo minhas postagens regulares por ali, apresentou-se como dona de um Blog sobre música, centrado mais no Pop Rock daquela atualidade, enfocando bandas jovens e algumas, muito jovens, por sinal e espectro natural dessa mocinha. Portanto, numa primeira avaliação, não achei ideal para nós, mas ela foi muito simpática na abordagem e propôs inicialmente uma entrevista individual comigo. Como essa entrevista repercutiu bem, rendendo muito mais comentários do que as postagens regulares sobre bandas "teenagers" que ela costumava enfocar, ficou mais confortável para o Pedra ser retratado em seu espaço.
Quando abordei meus colegas, eles demonstraram um nítido ceticismo, vendo que o Blog, apesar de ter bonito lay-out, era conduzido por uma menina tão jovem. Tive que pressioná-los para responderem o questionário, pois estava clara a desmotivação deles (honra seja feita, com exceção do Rodrigo que foi rápido e solícito). Isso chateava-me, pois desde os primórdios da minha carreira, sempre atendi bem qualquer interlocutor, não importando-me se fosse um jornalista representando um órgão mainstream de primeira grandeza, ou um garoto imberbe e responsável por um fanzine com lay out manuscrito e reproduzido em cópias xerox de má qualidade de impressão. Mas não é todo mundo que pensa sim, e talvez isso explique o motivo pelo qual eu representei o Pedra em entrevistas concedidas a órgãos pequenos, inclusive programas muito precários de TV de Internet, e minha postura foi sempre igual, como se estivesse num talk show da Rede Globo, sendo assistido por cem milhões de pessoas. Por fim, consegui reunir as respostas dos rapazes e a entrevista foi publicada no Blog Maah Music, um Blog jovem, sim, mas bem intencionado e conduzido pela Marina, uma garota novinha que adora música e tem seus leitores / seguidores.

Eis o Link para ler tal entrevista :
http://estilloetendencias.blogspot.com.br/2013/02/entrevista-exclusividade-com-banda-pedra.html#comment-form 

E para piorar as coisas, o micro embalo que tivemos no final de 2012, e parecia estar confirmando-se no início de 2013, após o show do Sesc Belenzinho, estava esvaindo-se na realidade, quando novamente deparamo-nos com falta de perspectivas imediatas a seguir. Foi mais um período tenso a iniciar-se, infelizmente no interno da banda, até que uma luz apareceu no fim do túnel, quando um produtor chamado Helton Ribeiro, tradicionalmente focado no mundo do Blues & Jazz, enviou-nos um convite para tocarmos numa das mais tradicionais casas de shows voltados para esse universo, de São Paulo, chamada "Bourbon Street". Tal casa costumava, há muitos anos, apresentar artistas internacionais dessa seara, mais do Blues, é bem verdade, e ali, até B.B. King já havia apresentado-se, e se não engano-me, mais de uma vez.
O Helton era editor de uma revista chamada “Blues'n Jazz” e uma vez por mês, realizava uma festa da revista nessa casa, geralmente levando duas atrações para uma jornada dupla, mas nos últimos tempos estava adotando uma estratégia diferente, abrindo também para bandas de Rock, pois segundo ele mesmo, o seu projeto estava desgastado, mesmo dentro de uma casa focada nesse universo e dessa forma, a expansão para outros espectros artísticos era uma tentativa de oxigenar sua celebração mensal. OK, já que era assim, aceitamos tocar, mesmo sabendo que o Bourbon Street não era exatamente uma casa adequada para uma apresentação nossa, em tese. Ficamos contentes por saber que teríamos ótima companhia na jornada dupla, com os amigos do The Suman Brothers Band, uma banda sensacional e formada por pessoas da melhor qualidade. E ainda por cima, o grande Diogo Oliveira havia recém entrado na banda, tornando-a ainda mais encorpada e criativa. Portanto, tocar com essa banda amiga, e excelente, musicalmente falando, seria ótimo, é claro. 
No dia do show, levamos nosso backline quase completo e não havia essa necessidade toda, pois havia um equipamento disponibilizado pela casa. Essa era uma questão que estava cansando-me na banda, pois não obstante o fato de achar corretíssimo apresentar-se sempre da melhor maneira possível, por outro lado, não mensurava-se na prática o quanto os sacrifícios inúteis que essa predisposição causava-nos. Portanto, na minha ótica, a política de sempre mobilizar um exército para cada apresentação, envolvendo levar um backline exagerado e equipe técnica com profissionais a serem pagos, sufocava-nos, diante da escassez de oportunidades de agenda e sobretudo pelos cachets tímidos, geralmente, que não suportavam a carga de uma despesa que não cabia para uma banda não alojada no mainstream, e que gerasse auto sustentação mínima. Mesmo considerando que profissionais de alto gabarito como Wagner Molina e Renato Sprada, acostumados a ganhar cachets de um patamar de artistas mainstream, não importavam-se em trabalhar com cachets reduzidos e eventualmente até gratuitamente, nós não sentíamo-nos bem em não oferecer-lhes nada, mas mesmo pensando em porções modestas, para nós pesava no nosso parco orçamento. Bem, análise gerencial a parte, chegamos ao Bourbon Street e o problema em arrumar estacionamento já causou-nos o stress típico de ter que levar backline pesado em carros particulares. Uma vez lá dentro, fomos bem recebidos pelos dois técnicos da casa, mas o restante dos funcionários pareciam não ter muita predisposição em serem solícitos. Arrumamos o palco e quando Sprada e Molina chegaram, tiveram algumas dificuldades para lidar com os respectivos técnicos da casa, que não estavam muito acostumados a lidar com artistas que levavam técnicos próprios. Mas ultra experientes, ambos, foram relevando o clima não favorável e assim fizemos o soundcheck. Eu conhecia o gerente geral da casa, um rapaz sensacional chamado Pietro Buccaran, que eu conhecera em situação não musical, pois nós interagíamos numa ação de voluntariado numa instituição e lá, como havia pessoas de diversas camadas sociais e profissões, quando viu-me cabeludo, logo deduziu que eu tinha alguma relação com a música e então apresentou-se dizendo ser o gerente do Bourbon Street, e estar acostumado a lidar com shows de Blues e Jazz, mas também Rock'n Roll. Nesse ínterim, já havia falado sobre o trabalho do Pedra e dos Kurandeiros para ele e até ofertado-lhe material, mas ele explicou-me que não cuidava da parte artística, mas sim da gerência geral e que poderia apenas falar com o diretor artístico da casa. O tempo passou, e através de um terceiro é que conseguimos uma colocação, mas Pietro disse-me que seria bacana e abriria a porta para outras oportunidades na casa, fora da festa da Revista Blues’n Jazz. Após o soundcheck, Pietro e sua esposa Claudyana, que também era funcionária da casa (e eu a conhecia do Instituto que frequentávamos, também), chegaram e convidaram-nos a jantar. A casa foi lotando e ficamos observando a movimentação. Muitos fãs do Pedra, além de parentes e amigos dos componentes estavam chegando, mas o grande grosso desse público, era formado pelo público habitue da casa e a faixa etária era alta. Particularmente fiquei em dúvida se esse tipo de público maduro, mais indo para a terceira idade e apreciadores de Jazz & Blues, interessar-se-iam pela nossa música autoral e longe de seu espectro natural de predileções. Já havia enfrentado plateias inadequadas na minha carreira, muitas vezes em trabalhos anteriores, portanto isso não assustava-me, mas por outro lado, fiquei com esse questionamento interno, sobre a eficácia em fazer esse show, como estratégia por captação de simpatia de um público novo e normalmente desinteressado num universo em que vivíamos, e como agravante, tendo a questão do sacrifício logístico e monetário em montar um palco com backline próprio, além de levar equipe própria. Chegou a hora e a casa estava bem cheia, algo surpreendente numa quarta-feira, mas segundo apuramos, dentro da normalidade do estabelecimento. Saímos à rua para ver esse movimento e quando tentamos voltar pela entrada de serviço da cozinha da casa, que dava acesso ao camarim, fomos impedidos pelo segurança e tivemos que encarar a fila da entrada principal. 
Ali, pudemos constatar que a casa adotava um procedimento antipático de cadastrar os seus clientes. Sei que tal metodologia adotada por algumas casas noturnas minimiza eventuais calotes a que são submetidos, mas enfrentar um interrogatório e ser obrigado a fornecer dados pessoais, realmente irrita quem quer apenas entrar numa casa noturna para assistir um show musical; jantar e conversar com amigos, portanto, não sei dimensionar o que é pior : a longa espera para chegar até a atendente, ou o interrogatório. Acredito que o conjunto da obra é abominável...
Começou o show do The Suman Brothers Band e o Victor Suman pediu para usar o meu Rickenbacker, que emprestei na hora, naturalmente, amigo que ele é. Já tinha visto a banda em ação como trio, quando interagiram com os Kurandeiros num show em 2012, e havia ficado impressionado com a sua categoria. Versados no Blues; Rock'n Roll; R'n'B; Soul Music; Folk e mais uma série de influências boas, a banda era super azeitada ao vivo. Agora como quarteto, tendo Diogo Oliveira agregado como segundo guitarrista à banda, sendo um super reforço, a banda ficara ainda melhor, mais encorpada e com um "punch" incrível. Gostei muito do show deles, assistindo pela coxia minúscula que dava acesso ao camarim. 
Pedra em ação no Bourbon Street de São Paulo, no dia 17 de abril de 2013. Fotos : Grace Lagôa
Chegou a nossa vez e começamos o nosso show com muita garra, parecendo estarmos na mesma forma dos shows anteriores. Mas logo nas primeiras músicas, começamos a receber recados do produtor do show, para abaixarmos o volume, pois o gerente da casa, estava incomodado. Não referia-se ao Pietro, pois sendo conhecido meu, tenho certeza de que ele mesmo teria aparecido na coxia para fazer a solicitação pessoalmente. Devia ser reclamação do diretor artístico da casa. Os recados continuaram, mesmo depois de termos abaixado os amplificadores e pedido pelo microfone ao Renato Sprada, para amenizar o P.A.. Apesar de reduzirmos o volume, os pedidos prosseguiram e foram aumentando no tom, e nessa escalada, foram ganhando aura de irritação, como se nós estivéssemos fazendo pirraça infantojuvenil em não atender seus apelos, mas pelo contrário, havíamos reduzido para um patamar que já estava quase desagradável para nós em cima do palco, prejudicando a performance.  
Pedra no Bourbon Street em 2013. Primeira foto de Grace Lagôa e segunda, de Bolívia & Cátia 
E foram ficando tensas as solicitações, pois chegara num ponto em que já havia ameaças explícitas do tipo : -"vocês nunca mais tocarão aqui" e outras bravatas destemperadas. Quanto a "nunca mais tocar ali", isso não preocupava-me nem um pouco, pois desde o início achara inadequado o Pedra apresentar-se numa casa noturna com orientação temática longe da nossa realidade. Só ficaria chateado pelo amigo Pietro que era / é extremamente gente boa e certamente ficaria chateado pela confusão e animosidade gerada. Mas, isso acabaria não ocorrendo, pois um ano depois, fomos convidados novamente e desta feita o show aconteceria de forma muito mais amena. Enfim, após o término do espetáculo e mesmo com essa tensão, havia um bom contingente de pessoas que estavam ali para ver o Pedra, pois aplausos e gritos de pedido de bis ocorreram e até um coro de "Pedra, Pedra” foi entoado, talvez irritando o neurastênico senhor que pressionara o Helton a pressionar-nos por conseguinte...                    
Pedra no Bourbon Street em São Paulo, 17 de abril de 2013. Foto : Grace Lagôa
Como última ocorrência dessa noite, houve uma desavença terrível com os seguranças e funcionários da limpeza e copa / cozinha que pressionaram-nos com muita truculência para desmontarmos logo o nosso equipamento e o levarmos para os nossos carros. Destrataram o Ivan Scaterzini, que reagiu e um clima de quase briga instaurou-se ali. Tentei achar o Pietro para intervir, mas os ânimos acalmaram-se e conseguimos tirar nossas coisas e abandonar a casa. Uma senhora, funcionária da casa que cuidava do camarim, portava-se de forma extremamente arrogante, e assim desrespeitou-nos com falas grosseiras e descabidas. Fazendo um raio x da situação e tendo um razoável conhecimento de como funcionam casas noturnas em geral, estava claro ali que tais funcionários estavam nervosos e apreensivos para que saíssemos o quanto antes do estabelecimento a fim de encerrarem seu expediente e dessa forma, serem dispensados para voltar para as suas respectivas residências. Entendo a questão de estarem cansados e sobretudo pelo fato de serem trabalhadores humildes e que fatalmente morando em bairros distantes da periferia, ficavam desesperados pela perspectiva em perder a última condução da madrugada. Até solidarizo-me com eles, pela vida dura que tem, porém em contrapartida, nada, eu disse nada, justifica terem destratado-nos daquela forma. Se fossem mais perspicazes e não raciocinando como trogloditas, teriam oferecido ajuda para agilizar o processo. No caso dos seguranças, homens fortes que eram, teriam ajudado muito, mas a musculatura dessas pessoas era inversamente proporcional à sua massa encefálica, portanto, preferiram intimidar-nos pela força, causando medo e não usando-a em solidariedade. Enfim, foi a cereja do bolo numa noite de aborrecimentos...
Dia 17 de abril de 2013, no Bourbon Street em São Paulo, com cerca de duzentas pessoas na plateia.


Aqui, um vídeo com a apresentação no Bourbon Street que descrevi. Filmado pelo famoso casal Bolívia & Cátia, dois fotógrafos e film-makers famosos por retratarem inúmeros shows em São Paulo. Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=b0KOkn-G4uM 

Tal acontecimento levava-nos de volta ao clássico questionamento : valia a pena tocar em lugares inadequados ?


Continua...

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