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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 9 - Projeções - Por Luiz Domingues


A próxima atividade da banda aconteceria em julho. O pessoal da Brasil 2000 FM convidou-nos a participar ao vivo de uma maratona que promoveriam, com muitas bandas tocando ao vivo no estúdio da emissora. Era mais ou menos uma hora para cada banda, descontados os minutos para troca de set up entre as bandas naturalmente.
Muitas bandas tocaram, e lembro-me que antes de nós estava programada para tocar uma banda de "emocore" feminina, e depois de nós, o histórico Made in Brazil. Pelo caminho, ouvindo pelo rádio do carro, as garotas já estavam tocando e com todo o respeito aos sonhos das meninas de chegar ao estrelato, seu som era o punkinho raquítico de sempre, ultra idolatrado nesta Terra Tupiniquim. Seu empresário parecia ter uma certa influência no meio, pois a despeito da fragilidade musical das meninas, estava colocando-as em frentes interessantes, e claro que isso não surpreendia-me, tão acostumado a conviver com a inversão de valores, há décadas, desde que um maldito "formador de opinião" convenceu todo mundo (eu, não !!), de que não saber tocar um instrumento, era "cool"... 

Mas aconteceu algo engraçado nesse dia, pois o tal empresário que tinha tudo para não interessar-se por uma banda de músicos mais veteranos e com propósitos mais sérios, nosso caso, puxou conversa com o Xando e disse-lhe que influenciado pelo pessoal da emissora que falara bem de nós, havia gostado do nosso som e indo além, nessa conversa dizia estar ciente que músicas nossas tocavam na programação dessa rádio. Ardiloso, disse que oferecer-nos-ia uma oportunidade, visto que conhecia um esquema para fazer permutas com um "pool" de emissoras de rádio em todo o Brasil e que se quiséssemos, não pagaríamos jabá em espécie, mas teríamos que comprometermo-nos a fazer alguns shows gratuitos no velho esquema do "investimento de carreira", para tais emissoras, e que isso garantir-nos-ia uma execução maciça.
Jabá nojento, claro, mas amenizado por não ser diretamente subtraído do bolso do artista, muita gente aceita fazer isso e nós demos uma balançada Caímos na lábia do sujeito e alguns dias depois, fomos ao estúdio de uma emissora dessas bem bregas, localizada na avenida Paulista e gravamos inúmeras chamadas anunciando nossa música "Sou Mais Feliz", na programação de dúzias de emissoras de diversas cidades brasileiras. Parecia sério e não teriam perdido tempo fazendo tais gravações em formato de "spots" radiofônicos, se não o fosse, certo ?

Pois então o bote foi dado quando o sujeito aventou a possibilidade de uma troca de gentilezas, com o Xando abrindo as portas de seu estúdio para gravar uma demo das meninas emocore que eram suas protegidas, gratuitamente, é claro. Ora, uma cooperação que o Xando não poderia negar numa mão dupla de apoio que desenhava-se. Enquanto as garotas gravavam seu som no estúdio, o rapaz ficava falando barbaridades do tipo : -"elas são ruinzinhas, mas tem peitinhos", mostrando bem o tipo de mentalidade que norteia os sujeitos que dominam o show business...
Então as meninas saíram com sua demo debaixo do braço e nossa colocação num "pool" de FM's nunca aconteceu. O sujeito foi dando desculpas e "perdidos", até convencermo-nos que tudo fora um engodo... nosso único consolo nessa história, foi que ninguém deixou de dormir por conta do episódio, visto sermos todos "raposas velhas" na música, mas a boa vontade em oferecer o estúdio e perder tempo e dinheiro, ficou na conta do Xando. Paciência...
Quanto a essa banda de meninas, um ou dois anos depois, chegou a um patamar razoável no mundo infantiloide dessa cena emocore. Tanto que creio que teve música na trilha da novela "teen", "Malhação", mas não passou disso e eu suponho que essas meninas, hoje, moças adultas, já devem estar trocando fraldas de seus pimpolhos e trabalhando nas respectivas profissões que estudaram na Faculdade...

Sobre nossa apresentação na Brasil 2000 FM, ocorreu muito bem, apesar da pressa caótica em que tudo aconteceu nessa noite, e de fato, a banda estava super ensaiada e motivada, portanto, a sonoridade foi perfeita. 

Na escadaria próxima ao estúdio da emissora Brasil 2000 FM, na noite de 13 de julho de 2007. Foto : Grace Lagôa

Aconteceu na noite fria de 13 de julho de 2007. Voltando aos shows, passaram-se cinco meses até termos uma nova perspectiva de show ao vivo. Tudo bem que ainda gravávamos o segundo álbum, mas esse tipo de hiato, além de contrastar com a boa onda que tivéramos em 2006, minava-nos psicologicamente, de uma forma desagradável. Foi então que surgiu uma figura velha conhecida minha e do Rodrigo, chamada Marco Carvalhanas.
Nós o conhecêramos no ano de 2001, quando ele chegou a envolver-se com a Patrulha do Espaço, banda na qual éramos componentes na ocasião e no final daquele ano chegou a excursionar conosco, assumindo o cargo de "Road Manager", na turnê. Ele não efetivou-se naquela oportunidade, por motivos que não dizem respeito a esta narrativa, mas a impressão que eu e o Rodrigo tínhamos dele era a melhor possível, como pessoa, profissional e acima de tudo, era um de nós, rocker, músico e antenado na nossa vibração.

Ele aproximou-se de nós, interessado em agenciar-nos e de fato, era tudo o que precisávamos naquele momento, visto que essa carência de shows estava incomodando-nos, bastante. Inteirando-se do nosso trabalho, animou-se, pois notou que o nosso leque artístico era ainda mais amplo do que o da Patrulha do Espaço e nesses termos, vislumbrou mais possibilidades de êxito, abrangendo um mercado maior.

Claro que ele não era um super empresário com contatos fortes; tráfico de influência; prestígio e dinheiro. Tampouco tinha um escritório com estrutura profissional, mas estava entusiasmado, e mesmo com parcos recursos, queria ser o nosso agente de campo, abrindo frentes. Evidentemente que aceitamos, e ele pôs-se a trabalhar e logo acenou com uma data em numa casa noturna de São Paulo. Mas como a maré começa a mudar sempre que faz-se um movimento na água, outra perspectiva apareceu antes da data ventilada por Carvalhanas e assim, repentinamente tínhamos dois shows para fazer, em vista, para o mês de agosto de 2007.

Dessa forma, surgiu a oportunidade de fazermos um show compartilhado com uma banda amiga, o Golpe de Estado. Era um contato aberto pelo próprio pessoal do Golpe, que convidou-nos a participar de uma noitada de show duplo, numa casa inusitada, eu diria, pois suas atividades normais davam-se no campo de bailes organizados para atender um público de meia e terceira idade, também. Tais bailes eram alimentados por bandas típicas desse tipo de eventos, as chamadas bandas de baile, com muitos componentes e geralmente marcadas pelo mau gosto musical expresso em arranjos musicais démodé rebuscados; adocicados e sob um mau gosto extremo.

Claro que estranhamos a notícia de que o show realizar-se-ia numa casa não acostumada a fazer shows de Rock, embora tivesse uma estrutura de som e luz bacana, que davam-nos condições para tal.
Contudo, essa casa no passado havia tido uma outra roupagem e com outro nome, fora uma danceteria nos anos oitenta, chamada "Rádio Clube". Muito bem localizada, na Avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, recebera naquela década todos o nomes do BR-Rock 80's mainstream possíveis e imagináveis de São Paulo e do Rio, principalmente.

Então, a despeito de tantos anos depois ter tornado-se um clube "Kitsch" de bailes populares, a infraestrutura de shows que a casa tinha, era boa. Havia um P.A. e equipamento de luz, dignos; palco largo e com profundidade; estrutura cenotécnica; coxias; camarins etc etc e a plateia tinha instalações confortáveis e serviço de bar.
Nessas condições, apesar de ser nebulosa a possibilidade de haver um bom público, ficamos animados para fazer o show, pois no mínimo, teríamos boas fotos para capturar a banda ao vivo.
Depunha contra o fato de ser um show em plena quarta-feira, ou seja, além de não ter tradição de shows de Rock há anos, tratava-se de um dia útil bem no meio da semana, com a típica dificuldade em atrair público. Essa casa chamava-se agora "Avenida Bar".

Tal casa estava, timidamente eu diria, tentando voltar a ser uma casa de shows, visto que há anos estava conformada em ser um clube de dança para idosos. Nada contra tal atividade para o pessoal da terceira idade, mas era mesmo um desperdício que uma casa tão bem localizada e com estrutura de som; luz; cenotécnica, e camarins, não fosse um espaço de shows.

Contudo, apesar dessas instalações, o aspecto interno da casa era decadente. Por conta de estar há tantos anos sediando bailes, sua decoração era "kitsch", de muito mau gosto. Quando entrei, senti-me no set do programa "Clube dos Artistas", da TV Tupi nos anos setenta. Era de uma "cafonália" a toda prova...
O evento certamente era um balão de ensaio promovido para testar a ideia daquela casa voltar a ser um espaço de shows e na verdade, tratava-se de um show do Golpe de Estado, que convidou-nos para dividir a noite. Naquela noite tive uma surpresa agradável, assim que estacionei o meu carro, pois avistei o iluminador Wagner Molina, que havia conhecido em 1999, por intermédio do Rolando Castello Junior e dali em diante, o Molina iluminara vários shows da Patrulha do Espaço, quando de minha participação na banda.

                       O super iluminador, Wagner Molina

Foi quando Molina revelou-me que havia recém refeito contato com a esposa do Xando, Grace Lagôa, na Rede Social Orkut, visto que há anos não conversavam e eram conhecidos desde os anos setenta. Só fiquei chateado por vê-lo com uma bengala e com dificuldades de locomoção, e ele contou-nos que fora vítima de um ataque cardíaco e agora estava com sequelas temporárias que esperava sanar com o tempo.

Mesmo assim, com dificuldades nítidas de locomoção, ofereceu-se para operar a iluminação no show, e claro que aceitamos, pois Molina é um dos maiores iluminadores do Brasil, com um curriculum gigantesco de trabalhos prestados à artistas peso-pesado da música, fora sua atuação na TV, em novelas e programas de variedades / jornalísticos. Feita a passagem de som, recolhemo-nos ao camarim para a espera do show. Claro, o convívio com o pessoal do Golpe de Estado sempre foi agradável e ali passamos bons momentos conversando e rindo, nem sentindo o tempo passar...

 Luiz Domingues & Xando Zupo, no camarim do Avenida Clube

Chegou a hora de subirmos ao palco e de fato, a casa não apresentava um público animador que sinalizasse que ali poderia voltar a ter uma tradição em shows de Rock, como houvera sido nos anos oitenta. Naquela década, provia shows com a presença de mais de mil pessoas costumeiramente, mas nessa noite, cerca de 60 pessoas apenas, estavam em suas dependências, denotando que se queriam voltar a trilhar tal caminho, teriam que investir em propaganda e bastante paciência para fazer "pegar de novo".

Com o acréscimo do Molina, mesmo não havendo uma afinação de spots e planejamento de mapa de luz (e com direito à contra luz, que é uma das suas especialidades), claro que só na pilotagem da mesa, ele já fazia a diferença. Dali em diante, Molina afeiçoar-se-ia à banda, e acompanhar-nos-ia em diversas oportunidades e muitas vezes sendo um elemento fundamental para fazer de nossos shows algo diferenciado, valorizando a nossa música, certamente.




Foi um show legal, apesar do público pequeno, e aproveitamos para tocar diversas músicas novas que seriam gravadas no segundo disco, Pedra II. Gravações aliás, que já haviam iniciado-se e transcorriam num ritmo compassado, devido à dificuldade do nosso técnico, Renato Carneiro, apresentar brechas em sua agenda pessoal.




Ficamos satisfeitos com a performance e demos espaço para os amigos do Golpe de Estado entrarem em ação com seu Hard-Rock sempre bem executado.


             Clima descontraído no camarim do Avenida Bar

Quebrando a escrita de uma banda que sempre teve dificuldades de agendar shows numa sequência, tínhamos uma nova perspectiva para breve, quando o Marco Carvalhanas agendou uma apresentação numa casa noturna que fora bastante ativa nos anos oitenta e noventa, mas que parecia fora do prumo nos anos 2000.


Seria, curiosamente, uma investida parecida com a qual realizamos no Avenida Bar, ou seja, um show realizado numa casa que outrora ostentara uma tradição na noite musical paulistana, mas que agora vivia um momento de baixa e talvez quisesse, tal como o Avenida Bar, reerguer-se. E por que não, tentar ? 

Para nós, era mais uma oportunidade de apresentarmo-nos ao vivo e convenhamos, nesse fim de década inicial de novo século e milênio, o panorama para bandas autorais parecia estar ficando cada vez mais escasso em termos de locais para apresentações.



Todas as fotos do show e bastidores no Avenida Bar, são de Grace Lagôa

O show do Avenida Bar ocorreu na noite de 1º de agosto de 2007, uma noite gelada de inverno, perante um contingente de 60 pessoas, aproximadamente. Eram poucos, mas bons, e gostaram, pois recordo-me que foi uma apresentação agradável.

Nesses termos, após a realização desse show, o agente Marco Carvalhanas querendo mostrar serviço, aventou-nos uma perspectiva de show em curto prazo, animando-nos, todavia, mais que isso, estava demonstrando estar motivado e era tudo o que precisávamos, pois a falta de alguém que cuidasse do nosso gerencial era o nosso "calcanhar de Aquiles". A casa em questão era um estabelecimento com tradição, mas que tinha tido seu auge como casa noturna muitos anos atrás. 

Quando tinha outro nome ("Blue Note Jazz Bar"), teve seu auge como casa especializada no universo do Blues e do Jazz, tendo sido até protagonista de shows internacionais. Mas o tempo passou, a casa caiu em decadência, mudou de nome e dono, e agora estava em condições bem menos glamorosas e não fechada no nicho de Blues, abrindo suas portas para gêneros musicais díspares, sem estabelecer uma identidade.

Apesar dessa constatação, a estrutura ainda era digna e ponderando, resolvemos arriscar, pois estávamos numa fase de poucas apresentações e sendo assim, não teríamos nada a perder.
Agora, a casa chamava-se "Mr. Blues" e dessa forma, preparamo-nos para tal apresentação, animados com os esforços que o Carvalhanas estava fazendo para agendar outras casas noturnas da cidade, dando-nos a impressão de que faríamos uma sequência boa nesse circuito de casas paulistanas.


Pelo fato do ano de 2007 estar difícil para a banda em termos de oportunidades de shows, quando anunciamos essa nova data, uma boa expectativa foi criada. Claro que não era nossa culpa, mas vivíamos uma época difícil, com espaços escassos para a música autoral, e numa situação muito diferente de tempos de outrora. Nas décadas de setenta e oitenta, por exemplo, quem militava na música não poderia imaginar que chegaria uma época onde os espaços seriam exíguos para artistas autorais. Mas essa época chegou e foi no Pedra, onde tive essa experiência angustiante, acentuada.
O Carvalhanas estava a mil por hora levando o nosso material para diversas casas noturnas da cidade, mas era uma luta convencer seus mandatários de que valia a pena abrir suas portas para uma banda autoral e não ligada à cena "indie".

Essa tarefa não era nada fácil, pois em sua maioria, tais casas só investiam no mundo viciado das bandas cover, e as poucas que dignavam-se a abrir suas portas para bandas autorais, estavam fechadas no nicho do "Indie Rock", onde o Pedra era um verdadeiro alienígena. Dessa forma, claro que vibramos com a oportunidade de tocar no "Mr. Blues", ainda que não fosse uma casa das mais adequadas e pior ainda, vivendo dias de decadência, muito diferente dos seus melhores dias sob outra direção e nome, quando chamava-se "Blue Note", e era um dos maiores pontos de Blues & Jazz da cidade de São Paulo.


Levamos um bom público para a casa, mesmo porque a banda vinha de poucos shows naquele ano de 2007, e o nosso público sentia a nossa falta, sem dúvida, e respondia positivamente quando surgia uma oportunidade. É bem verdade que havíamos tocado nesse mesmo mês de agosto de 2007, contrariando em parte o meu discurso, mas cabe lembrar que tal show fora marcado quase repentinamente e não houve a possibilidade de uma divulgação adequada, portanto, tratamos essa apresentação do "Mr. Blue", com maior carinho. O Marco Carvalhanas estava empolgado, pois como já salientei, era seu primeiro show, fruto de seus esforços e apesar de não ser um grande show glamoroso numa casa de maior renome, a sua euforia por estar começando bem a sua caminhada conosco,  animava-nos, por conseguinte. O som da casa não era maravilhoso, mas era digno. A estrutura já havia sido melhor em seus áureos tempos, mas naquele momento era apenas razoável, para ser bastante ameno.

Nesse dia, o Renato Carneiro deu-nos uma "mão", operando o pequeno P.A. da casa. Com ele por perto, ficávamos muito mais seguros a respeito da qualidade sonora para o público que ouvir-nos-ia. Tocamos um mix do primeiro disco, e quase todas as canções do então em fase de gravação, novo álbum, Pedra II. Foi um show longo, mas o Pedra aproveitava para tocar sem parcimônia, justamente por ter dificuldades de agendar shows com uma continuidade com a qual gostaríamos de ter. Na minha lembrança, foi um show muito bom, com resposta positiva da plateia e uma sonoridade de timbres muito fidedignos ao que apresentávamos na gravação de nossos discos.

Um certo músico, famoso nos anos setenta e oitenta, e que estava presente abordou-me para reclamar que o som do meu baixo incomodara-o, principalmente quando usei o Rickenbacker, que normalmente tem maior agressividade. Achei descabida a colocação, não por não aceitar uma crítica, coisa que absorvo sem problemas, mas pelo fato de eu ter o comportamento pessoal sempre de tocar com volume baixo, e pelo contrário, em todas as bandas onde toquei, seja em ensaio ou ao vivo, constantemente sou solicitado a aumentar o volume de meu amplificador por parte de meus companheiros, pois sempre estou abaixo dos demais. É o meu comportamento padrão, público e notório. Reforçando essa tese, digo que naquele dia em específico, segui a risca o volume de palco que o Renato Carneiro sugeriu para eu usar, na relação de mais pura confiança no meu técnico, levando-se em conta que o meu amplificador não estava microfonado, tampouco ligado em linha, via Direct Box. Portanto, jamais desobedeceria a opinião do Renato, que equalizou o som de palco da banda, baseado no fato de que apenas as vozes e algumas partes da bateria estavam no pequeno P.A. da casa. Em suma, a observação do meu interlocutor, fora mais uma intervenção inoportuna, querendo "causar", e ele gostava de abordar colegas de profissão com esse tipo de observação supostamente técnica, mas com outra intenção, nada nobre, eu diria. 

Uma ocorrência alheia à nossa vontade aconteceu na recepção da casa, mas que causou-nos um certo constrangimento. Uma moça que dizia-se produtora musical, estava abordando-nos na rede social Orkut, quando essa rede estava na crista da onda, e era a maneira onde as pessoas mais comunicavam-se entre si, e dizia-se estar interessada em apoiar a banda em todos os sentidos. Nós a colocamos em contato com o Carvalhanas, já assumindo o comando de nossos negócios e ela mostrou-se disposta a fazer um intercâmbio de contatos e contribuir para abrir frentes de trabalho para o Pedra.

Até aí, era salutar e claro que aceitamos esse reforço gerencial. E para sacramentar essa união, ela combinou de aparecer no show do "Mr. Blues". Seu nome foi colocado numa lista de convidados etc etc. Só que na hora, ela chegou completamente embriagada na casa e transtornada, arrumou um escândalo por conta de querer furar a fila de entrada, como se não bastasse ter entrada gratuita garantida, achando-se "Vip". O escândalo foi ouvido até dentro da casa e aos berros, a referida garota foi expulsa sumariamente da casa.
Bem, passou um bom tempo até que ela abordasse-nos novamente pelas redes sociais, inclusive sem tocar no assunto desse ocorrido e diferentemente do que esperávamos, falando sobre outras coisas que queria arrumar para nós. Nunca aconteceu nada... vida que seguiu !

Foi o caso de uma outra moça que também abordou-nos oferecendo ajuda nesses moldes. Conseguindo uma licitação da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, ofereceu um show num Parque Público da zona Leste de São Paulo, mas uma semana antes, nossos amigos do Golpe de Estado cancelaram show nos mesmos termos, pois o equipamento disponibilizado era um ridículo P.A., suficiente apenas para alimentar um som Hi-Fi para sonorizar uma festinha infantil em salão de condomínio... portanto, cancelamos nossa apresentação, evitando assim o constrangimento que o Golpe de Estado teve.

Voltando a falar do "Mister Blues",o show foi muito bom, com 70 pessoas na plateia e creia, era um contingente que a casa não via há anos, naquele processo decadente em que encontrava-se. E foi na noite de 31 de agosto de 2007...










Apesar do entusiasmo inicial que envolveu a participação do Marco Carvalhanas como produtor da banda, seus esforços não lograram êxito, como todos desejaríamos. Ele fez inúmeros contatos no circuito de casas noturnas de São Paulo, mas não fechou nenhum show para a banda e cabe a reflexão. De fato, nesse início de segunda metade dos anos 2000, havia uma grande efervescência de casas noturnas na cidade de São Paulo, mas ao contrário do início dos anos noventa, onde houve uma profusão semelhante, desta feita as casas estavam dominadas por um nicho específico e quem não fizesse parte dessa cena, não tinha chance alguma de apresentar-se.

Especificando, as casas estavam fechadas no ideal do "Indie Rock", e embaladas por tal determinação e tendo setores estratégicos do jornalismo musical coadunados com tal predisposição, ficava impossível para bandas como a nossa, completamente "outsiders" na percepção dessa gente. Dessa forma, o Carvalhanas , que era (é) um amigo extremamente gente boa, mas estava defasado dessa realidade de mercado dos anos 2000, desanimou. De fato, sua concepção de produção era calcada na sua percepção antiga, dos anos oitenta e noventa, portanto, um cenário onde os espaços estavam dominados por uma "panela" específica, era uma novidade para ele, como produtor e despreparado para lidar com tal barreira, sentiu-se sem estrutura para buscar novas estratégias para uma banda como o Pedra, naquele momento. Paciência... tínhamos que prosseguir...

Não cabe especificar, mas não foi só por conta disso que a parceria entre nós e o Carvalhanas encerrou-se. Tivemos uma divergência por conta de outro detalhe, que prefiro não revelar, mas posso adiantar que era de pequena monta. O que pesou mesmo foi essa inadequação dele para com o mercado mudado que não reconhecia mais como o conhecera anteriormente, e a nossa condição de outsider na música, não encontrando nada adequado para encaixarmo-nos no mercado e por conta disso, lutarmos com dificuldades para achar um lugar ao sol, tendo que adaptarmo-nos ao mais próximo possível, mas nem sempre isso significava algo plausível. 

Cito o exemplo de que em 2006 termos feito shows em conjunto com o "Carro Bomba", que nada tinha a ver com nossa estética e propósitos, mas apenas tendo como similaridade o fato de sermos amigos pessoais dos membros daquela banda. Mesmo com a relação semi desgastada, o Carvalhanas ainda estaria conosco no nosso próximo compromisso, em outubro de 2007 e voltaria a abordar-nos com uma proposta interessante no início de 2008, fato que revelarei na sua cronologia adequada.


Um telefonema vindo de um produtor do Centro Cultural São Paulo, convidou-nos a ocupar uma data naquele espaço, em outubro de 2007, e aproveitando o ensejo, reativamos a ideia de um show "happening", como havíamos feito em fevereiro do mesmo ano. Animamo-nos, é claro, mas desta vez, além do tempo ser mais escasso para uma produção mais caprichada, não haveria a participação de uma segunda banda. Como o "Parabelum" que participara na ocasião anterior, não existia mais, resolvemos não convidar ninguém, atendo-nos ao nosso próprio espetáculo apenas, como atração musical, e dando um espaço um pouco maior para a trupe de teatro, e quiçá para Diogo Oliveira, o grande artista plástico, poder extravasar seu talento performático, ao vivo.
E assim fomos ao Centro Cultural São Paulo, para mais uma experiência de happening compartilhada com artistas de outras áreas.

Era o dia 5 de outubro de 2007, e uma lembrança inicial boa que tenho desse show, foi o fato de ter ajudado o grande Diogo Oliveira a instalar algumas peças de pano que ele desenhara especialmente para esse espetáculo, para servir-nos de cenário. Era uma instalação simples, composta de alguns "panôs", se visto separadamente, enquanto peças isoladas, mas o efeito que deram reunidos, foi extraordinário. Fiquei muito entusiasmado em estar ajudando-o nesse momento, mas também por essa movimentação remeter-me subjetivamente aos valores culturais que norteiam-me como artista, desde os primórdios. Apesar do Pedra ter sonoridades setentistas em muitos aspectos, nunca foi uma banda que colocasse-se ao lado de tais ideais e pelo contrário, tal espectro causava um desconforto interno, pois abertamente o Xando não compactua com valores contraculturais. Sua visão do Rock, e o contexto em que ele insere-se, chega a ser antagônica à minha, e isso sempre gerou um certo mal-estar quando situações que colocavam o Pedra nessas circunstâncias, apareciam. Claro que eu respeitava o posicionamento dele nessas questões, mas discordava de inúmeras colocações dele nesse sentido.

Nesses termos, democraticamente respeitava certos posicionamentos tomados para a banda, mas alguns pontos começaram a ficar incômodos para a minha percepção pessoal. Resiliente por natureza, claro que fui relevando muita coisa, pois a banda tinha que ser maior que tudo naquele instante. Contudo, questionamentos sobre visual (foi falado sobre o uso de cabelos longos e figurinos retrô que eu e Rodrigo normalmente usávamos), e outros detalhes que pudessem remeter ao "passado proscrito" dos críticos obcecados pelo assunto, começavam a vir à baila. Esse tipo de discussão era salutar para uma banda que ainda lutava com esperanças de chegar, talvez não ao mainstream, mas num patamar médio da música. Disso eu não discordava e não reclamava obtusamente, mas haviam outras tantas coisas a considerar-se, antes de trazer-se à baila questões dessa monta, que parecia-me inútil, portanto, mesmo em se considerando qualquer esforço para recorrer ao marketing, tentando chegar num degrau acima. Enfim, ninguém é perfeito e nessa altura do campeonato, com 48 anos de idade e digamos, já fora de idade para pleitear um lugar ao sol no mundo mainstream, somado à experiência de 32 anos de militância na música, eu não achava errado pensar em detalhes assim, desde que fôssemos jovens o suficiente para estarmos abertos a estabelecer sacrifícios estéticos, e amplos, portanto com real eficácia absolutamente improvável. Mas não era o caso, não só pela idade cronológica que eu já tinha naquela época, mas pelo fato de não enxergar tais sacrifícios como garantia de absolutamente nada, e com a possibilidade de tais esforços não levarem-nos à lugar algum. Não só eram questionáveis ao extremo tais argumentos, como o mundo da música encontrava-se em profunda convulsão, portanto, qualquer medida a ser tomada, era temerária, pois ninguém, nem mesmo os "tubarões" do mainstream, sabiam exatamente o que estava acontecendo e principalmente, onde terminaria tal terremoto.

Voltando ao cenário, a despeito de suas lindas evocações psicodélicas e sessentistas, isso não representava exatamente o que era o Pedra, quase na mesma proporção que o aparato psicodélico que deu suporte ao lançamento do CD "Lift Off", do Pitbulls on Crack em 1996, tinha como evocação visual, mas na verdade, destoava do espírito real da banda.

Sem outra banda para dividir a noite conosco, nosso show ocupou mais espaço e a intervenção teatral do "Comédia de Gaveta" também teve mais espaço para encenar seus sketchs. Contudo, dada a ocasião ter surgido repentinamente, o grupo teatral também estava desprevenido e desfalcado de vários atores, portanto, as três meninas que atuaram, tiveram que criar sketchs diferentes, com produção mais leve. Deu tudo certo, foi uma apresentação bonita das atrizes (Lu Vitalliano; Ana Paula Dias, e Lucia Capuchinque).
Quanto ao Diogo, sua atuação ao vivo criando pinturas de puro improviso e criatividade, foram magníficas, mais uma vez. 

 
A performance arrepiante do artista plástico Diogo Oliveira, em meio à psicodelia de "Jefferson Messias" :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ekQjGq2oIB4


Fizemos um bom show, também, podendo tocar mais músicas, num set mais avantajado, eu diria e entre elas, várias canções novas, já do Pedra II que estava sendo gravado. Tudo isso ocorreu no dia 5 de outubro de 2007.  

Nossa performance de "Nossos Dias", nesse show do CCSP em 5 de outubro de 2007 : 

Eis o link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AW29QaVrei8


Não tivemos tempo hábil para empreender uma divulgação. Apesar de nessa época, o Orkut já estar solidificado como maior rede social da internet, no Brasil, e sendo a maior plataforma para divulgação virtual, não conseguimos mobilizar um grande público. Apenas 80 pessoas passaram pela bilheteria. 


"Rock'n Não", nesse mesmo show do CCSP de outubro de 2007 :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=qLIfQVSfnsc

Uma pena, pois o espetáculo que oferecemos foi de muita qualidade, com três modalidades artísticas interagindo simultaneamente, num espírito de "happening" que há muito tempo não existia mais na praça.

Mesmo porque, considerando que o ingresso cobrado era de um valor popular e quase simbólico, aliado ao fato de que o CCSP é super bem localizado na cidade de São Paulo, com uma estação de Metrô acoplada, inclusive, realmente era um espetáculo que merecia ter tido uma audiência maior. 5 de outubro de 2007, Centro Cultural São Paulo, com cerca de 80 pessoas na plateia...

"Filme de Terror" no CCSP em outubro de 2007 : 

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=r7Q9qhWZjAE


E naquela época, na Rede Social Orkut, ainda não estava sedimentada a choradeira típica e irritante que existe hoje em dia nas diferentes redes sociais modernas, quando observamos uma espécie de triste modismo, com as pessoas lamentando não ter comparecido a um show, mesmo tendo afirmado categoricamente que compareceriam, previamente.



"Reflexo Inverso" no CCSP em outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=FQeYoztLJjc


"Sou Mais Feliz no CCSP em outubro de 2007

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=L1Skba6JTHc


Isso é muito irritante para quem está no underground como nós, e esforça-se muito para ter enfim uma oportunidade de apresentar-se ao vivo; produz com dificuldades um show e amarga uma baixa frequência, para no dia seguinte ter que aguentar esse velado deboche das pessoas. Quase desanima... quase, porque somos muito teimosos e a tenacidade mantém-nos na luta, mas se dependesse desses chorões...


Ainda no QG do Overdrive Studio, mas de saída para o Palácio das Convenções do Anhembi, será que ganharíamos o "Prêmio Dynamite Toddy de Música Independente", na categoria a que fôramos nomeados, por melhor álbum de 2006 ? 

Mas em outubro teríamos um lampejo de alegria por dias melhores, pois havíamos sido indicados para um prêmio, concorrendo na categoria de melhor disco de 2006, ainda referente ao nosso disco de estreia, naturalmente. Tratava-se do "Prêmio Dynamite de Música Independente", ligado a Revista Dynamite, e que por conta de seu patrocinador, uma famosa fábrica de bebidas achocolatadas, recebia o nome de "Premio Toddy". Com uma cerimônia nos moldes das premiações tradicionais, com certo glamour, eu diria, fomos ao Palácio das Convenções do Anhembi, participar do evento.

Já no saguão do Palácio das Convenções do Anhembi, Xando Zupo & Rodrigo Hid. Foto : Grace Lagôa

Ali haviam centenas de artistas de diversos campos da música independente, mas muito mais concentrados no espectro "indie", que já dominava fortemente o underground. Havia a ala "metaleira", é bem verdade, mas os "esquisitinhos amparados da Lei Rouanet" dominavam tal cena, era visível pela frequência ali caracterizada. Haveriam alguns shows programados e seriam diversificados. A banda satírica "Massacration", uma gozação perpetrada por uma trupe de humoristas ligadas à MTV, com o objetivo de debochar da cena do Heavy-Metal, faria o "show" inicial. Mas haveriam apresentações "de verdade", posteriormente, com outros artistas escalados para fazer os shows. Logo que aproximamo-nos do local, e estávamos todos no carro do Xando e com a sua esposa e fotógrafa, Grace Lagôa, conosco, a fila para adentrar o estacionamento era gigantesca. Estávamos parados como todo mundo e eram centenas de carros, quando uma garota completamente desequilibrada forçou uma manobra perigosa ao extremo e colocou-se à nossa frente com seu carro, sem nenhuma cerimônia e nenhum cabimento. Ainda bem, o Xando era / é calmo ao volante e suportou a quase colisão absurda que ela causaria e  limitamo-nos a comentar entre risadas que era uma "louca varrida", entre outras observações desse teor. Quando conseguimos entrar enfim e aproximamo-nos do local, vimos a mocinha tresloucada que quase abalroara-nos, aos prantos, berrando com um rapaz que devia ser seu ex-namorado, enquanto este simplesmente ignorava-a, apesar da crise nervosa dela, que promovia um escândalo. O rapaz em questão era um músico famoso no meio, e filho de uma artista muito mais famosa ainda. Paro por aqui, não sou editor de Blog de fofocas... mas estava explicado o nervosismo da mocinha transtornada e uma "louca varrida", certamente...
Encontramo-nos com Tony Babalu, o guitarrista superb e a simpática Suzi Medeiros, sua esposa, que acompanhados do não menos superb baterista Franklin Paolillo, e da jornalista Marina Abramowicz, acompanharam-nos para o interior do Palácio, quando sentamo-nos juntos.

Nossa comitiva no Anhembi para assistir a cerimônia do prêmio. Em pé, da esquerda para a direita : Telma Vecchione (irmã de Oswaldo e Celso Vecchione, os Glimmer Twins do Made in Brazil); Franklin Paolillo; Samuel Wagner; Suzi Medeiros; Luiz Domingues; Ivan Scartezini; Tony Babalu; Xando Zupo; Marina Abramowicz e Rodrigo Hid. Agachado : Daniel "Kid"

Tony Babalu era o produtor fonográfico do nosso disco, e se ganhássemos o prêmio, ele subiria ao palco conosco para receber a honraria, e muito provavelmente faria um breve discurso de agradecimento, em nome de sua gravadora. Logo que as luzes apagaram-se, entrou em cena o "Massacration" e numa tentativa de interação com o público, seu "vocalista" propôs que todos  levantassem-se para prestar em voz alta, um "juramento de fidelidade ao Heavy-Metal", e a plateia levantou-se incontinenti para participar da palhaçada, menos eu. 

Tenho uma bronca danada desse tipo de expediente de artista que dá voz de comando para fazer o público de bobo. Por isso recusei-me a participar, ficando sentado e já profundamente entediado com um começo de festa / premiação que começara mal para o meu gosto. O "show" era uma galhofa, mas muitos incautos levavam a sério, achando tratar-se de uma banda de Heavy-Metal de verdade, e eu ali torcendo para acabar logo e não sabendo definir o que era mais entediante : o Heavy-Metal ou a paródia dele ?  Enfim, logo começaram a anunciar as categorias e os diversos premiados subindo ao palco e fazendo seus discursos, uns bem piegas ao estilo do "Oscar", outros sendo debochados, e até alguns querendo aproveitar para expressar alguma opinião política. O segundo show era supostamente de uma banda séria, mas como levar a sério a cena "indie" ?
Por ética e compaixão, não vou citar o nome da banda, mas digo que era mais uma banda autoproclamando-se "Rock'n Roll", mas que na verdade praticava o sofrível Punk-Rock raquítico de sempre, e misturando elementos do folclore nordestino em sua obra.
Creio poucas vezes ter visto uma banda tão ruim, e com a ressalva de que atravessei os anos oitenta e noventa inteiros vendo com perplexidade artistas dessa qualidade sofrível, e o pior, sendo endeusados por setores da crítica, numa inversão de valores insuportável. Era o caso desses moleques, e para piorar, apresentaram-se usando apenas fraldas geriátricas como figurino, trazendo-nos tal dissabor a mais. Bem, não resisto... a música que produziam justificava o uso de fraldas, pelo teor do material expelido. Já no meio da apresentação dessa banda, e que era muito incensada pela imprensa na época, muita gente retirou-se do recinto, mas eu fiquei e aplaudi educadamente a cada final de música, embora não tivesse tal obrigação moral, visto estar desgostoso com a performance horrorosa do referido artista.
Então, após mais algumas nomeações anunciadas e prêmios outorgados, eis que surge a figura do "Seu Jorge". Não sou nenhum fã de sua obra, mas foi um bálsamo assistir sua apresentação intimista, só ele e violão acompanhando-se sozinho. 

Após um simulacro de Heavy-Metal e uma banda indie ruim de doer, ouvir alguém com a proposta cartesiana de cantar e tocar dentro dos parâmetros do que habituamo-nos a chamar de "música", em tempos de outrora, foi um alívio. Nessa altura, da comitiva do Pedra, eu era o único sentado e aplaudindo educadamente os artistas que apresentavam-se e as nomeações. Todos alegaram que queriam "fumar" e simplesmente abandonaram o evento, não retornando mais, e claro que as rodinhas de conversas e as cervejas lá de fora estavam mais agradáveis, sem contar os famigerados cigarros...
Veio o Made in Brazil e seu Rock tradicional foi tocado com o teatro já quase vazio. Não vencemos. Eram dez ou doze álbuns concorrendo conosco, e ficamos em terceiro ou quarto lugar, não recordo-me ao certo, num parâmetro ditado por votação de jornalistas especializados.

Duas grandes feras da bateria no Rock Brasileiro : Ivan Scartezini e Franklin Paolillo

Ficamos contentes em termos sido nomeados e uma banda como a nossa, fora do mainstream, mas também fora do mundo "indie", era "outsider dos outsiders", portanto ficamos até surpreendidos com a nomeação. Dias depois, comentando sobre essa noite, um membro da nossa banda disse ter ficado chateado comigo. Seu argumento foi que minha atitude de não levantar-me para atender o comando do "vocalista" do "Massacration" para participar da interação cênica por ele proposta, fora uma decisão errada que eu tomara, pois poderia passar a imagem de arrogância de minha parte, e por conseguinte, respingar na banda, sendo "blasé" naquele instante.
Prosseguindo, falou-me que se fosse um prêmio mais requintado como os prêmios Sharp; MTV Awards ou o Multishow, e estivéssemos sendo filmados, uma atitude dessas flagrada por uma câmera, teria causado uma péssima impressão para a banda e para eu mesmo. Ponderei sobre e concordei, era verdade sob esse ponto de vista, contudo, de pronto coloquei também um outro lado da medalha e que era indiscutível : - "e vocês que saíram para fumar um cigarro antes da metade da cerimônia e não voltaram mais, isso também não pegaria mal se fosse num prêmio mais requintado" ?
Como última lembrança dessa noite de outubro de 2007, o fato de que dois atores fantasiados de "vacas", animal símbolo e logotipo do achocolatado, faziam gracejos o tempo todo no palco e a plateia, mesmo formada por artistas e produtores musicais em maioria absoluta, não perdoou e fez vários coros ofensivos em tom de pilhéria, fazendo menção aos animais em questão, mas com conotação sexual. Não tem jeito, era o povo brasileiro, sempre portando-se como se estivesse num estádio de futebol, com sua deselegância padrão...

O ano de 2007 findava-se, e era hora de um balanço. De fato, 2007 foi um ano difícil para o Pedra, pois as oportunidades foram escassas e o que mais temíamos acabou concretizando-se, ou seja, o embalo construído no ano de 2006, fora perdido, diluindo-se aos poucos e sem direito a uma reação. Os poucos lampejos que tivemos, foram insuficientes para esboçar uma retomada do embalo. Por exemplo, os dois shows multimídia que fizemos no Centro Cultural São Paulo, misturando música; encenação teatral, e artes plásticas. 

Isso por si só foi muito legal e refeito numa segunda incursão no final do ano, mas absolutamente insatisfatório para provocar algum tipo de reação mais contundente para a nossa carreira como um todo. Ações como essa que descrevi acima, ficaram só na imaginação de quem foi in loco assistir, sem repercutir na mídia, infelizmente.

As poucas vezes em que a mídia falou sobre nós, foram muito positivas, mas seguindo a tendência que salientei acima, ou seja, ações quase obscuras que pouco poderiam contribuir para alavancar-nos como desejávamos. Mas o pior mesmo era a escassez de oportunidades no que tangia aos shows. Não era uma época favorável para qualquer banda autoral, mas para uma banda das nossas características, que não encaixava-se no padrão de uma banda pronta a fazer shows em pequenas casas noturnas, pior ainda.


Pagávamos um preço alto por fazermos um trabalho de verniz artístico acima da média, mas era o tal negócio : será que seria culpa nossa, por nossas escolhas artísticas ? É claro que não !
O ambiente era inóspito, e simplesmente uma banda que optava por fazer música dessa qualidade e profundidade, sofria ao deparar-se com uma ambientação cada dia mais hostil para tal determinação.
A subcultura e pior ainda, a anticultura, caminhavam de forma inapeláveis para dominar todos os segmentos e esse estrangulamento seria apenas o começo do fim da música. Alguns anos depois, e as consequências seriam ainda piores para todos.

O Pedra, como uma pequena pecinha frágil em meio ao oceano hostil, sentiria primeiro a vibração ruim que começava a assolar o mundo, mas o pior ainda estaria por vir. Infelizmente...

 
Promo contando com a música "Misturo Tudo e Aplico", utilizando imagens diversas da banda ao vivo, desde 2006 :  

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=knqWINjjPCA

E assim encerrou-se 2007, um ano difícil para a a banda.
Tínhamos esperanças de melhoras para 2008, é claro, pois sempre agimos como otimistas e esperando melhora de panorama.


Envolvidos ainda com a produção do segundo álbum, mas sempre atentos às oportunidades para apresentações, mesmo que vivendo num mundo de chances cada vez mais escassas, conforme descrevi anteriormente, entramos de peito aberto no ano de 2008, sempre acreditando que uma luz poderia surgir no final do túnel...
E nesses termos, o Rodrigo vinha alertando-nos para uma possibilidade diferente, e que deveríamos abraçar doravante, mesmo não fazendo parte do nosso universo artístico propriamente dito, pois não éramos uma banda de espectro "indie", como 99% das bandas que habitam essa seara dos festivais independentes de música, pelo menos nessa época, com muita gente surfando nas ondas generosas das benesses da Lei Rouanet. Mas o Rodrigo tinha razão num aspecto : esse mundo dos festivais independentes era estruturado, fomentava uma cena alternativa e chamava a atenção da mídia, de certa forma.

Claro que tais argumentos eram plausíveis, mas havia controvérsia. Primeiro e óbvio ponto, de fato tais artistas desse mundo "indie" chamavam a atenção numa mídia específica, mas todos, literalmente, compactuavam com uma estética própria, amarrada numa série de fatores estruturais muito particulares, e uma banda como o Pedra, era certamente um "outsider" nessa prerrogativa. 
Nesse universo "indie", a estrutura de bastidores é uma verdadeira teia de aranha bem amarrada e fechada, portanto, dificilmente aceitam outsiders e / ou incautos dentro do esquema, como se fosse um clube privê. Não só pela questão da estética artística, mas por uma questão de contatos, é quase impossível entrar de gaiato nessa estrutura, sem estar 100 % antenado e de acordo com a ética interna que norteia tais manifestações, mas sobretudo, só é aceito no clube, se os "sócios veteranos" aprovam sua entrada como novo membro da "instituição"...

Mas por outro lado, vivendo num mundo de portas cada vez mais fechadas, o Pedra era uma banda estrangulada pela dificuldade de 
colocar-se no mercado, e diante de tal impasse, onde tal situação  atormentava-nos constantemente, a sugestão do Rodrigo tinha sua validade, embora fosse bastante inóspita para os nossos propósitos e ideais artísticos e logísticos. Enfim, como diz a letra da canção "O Dito Popular" : "quem não tem cão, caça com gato", ou rato, como é aventado no desenrolar da letra. Sendo assim, com o Rodrigo alertando-nos para essa possibilidade, concordamos que a banda buscasse tal alternativa, na base daquela máxima do : "não custa nada"...

Portanto, o próprio Rodrigo tomou a dianteira e começou a pesquisar na internet esse mundo dos festivais independentes e iniciou a mandar material da banda para as respectivas produções de tais festivais, e que são muitos, espalhados pelo país inteiro.
Nesses termos, um festival que respondeu-nos bem rápida e solicitamente, foi o "Grito Rock". Tratava-se de um festival sui generis, pois ao contrário da estrutura tradicional de um festival com local e palco único, esse tal "Grito Rock" era uma somatória de pequenas produções espalhadas por várias cidades, e cada uma virando-se como podia, mas usando uma única bandeira, concedendo aura de grandiosidade para um festival que na verdade, tinha estrutura bem simples. Dessa forma, fomos escalados para participar do festival, tocando num mini centro cultural localizado na cidade de São Caetano do Sul, na região do ABC paulista.

Chamava-se "Cidadão do Mundo", um misto de ONG, com "coletivo cultural" e casa noturna. Na prática era um bar com estrutura simples para pequenas apresentações musicais e eventuais outros eventos como saraus; exposições; palestras; workshop etc.
Enquanto casa de shows, era bem simples, mas reunia condições mínimas, iguais ou até melhores que muitas casas noturnas por onde tocamos anteriormente. Palco pequeno, mas com criatividade e paciência, dava para acomodar uma banda como o Pedra com suas necessidades logísticas básicas de equipamento. Som de P.A. e luz bem modestos, mas já havíamos tocado em situações mais precárias e como dizia a Rita Lee, ironizando as condições inóspitas com as quais os rockers tupiniquins atuavam costumeiramente : "Orra meu"...
Bem, não ganharíamos cachet, mas participar desse primeiro festival poderia abrir algumas portas no futuro e de fato, ao contrário da maioria das produções de festivais independentes, onde as pessoas responsáveis são extremamente arrogantes e desdenhosas, tendo a soberba como modus operandi, o pessoal dessa unidade do "Grito Rock", no "Cidadão do Mundo", foi muito simpático, e deu-nos a esperança de que seria bacana participar.

Era um show típico de "investimento de carreira", onde o artista é convencido a participar gratuitamente para poder pleitear no futuro o surgimento de melhores oportunidades advindas. Eu conhecia essa conversa desde que iniciei minha carreira, praticamente, e salvo alguma honrosa exceção, não tenho conhecimento que tal prática dos meandros do show business alavanque oportunidades concretas para qualquer artista. Sendo realista, comparo esse tipo de abordagem que fazem para artistas sedentos por oportunidades, como certas empresas que só contratam estagiários para trabalhar, numa predisposição de iludir o aspirante e pagar-lhe salário irrisório, ou simbólico, em prol de si própria, com as tais oportunidades anunciadas, nunca chegando de fato. Eu sempre fui crítico dessa predisposição de certos empresários em convidar artistas a apresentar-se gratuitamente em troca dessa ilusão fugaz de um suposto "investimento de carreira", e naquele momento, com 47 para 48 anos de idade, e 32 de carreira, achava ainda mais ridículo pensar nesses termos.

Todavia, a situação da banda não era para recusar oportunidades e com tempos difíceis na seara do agendamento de shows, claro que não "criei caso" tentando demover meus colegas de sua decisão de participar, e muito menos recusando-me a participar...
Dessa maneira, fomos nessa, firmes e fortes, com a mesma predisposição que teríamos se estivéssemos indo tocar numa grande casa de espetáculos, com infra estrutura para artista internacional, e plateia abarrotada de fãs sedentos pelo nosso som...
E assim, fomos participar do festival "Grito Rock", na tarde de um sábado, 9 de fevereiro de 2008, em São Caetano do Sul / SP...

Chegamos ao pequeno espaço Centro Cultural Cidadão do Mundo, com bastante antecedência ao nosso horário estipulado para  apresentarmo-nos. Verificamos que haveriam diversas bandas, todas, invariavelmente de espectro artístico ligado ao dito "indie Rock", e apenas conhecíamos vagamente uma por nome, mas nem imaginávamos como seria o seu som, e que chamava-se "Garotas Suecas". Conhecíamos também o "Kães Vadius", que era uma veterana banda da cena do Punk-Rock e oriunda dali mesmo da região do ABC.

Pedra no "Grito Rock de 2008", tocando no Centro Cultural Cidadão do Mundo, em São Caetano do Sul / SP. Foto de Vivi Alcaide

Muito bem tratados pelos responsáveis pela casa e pelo evento,  levaram-nos para uma espécie de "lounge" improvisado, que na verdade era uma laje da casa. As instalações eram bem simples, mas a simpatia da rapaziada era muito grande e sentimo-nos muito bem ambientados, apesar de sermos "estranhos no ninho" num mundo cultural muito diferente do nosso. O entra e sai de bandas no pequeno palco era intenso e na rua, a prefeitura de São Caetano do Sul estava colaborando com o evento, pois interditara a rua e dessa forma, uma pequena multidão transformou-a num "pic nic" improvisado, e nem todo mundo que estava ali comendo e bebendo nos carrinhos de hot dog que estavam ali trabalhando, tinha a ver com o Festival, pois até batucadas de samba eram ouvidas, fazendo da rua um churrasco popular. Bem, não era exatamente uma ambientação de show de Rock, mas estava festivo e achei positiva a movimentação popular, com todo mundo ali parecendo divertir-se.
Dentro do espaço do festival, ouso dizer que haviam mais músicos e roadies circulando, do que público propriamente dito. Era tudo gratuito, portanto deveria ter atraído mais gente. Mas era o tal negócio, aquele mundo "indie" não era o nosso e ali não sabíamos quais expectativas ter sobre a confluência de público; que tipo de divulgação fora executada e não sabíamos nada a respeito das demais bandas que apresentar-se-iam, a não ser o "Kães Vadius" que deveria atrair seu público adepto do Punk Rock oitentista.
Quando fomos chamados a tocar, foi meio tumultuado fazer a preparação do set up, como era previsto pelas dimensões acanhadas do pequeno palquinho e confusão generalizada pelo entra e sai de músicos e roadies.

Aqui, apareço em destaque, na foto clicada pelo nosso roadie, Samuel Wagner

Tocamos quatro ou cinco músicas apenas, num show de choque adequado ao formato "Festival". Lembro-me de "Filme de Terror", onde inclusive tive um problema de última hora com a tarraxa do meu baixo Rickenbacker e com a música já em execução, tentei corrigir tocando, mas não consegui a contento e dessa forma, uma filmagem feita por uma pessoa do público e postada no You Tube imediatamente, mostra-nos tocando com esse incômodo de duas cordas do meu baixo fora da afinação correta e portanto, não vou postá-lo aqui, porque é desagradável. Além do mais, pela ausência de uma iluminação mínima, a filmagem é bem escura e também por isso, não vale a pena vê-la. Após a devida afinação, o restante da apresentação correu bem. Tanto que as pessoas aplaudiram com entusiasmo e isso até surpreendeu-nos, pois com um tipo de público não acostumado a sonoridades clássicas, achamos erroneamente que portar-se-iam de forma blasé, mas não foi o que ocorreu. Tanto que recebemos o convite para voltarmos a esse Centro Cultural a seguir para um show solo, fora do contexto do Festival e assim o fizemos, dois meses depois. No Blog desse Centro Cultural, uma resenha foi escrita por um jornalista chamado Tadeu Alcaide, falando do festival, especificamente do dia em que tocamos.
Leia abaixo o que ele disse, editada a parte que cita-nos :

"De tempos em tempos é preciso dar uma sacudida no cenário roqueiro em lugares que sofrem de uma certa carência de espaços para as bandas mostrarem suas caras, divulgarem seus trabalhos e serem inseridas no circuito. O Grito do Rock confirmou que se pode fazer muito com pouco, tendo sido realizado em quase 50 cidades, num evento integrado, independente e de proporções internacionais, incluindo as cidades de Buenos Aires, na Argentina e Montevidéu, no Uruguai, tudo isso sem o envolvimento de grandes patrocinadores. A edição do Grito no ABC provou que, há sim um espaço para difundir toda essa produção musical, e que existe um público que está cada vez mais disposto a frequentar esses eventos e conhecer novas bandas com um trabalho autoral, quebrando aos poucos aquela cultura instituída na região de apenas haver espaço para bandas “cover”. O Cidadão do Mundo deu um passo importantíssimo no sentido de inserir a região do ABC no circuito dos festivais independentes, com uma boa organização, não houve grandes atrasos entre um show e outro, a programação seguiu pontualmente os horários marcados. Mas o principal atrativo do evento foram as bandas, que fizeram apresentações cheias de energia e carisma, com a participação entusiasmada do público.
O show da banda Pedra foi um dos momentos altos do Festival, apresentando um hard rock setentista, muito bem executado por músicos veteranos da cena roqueira, velhos conhecidos de grupos como Patrulha do Espaço e Ave de Veludo, que impressionaram bastante por sua competência no palco".

Tadeu Alcaide


Com exceção da citação de que algum de nós havia tocado no "Ave de Veludo", e não sei de onde o rapaz tirou tal ideia, trata-se de uma resenha bem bacana.

Eis o Link do Blog do Centro Cultural Cidadão do Mundo, para ler na íntegra a resenha de Tadeu Alcaide :

http://mundodocidadao.zip.net/arch2008-02-01_2008-02-29.html


Alguns dias depois, recebemos o telefonema do produtor Marco Carvalhanas, dando-nos ciência de uma outra oportunidade de show e que poderia ser muito bacana.

Gravando ainda o novo álbum, mas muito atentos às escassas oportunidades que a cena de início de 2008 oferecia-nos, achamos ingenuamente que por termos tocado num festival que tinha relação com outros tantos festivais de música independente, isso seria capaz de abrir-nos portas. Ledo engano naturalmente, mas naquele preciso instante ainda não tínhamos a visão correta do que era esse mundo e seus meandros intimamente ligados à "politicagem" que manipulava as leis de incentivo à cultura e isso só perceberíamos um pouco mais tarde e sentindo na pele o que era ser incauto nessa engrenagem nada recomendável para gente de bem, eu diria.

Enfim, fora dessa expectativa por oportunidades no mundo dos festivais de artistas independentes, recebemos o telefonema do produtor Marco Carvalhanas, em meados de fevereiro de 2008, e ele ventilou-nos uma novidade. Tratava-se de um teatro localizado no bairro do Bexiga (na Rua Rui Barbosa, perto do extinto e histórico, Teatro Aquarius, e que naquela época ainda funcionava como Teatro Zaccaro), na zona central de São Paulo, bairro esse com larga tradição em abrigar teatros, e muitos dos quais com seus respectivos espaços também generosamente abertos para artistas da música e não só para peças teatrais.

Nesse caso, era um teatro novo, ainda não estruturado para brigar com os teatros super tradicionais do bairro e querendo ganhar terreno, abrindo as portas para começar a fazer seu público e entrar na briga pela concorrência. Com o exótico nome de "Teatro X" ("Xis", a letra do alfabeto, e não o número dez, algarismo romano), oferecia suas dependências sem cobrar aluguel, mas apenas uma porcentagem da bilheteria que conseguíssemos angariar na noite em que tocássemos.

Bem, não custava dar uma olhada e a ideia de arriscar não era de todo má se não tivéssemos grandes gastos no nosso operacional, a não ser bancar o cachet de nossos funcionários básicos, dois roadies e quiçá contar com a boa vontade do Renato Carneiro em operar o som, caso fosse possível, em se considerando que sua agenda era uma loucura ao ser técnico de P.A. de duplas sertanejas de sucesso mainstream.

No camarim do Teatro X, já na noite do show. Ivan Scartezini & Luiz Domingues. Foto : Grace Lagôa 

Fomos ver o local e era bem rústico, mas bastante interessante, com um certo jeito estilístico do saudoso Teatro Lira Paulistana, mas com dimensões ainda maiores para o palco. Reforçava-se essa impressão pelo fato do público ficar acomodado numa estrutura de arquibancada, com capacidade para 120 pessoas, segundo contaram-nos, mas pelas laterais e na frente do palco se fosse o caso, dava para abrigar mais pessoas sentadas no chão, caso o contingente fosse maior. Nesses termos, creio que dava para acomodar cerca de 200 pessoas em caso de superlotação, mas sem ficar insuportável ou perigoso em caso de saída de emergência.

Outra foto do camarim, com Xando Zupo & Luiz Domingues recebendo a visita do amigo, Nelson Brito. Foto : Grace Lagôa

Mas não gostamos de ver que o P.A. e a luz existentes no local eram bem fracos. E a infraestrutura técnica também deixava a desejar, com poucos pontos de "ac/dc" (eletricidade), denotando não estar preparado para fazer-se shows de música, ainda mais uma banda de Rock e suas necessidades de múltiplos pontos de energia para alimentar diversos amplificadores; um P.A. e pedaleiras para guitarristas e tecladistas. Sendo assim, quase desistimos vendo a dificuldade inerente e de fato, alugar um P.A. e preocupar-se em prover pontos de eletricidade estava fora de cogitação.

Mas o Xando teve um gesto de extrema boa vontade, e disse-nos que se aceitássemos ajudar em ritmo de mutirão, estava disposto a fazer um sacrifício, desmontando todo o P.A. de seu estúdio, o que daria um trabalho insano entre desmontar, transportar e remontar para ele poder tê-lo em ordem para atender seus clientes no cotidiano, usando-o como sala de ensaio, posteriormente. Bem, todos aceitamos, claro e além dos roadies, nenhum de nós deixaria de ajudar nessa tarefa braçal e pesada. Mesmo assim, havia mais dois problemas para resolvermos : a questão da falta de estrutura básica de energia e a luz fraquinha disponível.

Sobre a energia, o Xando fez uma inspeção mais minuciosa e descobriu outros pontos de energia, ainda que mais distantes do palco, portanto, mediante várias extensões longas, dava para improvisar-se uma estrutura que provesse-nos e sobretudo não sobrecarregasse o parco sistema do teatro, que logicamente não estava preparado nem na ligação externa, com um tipo de voltagem adequada para suportar uma carga violenta de consumo, que um show de Rock demandava.

Sobre a luz, ligou para o Wagner Molina, que de pronto prontificou-se a fazer a luz de graça para nós, e também foi lá verificar o que tinha disponível e como um iluminador de alto nível que era / é, não gostou nada da simplicidade "franciscana" ali presente. Mesmo assim, prontificou-se a trabalhar e dar o seu melhor, mesmo com parcos recursos e para nós era um conforto saber que teríamos sua presença, amenizando a precariedade do equipamento muito fraquinho. Fizemos então a divulgação possível e nesses tempos, 2008, já baseado em 80% de esforço nas redes sociais da Internet, e dispensando os meios tradicionais de outrora, que já demonstravam não surtir o mesmo efeito. No dia do show, o trabalho foi cansativo, mas com todos imbuídos da máxima boa vontade, ajudamos o Xando a levar seu equipamento de P.A., além de todo o nosso backline.




Conseguimos montar e fazer tudo funcionar a contento, sem sobrecarregar os poucos pontos de energia. Por incrível que pareça, mesmo sem um técnico auxiliando-nos, fizemos um "autosoundcheck" super convincente ao ponto de deixarmos um som muito confortável no palco, e com uma potência sonora surpreendente, até.






Sobre a luz, quando vimos o Wagner Molina estacionando seu carro, surpreendemo-nos, pois o carro estava abarrotado de equipamentos de luz que ele trouxera por conta, para somar ao equipamento do teatro.


 
Chegamos a ficar preocupados no entanto, pois ele ainda convalescia de uma grave enfermidade cardíaca e com o carro cheio daquele jeito, denotava que havia feito um esforço desmedido para a sua condição de resguardo cirúrgico. De fato, estava suando muito e mesmo com nossa ajuda ali na hora, deve ter esforçado-se muito sozinho em sua casa.



Mas a despeito desse sacrifício pessoal e muito perigoso que fez, louvo seu esforço, pois ele montou aquele equipamento e fez uma luz tão incrível que ninguém, do público ao dono do teatro, e incluindo nós mesmos, acreditou. Já na passagem de som e com ele fazendo seus testes de luz, funcionários do teatro foram chamar o proprietário e o rapaz ficou estupefato, pois esperava uma apresentação rudimentar, mas do jeito que o palco fora montado, com aquele áudio e aquela luz, chegou a dizer-nos que nunca tinha visto uma produção assim no seu teatro e de fato, ficamos contentes pelo resultado, mas sobretudo por percebermos que ali poderia tornar-se um ponto para a música autoral, notadamente o Rock, desde que investissem em equipamento e melhorias técnicas, principalmente a questão de energia, pois outras bandas poderiam não ter condições de improvisar tal estrutura que nós conseguimos produzir por nossa conta.




 
O ator Daniel Alvim (que protagonizou a dramaturgia do nosso clip de "Sou Mais Feliz"), chegou de surpresa ao nosso camarim. Ficamos contentes com sua vinda inesperada, e ele estava bem alegre, digamos assim. Bastante expansivo naquela noite, quis apresentar o show, e apesar de ter feito uma performance histriônica, também foi engraçada e serviu para quebrar qualquer gelo que pudesse existir com o público naquela noite. Nosso público foi razoável, com cerca de 60 pessoas presentes. Mas saiu totalmente feliz pela nossa performance e nesse dia por termos tido esse trabalho para providenciar som e luz completos, resolvemos fazer uma loucura e tocamos simplesmente todas as músicas do nosso disco de estreia e todas as novas do novo disco que ainda não havia sido lançado.

Versão de "Longe do Chão" no Teatro X, em março de 2008 :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=gICnARvyw6s


Ficou longo, certamente, e uma carga de músicas inéditas para muitos foi tocada, o que não é nada aconselhável para qualquer artista, mas diante da canseira que foi montar tudo e sobretudo pelo fato do Pedra ser uma banda com muitas dificuldades de montar uma agenda constante, não furtamo-nos à essa loucura de nossa parte.

A versão de "Madalena do Rock'n Roll", no Teatro X, em março de 2008 :


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=BW0Y7u5U2Us


Só uma pessoa que assistiu e pareceu não ter gostado do expediente, abordou-me no camarim para em tom professoral dar-me um conselho, para não fazer mais shows tão longos assim que tirava o impacto e pelo contrário, cansava o público. Era um sábio conselho, do qual eu também concordava, mas creio já ter exposto a nossa motivação em específico para esse dia. Tal pessoa era na verdade um artista que fora mega famoso no cenário do Rock brasileiro setentista e creio, que sua fama naquela década chegou a extrapolar as fronteiras do Rock, pois atingiu o mainstream. Gente boa e educado ao extremo, deu seu recado que reputo ter sido sábio, mas fazendo a ressalva de que ele não sabia das circunstâncias hercúleas com as quais aquela produção fora forjada, mas valeu pela dica...
Mesmo muito felizes pela atuação do Wagner Molina, que tornou o show um aparato visual que ninguém esperava, ficamos preocupados com ele. Ao término do show, ele mostrava-se ofegante, suando em demasia e no seu estado, todo cuidado era pouco.

Bem, desmontamos tudo, levamos todo o equipamento para o estúdio do Xando e o esforço todo deixou-nos com a sensação boa de que valeu a pena, artisticamente falando, pois no tocante ao lado financeiro, descontando-se as despesas, o saldo era irrisório. Tempos difíceis para uma banda de Rock autoral e outsider ao extremo como era a nossa, deslocada de todas as "turmas" em voga...
Noite de 1º de marco de 2008, no Teatro X (Xis...), com 60 pessoas na arquibancada assistindo-nos. Daí em diante, prosseguiam os esforços para finalizar o segundo álbum, e um próximo show ocorreria apenas em maio.

O conceito da capa para o segundo disco, foi ideia original minha.
Sempre quis ter uma capa de um trabalho meu, lidando com uma ilustração ou conjunto de ilustrações, fazendo menção a cada canção do álbum. Não trata-se de uma ideia revolucionária, muitas bandas já usaram tal mote ao longo da história do Rock, mas mesmo assim, dá para buscar-se uma identidade, dependendo dos temas abordados, porém, principalmente confiando na criatividade do ilustrador, desenhista ou fotógrafo que vá assinar esse lay-out final.

Já na época do primeiro disco, eu havia sugerido isso à banda, mas na ocasião, pela pressa que tivemos e os problemas que enfrentamos ao perdermos nosso baterista em cima da hora (fazendo com que tivéssemos de mudar inclusive as fotos dos componentes da banda, apresentando-nos como trio no disco), fez com que a ideia fosse descartada. Naquele instante, a ideia era posarmos em situações que aludissem à cada canção, mas com fotos simples, com os componentes insinuando coisas. 

Seria algo do tipo : uma foto do Xando sozinho carregando uma guitarra na mão numa estrada vazia ("Estrada"); o Rodrigo olhando-se num espelho ("Reflexo Inverso"), eu usando um headphone ("Vai Escutando")...e aproveitaríamos o fato da Grace Lagôa, esposa do Xando, ser uma excelente fotógrafa, dando-nos a garantia de que seria um ensaio fotográfico de bom gosto. Mas a ideia permaneceu na minha cabeça, pois antes mesmo do Pedra existir, eu sempre apreciei o conceito e havia feito um raf, eu mesmo de uma ilustração que poderia ter sido a capa de uma eventual CD do Sidharta em 1998, caso essa banda seguisse carreira e conseguisse lançar seu álbum debut. 

Nessa ideia para o Sidharta, seria uma ilustração inspirada nas pinturas de Hyeronymus Bosch, famoso pintor renascentista, que costumava fazer telas enormes, retratando paisagens urbanas de sua época, com pessoas em feiras, festas públicas e até em situações macabras, evocando o inferno dantesco etc etc. Seguindo esse parâmetro, várias pessoas estariam interagindo simultaneamente, cada uma numa situação que denotasse o título ou o conteúdo enfocado em cada canção.

Então, quando começou a especulação sobre como seria a capa do nosso segundo disco, eu joguei de novo a ideia no ar, e não acho que foi aceita com grande entusiasmo pelos demais, mas ganhou esse contorno quando o grande artista plástico, Diogo Oliveira envolveu-se diretamente no projeto e aí, muito mais empolgados com a sua capacidade criativa que de fato é gigantesca, passaram a considerar a ideia, a cada raf que ele trazia-nos e claro, era para empolgar mesmo. Diogo propôs uma história em quadrinhos, com um roteiro e personagens que contariam-na, baseadas nas letras das músicas.

Sendo assim, há o garoto cabeludinho e com um certo quê de hippie sessentista / setentista, que passa pelas situações propostas pelas músicas e um personagem enigmático, certamente um homem sábio, mas com um certo maquiavelismo sinistro, quase sendo um vilão, e que seria o "Jefferson Messias", que interage com o garoto.
A história alinhavou-se de uma forma bastante harmônica, evocando momentos de tensão e desespero, com descobertas quase transcendentais, lembrando de certa forma a saga do "Tommy", da Ópera Rock do The Who.

Sobre as ilustrações, Diogo fez um trabalho magnífico. Sua arte é de alto padrão, e sua versatilidade como artista plástico, notável.
Tanto que a influência que ele tem como artista, é múltipla e vai de Van Gogh a Pollock, passando por Crumb e os grandes mestres das Histórias em Quadrinhos, e tudo regado a Jimi Hendrix; Ravi Shankar, e J.J. Cale entre outros tantos gênios da música. Portanto, além do talento como ilustrador, Diogo tem a vantagem de ser Rocker e vibrando como nós, ipsis litteris, teve a perspicácia de construir uma obra gráfica extraordinária. Chato falar nesses termos, pois ao leitor mais desavisado, vai parecer que estou faltando com a modéstia, mas não é o caso, pois minha intenção é apenas enfatizar que essa embalagem ficou mesmo sensacional.

E para dar ênfase, Diogo propôs que o formato fosse nos moldes das revistas de Histórias em Quadrinhos e não um mero encarte padrão de CD. Sábia decisão, pois a redução prejudicaria a inteligibilidade do produto, e assim, valorizamos muito a parte gráfica. O lado ruim disso é que para efeito de marketing, o formato causava estranheza aos lojistas tradicionais que simplesmente não tinham estrutura de gôndola para um lançamento fora do padrão das caixinhas de CD, mas convenhamos, 2008 em curso e já naquele momento, a total imprevisibilidade sobre os rumos da indústria fonográfica, faziam com que discussões desse teor ficassem a cada dia mais fora de propósito...infelizmente, eu diria.

Outra discussão que tivemos foi sobre o título do disco. Como no primeiro usáramos o recurso do disco não ter título oficial, apenas o nome da banda na capa, eu sugeri o título de Pedra II, para esse segundo lançamento e esse também era um sonho antigo e acalentado desde a adolescência pensando em casos de bandas que utilizaram tal recurso e eu achava-o estiloso. "Led Zeppelin II"; "Queen II" etc etc. Os amigos gostaram e assim, nasceu "Pedra II", um título pomposo, ao estilo da aristocracia das bandas britânicas clássicas...

Ainda falando sobre a capa, toda a concepção de formato e trâmite com a gráfica ficou a cargo do Diogo, que publicitário experiente, conhecia bem tais meandros e assim, tomou a dianteira nessa produção.

Tivemos um problema a ser resolvido com o invólucro do CD em si. Pensamos em um envelope em anexo ao gibi, mas diante do encarecimento desse recurso na gráfica, optamos por um pino de velcro que abriga o disco logo na segunda página. Não é 100% confiável, pois alguns vieram com defeito de fábrica e não seguravam o disco de forma alguma, mas em sua maioria deu certo e não recebemos queixas de seus consumidores.

O "Gibi do Pedra" como ficou conhecido, recebeu muitos elogios de críticos e público em geral, e creio que com absoluto merecimento e sem dúvida alguma, o grande Diogo Oliveira tem um mérito imenso nesse processo pela sua arte espetacular que só engrandeceu o conteúdo musical da obra.
Eis acima o álbum na íntegra, para se escutar.


Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=cAhUKnto7bc 

Disco quase saindo do forno, entre maio e julho de 2008, tivemos um momento ótimo de sequência de shows que praticamente fez-nos acreditar que estávamos revivendo o ótimo momento que tivéramos em 2006. E logo, um fator inesperado nos faria acreditar fortemente nessa perspectiva...

Continua...

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