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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 12 - Veja Bem : Cuide-se Bem e de Nossos Singles, Também... - Por Luiz Domingues



Quando 2010 entrou, estávamos com uma injeção de ânimo surtindo efeito nas nossas veias, por conta da perspectiva da Revista Veja. Querendo aproveitar tal momento que mostrava-se alvissareiro, o Xando quis dar mais impulso ainda, e teve uma ótima ideia.

Ao gravarmos as novas músicas, abrimos praticamente o começo da gravação do terceiro disco, mas como não haviam ainda mais músicas para compor um álbum de fato, não falava-se em lançar um EP intermediário, entre o Pedra II, e o terceiro disco. Portanto, tais canções novas teoricamente teriam que esperar uma nova safra ser composta e gravada, para pensar-se na concepção de um novo álbum, de fato. Aliado a esse fato, o Xando já vinha montando e editando promos de internet para a banda, desde o final de 2006. Nessa altura, já havia instalado programas de computador mais sofisticados, tendo uma ilha razoável de edição de vídeos à sua disposição para trabalhar, e estava gostando disso. Portanto, ele criou a ideia de aproveitar tais músicas novas já gravadas e mixadas, lançando-as na internet com promos especiais, e a cada dois meses, numa ação previamente anunciada. Essa disposição dele em anunciar coisas previamente, era uma divergência entre nós. Eu nunca gostei desse tipo de estratégia, pois além da pressão interna para a concretização da promessa em si, acabava com o fator surpresa. Mas, infelizmente ele considerava isso uma estratégia perfeita e predominou essa opinião não só nesse evento, mas praticamente em todas as ações que o Pedra empreendeu na sua história completa.

Independente dessa questão, é claro que sua ideia e iniciativa em preparar os promos, foi excepcional, e logo no início do ano de 2010, antes mesmo do Sérgio Martins dar-nos as coordenadas do lançamento de nosso programa na "Veja Música", o Pedra lançou seu primeiro promo, que tinha como música protagonista, "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim". Utilizando diversas imagens de shows da banda, e também de bastidores (making off da gravação da canção, incluso), e momentos de informalidade, o Xando montou um belo promo, mostrando que estava ficando cada vez melhor nessa capacidade de produzir vídeos caseiros. 

O promo de "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim", lançado em janeiro de 2010

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=0rQjV_Rs9bA

Aqui, o Link para assistir no Vimeo :
https://vimeo.com/73796564


Mais ou menos nessa época, o Sérgio Martins avisou-nos por E-mail que estava tudo certo para o nosso programa da "Veja Música" estrear na Internet, e haveria apoio, logicamente, de divulgação dessa ação na revista Veja impressa tradicional, e na sua versão on line. Somado ao lançamento do promo de "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim", que chamou a atenção entre fãs e no métier do Rock underground, creio que 2010 começou sinalizando que teríamos um novo horizonte.

Um fato novo e pessoal ocorreu-me, mas que mudaria muito a minha chance de contribuir mais com a banda, interagindo na divulgação de uma forma incisiva. Era inacreditável, eu sei, mas só no final de janeiro de 2010, comprei meu primeiro computador pessoal...
Absolutamente leigo no assunto, sem nenhuma noção sequer sobre como lidar com suas funções básicas, fui tateando a máquina, mediante consulta ao manual, e só em meados de fevereiro consegui interagir no mundo virtual quando aprendi a lidar com um E-Mail pessoal, e abrir uma conta numa Rede Social, no caso, a mais popular da época, o saudoso Orkut. Contudo, assim que entrei, percebi que tal Rede passava por um processo de decadência profunda, e novo no mundo virtual, demorei para entender a mecânica de raciocínio dos usuários desse mundo, por estarem desprezando-a em massa. 

Hoje (2016), passados seis anos em que atuo no mundo virtual, e já tendo interagido em quase trinta redes sociais diferentes, ainda acho o Orkut a melhor de todas, portanto, o vilipêndio que essa rede sofreu, não passou de um ato sabotador, visando óbvios interesses escusos, e perpetrado por algum marqueteiro e seus malditos asseclas, os famigerados "formadores de opinião". Bem, para efeito de narrativa do Pedra, o importante foi que a partir de fevereiro de 2010, passei a usar tal ferramenta das redes sociais em nosso favor, usando de minhas estratégias pessoais que mal estava aprendendo a manipular, mas que em poucas semanas, já deu resultado prático, já que passei a angariar muitos simpatizantes para o Pedra, gente que nem fazia ideia que existíamos.

E assim, o promo de "Queimada das Larvas do Campos Sem Fim" foi o primeiro que divulguei entre meus primeiros contatos, e a seguir, o programa da "Veja Música", logicamente, o que realizei com grande prazer, naturalmente. E ainda lembro-me da enxurrada de pessoas adicionando-me no Orkut, estupefatos com minha repentina adesão ao mundo virtual e quem conhecia-me pessoalmente sabia que eu nada entendia disso, e não nutria nenhuma curiosidade a respeito, até então, vivendo num mundo à parte, usando telefone fixo tradicional, e cartas manuscritas para comunicar-me normalmente com as pessoas, mas eu sabia que teria que aderir, um dia. Uma das manifestações mais engraçadas veio da parte do Xando, que assim que adicionou-me no Orkut, mandou uma mensagem brincando com minha entrada no mundo virtual.

Ele e sua esposa, a fotógrafa Grace Lagôa, auxiliaram-me bastante, inclusive disponibilizando-me muitas fotos do Pedra para rechear meu perfil do Orkut, e uma em específico, tornou-se a foto oficial do meu avatar naquela simpática rede, até o seu último dia de existência em 2014, e a seguir, também tornou-se meu avatar na Rede Social Facebook, até os dias atuais (2016). Nunca fiz campanha contra ou forjei questão como "resistente", em relação à modernidade da internet, como talvez algumas pessoas pensassem a meu respeito. Apenas demorei muito para aderir, da mesma maneira como eu nunca tive vontade de dirigir automóveis, mas sabia que um dia eu teria que habilitar-me, também, e só aos 29 anos de idade tomei a providência de matricular-me numa auto-escola...
Bem, aderir ao mundo virtual mudou muito a minha maneira de interagir com o mundo, certamente, e com a minha carreira, é claro.
Começo de 2010 promissor, com novidades boas para o Pedra, e um Luiz Domingues virtual, inserindo-se nessa nova realidade...




Então recebemos o comunicado de que nossa participação no programa "Veja Música" sairia no final de fevereiro de 2010.
Portanto, deu-nos a ótima sensação de que uma avalanche midiática ocorreria pelo tamanho que tal exposição haveria de dar-nos, e somado ao barulho em menor escala que havíamos precipitado por termos lançado uma música nova apoiada num interessante promo para a Internet / You Tube ("Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim"), era para animar, mesmo.


Então, percebemos que a revista Veja impressa em sua edição de nº 2153, de 24 de fevereiro de 2010, chegou às bancas com uma nota anunciando a entrada no ar do nosso programa, com direito a foto promocional, e claro que aquilo era excitante para artistas tão acostumados com os calos da dura labuta fora dos holofotes do mundo mainstream. Assistimos o programa disponibilizado na internet e apreciamos muito o resultado final. Nossa performance fora boa, tecnicamente falando, embora, pelo menos de minha parte, tenha ficado com a impressão que no vídeo, estejamos um pouco "engessados". Sei que é algo sutil, mas eu noto que não passamos a impressão de estarmos 100% a vontade, e creio que a responsabilidade do evento em si, somado ao fato de estarmos num tipo de execução / performance não costumeira para nós, pela questão dos arranjos acústicos para a ocasião, deve ter produzido esse estrato involuntário, mas perceptível.



No dia da filmagem, eu não tive a mesma impressão, mas como ver-se /ouvir-se no vídeo, é o tipo de experiência que surpreende geralmente, creio que estava dentro da normalidade. Fora tal percepção, gostei muito da performance musical, e da entrevista que o jornalista Sérgio Martins conduziu com Rodrigo e Xando.
No mesmo dia e esperado por todos nós, uma enxurrada de comentários e compartilhamentos nas redes sociais iniciou-se. Nos nossos meios naturais até então, foi um bombardeio incrível de apoio que recebemos, mas ainda mais animador foi constatar que também havia uma enxurrada de manifestações da parte de muitas pessoas estranhas que nunca haviam ouvido falar de nossa banda, sequer...

Bem, era muito animador para nós ter essa constatação, abrindo um mundo novo para a expansão de nossa banda. Esperávamos também críticas negativas ou desdenhosas da parte de "trolls", mas isso foi tão insignificante que nem merece registro. A maioria esmagadora das manifestações, foram super positivas, com comentários até surpreendentes da parte de pessoas que perguntavam, estupefatas, como era possível uma banda como a nossa ser desconhecida do grande público; não estar na mídia; etc etc. Ora, claro que manifestações assim eram ultra lisonjeiras para nós, e a despeito de achar desnecessário explicar as razões obscuras pelas quais artistas como o Pedra, não chegam num patamar de exposição maior, e atingem uma parcela maior do público, é lógico que era uma luz acendendo-se num túnel permanentemente escuro para quem vive eternamente no underground...

A entrevista conduzida pelo jornalista Sérgio Martins no programa Veja Música

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=LPJN9vX5bV0 


A performance de "Meu Mundo é Seu"

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=y4MGj1f2UhI 


A interpretação acústica de Filme de Terror

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=yAz2pXOTwJ0 


"Projeções" mais acústica do que nunca, para a Veja Música...

Eis o Link para assistir no You Tube : 
https://www.youtube.com/watch?v=OTFQ7JwoGJo


"Cuide-se Bem", clássico do grande Guilherme Arantes, na primeira leitura que o Pedra fez da canção, em formato acústico.

Eis o Link para assistir no You Tube : 
https://www.youtube.com/watch?v=jObLWD2o5vI 


Em suma, estávamos muito felizes por constatar que a repercussão inicial fora maciça, e até acima das nossas expectativas.
Inclusive, algo bastante acima da nossa mais otimista expectativa, o que era bastante animador.

Naquele instante, nossa preocupação era capitalizar ao máximo tal "momentum" positivo, embora soubéssemos que isso era quase impossível de ser empreendido, levando-se em conta o fato de não termos empresário; agente; manager, ou qualquer tipo de pessoa com a astúcia mínima dentro desse universo do show business, para aproveitar essa oportunidade, adequadamente. Independente disso, estávamos contentes com esse resultado inicial, é claro.

A partir daí, tendo o reforço de um iniciante usuário de internet, meu caso, mas com toda a boa vontade para fazer o máximo possível, centramos nossas baterias na divulgação do programa da "Veja Música", e do 1º single / promo lançado em 2010, consumindo a nossa energia e foco. Nesse ínterim, o Xando já trancafiou-se no estúdio e passou a trabalhar fortemente na produção do novo promo de um novo single que estava previamente programado para ser lançado em março. Como já salientei anteriormente, não gosto dessa estratégia de anunciar realizações antecipadamente, a não ser em questões pontuais como divulgação de shows, naturalmente. E agora, com um certo distanciamento histórico suficiente para enxergar melhor os fatos, comprovo minha tese, no sentido de que tal estratégia adotada pelo Xando, além de contraproducente como marketing, impunha-lhe (nos) pressão para cumprir metas, ter um "deadline"apertado, e isso começou a minar-lhe as forças, pois para produzir um vídeo inédito a cada "X" tempo, subentendia-se que já havia perdido dias e dias em cansativas jornadas de mixagem do áudio de tais músicas. Portanto, pensar no vídeo em si, demandava a mesma carga de atenção e tempo, gerando desgaste físico e psicológico para ele, Xando. Era terrível, pois nessas funções, nenhum de nós três tinha noção alguma para auxiliá-lo, a não ser emitir opiniões estéticas sobre algum resultado parcial, sugerir alguma coisa, mas o trabalho braçal de tais construções, tecnicamente falando, só podia ser executado por ele.

Tal desgaste, foi acelerando o processo de sua insatisfação pessoal com a conduta dos demais membros, somando-se ao nosso tumor crônico, que era o de não conseguir ter uma agenda sustentável.
Não nesse momento inicial de 2010, mas ao longo do ano, sacrificando-se para colocar no ar os tais "promos" prometidos publicamente (realço minha opinião, ter prometido isso foi um erro da parte dele), foi fator preponderante para um colapso posterior. Mas, não quero antecipar a narrativa. Portanto, por enquanto, fevereiro de 2010, estávamos vivendo um momento de alento com a exposição já citada acima.

Sem muitos meios para aproveitar melhor o embalo que o programa da Veja proporcionou-nos, uma coisa ficou patente aos nossos olhos : a repercussão que nossa versão acústica de "Cuide-se Bem", do Guilherme Arantes, ganhou, surpreendeu-nos. Não tratava-se de não acreditar na canção, tampouco na figura de seu compositor, que aliás era um artista que todos admirávamos. 

Luiz Domingues no Centro Cultural São Paulo atuando com o Pedra em 2009. Acervo de Fabiano Cruz

Todavia, acostumados a lidar com a nossa versão de "Filme de Terror" do Sérgio Sampaio e pensando em todos os códigos inerentes que tal composição e ligação do artista em si tinham, achávamos que num veículo mainstream com era a revista Veja, e seu braço áudio visual expresso pelo programa "Veja Música", tal canção repercutiria mais, mas "Cuide-se Bem" sobressaiu-se de uma forma absurda, acendendo um farol para nós. Tirante uma manifestação desagradável de um músico veterano e infelizmente disléxico, que colocou um enorme depoimento negativo no meu perfil do Orkut (mensagem interna estilo "inbox", que só eu li, ainda bem), criticando-nos por estarmos "usando o Guilherme Arantes como muleta" para a nossa carreira, e que relevei completamente, a esmagadora maioria das pessoas estavam encantadas pela escolha e pelo arranjo / performance.

         Xando Zupo em ação com o Pedra. Foto : Grace Lagôa

Mérito grande do Xando, que teve a ideia e bancou-a com vigor, logo apoiado pelo Rodrigo. Portanto, diante desse resultado prático que passamos a observar, não demorou para surgir a ideia de gravar-se uma versão elétrica da mesma canção e aí sim, tornar-se-ia um sucesso ainda maior, mas é prematuro falar desse desenvolvimento ainda. Já chego lá...
Neste momento, a narrativa chega ao ponto de março de 2010, onde um novo single estava pronto para ser lançado através de seu veículo de internet, ou seja, um vídeo clip, ou, na minha maneira de ver, um "promo". Xando trabalhou desta feita a música "Pra Não Voltar", um Hard-Rock bastante vigoroso, eu diria e com uma execução difícil, mas bastante prazerosa pelo arranjo que ficou ousado em alguns aspectos. Como em janeiro, Xando e sua esposa, Grace Lagôa, haviam feito um cruzeiro marítimo para a Argentina, eles tinham capturado imagens de sua viagem e algumas eram completamente desconectadas da perspectiva familiar / recreativa, portanto, foram muito bem usadas, como por exemplo impressionantes raios no horizonte oceânico, prenunciando chuva.


O promo oficial de "Pra não Voltar", lançado em março de 2010

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ri3UQmvj7yQ


Além da beleza dos raios em alto mar que chegam a ser assustadores de certa forma, tem cenas intercaladas de uma filmagem de show do Pedra no Central Rock Bar, em 2009, mas não sei precisar de qual dos três shows que lá fizemos nesse ano, e desconheço que o Xando tenha disponibilizado imagens desse show, separadas ou não, no You Tube. Outro recurso usado, foi o do Chroma Key, onde o improviso para capturar tais imagens foi total, com um resultado elogiável, em minha análise.

É claro que um profissional acostumado com produção áudiovisual vai bater o olho e constatar a precariedade dessa produção, mas para 99.9 % das pessoas que assistem o vídeo, a impressão que tem, é a de que usamos um estúdio com recursos, maquinário, parede Chroma Key preparada, iluminação profissional etc. Mas, tudo foi filmado na própria sala de ensaio do estúdio Overdrive, utilizando tecidos pretos improvisados nas paredes para fazer um Chroma Key ultra improvisado. A direção foi do Xando, que tinha na cabeça mais ou menos o que desejava e tudo era bem simples : ele cantando o tempo todo e os demais tendo aparições fantasmagóricas praticamente, aproximando-se à sua volta, para simular a entoação dos backing vocals. Fora disso, tem cenas do solo de guitarra, filmadas nas mesmas condições e momentos da banda inteira cantando o refrão, mas divididos em quadros, ao estilo da capa do LP Let it Be, dos Beatles. Aliás, quando chega nesse ponto, destaco a performance pessoal do Rodrigo, que fez uma expressão facial bastante convincente, como se fosse ator profissional, mostrando um semblante que passa a impressão de um personagem debochado, cínico mesmo, e que tem a ver com a proposta da letra de certa forma, falando sobre pessoas com dificuldades para livrar-se de vícios em geral e dependência química em específico.

Elogio bastante a criatividade e o esforço do Xando em ter concebido esse vídeo clip, "na raça", como diz-se por aí. Vendo as condições que tínhamos, e comparando ao resultado final, é realmente digno de elogio o esforço e a capacidade criativa em gerar algo tão convincente, com tão poucos recursos. O embalo que tínhamos nesse início de 2010, ainda era bem por conta do primeiro clip lançado em janeiro e intensificado pelo advento da nossa participação no programa "Veja Música". Portanto, quando "Pra Não Voltar" foi lançado, o barulho que conseguiu fazer na Internet foi bom, e a qualidade da música agradou aos fãs do Pedra.
De minha parte, eu ainda era muito iniciante na internet, mas também fiz o meu esforço e angariei muitos simpatizantes novos para o Pedra. Interagindo com estranhos em muitas comunidades não necessariamente ligadas ao Rock, e nem mesmo sobre música em geral, trouxe a atenção e simpatia da parte de muita gente para a nossa banda, e estava contente em dar minha contribuição mais incisiva no campo da divulgação, coisa que antes não tinha meios de fazer.

Os apresentadores do programa Tah Ligado : Maga Lieri & Paulo Ragassi

Ainda em março, no dia 12, fomos convidados a participar de mais um programa cultural bacana de TV de Internet. Desta feita, tratava-se do "Tah Ligado", do canal ALL TV, uma revista cultural interessante, conduzida pelo casal de apresentadores Paulo Ragassi e Maga Lieri (esta uma cantora de Soul Music que conhecíamos pelo fato dela ter discos lançados pela gravadora "Ameliss Records", onde o nosso primeiro disco também foi lançado). Xando e Rodrigo tocaram violões, mas resolvemos não levar equipamento de baixo para eu tocar também e assim, o Ivan igualmente não levou instrumentos de percussão.

                                     José Luiz Goldfarb
 

Foi uma conversa descontraída e com a presença do físico e filósofo José Luiz Goldfarb, uma figura recorrente em muitos programas de TV, inclusive as abertas, que estava ali para falar do "Twitter", que parecia ser a bola da vez na internet, daquele momento de 2010...

Eis o Link para assistir no Vimeo :
https://vimeo.com/10167733 


Voltando a falar do promo lançado,
prosseguimos trabalhando forte nesse esforço de divulgação e nessa altura, num gesto de boa vontade, ofereci-me para cuidar dos dois perfis que a banda tinha no Orkut, e um deles controlando a comunidade oficial naquela rede social. De fato, cuidei de tudo até que o Orkut saiu do ar, no dia 30 de setembro de 2014, quando postei mensagem final de agradecimento em nome do Pedra, nos dois perfis, e na comunidade. 

Em 15 de abril de 2010, uma matéria de página inteira foi publicada no Jornal da Tarde de São Paulo, com um mote até surpreendente para a época, onde não havia indícios de resgate de raízes setentistas no Rock. Mas se o jornalista em questão (Marco Bezzi),  pescou isso no ar, ótimo, que bom alguém da mídia mainstream, geralmente comprometida com a oposição ferrenha a tais ideais, levantasse tal hipótese em meio ao deserto inóspito que o Rock brasileiro vivia há décadas.

Claro, em se tratando de uma matéria geral, entrevistando vários membros de bandas dessa suposta cena, não tinha o foco exclusivo em nossa banda, mas claro que comemoramos o fato e dava a sensação de uma avalanche midiática, super bem vinda para nós, e para as demais bandas enfocadas. E não posso deixar de mencionar o fato positivo que nossa foto saiu com grande destaque em relação às demais fotos de bandas amigas. Outro fato animador ocorrido ainda em abril, foi o convite para participarmos ao vivo, tocando e conversando num programa de internet, chamado "Talk Show", na "Just TV". O Pedra foi uma banda que teve pouquíssimas chances em programas de TV aberta, portanto, as poucas ocasiões em que abriram-nos espaço para divulgar nosso trabalho, resumiram-se aos programas de internet, talk-shows, predominantemente. E foi o caso do convite que recebemos da produtora Célia Coev, que havíamos conhecido em 2008, por ocasião de nossa participação num programa por ela produzido, chamado "Loucuras do Alexandrelli", na Just TV. Desta feita, seu convite era para outro programa sob sua produção, chamado "Talk Show", igualmente veiculado na Just TV.
Contudo, o estúdio onde era gravado tal "Talk Show", ficava em outra instalação, no caso, nas dependências de uma faculdade particular no bairro de Moema, zona sul de São Paulo. Realizado ao vivo e num ritmo frenético, pois não poder-se-ia admitir atrasos nessas circunstâncias, foi bastante divertido participar dele.


Programa Talk Show - Just TV - 20 de abril de 2010
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=qsuyliWV240

O apresentador era bastante simpático e chamava-se Fernando Sanini. Sua introdução no programa já começou hilária, citando um aforismo sobre sexo, surpreendendo-nos completamente, pois não tinha nada a ver, soando muito insólito. Nos bastidores contou-nos que era músico também, batalhando por sua carreira. Conversa bastante descontraída e até com momentos hilários (um telespectador chamado "Ben Hur", pediu uma mensagem da banda e o Rodrigo foi rápido : -"boa corrida de bigas aí para você, Ben Hur... estamos torcendo por você"...), além de termos tocado no mesmo molde acústico que fizéramos no programa da "Veja Música", todavia, sem o aparato de áudio e imagem daquela produção requintada. Aliás, nesse quesito, é engraçado verificar no vídeo os estouros de baixo e bateria, com o técnico fazendo correções drásticas ali no calor da execução ao vivo. A falta de microfones para todos, também denunciava a precariedade de uma produção de internet, mas é o tal negócio : eram programas assim que abriam-nos as portas, e praticamente posso afirmar que eram outsiders como nós, buscando espaço, portanto, além de sermos agradecidos, solidarizamo-nos com a luta deles, também. Mas foi bastante divertido e tocamos "Filme de Terror"; "Meu Mundo é Seu"; e "Nossos Dias". Aconteceu na noite de 20 de abril de 2010. O mês de maio de 2010, traria mais novidades boas para a banda, dando-nos a impressão de que os ventos mudariam, enfim...




Já em abril, recebemos a notícia que o Sesc Vila Mariana estava oferecendo-nos uma data para apresentarmo-nos em um de seus teatros (nessa unidade, tem dois, fora que costumam promover apresentações também na área ao ar livre perto de sua lanchonete).
Tal esforço era fruto de uma semente ali plantada há muito tempo, remontando aos tempos do lançamento do nosso disco inicial em 2006. Sem um empresário forte a representar-nos convenientemente, entrar no circuito do Sesc era um sonho que acalentávamos desde o início de nossas atividades, mas que tirante uma oportunidade sazonal e aleatória ocorrida na unidade da cidade de Piracicaba em 2008, nunca havíamos conseguido lograr êxito.

Mas materiais foram entregues muitas vezes em diversas unidades. Levados por pessoas que prontificaram-se a auxiliar-nos nesses anos todos, infelizmente nenhuma delas acabou logrando êxito.
Todavia, um dia o telefone tocou, porque um material deixado na unidade do Sesc Vila Mariana, muitos anos antes (2006), finalmente chegou às mãos da cúpula de programação artística de tal unidade.

Foto da fachada da unidade do Sesc Vila Mariana, muito próximo ao estúdio "Overdrive" onde o Pedra tinha o seu "QG".
 
Emblemático, pois a Vila Mariana era oficialmente o bairro sede do Pedra, já que todas as suas atividades concentravam-se no estúdio Overdrive, de propriedade do Xando Zupo, ali localizado. Eu também era morador do bairro, desde 2007, e já tinha morado ali em outra passagem, entre 1988 e 1990, portanto, nada melhor para o Pedra do que ter um show na unidade de seu bairro, com uma infra estrutura maravilhosa. Mas não foi tão fácil assim acertar os detalhes desse show. Primeiro que a burocracia exigida pelo Sesc extrapola em muito a real necessidade de salvaguardar a lisura tributária e jurídica de um contrato entre o artista e a instituição. Já falei extensivamente sobre o que penso desse exagero perpetrado por tal instituição, no capítulo da Patrulha do Espaço, portanto, não cansarei o leitor com uma repetição aqui.

E imaginando no quanto isso aborrecer-nos-ia, recorremos à ajuda de uma pessoa amiga, e que além de ser de nossa inteira confiança, era notadamente bastante dinâmica e conhecia essa burocracia, pois já a havia enfrentado várias vezes anteriormente, a serviço de um produtor de shows conhecido por nós também. Tal pessoa chamava-se Cida Cunha, mas era conhecida pelo apelido de "Macalé". Tratava-se de uma velha conhecida da Grace Lagôa, e embora não fosse alguém ligada diretamente na musica, era amiga de muita gente do meio e sendo bem articulada e dinâmica, mesmo não trabalhando diretamente com produção musical, fez vários trabalhos nesse sentido, contribuindo com a resolução de entraves burocráticos, justamente nesse mundo de produção musical de shows nas unidades do Sesc, anteriormente para outros artistas.

Cida Cunha trabalhou fortemente na parte burocrática, e o show estava marcado oficialmente para o dia 7 de maio de 2010.  
Nessa altura, já havíamos contactado uma produtora cadastrada no Sesc para emitir nota fiscal desse contrato, no caso a Condor, cujo mandatário era Vagner Garcia, ex-produtor artístico da gravadora Eldorado, onde eu mesmo fui contratado por um curto período, por conta do lançamento de uma coletânea, onde minha banda nos anos noventa, Pitbulls on Crack, esteve presente com duas faixas, no ano de 1993, e claro, história contada com detalhes no seu respectivo capítulo.

Estávamos embalados pela questão da "Veja Música", além dos dois novos clips que lançáramos, mas ao mesmo tempo, não tocávamos ao vivo desde outubro de 2009, quando de nossa apresentação numa casa noturna de Joinville, Santa Catarina. Era muito tempo de escassez para uma banda do nosso nível artístico e lançando material que fazia barulho nas Redes Sociais da Internet, além de ser reconhecida por muitos jornalistas pelo seu padrão de excelência etc etc. Será que finalmente esse show no Sesc Vila Mariana abrir-nos-ia portas maiores ?  Seria o fim da escassez de oportunidades e os shows frustrantes em casas noturnas inadequadas para um tipo de trabalho que desenvolvíamos ?
Assim esperávamos e preparamo-nos para aproveitar tal oportunidade.

Belo cartaz anunciando o show do Pedra no Sesc Vila Mariana em 2010, numa criação e arte final do estupendo artista plástico, Diogo Oliveira. Sua intenção foi nobre ao citar Van Gogh em sua criação



Foi o primeiro show que iria fazer na prerrogativa de poder divulgar usando as redes sociais da Internet, uma experiência nova, e que deu-me prazer, pois era o começo de uma nova Era, no meu caso, já que tinha experiência em fazer divulgação de shows desde os meus tempos de Chave do Sol, porém, usando de metodologia antiga, usando os meios materiais tradicionais. Burocracia feita, Cida Cunha empolgou-se muito em auxiliar-nos na produção geral, visto que sua experiência pregressa com shows, era só na parte burocrática, com a papelada incrível exigida pelo Sesc normalmente. Então, depois desse show, Cida seria uma aliada da banda doravante, empolgando-se muito com a função.

Alguns dias antes desse show, fiquei com um resfriado muito forte. Acamado, temi pelo agravamento do meus estado e procurei avaliação médica, mas mediante exames, descartou-se pneumonia. Era um resfriado muito forte, mas consegui chegar ao dia do show com condições razoáveis para fazê-lo com desenvoltura. O cartaz desse show, foi um dos mais bonitos que tivemos na história toda da banda. Arte assinada pelo grande Diogo Oliveira, um artista plástico que muito admiro, faz referência à pintura impressionista de Van Gogh, um artista do qual ele sofre grande influência.

Na mesma época do show, seguindo o cronograma estabelecido pelo Xando, um novo vídeo clip foi lançado. Tratava-se do vídeo Clip de "Mira", aquela música híbrida entre o Hard-Rock e o Jazz Rock. cuja descrição já fiz alguns capítulos atrás. Ficando cada vez mais criativo e experiente, Xando incorporou diversos elementos novos nesse vídeo, com efeitos muito interessantes. Usou fotos e vídeos de diversos shows como matéria prima primordial para editar, mas caprichou em efeitos bacanas para dar-lhe um diferencial.

O criativo vídeo-clip oficial de "Mira"
Eis o Link para assistir no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=LV9VX1g63lk

Não despertando o mesmo interesse dos clips anteriores, "Mira" foi lançado em maio de 2010. A explicação para fazer menos "barulho", provavelmente seria motivado pela música ser mais difícil de ser absorvida do que as anteriores, tanto pela sua musicalidade, quanto pelo fato de ser cantada em castellaño. Sendo lançada às vésperas do show no Sesc Vila Mariana, claro que reforçou a ideia de uma ação maciça de internet naqueles dias e isso foi bom, naturalmente. Agora chegara o dia do show...

 Sesc Vila Mariana 7 de maio de 2010. Foto de Grace Lagôa



Chegamos ao Sesc no período da tarde para o soundcheck e era ótimo estar a dois quarteirões da minha residência... poderia dar-me ao luxo de buscar algum objeto esquecido, a pé, e voltar em dez minutos...


As instalações do Sesc Vila Mariana são maravilhosas, não tenho duvida, mas o excesso de normas em que a instituição pauta-se, causa transtornos. Por exemplo, quando estacionamos nossos respectivos automóveis na sua ampla garagem, um funcionário da produção do teatro informou-nos que não poderíamos transportar nosso backline imediatamente, pois no caminho entre o elevador e o teatro, havia uma área preservada para escape em caso de evacuação de emergência do público, e naquele instante aquele pequeno corredor precisava ficar livre, pois uma atividade de recreação infantil estava ocorrendo no lounge do teatro...



Fazer o que ? Só lendo jornal na garagem para esperar deixarem-nos descarregar o equipamento...

Ora, compreensível que houvesse o seu protocolo padrão de segurança, mas era excessivamente exagerada a determinação, pois nossos roadies em nada atrapalhariam a dinâmica da atividade ali realizada, e em hipótese alguma, caso houvesse a necessidade de evacuação rápida, não seria a presença de nossa atividade que atrapalharia nada...

Irredutível, o funcionário não quis saber de nossas ponderações e era primordial para o nosso cronograma, que o equipamento fosse transportado naquele momento, sob o risco de atrasar o soundcheck. Então, a constatação, mais uma vez, o Sesc é maravilhoso em inúmeros aspectos, mas peca em outros tantos pelas suas normas engessadas e não pensando nas necessidades dos artistas que usam suas instalações. Melhorem isso e será melhor para todos !!



Com esse atraso de quase uma hora ali na garagem, deu para colocar as piadas em dia, mas foram minutos preciosos que perdemos, visto que quando finalmente liberaram a nossa passagem, nossos roadies tiveram que desgastar-se um pouco mais para recuperar o tempo perdido. Mesmo mais corrido, deu para fazer um soundcheck razoavelmente bom. O técnico foi solícito conosco, mas claro que teria sido muito melhor contar com um dos nossos "Renatos", Carneiro ou Sprada, quiçá os dois, de preferência.




Para amenizar, o "mago da luz", Wagner Molina, estaria conosco mais uma vez, e era a garantia de uma iluminação de qualidade e muita criatividade.


Apesar de morarmos no bairro, eu e Xando, ficamos pelo Sesc após o Soundcheck, assim como os demais, e pelo fato do show estar marcado para as 20:30 horas, preferimos ficar por ali mesmo e o camarim gigantesco e muito alto, dava-nos uma visão muito bonita do nosso bairro, o que divertiu-nos muito nos momentos que antecederam o nosso espetáculo.



Recebemos a visita do produtor da Condor, Vagner Garcia, que estava na função de produtor do show, outra burocracia do Sesc, obrigatória. Mas claro que foi um prazer conversar com ele no camarim a respeito dos velhos tempos da gravadora Eldorado etc e tal. Teatro lotado, um produtor foi avisar-nos que chegara a hora.



Molina comunicou-nos que não dava para fazer a iluminação que ele gostaria. Não houve tempo para elaborar aquela contra luz impressionante que costumava fazer dos nossos shows, algo diferenciado, dando-nos aura de banda internacional. Paciência, disse-nos que faria focos discretos, buscando uma iluminação simples, na base do claro / escuro, evitando as gelatinas coloridas porque não apreciou a disposição básica das torres de spots. Fomos nessa predisposição dele, confiávamos totalmente nele. Entramos com "Filme de Terror" emendando com "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim", e minha impressão fora que as pessoas ficaram "grudadas" na cadeira, tamanho o ímpeto em que tocamos. E não refiro-me a pressão sonora, pois estava tudo bem controlado, mas sim à uma fúria rocker, que contaminou-nos pela atmosfera toda. 



Era o tal negócio, dando-nos condições adequadas, a banda respondia com gás muito renovado, diferentemente de shows em casas noturnas com equipamentos sofríveis e / ou plateias de playboys bêbados e incautos.

Uma novidade, tocamos uma música há muito não executada ao vivo : "Amanhã de Sonho", que na minha lembrança soou com uma tessitura bastante delicada, impressionando o público, notadamente quem acompanhava-nos há mais tempo, e surpreendeu-se com sua inclusão. E ficando com "Cuide-se Bem"em seguida e "Meu Mundo é Seu" depois, acho que criamos uma sequência emocional de primeira aos fãs do trabalho. 

"Estrada", ao vivo no Sesc Vila Mariana em 7 de maio de 2010
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=j8M8pZFMI6s


"Nossos Dias no Sesc Vila Mariana, em 7 de maio de 2010
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=711s9A2mV-M


Portanto, já angariamos o público com as duas primeiras músicas. Teatro pequeno, não havia muita pressão sonora, mas ao menos no palco parecia tudo equilibrado.


"Sou Mais Feliz" no Sesc Vila Mariana, em 7 de maio de 2010
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=iifRr2S5wxE


"Amanhã de Sonho", no Sesc Vila Mariana, em 7 de maio de 2010
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=B-bM3z-kscs 


"Meu Mundo é Seu", no Sesc Vila Mariana em 7 de maio de 2010
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=43GCp_sQXIg

 "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim", no Sesc Vila Mariana, em 7 de maio de 2010
 

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=DPOeSEAnKDw


E assim fomos desfilando nosso repertório com a mescla dos dois discos lançados, e os novos singles lançados, mais a presença da versão elétrica de "Cuide-se" Bem", do Guilherme Arantes, que passou a figurar no set normal da banda doravante, e com grande aceitação do público. Aliás, o Rodrigo usou o piano acústico do teatro, incorporando seus teclados habituais e com isso, visualmente o palco ficou bem bonito com essa imponente presença.

Tocamos por aproximadamente uma hora e meia, com ótima receptividade do público e uma sonoridade que ouvindo pelos vídeos desse show que foram disponibilizados no You Tube, posteriormente, acredito terem sido bem agradáveis para quem assistiu da plateia, com pouca pressão, mas num equilíbrio bem agradável. A mixagem ao vivo também parece bem razoável pelos vídeos, e pela lembrança dos relatos das pessoas que abordaram-nos no pós-show.

Sesc Vila Mariana, dia 7 de maio de 2010, com 120 pessoas na plateia. Missão cumprida, tocamos num belo teatro e segundo o Vagner Garcia e a Cida Cunha apuraram, a cúpula da unidade adorou nosso show e nossa postura dentro da unidade, desde a hora que chegamos ao estacionamento e acredite leitor, eles observam tudo e tem artista que é veterano, tem fama mainstream e apronta baixarias nos bastidores, queimando-se no Sesc e em outros lugares. Bem não preciso nem nomear alguns casos gritantes que são públicos e notórios.

Nossa esperança agora, com o sucesso desse show, era que o Sesc finalmente abrisse suas portas e nós passássemos a apresentarmo-nos por outras unidades de São Paulo e outras cidades, exatamente como muitos artistas o fazem há anos, numa agenda contínua e sustentável.


Nesse mês de maio teríamos mais um programa de TV de internet para fazer, convidados que fomos, mas com  ânimo renovado após um show finalmente realizado num teatro de qualidade, nossa meta como artistas.

Fotos do Sesc Vila Mariana, bastidores e show : Grace Lagôa


Passado o show do Sesc Vila Mariana, logo a seguir, ainda em maio, tivemos mais um compromisso de TV de Internet. A produção de uma universidade particular chamada "Uniban" contatou-nos e propôs que fizéssemos um programa produzido pelos alunos do curso de rádio e TV, chamado "Musicban".

Aceitamos naturalmente, pois como já salientei várias vezes, eram nulas as chances de aparecermos em programas da TV aberta, portanto, não dispensávamos produções obscuras que abriam-nos as portas, pelo simples fato de que precisávamos da exposição, mínima que fosse, mas certamente também reconhecendo o esforço dessa difusão nanica, que era semelhante, ipsis litteris, ao nosso esforço como artista do underground. Trocando em miúdos, identificávamo-nos com a luta desses pequenos empreendedores culturais, tão vítimas das máfias que dominam a difusão cultural mainstream, quanto nós. Marcaram a filmagem para um dia útil, e foram visitar-nos no estúdio Overdrive. Foi uma longa conversa, com muitas músicas tocadas e quando lançado, foi dividido em duas partes, parecendo um mini documentário.

Depois de editado, surpreendeu-nos muito pela qualidade em que apresentou-se, e também pela seriedade pela qual a banda foi retratada, tornando-se portanto, um documento bonito sobre a trajetória e o trabalho da nossa banda. Tal vídeo foi exibido num canal universitário, desses que entram em pacotes de TV a cabo como contrapartida obrigatória para as operadoras, mas que são jogados em pontos obscuros da grade geral, e infelizmente, quase ninguém assiste.

Ele foi postado no You Tube, e ali ficou alojado por anos, mas agora que eu gostaria de colocá-lo aqui para a degustação do leitor, infelizmente não achei-o mais nas buscas. Muito provavelmente tenha sido retirado do ar, mas se eu conseguir localizá-lo, de pronto volto à edição do Blog, e posto-o aqui. Seguindo a planificação estabelecida no início de 2010, no início de julho, a banda lançou o quarto single / promo, da música "Só".

Nesse vídeo, o Xando quis trazer um diferencial, pois nos anteriores, a dinâmica generalizada foi a de usar fotos e vídeos mesclados para compor as imagens. Apenas em "Pra não Voltar" havia uma novidade com a inserção de imagens dos componentes num Chroma Key ultra improvisado, mas agora ele dizia-se constrangido em lançar um quarto clip, nos mesmos moldes dos anteriores, e tinha razão nesse aspecto. Portanto, ele propôs uma participação da banda num simulacro de dramaturgia. Terreno mega espinhoso, pela obviedade dele não ser roteirista / diretor e nenhum de nós, atores. Mas ia além, pois filmar em condições precárias; sem iluminação adequada; e improvisando a própria sala de estar do estúdio para encenar / filmar, tinha tudo para fazer dessa produção algo risível. Mas nós entendemos a preocupação que afligia-o, porque realmente era preocupante lançar mais um vídeo usando a fórmula dos anteriores, a despeito da canção ser ótima, e também por isso, pois um clip constrangedor a queimaria.

Não compactuo com as ideias & ideais do senhor Charles Bukowski, certamente...
 
Aceitamos colaborar e o Rodrigo faria mais participações nesse vídeo, encarnando o personagem protagonista proposto na letra da música. Abordagem melancólica, triste e deveras deprimente, era o tipo de mensagem que eu não gostava / gosto. Já falei sobre o quanto tenho aversão à visão "Bukowskiana" da vida, aquela coisa decadente dos personagens de teatro do Plínio Marcos, e influenciados pelo existencialismo de Jean Paul Sartre, certamente  etc etc. Tive até um contratempo desagradável com esse tipo de posicionamento, pois o Xando propôs uma cena simples com a banda toda fazendo um brinde, e obviamente fazendo uso de bebida alcoólica. Quando estava para filmar, falei que brindaria com um copo com refrigerante e isso ficaria visível visto que os demais usariam taças para insinuar ser vinho ou coisa semelhante.

Naquele momento, profundamente desgostoso com a condução que dava-se ao clip, vendo o Rodrigo sendo filmado em deprimentes closes fumando e bebendo, a interpretar um sujeito derrotado na vida, não quis fazer parte disso, vinculando a minha imagem pessoal a tais princípios que abomino. Parece besteira, um devaneio mesmo... porém recusei-me a participar disso, e o Xando chateou-se, não entendendo o meu incômodo na sua plenitude, mas interpretando-o como uma má vontade minha com a produção em si, e por conseguinte, com a banda.

Sei que peguei pesado, e isso fugia completamente às minhas características normais de ser uma pessoa razoável e nunca criar problemas, aliás, pelo contrário, sempre ser colaborativo ao máximo, mas nesse dia, achei desagradável abonar esse tipo de mensagem, ainda que fosse fato consumado, pois tratava-se do teor da letra da música, já irreversivelmente lançada dessa forma.
Diante do impasse, o Xando cancelou a ideia da cena do brinde, mas o clip é permeado por essa abordagem, principalmente pelas cenas que o Rodrigo fez. Sei que uma banda sem recursos como a nossa não tinha condições de contratar equipe profissional de filmagem; atores; e um diretor ao nível do Eduardo Xocante, que tanto ajudou-nos em 2005 e 2006, respectivamente. Sei que a intenção e o esforço do Xando foram extraordinários para montar esse clip, e sei também que era inevitável a abordagem, pelo teor da letra.

Todavia, naquele instante, não fui subserviente a algo que não acreditava e abonava e daí, graças ao imbróglio criado de minha parte, atípico por sinal, ficou um clima tenso entre todos, notadamente eu e Xando.
Bem, ainda falando do clip, uma ideia surgiu de total improviso : alguém sugeriu (acho que o próprio Rodrigo), uma tomada com o personagem principal, no caso, interpretado por ele mesmo, tocando piano.

Nosso amigo, o baixista do Tomada, Marcelo Bueno, estava presente e propôs-se a filmar tal cena, numa loja especializada em pianos que ficava (ainda fica, 2016), numa rua bem próxima do estúdio Overdrive. Então, eles arriscaram indo à loja, abordando o seu proprietário que foi simpático, a autorizar a filmagem em seu estabelecimento. Filmagem amadorística, mediante uma mini câmera DVD, sem iluminação extra, em menos de uma hora, ambos já estavam de volta ao estúdio Overdrive com muitas imagens capturadas que o Xando tratou de importar para o programa de edição, imediatamente. Bem, acho que está bem explicado a minha desavença contra abonar cigarros e bebidas alcoólicas...

Apesar de conter tais imagens que não são do meu agrado, acho que o clip ficou bom e em se considerando a precariedade total dessa produção, o resultado final é heroico. Lembro-me que o único recurso de iluminação disponível, era o de uma luz de apoio para fotografia, equipamento da Grace Lagôa. Boa para produção fotográfica, mas inadequada para filmagens. Agora, discordâncias éticas a parte, a música é belíssima e anula completamente qualquer má impressão que possa gerar-se nos parâmetros que observei.

O vídeo clip oficial da música "Só"
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ODBo1ShmZ88 


Divulguei com bastante afinco entre meus primeiros contatos virtuais e a resposta foi excepcional. Até em fóruns de comunidades de fãs de bandas sessenta / setentistas, a música recebeu elogios rasgados, notadamente fãs dos Beatles que reconheceram nela, uma aura semelhante a do "Fab Four", o que deixou-me imensamente feliz. Em agosto, teríamos mais um programa de TV obscura para participar, mas claro que iríamos com o mesmo ânimo se fosse no "Faustão" para exibirmo-nos para 100 milhões de pessoas...

Recebemos mais um convite para participar de um programa de baixa audiência, a ser filmado no final de agosto de 2010.
Tratava-se de um programa denominado "Music All", veiculado num canal comunitário da grade da operadora de TV a cabo, Net, genericamente chamado "Net Cidade", contudo, isso não era uma exclusividade, pois mais canais assim existiam na grade dessa operadora, com o mesmo título.

Infelizmente, tratava-se de um canal obscuro, talvez alguma contrapartida que a operadora tinha o dever de fornecer, obrigada pelo poder público, como forma sine qua non para estar regularizada, acredito. Aceitamos participar, pensando em que vantagem teríamos, dentro da linha de raciocínio que já expressei amplamente em capítulos anteriores.

A gravação seria num estúdio na Avenida Gilda, em Santo André, na região do ABC paulista, e fomos informados que o programa teria uma duração aproximada de uma hora, intercalando entrevista e a performance da banda ao vivo, tocando entre seis e oito músicas, claro, considerando uma metragem média de 3 a 4 minutos para cada uma, num padrão pop radiofônico e tradicional.

Portanto, se o canal e o programa em si, provavelmente dar-nos-iam visibilidade muito diminuta, tamanha a sua insignificância em termos de audiência, ao menos teríamos espaço para tocar ao vivo e com razoável tempo para dar uma mostra do trabalho, e melhor ainda, tocando normalmente no nosso padrão, e não tendo que submetermo-nos ao desconfortável formato "acústico".




Assim ensaiamos, então. Escolhendo uma boa mescla de canções dos dois discos lançados, e de certa forma, privilegiando mais as novas que estavam saindo nos singles de 2010, com direito a promos de Internet.



Recebemos instruções da produção do programa de que no pequeno estúdio onde seria feita a filmagem, haveria um equipamento disponibilizado, mas que poderíamos levar backline próprio. Resolvemos levar parte do nosso equipamento, numa versão reduzida para o ambiente de um estúdio de TV.



Outra coisa que disseram-nos, era que esse pequeno estúdio de TV tinha uma pequena arquibancada e que poderíamos levar até 20 pessoas para assistir, e que isso seria bom para haver um quórum popular ali, dando um clima favorável para a banda, com gente batendo palmas, apoiando com o calor humano, enfim.



Dessa forma, ainda engatinhando no uso do computador e interagindo nas redes sociais, nessa altura já tinha cerca de 700 "amigos virtuais" na Rede Social Orkut; mais de 200 no Messenger; e cerca de 1000 no Facebook, que tinha acabado de aderir, abrindo conta, e sendo assim, convidei pessoas que havia conhecido virtualmente e que sabia que gostariam o Pedra por meu intermédio e moravam em cidades da região do ABC, reforçando a lista que a banda já tinha de presenças garantidas, notadamente os fãs-fidelíssimos, Fausto e Alessandra, o casal infalível em nossos shows, e que por acaso, moravam em Santo André.

Pedra + Equipe técnica da banda + apresentador do programa + amigos que prestigiaram a filmagem no dia

Em suma, rapidamente a lista de presenças foi preenchida, e assim, fomos para essa filmagem que realizou-se no dia 19 de agosto de 2010.



Chegando ao pequeno estúdio, sabíamos de antemão que eles gravavam vários programas a cada sábado, portanto, havia um power trio tocando antes de nós. Meninos muito jovens e esforçados, mas nitidamente iniciantes na carreira, seu som mostrava muita fragilidade, contudo, compensavam a falta de técnica com muita força de vontade. Mobilizamo-nos, ajudando os nossos roadies, e nesse dia, meu primo, Emmanuel Barreto, que fora roadie do Pedra no ano de 2006, e um entusiasta da banda desde sempre, estava conosco, também.


Pelo fato do estúdio ser pequeno, tivemos que fazer uma "ginástica" para acomodar o nosso equipamento e instrumentos, visando não atrapalhar os bastidores tumultuados com equipamentos de outras bandas que já estavam de saída e outra que adiantada, gravaria depois de nós. E pelo que verificamos, o programa era eclético, a despeito de ser obscuro, pois abria portas para qualquer tipo de música. Antes de nós tocava esse power trio pesado, tentando fazer um Hard-Rock, mas depois de nós, seria a vez de uma banda de Reggae.


Os técnicos de som e da filmagem, foram simpáticos, e apesar da absoluta pressa caótica que ali reinava para filmar uma banda e iniciar logo a seguir a filmagem da próxima, não foram grosseiros conosco que eu lembre-me, mesmo trabalhando sob pressão caótica, com o tempo exíguo. O visual do cenário era bem simples. Olhando ali in loco, era tudo minimalista e simples, mas depois que vimos o resultado na TV, dias depois, a impressão que tivemos foi satisfatória em se considerando ser uma produção de uma simplicidade franciscana.

Uma particularidade desse programa, foi que por não terem na época condições de fazer uma edição caprichada de áudio e imagem, eles acostumaram-se a filmar em "take" único, como se fosse ao vivo, relevando erros. O apresentador sabia disso e estava acostumado com tal disposição, e a produção avisou-nos para agirmos igual. Portanto, uma banda mal ensaiada ali dar-se-ia mal, pois não havia meios de consertar-se erros crassos, fora as gafes faladas na entrevista etc etc.

Fizemos, a pedido da produção, um clima sonoro para o apresentador começar a falar e isso foi bem legal, pelo improviso e a seguir, executamos nossas músicas.

Entre o bloco das primeiras músicas e o bloco de entrevista, fomos instruídos a tocar a última música, desligar amplificadores e fazendo o máximo de silêncio possível, irmos sentarmo-nos na pequena sala de estar onde a entrevista aconteceria no outro canto do estúdio e assim que terminasse a conversa, voltarmos rapidamente ao palquinho e voltássemos a tocar... foi hilário fazer isso...


O objetivo deles era minimizar ao máximo os erros e o programa ser filmado em take único, sem interrupções e sincronizado como se estivesse sendo filmado e editado ao mesmo tempo. Senti-me fazendo teleteatro ao vivo na TV dos anos cinquenta...

O resultado final ficou bacana, apesar das precariedades todas, e acabou tornando-se portanto uma peça interessante de videofólio da banda, como o programa "Musicban" que graváramos em abril do mesmo ano.

Quando deram-nos a data em que seria exibido o programa, eu fiz uma divulgação maciça, espalhando as coordenadas para todos os meus contatos de redes sociais. Gastei dias nessa operação, mas não reclamava disso, pelo contrário, estava apreciando ser útil à banda, aprimorando-me no uso da ferramenta de divulgação nova para o meu caso, que era a Internet.

                       A culpa não foi minha, amigos virtuais...

Contudo, no dia e horário prometidos, outra banda foi exibida no programa. Isso gerou uma frustração tremenda, e eu tive que responder dezenas de pessoas que cobraram-me uma explicação. E não havia...simplesmente os produtores dessa atração haviam agido mal.

Alguns dias depois, finalmente foi ao ar, e aí sim, despertou muitos comentários positivos, e a cada dia eu abria mais frentes para a banda nas redes sociais, mesmo sendo um usuário muito incipiente ainda e mal dominando o be-a-bá de um computador...

Não encontrei o programa postado no You Tube para anexar aqui. Assim que houver uma novidade nesse sentido, posto aqui, naturalmente. Em setembro, uma oportunidade ótima apareceria para nós, e desta vez numa emissora de rádio top no mercado...


Gravamos a música do Guilherme Arantes, "Cuide-se Bem", numa versão elétrica, mais ou menos mantendo o arranjo da versão acústica, mas ao invés dos dedilhados com sabor "country" dos violões, nesta versão elétrica o foco ficou nas intervenções de slide da parte do Xando, com bastante peso e muita inspiração.
Sem descaracterizar o sabor pop da canção, o peso que essa intervenção de slide trouxe, remeteu a nossa versão ao "Led Zeppelin", tranquilamente. Eu ouço essa intervenção do Xando e recordo-me imediatamente de "In My Time of Dying", do mestre Page, e convido o leitor a experimentar a comparação, também.

Mas a música tem outros atrativos, como já mencionei. As intervenções de teclados do Rodrigo, são belíssimas, incluso o rápido, mas belo solo de órgão Hammond. O Xando havia evoluído muito como produtor / editor de vídeos para a internet, mas deu uma travada na concepção do vídeo anterior, ao perceber que não tinha um grande manancial de imagens para trabalhar, fugindo das repetições inevitáveis dos anteriores, viu-se acuado quando concebeu o promo da música "Só", conforme já relatei anteriormente.

Diogo Oliveira é o primeiro à direita nessa foto de 2009. Os demais, na mesma ordem, Luiz Domingues; Marcião Gonçalves e Ivan Scartezini

Então, entrou em cena a figura genial do artista plástico, Diogo Oliveira e assim, com ele no comando da produção do promo para essa canção, o Xando pode relaxar, tirando muito da pressão, ou auto pressão que acometia-lhe com essa "obrigação" anunciada.
Nas mãos do grande Diogo Oliveira, enquanto esperávamos ansiosos por esse clip, recebemos o convite de um programa de rádio muito renomado, chamado "Radar Cultura", uma revista cultural sensacional produzida pela Rádio Cultura de São Paulo.

Convite aceito com entusiasmo, logicamente, pois não era toda hora que a mídia mainstream dava-nos oportunidades. Eu e Xando representaríamos a nossa banda numa conversa nos estúdios da emissora na Barra Funda, zona oeste de São Paulo e quando chegamos lá, descobrimos que haveria um terceiro personagem, que seria um blogueiro e ativista cultural convidado pela produção para comentar a nossa conversa, como um observador equidistante. Confesso que nunca havia concedido uma entrevista com tal formato e achei a ideia boa, em princípio. Contudo, até o dia da entrevista em si, não sabíamos quem seria o tal blogueiro, e convenhamos, nem todo ativista cultural tem a mesma linha de raciocínio sobre o que é cultura; contracultura; subcultura, anticultura e afins. Portanto, poderia ser alguém de visão muito antagônica à nossa, e talvez a polêmica gerada pudesse obscurecer a nossa fluidez para expressar-nos sobre o nosso trabalho. Portanto, era um perigo, visto por esse ângulo.

Mas, ficamos mais aliviados quando soubemos que tal ativista seria um velho conhecido nosso, no caso, mais meu do que do Xando, chamado Luiz Carlos "Barata" Cichetto. No capítulo da Patrulha do Espaço, falei amplamente sobre sua figura, portanto, não repetirei aqui para não ser enfadonho com o leitor. Todavia, mesmo sendo teoricamente "um dos nossos", o Barata não simpatizava com o Pedra, e isso havia gerado algumas desavenças na internet anteriormente, quando ele publicou em seu blog, críticas ácidas contra o nosso trabalho. Para resumir, ele achava a nossa banda, "em cima do muro", no sentido de mostrar-se híbrida entre transitar pelo Rock e pela MPB, e na sua visão, isso incomodava-o por considerar-nos pretensiosos por adotar essa posição estética de ter um horizonte artístico mais eclético. Ficamos meio estremecidos por isso, apesar de eu particularmente achar que a opinião é livre. No entanto, o Luiz pegou pesado na forma como expressou-se e extrapolou o seu sagrado direito de não gostar, e poder emitir sua opinião livre. Enfim, quando encontramo-nos nos bastidores da emissora e verifiquei que o clima estava ameno e parecia que nossa desavença estava superada, fiquei mais aliviado. Detesto clima pesado de animosidade.

Já dentro do estúdio, fomos entrevistados por uma bela radialista, muito simpática e bem articulada, chamada Roberta Martineli, e por um igualmente bem preparado radialista, Alceu Maynard. A entrevista foi muito boa e uma colocação que o Xando fez a respeito da cantora Elis Regina ter postura muito mais rocker que muito rocker, chamou a atenção do radialista e blogueiro Cesar Gavin que estava no estúdio assistindo a entrevista e isso rendeu matéria no seu ótimo Blog, Vitrola Verde, posteriormente, e também fez com que o Xando fosse convidado a fazer um playlist para a Rádio, privilegiando cantoras que achava que tinham tal "atitude" que atribuiu à finada "Pimentinha".

Baixista, blogueiro e ativista cultural dos mais pertinentes do Brasil, Cesar Gavin...

Gavin, que tornou-se um bom amigo desde então, filmou o programa para inseri-lo no seu Blog, Vitrola Verde. Trata-se de uma edição, não é a entrevista na íntegra, mas creio que Gavin foi feliz em escolher os melhores momentos.


Eis aqui a parte 1 dessa entrevista no programa Radar Cultura :

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=K6GA0PP1zY0

Abaixo, a parte 2 da entrevista :


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=BrpAUb1WRrI

Aqui, o Link da entrevista do Pedra no Blog Vitrola Verde, do Cesar Gavin :

http://cesargavin.blogspot.com/2010/10/banda-pedra-no-radar-cultura.html

E abaixo, o Link para a seleção "Mulheres da Pesada", escolhida por Xando Zupo :

http://www.culturabrasil.com.br/programas/radarcultura/cincosons/mulheres-da-pesada-por-xando-zupo-3

Passada essa entrevista na Rádio Cultura, o clip de "Cuide-se Bem" estava quase pronto e quando vimos as primeiras provas oficiais...

Diogo Oliveira era sabidamente por todos nós, um artista multimídia, sensacional. Artista plástico; desenhista; web designer; publicitário e músico multi instrumentista, não só pelos talentos todos arrolados, mas também pela enorme criatividade e cultura avantajada que tinha / tem, credenciava-o como praticamente um gênio a meu ver, e eu não sou dado a exageros indevidos, portanto, amigo leitor, tal consideração de minha parte tem sua razão de ser.
Portanto, com tais características tão acentuadas, era óbvio que quando ele assumiu a criação e produção do vídeo clip que representaria a música "Cuide-se Bem", ficamos descansados quanto à qualidade que ele imprimiria em tal produção. Contudo, quando vimos o resultado, ficamos chocados com a constatação de que superou muitíssimo a nossa mais otimista das expectativas...
O clip é simples de certa forma, mas ostentando uma criatividade absurda, que tranquilamente poderia pleitear participar de festivais de curtas e até mesmo entre peças publicitárias, excetuando-se o fato de não ter uma metragem padrão, nesse caso.

Tratando-se de um misto de ilustrações e interação humana, ficou singelo, quase como uma animação infantil, e dessa forma, capaz de encantar as pessoas pela sua delicadeza na abordagem. Focado numa ideia de basear-se num livro, como se evocasse mesmo livrinhos de histórias infantis, quatro mãos humanas vão virando as páginas manualmente, interagindo com os desenhos que  acompanham a letra da música. A banda participa da animação, mas sem mostrar o rosto dos seus componentes, apenas mostrando mãos e braços no ato de tocar instrumentos, com imagens que foram capturadas no estúdio Overdrive, e inseridas num desenho muito lúdico, de um velho monitor de TV. Absolutamente criativo, tenho a opinião de que trata-se de um clip muito bonito e que realçou a música e nossa versão em específico, valorizando-a de uma forma muito intensa.

 
O festejado Vídeo Clip de "Cuide-se Bem":  

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=rf-VQpsLgQk

Diogo Oliveira brilhou muito e confirmou pela bilionésima vez tratar-se de um artista genial. Honra seja feita, um colega publicitário de Diogo, é creditado como coprodutor, chamado Dedé Kanashiro, e de fato, este ajudou-o muito nessa produção, sendo inclusive vital como participante direto, pois suas mãos aparecem dando apoio às mãos de Diogo Oliveira, no clip em si, manipulando o livro e outros objetos cênicos que foram usados. Não posso mensurar se Dedé teve uma cooperação ainda maior no campo das ideias, nunca soube disso. Mas se tiver essa participação maior, fica registrado aqui que a pecha de genialidade que coloquei sobre os ombros de Diogo Oliveira, cabe-lhe, também. O clip foi lançado no fim de outubro de 2010 e foi um estouro. Alcançando muitos views no You Tube e espalhando-se nas redes sociais de uma forma contundente, chamou muito a atenção e deu-nos um óbvio alento.

No meu caso em específico, a enxurrada de manifestações que recebi, principalmente na extinta Rede Social, Orkut, foi extraordinária. O Orkut vivia dias de desprezo por muitas pessoas que abandonavam-no diariamente, mas o meu perfil era muito ativo e movimentado, porque eu não embarquei nessa onda de vilipêndio e mantive-o muito vivo, até o seu último dia de atividade, em 2014.
Por isso, recebi seguramente mais de 100 comentários de pessoas encantadas com a qualidade do clip e em sua maioria, amigos virtuais que havia conhecido ali mesmo. Alguns dias depois de lançado, verificamos com muita alegria que o próprio Guilherme Arantes manifestou-se, deixando uma bela mensagem de apoio para nós e demonstrando publicamente o seu contentamento com nossa versão.

Para todos nós, foi motivo de orgulho e satisfação em verificar tal manifestação sincera do autor da canção, e um artista que muito admirávamos.
Portanto, o fato de Guilherme ter aprovado com tanto entusiasmo a nossa versão, e posso afirmar sem exagero que nossa releitura de sua canção é quase como o Led Zeppelin a leria, também, portanto, é perfeitamente coerente com suas convicções, das quais concordo inteiramente. Mais que essa manifestação pública, Guilherme foi ultra simpático conosco ao abordar-nos em E-mail, reiterando o seu agrado com a versão da música, o clip belíssimo e mais que isso, colocando-se à disposição para tocar conosco em um show, como convidado especial (mais do que especial, é claro), e indo além, oferecendo seu estúdio na Bahia, onde morava, para a nossa banda gravar quando quisesse. Leia abaixo a postagem pública que Guilherme deixou no You Tube, na postagem do clip de nossa versão de sua canção :

"A versão da Banda Pedra é absolutamente fantástica, um som maravilhoso, muito bem tocado e cantado, com estilo impecável, um luxo de verdade. Fiquei muito orgulhoso e feliz desses músicos, com essa pegada "mortal", estarem interpretando essa musica minha, num resgate inesquecível para mim. Queria que soubessem o quanto eu gostei e fiquei honrado com essa gravação e o clip super bem realizado. Uma experiência única para o criador da musica. Por favor , poste este meu comentário por mim , até como testemunha do quanto eu fiquei grato a eles".

Guilherme Arantes

Puxa, que sucesso total ter essa consideração toda da parte dele, ficamos muito contentes. Dois dias depois do Guilherme abordar-nos publica e pessoalmente, tivemos uma entrevista na Webradio, Stay Rock. Entrevistados via skype pelo músico e ativista cultural, Cezar Bastos, eu particularmente cometi uma gafe imperdoável.

Ao citar o nome da Webradio, agradecendo pela entrevista, enganei-me e citei o nome de uma outra emissora, por sinal, concorrente ferrenha da emissora nesse nicho das Rádios Rock de internet. Por sorte, o Cezar Bastos levou na brincadeira e percebeu que eu fora traído por uma informação errada disponibilizada pelo Xando que enquanto eu falava, entregou-me uma anotação com o nome da outra estação, por engano...
Foi hilário, apesar de trágico...aconteceu em 29 de outubro de 2010...

Eis abaixo, o Link dessa entrevista na Webradio Stay Rock :

http://stayrockandroll.blogspot.com/2010/10/stay-rock-brazil-mes-de-outubro-2-anos.html

Uma velha amiga, e produtora que eu admirava muito por trabalhos muito bem feitos realizados numa banda da qual fui componente décadas antes, quando manifestou-se para falar sobre o clip de "Cuide-se" Bem", acionou-me para uma conversa reservada via "depoimento", no velho Orkut e mostrando-se impressionada com a banda, demonstrou querer conhecer mais o nosso material, e chamou-me para uma conversa pessoalmente em seu escritório. Uma luz no final do túnel, enfim ?

Muito contente sobre a abordagem alvissareira da parte dessa velha amiga e produtora, marcamos um encontro em seu escritório, localizado na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo. Não era um escritório exclusivo, mas de uma produtora de vídeo, onde ela trabalhava naquela atualidade, como diretora. Tal empresa costumava realizar trabalhos para duplas sertanejas emergentes, e minha amiga trabalhava ali por ter adquirido experiência em lidar com esse espectro de artistas popularescos, visto ter atuado por anos em gravadora major, e lidando com esse tipo de artista.

A grande produtora Cida Ayres, pessoa que admiro, e pela qual tenho gratidão em minha carreira

Tal pessoa era uma produtora e amiga que muito admirava, chamada Cida Ayres. 

Sou o primeiro da direita para a esquerda, usando chapéu de cowboy, nessa foto do Língua de Trapo publicada num jornal em 1984, época em que Cida era nosso "anjo da guarda"

Minha lembrança da Cida era a melhor possível, pelo fato dela ter sido uma produtora de enorme capacidade, com muito "jogo de cintura" para resolver inúmeros problemas do cotidiano da banda, com uma criatividade e boa vontade, exemplares, quando conheci-a por ocasião da minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, entre 1983 e 1984. Além disso, na ocasião ela simpatizou com minha outra banda, A Chave do Sol e muito auxiliou-nos, dando dicas preciosas e até interagindo pessoalmente em muitas ocasiões,  facilitando-nos contatos preciosos na mídia e no mundo empresarial. Cida Ayres era o braço direito do empresário Jerome Vonk, e era nítido o quanto trabalhando em dupla, funcionavam bem em favor do Língua de Trapo, dessa forma, reitero o que já disse no capítulo dessa banda, ou seja, agradeço-os muito por isso.

Portanto, tantos anos depois, não tendo visto outros trabalhos que fiz nesse ínterim, foi muito gratificante para a minha pessoa que Cida redescobrisse-me e numa banda que tinha um espectro artístico com potencial para flertar com o mainstream, além da substância musical; poética e categoria e experiência de seus componentes, individualmente falando. Cida conhecera-me muito jovem, e agora eu tinha um acúmulo de experiência enorme, com então 14 discos lançados no mercado e meu portfólio pessoal tornara-se gigante. Portanto, muito animei-me com esse contato, evidentemente.

Still do vídeo-clip de "Régui Spiritual", do Língua de Trapo, filmado em 1984. Sou o primeiro à esquerda

Quando lá cheguei, confraternizamo-nos, conversando sobre os velhos tempos do Língua de Trapo e A Chave do Sol, naturalmente, mas ela também contou-me sobre os anos e anos que trabalhou em gravadora major e a experiência que acumulou sendo assessora de artistas mainstream do mundo sertanejo, dirigindo pessoalmente a construção de carreira desses artistas. Confirmou portanto, o que eu já intuía, dando conta de que salvo raras exceções, a maioria desses artistas populares, construídos por grande empresários e com respaldo de gravadoras major, tinham baixo nível educacional e cultural, portanto deram-lhe trabalho muito grande em sua "construção de carreira". Sobre o Pedra, nesse contato inicial, ela explicou-me bem que desde que havia deixado uma gravadora major, não trabalhava mais diretamente com música, e que agora nessa produtora de vídeo, seu contato era mais indireto, tratando de administrar o negócio, apenas no campo das negociações com o staff de artistas que os procuravam, visando filmarem vídeo clips, e ou DVD de shows ao vivo.

Mas pensaria em ajudar o Pedra, certamente. Deixei-lhe material de portfólio, e os dois álbuns da banda, naturalmente. Falei-lhe também que uma pessoa amiga da banda estava tentando inserir-se no mercado como produtora, ajudando-nos. Era Cida Cunha, que auxiliara-nos por ocasião de nosso show no Sesc Vila Mariana em maio último, e agora estava tentando arrumar-nos novas oportunidades nessa instituição, visitando várias unidades dela, entregando nosso material na mão de produtores artísticos dessa instituição.

No estúdio da Net Cidade, acompanhando a filmagem do Pedra para o programa "Music All", Cida Cunha à direita e Fausto, o fã fidelíssimo, à esquerda. E o que ele segura em sua mão, não é o que parece...

Pensando que Cida Cunha não tinha experiência alguma como "agente", mas demonstrava uma força de vontade extraordinária para tentar cumprir tal missão e auxiliar-nos, perguntei para sua xará, Cida Ayres, se ela não importava-se que eu levasse-a na próxima reunião que teríamos dias depois, para ela dar-lhe algumas dicas.

E assim, alguns dias depois, lá estávamos nós, Cida Cunha e eu, diante da amiga Cida Ayres, em seu escritório. Cida Ayres disse-me que gostara dos discos, mas achava difícil pleitearmos espaço no mundo mainstream com esse material. Experiente nessa altura do campeonato, tal afirmação não surpreendeu-me, é claro. Fazia tempo, muito tempo que a difusão mainstream estava circunscrita ao mundo brega como monopólio total e artistas como nós, 100% antagônicos ao tipo de artistas que professavam tal ditame, não tinham chance alguma.

Mas, qualquer brecha, mínima que fosse, seria bem vinda e nós tínhamos músicas no nosso repertório que poderiam ser absorvidas tranquilamente no mundo mainstream. Músicas como "Sou Mais Feliz"; "Nossos Dias"; "Meu Mundo é Seu"; "Amanhã de Sonho"; "Só", e até a versão de "Cuide-se Bem" (considerando-se ser "pesada" em relação à versão original do Guilherme), eram exemplos disso. Então, sendo muito generosa, Cida Ayres apanhou sua agenda pessoal e deu vários telefonemas na nossa frente, para contatos muito fortes que tinha nos bastidores de programas de rádio e TV mainstream, e usando de sua influência, falando com pessoas que lideravam tais produções, apresentado o Pedra como uma banda que ela recomendava com ênfase etc etc.

Saímos do escritório com vários endereços anotados para enviar material pelo correio, direcionados diretamente para os contatos de Cida Ayres, e claro que animamo-nos. Um só desses programas que  desse-nos uma chance, teria sido uma oportunidade de ouro para ter uma exibição mainstream off-jabá, e isso teria sido extraordinário como ajuda. Claro que eu sabia que a difusão cultural mainstream estava toda comprometida há anos, pela máfia do jabá. Contudo, nutri uma mínima esperança de que através de uma produtora como Cida Ayres, que tinha contatos sólidos nesses bastidores, ao menos uma pequena brecha surgisse, baseado na relação de prestígio pessoal que ela mantinha com tais produções.

E havíamos tido um pálido exemplo disso, quando ainda em 2010, um E-mail vindo da Rede Globo sondou-nos sobre a possibilidade da música "Sou mais Feliz" fazer parte da trilha sonora de uma novela nova que estavam preparando. O iluminador Wagner Molina havia entregue nosso material nas mãos de produtores da Globo, lá no Rio de Janeiro, e daí o contato feito. Chegaram a enviar-nos minuta de contrato e um manual de regras da sua corporação, como por exemplo, a obrigatoriedade de regravarmos a música em estúdio estipulado por eles e produtor musical opinando no arranjo e áudio; além de deixar claro que fariam versões incidentais de trechos da canção para serem usados em ocasiões diferentes nos capítulos da novela, além do regulamento sobre os direitos do fonograma, para entrar nos CD's oficiais a serem comercializados com a trilha da novela. Deixaram-nos claro que era só um aviso prévio, e que outras quatro canções estavam sendo analisadas simultaneamente. Nunca mais mandaram-nos E-mails e deduzimos que escolheram outra canção, naturalmente.

Mas ficou-nos essa impressão, ou seja, sim, estava tudo dominado pela máfia, mas havia brechas mínimas ainda para outsiders, portanto, de minha parte, achei que algum contato da Cida, baseado em seu prestígio pessoal com essas pessoas, frutificaria. E havia nesse bojo, contatos peso-pesados como o "Programa do Jô" e o "Altas Horas", do Serginho Groisman, entre outros. Mandamos o material pelo correio... mas nenhuma resposta veio...
Isento a Cida Ayres desse fracasso, é claro, afinal de contas não era novidade alguma que a difusão cultural mainstream estava comprometida pelo odioso "pedágio do jabá"...

Uma última ação de boa vontade da parte da Cida Ayres, deu-se quando percebi que ele frustrara-se também pelos seus contatos ignorarem-nos retumbantemente. Numa última reunião, em que visitei-a em seu escritório, ainda em 2010, ela mudou o tom da conversa e ficou falando-me sobre gestão de carreira, experiência que adquirira cuidando da imagem de duplas sertanejas numa grande gravadora major, em que trabalhara nos anos noventa.
Pelo teor da conversa, onde falava-me sobre como duplas sertanejas emergentes ficavam excitadas por saírem de remotas cidades interioranas, notadamente do estado de Goiás, para tomar "banho de loja e cabeleireiro" em São Paulo, geralmente bancadas por mecenas, fazendeiros e industriais ricos desse estado citado, notei que sua intenção era dar mensagens subliminares sobre o Pedra e a minha figura em si. Tudo o que observava era extremamente realista e sua intenção era a melhor possível em achar que estava "abrindo-me os olhos", mas ao mesmo tempo, eu sabia disso, há anos e minha / nossa arte não era feita para atender tais propósitos nada nobres.

Nessa hora, vi também que ela estava contaminada por uma visão da música, sob o ponto de vista mais mercadológico e distante da arte possível, fruto de anos e anos de contato com gente dessa mentalidade ou seja, gente que aposta só no popularesco como material artístico a ser difundido e sobretudo, sem nenhuma preocupação com arte, tratando a música como produto barato de gôndola de supermercado. Portanto, "gerir carreira", passa ao largo de preocupar-se com a música em si, mas trata-se na verdade de levar ex-bóias-frias ao estrelato, "construindo suas carreiras" baseados em ternos caros das lojas de luxo da Rua Oscar Freire, tão somente. Nesse parâmetro, é claro que o Pedra não tinha perfil para encaixar-se nem em 1%, e ainda pensando nesses termos, vendo pelo meu estado naquele instante, caminhando para os cinquenta anos de idade; com o cabelo e a barba ficando grisalhos; barriguinha proeminente... em suma, aspecto de "tiozinho", batia ipsis litteris com a experiência que eu tivera poucos anos antes, quando uma produtora da Rádio Gazeta FM, e totalmente dentro dessa mesma mentalidade, falou-me que não acreditou que eu fosse artista, mas pensou que eu estava ali como empresário de um artista brega qualquer...

Resumindo : BB King não teria chances com essa gente, e que  dane-se a música...
Bem, pessoa boníssima, Cida ainda tentou dar uma ajuda, alegando que queria conhecer a banda inteira, e ter uma conversa conosco. Sua última cartada seria apresentar-nos ao produtor Liminha, para tentar ajudar-nos. Não falei nada, mas a despeito de respeitar muito o Liminha como músico e produtor, sabia também que sua cabeça estava feita pelo sistema desde o fim dos anos setenta, e ele não aguentaria ouvir nem dez segundos de qualquer música nossa, mesmo as que considerávamos mais "pop", na nossa concepção, que certamente era muito diferente da visão dele...
Num gesto de boa vontade mútua, marcamos um encontro no estúdio Overdrive, mas ela não foi, simplesmente. Isso aconteceu no início de dezembro.

Acho que sua consciência disse-lhe que seria inútil tentar ajudar uma banda que na sua concepção tinha uma obra, imagem e mentalidade tão distante das condições mínimas que espera-se de um artista que pleiteia o mainstream, que não valeria a pena tentar-nos persuadir disso, levando em conta que éramos homens maduros, e no meu caso, já caminhando para a terceira idade...
De nossa parte, nós não tínhamos nenhuma ilusão a respeito. Apenas achávamos que poderia haver uma pequena brecha para nós e isso poderia ajudar-nos a ter um pouquinho mais de exposição para entrar de vez no circuito de shows no Sesc, mas sem sonhar com a fama popularesca, tocando para multidões de 50 mil pessoas em festas de rodeios agropecuários, como esses aspirantes a famosos de duplas sertanejas sonham, costumeiramente. Bem, o fato dela não ter ido visitar-nos ao final de 2010, em nada abalou a minha admiração e gratidão por tudo o que ela fez de bom para a minha carreira nos tempos de Língua de Trapo e A Chave do Sol, e inclusive essa boa vontade em ter tentado ajudar o Pedra.
Sou muito grato à Cida Ayres, por ter tido esse gesto também com o Pedra, tantos anos depois.

Outra ideia que surgira entre outubro e dezembro de 2010, foi a de gravarmos uma série de músicas ao vivo dentro do estúdio, para um possível especial a ser veiculado na rádio Brasil 2000 FM. O Osmar "Osmi", produtor e locutor histórico daquela emissora, adorou a ideia e rapidamente isso ganhou aura de um "projeto", com outras bandas também participando de tal empreitada e dessa forma, abrindo frente para tornar-se um programa da emissora.

Isso seria bom não só para o Pedra, mas também para o estúdio Overdrive, numa ação de marketing que certamente trazer-lhe-ia mais clientes. E muito bom para uma cena de bandas bacanas que cercavam-nos em nosso rol de amizades, mas com possibilidade de expansão, atingindo outras tantas que poderiam embarcar nessa oportunidade. Brincando com a ideia, eu falei que aquilo poderia ser chamado de "Overdrive Live Sessions", brincando com o clássico programa da TNT, o "TNT Live Sessions", que fez muito sucesso nos anos noventa. O Xando gostou e levou a sério, batizando o projeto quase dessa forma, como "Overdrive Sessions".
Gravamos nossa parte, com a presença do Renato Carneiro auxiliando na operação e o Osmar "Osmi" assistindo tal gravação, e foi absolutamente ao vivo, sem nenhuma chance de fazer-se overdubs.

Como uma "demo-tape de luxo", a gravação ficou excelente, em se considerando que não haveria overdubs, e muitos vazamentos eram inevitáveis, como se fosse show ao vivo, potencializado pelo fato de tocarmos na sala de ensaio entulhada de equipamentos e todos vazando pelos microfones instalados na bateria; amplificadores; e sobretudo nos microfones de voz dos quatro componentes da banda. Mesclamos músicas dos dois discos, além dos singles, recém lançados em 2010, e a presença de uma música absolutamente inédita chamada "Luz da Nova Canção", que só seria gravada oficialmente em 2013, quando a banda estaria voltando à ativa após o hiato de 2011 (já estou chegando nesse ponto de dissolução inicial de 2011). Contudo, o clima na banda estava pesado, apesar dos inúmeros sinais de sucesso que o clip de "Cuide-se Bem" estava dando-nos, e tal projeto foi sendo deixado de lado, para só ser retomado em 2012, e no momento oportuno, falarei mais detidamente dele, portanto.

Mas isso não atrapalhou os planos de expansão do Xando para o seu estúdio e outras bandas gravaram o especial "Overdrive Sessions", entre elas, o Golpe de Estado que estava com formação novíssima, apresentando o vocalista Dino Linardi, e o baterista Roby Pontes em suas fileiras. E também, Tomada, Cracker Blues e o guitarrista Marcio Tucunduva, uma figura muito bacana que não era do nosso rol de amizades, mas que o Xando descobrira na internet, e encantara-se com seu som. Cheguei a sugerir a inclusão da banda "O Voo Livre" que eu também descobrira nas redes sociais, e estava bastante impressionado com seu trabalho, mas o projeto também não prosperou além desses nomes que citei, e tudo foi engavetado logo a seguir. Salvo engano de minha parte, o guitarrista Marcio Tucunduva nem chegou a gravar. O ano de 2010 estava encerrando-se...


Vínhamos de uma fase desgastante de altos e baixos quando o ano de 2010 iniciou-se. Mas apesar dos pesares, logo no começo do ano, os ânimos apaziguaram-se com as boas novas que logo surgiram através do single de "Queimada das Larvas dos Campos Sem Fim" sendo lançado, e ainda mais com o anúncio vindo da Revista Veja, dando conta de que o programa "Veja Música" seria disponibilizado em fevereiro.

Os singles sendo lançados com seus respectivos promos, somaram-se ao "gás" que eu, um recém ingresso no mundo virtual dei à banda, trazendo muitas simpatias inéditas ao nosso trabalho.
Um bom show numa unidade do Sesc, e no bairro onde eu e Xando morávamos, sinalizou tempos novos.

Uma produtora inexperiente no meio, mas com extrema boa vontade em querer trabalhar conosco, também dava-nos a impressão de que redundaria num impulso. Um convite para uma entrevista em rádio top, mais o arrebatador clip de "Cuide-se Bem", fazia-nos crer que os ventos mudariam. Guilherme Arantes em pessoa, também acreditou em nós e apoiou-nos publicamente...

O fã-clube de Guilherme Arantes fez contato conosco e encantados com nossa versão e o clip (já haviam apreciado a versão acústica do programa Veja Música), prometeram trabalhar fortemente mobilizando seus associados a ligarem maciçamente para as rádios a pedirem a execução da nossa versão de "Cuide-se Bem". Será que um expediente tão antigo e ingênuo, diante da solidez da indústria do jabá nas emissoras de rádio, surtiria efeito ?  Pelo visto, não... e ficamos só com o apoio da Brasil 2000, infelizmente, sem chance de tornar-se uma febre como tanto precisaríamos para chegar a algum lugar maior.

Uma produtora amiga (e muito querida), agora sinalizara apoio ao abrir-nos sua agenda de contatos "quentes", mas, nem seu prestígio sensibilizou ninguém da mídia a abrir-nos uma portinha como Sérgio Martins fizera-o na Revista Veja...
"Live Sessions na Brasil 2000 FM", uma ótima ideia, e com um produto ótimo e honesto : uma banda de verdade, sem armações de estúdio, tocando ao vivo, sem maquiagem...

O clima interno na banda não melhorara apesar dessas boas novas, algumas ótimas, como descrevi acima... mas na minha cabeça, tudo era superável e a luta continuaria normalmente em 2011...
Despedimo-nos para as festas de fim de ano de 2010, e combinamos reencontro na segunda semana de janeiro de 2011.
O ano findou-se, finalizaram-se as festas e... quando toquei a campainha da residência do Xando, no dia combinado do reencontro, em janeiro de 2011...

Continua...

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