Pesquisar este blog

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 2 - Gravando o Primeiro Disco e Formatando a Banda - Por Luiz Domingues

No início de 2005, o Xando já movimentava-se para colocar a banda no rumo da gravação do primeiro CD. E o primeiro passo foi apresentar-nos ao Renato Carneiro, um excepcional técnico de som, e que gravara o Big Balls nos anos noventa, no estúdio Mosh.
O Renato trabalhava há muitos anos operando o som de duplas sertanejas famosas.  Havia trabalhado com Christian & Ralf, e naquele momento, estava há quase cinco anos com Zezé Di Camargo e Luciano.

Outra possibilidade muito boa, era de contar com o Renato Carneiro eventualmente também como técnico de som de nossos shows ao vivo. Começamos a sonhar com essa possibilidade e havia outra possibilidade ainda mais animadora que seria a de contar também com um outro técnico de alto nível, também chamado Renato, Renato Sprada para ser preciso. 

Também veterano, e com enorme experiência de sonorização ao vivo, foi técnico de som do Terço nos anos setenta, na fase dos LP's "Criaturas da Noite" e "Casa Encantada"; excursionou com Gonzaguinha no auge da carreira dele, incluso a turnê onde o grande Luiz Gonzaga, pai de Gonzaguinha, excursionou junto. Naquele momento de 2005, estava fixo com Fábio Jr.

Os dois Renatos, ambos magos dos botões... grandes técnicos de áudio ! De camiseta esverdeada, Renato Carneiro, e de preto, Renato Sprada. Início de 2005, em foto de Grace Lagôa

Com a volta dos ensaios, e o surgimento de mais músicas, estávamos fechando arranjos, e preparando-nos para a gravação.
O Rodrigo fazendo ótimas intervenções aos teclados, e Xando e Tadeu Dias, entendendo-se nas guitarras.

Notávamos, no entanto, que o baterista Alex Soares parecia economizar um pouco nos seus arranjos pessoais. Falávamos para ele ousar um pouco mais, mas ele alegava estar tentando padronizar sua bateria num patamar mais pop, propositalmente.

Foto de Grace Lagôa, da sessão de gravação do primeiro álbum do Pedra, início de 2005

Claro que o Pedra nasceu com a mentalidade de estar aberto ao pop, mas o Alex demonstrava ter outros parâmetros sobre o que deveria ser considerado algo comercial. E outro ponto que hoje é fácil de ser visualizado, mas era obscuro na época : o distanciamento que o guitarrista Tadeu Dias estava demonstrando. Faltava aos ensaios com frequência nesse período (início de 2005), alegando seus compromissos com o cantor Simoninha. De fato, havia viajado para a França com ele nessa época, mas logo voltara para o Brasil.

Essa súbita mudança de comportamento era incompreensível, contudo, pois nos primeiros ensaios, entre outubro e dezembro de 2004, ele comparecia com assiduidade e pontualidade.
Mostrava- se animado nos ensaios, contribuindo com ideias, e esforçando-se para dar o melhor de si à banda.

Na sala de estar da residência do Xando Zupo em 2005, olhando fotos históricas da carreira de Grace Lagôa, e ainda com Tadeu Dias sorridente, e fazendo parte de nossa banda...

Era muito brincalhão, e fazia-nos rir de suas piadas e imitações etc etc. Portanto, não havia indícios de que estivesse insatisfeito, tampouco distante.

Mas logo no início de 2005, mudou de comportamento, bruscamente. No início, claro que não percebíamos isso. Uma primeira ausência deu-se por conta de sua viagem para Paris; outra vez, uma gravação de um especial do Simoninha para a MTV; seguido de constantes problemas alegados com o automóvel. Enfim, começaram a suceder-se faltas, mas atribuíamos isso aos compromissos dele com Simoninha, e a fatalidade de ter problemas com seu carro, coisa que pode ocorrer a qualquer pessoa.
Não percebendo esses "sinais", seguimos ensaiando e relevando as faltas do guitarrista Tadeu Dias. Nesta altura, o som estava bem encorpado com a entrada do Rodrigo como tecladista, e dessa forma, pensávamos em alguns ajustes onde duas guitarras e teclados poderiam "embolar". E levando-se em conta que eu era / sou um baixista que gostava / gosto de criar e frasear, esse cuidado tinha que ser ainda mais observado.


Conhecendo o Renato Carneiro, percebi que enteder-nos-íamos bem, pois era um rapaz extremamente humilde e acessível. Falava a nossa linguagem, como técnico de futebol que já foi jogador, e fala a língua dos "boleiros".

Pausa para a água, durante a sessão de gravação do meu baixo, em 2005. Da esquerda para a direita : eu, Luiz Domingues; Renato Carneiro, e Xando Zupo. Foto de Grace Lagôa

Percebendo essa possibilidade, animei-me ainda mais, pois antevi uma gravação tranquila, com diálogo franco, e abertura para opinar.
Mais ou menos na época do carnaval de 2005, o Xando reservou o seu estúdio para o Pedra começar a tão esperada gravação de seu primeiro trabalho.

Usando o método tradicional do "um-por-um", ao começar pela bateria, marcamos o início para gravar com o Alex Soares e para tanto, a equalização de seu instrumento, e guia da banda para poder gravá-lo. Para que o baterista possa gravar na sua plenitude, técnica e criativamente, é imprescindível que tenha uma guia bem feita pela banda.

Foto de Grace Lagôa, na sessão de gravação da bateria, com Alex Soares

Como costumamos dizer, se a banda toca sem muito empenho, o baterista acaba prejudicando-se, pois grava com uma interpretação frouxa, sem vida, e aí, num efeito dominó, todos os outros instrumentos vão baseando-se nessa pegada sem alma, e a gravação coloca-se como irremediavelmente arruinada. Não querer participar da gravação guia de sua banda é algo muito estranho, e que despertou a nossa atenção, acendendo uma luz amarela nas nossas cabeças. O Tadeu deu mostras de não estar mais entusiasmado em fazer parte dessa banda, mas seguimos em frente, sem deixarmo-nos abalar por isso. Gravada a bateria, chegou a minha vez. Senti um imenso prazer em gravar aquelas músicas, pois estava encaixado no espírito da sonoridade do Pedra. 

O contato com várias vertentes do Rock era costumeiro na minha rotina de tantos trabalhos anteriores, mas foi no Pedra onde mais pude aproximar-me da Black Music, que é uma escola que adoro, mas nunca havia tido a oportunidade de tocar, propriamente falando. Músicas como "Vai Escutando; "Me Chama na Hora"; "Sou Mais Feliz", e "O Dito Popular", transitavam entre o Soul, R'n'B e Funk, portanto, meu lado Motown / Stax, regozijou-se.

Foto de Grace Lagôa registrando o momento em que gravei minha participação no disco 

Usei bastante meus baixos Fender, tanto o Jazz Bass, quanto o Precision, e em ambos, creio ter atingido os melhores timbres da minha carreira, graças ao trabalho do Renato Carneiro como técnico, e produtor de estúdio, fora o apoio do Xando. De fato, esses trabalhos no quesito baixo, foram muito elogiados posteriormente, e muito orgulham-me.




Sem dúvida que o Xando apoiou esse molho de Black Music nas linhas de baixo que criei. Ele era o compositor da maioria das músicas, e também adora a Black Music.

E dá-lhe Fender Precision !! Foto de Grace Lagôa registrando a minha sessão de gravação do primeiro álbum do Pedra

Só que tem um diferença, ele gosta do funk setentista, e da Disco Music, e eu prefiro o R'n'B e Soul cinquenta / sessentistas.
Onde concordamos, como ponto em comum, é no funk setentista.
Em relação à atuação do Rodrigo na guitarra, infelizmente ficou prejudicado mesmo, pois a maioria das canções teve seu planejamento para Xando e Tadeu trabalharem. O Rodrigo só foi atuar em poucas faixas posteriores, como guitarrista, numa segunda etapa de gravações.

Mas como logo assumiu o posto, com a saída de Tadeu Dias, tirou todas as músicas já imprimindo seu estilo. Ficou o sentimento de que teria sido ideal ter gravado tudo desde o começo, mas o destino não quis assim. E quanto ao entrosamento, certamente que veio rápido.

É normal numa banda que dá seus primeiros passos, que haja um entusiasmo por parte de todos. O Rodrigo foi o último a chegar (nessa etapa), e apresentou-se desgastado psicologicamente.
Era natural que demorasse a animar-se, mas esse processo de revitalização acabou acontecendo rapidamente, para o bem dele, e da banda.

Alex Soares flagrado pela lente de Grace Lagôa, no início de 2005

O Alex Soares estava um pouco abaixo desse entusiasmo, mais por ser extremamente cético em relação ao mundo mainstream. Ele queria que desse certo, claro, mas duvidava do direcionamento.
Se dependesse de suas concepções, deveríamos empobrecer o som, buscando nossas oportunidades no "planeta brega", acintosamente.
Isso não era uma estratégia desprezível, se o nosso objetivo fosse esse, mas queríamos atingir o pop por outro patamar, com qualidade artística ilibada, e não apelar para o baixo nível total.

Foto de ensaio, com Tadeu Dias no centro da imagem, pilotando sua Fender Stratocaster. Foto de Grace Lagôa

E o Tadeu Dias simplesmente desistiu, tendo gravado sua parte sem maior entusiasmo, e a seguir, deixando-nos sem maiores explicações. Mas demoramos para perceber a sua real intenção naquele momento, não tendo sido uma situação cristalina. Independente de tais conjunturas estruturais e estratégicas sobre gestão de carreira, estávamos longe ainda de pisar num palco. Isso só aconteceria em maio de 2006.


Visto hoje em dia, acho que até tenho um diagnóstico, mas na época parecia algo surreal. E no caso do Alex, não é que estivesse desanimado.

        Alex Soares num ensaio de 2005. Foto de Grace Lagôa

Ele queria muito que desse certo, mas a sua expectativa era diferente. Ele queria um caminho pop acentuadamente popularesco. Nós tínhamos uma meta, e ele pensava em outra, era isso. Quanto aos demais, claro, estávamos empolgados. 

Meu diagnóstico é o de que o Tadeu Dias, apesar de ter uma tremenda bagagem em MPB e Black Music, com sólida formação teórica, inclusive, gostava era de Heavy-Metal. Logo nos primeiros ensaios, ele fazia brincadeiras nesse sentido as vezes, puxando Riffs de Metal, só para brincar e nós divertíamo-nos, tratando disso exatamente dessa forma, ou seja, como brincadeira.

Mas logo que o ano de 2005 virou, o Tadeu surpreendeu-nos, pois alegava estar atolado de serviço com o Simoninha; faltava aos nossos ensaios, mas arrumou tempo para fazer shows com bandas oitentistas de Heavy Metal, como "Centúrias"; "Harppia", e "Salário Mínimo", em festivais saudosistas realizados no Bar Blackmore. Ora, se estava muito comprometido em trabalhar com tal artista da gravadora Trama, encontrava tempo para tocar com essas bandas e logicamente ensaiar antes ?  Aí começamos a perceber que as brincadeiras eram na verdade, o seu gosto pessoal...

Uma das últimas fotos de Tadeu Dias conosco, em 2005. Click de Grace Lagôa

Logo depois que deixou o Pedra, acabou entrando numa banda de Metal chamada "Cavalar". Vimos matérias em sites como o Wiplash, por exemplo, e aí entendemos finalmente o por quê dele ter entediado-se com o rumo que o Pedra adotaria.


Foto de Rodrigo Hid, num momento de descontração no estúdio Overdrive, em 2005. Click de Grace Lagôa

Com o Rodrigo assumindo a guitarra, o Pedra encontrou o seu formato ideal. Mas esse não era o plano inicial, pois o Tadeu era (é) um excelente guitarrista, e não cogitávamos perdê-lo naquele instante tão prematuro da história de uma banda que mal nascera.
Foi surpreendente; chato; e de certa forma chocante, mas no final, deu tudo certo com o Rodrigo assumindo o seu lugar de direito na banda. O Rodrigo é um talento como multi-instrumentista, portanto, deixá-lo tocando só um instrumento, ou só cantando, seria desperdiçá-lo. Sorte do Pedra em poder contar com esse talento, portanto.

Rodrigo Hid e eu, Luiz Domingues, no estúdio Overdrive, em 2005, durante as sessões de gravação do disco. Foto de Grace Lagôa

Confesso que sinto uma certa revolta em ver tanta porcaria consagrada no mainstream, só por conta de lobby, e comprometimento com estéticas mancomunadas com jornalistas vendidos & empresários inescrupulosos, deixando à margem um talento como o de Rodrigo Hid. Cito aqui o Rodrigo, sem demérito aos demais, incluso eu. Apenas realçando seu talento de multi-instrumentista, cantor, compositor e letrista. No tocante ao direcionamento artístico do Pedra, se tivesse aparecido um produtor de peso... mas creio que hoje em dia as coisas não funcionam mais assim.

Sessão de gravação das guitarras de Xando Zupo. Click de Grace Lagôa

Por incrível que pareça, as coisas pioraram, pois antigamente os produtores de gravadoras pegavam bandas de qualidade, e moldavam-nas no padrão pop vagabundo. Hoje, bandas de qualidade nem chegam perto... eles preferem fabricar moleques emo, que já vem prontos no esquema, sem dar-lhes o menor trabalho. São ruins de berço, do jeitinho que eles gostam...
Os tempos eram outros, e nenhum produtor moderno desses que vampirizam, interessar-se-ia em produzir uma banda de veteranos, e com o som cheio de firulas. Para eles, é muito mais fácil e econômico investir em bandas de moleques que já fazem esse som, são absolutamente moldáveis, e tem a juventude ao seu lado, como condição sine que non.



Nesse exato ponto onde encontro-me no relato (janeiro / fevereiro de 2005), a nossa preocupação era gravar. Haviam outras articulações sendo feitas, como por exemplo com um possível vídeoclip, e um contato com um produtor de shows.

Mas eram coisas paralelas, pois o foco estava no estúdio, e na nossa relação com o produtor Renato Carneiro. Na verdade, o Renato já era amigo do Xando há muitos anos. Ele foi o técnico de gravação do disco do "Big Balls", em 1996. Então, o Xando já contava com sua presença no projeto do Pedra, antes mesmo da banda ser formada.

Renato Carneiro e Xando Zupo, em foto de 2005, no estúdio Overdrive e clicado por Grace Lagôa

Como ele estava sempre em tour com Zezé Di Camargo e Luciano, demorou para ele ter uma brecha na agenda, e vir visitar-nos. Mas em princípio, estava tudo certo para ele ser o nosso George Martin / Geoff Emerick...
Quando o Renato apareceu no estúdio, já tínhamos pelo menos umas 8 músicas prontas, das 12 que gravamos e descontando uma que foi descartada na hora da edição final. Tal canção descartada chamava-se "Pra Sempre", e era de autoria do baterista Alex Soares. O motivo do seu descarte será explicado no momento oportuno. Estou falando do começo de 2005, e isso só ocorreia em 2006.


E chegou a minha vez de gravar o baixo...

          Gravando o primeiro disco do Pedra, no início de 2005...

Digo sem medo de errar, que foram os melhores timbres de toda a minha carreira. O Renato Carneiro soube extrair o melhor de meus instrumentos, amplificador e caixas. Sua experiência de operar P.A. gigantescos ao vivo, deram-lhe um talento ímpar para detectar frequências, como um professor de química que conhece a tabela periódica de cor e salteada.


 
Os timbres de Fender, tanto Jazz Bass quanto Precision, ficaram magníficos. Tenho muito orgulho desse disco, por vários motivos, entre os quais, o resultado "timbrístico" dos baixos nele gravados.
O Rickenbacker também ficou bom, mas um pouco aquém de sua potencialidade natural. Nesse caso, eu sei que o Renato teve de conter na mixagem, e na masterização, certas frequências excessivas e naturais dele, que chocavam-se sobretudo com o piano de faixas como "Madalena do Rock'n Roll" e "Reflexo Inverso".

Mas em músicas como "Me Chama na Hora"; "Vai Escutando", e "O Dito Popular", o timbre do Fender Precision ficou simplesmente espetacular.

O estalo típico do instrumento realçou-se de uma forma a evocar o som de baixo do Roger Waters; Glenn Hughes na época do Trapeze; John Wetton no Family; King Crimson, e Uriah Heep, e Phil Linnot do Thin Lizzy.

E o Jazz Bass ficou um "veludo" de tão "macio", e absurdamente "gordo" em músicas como "Sou Mais Feliz" e "Amanhã de Sonho", evocando as maiores tradições da Black Music, em gravações da Motown, pilotadas por músicos como James Jamerson, e Donald "Duck" Dunn.

Cabe um interlúdio em minha narrativa para explicar ao leitor, que a minha decisão pessoal em escolher o baixo para cada música, baseia-se desde que a música nasce nos seus primeiros ensaios de composição. Vou imaginando a vibração da música e daí, escolho uma influência que coadune-se com ela, e na minha cabeça, defino qual instrumento usar, baseado nesse sentimento que a música passa-me. Portanto, com essa metodologia, raramente erro na escolha e no caso do Pedra, tive a sorte de trabalhar com um técnico sensacional que é o Renato Carneiro, e num aconchegante estúdio que é o Overdrive. Já gravei discos em estúdios monstruosos, mas no Overdrive, o resultado foi o melhor, graças à essa conjunção de fatores. Terminado o baixo, as próximas sessões foram as do Xando.


Realmente essa é a minha metodologia na hora de gravar um disco.
Eu tenho as minhas influências na cabeça, e conforme vou identificando numa música nova, características que remetem-me à qualquer influência dessas, vou deixando fluir naturalmente essa sincronicidade. Por exemplo, se identifico algo de sixties numa canção, vou afunilando até chegar ao ponto de semelhança, onde uma ou mais bandas, especificamente vem-me à cabeça.

Feito isso, identificada a influência, o meu "HD do cérebro" começa a formular lembranças de como esse ou aquele baixista da banda, ou das bandas em questão, tocaria, que formulações de frases usaria, que instrumento usaria, e finalmente o timbre empregado. Aí imprimo esse estilo, claro, com a minha personalidade e o meu jeito de tocar.

Se a música pede um estilo, tenho tantas influências, que acabo tendo um manancial de ideias na cabeça, e raramente erro, pois toda essa resolução foi decorrente de uma observação da música em si, que praticamente pediu-me esse caminho. Esse é o meu método de criação. Deixo que ela peça-me a influência que quer que eu imprima e seu respectivo baixo adequado pelo timbre.

Por exemplo : Se eu notar que ela tem um "jeito" de progressivo setentista, vou acionando minhas influências. Se numa segunda prospecção, noto que parece mais cerebral do que "silvestre" com raízes folk, descarto o Rickenbacker, tanto pelo timbre do "Yes", quanto "Renaissance", duas de tantas possibilidades desse instrumento.

Praticamente centro no Precision, e vou afunilando mais. Se tiver densidade, penso mais no som do John Wetton na época do LP "Lark's Tongues in Aspic" (King Crimson). Se for mais com brilho de médio / agudo, vou imaginar o som do Greg Lake no ELP, ou do Bert Ruiter do Focus...
E estou citando apenas alguns entre centenas de nomes !
Muitas vezes, um mesmo baixista ou banda tem diversas nuances.
Por exemplo : posso sentir uma influência Beatle, mas de que fase ?

Se tiver jeito de "Revolver" é uma coisa; "Sgt° Peppers" é outra etc etc. Se lembrar-me "Wings", é um outro Paul McCartney que vou buscar, com o Rickenbacker usado com a chave de captador na posição do meio, obtendo um lindo médio / grave anasalado. E assim por diante, sinto que minhas influências são o maior tesouro que tenho dentro da cabeça, exatamente por ter inúmeras referências. E tem o coração, também. Não é só o racional que trabalha, pois se não provocar emoção, nada funciona...


O Xando gravou todas as suas partes com rapidez, apesar da complexidade de arranjos elaborados em várias dobras de guitarras, e do uso sofisticado de efeitos, fruto de uma planificação detalhista da parte dele. O entrosamento dele com Renato Carneiro era perfeito, e eu tive o prazer de acompanhar in loco quase todas as sessões de sua gravação.



Com o desinteresse da parte do Tadeu, o Xando acabou deletando a sua gravação. O ponto onde ele sentiu-se desestimulado com o Pedra, ficou obscuro. Não havia nenhuma explicação plausível, pois ele mudou de comportamento de forma abrupta, e passou a comportar-se dessa forma, sem maiores esclarecimentos de sua parte.

Mas como já salientei, hoje, está claro que ele estava envolvendo-se com músicos de Heavy Metal, e este seria de fato o trabalho que sonhava realizar, visto que o Pedra tocava, aos olhos dele, praticamente no mesmo espectro de som que costumava tocar acompanhando Simoninha, e outros artistas do cast da gravadora Trama. Nós pensávamos que ele gostava e muito desse som, pois desempenhava muito bem nos temas mais MPB, com harmonizações sofisticadas, e nos temas mais Soul, tinha soluções de muito swing. Mas não sabíamos que ele realmente gostava era de Heavy-Metal.

Assim, ele saiu da banda sem uma despedida formal de sua parte, mas tudo bem...
Dali em diante, abriu-se o caminho para o Rodrigo assumir a segunda guitarra, e o Pedra formatou-se, enfim.


O Tadeu Dias é um excelente guitarrista. A proposta inicial da banda era boa com ele, e Marcelo Mancha no vocal. Certamente, o destino foi moldando as peças de maneira a trazer Rodrigo Hid para a banda, assumindo as funções desses dois músicos que saíram, além dos teclados, pois havia a ideia do Xando de contar com um sexto membro, inicialmente. Ele chegou a convidar o Marcelo "Macabro" Cardoso, hoje tecladista do "Violeta de Outono", mas este não poderia dedicar-se ao Pedra como membro fixo naquela ocasião.

Hoje, concordo que esse arranjo foi o melhor para a história do Pedra, mas essa visão só faz sentido agora, com o devido distanciamento histórico.

Fechado como quarteto doravante, o Pedra em foto promocional clicada por Grace Lagôa, em 2005

E fora o clima de estupefação, não houve prejuízo musical, pois o Xando regravou todas as partes do Tadeu novamente, e o Rodrigo assumiu com naturalidade sua função de guitarrista, trazendo seu talento e criatividade nesse instrumento, também para brilhar no Pedra. Não houvera mudanças nos arranjos não, pois as bases já estavam gravadas, impossibilitando mudanças radicais. Algumas sutilezas, sim, pois cada músico tem seu estilo, e a não ser que esteja seguindo uma partitura estaticamente, sempre algumas coisas ficam diferentes. 

Superada a questão da perda do Tadeu, e com o Rodrigo integrado em cem por cento com a banda, prosseguimos gravando e começaram a aparecer as primeiras oportunidades para a banda.
Uma história revelou-se um grande furo n'água, quando o Renato Carneiro ligou-nos em algum dia de abril de 2005, e disse ao Xando, que o filho de um cantor popular muito famoso perguntara a ele se recomendava um estúdio para que sua banda "emocore" gravasse uma demo tape. Claro que ele de pronto indicou o Overdrive, e o moleque quis conhecer na mesma hora, visto que estava com seus companheiros agrupados, e tinha pressa nesse processo.

De pronto, o Renato ligou para o Xando e coincidiu de ser um dia de ensaio do Pedra, portanto, a banda estava toda lá. Paramos o nosso ensaio e deixamos a técnica livre para o garotão e seus amigos conhecerem o estúdio, e o Renato que viria também, logicamente, ciceroneá-los, fazendo demonstrações de áudio.
Renato chegou na frente e abriu o programa da mixagem do Pedra para os moleques ouvirem, naturalmente. Cerca de 40 minutos depois, uma limusine com motorista, parou na porta e cinco molequinhos emo entraram e foram direto para o estúdio. Renato mostrou-lhes tudo e quando soltou o som, o filho do cantor famoso mandou parar porque aquele som era "horrível", referindo-se a "Sou mais Feliz" e que eles gostavam era do "Blink 182", "Green Day"; "OffSpring" e outras bandinhas neo-punks, ainda piores que citou, com seu incauto entusiasmo adolescente e de extremo mau gosto. Demonstrando arrogância desmedida pois ainda não tinha fama alguma (mesmo que tivesse, ora bolas...), e apenas surfava na fama do pai, ordenou que parasse e dando voz de comando aos amiguinhos, saíram rapidamente, contrariados com a "porcaria" do som do Pedra...

A intenção do Renato foi boa, tentando aproximar alguém que habitava o mainstream, de nós, mas não contava com a soberba juvenil do pimpolho desse cantor popularesco. Outra questão que foi amadurecendo, e já era fruto de conversações desde o final de 2004, foi a de gravarmos um vídeo clip. O fato, é que o Xando tinha um contato forte, que era uma amiga sua de adolescência, que há muitos anos trabalhava com produção áudio / visual, cinema, incluso, e conhecia muito bem um diretor de vídeo clips muito famoso no mercado, e extremamente competente, chamado Eduardo "Xocante", com "X", assim mesmo. Essa amiga chamava-se Viviane Marques, e fazendo a ponte, apresentou-nos o Eduardo Xocante, que conheceu-nos, e apreciou o nosso som.

O diretor de muitos vídeoclips, ex-editor chefe da MTV, e hoje em dia (2016), na Rede Globo, Eduardo Xocante


No curriculum dele, haviam inúmeros vídeo clips realizados com artistas do Rock; MPB, e música brega (leia-se : duplas sertanejas famosas). De Capital Inicial a Raimundos; Cássia Eller a Titãs; Zezé Di Camargo & Luciano a Marisa Monte etc etc. Ficamos contentes por ver que ele acreditou na banda e animou-se a fazer o clip, reduzindo custos ao máximo, facilitando, colaborando na produção etc. Então, entre abril e maio de 2005, encontramo-nos muitas vezes para dialogar, e ele acompanhar ensaios. Falamos bastante sobre o conceito, e ele convenceu-nos a fazer um clip simples, sem externas e mostrando a banda tocando. Fazia sentido, pois como primeiro trabalho, era importante mostrar "a face" da banda ao público, e sem subterfúgios; dramaturgia com atores; efeitos e distrações típicas do universo dos vídeo clips. Tudo foi amadurecendo rápido e no final de maio, ficou acertada a data da filmagem. E a música escolhida foi : "O Dito Popular". 

Continua...  

Nenhum comentário:

Postar um comentário