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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Pedra - Capítulo 3 - Vídeo-Clip e Primeiros Sinais de Agitos - Por Luiz Domingues

     O excelente e tarimbado diretor e editor, Eduardo "Xocante"

O Eduardo Xocante não interferiu na escolha da música. A liberdade artística era nossa. Estávamos em dúvida entre "Sou Mais Feliz" e "O Dito Popular". A escolha pelo "Dito", foi por que queríamos algo mais impactante, ritmado, além da questão do jogo de palavras da letra ser muito bom.

Tínhamos esperança de que a contundência da letra, aliada ao jogo de palavras com ditados populares, realmente pudesse popularizar-se. Daí a escolha. Definida a música, a escolha de um estúdio para filmarmos foi orientada pelo Eduardo Xocante, que conhecia diversos estúdios em São Paulo, graças aos muitos anos em que trabalhou como diretor de comerciais de TV, vídeo clips de artistas musicais e diversos outros trabalhos na área dos áudio visuais.

Ele optou por um estúdio com algumas unidades espalhadas por São Paulo e coincidentemente, uma delas situada na esquina da rua do estúdio Overdrive, QG do Pedra, com sua transversal. Não dependia de nós escolhermos esse estúdio, apesar da comodidade de estar a menos de 100 metros dele, sem ao menos precisar atravessar a calçada. Essa decisão dependia da agenda do estúdio.


Quase fomos agendados numa unidade no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo, mas tiramos a sorte grande e marcaram-nos para a esquina, mesmo !! O Eduardo Xocante minimizou custos porque simpatizou conosco e vestiu a nossa camisa, mas mesmo assim, houve despesas extras que tivemos que arcar, como o aluguel desse estúdio. Toda a equipe de iluminação; filmagem, e o diretor de fotografia (Aníbal Fontoura), foram suas indicações. Gente tarimbada e acostumada a todo tipo de trabalho áudio visual, alguns inclusive, familiarizados com o cinema autoral.

Viviane Marques é a moça do meio, usando blusa escura, nessa foto rodeada de Ana Cançado, e o artista plástico, Erickson Britto


Viviane Marques atuou como codiretora, e produtora associada.
O Xando levou um pedaço do P.A. do Overdrive para alimentar o áudio guia, e não o tempo todo, mas durante um período, o nosso técnico, Renato Carneiro, esteve presente dando-nos suporte no áudio.

A questão visual nunca foi um ponto forte na carreira do Pedra. Nunca houve um consenso sobre essa identidade, e eu lamento muito isso, pois certamente é um quesito importante na carreira de qualquer artista, seja lá de qual vertente pertença. Sendo assim, eu produzi-me com um visual bem próximo do que estava acostumado desde minha estada na Patrulha do Espaço, ou seja, na estética 1960 / 1970, e imediatamente anterior ao surgimento do Pedra. Rodrigo e Xando foram mais despojados, trajando jeans e camisetas. O Xando foi criativo ao mandar bordar uma frase emblemática da letra de "O Dito Popular", na sua camiseta...

A frase que ele bordou na sua camiseta, foi : "Tá Revoltado ? Toma Partido ! Achei a ideia genial, pois seria mesmo um bordão de forte apelo sociopolítico, e com conotações culturais implícitas, que confeririam um toque de classe sob o aspecto artístico, de uma banda que propunha-se a dizer algo relevante, em contraste com a mediocridade atroz dos artistas que dominavam o mainstream daquela época. Conjuguei o verbo ser no futuro do pretérito simples, pois eu lamento muito que um trabalho desse nível não tenha reverberado como deveria.

O Rodrigo em outras cenas, acabou usando uma camiseta exótica que a produção ofereceu-lhe (com a estampa do "Wolverine", dos "X-Men"...). E também um paletó de couro verde (este de seu acervo pessoal), que deixou-lhe mais chic, digamos, em cenas pinceladas.

Nessas cenas alternativas, eu também troquei de roupa, mas mantive o espírito setentista de meu visual, meu cabelo estava bem comprido, e ficou bonito o efeito mediante luz e ventilação artificial. Já o Alex Soares, infelizmente, não coadunava-se com essas ideias, e vestiu-se de uma forma destoante, sem nenhuma identidade com uma egrégora de Rock. E obviamente essa quebra de identidade era resultante da nossa falta de diálogo franco sobre esse aspecto. Diante do impasse, ficou uma subliminar mensagem absorvida de que cada um faria o melhor dentro de suas concepções e ponto final.

A ideia do megafone no início foi improvisada. Achamos esse artefato solto no camarim que ocupamos, e alguém sugeriu ao Xocante, que adorou a ideia. Sinceramente, não lembro-me quem foi o autor da iniciativa, só digo que a ideia foi boa e ficou bem legal, pois passou a insinuação de "palavra de ordem", como uma passeata de protesto, sugerida na letra ("Está revoltado ? Tome partido"...)

Arrumando o nosso backline no set de filmagem, bem cedinho, às 8:00 h. da manhã. Foto de Grace Lagôa

Chegamos bem cedo no estúdio e armamos o equipamento como se fosse para tocarmos ao vivo.

Sem o figurino, mas com tudo ligado, e passando o som "de verdade", tocando ao vivo, mas a ideia foi descartada logo a seguir... foto de Grace Lagôa

Tivemos a iniciativa de ligar tudo e tocar de fato, pois foi cogitada a ideia de não dublarmos, mas tocarmos de verdade, embora o áudio evidentemente na edição final seria o de estúdio, com qualidade assegurada. Mas essa ideia foi vetada, pois outros estúdios daquele complexo cinematográfico estavam sendo usados por outras produções, com filmagem de comerciais de TV, e reclamações eclodiram sobre o barulho que atrapalhava-os...

        Fachada do Cine Estúdio na Vila Mariana, em São Paulo

Lembro-me que num dos outros estúdios anexos, estavam gravando um comercial de uma marca de sabão em pó bem famosa, e eu tive o desprazer de dialogar com o arrogante diretor desse comercial, visto que ele "exigiu" usar o melhor camarim do complexo e eu tive o azar de chegar nesse camarim, levando minhas roupas, bem na hora que esse prepotente senhor estava chegando também.

                    Daniel "Kid" Ribeiro e Phellipe Del Mestre                  

Contratamos dois roadies para ajudar a transportar o equipamento e montá-lo. Daniel "Kid" Ribeiro, que foi roadie da Patrulha do Espaço por muitos anos enquanto eu e Rodrigo lá estivemos, e um rapaz indicado por ele mesmo, Daniel, chamado Phellipe Del Mestre, que aliás só fez esse trabalho com o Pedra.

Frame do Clip pronto, com a minha figura, Luiz Domingues, em destaque

As primeiras tomadas foram com a banda tocando. Por uma questão funcional da filmagem, o meu equipamento ficou longe de minha presença, por isso, eu apareço o tempo todo com o equipamento do Xando às minhas costas. Fizemos vários takes tocando a música e posteriormente o diretor de fotografia, Aníbal, filmou sem tripé, detalhes do Alex à bateria. Aliás, são os primeiros frames do vídeo, com o close no pé dele acionando o bumbo da bateria.


No camarim do Cine Vídeo, aguardando a chamada para a o início das filmagens

Depois, num outro ambiente, horas depois, o Xocante filmou o Rodrigo nas cenas onde ele usou o megafone. Nessa hora, o Rodrigo foi brilhante na sua performance gestual, libertando-se de qualquer amarra de timidez. Lembro-me de que o Xocante como diretor, deu-lhe instruções nesse sentido, mas ele extrapolou e foi muito feliz na sua performance.

E vou além : o Xocante vibrou quando viu essa manifestação e aos berros, pedia para continuar, e que o cinegrafista não perdesse nenhum detalhe.

A produtora Viviane Marques fazendo claquete no dia da filmagem, no estúdio Cine Vídeo

A Viviane também vibrou e falava ao Xocante : -"ele está explodindo !!", naquele típico jargão de quem lida com áudio visual, e refere-se à uma grande performance da parte de atores.

Era um momento mágico de interpretação, que não poderia ser perdido de forma alguma. Nessa época, o Rodrigo estava casado com a cantora / atriz Lu Vitaliano (Vitti), que também conhecedora da matéria, muito incentivou-o a soltar-se.



Neste take, o próprio diretor Eduardo Xocante colocou a mão na massa, e atuou como cinegrafista

E a Lu Vitaliano também percebeu o momento de explosão dele e assistindo pelo monitor do Xocante, entrou na euforia com ele e Viviane.

 Lu Vitaliano (Vitti), no dia dessa filmagem que estou descrevendo

Confesso, estava vendo pelo monitor também e tive arrepios. Achei a postura dele nesse momento, de um artista de grande envergadura e relevância, daqueles que tem o que dizer e extravasam a cada gesto, significados e significantes. Ou seja, coisa de gente grande...


Houve também algumas tomadas com a banda sem instrumentos, fazendo uma pequena performance gestual. 


Numa cena, fomos colocados em pares e olhando um para o outro, berrávamos trechos contundentes da letra nos seus momentos de "passeata de protesto", sob orientação do diretor Eduardo Xocante.
Desses frames, algumas fotos foram usadas no encarte do primeiro CD. Aliás, todas as fotos do encarte e contracapa, são dessa filmagem, ou da sessão de fotos que fizemos após o término da filmagem, aproveitando o estúdio, a luz especial e o equipamento ali colocado.

E houve também cenas individuais de nós tocando. Foram aproveitadas numa edição bem rápida, principalmente na hora dos solos de guitarra e ao final da música (eu apareço quase no fim, um pouco antes do "slow motion" final com o Rodrigo encerrando o vocal ).

Sendo filmado individualmente, e esses frames foram aproveitados durante a execução da parte dos solos da canção

Como já disse, a Grace Lagôa, fotógrafa profissional e uma das melhores do país, especializada em shows de Rock, cobriu todo o processo. E ao final, fez uma rápida, porém excelente sessão de fotos. A foto da contracapa do Pedra I, é dessa sessão, e a ausência do Alex que estava originariamente junto e foi suprimido, será esclarecida numa narrativa posterior, no seu devido tempo.

Encerrando, a ideia do clip ser simples era funcional, mais barata e servir-nos-ia como um primeiro agente promocional, mostrando nossa imagem, sem subterfúgios. Uma filmagem em forma de entrevista foi feita no camarim antes das filmagens começarem, ainda pela manhã. O objetivo era ter esse material como uma mini apresentação da banda, com até o Renato Carneiro prestando um depoimento. Uma pessoa ligada à MTV, amiga do Xocante, chegou a assistir a filmagem do clip por um tempo nos bastidores e esse rapaz foi quem pediu essa filmagem para levar à cúpula da emissora...

O momento da entrevista que supostamente seria veiculada pela MTV, no camarim do Cine Vídeo. De camiseta cor de laranja, o nosso produtor de áudio, Renato Carneiro também participou opinando

Tal material foi cogitado para ser veiculado pela MTV. Mas essa pessoa nunca mais deu-nos esse retorno, portanto, essa mini entrevista nunca foi veiculada em lugar algum, e que eu saiba não vazou na internet. Todos da banda tem cópias em DVD desse material. Aliás, logo mais falarei sobre a nossa tomada de consciência em relação à MTV, depois que eu falar sobre o processo de edição do clip, que renderá histórias detalhadas, certamente. Mais algumas considerações :

1) Sim, chegamos cedo ao estúdio. Encontramo-nos na casa do Xando por volta das 7:00 h da manhã e às 8:00 h, estávamos com nossa parte pronta no set de filmagens. A equipe de filmagem e a de luz, já estava lá no estúdio ainda antes. É praxe e faz parte das normas sindicais desses trabalhadores de cinema.
2) Contudo, os ajustes de câmera e luz são bem demorados. Acho que os primeiros takes só começaram depois das 11:00 h da manhã.
3) Ao todo, acho que foram umas seis horas de trabalho, contando com uma pausa para o almoço.

4) A sensação era a melhor possível. Estávamos todos animados, com exceção do Alex Soares que parecia estar incomodado com a situação. Tanto que logo após o término das filmagens, fizemos uma sessão de fotos com a Grace Lagôa, e ele quis ir embora rapidamente, alegando ter um compromisso.

Como uma chuva muito forte caiu ao final da tarde, eu ofereci-lhe carona, pois ele estava sem o carro que ficara com sua esposa.
5) Foram muitas as recordações. A euforia das esposas do Xando e do Rodrigo (Grace e Lu ); A garra que o Xando demonstrava; A explosão de criatividade e expressão que o Rodrigo apresentou; A beleza das tomadas que víamos no copião a cada take encerrado; A simpatia do Eduardo Xocante que é um diretor sem nenhuma afetação (coisa rara nesse meio...), enfim, foi por aí.

Pedra, com Eduardo Xocante e Vivi Marques (ao centro, entre a banda), num dia de ensaio do Pedra em que eles visitaram-nos, dias antes da filmagem

6) Estávamos em 9 pessoas na comitiva do Pedra. A equipe de filmagem devia ter seis pessoas; Xocante; Vivi Marques; o diretor de fotografia Aníbal; o cinegrafista e dois assistentes. A equipe de luz, mais umas quatro pessoas. E como observadores, o filho pré-adolescente do Xocante, João (que devia ter 11 anos de idade naquela época), e os dois filhos gêmeos da namorada do Xocante, com 13 ou 14 anos de idade, + ou -.

No camarim, Eduardo Xocante; seu filho João (de calça cinza), e os filhos de sua namorada.

Finalizada a filmagem, nosso contato com toda a equipe encerrou-se. Dali em diante, só manteríamos contato com o Xocante e a Vivi Marques. Isso porque o Xocante é que tomaria as providências posteriores. O primeiro passo seria a revelação da película, visto que filmamos em 16mm., película de cinema. Logo mais, avanço nessa perspectiva de contar sobre o processo de finalização do clip.

Encerradas as filmagens, ficamos na expectativa do prosseguimento das finalizações. O objetivo inicial era a revelação do filme, visto termos filmado em película de cinema, na medida de 16 mm. Por sugestão do Xocante, a revelação; telecinagem e edição, foram feitas na Casablanca, um estúdio renomado em São Paulo.

Eduardo Xocante com a câmera na mão; no canto direito, o diretor de fotografia, Aníbal

O Xando foi o primeiro a ver o primeiro "copião" bruto revelado. O Xocante entrou em contato com ele e pediu para que ele desse uma olhada nessa etapa.

Lembro-me bem da reação entusiasmada do Xando, que prontamente ligou-me. Estava eufórico por ter visto o copião revelado numa tela de alta definição. E claro, após os demais processos técnicos, a tendência era a do clip ficar maravilhoso visualmente. No processo de edição, o Xocante novamente convidou-nos a irmos lá na Casablanca, acompanharmos o trabalho de edição.

Vivi Marques e eu, Luiz Domingues, em foto no camarim do Cine Vídeo, no dia da filmagem

Cautelosa, a coprodutora Vivi Marques pediu para não ir a banda inteira. Eu diria que era prudente em primeira instância, para evitar atrapalharmos a concentração do Xocante à ilha de edição. Contudo, era uma cautela excessiva, pois não éramos adolescentes imberbes no recreio da escola...
Acabou que fomos em trio, eu; Xando e Rodrigo. Ficamos muito animados vendo o trabalho de edição e a qualidade que o clip estava ganhando na edição final.

E lá na Casablanca, o Xocante havia mostrado o copião a uma pessoa que tinha contatos no mundo fonográfico. Essa mulher ficou eufórica com o som e abordou-nos dizendo que gostaria de apresentar-nos ao Thomas Roth que era seu amigo pessoal e tinha um selo, onde muito provavelmente poderíamos lançar o nosso primeiro CD.

Essa sensação de que as portas começavam a abrir-se era deliciosa, mas experientes, não mudamos os nossos planos e seguimos em frente sem euforias desmesuradas. O clip ficou de fato, maravilhoso. Com uma bela fotografia e uma edição muito caprichada, apesar de ter um roteiro simples, com apenas imagens da banda tocando e poucas inserções extras, o resultado final ficou muito bom.

Considerando que dependíamos da agenda da Casablanca e do Xocante, demorou cerca de vinte dias, mais ou menos para termos o clip finalizado e pronto para ser encaminhado às estações de TV.
Uma pequena falha na inserção do áudio, pregar-nos-ia uma peça, conforme relatarei a seguir.


Abaixo, assista o clip oficial da música "O Dito Popular"

Eis o link para assistir no You Tube :
 

https://www.youtube.com/watch?v=FEoh4hXsEJc

Ficamos muito eufóricos com o resultado final da edição do vídeo, mas nem percebemos que houve uma falha na inserção do áudio, na cópia que levamos à MTV. Essa falha causar-nos-ia um problema, logo mais adiante.

Por ora, queríamos mais é levar o material às estações de TV, e começar a veicular o quanto antes. Ainda tínhamos uma visão distorcida da TV. 

O Xando tinha sua lembrança mais recente do tempo do Big Balls, onde essa banda que ele teve no meio dos anos noventa, chegou a ter uma exibição razoável na MTV.  Eu também vinha de uma experiência acolhedora nessa emissora, igualmente nos anos noventa, visto que minha banda naquela década, Pitbulls on Crack, também tivera uma boa veiculação por lá.

Mas os tempos haviam mudado drasticamente e não notamos que teríamos uma resistência feroz com a mentalidade reinante naquele instante. Em outras estações, tínhamos esperança na TV Cultura, via "Alto Falante", programa da Rede Minas, retransmitido pela Cultura de SP, e que enfocava a cena independente. E nas TV's abertas, zero % de chance, pelos motivos óbvios de sempre...

Renato Carneiro parecendo "bravo", mas ele era / é sempre bem humorado, na verdade... 

Lembro que o Xando foi com o Renato Carneiro à MTV e entregaram-lhes o material. Foram atendidos por subalternos, sem chance de conversarem com ninguém mais graduado. Isso já representava um recrudescimento nas relações, pois nos anos noventa, ainda havia um trânsito livre para conversar com a produção. Mas mesmo assim, não suspeitaram que as coisas estivessem tão mais difíceis por lá. Só perceberíamos cerca de um mês depois, quando fomos avisados que o Clip estrearia no início de agosto de 2005, e dali em diante...

Essa é uma história triste que contarei posteriormente, no andar da cronologia desta narrativa.

Por ora, digo apenas que estávamos muito satisfeitos com o resultado final do clip. Extremamente bem fotografado; com boa luz; edição frenética e caprichada, feita pelo Xocante; além de belas tomadas da banda, e várias individuais. A música era ótima; a banda idem; o refrão forte; a letra boa; e o clip caprichado... como achar que não agradaria ?

Inicialmente o foco foi a MTV, mesmo porque ao dar entrada na emissora, o Xando teve que preencher uma ficha comprometendo-se a não veicular o clip em outra emissora num prazo de trinta dias. Com isso, ficamos esperando a confirmação da data de estreia para só depois tentar outros espaços televisivos. Trinta dias a partir da primeira exibição...

Isso era um atraso para a banda, pois amarrava nossas possibilidades de ir espalhando-o, sem a certeza de que seria exibido ali com a constância que desejávamos. Estávamos à mercê dessa emissora, com essa cláusula absurda de exclusividade e sem contrapartida, pois não havia garantia alguma de que exibissem o nosso vídeo clip...
Eu não sei exatamente quais seriam as sanções. Quero crer que no máximo, reservar-se-iam ao direito de não exibir mais o nosso clip.

Isso por si só, já seria um absurdo, numa manifestação terrível de arrogância, mas diante dos fatos, tornou-se uma verdadeira piada de mau gosto, conforme relatarei a seguir...
Então a MTV sinalizou em seu site que o nosso vídeo estrearia no dia 1° de agosto de 2005, no horário de 14:00 h. Ficamos animados, claro. Ainda não tínhamos o CD pronto, mas certamente um belo clip produzido em película de cinema e com uma música empolgante, dar-nos-ia uma repercussão inicial excelente, preparando o terreno para o lançamento do CD.

No dia dessa estreia, haveria ensaio do Pedra, pois era uma segunda-feira, dia que ensaiávamos normalmente. Por conta disso, eu cheguei um pouco mais tarde, para poder gravar a nossa participação na MTV, ainda usando a velha fita VHS...
Quando o nosso clip começou a aparecer, vi que o volume estava baixíssimo. Descartado algum problema técnico com o meu monitor de TV, eu chateei-me, pois era inadmissível um clip ser veiculado com um áudio desses, praticamente sabotando a aparição da banda.
Em princípio, fiquei muito chateado, pois na somatória da minha carreira inteira, já longa naquela altura, não era a primeira vez que uma chance escapulia-me pelos dedos por um erro crasso ou sabotagem.

Fui para o ensaio chateado com essa ocorrência, pensando em tantas vezes que eu fui prejudicado na carreira com coisas semelhantes, e agora mais uma para a coleção de infortúnios...
Contudo, assim que cheguei ao estúdio Overdrive, o clima era outro. Meus colegas estavam comemorando efusivamente a estreia, com taças de vinho etc etc.

Achei estranho que o fato do áudio do clip ter sido muito prejudicado na exibição da TV, não os tenha incomodado. Talvez (provavelmente isso), relevaram o fato, achando que a seguir bastaria levar outra cópia com o áudio corrigido e tudo bem, ele continuaria sendo exibido com sua qualidade máxima etc e tal.
O Xando chegou a comentar comigo que já havia ligado para o Renato Carneiro, e ambos haviam combinado promover essa correção técnica numa nova cópia, com urgência. Todavia, internamente eu sabia que não haveria outra chance na MTV, pois eram outros tempos, e todo o esforço para produzir e lançar o clip, praticamente esvaíra-se ali. E não deu outra... soubemos que ele passou mais uma vez na madrugada daquele mesmo dia (e com aquele áudio defeituoso), e nunca mais...

Sendo assim, logo que caíram na real, os demais membros do Pedra ficaram chateados com essa postura esdrúxula da MTV, que realmente estava completamente desinteressada em difundir música, há tempos. Lembro-me que o Xando ficou inconformado com esse desdém, e chegou a enviar E-Mails realçando o disparate de nós termos gastado tempo; dinheiro; e energia, fora a qualidade incontestável do clip, com excelente direção; fotografia; iluminação; edição, e a assinatura do diretor Eduardo Xocante, com um curriculum invejável no mercado, e curiosamente um pioneiro da própria MTV, pois trabalhou lá como editor de imagens, do início em 1990, até a metade da década, pelo menos.

Sendo um funcionário subalterno, respondeu dando evasivas, desculpas esfarrapadas e vendo que era inútil prosseguir nas reclamações e lamentos, o Xando deu por encerrado o desabafo. Mandamos também para o programa "Alto Falante", da Rede Minas, e retransmitido aqui em São Paulo pela TV Cultura. Eu era o que mais tinha esperanças numa boa acolhida por parte deles, por assistir o programa regularmente e verificar que ao contrário da MTV, onde eu achava pouco provável, no "Alto Falante" só falava-se de bandas independentes, praticamente.

Enviamos o material, mas nenhum sinal de recebimento foi emitido por conta de produção do mesmo. Mandamos novamente e nada ocorreu. E-Mails foram mandados e nenhuma resposta...
A cada semana, eu via com esperança a veiculação do programa e nem sinal de Pedra...
Ainda em 2005, o Rodrigo fez contato com um produtor cultural de Belo Horizonte, que era fã da Patrulha do Espaço, e conhecia o nosso trabalho com essa nossa nova banda, Pedra, com minha presença e Rodrigo etc. 

Ele era amigo dos produtores e apresentadores do Alto Falante e propôs levar o material em mãos. Mandamos um terceiro material, desta vez endereçado a este amigo que levou-o em mãos aos responsáveis pelo programa. E o que aconteceu ?? Nada... nem uma justificativa...

A nossa “ficha” só foi cair tempos depois, quando enfim percebemos que tal programa era comprometido com outra orientação artística, ligada ao mundo dos festivais de música independente e leia-se : “indie rock”. O Xando ficou muito chateado, e acho que foi o que mais sentiu esse desdém. Não que eu não tivesse aborrecido-me. O que ocorreu, foi que àquela altura, com quase 45 anos de vida, e 29 de música nas costas, estava calejado pelo revés.

Mais ou menos nessa época, fomos convidados a participar pela primeira vez de um programa radiofônico tradicional e quer tinha bastante audiência. Eu, particularmente, já havia participado desse programa várias vezes, com outras bandas onde atuei no passado (A Chave / The Key, em 1988; Pitbulls On Crack em 1993 e 1997; e Patrulha do Espaço, em 2000). Tratava-se do programa do radialista / produtor e apresentador, Osmar Santos Jr, o popular "Osmi", e nada a ver com o locutor esportivo famoso e de mesmo nome.
Num formato bem bacana, que mesclava a banda tocando ao vivo no estúdio da emissora com entrevista e interação com perguntas de ouvintes, lembro-me que a apresentação foi muito boa e efetivamente era a primeira vez que tocávamos ao vivo, embora eu não compute essa apresentação como a estreia oficial da banda, pelo fato de não haver público no local, a não ser a presença do apresentar Osmar e do guitarrista da banda "Cidadão Instigado", que estava nas dependências do estúdio, por mera coincidência.
Seguimos em frente preparando o disco, e a novidade que tivemos tempos depois, foi através de um ex-aluno meu chamado D'Ney Di Courel.

Um dia entre agosto e setembro de 2005, recebi o seu telefonema, perguntando-me sobre novidades. Ele nem sabia que eu havia deixado a Patrulha do Espaço, e quando falei-lhe sobre o Pedra e a recente novidade de um vídeo clip filmado em película de cinema, passou-me um contato de uma estação de TV alternativa, que operava em UHF, e que ao contrário da MTV, estava dando força à bandas independentes. Tratava-se de uma estação chamada Rede NGT (Nova Geração de Televisão).

Anotei os contatos e levei-os ao nosso ensaio. O Xando passou a bola para o Renato Carneiro, que além de ser nosso técnico de som e produtor de estúdio, auxiliava-nos em tarefas de produção, não como empresário, mas representando-nos como uma espécie de relações públicas. Ele fez o contato e ficou entusiasmado, pois foi muito bem recebido, e rapidamente levou o nosso clip de "O Dito Popular" a essa emissora.

Então, começamos a ouvir relatos de pessoas que haviam visto, uma; duas; várias vezes...
Ficamos contentes, claro, pois embora fosse uma emissora de pouca visibilidade por operar em UHF, estavam exibindo-nos com regularidade, enfim. Então, um pouco depois disso, recebemos um convite para participar de um programa nessa emissora, onde dublaríamos "O Dito Popular", pois o clip estava sendo exibido com regularidade na emissora, e aparentemente despertando a atenção de seu público.

No entanto, tratava-se de um programa tipicamente feminino e vespertino. Eu, particularmente não tinha nada contra, pois fiz muitos desses programas nos meus tempos de Chave do Sol e Língua de Trapo. Chamava-se "Totalmente Livre"... e o patrocinador não era de absorventes íntimos, como poder-se-ia supor com esse título...

Então, fomos agendados para filmar nossa participação nesse programa. Isso ocorreu em outubro de 2005. Fomos informados de que tratava-se de um programa mezzo talk-show / mezzo feminino vespertino. Era apresentado por uma cantora chamada Giovana, que era aspirante a estrela no "mondo brega" das emissoras de TV aberta e rádios congêneres.

Particularmente, achei ótimo, pois independente da visibilidade que trazer-nos-ia, eu sempre gostei de apresentar-me nesses programas de TV aberta, por achar muito divertido os bastidores. Minhas lembranças, principalmente dos meus tempos de A Chave do Sol e Língua de Trapo, eram sempre de bastidores "Fellinianos", tamanha a profusão de bizarrices. E seria também a oportunidade de participar da anacrônica dublagem, com direito a baterista usando ridiculamente uma caixa e um prato, uma das coisas mais bisonhas a que todos os artistas submetiam-se nos anos oitenta, principalmente.

Chegamos aos estúdios da Rede NGT, e apreciamos as instalações.
Localizado no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo, a Rede NGT ocupava / ocupa uma bela construção, assinada pela arquiteta Lina Bo Bardi. Enquanto esperávamos pelo início das gravações do programa, visitamos ali mesmo uma mini exposição onde contava-se toda a concepção daquela edificação etc etc. Apreciei muito. Fomos muito bem recebidos pelos produtores do programa e pela apresentadora, Giovana, que era bem simpática. E lá descobrimos que dividiríamos o programa com um ex-integrante de uma banda pop, que agora batalhava por sua carreira solo.

     Eis acima, o referido guitarrista do "Twister", Leo Richter

Era um guitarrista chamado Leo Richter, que fora integrante de uma banda chamada Twister, que fez um sucesso até significativo no início dos anos 2000, mas de características bem pop do mundo brega. Contudo, o rapaz era gente boa, e queria batalhar agora por sua carreira solo, com um trabalho mais elaborado, tentando desvencilhar-se desses paradigmas etc. No primeiro bloco, ele concedeu entrevista sozinho, e dublou sua música, inclusive usando a guitarra do Rodrigo.

No segundo bloco, fomos para a nossa entrevista, seguida da dublagem de "O Dito Popular". Na entrevista, a Giovana fez as perguntas de praxe sobre a origem da banda, e o por quê do nome "Pedra", iniciando a seguir, uma breve discussão sobre a questão da pirataria de CD's. Isso ainda era um tema polêmico, e esquentava as conversas nas rodinhas de artistas e produtores musicais naquela época. Contudo, a velocidade com a qual as coisas transformaram-se no mundo fonográfico em relação aos avanços da tecnologia, principalmente internet, tornou essa conversa obsoleta, muito rapidamente.

Antes de dublarmos, houve uma indefectível ação de merchandising, com a entrevistadora Giovana interagindo com uma demonstradora de uma linha de cosméticos que aliás, patrocinava o programa. Nada mais tipicamente feminino... ganhamos os kits de cosméticos com a Giovana enfatizando que não deveríamos usar os produtos, mas ofertá-los às nossas esposas / namoradas, chegando a insistir nessa piada sem graça. A nossa dublagem foi divertida. Ficamos perfilados e dublamos como nos velhos tempos do Chacrinha...
O programa foi ao ar no sábado subsequente, e como tratava-se (trata-se), de uma emissora que opera em UHF, nenhum de nós conseguiu sintonizar adequadamente e gravar. Mas o produtor do programa (Sergio Salce), foi gentil e proporcionou-nos uma cópia em VHS. Isso não foi postado no You Tube ainda, mas poderá ser lançado a qualquer instante, embora não tenha uma qualidade de imagem boa.

Trata-se de um único registro de TV com o baterista Alex Soares, portanto, raro para os fãs do trabalho. E no final, um momento quase constrangedor : a apresentadora Giovana encerrava cantando uma música de seu disco, pedindo-nos que levantássemos e ficássemos no enquadramento, dançando. Nós e o Leo Richter do Twister, com expressões faciais de completo constrangimento enquanto ela rebolava... hilário !! E tratava-se de um R'n'B pop modernoso, e bem "soft-pornô", numa definição debochada, porém certeira do Xando...

Claro que essa aparição no programa "Totalmente Livre" da Rede NGT, não transformou a nossa vida, mas por incrível que pareça, muita gente viu. Digo com certa estupefação, porque a emissora operava (opera) em UHF, e com toda essa tecnologia que temos hoje em dia, realmente parece algo pré-histórico. Mas o fato, é que ao contrário da MTV, a Rede NGT passou a exibir com frequência muito grande o nosso clip de "O Dito Popular", e cada vez mais ouvíamos pessoas comentando sobre ter-nos visto, e já numa era de divulgação pela internet, essa medição fazia-se clara, através do nosso site e pelo "Orkut", a rede social que era a bola da vez na ocasião. Também nessa época, recebemos o convite para participar de um "Podcasting". Ainda era uma relativa novidade esse tipo de mídia de internet que simula uma emissora de rádio, na prática, e abriu campo para que milhares de programas surgissem, alguns muito legais inclusive. Claro, a pulverização total que a internet ganhou logo a seguir, tratou de minimizar o efeito desejado, mas ainda hoje acho válido ter esse tipo de apoio.

No caso desse Podcasting (Podcasting Brasil), era gerido por um grupo de garotos com aspiração a fazer jornalismo cultural, talvez imitando programas de TV a cabo como o "Manhattan Connection" e similares. Fomos à cidade de Barueri, para participar no estúdio com essa garotada e foi um papo mais ou menos, ou sendo realista, bem menos, pois não tinham o preparo adequado para entrevistar alguém bem mais experiente do que eles. Talvez estivessem acostumados a entrevistar bandas de moleques da idade deles, no colégio ou faculdade que estudavam, mas definitivamente, faltou estofo para os rapazes. O auge de sua inadequação deu-se quando o mais impetuoso deles, com certa empáfia até, perguntou-nos se nós entráramos na música para conquistar garotas... acho que dispensa mais comentários...



 
Havíamos mandado também cópias para o Canal Multishow, de TV a cabo, mas não havia nenhum sinal de recebimento. Mandamos também para um famoso apresentador que foi da MTV, e agora estava indo para o Multishow. Chegamos a mandar três materiais, um inclusive chegando em mãos, através de um contato nosso que era amigo pessoal dele, no seu apartamento aqui em São Paulo, mas ele nunca dignou-se a dizer absolutamente nada, nem uma sílaba.

Naturalmente deve ter achado uma porcaria, haja vista a profusão de artistas indie que promoveu nesses anos todos. Pela lógica da ilógica inversão de valores, se ele gostava daquela gente que não sabe tocar instrumentos musicais, naturalmente abominava-nos... Sieg Heil, Malcolm McLaren & asseclas...

Então, no final de 2005, tivemos enfim uma boa surpresa !
Sem que ninguém avisasse-nos, o canal Multishow exibiu por seis vezes o nosso clip ! Estávamos numa tarde de ensaio olhando a internet a esmo, quando eu sugeri ao Xando que desse uma olhada no site do Canal Multishow. 

Foi aleatório e desprovido de qualquer esperança prévia, que tomamos um susto: estava na capa da grade de atrações, o nosso nome e uma foto do Rodrigo cantando, na verdade, um frame do clip. Iríamos perder a chance de ver e jamais ficaríamos sabendo, mas por essa coincidência incrível, ficamos sabendo que passaria no programa "Mandou Bem", no dia 13 de dezembro de 2005, sob apresentação da atriz Daniela Suzuki. Assistimos e gravamos, claro. E depois houve mais cinco repetições do programa. Será que outras portas se abrir-se-iam ?

Claro, eu e o Xando como veteranos na música, que já éramos na ocasião, tínhamos os pés no chão e sabíamos que uma mera aparição na TV não mudaria nossas vidas para sempre, tampouco meia dúzia como ocorreu, e numa estação de TV fechada que era "chic" naquela ocasião. Mas concomitantemente, aparecer com um clip bem produzido no canal Multishow não era exatamente uma coisa pequena, e essa oportunidade poderia ter movimentado alguma coisa. O grande azar, foi que ainda não havíamos finalizado o CD. 

Não era por nossa culpa e nem pelo Renato Carneiro, mas sim pelas circunstâncias. O fato é que o Renato trabalhava fixo como técnico de som de Zezé Di Camargo & Luciano, e uma dupla sertaneja mainstream desse porte fazia praticamente 25 shows por mês em média. Dessa forma, sobrava pouquíssimo espaço na agenda dele para mixar, e daí as sessões terem ficado tão espaçadas.

Apesar dessa animação pelas seis aparições do clip no Multishow, o mês de dezembro avançou, e seguindo a tradição tupiniquim, nada mais aconteceu no país, ligando um longo recesso da metade de dezembro, até o fim do carnaval. Dessa forma, ficamos mesmo só ensaiando e aguardando as brechas na agenda do Renato nesse final de 2005.

Começamos a sentir que o baterista Alex Soares realmente não encaixava-se nas nossas metas. Na verdade, sabíamos disso já há bastante tempo, mas fomos empurrando essa situação, naquela vã esperança de uma mudança que nunca ocorrerá, pois é questão de foro íntimo e nesse caso, geralmente a pessoa não percebe as diferenças que para os demais podem soar gritantes. E também pela questão de misturar as bolas. Por ser um rapaz legal e tocar bem, indiscutivelmente, postergávamos uma decisão pois sempre ponderava-se essas qualidades particulares dele como fator de contrapeso.

Infelizmente, essas qualidades notáveis não desabonavam os pontos onde enxergávamos divergências, e no início de 2006, essa questão foi ganhando adorno insustentável. Um dos pontos nevrálgicos era sobre uma canção composta por ele, Alex, e que foi arranjada, gravada e mixada, mas acabou não entrando no set do CD Pedra.
E assim encerrou-se o ano de 2005...

Animados com a exibição do clip de "O Dito Popular" no Canal Multishow, e a crescente exibição na Rede NGT, entramos em janeiro de 2006 com a perspectiva da finalização da mixagem do nosso primeiro CD. Apesar de ter sido muito demorado por conta da escassez de oportunidades na agenda do produtor Renato Carneiro, sem dúvida que o resultado sonoro compensava a demora, pois estava ficando com uma qualidade incrível de timbres e pressão sonora, num volume quase compatível com produções caras, de artistas mainstream. Tivemos no disco, a presença de dois músicos convidados que em sessões diferentes e ocorridas em 2005, abrilhantaram o trabalho do Pedra.

O percussionista Caio Inácio, com parte de seu arsenal de instrumentos, no dia da gravação da percussão

O primeiro foi o Caio Inácio, percussionista que o Rodrigo conhecia da noite paulistana. Ele foi bastante criativo em suas intervenções. Toda a "Escola de Samba" que aparece no final da música "Me Chama na Hora", foi tocada só por ele, criando a batucada na hora, e arranjando-a com bastante propriedade.

Eu, Luiz Domingues, conversando com o percussionista Caio Inácio, no dia da gravação da percussão. Foto : Grace Lagôa

Uma pequena e sutil, porém bonita intervenção na música "Amanhã de Sonho" também foi uma contribuição dele, com um singelo sino cerimonial.

                             O trompetista, Robson Luis

E outro músico acabou dando-nos uma ajuda boa : Robson Luis, um trompetista que tocou no trecho final da música "Misturo Tudo e Aplico", onde a canção assume ares de música mexicana e com o trompete, ficou mesmo acentuada essa intervenção, com jeito de "Mariache de Guadalajara". 

O nosso convidado, Robson Luiz, gravando o trompete em "Misturo Tudo e Aplico"

E como ele fez um arranjo com várias vozes abertas em harmonia, dá a impressão de vários trompetistas tocando juntos, contribuindo para que a música fosse registrada com um final espetacular e muito inusitado, certamente surpreendendo Rockers mais radicais que esperavam um disco centrado no Hard-Rock tradicional.

Confraternizando após a sessão de gravação do trompete. Da esquerda para a direita : Robson Luiz; Xando Zupo, e Rodrigo Hid

O Robson tocava numa banda famosa na noite paulistana, chamada "Quasímodo", especializada em Disco Music dos anos 1970. E o Caio Inácio, era um músico requisitado como side man de diversos artistas de diferentes vertentes.

Caio Inácio e Renato Carneiro na sessão de gravação da percussão

Entramos no ano de 2006 com o disco quase finalizado, e após algumas negociações frustradas, finalmente estávamos por definir a questão do lay-out de capa, e encarte para o CD. Em esboços preliminares, ventilou-se a ideia da capa conter arte rupestre, evocando o caráter da Idade da Pedra.

Um artista gráfico, amigo do Rodrigo, chegou a fazer rafs nesse sentido, mas após algumas experimentações, acabamos não empolgando-nos com o resultado, mesmo após algumas tentativas de modificações, mediante sugestões de nossa parte. Como esse processo de rafs e desaprovações começou a arrastar-se, o Rodrigo adiantou-se e por conta própria começou a fazer experiências, ele mesmo em seu PC, com nossas fotos, conferindo-lhes contornos fractais. Eu e Xando ficamos muito entusiasmados quando vimos as experiências dele, pois tinham um colorido incrível, até de certa forma, evocando a psicodelia sessentista.


Eram fotos clicadas pela Grace Lagôa por ocasião das filmagens do vídeo Clip de "O Dito Popular", inclusive alguns frames do vídeo em formato Still. Começamos a elaborar o texto do encarte / ficha técnica, e era ponto pacífico que deveria conter todas as letras, pois esse quesito era considerado vital no trabalho do Pedra, e motivo de orgulho, até. Contudo, fatos novos, produziriam diversas mudanças na concepção desse projeto gráfico todo, conforme contarei, logo mais.

E dessa forma, com a demora para resolvermos a questão da capa, o Rodrigo foi desenvolvendo o encarte livremente. Estava inseguro inicialmente, pois definitivamente não é um Web Designer, longe disso. Mas aventurando-se em meio a programas simples de formatação visual, foi criando essa profusão de cores e promovendo deformações em nossas fotos, de maneira a criar verdadeiras fantasmagorias, muito interessantes visualmente. 

Com o áudio praticamente mixado e prestes a masterizar, o Renato Carneiro anunciava enfim o término dos trabalhos do primeiro CD do Pedra, para breve. Desde 2005, mesmo quando o clip de "O Dito Popular" já passava esporadicamente em estações de TV alternativas como a Rede NGT, e por seis vezes no Multishow, falávamos em produzir shows. 

A banda estava afiada pela quantidade de ensaios e o repertório estava na ponta da língua. Mas sempre que falava-se em shows, o baterista Alex Soares fazia a ressalva que precisava priorizar sua banda cover, pois era o seu meio de sustento, e o Pedra era uma incógnita por ser um trabalho saindo da estaca zero e certamente por ser autoral em 100%, com dificuldades inerentes para estabilizar-se. Sabedor de que as portas são cerradas para artistas autorais nesse circuito underground, Alex temia que marcássemos shows de alto risco financeiro, em detrimento de perder datas com a banda cover, perdendo dinheiro, e eventualmente até seu emprego na banda. 

Compreensível a preocupação dele no âmbito pessoal, ainda mais por ser casado e ter uma filha recém nascida. Contudo, isso era muito frustrante para nós três, demais componentes, pois sentíamos estar num barco com três remadores ao invés de quatro. Além desse impasse, haviam outros, de ordem estética. Alex desejava posicionar a banda numa linha competitiva para o mercado pop, mas sob a ótica do mundo brega. Ele tivera uma recente experiência pessoal nesse sentido, onde quase entrou num esquema mainstream ao gravar com a banda "LSD", formada pelos ex-membros do RPM, Luis Schiavon e Fernando Deluqui. 

Com tema emplacado na então novela das seis da Rede Globo ("Cabocla"), e tais contatos globais, achou estar no caminho certo para acertar-se na vida. Mas o tal "LSD", ao contrário, tinha tudo para dar errado, desde a sua criação, no entanto. Para início de conversa, a sigla "LSD" dava a falsa impressão de tratar-se de uma banda de Rock sessenta / setentista muito louca, mas não passava das iniciais dos membros oficiais. Como levar isso a sério ?
Além do mais, nem com tema de novela e "pistolões" globais, a banda vingou. Foi um fiasco, e encerrou atividades quase sem fazer barulho algum, para tristeza de Alex que vislumbrou dinheiro e fama. 

Contudo, convivendo com esses artistas, absorveu muito da mentalidade deles de mainstream, e queria direcionar o Pedra para um caminho entre isso, e o "Roupa Nova", seu ideal de banda perfeita a ser seguida. Nada contra o Roupa Nova, mas o Pedra tinha outra mentalidade, diametralmente oposta, e esse choque divergente de posicionamento de trabalho, começou a azedar a relação entre Alex e os demais membros, fechados noutro ideal artístico. Adicionando-se com a reserva dele em não querer arriscar shows financeiramente deficitários num primeiro impulso, foi minando a relação e o convívio.

Dessa maneira, chegamos num ponto insustentável logo em fevereiro de 2006. O disco praticamente encerrado e a necessidade de tocar ao vivo estava premente, principalmente pela exposição de nossos clips e uma expectativa gerada no meio rocker, pois veteranos que éramos, gerávamos uma natural expectativa no meio. 

Então tivemos que tomar uma atitude dura, aliás duas. O primeiro ponto era que havia uma música composta pelo Alex, chamada "Pra Você", que incomodava-nos pela sua estética melódica, harmônica e sobretudo pelo teor da letra. Estava gravada e mixada, mas parecia não encaixar-se no disco, destoando do restante do trabalho. Não era uma música ruim todavia, e houve um esforço coletivo de arranjo no sentido de dar-lhe uma roupagem à altura das demais. 

Contudo, ela destoava do restante do trabalho de forma acentuada, e nem com maquiagem "prog", deixou de apresentar sinais antagônicos aos nossos propósitos. E de fato, essa tentativa de maquiagem prog ocorreu, com o Rodrigo colocando teclados "PinkFloydianos"; um ótimo solo do Xando, e a base harmônica caprichada com "timbrões" de guitarra. Eu usei o meu Rickenbacker, e com a chavinha de captação colocada na posição do meio, tirei um timbre legal remetendo ao "Genesis" de Michael Rutherford, e os backings vocals criados pelo Rodrigo, ficaram muito legais, meio na onda do "Queen". Mas mesmo assim, a canção ainda tinha um nítido ranço brega, pairando entre o Roupa Nova e duplas sertanejas. 

O Alex, apesar dos apelos insistentes do Xando e do Renato Carneiro, insistiu em gravar seu vocal solo com impostações e maneirismos desse tipo de artistas populares, o que certamente era um estranho no ninho no universo artístico do Pedra...
Após muitas ponderações, resolvemos ter uma conversa franca com o Alex, sobre a canção, e também sobre sua atuação na banda, principalmente na questão de só querer fazer shows com segurança financeira etc. Claro, era um assunto espinhoso e assim que comunicamos-lhe a decisão de conversar, ficou um clima pesado, e na conversa ocorrida pessoalmente, ficou um clima ainda mais tenso. Logo mais dou prosseguimento desse ponto da narrativa.

Continua...

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