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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 10 - Ponto Com / Compacto / Com Pacto - Por Luiz Domingues

Como já disse anteriormente, tínhamos muitas expectativas para 2003, mas sobretudo, a mais premente era a perspectiva concreta de lançarmos enfim um novo disco. Tal lançamento seria um importante passo para marcar a "Era Chonophágica" da banda, fincando de vez a bandeira desfraldada com o CD "Chronophagia", com todo o seu bojo de ideias; ideais & princípios. E agora, no início de 2003, tínhamos os meios financeiros para empreender tal ação e foi o que fizemos com contundência, visto que não tínhamos shows programados para os meses de janeiro e fevereiro, a não ser que surgissem convites inesperados.


Como o poeta / web designer Luiz "Barata" Cichetto estava viajando conosco como road manager, foi natural que ele adiantasse-se e tratasse da parte gráfica do disco; release; e começasse a reformular o site da banda, outrora criado pelo jovem Marcelo Dorota. Sobre a ilustração da capa, seria muito natural que procurássemos novamente o excepcional ilustrador / artista plástico, Johnny Adriani, que fizera a capa do CD Chronophagia.
E certamente que ele queria fazê-lo, mas como sempre, a verba era curta e não poderíamos fazer mais essa despesa, infelizmente. A solução para esse caso, foi recorrer a um arranjo quase gratuito que caíra em nossas mãos, de maneira fortuita. Explico : um vizinho do Rodrigo, era músico e desenhista, e conhecendo-o (Rodrigo), há anos, desde sua adolescência, sabia que ele era músico, e também o sendo (era um percussionista), ofereceu-se para fazer um logotipo para a nossa banda, sem compromisso. Seu nome era : Marcos Mündell. Como é sabido de todos, a Patrulha usava um logo lindo no final dos anos setenta e início dos oitenta, fazendo alusão ao seu nome que evocava uma nave espacial. Mas nos anos noventa, o Junior começou a usar um outro, estilizado com dragões e que tinha um ranço de Heavy-Metal, que eu particularmente detestava, apesar de achar a ilustração bonita e curiosamente, tratava-se de um trabalho do Johnny Adriani, portanto, tecnicamente falando, claro que era bem feito. Todavia, a insinuação "Heavy-Metal" incomodava-me, e lógico que considerava-a antagônica aos valores que a Era Chronophágica que a banda propunha. Portanto, o logotipo feito pelo Marcos Mündell, parecia ser uma solução boa para equacionar esse problema da ilustração principal.

Tratava-se de um escudo, um brasão melhor dizendo, prateado e muito bonito, dando aura aristocrática ao título da banda. Em seu núcleo, uma insinuação livre sobre o átomo, e na parte de cima, uma águia com asas abertas e pousada sobre o brasão. Embaixo, a ponta das garras da mesma ave. A águia em questão, era muito mais simpática que os "dragãozinhos metaleiros", disso não tinha dúvida e na minha ótica remetia muito mais ao shamanismo indígena, fazendo-me lembrar de bandas como o "Grand Funk Railroad"; "Redbone"; "Black Foot", e obviamente o "Eagles", pelo tema. Sobre as fotos, nossa amiga, a fotógrafa Ana Fuccia propôs uma sessão de estúdio com o uso de preto e branco e a banda numa atitude sóbria, vestindo roupas pretas. Todos gostaram e pensando no conceito da capa, fazia sentido, é claro, mas particularmente, mais uma vez isso chateava-me, pois era contrário aos ideais, mais coadunando-se com conceitos de bandas de Heavy-Metal oitentistas, naturalmente. Voto vencido, claro que não criei empecilhos e participei do processo todo, com profissionalismo, mas não gostando da opção, é claro.

A foto da contracapa ficou muito boa, pela qualidade da Ana Fuccia como fotógrafa, e o efeito de luz & sombra, mais contrastes inerentes que a opção pelo preto & branco sempre proporciona.
Mas o grande trunfo visual desse álbum, foi a sacada em lançá-lo num formato "retrô", aí sim fazendo jus aos ideais "Chronophágicos", eu diria.

Batizado como ".ComPacto", abriu caminho para que ao invés de lançá-lo numa capa de CD tradicional, a opção dele ser embalado numa capa de antigo compacto de vinil, ganhou força, quando cotamos os preços para tal empreitada, e verificamos que não era diferente do custo de um CD convencional. Sobre o nome do álbum, também acho uma sacada muito criativa, e também dentro da proposta do álbum anterior onde alardeamos o conceito do ato de alimentar-se do tempo, fazendo alusão de que éramos uma banda dos anos 2000, mas fortemente influenciada pela estética das décadas de sessenta e setenta do século anterior. Portanto, ao falar de "ponto Com" (.Com), aludíamos ao presente tecnológico, a força da internet cada dia mais presente na vida das pessoas, e por outro lado, a junção "Compacto", fazia a conexão com o passado que admirávamos e onde buscávamos a nossa inspiração artística. E havia uma terceira sutileza nesse título : "Com Pacto", entendido separadamente, denotava a questão do princípio assumido pela banda, como "pacto", literalmente falando.

Em suma, se faltou colorido na capa e na nossa foto (o P&B quase  colocou-nos numa posição lúgubre), todo o conceito estava salvaguardado no formato do invólucro do disco, mas sobretudo no seu título com três mensagens implícitas. Para fazer a capa na gráfica, deu um trabalho. Foi preciso elaborar uma "faca" (que é o jargão dos gráficos para designar um molde especial para fazer o recorte do papelão), e com a derrocada do vinil desde os anos 1980, já quase não achava-se uma gráfica disposta a fazer isso. Com pesquisa e uma perda de tempo inevitável, acabamos descobrindo que uma gráfica que ainda funcionava nas dependências da antiga sede da gravadora Continental, ainda em atividade, mas 99% focada em editar livros e revistas, naturalmente, além de folhinhas de calendário, cartões de visita etc.

Foram muitas visitas ao estabelecimento e que chegava a ser meio melancólico porque ali era um prédio enorme e que décadas atrás tinha uma atividade alucinante, e agora parecia um edifício abandonado, com poucos setores ainda conservados e a gráfica funcionando num galpão muito velho e decadente. Enfim, o importante foi que conseguimos o nosso intento e eu acho que foi uma boa conquista pelo efeito que causou entre fãs e jornalistas, embora tenhamos tido problemas com muitos lojistas que reclamaram do formato da capa, pois não tinham mais prateleiras adequadas para discos de vinil, ainda mais compactos.

Sobre o encarte, o Luiz "Barata" Cichetto cuidou de toda a parte de lay-out e o texto foi do Junior. Esse foi um dos raros discos da minha vida onde contribui muito pouco ou nada com a parte de texto do encarte. O disco foi prensado normalmente em fábrica de CD, mas foi-nos entregue em pino, já que contratamos o serviço sem parte gráfica. A ideia da capa não usual, fez com que, por incrível que pareça, economizássemos, visto que a despesa pela capa estilizada ficou mais barata do que a capa tradicional vendida em pacote por indústrias que prensam CD's e oferecem o serviço "casado".

Sobre o encarte, tínhamos a frustração de não ter disponibilizado as letras das canções no disco anterior e agora queríamos corrigir isso.
Mas com verba ainda menor, o encarte ficara proporcionalmente simples, em preto e branco, apenas com texto e uma ilustração (bonita por sinal), de um antigo disco de vinil, trazendo uma bonita alusão ao passado.

Então, a solução foi produzir um encarte muito simples, em xerox mesmo e bancado por um patrocinador pontual que arrumamos a posteriori, já com a capa e o disco em mãos. Esse processo todo foi longo, consumiu-nos cerca de cinquenta dias, portanto, janeiro e fevereiro de 2003 foram gastos com essa produção e também com a produção do show de lançamento, mas aí é uma história que vou pormenorizar a seguir.


Sobre o disco em si, em termos de músicas, algumas considerações a seguir : bem, como já foi amplamente comentado, esse disco teve uma produção sofrida. A limitação financeira de uma banda independente, e sem nenhum apoio externo, a não ser patrocínios de pequena monta, era uma razão óbvia que atravancava-nos, mas houve outro componente, também. O fato, é que no ano de 2002, tivemos um ano de agenda cheia, e foram poucos os espaços que tivemos para atermo-nos à produção do álbum.

Ao mesmo tempo que a agenda cheia significava que estávamos faturando, por outro, a despesa adquirida pela aquisição do ônibus, e sua manutenção que era muito cara, fazia com que verbas que seriam gastas na produção do disco, fossem parar nas mãos de oficinas mecânicas; lojas de autopeças; borracheiros; aluguel de garagem, e nos postos de combustíveis.

Portanto, gravamos as bases inicialmente em junho de 2001, fechamos vocais e complementos de overdubs entre julho e agosto do mesmo ano, mas só conseguimos mixá-lo um ano depois. E só no início de 2003, reunimos recursos e apoio no tocante ao lay-out de capa e encarte, mais despesas de gráfica; fábrica de prensagem dos CD's e sessão de fotos. Sobre as músicas do disco, muitas delas já tocávamos regularmente nos shows. "São Paulo City", por exemplo, já tocávamos desde 2000, inserindo-a imediatamente ao repertório, assim que Rodrigo e Marcello compuseram-na, e nós estabelecemos um arranjo definitivo. "Terra de Minerais" e "Homem Carbono", já estavam sendo executadas ao vivo no início de 2001, antes mesmo de serem gravadas.

Sobre o estúdio onde a gravamos, creio já ter contado tudo sobre sua precariedade. Se saímos dali com 7 músicas gravadas, devemos isso ao esforço sobre-humano do técnico Kôlla Galdez, que por nossa sorte era funcionário contratado ali, e era um Rocker de carteirinha e fã da Patrulha. Ele esforçou-se para fazer aquele estúdio pessimamente cuidado (com falhas de manutenção terríveis, fora o aspecto de ser antiquado, no mau sentido da palavra, pois se em ordem, seria "chic" gravar em condições analógicas da velha guarda), dar-nos subsídios para gravar. Mas uma coisa era o Lenny Kravitz gravar com equipamentos jurássicos e propositalmente assim, mas em Nova York, com tudo tinindo; tendo manutenção exemplar, e outra situação muito diferente, era num equipamento vintage, porém tudo em péssimo estado de conservação.

Kôlla foi um herói nesse aspecto, e se o disco não soa bem, saibam que sem a presença dele e sua resiliência inacreditável para lidar com aquela situação, nem o teríamos. Nas mãos de outro técnico qualquer que ali trabalhava e costumava gravar discos de aspirantes a artista brega e / ou "disco de dentistas", não teríamos coragem de lançá-lo nem como bootleg de rough mix. Sobre o outro estúdio onde finalizamos a mixagem e a masterização, era bem mais moderno e aprumado, mas além do tempo escasso que tivemos, e pelo fato do técnico (Alan Garcia), não entender direito a nossa proposta (por ser um técnico acostumado a gravar bandas Gospel de sonoridade Pop, baseadas em R'n'B americano e "modernoso"), nem que ele fosse um Rocker, conseguiria fazer um milagre, com a captura tão cheia de problemas. Cogitamos levar o Kôlla para operar mixagem e masterização, mas além de ser um gasto a mais que não poderíamos arcar, o próprio Kôlla alertara-nos que ainda não estava ambientado com as mudanças tecnológicas, e o mundo das gravações com áudio digital, ele não dominava ainda.

      Kôlla Galdez, técnico de qualidade, e muito gente boa !!

Uma pena, pois sem demérito ao Alan que atendeu-nos com profissionalismo, acho que o Kôlla teria atendido-nos melhor, pela sincronia óbvia de ideias que tínhamos, e pela carga emocional, pois ele gostava muito do trabalho e orgulhava-se de ter feito a captura, e com toda a razão tinha esse apreço ao trabalho. No encarte, o Junior citou os dois técnicos, logicamente, mas omitiu os nomes dos dois estúdios, preferindo acrescentar a brincadeira de o termos gravado e mixado "em algum lugar da Guatemala". E pior que teve gente que levou a sério, e veio perguntar-nos porque havíamos gravado num país da América Central, se morávamos em São Paulo, com inúmeros estúdios profissionais... ha ha ha...
Sobre as canções, acrescento :




1) São Paulo City (Marcello Schevano - Rodrigo Hid)

Essa música tinha muito a feição de bandas de Blues Rock peso-pesado como o "West; Bruce & Laing"; "Blue Cheer"; "Mountain"; "Grand Funk Railroad" etc.


"São Paulo City", num Vídeo Clip produzido pelo produtor musical / agitador cultural, radicado em Londres, Antonio Celso Barbieri, em novembro de 2014, mostrando imagens aéreas da "selva de pedra" paulistana, ao som da nossa música. 


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=MqmVDi3sQM0


Costumava causar frisson nos shows da banda, por seus muitos atrativos, entre os quais, o Riff inicial; o refrão cantado com três vozes e sob uma melodia dramática; os solos dobrados muito "ganchudos"; e as viradas da bateria, bastante ousadas e pesadas.
Gravei com o baixo Fender Precision, e apesar de todas as dificuldades dessa gravação, o timbre é bastante interessante, e ouso dizer, melhor que o som que tirei, ou melhor, "tiraram" à minha revelia, ao obrigarem-me a gravar "flat" no álbum "Chronophagia". Gosto muito das intervenções de contra-solos de ambos, Rodrigo e Marcello, muito inspirados, principalmente em bicordes fazendo bendings com graves "gordos" e muito no estilo do grande Leslie West. A letra escrita pelo Marcello é clara a meu ver, mas muita gente considera-a uma demonstração de amor & ódio à nossa cidade de São Paulo, porém em minha ótica, é uma crítica explícita a quem fala mal dela, levando-se em conta que o stress urbano gerado não é culpa da cidade, mas do interior neurastênico das próprias pessoas. E nesse raciocínio, mesmo quando saem de férias, levam o stress para fora, junto com elas...

"Pra que sair daqui,

Se quem sai agora,

Leva pra longe,

O stress das seis horas"...



2) Louco um Pouco Zen (Marcello Schevano - Luiz Domingues - Rolando Castello Junior)

Ouça acima o áudio oficial da canção "Louco um Pouco Zen".

Eis o link para ouvir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=stLbB3N6pWs&feature=youtu.be
 
Eu criei o riff inicial, que é puro acid-rock sessentista, Hendrixiano, muito no espírito do LP "Cry of Love". A parte "B", trazendo um elemento soul, contribuição excelente do Marcello à composição, proporcionou-me a possibilidade de fazer uma linha swingada à canção, da qual gosto muito. As viradas do Junior são impressionantes. Não era a toa que nos shows arrancavam urros de euforia de Rockers ao verem uma técnica refinada de um baterista a moda antiga (quando saber tocar era requisito básico para formar-se uma banda de Rock, ora bolas..."faça você mesmo", mas só se puder fazer bem feito, malditos energúmenos !!), e com nível técnico de grandes ícones do Rock sessenta / setentista internacional. Após o solo, um interlúdio totalmente funkeado é sensacional, e remete claramente ao "Trapeze", e ao "Deep Purple" / fase Mark IV. É rápido e rasteiro, mas brilha intensamente a meu ver. Usei também o Fender Precision, e acho que consegui imprimir uma aura de acid-Rock, inspirando-me em Noel Redding e Billy Cox, os baixistas que tocaram nos discos do Jimi Hendrix,  e que tiravam esse som de Fender Precision, in natura. A letra é do Marcello, mas o Junior deu contribuições importantes. Fala a rigor, sobre uma visão libertadora, anti establishment.

3) Sendas Astrais (Marcello Schevano - Rodrigo Hid - Luiz Domingues)

Acima, ouça o áudio oficial da canção "Sendas Astrais".

Eis o link para escutar no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=W1YOaD3I_WI

Aqui, uma canção com forte apelo psicodélico sessentista, mas também trazendo elementos Hard e Prog Rock setentistas. Essa ideia inicial nasceu com um riff  bem sessentista, e a parte "A" da canção tem essa deliciosa aura "Flower Power". Gosto muito do desenho da guitarra do Marcello, evocando Roger McGuinn e George Harrison em doses cavalares, enquanto o Rodrigo faz a harmonia etérea no órgão Hammond. Minha linha de baixo privilegia a psicodelia nessa parte, inspirando-me em mestres como Lee Dorman ("Iron Butterfly"); Phil Lesh ("Grateful Dead"), e Jack Casady ("Jefferson Airplane"), mas com um diferencial a esses baixistas americanos sessentistas, pois optei pelo uso do Rickenbacker, e o timbre agudo e encorpado denuncia Roger Waters dos primórdios do "Pink Floyd", fase Syd Barrett e claro, Chris Squire...
Tanto que a minha linha na parte "B", por falar em Chris Squire, tem um trecho inicial executado em tercinas, que é bastante inspirado em "Close to the Edge", do "Yes". E na continuidade, o elemento Hard faz-se presente, a ali "baixa" o Jimmy Bain (Rainbow), em minha execução...
O Marcelo imprime um desenho de contra solo que é muito Steve Howe, e que eu gosto muito. Também adoro os backing vocals cantados em efeito de "derretimento" ("A Meta Finaaaal"...).
Quando chega o solo de Mini Moog, usando a parte "A", um vocal que eu criei, usa o efeito do contraponto, e tem muita inspiração no Tutti-Frutti dos seus anos de ouro com Rita Lee em suas fileiras.
A parte "C", descamba para o Hard Rock setentista com pitadas Prog, e é puro "Uriah Heep". Os vocais em trio, fazendo uma melodia toda desenhada; solos de moog, desdobrada para o Slide do Marcelo brilhar intensamente (dá-lhe Ken Hensley !!), e o som do Hammond cortando com a Leslie a todo vapor... enfim se cantado em inglês, algum desavisado poderia achar que tratava-se de uma música outtake do LP "Demons and Wizards", do "Uriah Heep"...
Sobre a letra, criação do Rodrigo, é toda etérea, falando sobre  "Cosmos; Prana; Flor de Lotus; Persona"... é bem astral de espiritualidade e eu gosto muito. Está bem, muitos podem torcer o nariz, acusando-a de não ser uma letra "comercial", mas não é mesmo... é arte... e que dane-se o comércio ! Acenda um incenso e relaxe...

4) Homem Carbono (Rodrigo Hid - Marcello Schevano - Luiz Domingues - Rolando Castello Junior)

Essa canção surgiu fruto de uma jam session, onde todos contribuíram com ideias, mas o maior crédito tem que ser dado ao Rodrigo, que burilou a melodia, escreveu a letra e concebeu a parte "A".

Vídeo Clip de "Homem Carbono" produzido em 2003, por uma turma de estudantes de cinema. Detalhes sobre essa produção, eu conto na sequência da cronologia dos fatos, em breve.


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=lkUhtnHq1gg


Rock vigoroso, tem uma condução muito forte na parte "A", e mesmo tendo a base do piano como carro chefe, é um riff e tanto, parecendo criação de guitarra. Gosto muito da introdução em 6/8, também. A parte "B" que foi minha contribuição em seu primeiro trecho, lembra-me o "The Who", fase "Who's Next".
Junior brilha como sempre em suas viradas impossíveis, e condução muito vigorosa, com uma pegada incrível. Piano Honky Tonk muito energético levado pelo Rodrigo e sua interpretação vocal é fortíssima, tanto que essa música era muito saudada nos shows.
Gravei com Fender Precision e apreciei muito o timbre que remeteu-me ao baixo de Mel Schacher, mas sem tanta distorção como nos primeiros discos do Grand Funk, porém mais próximo da fase mais soul dessa banda maravilhosa. A letra do Rodrigo é uma das melhores desse disco, em minha opinião, senão a melhor. É também anti establishment, mas com a angústia do homem massacrado pela falta de identidade própria, buscando então sua individualidade roubada pelo sistema.

"Não abaixe a cabeça,

Um dia você vai ver,

Um mendigo, um autista,

Ou quem sabe um artista exorcista"... 


Ainda nesse ano de 2003, uma oportunidade surgiria para filmarmos um vídeo clip com essa música, mas isso eu conto mais para frente na cronologia, como já mencionei acima.

5) Nem Tudo é Razão (Rodrigo Hid)

Essa é a música mais amena do álbum, uma típica canção "Beatle", balada de delicioso sabor "sixties".

"Nem Tudo é Razão", postado no You Tube por um fã da banda


O Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=q0RfoYVv5HA


Canção levada em staccato no piano, trazendo elementos trintistas, lembra também o "Queen" em muitos aspectos, pelo fato dessa banda setentista igualmente recorrer ao cancioneiro europeu trintista como inspiração, assim como os Beatles costumavam fazer ("The Kinks"; "Small Faces"; "Family", e tantas outras bandas britânicas, também usaram dessa influência). Rodrigo a compôs sozinho no piano em sua casa, e trouxe-nos pronta, portanto, nossa contribuição foi nos arranjos, mas o grande mérito de sua beleza incrível é dele, sem dúvida. Gosto muito da harmonia; melodia lindíssima, da junção de partes e de um refrão sensacional que ele concebeu. Os solos do Marcello são belíssimos, tanto no meio quanto na intervenção final que fecha a canção, e ambos, são muito inspirados no estilo melodioso de Brian May, guitarrista do "Queen". Minha contribuição no arranjo, além da minha linha de baixo, foi a criação dos Backing Vocals, e são exagerados mesmo, cheios de "la la las" e "uh uh uhs", desenhando longos espaços abaixo da voz principal do Rodrigo, e muito assemelham-se aos vocais do "Queen" em seus primeiros discos. Apesar de estarem prejudicados pela produção precária do áudio desse disco, no fone de ouvido e prestando atenção só neles, são notados. Adoro a intervenção do órgão Hammond junto ao piano... e viva Billy Preston !!
Usei Fender Jazz Bass, buscando o máximo do som grave e aveludado desse instrumento para ornar corretamente com o espírito da canção. A letra que Rodrigo criou é muito poética. É Paul McCartney ao extremo, mas também tem seu "quê" de "Clube da Esquina".

"Três e vinte da manhã 

Eu pensando em oferecer 

Minha alma ao luar

Me desejo ao seu olhar"


6) Terra de Minerais (Marcello Schevano)

Quando o Marcello mostrou-nos o esboço dessa música que havia composto ao piano, logo vimos que seria a nova peça progressiva que seguiria o destino de "Sendo o Tudo e o Nada", do disco anterior, "Chronophagia".

"Terra de Minerais postada no You Tube por um fã da banda


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=t0MUjpKg6Zw

Uma típica suíte Prog Rock, trazendo várias partes com climas diversos, tinha que ter um arranjo a altura para explorar bem suas múltiplas possibilidades sonoras. A parte "A", lembra-me bastante o "Focus" da fase "Moving Waves" / "Hamburguer Concerto".
Um piano swingado e com harmonia "sus", abriu brecha para um baixo vigoroso numa frase construída em looping, com um certo sabor Soul Music. Nesse trecho, inspirei-me bastante no som do Bert Ruiter, do "Focus". A guitarra do Rodrigo trabalha uma frase melódica que costura toda essa base feita por Marcello; eu, e Junior. É melódica de certa forma, mas recorre em alguns momentos à dissonância de Robert Fripp, e eu aprecio esse efeito que ele criou. Tem um vocal de nós três, mas só entoado, sem letra. Lembra muito o estilo do "Focus", mas também tem influência do "Terço". Na parte "B", uma desdobrada no ritmo dá margem a um interlúdio muito "Pink Floyd". Rodrigo passeia no slide, e é como se estivéssemos nas ruínas de Pompeia, tocando "Echoes".
Pouca gente nota, mas logo no início da desdobrada, tem uma intervenção delicada e sensacional do Marcello a flauta. Ele faz uma melodia muito linda, que é puro "Genesis", muito rápida, e o suficiente para Peter Gabriel sair de cena e trocar de fantasia...
Finalmente a parte cantada chega, e Rodrigo e Marcello cantam um trecho cada um. Uma parte "C", que lembra a glória do "The Who", faz Marcelo iniciar um fraseado em looping de difícil execução, e Rodrigo brilha muito com um solo espetacular na guitarra. Volta-se à parte "A" para o encerramento, com os vocais entoados e uma convenção de precisão a conferir-lhe um final apoteótico, e que ao vivo, arrancava gritos da plateia. Essa canção chamava-se "Aclimação" logo que o Marcello a compôs, e isso porque fazia alusão a uma série de ruas desse bairro da zona sul de São Paulo, que apresentam nomes de pedras preciosas ("Safira"; "Topázio"; "Rubi"; "Esmeralda"...). Também tem menção de ruas com nomes de planetas que existem no bairro ("Saturno" e "Urano"). Era uma espécie de homenagem ao bairro, pelo fato de eu; Junior e Rodrigo morarmos ali nessa época, e o Marcello num bairro vizinho, a Chácara Klabin. Mas resolvemos não personaliza-lo tanto assim, e dessa forma o rebatizamos de "Terra de Minerais".

Luiz Domingues em 2001, gravando esse álbum, ".ComPacto", com o Fender Precision na mão. Click de Samuel Wagner

Usei Fender Precision, e além do Bert Ruiter já citado, minha inspiração foi no som clássico do Roger Waters no "Pink Floyd", quando este adotou o Fender Precision como padrão nos discos, e ao vivo com essa banda. Logicamente que eu fui buscar essa sonoridade "Meddle/"The Dark Side of the Moon"/"Wish Were You Here"...

7) Tooginger (Rolando Castello Junior)

Como fizera no álbum anterior, aproveitando a estada no estúdio, o Junior pediu ao técnico para apertar "Play e Rec" na máquina, e gravou um solo de improviso. Depois deu tratamento com algum efeito de paramétrico na mixagem, logicamente. Neste caso, sua criação começa com "fade in", e encerra-se no "fade out". O nome da peça em questão é uma brincadeira, mas em tom de homenagem ao mestre Ginger Baker, baterista icônico dos anos 1960 / 1970 ("Graham Bond Organization"; "Cream"; "Blind Faith"; "Ginger Baker Airforce"; "Baker Gurvitz Army"...). 


Ouço esse disco hoje em dia com esse apanhado de ótimas canções; ótimos arranjos e a performance de uma banda tão azeitada, e só lamento que não tenhamos tido condições de gravá-lo em melhores parâmetros técnicos. Num estúdio top do Brasil mesmo, já teríamos tido um resultado "matador", mas numa análise bem realista, ele merecia ter sido gravado num estúdio de primeiro mundo da Europa ou Estados Unidos.

Paciência, não foi assim que aconteceu, e só cabe-nos relevar as dificuldades com as quais o concebemos tecnicamente, e exaltar seu alto padrão artístico.

Recuo à minha infância, e lembro-me de meu avô materno ouvindo velhos discos de 78 rotações de óperas; sinfonias & concertos eruditos, e infelizmente naquela tecnologia tosca, com os chiados inevitáveis obscurecendo a música. Quando perguntava-lhe se aquilo não incomodava-o, ele respondia-me :  -" só ouço a música, nem percebo o chiado"...
Essa sábia lição adquirida de meu querido "vô" Edson, serviu-me agora para pensar no ".ComPacto" da mesma forma : só ouço a música...

Como já disse anteriormente, no início de 2003, tivemos um hiato de shows. Isso porque para engatilhar uma turnê, custava ao Junior, tempo para planejá-la e quando a banda ia para a estrada, o seu lado "empresário" parava de funcionar nessa dedicação e aí, para manter uma sequência, só dedicando-se novamente no escritório.
Definitivamente, precisávamos de um empresário cuidando do negócio, mas nunca tivemos essa ajuda profissional externa.

Mas se tínhamos essa dificuldade gerencial que causava-nos incômodo, por outro lado, a parada específica desse período teve seu lado bom. Isso porque foi providencial para podermos dedicar-nos a finalização da parte gráfica do novo disco, e em atividades paralelas, tais como a preparação do material de divulgação para a imprensa. Foram muitas visitas a residência do Luiz "Barata" Cichetto, que na época morava no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Toda a parte de texto do encarte foi concebida ali no seu computador, e nesse tempo, ele já havia assumido-se como web designer da banda, substituindo o garoto Marcelo Dorota, que em fase difícil de vestibular, já não podia dedicar-se a nossa banda, como gostaria em seu entusiasmo sincero, e do qual o agradecemos eternamente.

Nota na revista Rock Brigade, dando conta que Xando Zupo preparava seu álbum solo, e que teria muitos convidados, incluso a Patrulha do Espaço inteira

E outro fator também ocupou-nos e foi muito bom artisticamente falando, fora o prazer que gerou. O guitarrista Xando Zupo, ex-Harppia e também com passagem rápida pela Patrulha do Espaço, estava produzindo um disco solo e convidou a Patrulha do Espaço inteira para gravar duas faixas de seu disco. O convite havia sido feito ainda nos últimos dias de 2012, mas tudo concretizou-se mesmo no início de 2013. Sua proposta era a de gravar uma música inédita e autoral e outra faixa seria uma releitura de uma música da "James Gang", uma banda norteamericana sessenta / setentista, da qual todos gostávamos. Sendo assim, fizemos alguns ensaios em janeiro de 2003, e efetuamos gravações entre fevereiro e março, finalizando tal material. Gravamos "Must Be Love" da James Gang (está no LP "Bang", de 1974, dessa grande banda americana), e a autoral chama-se "Livre como Você". 

Essa história ficou tão rica em detalhes que eu acho que mereceu ganhar um capítulo especial e destacado, portanto, apesar de envolver a Patrulha inteira, está contada no Capitulo dos "Trabalhos Avulsos". Aqui, contei de forma reduzida, mas para saber de mais detalhes dessa gravação e lançamento, procure :

"Trabalhos Avulsos, Capítulo 76 (Patrulha do Espaço + Xando Zupo = álbum Z-Sides, guardado no arquivo em agosto de 2013, no meu Blog 2.

 http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com.br/search?q=Trabalhos+Avulsos+Z-Sides

Ou neste Blog 3, o capítulo "Trabalhos Avulsos", Capítulo 28 (Patrulha do Espaço + Xando Zupo = Z-Sides, quase um prenúncio) :

http://luizdomingues3.blogspot.com.br/2015/03/trabalhos-avulsos-capitulo-28-patrulha.html

Eis abaixo o álbum Z-Sides na íntegra. "Livre como Você" é a primeira faixa e "Must Be Love" é a 9ª faixa


 
Eis o Link para ouvir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=hUCVU5xtf9o
  
Já adentrando o mês março, algumas atividades de divulgação do novo disco e seu show de lançamento, ocuparam-nos, além de um show no interior, isolado, numa casa noturna, mas que comento mais adiante. Sobre tais atividades, foram as seguintes...

Em 16 de março de 2003, tínhamos agendado uma entrevista / show ao vivo no estúdio da emissora Kiss FM. O programa "Made in Brazil" era um verdadeiro oásis numa programação que não dava brecha alguma aos artistas nacionais, pois tal emissora privilegiava o Rock internacional, de uma forma retumbante, não dando chances aos artistas pátrios. Se por um lado, a programação da emissora era bacana por focar no Rock das décadas passadas, assumindo-se como uma emissora de "Classic Rock", por outro, causava-nos espécie (e ainda causa-nos), que a referida estação não prestigiasse artistas nacionais autorais, mas pelo contrário, abrisse suas portas para divulgar e incentivar bandas cover !!
A justificativa de seus mandatários, era que bandas cover praticantes de "Classic Rock" no circuito de casas noturnas da cidade de São Paulo, tocavam o repertório base que a emissora propunha-se a executar, portanto, havia uma "parceria" de ideias e ideais, no sentido de manter-se viva a chama do Rock 1950 / 1960 / 1970 / 1980, sua base mais usual de atuação.

Ora, tal justificativa era tão "sólida" quanto um castelo de areia na praia, e era (é) inacreditável que tivessem essa mentalidade engessada e pior ainda, abrindo suas portas e estendendo tapetes vermelhos para músicos que nada criam, mas que propõe-se a viver canibalizando a criação alheia. Respeito quem vive disso, pois entendo que não é fácil, para não dizer impossível, viver de música no Brasil. Para colocar comida na mesa; pagar a conta da luz e ter um teto decente, é imprescindível que ganhe-se dinheiro e com o show business dominado por uma máfia ultra fechada, a quantidade de bons músicos que ficam relegados ao limbo é enorme e claro que numa situação extrema de luta pela sobrevivência, submetem-se ao sacrifício de exercerem a música profissionalmente, mas apenas como reprodutores da criação de artistas consagrados.




Isso eu entendo e respeito como forma de sobrevivência digna.
Mas muito diferente é uma emissora de rádio dar espaço para bandas com tal proposta, pois se tem concessão do governo para agir como difusor cultural, a função de executar o trabalho artístico já cumpre-se, portanto, incentivar "jukebox humana", é sem cabimento. E o outro lado dessa medalha, ao não dar espaço para artistas autorais vivos, um atentado à cultura, portanto, um contrassenso para quem tem licença oficial para difundir cultura.
Outro argumento que usavam (usam), é que tais bandas com esse tipo de proposta são "parceiras", pois tratam de manter a chama do "Classic Rock" acesa em suas apresentações e isso instiga seu público a procurar a emissora no cotidiano, dando-lhes audiência. Ou seja, fomentam seu modus operandi a manter um moto perpetuo fechado nesse ciclo, daí o interesse. Ao sonegar espaço para artistas autorais, matam a possibilidade de haver uma cena viva, como se desejassem que o tempo parasse e ficássemos eternamente vivendo em 1972.

Ora, ao leitor que possa enxergar-me contraditório nessa afirmação, esclareço que adoro essa época e estética, mas não desejo viver congelada nela. Tanto que a proposta do Sidharta e que a Patrulha cooptou, era a do conceito "Chronofágico" de viver o presente, usufruindo do frescor imediato da época contemporânea, mas sem apagar o passado, mesclando-o como influência, não "voltando" para ele.

Sendo assim, achava (acho), absurda a proposta da Kiss FM, que em detrimento de tocar 70 ou 80 % de material que eu gosto e influencia-me fartamente, não tenho a mínima vontade de sintonizá-la, pois irrita-me ver que bandas excelentes que estão vivas e atuantes na cena do underground, jamais tocaram ou tocarão nessa emissora, mas bandas cover que nada criam, são ovacionadas por seus locutores. Nesse contexto, entre 2002 e 2003, um locutor que ali trabalhava começou a querer equilibrar essa questão. Chamava-se Marcelo, e era conhecido no meio radiofônico, como "Morcegão".


"Morcegão" é o primeiro, da esquerda para a direita, posando ao lado de colegas da Kiss FM em produções de campo que costumavam fazer, também. Foto de seu acervo, que achei em seu site pessoal

Comunicativo ao extremo, como todo bom locutor de FM, Morcegão tinha seus fãs e seguidores, e com a força popular adquirida, engatou um programa para quebrar esse paradigma da emissora, e criou então esse pequeno oásis ali dentro, chamado "Made in Brazil". Sua proposta era manter sim o padrão de Classic Rock que norteava a emissora, mas trazendo artistas brasucas, e se possível, que estivessem vivos, criando, atuando e sobrevivendo com sua criação autoral. Era o nosso caso, e com a agravante de que vivíamos o sonho do resgate total das raízes da nossa própria banda, conforme já salientei amplamente desde o capítulo número 1, da história da minha fase com a Patrulha do Espaço. Portanto, com disco novo sendo lançado e show de lançamento a vista, o "Morcegão" agendou-nos para tocarmos ao vivo e concedermos uma entrevista, na manhã de um domingo, 16 de março de 2003.


Muito bem recebidos pelo "Morcegão", demos o nosso recado com ampla divulgação do disco novo saindo do forno, e o show de lançamento que aconteceria em duas semanas. E a parte ao vivo, foi muito legal, com uma estrutura razoável de sonoridade dentro do estúdio envidraçado para bandas tocarem ao vivo, e com ampla e linda visão da esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta.
Era um domingo nublado, havia chovido levemente no início da manhã, e as ruas estavam úmidas, com poucas pessoas caminhando.

O retorno do áudio dentro do estúdio não era dos melhores, mas isso não impediu-nos de tocarmos com naturalidade e energia.
O locutor "Morcegão", em foto de seu acervo, extraída de seu site pessoal

Não era para ser assim, mas o Morcegão acabou convencendo os mandatários da emissora a liberar a entrada de algumas pessoas e assim, um grupo de fãs da Patrulha apareceu, tendo garantido ingresso mediante procura por telefone. Não foi cobrado nenhum valor, mas limitaram o número de pessoas permitidas, certamente querendo evitar um tumulto nas dependências da emissora.

Então, 10 pessoas entraram e valeram por 100, pois estavam tão entusiasmadas que acabaram contagiando-nos positivamente, visto que até entrarem com sua adrenalina a mil por hora, nós estávamos modorrentos, em virtude do horário insalubre sempre para Rockers notívagos como nós...

Existe uma filmagem em Mini-VHS desse compromisso, contendo um pouco de bastidores e também trechos da banda fazendo soundcheck e atuando ao vivo, a seguir. Tal material já foi digitalizado, e a qualquer momento vai ser postado no You Tube e claro, entra nesta parte da autobiografia. Um acontecimento fortuito ocorreu ali nessa entrevista / show ao vivo. Entre as dez pessoas que assistiram nossa performance, uma garota abordou-nos alegando ser estudante do curso de Rádio e TV da Universidade São Judas Tadeu, uma instituição de ensino muito famosa do bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. Falando sobre um programa no qual ela estava na produção junto com outros colegas do curso,  convidou-nos a participar, dizendo-nos que seria uma honra ter nossa presença e que mesmo sendo uma produção simples e veiculada num canal obscuro e de pouca visibilidade, no caso o Canal Universitário, um desses canais obrigatórios que a TV a cabo coloca na sua grade por questão de contrato com a concessão do governo, mas sabe-se que tem audiência quase zero.

OK, sem preconceito, sabedores que na mídia mainstream nós não não tínhamos nenhuma chance a não ser reportagens sazonais em jornalismo ou em alguma produção na TV Cultura, não tínhamos porque rejeitar a aparição, não só por não desperdiçarmos oportunidades, mas também por sermos solidários com quem a grosso modo, também era "outsider" como nós. O único problema nessa história, seria que queriam a nossa presença no estúdio / escola da Universidade, as 6:00 horas da manhã de um dia útil e aí, já viu, não é ? Um sacrifício e tanto para cumprir uma logística maluca que obrigou-nos a madrugar. Para amenizar, disse-nos que tocaríamos ao vivo, mas não daria para ser com a nossa volúpia sonora habitual, e se não importávamo-nos em fazer algo mais leve, semi acústico ao menos. Bem, não era a primeira vez que aparecia-nos uma oportunidade, mas com tal particularidade de ser algo fora de nosso padrão. Nesse caso, até gostamos, porque seria um transtorno levar o backline, e fazer soundcheck num horário absurdo desses.

Chegamos no estacionamento da Universidade um pouco antes das seis horas da manhã, com pouco equipamento e isso foi um alento e tanto. Arrumamos tudo com relativa rapidez e fizemos um soundcheck simples. No estúdio, o P.A. disponibilizado era de pequeno porte, adequado para sonorizar uma apresentação comedida, em um ambiente pequeno, como um bar de tímida proporção. Acertado o som, sabíamos que não teríamos um áudio maravilhoso ali, mas dava para tocar.

O jornalista esportivo e professor de jornalismo naquela universidade, Flávio Prado

Fomos convidados a deixar o estúdio, aguardando no corredor, para não tumultuar etc etc. Nesse momento, vi andando pelo corredor o jornalista Flávio Prado, que é um comentarista esportivo bastante famoso em São Paulo e que é também professor de jornalismo; rádio & TV naquela universidade. Não resisti e abordei-o, falando sobre futebol, assunto que tenho vívido interesse desde a infância, e ele foi bastante simpático naquela conversa rápida de corredor. Claro, vendo meu visual com cabelo pela cintura, logo deduziu que eu apresentar-me-ia no programa de seus pupilos e trocando com ele, rápidas informações sobre a nossa banda, despediu-se alegando estar indo para a sua primeira aula.

                 A banda maranhense de reggae, "Tribo de Jah" 

Outra ocorrência curiosa deu-se quando vimos que outra banda gravaria antes de nós e nas mesmas circunstâncias, fazendo algo semi acústico. Era a "Tribo de Jah", uma banda que tem um bom reconhecimento artístico no meio, principalmente no mundo do "Reggae", nicho onde desenvolvem sua carreira. Era uma boa banda dentro desse segmento e tinha uma particularidade : era formada por músicos cegos, e só o vocalista tinha visão normal.
E justamente com ele, o vocalista, Fauzi Beydoun, um sujeito simpático e cordial, tivemos uma conversa e confraternizamo-nos antes do início das gravações. Ele sabia quem éramos e disse-nos ser apreciador de Rock também, e que gostava do "Free"; "Bad Company", "Led Zeppelin" e que seu cantor predileto era o David Coverdale.

                     Fauzi Beydoun, vocalista da "Tribo de Jah"

Quando chamaram-nos para gravar, já eram quase dez da manhã e fizemos a nossa aparição de forma tranquila, tocando algumas músicas que já estávamos acostumados a executar em arranjo alternativo, semi acústico. A pauta dos estudantes era fraca, com perguntas muito básicas, denotando terem sido preguiçosos em investigar a nossa carreira, mas apesar do nosso humor não estar o melhor diante daquele horário insalubre, isso não desestabilizou-nos e a condução do programa transcorreu de forma tranquila.
Infelizmente e essas coisas são inexplicáveis, no dia em que disseram-nos que ia ao ar, lá estava eu com o controle remoto do meu VCR a postos para dar "Play e Rec", mas o programa passou com outra atração que não éramos nós e na semana seguinte o mesmo ocorreu. Ligamos para a garota da produção e constrangida, não sabia como justificar a nossa ausência e ficou de dar-nos retorno com a data certa ou uma explicação, mas estamos aguardando isso até os dias atuais, 2016...
Muito pouco provável que alguém tenha preservado uma cópia, mas quem sabe um dia alguém posta isso no You Tube, e surpreende-nos ?? Outras ações de mídia tivemos antes do show de lançamento do novo álbum.

 
Outro compromisso de divulgação que cumprimos, foi uma oportunidade bacana que um amigo do Rodrigo, ex-colega da Faculdade Cásper Líbero (Thiago Gardinali), ofereceu-lhe. Tal colega dele inseriu-nos na pauta de uma revista cultural radiofônica bem bacana, e claro que aceitamos. E era algo não usual para uma banda outsider como a nossa, pois tratava-se de uma entrevista numa estação de AM mega popular, e em rede nacional...
Tratava-se de um programa noturno em horário nobre, na Jovem Pan AM, uma emissora de porte gigante no radialismo brasileiro.
Não anotei a data exata, mas foi certamente em março, poucos dias antes do show de lançamento do disco novo. Chegamos na emissora, em sua localização clássica, na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, e logo no elevador que conduziu-nos da garagem ao andar do estúdio que visitaríamos, encontramos com Dudu Araújo, filho do casal Silvinha e Eduardo Araújo, também guitarrista e que também visitara a emissora para conceder entrevista, antes de nós, e naquele momento já estava de saída. Chegamos ao andar e fomos muito bem recebidos pela produção. Tivemos o prazer de ver um locutor da programação usual ainda fazendo uma locução ao vivo, fornecendo dados clássicos do radialismo, como a hora certa e as condições climáticas de São Paulo e outras capitais. Tremendo de um vozeirão, o elogiamos pela voz e dicção impressionantes.

                             O ótimo ator, Cássio Scapin

O programa no qual participaríamos era de jornalismo cultural em geral e no mesmo dia, além de nós, haviam atores divulgando peças de teatro. Assim que chegamos, por exemplo, havíamos encontrado-nos com o ator Cássio Scapin, famoso entre a criançada por ter feito parte do elenco fixo do programa infantil super premiado, "Castelo Rá Tim Bum", mas que também desenvolvia um trabalho de teatro muito forte. Um produtor da rádio informou-nos que a audiência daquela revista cultural girava em torno de três milhões de pessoas, em se considerando que era retransmitida em rede nacional, e que fatalmente receberíamos perguntas e observações vindas de pessoas que sintonizavam o programa, oriundas de cidades de muitos estados brasileiros.

E sua teoria confirmou-se tranquilamente, pois a medida que falávamos, perguntas vinham de muitos ouvintes do país inteiro, de grandes capitais a cidades remotas interioranas de diversos estados.

Foi muito interessante esse contato, pois pelo fato de ao mesmo tempo em que nossa banda tinha curriculum e história dentro do Rock brasileiro, aos olhos do grande público popular, que mal sabe quem foram os "Mutantes", associar a figura do Arnaldo Baptista com a nossa banda era absolutamente sem nexo para eles, e quanto mais o fato de que no momento pós-Arnaldo, a Patrulha tinha construído uma carreira de décadas, com inúmeros discos lançados e páginas construídas na história, ad eternum. Portanto, perguntas básicas que fazer-se-ia para uma banda completamente desconhecida, vieram para nós, e era muito compreensível que aos olhos de um público popular, nós fôssemos ilustres desconhecidos. E mais que isso, gostamos muito de algumas manifestações vindas de pessoas que não conheciam-nos, mas que estavam apreciando as músicas que intermediaram a entrevista. Manifestações até de estupefação, da parte de alguns ouvintes, dando conta que não estavam acreditando no som que nós fazíamos e como não éramos "conhecidos", alegraram-nos (de certa forma, é claro), e aí a constatação básica de que a despeito da nossa música não ser concebida para fazer parte dos anseios do marketing das gravadoras e "chefões" do Show Business, com um mínimo de exposição, teria uma fatia de mercado e isso desnudava o quanto artistas como nós prejudicávamo-nos na condução da carreira, vivendo esse autêntico embargo. Um fato tragicômico ocorreu quando a artista que seria entrevistada a seguir e foi convidada a assistir o último bloco de nossa entrevista, e chegou num momento de pausa para os comerciais. Era a atriz Patricia de Sabrit, que estava ali para divulgar sua peça teatral em cartaz.

                               A atriz, Patricia de Sabrit

Dois fatos engraçados ocorreram com sua presença. Primeiro, logo que entrou, eu tive uma reação inesperada por ela, que desconcentrou-a, pois cumprimentei-a como se conhecesse-a há anos e fosse amigo íntimo e ela, surpreendida, correspondeu com entusiasmo, mas no seu semblante era indisfarçável a sua sensação de confusão, com aquela expressão facial típica a denunciar : "não consigo lembrar-me desse rapaz, e agora" ?? E para piorar as coisas, quando abracei e beijei-a, também pisei no seu pé, e nessa circunstância, o que já estava constrangedor, ficou ainda pior...
Mas, poucos segundos depois o clima amenizou-se quando a luz vermelha do estúdio acendeu-se e o locutor concentrou-se na conclusão de nossa entrevista. A seguir, anunciou a execução de mais uma música do novo álbum, no caso, "Nem Tudo é Razão".
Assim que a música começou a tocar e o microfone interno foi fechado, ouça a voz da atriz Patrícia de Sabrit a exclamar : -"ai, gente, que música linda"...
Sua manifestação foi espontânea, não foi "média" em absoluto, deu para sentir, e mais uma reflexão : tudo bem que a nossa banda não era comercial e não dava seus passos na carreira manipulada por marqueteiros, mas mesmo não tendo esse comprometimento, uma música como "Nem Tudo é Razão", que tem uma beleza ímpar, se tocasse nas rádios, faria sucesso fora do nosso nicho fechado do Rock underground, numa escala popular. Isso era patente. Quando a música encerrou-se, despedimo-nos do público ouvinte e haviam dezenas de manifestações vindas de muitos estados da federação. Gente do Amazonas; Ceará; Santa Catarina; Goiás... e a conclusão a reboque : só um pouquinho de exposição e nossa vida seria muito diferente.

Ator e apresentador, Atílio Bari, um dos agitadores culturais mais bacanas de São Paulo

E na semana do show, um outro programa de TV agendou-nos para entrevista e participação tocando ao vivo. Tratou-se do programa "Em cartaz", exibido no canal comunitário de São Paulo e apresentado pelo simpaticíssimo ator, Atílio Bari. Já havíamos apresentado-nos nesse ótimo programa exatamente um ano antes e sobre ele, já explanei e não serei repetitivo sobre a análise que fiz em capítulo anterior, quando disse sobre tal revista cultural e lamentei sua pouca projeção no espectro da TV. Portanto, cabe aqui acrescentar que a coincidência de data foi absurdamente precisa entre a apresentação de 2002 e 2003 e assim que a luz vermelha do estúdio acendeu, o Atílio foi falando de personalidades culturais que haviam nascido naquele dia, e isso era uma prática usual de sua revista, quando eu pedi a palavra e anunciei que tínhamos um efeméride a mais, e que ele provavelmente não tinha anotado na sua ficha : naquele mesmo dia, um ano atrás, havíamos participado do programa...
O Atílio ficou surpreso e gostou muito da minha informação em adendo, e com esse clima de camaradagem, a entrevista foi novamente muito boa.

Distribuímos ingressos do show de lançamento para telespectadores que pronunciaram-se por telefone, além de discos e falamos bastante dessas nossas boas novidades. Tenho cópia desse programa digitalizada, e em breve certamente será postado no You Tube e disponibilizada neste capítulo. Antes do show de lançamento do disco, teríamos um show avulso no interior, desconectado de uma turnê. Falo disso a seguir.
Antes do show de lançamento do CD ".ComPacto", mas em meio aos seus preparativos, tivemos um compromisso avulso, não caracterizando ser data de uma turnê organizada pela logística.
O convite surgira da parte de um amigo de adolescência do Junior, e que não via-o há muitos anos. Esse rapaz agora era dono de uma casa noturna na cidade de Sorocaba, e ligada a uma escuderia de moto clube, portanto era um bar temático, e com atmosfera Rock'n Roll, de certa forma. Chamava-se "Black Sheep Bar", aludindo a sua confraria de moto clube, naturalmente.

Chegamos na cidade de Sorocaba com muita tranquilidade, na tarde do dia 28 de março de 2003. Estava quente, como de hábito naquela pujante cidade interiorana. A casa era rústica, mas bem montada, com decoração bem ao gosto dessas confrarias de motociclistas e certo ar Rock'n Roll. O rapaz tinha o típico visual de motociclista, e foi bem bastante hospitaleiro, tratando-nos muito bem e nos momentos mais relax do soundcheck e no jantar, conversou bastante com o Junior, relembrando os tempos de adolescência onde conheceram-se nos anos sessenta. Uma visita agradável apareceu no soundcheck e ficou conosco o tempo todo até a nossa partida de Sorocaba, durante a madrugada. Tratou-se de Ronaldo, um ex-roadie da Patrulha, que acompanhou a banda desde o final dos anos setenta, até a metade dos anos oitenta, e que durante o jantar, também contou várias histórias pitorescas sobre sua época na equipe técnica da banda. 

Por falar em jantar, ele levou-nos num restaurante distante do centro da cidade, mas que valeu muito a pena, porque foi um jantar "pantagruélico" pela fartura absurda do buffet e portanto, uma temeridade em se considerando que tínhamos um show de Rock para realizar... e convenhamos, com as respectivas "panças" abastecidas daquele jeito, a tendência era uma digestão difícil, e com direito a sonolência. Houve uma banda de abertura local, chamada "Noctívagos". Tive boa impressão de seus músicos e performance, mas não despertou-me o interesse maior, visto parecer transitar em estéticas que não interessavam-me, como o Hard-Rock / Heavy Metal "modernoso" dos anos noventa, meio misturado com Funk-Metal de bandas daquela década como o "Faith no More", por exemplo.


Fizemos o nosso show, mas confesso que foi morno. O público presente não estabeleceu aquela sinergia a que estávamos habituados normalmente, embora houvesse um bom contingente presente. Bem, preciso destacar que o equipamento não ajudou muito. O P.A. da casa, não era dos melhores e trabalhava além do limite de sua capacidade, essa é que a verdade. Para sonorizar apresentações intimistas, ao estilo voz e violão, ou no máximo um combo de jazz e / ou blues, acho que suportaria, mas uma banda de Rock e com a nossa volúpia...
Mesmo assim, não posso afirmar que não tenha sido bom. Creio que o som não ajudou e o público não entregou-se a euforia como de costume, mas os mais antenados e fãs da banda, saíram satisfeitos com a performance. E fazia tempo que não visitávamos aquela cidade. A última vez que havíamos ido a Sorocaba, fora em 2000.
Bem, o próximo compromisso seria o show de lançamento oficial do álbum ".ComPacto" e que também gerou histórias...


Antes de falar sobre o show de lançamento, devo retroagir algum tempo na cronologia. Ainda estávamos em 2002, quando surgiu a conversa de que precisávamos pensar num show de lançamento do novo disco. A primeira coisa que veio a cabeça, foi agendar uma micro temporada no Centro Cultural São Paulo, uma espécie de porto seguro para qualquer artista do nosso patamar, que sem recursos, não tinha meios de aventurar-se na autoprodução em algum lugar mais sofisticado, e ao mesmo tempo, o CCSP era super digno, oferecendo infraestrutura de teatro de grande porte, tudo gratuitamente, e cabendo a banda, apenas bancar sua divulgação como melhor aprouvesse-lhe.

Consultamos o programador daquele complexo cultural e ele avisou-nos que só poderia agendar-nos para julho, pois havia uma norma do poder público em ceder data para o mesmo artista que já apresentara-se ali, num espaço de um ano e de fato, havíamos apresentado-nos em julho de 2002, em três datas. Portanto, as conversas enveredaram para outras opções de teatros ou casas noturnas viáveis em São Paulo para as nossas condições econômicas, numa lista de sugestões. Foi quando o nosso colaborador Luiz "Barata" Cichetto, sugeriu um salão de Rock na zona leste de São Paulo, que ele frequentava e conhecia bem seus proprietários. De imediato, lembramo-nos que já havíamos levado material da banda nesse referido salão em ocasião passada, mas um dos donos havia valorizado em demasia seu estabelecimento em detrimento da desvalorização de nossa banda, e isso havia ficado nítido para nós, pelas coisas que soubemos que ele falou a nosso respeito. Não queríamos nem cogitar abrir negociação com tal espaço, visto que sabíamos que a mentalidade de seus proprietários não era simpática à nossa banda. Mas o Barata contra argumentou que não poderíamos ficar com tal impressão em mente, e que talvez tudo tenha sido um mal entendido anteriormente. OK, ofertar o benefício da dúvida, era uma atitude nobre a ser exercida em termos de cavalheirismo, mas eu não engolia direito a afirmação que contaram-me que tal rapaz havia feito, dando conta que nós o havíamos procurado para "implorar" por uma show em sua casa em ocasiões passadas, mesmo porque, eu em pessoa fui levar o material e não rebaixei-me dessa forma, em hipótese alguma. Se receber um material de uma banda era um ato de "desespero" da parte do artista, na sua forma de interpretar os fatos, estava redondamente enganado, pois eu não agi assim, e jamais faria isso. Enfim, mesmo contando-lhe essa particularidade, o Barata insistiu na ideia de que tudo fora um mal entendido e que ele era amigo dos proprietários e conhecia-os com intimidade, tendo amizade de longa data, fora conhecer todos os funcionários etc etc.
Bem, já que ele garantia que tudo seria diferente, demos-lhe aval para ele tomar a dianteira na negociação e diante de sua animação, acreditamos mesmo que tudo dar-se-ia de forma melhor. O tal salão era rústico, mas tinha uma tradição na zona leste de São Paulo, não posso negar. Era também enorme, com um salão gigante, semelhante aos salões de festas de clubes tradicionais, ou mesmo ginásios poliesportivos e tinha uma ainda maior área ao ar livre, onde no passado, haviam produzido shows de Rock e MPB, atraindo enormes multidões. Mas isso não acontecia mais, e em 2003, suas atividades mais baseavam-se em noitadas de som mecânico e eventualmente shows de bandas cover ou fechadas em nichos de derivados do Heavy-Metal.

Mas nem o otimismo do Barata, e sua boa relação com os proprietários foi suficiente para que a negociação fosse fácil. E assim, o tempo foi passando e já em 2003, a data foi finalmente marcada, mas as condições da negociação foram muito desfavoráveis e nessa altura, já com a perspectiva do disco ficar pronto para a venda, não tivemos escolha a não ser fechar assim mesmo o acordo. Toda a divulgação ficou a nosso cargo, assim como a despesa da contratação do P.A. e naquele espaço enorme, tinha que ser um equipamento de médio para grande porte, inevitavelmente e custava caro. A contrapartida da casa era tímida. Além do espaço, e uma comedida ajuda em parte da divulgação, queriam "morder" uma porcentagem desigual da bilheteria. Enfim, ficamos todos chateados, e até o Barata desencantou-se quando no dia do show, apesar de ter dado um público bom, pelo tratamento dispensado, ficou patente que não fora uma boa ideia tocar ali.
E para piorar, fizeram-nos engolir a revelia, duas bandas cover díspares com o astral do show, e que segundo os proprietários, elas é que atrairiam público, ou seja, absolutamente desnecessário passar por essa situação, e indo além, acho que teria sido mais válido lançar o disco em julho no Centro Cultural São Paulo, mesmo que isso significasse uma longa espera. Bem, fechado o show, esmeramo-nos na sua divulgação e já até contei algumas ações de rádio e TV que fizemos. Trabalhamos fortemente na colocação de cartazes naquele circuito gigante que costumávamos cobrir, distribuímos filipetas em muitos shows e com a ajuda do próprio Barata e um de seus filhos, Raul Cichetto, cobrimos alguns bairros mais longínquos da zona leste, alcançando um público mais a ver com o salão em si. Já no dia do show...



Estávamos um pouco cansados, pois fizéramos show na noite anterior e fora de São Paulo, portanto encarando um "bate-e-volta" ao interior, mas por outro lado, estávamos nessa rotina desde o final de 2001, e sendo assim, não era uma novidade ter poucas horas de sono. Chegamos ao estabelecimento e o equipamento de P.A. contratado já estava todo montado e o técnico, realizava seus testes de afinação do stereo, portanto, já estava bem adiantado o processo técnico da operação do áudio.

Montamos nosso backline com tranquilidade e por volta das 17:30 h. já estávamos fazendo o soundcheck. Com um P.A. de porte, a pressão sonora estava forte e com o técnico bastante solícito, ficamos satisfeitos com o ajuste do soundcheck.

Os mandatários da casa tratavam-nos bem, mas mal disfarçavam a sua incredulidade sobre o sucesso do evento, e isso era um baixo astral para nós. Claro que com uma quase "torcida" negativa dessas, o ambiente não era dos mais favoráveis. Mas compensávamos isso com a animação em torno do lançamento em si, e de fato, esse disco fora sofrido para ser produzido, conforme já revelei em capítulos anteriores.

Não posso deixar de observar... mesmo tendo um disco chamado ".ComPacto" em mãos; e pior ainda, saber tratar-se do show de lançamento do referido álbum, de onde o jornalista que assinou com as iniciais "DO", tirou a ideia de que lançaríamos o disco "Chronophagia" ?

Nossa equipe também estava motivada e o Luiz "Barata" estava empolgado por estarmos lançando o disco numa casa onde ele tinha muita afinidade pessoal e por isso, sua alegria contrabalançava o pessimismo quase desdenhoso dos dirigentes do local. Teríamos convidados especiais nessa noite. A cantora Alexandra "Joplin", que havia gravado participação no álbum "Chronophagia", cantaria nas duas músicas em que sua voz ficou marcada para a posteridade : "Sunshine", e "Terra de Mutantes".

E outro convidado para lá de especial : Dudu Chermont, o mítico guitarrista da segunda formação da banda, entre 1978 e 1984, tocaria "Arrepiado", "Bomba", "Columbia", conosco. Ele estava eufórico por ter sido convidado e aquilo era mais que uma homenagem a um ex-membro tão importante na história da banda, e nem mesmo uma lisonja pessoal a um grande músico que deixou sua enorme marca na história do Rock brasileiro, mas era uma justa oportunidade de reerguer sua carreira, que estava prejudicada há anos pelo fato dele enfrentar problemas de saúde muito graves.

Com um histórico de internações, debilidade e tratamento longo, Dudu enfrentava um momento difícil de sua vida. Tentava voltar à cena, e naquele momento articulava uma nova banda e que teria jovens músicos de muita qualidade na sua formação, caso de Junior Muelas (que havia deixado o "Hare", e mudara-se para São Paulo), e dois jovens também vindo do interior, da cidade de Porto Ferreira, que Muelas conhecera).

Numa resolução tomada no camarim, resolvemos tocar primeiro e deixar as bandas cover tocar depois. Não tínhamos o pudor de assim alguém pensar que abriríamos as bandas cover e na prática, tocando antes, atenderíamos o nosso público que ali compareceria para ver o show de lançamento do novo disco e quem estivesse ali pela "balada", poderia divertir-se a vontade com a jukebox humana e mecânica, arrastando-se pela madrugada. E nada contra os músicos das bandas cover. Confraternizamo-nos com eles, e tais rapazes demonstraram respeito pela nossa banda e proposta artística autoral. Tratava-se de duas bandas, uma fazendo tributo ao "Whitesnake", e outra, ao "Motorhead".

Encerrado o soundcheck, dispersamos, cada um indo para a sua casa fazer o "pitstop" estratégico. Quando eu voltei, acompanhado do Rodrigo e do Samuel, nosso roadie, fui bastante contrariado pelo responsável pelo estacionamento. Simplesmente a vaga prometida para os carros dos músicos da banda fora abolida e agora queriam cobrar-me, sendo que o estacionamento era gigantesco e três ou quatro vagas sendo ocupadas pela nossa frota particular, não traria nenhum problema para eles.

Diante da intransigência do atendente do estacionamento que era jovem; parecia ser frequentador do salão; mas absolutamente mal educado e petulante, achei indigno pagar a taxa cobrada e assim, pedi aos meus acompanhantes que descessem e acionando a marcha ré do veículo, fui deixando o acesso do estacionamento, quando ainda tive que ouvir as afirmações irônicas do desbocado energúmeno, dando conta que se eu parasse em ruas do entorno, fatalmente perderia o meu carro... certamente que havia esse risco, e não duvidaria que ele próprio avisasse seus "parceiros" de malandragem sobre meu bólido a mercê da bandidagem, no entorno. Enfim, era mais um aborrecimento e denotava mais uma vez que a escolha do tal salão não havia sido confortável para os nossos propósitos.

Bem, o lado bom foi que contrariando o pessimismo dos donos do estabelecimento, um bom público compareceu. Não era uma multidão impressionante. Mas cerca de 400 pessoas, podia ser computado como um sucesso, não restava dúvida. O show foi muito bom, pois estávamos motivados, bem ensaiados e focados em lançar bem o disco novo. Havia também a motivação pelos convidados muito queridos e a animação do público, além da boa qualidade do áudio no palco e no P.A.

O público respondeu com sinergia. Teve vários momentos de picos de euforia e comoção quando Dudu Chermont subiu ao palco e tocou conosco. Uma equipe de filmagem amadora estava presente. Era um acordo de patrocínio firmado através do Luiz "Barata", com uma pequena produtora que também mantinha uma escola de música no bairro do Tatuapé. Nunca assisti a filmagem inteira, mas o pouco que foi postado no You Tube revela-se uma filmagem muito pobre, sem recursos. E assim foi o lançamento do disco ".ComPacto", no dia 29 de março de 2003, diante de 400 pessoas aproximadamente, no salão "Led Slay", no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Próximo compromisso de palco, só em abril, mas nesse ínterim, a batalha pela divulgação do novo disco, estava só começando.

Eis abaixo a performance da banda em "Columbia" com Dudu Chermont e Alexandra "Joplin", como convidados. Como já alertei, a filmagem é horrorosa, lastimo, mas é o que temos desse show :


Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=t2o-IL-AxzU

Após o show de lançamento do novo álbum, o próximo show foi alguns dias depois, numa casa noturna onde já tocáramos várias vezes anteriormente. Voltamos ao Volkana de São Bernardo do Campo, em 11 de abril de 2003. Desta feita, duas bandas de abertura apresentaram-se : "Grande Dog" e "Koma". Não lembro-me exatamente das suas respectivas apresentações.

Não tivemos grande êxito nessa apresentação em termos de público, pois a divulgação não teve o nosso empenho, e nas mãos dos produtores da casa, o esforço foi mínimo, portanto, no dia dos show, apenas 40 pagantes compareceram, mas isso acabou não aborrecendo-nos, pois tínhamos perspectivas melhores pela frente e uma nova e boa turnê pelo sul aguardava-nos mais uma vez, a partir do início de maio. E além disso, matérias com resenhas do novo disco começavam a aparecer, dando-nos uma animação extra.

Eis alguns exemplos, abaixo :

1) Rock Brigade - Versão on Line

"Este disco já se destaca pelo nome e pela embalagem criativa, uma vez que a capa é igual à dos antigos discos de vinil. Só que lá dentro vem o último CD desta veteraníssima banda brasileira. E nada como ouvir música escrita e interpretada por músicos de talento ! Junior (D); Luiz Domingues (B); Rodrigo Hid (V/G/K); e Marcello Schevano (V/G/K/F), fazem um dos mais competentes times de instrumentistas da atualidade e se mostram em pleno forma. Soando numa linha mais direta do que o trabalho anterior do Patrulha, Chronophagia, este disco pode ser definido como um mix do hard Rock setentista com o Rock psicodélico da década anterior. Ajuda no resultado final, a produção clássica, sem pirações (nada como uma palavra "setentista" para ficar no clima, não é mesmo ?) ou viagens desnecessárias. Mesmo sendo um disco uniforme, em que cada música tem seu atrativo, vale ouvir com atenção o Riff de Homem Carbono e a declaração de amor / ódio em São Paulo City- Ah sim, as letras são em português ! Datado para alguns, clássico para outros, essa é uma discussão que pouco importa. O que vale, mesmo, é que a patrulha ainda está na ativa e produzindo boa música.

ACM"

Mais uma ótima crítica do grande Antonio Carlos Monteiro, o ACM, ou entre amigos, Tony Monteiro. Destacou a criatividade da capa e a sacada em relação ao título de múltiplas interpretações. Realçou também a qualidade individual de cada componente, mas não aprofundou-se muito sobre o trabalho em si, a não ser pela tímida menção de "Homem Carbono" e "São Paulo City", que despertaram-lhe mais a atenção. Muito provavelmente ele não tenha aprofundado-se mais no disco em si, pela sua precariedade em termos de áudio e nesse caso, foi benevolente e poupou-nos de uma crítica mais ácida. Não pela amizade, mas relevando por saber o quanto era duro para nós termos condições de gravar em alto nível, deve ter isentado a banda desse "pecado", reconhecendo que a qualidade artística não poderia ser massacrada pela má produção, levando em conta ser um fator alheio a nossa vontade. Sobre cantar em português e ser ou não ser "datado", essas questões que são típicas dentro do universo do Heavy-Metal e objeto de total atenção da publicação em si, creio que nesse caso, o ótimo Tony estava muito influenciado pela obsessão que tais tópicos tem dentro daquele mundo, e daí ter feito a menção. Fora do mundo do Heavy-Metal, não conheço gente que importe-se tanto se o artista canta em aramaico antigo; inglês, ou javalês, e tampouco preocupe-se em demasia se a estética é moderna ou se é "datada". Isento o Tony, que reputo ser uma das melhores canetas da crítica musical deste país, mas que ele estava sob a influência dessa verdadeira mania de revistas especializadas em Heavy-Metal, creio que isso é evidente.

2) Site / Portal Wiplash

"É constrangedor saber que uma banda do nível do Patrulha do Espaço, tenha de lançar seus discos de forma independente, ao passo que as majors só se preocupam em nos empurrar porcarias goelas abaixo. Seja como for, após um hiato de quase três anos (seu último trabalho inédito foi o Chronophagia, de 2000), finalmente temos em mãos o novo álbum, 14º da carreira do grupo, e que na realidade se trata de um mini disco, ou melhor dizendo, o equivalente à um compacto duplo, em formato digital, o que de certa forma corrobora tanto o título quanto a arte gráfica, que reproduz o formato e o tamanho de um antigo compacto de vinil, além de fazer alusão a uma série de interpretações variadas (Com Pacto; .Com; Compact etc). Embora este seja de certa forma uma espécie de continuação do trabalho anterior, talvez devido a curtíssima duração, ele tenha perdido um pouco daquele caráter "viajante", dando lugar a composições mais pesadas tal como "São Paulo City" que abre o CD, com um riff que poderia muito bem estar num disco do Mountain; em seguida, "Louco um Pouco Zen", um rockão arrasa-quarteirão, precedendo "Sendas Astrais", que juntamente com "Terra de Minerais", são as que mais se aproximam da mescla "Hard-Rock + Prog Setentista", uma das características marcantes do citado "Chronophagia". Temos ainda "Homem Carbono" e "Nem Tudo é Razão", duas faixas pontuadas por um piano, com uma levada bem Rock'n Roll, a segunda, quase uma balada, por sinal a única do CD, cuja letra fala (de forma velada), sobre uma paixão (parece que o Rodrigo estava bastante inspirado quando a compôs). Por fim, um pequeno instrumental, "Tooginger", onde Junior presta homenagem ao baterista Ginger Baker (Cream).
A qualidade da gravação está excelente, embora em alguns momentos se faça oportuno um pequeno ajuste no equalizador para compensar um certo excesso de volume da bateria, mas nada que atrapalhe drasticamente o prazer proporcionado pela audição de mais um CD do Patrulha do Espaço, com certeza um dos decanos do Rock'n Roll brasuca.

Marcos A.M. Cruz"

Outro jornalista que analisa obras e performances com detalhes, Marcos Cruz sempre esmera-se em suas resenhas para dissecar ao máximo cada produto que analisa, e essa é sua marca registrada.
De fato, acho que ele percebeu bem a riqueza implícita do nome do disco e sua junção gráfica enquanto conceito, explícita na capa.
Acho correto também que ele tenha notado que esse novo disco tenha sido mais direto, sem a viagem toda do disco anterior e sua percepção foi forte ao notar que num formato menor em termos de plataforma física, tivemos menos espaço para elucubrações artísticas mais avantajadas, e o recado teve que ser mais direto.
Fazendo um rápido apanhado de cada faixa, acho que suas observações foram corretas sobre cada música. E finalmente, sua observação sobre o áudio foi pertinente. Ele nunca soube da dificuldade que enfrentamos para lançar esse disco, e se apenas algumas frequências da bateria incomodaram-no, fiquei até aliviado em saber disso.

3) Guitar Player


Aqui só uma nota sobre o lançamento do disco, não trata-se de uma resenha propriamente dita.

Ainda em abril, tivemos uma boa nova, e vinda de uma forma totalmente inesperada. Através dos membros da família Brandini, que acompanhavam a Patrulha com muito entusiasmo desde 2001, soubemos que uma turma de estudantes de cinema havia proposto filmar um vídeo clip da banda, totalmente gratuito, e que  disponibilizar-nos-iam o material para usarmos comercialmente, a vontade.

Seu intuito primordial era o de usar tal material como "TCC" (Trabalho de Conclusão de Curso), na faculdade em que estudavam, mas não haveria nenhum empecilho para que usássemos o material em nossos propósitos de divulgação. Claro, a ressalva óbvia, era que não seria uma produção requintada, e muito pelo contrário, seria permeada de improvisos e simplicidade.

A despeito dessa realidade nada glamorosa, éramos uma banda off-mainstream e certamente que naquela altura dos acontecimentos, tal oferta era irrecusável, portanto, aceitamos.
Tudo foi muito rápido como previsto, pois nem pré-produção / "brainstorm" com a banda foi possível. O tempo urgia, pois os jovens estavam atrasados no seu cronograma e desejavam filmar o quanto antes. Meio na loucura da situação / meio "Goddard", o roteiro foi feito na base da ideia na cabeça e a produção, a toque de caixa, com a câmera na mão...
Escolhemos a música "Homem Carbono" e os rapazes falaram-nos que intercalariam cenas da banda tocando, com cenas de rua com aspectos urbanos a esmo. De última hora, surgiu a ideia de uma inserção de dramaturgia, mas se não havia dinheiro para necessidades técnicas prementes, o que dizer de contratar atores e pensar num set de filmagem com adequação de iluminação etc etc ?
Bem, então mais uma solução prosaica foi arrumada e um outro amigo nosso em comum com a família Brandini, aceitou participar, mesmo não sendo ator.

Tratou-se de Carlinhos "Jimi", um guitarrista sensacional que também era nosso vizinho de bairro. Seu apelido, "Jimi", era pela obviedade de que adorava Jimi Hendrix, e sabia tocar todas as suas músicas, e com uma perfeição de detalhes. Tanto que até os dias atuais, ele tem uma ótima banda tributo do Hendrix, chamada "Stone Free", nome de uma música do grande mestre canhoto.
Mesmo não sendo ator, Carlinhos aceitou a tarefa e não só isso, cedeu sua própria residência como "set de filmagem" improvisada; além de seu carro e claro, figurino...
Foi tudo muito improvisado, é óbvio, mas dentro das possibilidades de uma produção amadora, teve um resultado surpreendente, eu diria. Falando sinceramente, creio que já ter visto vídeo clips profissionais com resultados pífios, ou até vergonhosos, e não é o caso desse vídeo de "Homem Carbono", de forma alguma. Sobre as cenas com Carlinhos, ele faz o "Homem Carbono" em questão, uma espécie de personagem anônimo, representando o homem sem identidade alguma, massacrado pelo sistema. Suas cenas em sua casa são dele acordando e arrumando-se para sair cedo para o trabalho e o diretor orientou-o a representar afobação; contrariedade; revolta pela vida sem perspectivas etc.

Segue com ele dirigindo seu carro, e estressando-se ainda mais no trânsito e no fim, revolta-se e diante da banda, tem um "chilique" de crise nervosa. Houve também cenas intercaladas com populares em praças públicas e lógico, a banda tocando e cantando a música.
Sobre a banda, como não tínhamos show marcado para São Paulo tão cedo, surgiu uma solução improvisada de última hora. Um dos rapazes envolvidos na produção, afirmou-nos que seu pai era dono de um galpão na região da Rua 25 de março, e como é sabido, o maior centro de comércio popular do país. Tal galpão estava desocupado, colocado à disposição para locação, e não haveria problema em usá-lo, desde que fora do horário comercial. Diante dessa perspectiva, numa noite de um dia útil, levamos o nosso backline para o galpão e filmamos três ou quatro tomadas, fazendo a mímica necessária.

Tudo foi precário, não havia uma iluminação adequada, mas pelo menos os rapazes capricharam na câmera, que foi alugada e era profissional, portanto, apesar da ausência de uma luz melhor, creio que o resultado é digno. É evidente que estou analisando sob um prisma absolutamente despojado, levando em consideração que fora uma produção amadora, com custo praticamente zero e pobreza de recursos, fica a ressalva para o leitor que assistir e discordar, entender o contexto no qual isso foi produzido. Só falta dizer que a cena final do destempero do personagem "Homem Carbono", foi feita numa rua do bairro do Cambuci, num dia útil e no período da tarde. A banda aparece sentada numa mesa de um botequim muito simples, e cujo dono era amigo da família Brandini; também do Carlinhos "Jimi", além do próprio Junior que costumava encontrar-se com essa turma para beber cerveja. Todos ganharam cópias de tal material, e de minha parte, tratei de digitaliza-lo somente em 2006. Apenas em 2015, consegui colocar tal clip no You Tube e divulgá-lo em Redes Sociais da Internet, e tem feito bastante sucesso entre os fãs da Patrulha. Tive a ajuda da produtora Jani Santana Morales nessa empreitada, que aliás tem auxiliado-me a resgatar material inédito de muitas bandas por onde passei, incluso a Patrulha do Espaço. E também do baixista / web designer e produtor de vídeo, Marcelo "Pepe" Bueno, meu ex-aluno e componente do "Tomada", que inseriu áudio stereo, visto que o som original que eu dispunha, estava em mono.

Assista abaixo, o Vídeo-Clip de "Homem Carbono" :


Eis o Link para assistir no You Tube :
 

https://www.youtube.com/watch?v=lkUhtnHq1gg

Eis a ficha técnica do clip, publicada no You Tube, dando os créditos para todos que o tornaram viável :
 Vídeo Clip da música "Homem Carbono", extraído do álbum ".ComPacto", da Patrulha do Espaço, produzido por uma turma de estudantes de cinema. Mescla cenas da banda dublando a música num galpão, e dramaturgia, com a presença de um amigo da banda, improvisado como ator, o guitarrista Carlinhos "Jimi". Na ficha técnica, o nome do álbum está assinalado como "Sendas Astrais", que era um título provisório, mas na realidade, quando o disco foi lançado oficialmente, foi denominado : ".ComPacto"
Filmado e editado em 2003
Música : Homem Carbono
Álbum : ".ComPacto" (2003)
Homem Carbono (Rodrigo Hid - Marcello Schevano - Luiz Domingues - Rolando Castello Junior)
Direção: Eduardo Moya
Roteiro: Eduardo Moya e Patrick Flemer
Produção: Eduardo Moya
Assistente de Produção: Sérgio Sampaio e Andrea Mayumi
Camera: Eduardo Moya
Iluminação: Patrick Flemer
Pós Produção: Patrick Flemer
Ator: Carlos José da Silva (Carlinhos "Jimi")
 

Formação da Patrulha do Espaço na época :
Rolando Castello Junior - Bateria e Percussão
Rodrigo Hid - Guitarra, Teclados e Voz
Marcello Schevano - Guitarra, Teclados, Voz e Flauta
Luiz Domingues - Baixo e Voz

Digitalizado em 2006
Produção para a Internet em 2015 : Jani Santana Morales
Produção de áudio em 2015 : Marcelo "Pepe" Bueno


Ainda em abril de 2003, uma reportagem de porte enfocada em minha pessoa, enriqueceu o portfólio da banda e o meu, particular.
Fui retratado nas páginas da revista "Cover Baixo", especializada no universo do baixo / baixistas, não era e não é um tipo de publicação que eu acompanhe, pois como todos sabem, não sou nenhum fanático pelo instrumento e seus meandros. E também não aprovo a linha adotada nesse tipo de publicação, que foca na técnica e invariavelmente é seguida por adeptos do mundo do Jazz / Fusion e eu não gosto desse universo / mentalidade.

Todavia, não tenho nada contra, tampouco nutro alguma contrariedade de ordem estética ou política em relação aos que professam e / ou apreciem essa estética musical etc etc. Apenas não gosto e ignoro-a, mas sem nenhuma "bronca" com ela em si ou em relação aos seus admiradores / seguidores. Portanto, claro que fiquei contente quando o repórter da revista ligou-me e propôs a matéria, pois era mais uma exposição bacana para a banda, e toda ajuda é bem vinda. Fiquei ainda mais contente, quando verifiquei que na edição onde a matéria onde eu fora retratado, tinha na capa e como reportagem principal, um baixista para lá de ilustre e Rocker, algo raro naquela naquela publicação que invariavelmente costumava colocar na capa, baixistas fechados nesse mundo do "Fusion", ostentado normalmente instrumentos de cinco ou seis cordas, quando não, os indefectíveis "fretless". Mas lá estava Paul McCartney, numa foto bem dos primórdios dos Beatles, com seu solerte baixo "Hofner" em mãos. Não poderia ter sido melhor para a minha satisfação, ter um Rocker em destaque do que qualquer outro músico virtuose desse mundinho fechadinho do Jazz Fusion.

Feliz e honrado, gostei ainda mais quando comprei a revista na banca, e verifiquei que preocuparam-se em fazer um lay-out todo psicodélico, ilustrando a matéria de forma muito fidedigna ao espírito que a Patrulha tinha nessa fase onde fui componente, e tornando-a muito agradável para a minha alegria. Parecia uma reportagem falando do Jack Casady ("Jefferson Airplane"), mas estavam falando do Luiz Domingues... perfeito para um coração sessentista que bate dentro do meu peito !

A reportagem foi assinada pelo jornalista Juliano Borges, que falou sobre a proposta da Patrulha, mas pinçou momentos pregressos da minha carreira citando bandas e momentos anteriores, baseado em nossa conversa telefônica em forma de entrevista informal. Quase não tocou em aspectos técnicos sobre baixo / equipamentos, o que foi até surpreendente em se tratando de uma publicação especializada e portanto seguida por músicos que interessam-se especificamente por tais nuances, mas deixou uma observação que deve ter chocado o leitor padrão da revista, enfatizando a estranheza em eu usar "palheta", fator que é um verdadeiro tabu entre os seguidores do Jazz Fusion. Para esse tipo de músico, a palheta é considerada um artifício para músicos de baixo nível, que não tem capacidade técnica para tocar música sofisticada, com os requintes de virtuosismo que eles tanto apreciam.

Ora, é claro que eu não compactuo com essa visão que considero equivocada e preconceituosa, mas não tenho nenhuma intenção de convencer ninguém em contrário, tampouco preocupo-me se tais pessoas considerem-me um músico de menor envergadura.
Também achei muito bacana que o jornalista teve a ideia de incluir uma resenha do novo disco da Patrulha, abrindo um box para tal, em sua reportagem. Eis o que ele falou sobre o disco :

"Cantar Hard-Rock em português não é fácil. Se manter indiferente aos novos modismos que assolam a música pop contemporânea, sempre acenando com uma possibilidade de grande retorno financeiro, também não. Apesar do estilo que já teve a morte decretada centenas de vezes, também não é tarefa para muitos. Superar esses obstáculos e preconceitos ? Só se você acredita e ama aquilo que faz. E é exatamente isso que a primeira audição de ".Compacto" passa ao ouvinte. A velha Patrulha está de volta com a habitual garra e totalmente de bem com o Rock'n Roll.
A sensação que se tem ao ouvir a primeira faixa do disco "São Paulo City", é que entramos em uma máquina do tempo, com timbres setentistas, viradas poderosas de bateria, Fender Precision "roncando alto", guitarras mandando "riffs de responsa". "Louco um Pouco Zen" nos mostra toda a categoria de Luiz Domingues, que junto ao batera Junior, formam uma das grandes cozinhas do Rock nacional. Já "Sendas Astrais" fala de transcendência, com leves toques de misticismo, embalada por uma bela levada, com um belo solo de guitarra e intervenções de Moog e Hammond. Mais anos 70, impossível ! Com letra contestadora e melodia contagiante, "Homem Carbono" tem tudo para se tornar um novo Hino da banda, como já aconteceu com Columbia. Já em "Nem Tudo é Razão", a Patrulha dá uma respirada com uma canção romântica, para retomar o clima na quase progressiva "Terra de Minerais".
O CD fecha com uma homenagem a Ginger Baker (ex-baterista do Cream), um dos ídolos de Junior. Esse é um disco perfeito para quem procura a verdadeira essência do verdadeiro Rock pesado brasileiro.

Juliano Borges"


Bem, uma resenha muito boa, e surpreendeu-me, pois usou uma linha de raciocínio de crítico de Rock, e não fechado no espírito de uma revista técnica, onde costumeiramente o foco é a performance e a produção de áudio do baixista. Mais matérias e resenhas do novo disco estavam chegando as bancas, mas o foco agora era retomar a rotina das turnês e nesse caso, uma nova viagem ao sul, desta feita visitando o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, apenas.


Após um hiato de quase seis meses, só quebrado por shows avulsos, estávamos de volta a rotina de uma turnê mais longa. A maratona a bordo do ônibus, com horas e horas de viagens cansativas, mas gratificantes pelo contato com o público, compensavam qualquer sacrifício. Desta feita, mesclaríamos apresentações em lugares onde já havíamos visitado anteriormente, com lugares totalmente novos.

O primeiro destino seria Florianópolis, onde tocaríamos numa casa noturna com ares sofisticados, chamada "Matisse". A viagem foi boa até Curitiba, onde paramos para atender uma reivindicação do Junior que ali tinha um compromisso de ordem pessoal. Foi estratégico para ele cumprir seu apontamento, e também para nós que pudemos dar uma boa esticada nas pernas e relaxar numa boa sombra, visto que apesar de estarmos no início de maio, o sol estava de rachar na estrada. Reiniciando a viagem, fomos direto para Florianópolis com bastante tranquilidade, e hospedamo-nos num hotel a poucos metros do mar, na praia da Joaquina. 

Fiquei muito impressionado com as dunas de areia intensamente brancas e fofas que formam-se até 200 metros longe do mar, e que acabam tornando-se uma atração turística tão procurada quanto a praia. Ali, nos três dias em que hospedamo-nos, vimos dezenas de turistas brincando de "esquiar" sobre as dunas altíssimas e claro, com a maioria formada por argentinos, uma tradição em Florianópolis.

A praia também era belíssima, é claro. Com muitos decks bem equipados para atrair turistas, mas também com belezas naturais preservadas, impressiona pela beleza e bom cuidado do poder público. A casa onde faríamos o primeiro show era um bar frequentado pela intelectualidade da cidade. Com esse nome, "Matisse", claro que era decorado com motivações das artes plásticas etc e tal.

Havia um pormenor sobre essa casa. O dono era extremamente educado e solícito, mas deixara claro desde o início da contratação da banda, que mesmo sabedor de que tínhamos uma volúpia Rocker acentuada, ali não poderíamos tocar com o nosso volume habitual.
Nesse caso, combinamos em fazer um show semi-acústico, artifício que não era uma novidade para nós, por termos feito shows nessas condições anteriormente. Então, preparamo-nos nesse sentido e nessa altura, fazendo jus à sua incrível capacidade de aprender diversos instrumentos, o Marcello havia recém adquirido um saxofone, e já estava realizando seus primeiros solos convincentes. Portanto, já nesse show apresentou mais essa possibilidade sonora para a banda. Outra novidade, foi que acrescentamos uma música do segundo álbum da Patrulha, pós-Arnaldo, chamada "Berro", canção que a Patrulha não tocava desde 1982, em seus shows. Todos gostávamos dessa música que tinha uma melodia muito bonita. Por uma semelhança harmônica em sua parte final, com uma canção do "Led Zeppelin", fizemos uma junção, e ao final de "Berro" introduzimos o refrão da canção "Your Time is Gonna Come", causando comoção tanto pela emenda inusitada, quanto pela menção à música do Led Zeppelin.

O show foi muito bom, com um público mais adulto em predominância e que apreciou a sonoridade semi-acústica que imprimimos e para nós, foi tudo agradável, do tratamento que recebemos do staff da casa ao equipamento, e claro, a reação do público. Uma particularidade engraçada, foi que o proprietário do estabelecimento ficou o show inteiro com um medidor de decibéis em mãos, e o trato conosco fora mesmo em manter um padrão de volume baixo e linear. Aconteceu no dia 2 de maio de 2003, no Café Matisse de Florianópolis, com cerca de 60 pessoas na plateia.

Quando voltamos para o hotel, ainda era madrugada e o convite para ficar um pouco na praia foi automático. Completamente vazia, estava um espetáculo apreciar seu ruído inerente sob o luar e as estrelas, confortavelmente instalado numa poltrona do deck público. Até o "seu" Walter aproveitou esse momento e caminhando na areia, foi até uma longínqua pedra, onde puxou conversa com dois ou três pescadores que ali estavam. E voltou com um "presente", trazendo alguns peixes numa cumbuca que ganhou dos pescadores. Para que aceitou o presente, nunca soubemos, pois certamente que não os prepararia e como os conservaria, era uma incógnita, pois de pronto o desaconselhamos a pensar no frigobar do quarto do hotel...
No dia seguinte, teríamos outro show em Florianópolis, e de novo numa casa noturna, mas ao contrário da noite anterior, tratava-se de uma ambiente mais Rock'n Roll e poderíamos usar e abusar da eletricidade, e soltar a mão...

Após esse raiar do sol lúdico na praia deserta, e apesar do vento forte que ali fazia, deu para descansarmos bastante, e com compromisso na mesma cidade, tudo ficava mais ameno, visto que encarar estrada dia após dia, é que efetivamente cansava-nos em demasia. Fomos para o "Drakkar", uma casa noturna localizada no centrinho nervoso da Lagôa da Conceição, portanto ali mesmo daquele lado da Ilha, com muita tranquilidade e rapidez.

Montamos o backline da banda no palco tímido da casa, mas isso também não causava-nos grandes transtornos, pois há anos estávamos acostumados a lidar com todo tipo de palco, dos grandes de teatros, aos minúsculos, de pequenas casas noturnas. A casa era bem montada, mas bem diferente da ambientação mais fina do "Matisse", onde tocáramos na noite anterior. Mais Rock, parecia mais aberta a abraçar um show de Rock, e de fato, assim transcorreu. Após o soundcheck, resolvemos voltar ao hotel só para tomar banho, pois no entorno do Drakkar havia muitos restaurantes, alguns charmosos até, com muitos turistas etc etc. Portanto, voltamos para jantar e já ficarmos por ali mesmo, aguardando a hora do show.

Foi nesse momento pós jantar e pré show que eu e Marcello sentamo-nos na porta do bar em mesinhas que ficavam de fora da casa, e vimos que um rapaz cabeludo parou, ficou olhando o cartaz, e o vimos perguntando ao porteiro da casa, se éramos mesmo a "Patrulha do Arnaldo Baptista", ou uma banda cover / Tributo. Foi quando eu reconheci-o. Era Ricardo Graça Melo, ator e cantor, filho da atriz Marília Pêra, e do produtor de TV, Guto Graça Mello, famoso nos anos setenta e oitenta por ter estrelado filmes ("Menino do Rio" etc), e novelas. Levantei-me e fui falar com ele, convidando-o a vir mais tarde para assistir o show, mas ele não apareceu... perdeu um dos shows mais energéticos que fizemos em 2003, pois nossa performance no Drakkar foi alucinante, com um público quente, com muitos fãs da banda e participação de Luiz Carlini e Helena T., que estavam na cidade e foram atuar no show, conosco. Saímos do palco inteiramente suados e satisfeitos com o resultado sonoro e o calor do público que delirou. Uma tremenda lembrança que guardo com carinho. Aconteceu em 3 de maio de 2003, no Drakkar de Florianópolis, com cerca de 80 pessoas na plateia. Um show em outra cidade havia sido cancelado, e com essa falta de apresentação em Vacaria / RS, ficamos com um hiato até o próximo compromisso : Porto Alegre. Portanto, esticamos mais um dia em Florianópolis, aproveitando o hotel e a extrema proximidade entre o mar e as dunas. E no meio da tarde, partimos para Porto Alegre, onde faríamos duas noites numa casa onde muitas histórias foram geradas.

Porém antes, chegamos em Novo Hamburgo para tocar na segunda feira. O show de Vacaria havia sido cancelado na noite anterior de domingo, mas o de Novo Hamburgo estava confirmado, sem nenhum indício em contrário. Chegamos na bela cidade gaúcha com tranquilidade e a temperatura estava amena, ainda bem.

Tocaríamos novamente numa casa noturna simpática, cuja decoração temática aludia aos Beatles, fazendo jus ao seu nome : Abbey Road. Já havíamos apresentado-nos ali em 2002, e houvera sido um grande sucesso de público, portanto, tínhamos a perspectiva de repetir a dose, quiçá superá-la. Montamos o backline e realizamos o soundcheck com tranquilidade, quando uma conversa estranha irrompeu nos bastidores e o Junior não apreciou o rumor.

Não cabe aqui esmiuçar o fato, pois é desagradável e não acrescentaria nada à minha autobiografia e mesmo porque estaria caindo no erro do julgamento. O que cabe dizer, é que envolvia um desmando do que havia sido previamente acordado em questão de valores e sem acordo para chegar a um bom termo, o Junior endureceu a negociação, ou melhor, a renegociação e diante do impasse, cancelou o show. Não foi a primeira vez que eu passei por esse tipo de situação na carreira, e aliás, no futuro teria mais vezes esse tipo de dissabor, infelizmente.

Acho que no calor dos acontecimentos, o Junior agiu corretamente como "empresário" que era forçosamente da banda, mas foi bastante frustrante desmontar o palco sob desilusão completa, e pior ainda, foi conversar com muitos fãs da banda que já aglomeravam-se na porta do estabelecimento, absolutamente surpreendidos pela notícia do cancelamento e frustrados, naturalmente. Uma pena mesmo, e assim, deixamos de tocar em Novo Hamburgo na noite de segunda feira, 5 de maio de 2003. Bem, só restava-nos cair na estrada e irmos diretamente para Porto Alegre, onde o dono da casa noturna onde tocaríamos prontificou-se a abri-la ainda naquela noite em caráter excepcional, só para podermos guardar o "backline" da banda.

Teríamos o dia livre em Porto Alegre, de qualquer forma, mas com o cancelamento do show de Novo Hamburgo, antecipamos em muitas horas a nossa previsão de estada na capital gaúcha. A casa onde tocaríamos chamava-se "8 1/2" e assim que conheci o seu jovem proprietário, a primeira coisa que perguntei-lhe, foi se o nome da casa tinha a ver com o filme de Federico Fellini, e só pelo semblante do rapaz, já notei que ele apreciava, mesmo antes de pronunciar alguma palavra, confirmando minha suspeita.

Bem, claro que gostei e sabia que o Junior também adoraria essa alusão explícita ao cinema. O estabelecimento era bonito pelo fato de ser um velho casarão outrora residencial, e aparentemente, sendo uma construção dos anos 1910 ou 1920, talvez pelo seu estilo arquitetônico. Tudo isso era muito bonito visto pelo aspecto histórico, mas a casa não era a mais adequada para realizar shows de Rock. Apesar dos cômodos amplos e com pé direito alto, típicos de uma mentalidade arquitetônica antiga que privilegiava espaço, sobretudo, o fato era que a construção fora concebida para ser residência, e claro que o arquiteto que concebeu-a em 1910 ou 1920, jamais imaginou que um dia ali seria um mini centro cultural com apresentações musicais, quanto mais com a eletricidade de um ritmo musical que só surgiria 30 ou 40 anos depois da data em que a casa fora construída...


Mas nada disso desanimava-nos, pois já havíamos tocado em ambientes adaptados de residência para estabelecimento noturno antes, e as possíveis adversidades não tirar-nos-ia o foco, portanto.
Um dos pontos obscuros, por exemplo, era o fato de haver colunas que representavam verdadeiros pontos cegos para algumas pessoas, caso a casa superlotasse, e era inevitável, pela arquitetura do imóvel.

A despeito dessas dificuldades, o dono que era um rapaz jovem e bastante falante, estava muito empolgado, e como empresário, não mediu esforços para levar-nos para tocar na sua casa e dar-nos as melhores condições possíveis. O equipamento de P.A. contratado por ele era simples, mas funcional para o tamanho da casa e não deixar-nos-ia em em situação ruim. A luz era fraca, mas estávamos resignados que ali faríamos dois espetáculos "intimistas", portanto, era quase como fazer show no saudoso Teatro Lira Paulistana em São Paulo, onde a proximidade invasiva do público tornava o show um martírio para quem sofresse de "Stage Fright" (medo de palco).
Na primeira noite, teríamos a abertura de uma banda local, com um som completamente dispare, saindo do padrão normal de bandas de Rock, e geralmente militando no campo do Hard-Rock. Desta feita, a banda escalada era instrumental em essência e praticava uma espécie de Free Jazz de muita técnica e volúpia. Chamava-se "Blass". Já no soundcheck confraternizamo-nos com os rapazes que usaram todo o nosso equipamento, e até uma Jam session aconteceu, com o Marcello tocando baixo e o Rodrigo aos teclados. Lembro que a banda deles era grande, com sete ou oito componentes, e além dos instrumentos tradicionais, tinha alguns sopristas em sua formação, o que dava-lhes uma estridência extra.


Seu som era bastante violento, no sentido do ímpeto, praticamente com pegada de Rockers, coisa nada usual entre jazzistas. Então, mesmo professando um som que beirava o Free Jazz, tocavam como uma banda de Rock furiosa. Em suma, com toda aquela técnica e pegada, eram muito bons. Claro, o som que faziam era para poucos aficionados e nada popular... portanto, mesmo estando tocando em seus domínios, a possibilidade de atraírem um público agregado, era mínima. Sendo assim, o produtor do show privilegiou a qualidade artística do evento, mas não pensou na sua melhor condução sob o ponto de vista comercial. Como músico; artista e entusiasta da arte & cultura, achei uma maravilha, mas comercialmente falando, foi uma decisão equivocada, sob o ponto de vista gerencial, eu diria. Uma grande pena, pois não atraímos um grande público, e certamente que o som anticomercial do Blass, muito menos.

Apesar de estarmos diante de apenas 40 pagantes, fizemos nosso show habitual, e quem estava ali presente fora para ver-nos e gostou muito. Fomos bastante assediados para cedermos autógrafos e numa casa sem estrutura de camarins, mesmo que não gostássemos e quiséssemos isso, seria inevitável. Mas claro que adorávamos esse carinho e foi sensacional. Horas antes do show, quando chegamos ao estabelecimento, eu tive uma experiência das mais agradáveis, pessoalmente. Assim que chegamos, um rapaz que estava sozinho encostado no muro, abordou-me e ostentava em suas mãos, uma cópia do compacto da Chave do Sol, minha banda nos anos oitenta. Dizendo-se emocionado por conhecer-me, reivindicou meu autógrafo na capa, e pediu-me mil desculpas por não poder assistir o show, visto ser um dia útil e isso prejudicar-lhe-ia bastante no dia seguinte, tendo que acordar cedo etc etc.
Como não emocionar-me com uma abordagem assim ?
Aquela sensação de dever cumprido, de que tudo valeu a pena e a carreira cumpria a sua função, espalhando arte; cultura & emoção para a vida das pessoas, enfim... posso não nadar em dinheiro, não ser mega famoso em esferas populares; não apareço no "Faustão" e nem sou falado em sites de fofocas de "famosos", mas tenho plena consciência que tenho fãs e admiradores da carreira inteira, espalhados pelo país afora.

No dia seguinte, o dono do estabelecimento estava chateado com o resultado financeiro da noite anterior e pediu-nos um abatimento no cachet acordado e fixo, com o qual prometera-nos em São Paulo.
Mas diferentemente da situação vivida em Novo Hamburgo duas noites antes, percebemos nitidamente que o rapaz era um produtor jovem e ainda inexperiente em vários aspectos, e que ao não saber lidar com a realidade do show business, estava diante de uma situação difícil. Bem, claro que nessas circunstâncias muito diferentes, demos-lhe um abatimento, visto que estava patente que o rapaz esmerara-se para fazer o melhor, mas faltou-lhe experiência para dar os passos certos e não errar na produção. Portanto, claro que mereceu um voto de confiança. No dia seguinte, tivemos um público bem melhor e quase que deu para o rapaz equilibrar suas contas e pagar nosso cachet, ainda que com um desconto generoso, sem tirar do bolso para coibir o prejuízo.

Nesse segundo show, a banda de abertura foi de Rock, mais próxima da nossa sonoridade, do que o Jazz instrumental e muito louco da noite anterior. Chamava-se "Suco Mau", e pelo que lembro-me, os rapazes faziam algo muito próximo do Brit Pop noventista, ou seja, iam na esteira daquelas bandas britânicas que resgatavam bubblegum sessentista, quase que explicitamente.
Enfim, gostei da sonoridade dos "guris" e apesar de ter apreciado muito a performance forte da banda da noite anterior e sua diversidade musical em relação aos nosso trabalho, claro que uma banda de Rock resgatando sixties em doses maciças agradava-me muito mais, particularmente. Sobre o nosso segundo show, foi tão bom ou melhor que o da noite anterior, dando-nos muita satisfação com esse contato com o público rocker portoalegresense. Apesar das dificuldades em fazer shows numa casa não muito apropriada para a prática do Rock; e dos erros de estratégia do produtor, ainda que plenamente justificados, gostamos de fazer os dois shows, sem dúvida alguma.

Os shows no bar "8 1/2", ocorreram nos dias 7 e 8 de maio de 2003, com 40 e 70 pagantes, respectivamente. Uma lembrança boa que guardo desses três dias em Porto Alegre, aconteceu por dica do produtor do show, que aliás não mediu esforços para dar-nos o máximo de conforto e hospitalidade nesses dias. Ele falou-nos sobre uma tradição na cidade, que são as pastelarias uruguaias que tem aos montes em todos os bairros de Porto Alegre. E de fato, muito perto da casa noturna, havia uma que frequentamos bastante naqueles três dias. Diferentemente das pastelarias paulistas geralmente administradas por japoneses ou chineses, em Porto Alegre existe essa tradição de pastelarias abertas por imigrantes uruguaios, que apresentam uma receita de massa diferente, muito peculiar e saborosa. Tais pastéis apresentam os recheios clássicos dos pastéis convencionais, mas alguma coisa tem de diferente na composição da massa que torna-os diferentes e muito saborosos, fora a questão do molho que servem como acompanhamento, alguma coisa com ervas e azeite, que é muito bom.

Nada contra as pastelarias paulistas / paulistanas administradas por orientais e aliás, que são maravilhosas e inigualáveis para quem não conhece São Paulo, mas essas de uruguaios que moram em Porto Alegre, são peculiares e muito boas também. Bem, dicas turísticas a parte, era hora de deixar a bela capital gaúcha e rumar para outra cidade, ainda dentro do Rio Grande do Sul. São Leopoldo, onde já havíamos tido tantas alegrias no passado, aguardava-nos novamente...

Rumamos para São Leopoldo, na tarde do dia 9 de maio, e sabíamos de antemão que teríamos uma entrevista numa emissora de rádio local, para auxiliar na divulgação do evento. A casa onde tocaríamos, seria novamente o BR-3, local onde já havíamos apresentado-nos anteriormente. Sobre a casa e suas limitações, já discorri amplamente em capítulos anteriores, assim como também já destaquei os inúmeros pontos positivos de ali apresentar-se, muito mais condicionados aos fatores humanos.

Novamente teríamos o apoio de nosso colaborador incansável, Luciano Reis, e claro, sua banda novamente abriria o evento. Bem antes do soundcheck, enquanto nossos roadies descarregavam o ônibus, eu; Junior e Rodrigo fomos levados ao campus da "Unisinos" (Universidade do Vale dos Sinos), uma importante universidade gaúcha e cujo nome fazia referência à região onde São Leopoldo e outras cidades gaúchas inserem-se, o chamado "Vale dos Sinos". Nossa entrevista deu-se na emissora gerida pela própria universidade e ali fomos muito bem recebidos e a entrevista foi ótima, com o locutor preparado para receber-nos e fazendo perguntas pertinentes. Numa visita de cortesia a discoteca da rádio, ficamos contentes por verificar que havia álbuns de vinil da Patrulha em seu acervo.


Também ficamos contentes por verificar que uma boa matéria havia saído no maior jornal da região, reforçando a divulgação. Fizemos o soundcheck com objetividade e pelo fato de já conhecermos o local e suas limitações, já sabíamos de antemão das providências a serem tomadas para minimizar as precariedades e nesse sentido, claro que a ação providencial do Luciano em buscar soluções práticas, foi novamente fundamental. Sua banda, o "Voodoo Trio", tocaria mais uma vez um repertório de covers variados e bem calcados em clássicos do Hard-Rock setentista internacional, e notadamente britânico.

Fizemos um ótimo show para o quente público de São Leopoldo e sempre era muito prazeroso ter uma plateia rocker, 100% antenada nos nossos valores e tradições. Desta vez não xingaram os portoalegrenses e nem cantaram o hino gaúcho, mas "gato escaldado", eu também não falei nada sobre termos feito dois shows na capital e não despertei a rivalidade local entre eles...  
Dia 9 de maio de 2003, BR-3 Bar, São Leopoldo - RS, com 120 pessoas rockers de verdade na plateia !
Missão cumprida e com louvor, graças ao gás que sempre ganhávamos do público de São Leopoldo, a próxima parada seria em Joinville / Santa Catarina.

Viagem tranquila e é preciso salientar que não ter problemas com o ônibus era algo raro... chegamos em Joinville para mais uma apresentação na casa noturna "Cais 90", onde já havíamos apresentado-nos também, em ocasiões passadas. Sabíamos que a acolhida era ótima, um bom público compareceria e haveria um contingente rocker de primeira qualidade, baseado na experiência adquirida ali mesmo. De fato, tudo isso aconteceu, e com um dado a mais : desta feita, com um público bem maior do que o de ocasiões anteriores. Foi muito bom rever o já amigo Parffit Balsanelli, baixista da banda "Os Depira", e nessa altura dos acontecimentos, nossas conversas sobre o Prog Rock setentista eram sempre animadas.

A abertura do show ficou a cargo de uma banda chamada "Blues Band" e que de fato, honrou o nome fazendo uma sessão boa de blues. O som do P.A. continuava mono, mas o dono também continuava hospitaleiro e tão simpático conosco, que nem reclamamos. Só um dado chato, mas eram ossos do ofício. Na primeira vez que fomos tocar nesse estabelecimento, fomos hospedados num tremendo de luxo; na segunda, num muito bom, mas seguramente duas "estrelas" abaixo. Nesta terceira vez porém, o rapaz pediu-nos mil desculpas, mas alegando dificuldades, solicitou-nos a gentileza de que alojássemo-nos num hotel mais simples. Ora, ok, ninguém nessa banda era estrela e teria um chilique por isso.  Só que não contávamos com uma queda tão brusca de acomodações, pois esse hotel foi dureza de aturar, com uma verdadeira horda de pulgas e pernilongos a assolar-nos... ha ha ha...
Voltamos do show na metade da madrugada e a meta era dormir para viajar após o almoço, mas isso não foi possível quando demo-nos conta de que dormir não seria possível com tantos amiguinhos vampiros interessados em alimentar-se com o nosso sangue...
Bem, não foi culpa do nosso simpático anfitrião, mas da conjuntura econômica e assim, mesmo entendendo perfeitamente a dificuldade inerente, preferimos encarar os 650 Km que separavam-nos de São Paulo e nossas respectivas residências. "seu" Walter deu a partida no ônibus, e embora todos estivessem bem cansados, não furtou-se de seus berros habituais : -"sai da frente do azulão, seus FDP"...



Tínhamos uma convocação para participar de um show comemorativo, do qual não poderíamos faltar, e na prática, seria um prazer participar. A loja / gravadora Baratos Afins faria aniversário de 25 anos de existência e estava preparando um show comemorativo com alguns artistas do seu elenco. A Patrulha tinha uma história ali e eu, particularmente, também, pelo fato de minha ex-banda, A Chave do Sol, também ter construído uma história nessa gravadora, com dois álbuns ali lançados. Mas antes de participarmos desse show festivo, uma outra festa e desta feita bem mais intimista, apareceu na nossa agenda.
O casal Brandini faria uma festa, e muito amigos de todos da banda, convidaram-nos a tocar em sua festa particular, mas que na verdade seria realizada num ambiente aberto ao público em geral e dessa forma, acabou constituindo-se num show da banda, propriamente dito.

Foi muito prazeroso e não tivemos nenhuma preocupação em divulgar o evento por não ter caráter de show, embora no momento crucial, acabou constituindo-se num show de fato, com bastante gente no ambiente, inclusive, gente alheia a festa do casal amigo.

Ocorreu no dia 17 de maio de 2003, num bar chamado "Granfino", situado na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Cerca de 100 pessoas viram-nos tocar num show intimista, com aquela característica semi acústica que tínhamos "na manga", como opção para ocasiões assim. Agora sim, a próxima parada seria o Sesc Pompeia, um palco histórico de São Paulo, e que abrigaria a festa da Baratos Afins.

Todas as fotos dessa apresentação intimista no Granfino Bar, são do acervo de Cynthia Baker Brandini

Como já mencionei anteriormente, teríamos um show prazeroso para fazer, em homenagem a loja / gravadora Baratos Afins.
É inegável o prestígio que o produtor Luiz Carlos Calanca tem no meio musical, tanto por sua loja que é uma das mais tradicionais e famosas do Brasil, quanto sua gravadora, que tantos artistas bacanas lançou e claro que sinto-me suspeito e até meio constrangido em incluir-me nesse rol, usando de autoelogio, mas claro que dele faço parte.

Comemorando os 25 anos de existência da Baratos Afins na ocasião, o Calanca convocou a Patrulha do Espaço para tocar e de fato, nossa banda havia sido uma das primeiras a produzir álbuns nessa gravadora alternativa e com ares de independente, mas que crescera e mesmo com o Calanca negando peremptoriamente, havia tornado-se uma gravadora de médio porte com uma estrutura que muita gravadora supostamente de maior porte não ostentava.

O show seria realizado no palco da Chopperia do Sesc Pompeia, e contaria com muitas atrações que eram do passado da gravadora, ou daquela atualidade de 2003. Seriam três dias, caracterizando um mini festival, e com o prestígio que o Calanca tinha, arregimentou uma boa mídia espontânea, além de atrair um bom público nos três dias.

No camarim, Serguei contou pela "bilionésima" vez o seu namoro com Janis Joplin, e exagerando ao cubo, falou de sua estada em Los Angeles em 1970, e passeios em carrões americanos conversíveis, com Jim Morrison; Janis Joplin & Jimi Hendrix ao seu lado como companhias, e todos "viajando" de ácido. Bem, quanto a viagem de ácido era a única coisa que poderíamos acreditar ser verdade...

Mas claro, a mentira contumaz contada com aquele teatro glamorizado todo que ele fazia, tornou a nossa estada no camarim divertidíssima. Lembro-me do baterista Junior Muelas imitando-o a posteriori, com uma perfeição tão grande que superou o nosso imitador-mor, Rodrigo Hid. Hilário !!

Outra figura que estava no mesmo camarim, era o Catalau, ex-vocalista do Golpe de Estado, e que agora estava convertido ao cristianismo de viés evangélico e tornara sua carreira solo como cantor, direcionada à música Gospel. Que fosse (e seja feliz), com sua fé.

O show foi filmado, e a filha do Luiz Calanca, Carolina Calanca, tinha a intenção de fazer um documentário dele, mas demorou anos para que isso concretizasse-se. Finalmente em 2016 Carolina Calanca anunciou nas Redes Sociais ao menos o lançamento da apresentação da Patrulha do Espaço. Veja abaixo a performance da banda nessa grande festa da Baratos Afins, na Chopperia do Sesc Pompeia, em São Paulo, no dia 23 de maio de 2003. Um rapaz chamado Juliano Peleteiro leva crédito como coprodutor do documentário :

Eis o Link para assistir no You Tube :



https://www.youtube.com/watch?v=KpBzlgliD6M




Sobre nossa apresentação, foi muito quente, com o público respondendo de uma forma excepcional. Achei a receptividade tão calorosa, que lamentei ser um show de choque, pois com aquela plateia rocker, nós e eles, o próprio público, merecíamos ter um show completo.

Para incrementar esse público tão animado, havia um contingente de pessoas que haviam vindo de Brasília só para ver-nos. Abordando-nos no pós-show, contaram-nos que faziam parte de uma turma grande de cultuadores de Rock 1960 / 1970 e odiavam a fama que Brasília tinha de ser reduto de "rockeiros" oitentistas, berço do "BR-Rock 80's" e antro de punks burgueses, metidos a "revoltados com o sistema", todos filhinhos de diplomatas e funcionários públicos de alto escalão ou milicos. Cáspite !! Então havia vida inteligente em Brasília, que maravilha...


Foi um grande show, ainda que curto demais diante daquele euforia que geramos, uma pena, pois parecia clima de show de Rock nos anos 1970, tamanha a interação e magia criada em perfeita sincronia.


Dia 23 de maio de 2003, Chopperia do Sesc Pompeia, em São Paulo, festa de 25 anos de existência da Baratos Afins, e com cerca de 300 pessoas na plateia.

No dia seguinte, teríamos um show no interior de São Paulo.

Após a ótima apresentação no show de aniversário da Baratos Afins, fomos novamente ao interior paulista, mas desta vez, para um show apenas, em caráter avulso e não inserido em uma mini turnê. Nosso destino foi Limeira, para mais uma aterrissagem no Bar da Montanha, reduto Rocker daquela cidade, capitaneado pelo Wando e seu irmão, ambos rockers contumazes. Uma ótima notícia, a banda de abertura seria o "Homem Com Asas", dos nossos amigos de São Carlos, e aliás, uma ótima banda.

O frio já fazia-se presente no final de maio, e mesmo no sempre tórrido interior paulista, naquele fim de tarde e noite, o vento frio apresentou-se proeminente. A casa lotou, e ao contrário de ocasiões anteriores em que ali tocáramos, quando o público dividiu-se entre os fãs da Patrulha super animados e outra parcela apática (apesar de ser visualmente ao menos, "rocker"), desta feita comportou-se de forma linear, apreciando o show da forma como gostávamos que sempre aproveitasse.

Uma turma vindo de uma cidade próxima, Santa Bárbara D'Oeste, estava enlouquecida, lembrando o comportamento dos Rockers de Chapecó / SC, quando apresentamo-nos na cidade vizinha de Concórdia-SC. Tanto que tivemos que ofertar dois "bis" para poder encerrar o show, porque o público estava alucinado e não deixava-nos sair do palco. Noite memorável e em se considerando que a noite anterior fora espetacular também, com direito a ovação do público em São Paulo, posso afirmar que foi uma sequência muito vitoriosa para a banda. Dia 24 de maio de 2003, sábado; Bar da Montanha, Limeira / SP, e com 300 pessoas na plateia.

Chegamos em São Paulo já com dia amanhecido, apesar da curta distância de apenas 170 km que separam Limeira de São Paulo, e sob um frio de rachar. Missão cumprida com louvor, o Rock fora glorificado nesses dois últimos dias. Muitas matérias saindo sobre o novo CD e / ou entrevistas, animavam-nos, e um novo show no Centro Cultural São Paulo estava aproximando-se.

Uma entrevista que concedi a um fanzine temático pró anos sessenta / setenta, chamado "Mutante", deu-me a oportunidade de falar mais profundamente sobre a proposta da banda desde sua volta de 1999. Tirante alguns momentos de ingenuidade confessa, inebriado pela minha idiossincrasia que fazia-me ter a falsa impressão de que "viraríamos o jogo" naquele momento, o que pregava, ainda prego. Meu comprometimento com as tradições do Rock; contracultura; ideais aquarianos; não mudam, jamais.





Uma ótima entrevista saiu na revista Rock Brigade, nº 202, publicada em maio de 2003, e conduzida pelo ótimo jornalista Antonio Carlos Monteiro ("ACM", ou "Tony Monteiro", entre amigos). Nela, falamos sobre o momento de 2003, sob os auspícios do álbum ".ComPacto", e nesse aspecto, como ele foi concebido e as suas diferenças e semelhanças com o álbum anterior, "Chronophagia". Um curioso "box" proposto pelo jornalista Tony Monteiro, exigiu do Junior uma reflexão sobre os ex-membros da banda e seus respectivos destinos após passagem pela banda.
Acabou tornando-se um documento histórico para a história da banda, sem dúvida.


Mais uma entrevista muito legal foi publicada na revista "Cover Guitarra", com nossos guitarristas, Rodrigo Hid e Marcello Schevano, e que fugindo ao padrão desse tipo de publicação voltada para o mundo dos guitarristas com assuntos técnicos sobre tal universo, optou por deixá-los falar a vontade sobre aspectos subjetivos da produção artística da banda. Muito bacana a opção da jornalista, Ana Teresa Bolognesi, para a edição de nº 102 dessa revista.

E mais uma vez o nosso baterista, Rolando Castello Junior concedeu entrevista para a revista "Batera & Percussão", desta vez, em sua edição de nº 69, e conduzida pela jornalista Mariana Souza.
Junior falou a vontade sobre o novo álbum e também discorreu sobre as dificuldades em ser artista independente no Brasil, tendo que enfrentar todas as dificuldades inerentes que criam-se para o empreendedor em geral e nesse caso, o produtor cultural, para poder colocar uma obra na prateleira. E se for o próprio artista que cuida disso, mais dramática ainda é a situação...


 


Fanzine Mega Rock, n° 34, de julho de 2003, com entrevista conduzida pelo sempre abnegado fanzineiro Fernando Cardoso.

Em mais uma abordagem do fanzineiro Fernando Cardoso, para o seu veículo, o "Mega Rock", concedi uma entrevista sozinho, recebendo o fanzineiro em minha própria residência. Por falta de sincronia com os demais companheiros que não podiam estar presentes no mesmo dia e hora, falei como porta voz da banda e esmiucei o novo álbum, sob vários aspectos, inclusive com considerações sobre cada faixa.

O release oficial do disco ".ComPacto", que foi escrito pelo jornalista Dum de Lucca. Em anexo, nessa montagem para envio à imprensa e produtores de shows, algumas frases extraídas de resenhas em órgãos de imprensa, visando causar impacto, e um box com a discografia completa da banda, como anexo, além dos contatos, naturalmente.

Resenha do show de lançamento do CD ".ComPacto", na revista Rock Brigade, nº 202, publicada em maio de 2003.

Outra resenha simpática do show de lançamento do álbum ".Com Pacto", que fizéramos em março e publicada na revista "Rock Brigade em maio de 20003, de número 202, mas o rapaz em questão cuja sigla "PM" não consegui decifrar de quem tratava-se, equivocou-se sobre um convidado. Ricardo Schevano, irmão de Marcello Schevano, na verdade é baixista, e entrou para tocar "Meus 26 Anos", mas no baixo. Mas tudo bem, um pequeno lapso, acontece...
Próximo compromisso : Centro Cultural São Paulo.


Desde 1999, havíamos adquirido a rotina de ter uma temporada anual no histórico Centro Cultural São Paulo. Apenas em 2000, tivéramos um show apenas, de forma isolada, mas nos demais anos até então (1999; 2001 e 2002), tínhamos tido mini temporadas, com dois ou três shows consecutivos.

Desta feita no entanto, a agenda do CCSP concedeu-nos só um dia, e como já expliquei reiteradas vezes, tocar um dia só é sempre um transtorno, porque dá todo o trabalho de transportar e montar o equipamento; arrumar o camarim; afinar a iluminação e fazer o cansativo soundcheck, e para um único show apenas, com a perspectiva de ter que desmontar e cuidar da logística da saída, no mesmo dia, e quando tem-se mais um ou mais dias de espetáculos, os demais dias de apresentações são muito mais tranquilos, com o artista tendo mais tempo para relaxar e concentrar-se em fazer uma boa performance no palco, tão somente. Infelizmente, em 2003, isso não foi possível e assim, só tivemos essa data em julho.

A registrar-se também que tivemos um adereço de cena muito especial nesse show, ao colocarmos no palco uma escultura em formato de um Extra Terrestre, estilo "Grey", para quem acompanha a ufologia. Tal obra era de autoria de uma das filhas da fotógrafa Ana Fuccia, que emprestou-nos gentilmente. Em tamanho mais ou menos de 1.50, impressionava pela perfeição, e ficou acomodado perto da bateria, a chamar muito a atenção do público.
Nada melhor para enfeitar o palco, que um "ET", fazendo jus as tradições espaciais da banda...

Tudo bem, fizemos nossa divulgação de praxe e lá fomos nós tocar, no dia 20 de julho de 2003, um domingo.

Tivemos novamente o Dudu Chermont como convidado mais do que especial. Nesse caso, digo que um ex-membro histórico da própria banda não era um convidado, mas algo além, pois sua história na banda conferia-lhe um status diferenciado em relação a outro convidado que viesse a abrilhantar a noite.

Tivemos um bom público, e a performance do Dudu conosco foi bastante emocionante. Exatamente como fizera quatro meses antes o show de lançamento do álbum ".ComPacto", num salão da zona leste de São Paulo, Dudu tocou como se o tempo não tivesse passado.

No entanto, sua saúde estava péssima, decorrente de várias doenças degenerativas que acometiam-no, tirara-lhe a vitalidade e também a coordenação motora. Por perder os sentidos com frequência devido aos picos de subida da pressão arterial, ele estava há meses tendo desmaios que conferiam-lhe tombos terríveis e assim, estava sempre com escoriações pelo corpo todo.

De fato, estava irreconhecível, envelhecido e com uma coloração de pele que denunciava as doenças, e ainda por cima com escoriações por conta das quedas.

Todavia, quando empunhou a guitarra e cantou, já no soundcheck, era incrível como se uma luz vinda dos Deuses do Rock iluminasse-o, pois tocava e cantava como se estivesse nos anos de ouro de sua presença como guitarrista e vocalista da Patrulha, nos anos oitenta. Tocando e cantando com uma firmeza incrível, naqueles minutos em que atuava no palco, parecia o Dudu Chermont "Rock Star" que eu conhecera pessoalmente em 1982, mas que já acompanhava desde 1976, vendo-o tocar ao vivo em shows de Rock.

Dudu Chermont em dois momentos : tocando com a Patrulha do Espaço no final dos anos setenta, a esquerda; e no dia do show do Centro Cultural, à direita. Na foto de 2003, dá para ver o braço do meu baixo Rickenbacker, ao fundo 

Eu, e creio que todos, ficamos emocionados com sua performance no show, e tristes ao mesmo tempo, vendo-o num estado tão debilitado, que fazia-lhe ter dificuldade de locomoção. Inclusive estava usando uma bota de gesso, pois havia fraturado o pé recentemente. Enfim, não só emocionou-nos no dia, como é chato ter que observar isso, mas esse foi o seu último show de Rock em vida, pois ele veio a falecer dois meses depois, em setembro de 2003. Dia 20 de julho de 2003, domingo. Centro Cultural São Paulo, com 300 pessoas na plateia. Esse show foi filmado, e um dia, tais imagens poderão vir à tona, via You Tube.

Dedico este capítulo ao grande Dudu Chermont.

Foto da formação clássica da Patrulha do Espaço, do início dos anos oitenta. Dudu Chermont a esquerda; Rolando Castello Junior ao centro e Serginho Santana a direita. Infelizmente, Dudu e Serginho deixaram-nos e reforçam atualmente o time de Rockers lá no Olimpo dos Deuses do Rock
 
Continua...

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