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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 4 - Chronophagia Indo para a Estrada - Por Luiz Domingues

E em junho, estávamos com o disco saindo do forno. Envoltos nos últimos trâmites burocráticos, aguardávamos o envio da fábrica onde mandamos prensá-lo.

A perspectiva de shows era só para julho, onde tínhamos uma leva de shows para fazer em cidades interioranas, incluso nossa primeira apresentação interestadual, indo ao estado vizinho do Paraná, para um show em Londrina. Para tal empreitada, contratamos novamente os serviços da empresa de ônibus Magic Bus, de propriedade de primos meus. O conforto da viagem estava garantido. A primeira parada era a cidade de Avaré, ainda em território paulista. O contato desse show houvera sido arrumado pelo fã, Dárcio, que tinha um fã-clube dos Mutantes e ficara entusiasmado com a nossa aparição no programa "Turma da Cultura", no início de maio, e como conhecia o dono de uma casa noturna na sua cidade, fez a ponte, possibilitando o contato.

Na coluna do "Paulão Rock'n Roll", crítico de Rock do Jornal de Londrina, o terreno se preparava para o nosso show naquela cidade paranaense, em julho de 2000...

A viagem prosseguiria no dia seguinte, rumo à Londrina, no norte do estado do Paraná, e oportunamente na rota, com Avaré sendo a metade do caminho, praticamente em relação à distância São Paulo / Londrina. A primeira etapa foi muito tranquila. Fomos na ida à Avaré, assistindo vídeos da minha coleção de VHS, entre eles, o primeiro filme da dupla junkie, Cheech & Chong ("Up in Smoke"), que arrancou gargalhadas durante o percurso.

Em silêncio, eu agradecia ao cosmos pelo bom momento que vivíamos, e eu em particular, estava nas nuvens, viajando em tour com uma banda de Rock de fortes características sessenta / setentistas, e vendo aquela descontração total na nossa comitiva, com todo mundo divertindo-se vendo o filme, foi um momento mágico que guardo na memória. Chegando à aprazível cidade de Avaré, dirigimo-nos diretamente à casa noturna denominada "Ferro Velho". Ficava bem localizada, próxima ao centro da cidade, e com sua ordenação urbana tipicamente interiorana, com a praça da Matriz, comércio etc etc.

A casa era pequena em seu espaço físico, mas bem montada, com uma decoração que misturava sucatas de automóveis e quadros de ícones do Rock. O palco era minúsculo, e exigiu um exercício de imaginação de nossa parte, para acomodar o equipamento. Durante a arrumação, recebemos a visita do Dárcio, o rapaz que propiciou aquele show, e que estava muito eufórico, naturalmente pelo show em si, e também pela oportunidade que teve em ser-nos útil.

Ele trouxe-nos também um amigo que igualmente era um apreciador / conhecedor de Rock, e mais que isso, um colaborador importante do Portal "Wiplash", que chamava-se Marcos Cruz.
Extremamente inteligente e observador, emendou conversas agradáveis sobre a Patrulha, o Rock setentista e que tais, que foram retomados no período pós-show, estendendo-se até quase o amanhecer, no dia seguinte. Toda a sua observação sobre o show e a conversa que tivemos, tornou-se  substância para uma das mais belas resenhas de um show que eu já li, e que ele publicou dias depois no portal Wiplash. Após arrumarmos o som, adaptando-nos ao micro P.A. amadorístico que a casa possuía e na ausência de um técnico para auxiliar-nos, fomos para o hotel para descansar e jantar. 

Quando voltamos ao Ferro Velho para o show, tivemos a boa surpresa de que a casa estava lotada. Para surpresa do proprietário, estava abarrotada, visto que normalmente não lotava assim com as atrações de bandas cover locais, ou da região.

Claro, o público em sua maioria era formado pela juventude local, acostumado às noitadas de bandas cover e seria uma incógnita a reação diante de uma banda autoral, sem covers. A única música conhecida que tocaríamos para os conhecimentos da maioria presente, provavelmente seria "Ando Meio Desligado" dos Mutantes, mas com nosso arranjo, cheio de improvisos, e certamente a maioria só reconheceria pela versão do "Pato Fu", e nem mesmo a original dos Mutantes.

Era o dia 14 de julho de 2000, e 250 pessoas espremiam-se dentro do bar de dimensões modestas. Mas o Dárcio e o Marcos Cruz não estavam isolados, pois outros amigos deles estavam presentes.
Havia um pequeno, mas entusiasmado contingente de admiradores da Patrulha, conhecedores da nossa história e repertório.

Resenha do show do Ferro Velho em Avaré, com fotos ao vivo da banda atuando naquela casa noturna. Jornal "Diário da Terra"

O show foi muito energético e bem recebido mesmo em se tratando de uma banda só executando som autoral. Os Rockers iniciados soltaram gritinhos de entusiasmo em diversos momentos. Por reconhecerem músicas antigas ou por detalhes que só iniciados notariam, com algum solo mais intrincado; viradas ousadas da bateria; linhas de baixo agressivas, e nas intervenções dos dois meninos aos teclados, sempre brilhantes, à moda antiga dos tecladistas setentistas. Claro, em "Ando Meio Desligado", as reações dos não aficionados exacerbaram-se, e a menção à "In-A-Gadda-Da-Vidda", do "Iron Butterfly" arrancou uivos dos Rockers antenados, e em Avaré não foi diferente de todos os shows que fazíamos.

O dono da casa pediu-nos para dividir o show em duas partes, para não fugir muito do padrão das noitadas do bar, e no intervalo, lembro-me que uma garota entregou-me um bilhete. Quando o abri, vi que estava escrito : "Toquem Pink Floyd"... 

Ok, eu também amo o Pink Floyd, mas ali era um show da Patrulha do Espaço e ao dizer-lhe que só tocaríamos músicas próprias, ela mudou o semblante, e saiu resmungando que eu não iria atendê-la por má vontade, ou coisa do gênero. Caramba, como o público jovem estava desacostumado a aceitar música autoral !! Quando eu era adolescente nos anos 1970, pensava justamente o contrário !!
Se uma banda começava a tocar covers, eu incomodava-me, e quase todo mundo pensava igual, não era uma mania minha, exclusivamente...
Aproveitando que seria um set mais longo que o habitual, tocamos diversas outras músicas não previstas normalmente, aproveitando para ensaiar ao vivo e para delírio dos Rockers ali presentes. Quando encerramos, mais de quatro horas da manhã, enquanto os roadies desmontavam o equipamento, conversei longamente com o Marcos Cruz, onde falamos sobre os planos da Patrulha, como surgiu essa formação, lembranças minhas dos anos setenta etc.
Era uma conversa informal, mas como jornalista experiente que era / é, usou todo esse material, e suas impressões sobre o show para escrever uma das mais completas resenhas de um show que eu já li, e que publicou alguns dias depois no Site Wiplash.




 
Falou desde o soundcheck, minúcias sobre o show e citou a nossa conversa, encerrando poeticamente ao falar sobre a sua última visão, vendo o micro ônibus da banda dobrar a esquina e sumir de sua vista, já com os raios do sol anunciando o domingo. Não tivemos muito tempo para descansar, pois tínhamos quase 300 Km de chão pela frente, entre Avaré e Londrina.
Não deu para descansarmos muito, pois a viagem seria longa, e o objetivo era chegar no período da tarde na cidade de Londrina, a fim de fazer o Soundcheck, com relativa tranquilidade. A viagem foi boa, mas o ânimo dentro do micro-ônibus estava comprometido pelo cansaço. Sem o clima de euforia do dia anterior, onde fizemos o percurso São Paulo / Avaré e ríamos das aventuras junkies de "Cheech & Chong", agora a maioria queria dormir ou pelo menos tentar cochilar.

Resenha do álbum Chronophagia no Fanzine Matéria Prima, de Londrina-PR

Nesse aspecto, a viagem foi tranquila, mas a ida à Londrina  revelar-se-ia uma aventura cheia de aspectos dramáticos e alguns cômicos, que descreverei. Para início de conversa, tratava-se de um show dentro de um festival denominado "Mutantes Fest". A ideia era a Patrulha ser o show principal, e bandas locais fazerem as apresentações de abertura. No contrato que o Júnior assinou, o contratante  dizia que seria realizado num sítio ao ar livre, mas ainda estávamos na estrada e o contratante ligou, dizendo que chovera a noite inteira e ele resolvera transferir o festival para o salão de festas de um clube.

Resenha do álbum Chronophagia na Revista "Rock Brigade", assinada pelo mega competente jornalista, Antonio Carlos Monteiro

Isso já era um tremendo mau indício, pois sinalizava que toda a infraestrutura prometida fora desmontada e remontada às pressas e pior, todo o esforço de divulgação jogado no ralo, com um lacônico cartaz colocado no portão de um sítio, dizendo que o festival fora transferido para um clube, era certamente a garantia de que nem 10% do público esperado, deslocar-se-ia para o tal novo lugar improvisado. Isso sem contar que por ser ao ar livre, havia a previsão de barracas de comidas, bebidas e souvenirs, estrutura de sanitários etc. Bem, pensamos : era uma fatalidade que todo produtor de shows passa ao arriscar shows ao ar livre e ser surpreendido por intempéries meteorológicas. É uma lástima, mas o risco é sempre enorme para quem produz shows assim.

Logo que chegamos, apesar do clube ser bacana e o equipamento disponibilizado, OK, ficamos ressabiados, pois a mudança de local era um indício de fracasso a vista, quase irreversível, naturalmente.
E o produtor do show, um rapaz novo, estava a mil por hora, e aparentando estar num estado emocional bastante alterado, o que não era um bom indício...
Passamos o som e no camarim, fomos percebendo os conflitos instaurados.

Foi quando o rapaz subitamente entra no camarim com a roupa toda amassada, e completamente pálido, tendo a seguir, uma crise nervosa na nossa frente !! Demos-lhe água e o acalmamos, quando contou-nos que acabara de tomara um "corretivo" dos seguranças que ele mesmo contratara !! Pior indício do que isso, impossível, pois quando um show caminha para o fracasso, é aconselhável que  pague-se primeiramente a segurança contratada, pois caso contrário, a força bruta vira contra o produtor inadimplente... 

Os homens deram uns tapas nele e retiraram-se. Era um perigo a mais, estar num show sem segurança alguma. E se houvesse um tumulto, quem colocaria ordem dentro do clube ? Nessa altura, já estávamos temendo pela falta da segunda parcela do nosso cachet, pois a primeira metade houvera sido depositada alguns dias antes, seguindo a praxe profissional do show business, e garantira as despesas da nossa viagem, mas a segunda parcela era o nosso lucro em risco...

O produtor do show chorando no camarim, tendo uma crise nervosa por ter acabado de ser advertido pelos seguranças por motivo de falta de pagamento...o que esperar da continuidade desse evento ?
Passados alguns minutos, mais indícios de que teríamos aborrecimentos, quando um diretor do clube entra no camarim e falando ríspido com o produtor, cobra-lhe o pagamento do aluguel do clube (Clube Canadá), sob a ameaça de apagar as luzes, retirar o público e convidar artistas e equipe técnica a retirar-se de suas dependências.

Constrangido, o produtor propôs-se a conversar no gabinete da diretoria e pelo fato das luzes não terem apagado-se, deduzimos que ele soltou um cheque, no mínimo...
Mais uns instantes e entra o dono do equipamento exigindo o seu pagamento, sob a pena de desligar e desmontar o P.A. Com esse clima, o Júnior também exerceu pressão, pois era o único jeito de sairmos dali com o restante do nosso cachet em mãos e nessa altura, o que era para ser um festival com uma multidão, revelava-se um fiasco de bilheteria. O produtor fez das tripas coração e arrumou-nos pouco mais da metade do valor restante. Era melhor que nada e assim, aceitamos fazer o show para o reduzido público presente naquela noite de 15 de julho de 2000. Sob um frio intenso e paradoxalmente sob a fervura de um festival pessimamente produzido, fizemos o show para 200 testemunhas. Antes que o leitor estranhe, duzentos não é tão insignificante assim, mas a ideia inicial com o show ao ar livre, era de pelo menos cinco mil pessoas, mesmo com frio, geada e neblina... mas antes de falar sobre o show, tenho outras histórias...

Antes do nosso show, contudo, houveram dois shows de abertura.

O primeiro foi absolutamente inusitado e despertou a nossa atenção, certamente. Não lembro-me o nome do artista em questão, e não achei nenhuma anotação sobre ele. Só sei que era um baterista, e apresentou-se sozinho por quase 40 minutos, fazendo solos em cima de uma base de guitarra; baixo; teclados, e sopros gravados num play back de um CD.

Era um Jazz-Rock nervoso, cheio de convenções intrincadas, passagens difíceis, fórmulas de compasso não usuais etc. E o rapaz era "fera", pois tocou com uma raça incrível, e uma boa dose de cara-de-pau também, sozinho, daquela forma. E ele era falante, sem constrangimentos, apresentava suas músicas e interagia com o público. A segunda atração era uma banda que mesclava o Rock'n'Roll tradicional com generosas doses de Reggae. O sujeito chamava-se Doni e a banda, "Doni e os Pé-de Serra".

Ao final do seu show, abordou-me, e entregou-me material de sua banda, pedindo-me ajuda, o que tornar-se-ia uma rotina doravante, com inúmeras outras bandas que conheci e abriram shows da Patrulha nos anos seguintes.

Finalmente fizemos o nosso show e o público apesar de diminuto, era entusiasmado, e o show foi muito bom. Com equipamento legal e bem monitorado, tocamos confortavelmente e ao contrário do show anterior ocorrido num espaço claustrofóbico, desta feita estávamos num palco amplo, com coxia, camarim etc.

Ao final, resolvemos voltar imediatamente para São Paulo, e no percurso para a estrada, chegamos a ver diversos outdoors com o nosso nome em destaque etc. Era madrugada e vimos o organizador do show andando de forma desnorteada, próximo a um lago. Será que havia tido confrontos com mais de algum credor ?
E assim foi a nossa segunda excursão para fora de São Paulo e primeira interestadual. Apesar de alguns aborrecimentos, foi legal no cômputo geral, e seria o prenúncio de outras tantas viagens que faríamos no futuro. 



Bem, a viagem de volta não foi naquela euforia da ida. 
Voltamos dormindo, sob cansaço absoluto e com o aborrecimento de termos passado pelos constrangimentos inerentes à um show mal produzido por um aventureiro. Não era a primeira vez que eu passava por isso e não seria a última. Aventureiros, bem ou mal intencionados, tem aos montes no show business. O aspirante a produtor vai à um show e anima-se, considerando fácil produzir, então, achando-se apto a produzir algo semelhante, só pela reles observação de uma produção alheia, aventura-se... é claro que não é assim que funciona !! 
O que animava, era que na sequência tínhamos mais um show marcado para o interior de São Paulo (cidade de Sorocaba), e no final de julho, uma nova apresentação no Centro Cultural São Paulo, onde faríamos o lançamento oficial do CD "Chronophagia".
E animava-nos também a perspectiva de várias resenhas do CD que estavam engatilhadas para sair na mídia escrita. Confesso que esperava ansioso por lê-las, pois seria o primeiro teste de avaliação de jornalistas especializados com toda a proposta da volta da banda, mais as músicas e principalmente a versatilidade incrível de Hid e Schevano. Na minha expectativa, tinha esse sabor extra, pois eu confiava demais no talento dos dois, e mal via a hora disso ser revelado ao mundo, pela ótica de especialistas no assunto.
Desde o Sidharta, eu sabia que tinha em mãos, dois diamantes brutos que foram sendo lapidados e agora, com seu debut numa banda de renome, e um lançamento em CD oficial, finalmente seriam descobertos pelo público.

O próximo passo, seria um show na cidade de Sorocaba na semana seguinte. Fomos apresentarmo-nos numa casa noturna chamada "Stratocaster". Tratava-se de um salão rústico, mas todo decorado com motivos rockers, e pelo fato do dono ser um "Luthier" (profissional que conserta e / ou fabrica instrumentos musicais), tinha colocado esse nome na casa, e providenciado um enorme painel na porta, no formato de uma guitarra Fender Stratocaster.
O show ocorreu no dia 22 de julho de 2000, com um bom público de cerca de 200 pessoas. Foi bastante animado, e com a presença de um músico local, convidado especial, que conhecêramos na passagem de som. Era um saxofonista que apareceu por lá, e acabamos convidando-o para tocar "Sunshine" conosco, no show a noite. Inclusive, na passagem de som, um jornalista da cidade de Mogi-Guaçu (não é muito perto de Sorocaba), foi lá para entrevistar-nos, e daí surgiu o convite para apresentarmo-nos naquela outra cidade, numa festa organizada por um programa de rádio que ele representava, e no momento oportuno, falarei sobre isso. O jornalista de Mogi-Guaçu que entrevistava-nos recebeu uma chamada em seu celular. Ao verificar que tratava-se da esposa, pediu-nos para confirmar que éramos da Patrulha do Espaço. Ela estava furiosa com o sumiço dele, e quando descobriu que ele havia viajado cerca de 100 Km para ir à cidade de Sorocaba, ficou ainda mais possessa, e nem quis saber de nossa confirmação...

Foi um bom show, apesar de uma parcela do público estar esperando covers. Essa era uma constante que acompanhar-nos-ia doravante em nossas apresentações em toda a parte, principalmente em cidades interioranas, mas era inevitável. Como curiosidades desse show, conto que o camarim tinham dois ambientes e um deles era inabitável pela bagunça e sujeira. Numa rápida vistoria, vimos diversos materiais gráficos e CD's de diversas bandas, algumas de amigos nossos, inclusive, jogados como lixo. Isso dava a dimensão de como essas casas tratavam artistas que procuravam-nas sedentos por espaço de apresentações. Alguns dias antes do show, eu e o Junior fomos à Sorocaba e fizemos alguns agitos de divulgação, cidade pujante do interior paulista, distante cerca de 90 Km da capital, tinha diversas lojas de CD's especializadas, onde vendemos diversos discos e em visita às redações dos jornais locais, fomos bem recebidos em ambos. 

No jornal "Cruzeiro do Sul", assim que chegamos às suas amplas instalações, um repórter e um fotógrafo foram designados a cobrir a nossa visita. Confesso que eu e o Junior ficamos perplexos, pois não estávamos acostumados com essa consideração, porque fora a imprensa especializada e setorizada, a tendência na imprensa grande era a de ignorar-nos retumbantemente. Mas pareciam sinais de que estávamos mudando o jogo. Com a matéria publicada na Folha de São Paulo em dezembro de 1999, e mais recentemente, outra melhor ainda no "Estadão" (em maio de 2000), será que estávamos mudando um paradigma de descaso, enfim ? Outro fato curioso foi uma groupie que ficou insinuando-se na frente do palco durante o show inteiro. Fazia uma dança sensual em todas as músicas. Quando acabou, foi atrás de nós no camarim, mas na escada de acesso, um membro de uma banda amiga (hoje em dia famosa banda de Rock, pelo menos no mundo underground), foi mais rápido no gatilho, e agarrou-a literalmente. Enquanto descansávamos no camarim, eles trancaram-se na parte inabitável que já mencionei, e lá fizeram a troca de fluídos corpóreos... Ha ha ha !!


Após o show no Stratocaster de Sorocaba, o nosso próximo compromisso seria um novo show no Centro Cultural São Paulo, e que seria o show de lançamento oficial do CD Chronophagia.
Não tínhamos verba para grandes produções, mas por conta de ser o lançamento do novo álbum da banda, e por termos tocado meses antes no mesmo local, tínhamos a obrigação moral de apresentarmos um espetáculo mais bem cuidado, desta feita.

Se em dezembro de 1999 havíamos ao menos tentado algo visualmente atraente, com tecidos semi transparentes e uma tentativa tímida de fazer uma bolha psicodélica, desta vez investimos num grande painel, com a capa do CD Chronophagia. Foi uma impressão que custou caro, mas creio que valeu o investimento, pois no show, e por muitas vezes que o usamos doravante, impressionou o público, certamente. E assim, no dia 29 de julho de 2000, subimos ao palco do Centro Cultural São Paulo, com uma estrutura muito melhor do que da primeira vez que apresentamo-nos ali em 1999.

A banda estava ainda mais afiada, com a parte musical muito segura e o banner gigante com a capa do disco, estava belíssimo e impressionava. Fora isso, todo o aparato de miudezas; incensos; tapetes, e adereços em geral, estavam  lá complementando a decoração e ambientação, como uma tradição nessa nova / velha mentalidade da banda.

E também estruturamo-nos melhor no merchandising, preparando uma atrativa mesa / loja, que deu um ótimo resultado ao final do show, com uma significativa féria, motivada principalmente por uma boa venda de CD's. O show foi muito bom !


Centro Cultural São Paulo, 29 de julho de 2000. Fotos do acervo pessoal de Salvatore D'Angelo
 
Tocamos praticamente o CD Chronophagia inteiro, com o complemento de diversas músicas de todos os discos antigos da banda.

Esse show foi filmado e o VHS está digitalizado com qualidade muito boa em se considerando esse padrão. Os cinegrafistas foram Edson Vincentin, que já havia filmado shows anteriores da nossa formação, e um outro rapaz morador da Vila Pompeia, um gaúcho radicado aqui em São Paulo. O tal gaúcho filmou e editou até que bem, mas acostumado a filmar festinhas de casamento e aniversários, deu um certo ar desse naipe na edição final.

Fotos de camarim do show no Centro Cultural São Paulo, em 29 de julho de 2000. Na primeira, Rolando Castello Junior no pós Show. Segunda foto : o amigo Salvatore D'Angelo entre a produtora Claudia Fernanda e Rolando Castello Junior. Ambas, fotos do acervo pessoal de Salvatore D'Angelo
Eis o vídeo do show no Centro Cultural São Paulo, em 29 de julho de 2000

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=NI59RVPEgVk
 

A despeito disso, penso em lançar pelo menos algumas músicas avulsas em breve desse show, que musicalmente está muito bom, com a banda num grande momento.

Estávamos animados com essa sequência de shows, mas tínhamos mais a comemorar. Isso porque começaram a serem publicadas as resenhas do CD Chronophagia pela imprensa escrita, e eram amplamente positivas. Até na Folha de São Paulo, que tradicionalmente é território hostil aos simpatizantes do Rock 1960  / 1970, recebemos uma suposta boa crítica, se bem que no limite do que eles poderiam falar, sem ferir seu juramento de fidelidade ao manifesto de Malcolm McLaren...

Disseram que era inegável que tocávamos bem, mas nossa aposta nos anos setenta refletia-se até na capa, que remetia à "Brain Salad Surgery", do "Emerson, Lake & Palmer". Evidentemente que nos padrões estéticos deles, isso era pejorativo, como frisou um de seus ídolos oitentistas ("Fuck Emerson; Fuck Lake and Fuck Palmer"...alguém lembra-se dessa infâmia dita por um admirador de Sid Vicious ?). E só acrescentando, o crítico da Folha só malhou aonde a estética chocou com seus valores comprometidos pela lobotomia de 1977. A duras penas, teve de deixar claro que tocávamos bem... 
Mas para nós, era um tremendo elogio, com o tiro saindo pela culatra do detrator. Brain Salad Surgery é um tremendo disco do ELP, e quero que dane-se essa gente que comprou essa mentira, e idolatra um idiota que notabilizou-se indevidamente por não saber tocar. Fuck Sid, Fuck Vicious...

As vendas do CD Chronophagia começaram muito bem, se comparados aos tempos atuais (2016), mas preocupantes para os padrões de quem vinha acompanhando o mercado, desde os anos setenta. No show de julho no Centro Cultural São Paulo, por exemplo, vendemos de forma expressiva, ainda no ritmo de uma Era pré-download de internet. Nas lojas, também alavancamos boas vendas, embora já fosse num padrão abaixo do que costumávamos vender nas décadas anteriores. Certos lojistas da Galeria do Rock em São Paulo, por exemplo, que costumavam comprar caixas fechadas, passaram a fazer pedidos bem mais modestos, e isso era só o começo de uma nova fase da indústria fonográfica. O próximo show foi absolutamente exótico !!

Após várias reuniões com os donos do estabelecimento, tendo muitas dúvidas sobre dar-nos um espaço visto tratar-se de uma casa de orientação exclusivamente dedicada ao mundo das bandas covers, finalmente o Júnior selou acordo com eles e fomos tocar num dia pouco convidativo, e sob regime de bilheteria. A casa era bem montada, sem dúvida, mas não era definitivamente, ambiente adequado para abrigar artistas autorais.

Criada e estruturada para dar espaço às bandas cover, tratavam-nos com desconfiança absoluta, e isso refletiu-se na total falta de empenho da parte da casa para promover o nosso show. Tudo bem que estavam acostumados a lidar com bandas cover e lotar a casa nesse tipo de mentalidade, mas faltou sensibilidade, para dizer o mínimo, por não empenharem-se para promover uma atração artística de cunho autoral, com história, tradição e curriculum no bojo. A tal casa chamava-se "Red Onion" e localizava-se num bairro residencial de Santo André, no ABC paulista. Nessas reuniões intermináveis que o Junior teve que fazer para selar a data, eu cheguei a ir em algumas. Certa vez, em pleno sábado, pude verificar que a casa estava abarrotada, com gente na calçada tentando entrar, mas não cabia mais gente. Tocava na casa uma banda cover do "The Doors", e a garotada esgoelava-se, vibrava etc. Ora, essa mesma juventude que cultuava uma banda sessentista legal, que eu também gosto e influenciou-me, não dava a mínima para bandas autorais antenadas nessa mesma onda. O raciocínio era : que contradição !! E o pior de tudo : o palco, na verdade era um aquário !!

Essa foto acima é do show do Camerati, em Santo André, no início de 2000, com Eduardo Donato, fotógrafo e colaborador, sentado à frente da banda.

Isso mesmo o que você leu, caro leitor...as bandas enclausuravam-se nesse aquário fechado com porta frigorífico, e as pessoas não sentiam o impacto do som gerado diretamente do palco, mas mixado e distribuído por caixas espalhadas por toda a casa.

Era muito esquisito ver uma banda tocando dentro de um espaço envidraçado e inevitável não sentirmo-nos como animais no Jardim Zoológico...
No dia do show, após a passagem de som, causamos estranheza nos donos do estabelecimento, pois pedimos autorização para usarmos incensos, como estávamos acostumados, e foi engraçado vê-los com semblantes atônitos. Lembro-me que quando fomos vestir-nos para o show, a dona cochichou com algumas funcionárias : "eles  produzem-se para tocar"...evidentemente demonstrando não estarem habituados a lidar com música autoral etc etc. E o show foi esquisito. 

Apesar do equipamento legal, e uma monitoração digna dentro do "aquário", era muito esquisito o som ambiente ali dentro, sem ressonância. Nada tinha "sustain", e isso causava-nos uma sensação incômoda para tocar, sem dúvida. Um fato inusitado ocorreu quando o Rodrigo resolveu dar um gole numa cerveja entre uma música e outra ! O técnico cortou a monitoração e num tom duro, advertiu-o que era proibido beber ali dentro. Qual o motivo ? O perigo de cair e "melar" o carpete ? Só podia ser isso, pois aquilo não era um bar ??  Um diálogo ríspido foi travado, mas vendo a intransigência do sujeito e o fato de estarmos nas suas mãos, pois ele cortava o som a hora que desejasse, finalmente os ânimos acalmaram-se e acatando a orientação, o Rodrigo deixou para beber depois. Dessa forma, o show prosseguiu.

Samuel "Samuca" Wagner, Rolando Castello Junior e Nelsinho, no camarim do Fofinho Rock Club, em agosto de 1999 

Outro fato a ser lembrado, era o aniversário do Samuel Wagner, roadie da Patrulha e no meio do show, tocamos "Birthday", dos Beatles, dedicando ao seu natalício. Para não dizer que não tocamos covers...
E assim foi essa aventura maluca no "Red Onion" de Santo André, no dia 14 de setembro de 2000, e com um público aproximado de 80 pessoas, muito aquém para o padrão das sextas e sábados com as atrações covers habituais, mas significativo para um dia "morto" e sob uma divulgação fraca para uma banda autoral.


O próximo show que fizemos foi igualmente muito inusitado pelas circunstâncias.

Através do Rodrigo Hid, que conheceu um pessoal que iria lançar uma revista sobre tatuagens no mercado editorial, fomos convidados a tocar no cocktail de lançamento de tal órgão impresso. O inusitado foi o local escolhido para a festa, o Ton-Ton Club, uma casa tradicionalmente focada no universo do Jazz, onde uma banda de Rock, ainda por cima, autoral, certamente ficaria deslocada.

O release oficial do álbum Chronophagia, escrito pelo jornalista e guitarrista (ex-Itamar Assumpção & Isca de Polícia), Luiz Chagas, da revista "Isto é"

E como outra particularidade estranha, o palco era minúsculo, conveniente para pequenos combos jazzísticos, geralmente da formação clássica de piano; baixo acústico, e bateria. Inclusive, o piano de calda ocupava todo o espaço, praticamente. Sendo assim, foi uma ginástica e tanto para acomodar o equipamento no palco, e pior ainda na hora de tocar ao vivo. Para piorar, a falta de espaço causou um acondicionamento cênico esdrúxulo. Eu, Luiz Domingues; Rodrigo Hid, e Marcello Schevano ficamos tão próximos um do outro, que nossos movimentos corporais ficaram muito limitados.

Qualquer vacilo e o "headstock" das guitarras, e do baixo (a chamada "cabeça" dos instrumentos de corda e onde ficam alojadas as tarraxas de afinação dos mesmos), poderia atingir o companheiro ao lado, causando um estrago...
Além disso, outro incômodo foi gerado quando o técnico de som da casa veio dizer-nos que o nosso volume era absurdo para os padrões da casa, e que temia que pudéssemos constranger o público com aquela volúpia sonora inadequada aos padrões a que estavam acostumados. Era inusitado, pois não tocaríamos ali por livre e espontânea vontade em circunstâncias normais. Estávamos ali por conta do convite da revista, enfim...

Reduzindo o nosso volume a um nível drástico e muito desconfortável para nós, mesmo assim, víamos que o técnico e o gerente da casa estavam irritados conosco, gerando um clima tenso, infelizmente. Apesar de tudo, demos o nosso recado ao público de aproximadamente 80 pessoas que compareceram ao Ton-Ton Club, na noite de  25 de setembro de 2000. E o nome da revista era "Tatuar". Não faço ideia se ainda exista nas bancas, pois com todo o respeito aos tatuadores e tatuados, eu não interesso-me nem um pouquinho por esse assunto...

As matérias iam sucedendo-se, com resenhas do CD e de shows mesclando-se em diversas publicações. Nesse quesito, a Patrulha foi sem dúvida privilegiada. O portfólio que reuni dessa banda em minha época como integrante é disparadamente o mais volumoso entre os de todas as bandas onde toquei.


 





A matéria sobre o Rock Brasileiro dos anos setenta, que o jornalista Daniel Vaughan fez para a revista da 89 FM. Fomos entrevistados em maio de  2000, no estúdio do De Boni, então tecladista do Terço, e é daí a nossa foto na matéria

Faço a ressalva de que na minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, infelizmente quase não armazenei nada, e foram muitas matérias, sem dúvida. Eis alguns exemplos interessantes desse período de maio à agosto de 2000 : 

1) Fanzine Matéria Prima - Londrina /PR :

"Chronophagia é seu novo lançamento. Júnior reuniu uma tropa de elite e construiu um álbum que resgata numa boa, a melhor musicalidade dos anos setenta. A Patrulha tem a receita certa para o Hard progressivo. Reativaram um velho Hammond e a flauta ácida, colocando em atividade 15 faixas inéditas e reeditando "Sunshine", com Manito no Sax. A Patrulha mantém a fantasia intacta, alimentando os sobreviventes dos bons tempos e descobrindo para a nova geração as raízes da nata do Rock." 


2) Diário Popular - São Paulo/SP : 

" Com 16 faixas, percebem-se as mesmas influências que sempre nortearam os embalos do grupo, como o Hard Rock e o Rock Progressivo." 


3) Jornal de Londrina - Londrina/ PR : 

"Os embalos da geração 70, foram preservados pela Patrulha, com o Rock progressivo e Hard Rock. O nome escolhido para o novo CD não poderia ser mais pertinente. Chronophagia é o ato de se alimentar do tempo..."


4) Folha de São Paulo - São Paulo/SP "A capa de Chronophagia lembra um pouco a de "Brain Salad Surgery" do Emerson , Lake and Palmer, mas o som é mais rock, apesar do virtuosismo dos instrumentistas. Dureza mesmo é aguentar as letras...A última faixa se chama "epílogo" e é dedicada ao Cosmos...A Patrulha está mesmo perdida, no tempo e no espaço...

Observo : o que soa ao jornalistazinho, uma infâmia, era motivo de orgulho para nós... Quem é o verdadeiro "congelado no tempo" ? Quem enxerga a música, monoliticamente pela cartilha do pós-punk oitentista, "ad eternum", ou seríamos nós ?
Aliás, era deste jornal que um editor, nessa época, costumava dizer em tom de soberba, que a melhor banda da história de Liverpool / Inglaterra era o "Echo and the Bunnymen", portanto, tirem suas conclusões...

5) Agora São Paulo - São Paulo/SP

"A boa nova do Rock Nacional é velha...O Patrulha do Espaço mostra no CD Chronophagia com um repertório com arranjos elaborados, ao estilo dos anos 70 e 80, ainda pode agradar mais que o pop comercial disfarçado de Rock rebelde que infesta as FM's..." 


6) Rock Brigade 

"Envelhecer é um negócio fácil. Aliás, ninguém precisa nem fazer força : demore o quanto for, todos vamos passar por isso. Só que ver o tempo passar por isso. Só que ver o tempo passar e permanecer com dignidade é um negócio bem mais difícil. 


Ouvindo-se Chronophagia, percebe-se que o veterano Patrulha do Espaço (na ativa desde 1977), passou com louvor nesse teste. Porque, apesar dos 23 anos de estrada, a turma liderada pelo baterista Júnior, mantém-se em forma e, melhor de tudo, fiel às raízes e, ao mesmo tempo, abertas às novas tendências.

O mais novo disco, lançado de forma independente (pois nem sempre a estrada abre portas...), mostra-se quase progressivo.Contando com os talentosos Rodrigo Hid e Marcello Schevano, que dividem os vocais, guitarras e teclados, e o conhecidíssimo Luiz Domingues (Ex-A Chave do Sol e Ex-Pitbulls on Crack), além de Júnior.A banda usa com inteligência a tecladeira, não abrindo mão, no entanto, do Rock direto e reto, como na ótima "Tudo Vai Mudar". 

E se sucedem baladas e muito virtuosismo por parte dos músicos que conseguiram fazer um disco atemporal. Talvez não seja por acaso que "chronophagia" é o ato de se alimentar do tempo...


7) Fanzine "O Grito":

"Em Chronophagia, toda a fúria musical e a dedicação de um objetivo. Alcançaram um resultado excelente... Todas as músicas, sem exceção, são magníficas. Se fosse pra dar nota, 10


8) Rock Press :

" Resultando num álbum de Rockaços emocionantes...


9) 89 Revista Rock :

"O disco começa com a progressiva "Sendo o Tudo e o Nada, e segue explorando outras fronteiras em "O Ritual", "Retomada" e "Alma Mutante".  "O Novo Sim" e as lisérgicas "Eu Nunca Existi" e "Céu Elétrico" já se tornaram clássicos do gênero.


Os Mutantes são homenageados na viajante "Nave Ave". As belas vozes e guitarras dos novatos Rodrigo Hid e Marcello Schevano encaixam-se harmoniosamente na swingada "Terra de Mutantes" e na "beatleniana", "Sr, Barinsky".Chronophagia é uma aula de Rock psicodélico anos 70 em pleno final de milênio."
10) Rocker Magazine :

"Esse CD é uma dádiva para aqueles que acreditam na existência do Rock no Brasil...  A banda flerta com o progressivo e mostra de cara que são músicos excepcionais. Grandes composições, onde vou destacar "Sr. Barinsky", com um belo trabalho de backings vocals e um ótimo solo de Marcello. A volta da Patrulha não poderia ser melhor. A alma dos anos 70 aliada à tecnologia do novo século." 


Mais adiante, arrolo mais manifestações da imprensa escrita, nesta narrativa. Naturalmente, manifestações como essas enchiam-me de esperança pelo futuro, e realçavam a confiança no trabalho que tínhamos realizado desde o início no projeto Sidharta, passando pelo resgate dessa egrégora toda na Patrulha, revigorada com o sangue jovem de Rodrigo e Marcello. Essa atmosfera sessenta / setentista era a concretização de um sonho acalentado desde muito tempo e o talento da banda, realçado pelos dois jovens multi instrumentistas, era algo que vislumbrava desde os tempos remotos do Sidharta. O que era uma projeção, estava tornando-se uma realidade pela reação nos shows e nessas manifestações que borbulhavam pela imprensa.

Com as vendas do CD's, e as resenhas sendo publicadas na mídia, precisávamos engatar uma sequência de shows. Não estava fácil  arrumar espaços para tocar naquela fase.Vivia-se uma época diferente no show business brasileiro, onde as casas de médio porte que existiam em razoável profusão nas décadas de oitenta e noventa, haviam desaparecido, ou mudado seu perfil.

Sendo assim, era rara a oportunidade de ocupar um palco onde a banda poderia apresentar-se com condições ideais de som e luz para mostrar seu trabalho, na plenitude de sua criação artística. Então, abraçamos a ideia de adaptar-nos à essa realidade, e assim fomos tocando onde fosse possível. Já relatei algumas circunstâncias inusitadas nesse sentido, e a próxima etapa a ser relatada é outra dessas histórias.

Finalmente havíamos marcado uma apresentação numa casa noturna de São Bernardo do Campo, cidade do ABC paulista, e digo finalmente, porque foram diversas reuniões para poder marcar essa data. Era uma casa nada glamorosa e nem bem localizada era. O lado bom, era que seus donos não eram arrogantes (ao contrário de outros lugares onde fomos tocar anteriormente), pelo contrário, eram gente boa. O que acontecia, era uma desconfiança deles em torno de um show de música autoral, viciados que eram em atrações de bandas cover. 

Finalmente resolveram arriscar, e assim marcamos a data para o final de setembro de 2000. O engraçado nessa história, foi o tom prosaico de um dos sócios da casa. Completamente desacostumado a lidar com uma produção de show de um artista autoral, queria usar métodos estapafúrdios de divulgação, provocando até risos em suas colocações. Numa dessas reuniões, chegou a dizer que convocaria todos os músicos das bandas cover que conhecia, para que cada um distribui-se filipetas num ponto de São Bernardo do Campo.

A grosso modo, parecia estratégia de militância política. Mesmo que conseguisse esse apoio sincero e gratuito, de onde tiraria dinheiro para pagar a gráfica que confeccionaria esse material ?
E segundo, qual a garantia de eficácia dessa estratégia na prática, na bilheteria ? O sujeito falava empolgadamente, e tinha lábia de palestrante da "Amway"...mas daí a dar certo...

                                        Vernon Presley

                                       Lloyd Bridges

E para piorar as coisas, era sósia do Vernon Presley, pai do Elvis Presley, e quando falava, não conseguíamos parar de pensar na semelhança, e como aquela situação era engraçada. Eu também achava-o parecido com o veterano ator Lloyd Bridges, conhecido no Brasil como "O Homem Submarino", graças ao seriado de TV, "Sea Hunt", que protagonizou nos anos cinquenta e sessenta. O Rodrigo que herdou de seu pai o dom da imitação, imediatamente compôs o personagem, e em off, isso rendeu muita risada. É claro que deu tudo errado e as ações de divulgação ficaram por nossa conta. O mutirão de "filipetadores" não saiu da imaginação do sujeito, claro. Logo mais falo do show.

E lá fomos nós tocar no "Volkana", uma obscura chopperia de um bairro longínquo de São Bernardo do Campo, no dia 29 de setembro de 2000. Sem o "mutirão de filipetadores", contando só com a nossa divulgação muito simples, conseguimos levar 120 pessoas ao estabelecimento, o que foi considerado excepcional para os padrões da casa. 

O palco era bem alto, o que causava um certo incômodo às pessoas que assistiam nas primeiras mesas, por não conseguirem ver o palco inteiro. Fora o impacto do som direto do palco misturado ao pequeno P.A., causando um desconforto auditivo razoável. Em frente ao palco, contudo, havia um mezanino, onde a visão era privilegiada e não havia cobrança mais cara por seu uso, bastando chegar antes e ocupá-lo pelo mesmo valor do ingresso.

Apesar de ser longe e não ter nenhuma tradição em realizar shows de artistas autorais, esses 120 presentes eram na verdade um fator inédito para os donos do estabelecimento que animaram-se a produzir mais shows nesse sentido, e a própria Patrulha voltaria em apresentações posteriores que relatarei no momento oportuno.

Entrevista com Rodrigo e Marcello na Revista Cover Guitarra. Fantástico reconhecimento do talento de ambos que começava a aparecer na imprensa especializada. A lamentar-se apenas o erro crasso ao grafar o nome de ambos : Marcello com um "L" apenas, dava para aguentar, mas quem é Rodrigo "Hill" ? Eu conheço o Rodrigo Hid...

Tecnicamente foi um bom show, com o público interagindo bem.
Fizemos a loucura de levar todo o nosso equipamento de palco, incluso o órgão Hammond, portanto, quem esteve presente, viu um show de Rock com produção de teatro. De fato, os donos ficaram surpreendidos com o público presente e a animação do show, considerando ser um artista autoral. E eufóricos diziam que queriam transformar a casa num espaço de shows autorais doravante, diminuindo as baladas de bandas cover, gradativamente. 

Isso abriu perspectiva para tocarmos lá novamente, conforme já disse anteriormente, e no devido tempo será comentado. O outro sócio, aquele que falava pelos cotovelos, e era sósia de Vernon Presley ou Lloyd Bridges, começou sua viagem ao planeta da divagação e falava em reformas na casa, digamos mirabolantes.

"Brainstorm" é uma ferramenta útil no processo da criação, mas no caso dele, era "viagem na maionese", mesmo. A casa até poderia melhorar, mas para tanto, precisaria de muito dinheiro e mesmo assim, a localização na periferia de São Bernardo do Campo, não favorecia. O próximo passo da banda foi, aí sim, uma "roubada", como diz-se por aí. Apertem os cintos; coloquem o capacete; tomem suas pílulas de proteínas; pois nessa, nem o Major Tom viajaria tanto...

O próximo show foi uma aventura e tanto. A data foi em outubro de 2000, mas esse processo já havia iniciado-se meses antes, através de um contato que o Junior havia feito na cidade de Limeira, cerca de 150 Km. de São Paulo. Mediante esse contato, muitos telefonemas foram disparados e pelo menos duas viagens à Limeira para acertos pessoais com esse contratante. 

Tratava-se de uma casa noturna relativamente nova na cidade, com uma estrutura muito acima do padrão de bares, mais enquadrando-se mesmo no patamar de uma casa de shows. Sabíamos que o proprietário já vinha realizando eventos na casa, ainda que mais focados no universo do Heavy-Metal. Contudo, bandas como o Made in Brazil e outras do gênero, já haviam apresentado-se lá. Numa dessas visitas, eu e o Júnior fomos ver a casa num dia sem evento marcado, acompanhados do proprietário, e ficamos animados com as instalações.

Era um palco grande, com comprimento e largura muito além do que estávamos tocando habitualmente nos shows realizados em 2000, e com estrutura de camarim muito digna. O sujeito tinha ainda um equipamento de P.A. de boa qualidade, além de uma iluminação surpreendente. A casa chamava-se "Mirage", e ficava num bairro da periferia da cidade, um pouco distante do centro. 

Matéria na Revista "Cover Baixo", de agosto de 2000, enfocando-me, pessoalmente

Para quem não conhece Limeira, digo que trata-se de uma cidade de quase 300 mil habitantes, portanto, com ares de cidade grande.
A Patrulha tinha uma história muito rica nessa cidade, pois tocara lá diversas vezes no final dos anos setenta, e início dos oitenta.
Eu mesmo fui personagem de um show desses em 1983, por conta do fato da minha banda naquela ocasião, A Chave do Sol, ter feito o show de abertura. Já contei com detalhes essa experiência no capítulo daquela banda. Apenas realço que essa tradição de um bom público seguidor da Patrulha nessa cidade, eu pude constatar in loco em 1983, pois haviam 3500 pessoas no ginásio de esportes do clube Gran São João, naquela noite de 9 de julho.

Resenha do CD Chronophagia na Revista "Cover Guitarra", de agosto de 2000

Enfim, voltando à 2000, com uma casa bem estruturada e a tradição da Patrulha na cidade, tinha tudo para dar certo, mas então começaram os problemas...
Os problemas começaram quando os dias foram passando, e o sujeito passou a não retornar os telefonemas. Todas as ações de divulgação combinadas estavam no limite de prazo para serem empreendidas e o elemento não dava sinal de vida. Foi quando finalmente o rapaz manifestou-se, dando mil desculpas esfarrapadas e dizendo-nos que enviar-nos-ia um mailing que possuía, para que nós disparássemos uma divulgação via correio. E o Junior cobrou empenho dele na colocação de cartazes na cidade, sua tarefa acordada e afinal de contas, os cartazes tinham sido confeccionados por nós mesmos e já estavam nas mãos dele. Chegando o dia do show, fomos com o micro-ônibus da empresa Magic Bus, que pertencia aos meus primos, e chegando à porta do "Mirage", constatamos que haviam cartazes de um show já passado, e nenhum cartaz nosso sequer, um sinal inequívoco de que o sujeito não havia feito nada. 

O horário foi passando e muito além do combinado, apareceu um funcionário para abrir a casa. Quando fomos montar o nosso equipamento de palco, constatamos que o P.A. da casa havia sido retirado. Atônitos, continuamos a montar o equipamento, e por telefone, conseguimos localizar o sujeito que alegava estar sonorizando uma festa em outra cidade, acho que em Jundiaí, não lembro-me direito. O clima ficou tenso quando o rapaz começou a insinuar que não daria para chegar e seria melhor cancelar o show.
Enfim, ele veio, chegando quase no horário do show e mesmo sendo um P.A. de médio porte e todos entrando no mutirão para arrumar tudo, na base da boa vontade, claro que o clima estava tenso.

Mesmo na correria, conseguimos levantar o som e com substancial atraso, as portas da casa abriram-se e entrou meia-duzia de pessoas apenas. Eram fãs ardorosos, com discos de vinil na mão para caçar autógrafos a posteriori etc etc, mas era uma quórum que não renderia nem um lanche para a banda. Antes de entrar no palco, nosso roadie, Samuel Wagner veio contar-nos que um senhor de idade e ligado à casa, estava brigando na rua com um ambulante que estava vendendo Hot Dog, na porta do estabelecimento. A alegação era que o preço do cachorro-quente praticado pelo sujeito do carrinho, estava mais barato que o hot-dog da lanchonete da casa...


O pau quebrou pela concorrência desleal...
O show aconteceu assim mesmo e foi digno. Havia tensão, porque todo o combinado estava sendo sistematicamente descumprido desde muitos dias antes, mas quando subimos no palco, fizemos um grande show para aquelas 25 pessoas presentes. Daquelas 25, pelo menos 15 estavam ali gratuitamente, porque eram fãs desabonados que ficaram na porta tentando convencer o senhor idoso a liberar a entrada gratuitamente, e nos instantes finais acabaram ingressando no local. Eram 25 que valeram por 2500, pois vibraram intensamente. E disseram-nos que souberam do show através de um boato, e foram sem certeza de que fosse verdade, pois não haviam cartazes, filipetas ou qualquer outro indício de que fosse real. 

Um dos sujeitos era sósia do cantor Serguei, e esse era mesmo o seu apelido, segundo apurou-se entre eles. Ao final, atendemos a todos para autógrafos e de repente o senhor idoso entrou na rodinha, onde inclusive era eu que estava cedendo autógrafos, e exigiu a caneta que eu estava usando de volta, pois era de sua propriedade. Algum dos garotos pegou-a emprestada, e como o senhor estava nervoso com a situação toda, entrou na rodinha rasgando o verbo.

Em meio à jovens rockers, claro que tornou-se alvo imediato de pilhérias, com sua manifestação gerando uma epidêmica reação de deboche, e isso deixou-o ainda mais furioso. Foi hilário...
No final, exigimos que o trato inicial fosse honrado e o proprietário da casa ainda deu-nos uma canseira com evasivas, em meio à madrugada avançando etc etc...
Ao final, conseguimos equilibrar o prejuízo, ao menos pagando as despesas operacionais básicas, e saindo com a certeza de que fizemos a nossa parte e o show fora digno para aqueles fãs. Alguns dias depois, a caixa postal estava lotada de cartas devolvidas daquele mailing que o rapaz cedera-nos. Era uma lista defasada e isso explicava o porque de um show numa cidade de tradição rocker como Limeira, ter sido tão ruim de público, além de reforçar a imagem ridícula de não haver nem um cartaz na porta do estabelecimento, denotando que ele não colara nenhum sequer, pela cidade...
E assim foi a nossa aventura num lugar chamado "Mirage", um autêntica miragem no quesito profissionalismo... Isso ocorreu no dia 28 de outubro de 2000. 

Os próximos passos seriam menos frustrantes, todavia. Seriam mais três shows no interior de São Paulo, no mês de novembro. O primeiro, dia 10 de novembro de 2000, foi na cidade de Mogi-Guaçu, na região de Campinas. Para quem não conhece direito o estado de São Paulo, digo que fica 70 Km adiante de Campinas, na direção da divisa com Minas Gerais, e a primeira cidade mineira naquela rota, é Poços de Caldas.

Mogi-Guaçu é colada praticamente em outra cidade, também chamada Mogi, só que Mogi-Mirim. Mogi-Guaçu é maior, mas Mogi-Mirim ficou mais falada por ter um time que já esteve várias vezes na primeira divisão estadual e na segunda nacional, tendo revelado grandes jogadores para o futebol brasileiro, e sem dúvida, o mais famoso deles, Rivaldo. Esse show foi promovido por um programa de rádio (Projeto Coda), que havia entrevistado-nos em Sorocaba no mês de julho, e essa história eu já contei anteriormente. Foi realizado num clube local, chamado "Tempo Clube", que ficava localizado numa aprazível pracinha bem interiorana, e lembro-me de ser perto do Fórum Judicial da cidade.
Fomos muito bem recebidos pelo pessoal da Rádio, que estavam muito eufóricos com a presença da Patrulha, contrastando com o ar desconfiado dos dirigentes do clube, não acostumados a shows de Rock. Uma repórter do jornal local, Gazeta Guaçana (Mariana Martini), veio entrevistar-nos no Soundcheck. Com direito a fotografia e um certo clima de euforia por parte dos Rockers da Rádio, mas infelizmente, teve uma condução constrangedora, pois a moça, apesar de ser muito simpática, demonstrava nitidamente estar despreparada para entrevistar-nos, dado o caráter vazio de suas perguntas.



Mariana Martini, muito simpática e solícita, mas sem saber exatamente o que perguntar-nos. Louvo sua boa vontade e o apoio que deve ter tido para a redação final na edição, que pode ser lida acima. Foto do acervo de Alexandre Quadros.

Ela tinha uma vaga noção de que a banda tinha história, mas não fez a lição de casa, pesquisando sobre nós, para fazer perguntas mais embasadas. Dessa forma, o Junior percebendo o clima embaraçoso, tratou de dar algumas respostas mais desconcertantes, meio brincando, meio em forma de protesto pela situação.

Momento da entrevista com a simpática repórter Mariana Martini, da Gazeta Guaçuana em Mogi Guaçu, novembro de 2000. Clicks, acervo e cortesia de Eduardo Maia

Mas no final, deu tudo certo e o soundcheck foi satisfatório, deixando-nos seguros de que o show transcorreria de forma tranquila. Fomos para o hotel descansar e jantar. Haveria uma banda de abertura local e segundo apuramos, era uma banda de Heavy-Metal, infelizmente... 

Além do Heavy-Metal ser antagônico à vibe que estávamos propondo nessa fase da Patrulha, naturalmente trazia um público que não interessava-nos. Mas esse tipo de disposição ocorreria mais vezes no futuro, infelizmente. No caso dos garotos da banda de abertura, não os conhecíamos e quando fomos embora para o hotel, ficamos seguros de que agiriam de maneira correta. Usariam parte do nosso equipamento, inclusive. Quando voltamos para o show, tal banda estava nos últimos momentos de seu show. Fomos para o camarim, esperamos que saíssem, e nossos instrumentos estavam prontos, afinados desde que saímos para o hotel. Subimos ao palco e quando iniciamos os primeiros acordes de "Não Tenha Medo", a tradicional primeira música do show, as duas guitarras e o baixo estavam completamente desafinados !! Erramos em confiar, e não fazer uma nova checagem, certamente, mas jamais esperaríamos ser sabotados por uma banda de abertura que havíamos tratado com cordialidade e até apoio. Quando olhamos no mezanino, vimos os fanfarrões metálicos esborrachando-se de rir.



Duas raras fotos do show em Mogi Guaçu, do acervo de Alexandre Quadros

Evidentemente que ficamos embaraçados, mas rapidamente o Rodrigo falou ao microfone que um acidente havia acontecido, e fomos afinar para retomar o show em poucos segundos. O show foi bom, com um público de mais ou menos 100 pessoas. 

Foi considerado excelente pelos organizadores do evento, visto que Mogi-Guaçu não tinha muita tradição Rocker.

No café da manhã, no hotel de Mogi-Guaçu, com o amigo Alexandre Quadros no meio, de camiseta preta, entre nós. Foto de seu acervo pessoal.

Conhecemos nesse dia um amigo que se tornar-se-ia um grande colaborador, e assim tem sido até hoje, o Alexandre Quadros, que também era (é) radialista; fanzineiro, e hoje em dia, um blogueiro da pesada. Ele era vocalista de uma banda local chamada : "Wild Shark". Antes o "Wild Shark" tivesse tocado e não aqueles moleques, com seu Heavy-metal insípido, e atitude de moleques...
Tudo isso ocorreu na noite de 10 de novembro de 2000.

Com o amigo do programa "Projeto Coda", no saguão do Hotel. Acervo de Alexandre Quadros

Voltando ao hotel, um fato inusitado ocorreu. Um de nossos roadies (não revelarei o nome), foi tomar uma ducha e dormiu no banheiro.
Talvez pensando que o chuveiro fosse uma cachoeira, relaxou e apagou. No dia seguinte, o dono do hotel estava desesperado porque a caixa d'água estava vazia, e os chuveiros só eram alimentados por essa fonte e não pelo fornecimento direto da rua...

Almoçamos e fomos à parte 2 dessa micro-tour, rumo à Sorocaba, onde tocaríamos novamente na casa chamada "Stratocaster".
Mas um fato engraçado aconteceria na nossa saída da cidade...
Parando num mercadinho daqueles típicos interioranos, que parecem ter parado no tempo, fizemos um rápido "pitstop", e na dispersão gerada, entramos no ônibus sem checar se todos estavam a bordo...já estávamos na saída da cidade, aproximando-nos da estrada, quando notamos a ausência do Rodrigo !! Voltamos ao pequeno estabelecimento citado, e lá estava ele sentado na porta, consumindo um doce, tranquilamente. Sua calma justificou-se quando disse-nos de forma desconcertante : -"eu sabia que notariam a minha ausência e voltariam, portanto, mantive-me tranquilo aqui"...ha ha ha...definitivamente, precisávamos de um "road manager" !!   

No dia seguinte fomos à Sorocaba, para mais um show na casa Stratocaster. Como já conhecíamos a casa, foi tudo rápido no tocante à montagem. Por uma incrível coincidência, a banda de abertura tinha o mesmo nome daquela formada por moleques que sabotaram-nos na noite anterior, mas ainda bem, não era fanfarrões sem nada melhor a fazer como aqueles moleques de Mogi-Guaçu.
Nesse dia, estiveram presentes desde a montagem do equipamento, os integrantes da banda "Wry". Eles eram de Sorocaba, e estavam preparando-se para deixar o país rumo à Inglaterra, buscar seu sonho.

          Os rapazes do Wry, numa foto já em sua fase europeia

Para quem acompanha o universo do Indie Rock, o Wry alcançou uma projeção interessante na Europa, e mantém-se lá até hoje.
O show foi OK, mas sem grandes novidades a serem relatadas. O público foi de 150 pessoas aproximadamente, e aconteceu na noite de um sábado, dia 11 de novembro de 2000.

O próximo show foi também no interior de São Paulo. Desta vez o destino foi Campinas, que pelo porte de metrópole, com mais de um milhão de habitantes, nada tem de pacata como supõe-se serem as cidades interioranas. A casa em que apresentar-nos-íamos seria o "Delta Blues", uma tradicional casa em Campinas, e muito famosa no circuito de artistas do Blues, inclusive internacionais, que vem ao Brasil. Não era exatamente a "nossa praia", mas a casa também passava por modificações, e há tempos deixara de ter essa característica fixa de "Templo do Blues", e vinha abrindo as portas regularmente para bandas de Rock, e até bandas cover naqueles tempos.

       O grande artista plástico e web designer, Johnny Adriani

Sua decoração era impecável, lembrando casas de blues do sul dos Estados Unidos, e pelas paredes, a decoração era fantástica com pinturas assinadas pelo artista plástico Johnny Adriani, com motivos sulistas americanos, passeando entre as tradições dos Blues e também indígenas norte-americanas. Cabe explicar que o Johnny foi o fundador da casa e responsável direto por toda a sua decoração e ambientação. Infelizmente, ele já não era mais o dono da casa nessa época, e se por um lado ainda era admirável a estrutura, era também visível a sua decadência, sob nova direção, não tão, digamos, preocupada em fazer manutenção. Isso refletia-se também na parte sonora. O P.A. da casa era adequado às suas dimensões, mas estava bem machucado pela ação do tempo, e deixava muito a desejar nesse sentido.

Mesmo assim, na base da boa vontade e do improviso, deixamos tudo arrumado o melhor possível, e sabedores de que o volume do palco tinha de ser controlado para adequar-se à realidade do "baleado" P.A. da casa. Fomos jantar, e quando voltamos, a casa já estava aberta. Por ser uma quinta-feira, estávamos um pouco céticos quanto à presença de um público numeroso. Contudo, na medida que os ponteiros do relógio avançavam, víamos que a casa estava lotando e por uma questão promocional : a quantidade de mulheres era muito maior do a que de homens, devido ao preço reduzido para o sexo feminino. Era óbvio que se a casa estava enchendo de "gatinhas", naturalmente os rapazes seriam atraídos como ursos atrás do mel e sendo assim, quando fomos convocados a subir no palco, a casa estava bem cheia.

Mesmo sabendo que faríamos um show autoral, o gerente da casa pediu para o dividirmos em duas partes, moldando-nos no padrão das exibições de bandas cover. Isso não era a melhor medida, mas também não ofender-nos-ia, portanto assim procedemos. A primeira parte do show foi excelente. O grosso do público respondeu bem, aplaudindo e berrando ao final das músicas, embora fosse nítido tratar-se de uma mera empolgação de balada. Claro, haviam vários fãs da banda também. Gente de Campinas e cidades próximas que apareceram com discos antigos da Patrulha em mãos para caçar autógrafos no pós-show, certamente.

Só no final da primeira parte do show aconteceu um anticlímax para quebrar o bom astral que estávamos tendo. Enquanto tocávamos, uma briga estourou, e um tumulto generalizado instaurou-se. Não tinha nada a ver com a banda, mas sim uma briga entre dois moleques e os seguranças da casa por causa da entrada forçada de ambos, recusando-se a pagar a entrada. Teve socos para todos os lados; copos e garrafas estilhaçando-se pelo chão; meninas gritando, em suma...se aquilo era um bar americano ao estilo sulista de blues, realmente honrou as suas tradições...
Os seguranças foram ágeis e expulsaram os brigões, mas o clima estava quebrado, naturalmente. Quando voltamos para a segunda entrada, a reação estava muito mais fria, infelizmente.

Tudo isso aconteceu no dia 30 de novembro de 2000, e o público no Delta Blues foi de 200 pessoas, muito bom para o tamanho da casa.
Para piorar, tivemos um problema de ordem interna durante a parte final do show, e a volta para São Paulo foi tensa na van. Por conta disso, tínhamos como próximo compromisso uma aparição num programa de TV, dois dias depois, mas o clima pesado deixou um ar de incerteza quanto à esse compromisso. Falo sobre ele logo a seguir, e como foi uma experiência hilária.


E assim, mesmo com um certo clima pesado internamente na banda, eu acabei indo só com o Júnior ao compromisso, nesse programa de TV. Como não tocaríamos ao vivo e tratava-se apenas de um Talk-Show, fomos em dupla para a estúdio dessa TV.  Mas não era um programa comum, e sim, o "Dr. Rock", um Talk-Show muito louco, apresentado por um rapaz extremamente gente boa, chamado Marcos Spitzer, que encarnava o personagem "Dr. Rock".
Qual era a ideia ?

O "Dr. Rock" apresentava-se vestido todo de branco; usando jaleco; luvinhas cirúrgicas; estetoscópio pendurado no pescoço, e acompanhado de uma bela garota vestida de enfermeira. Suas intervenções eram engraçadas, pois usava jargões da medicina para falar de Rock etc etc. Algo do tipo : -"dor de ouvido ? Prescrevo Grand Funk Railroad para você, meu filho"...

E não ficava só nisso. Por ser veiculado numa estação de TV comunitária (de São Caetano do Sul, região do ABC paulista), e ter baixíssimo orçamento, tinha uma característica sui generis : era um Talk Show com cenário de "Chroma Key", e entre uma conversa e outra, ele anunciava uma música da banda, e os convidados ficavam o tempo todo no cenário estático, com imagens de fotos de sua banda perpassando-os, enquanto o áudio rolava solto, como numa execução radiofônica. O "Dr. Rock" foi uma das figuras mais bacanas que a Patrulha do Espaço teve como incentivador nessa fase, sem dúvida, e não foram poucas as vezes onde ele ajudou-nos, fazendo divulgação de nossos shows e lançamentos de discos.  Veja abaixo a nossa participação no programa do "Dr Rock", no início de dezembro de 2000 :




Eis abaixo o link para assistir esse programa na íntegra :
https://www.youtube.com/watch?v=lrqEZQqesDY&feature=youtu.be




E nada mais ocorreu de significativo em 2000, além de algum material  na imprensa, ainda falando do lançamento do CD Chronophagia. Mas claro que tínhamos que comemorar o fato de que o ano 2000 fora ótimo para a banda. Gravamos o álbum Chronophagia; tivemos muitas críticas positivas; fizemos programas de rádio e TV e muitos shows, inclusive engatando uma boa série de shows fora de São Paulo.
O próximo passo em 2001, seria uma micro-temporada no Centro Cultural São Paulo, e assim que o ano chegou, nossos esforços focaram nesse sentido. Nossa esperança era a de fazer uma boa divulgação, e dessa forma garantirmos um bom público. Foi realizado um esforço grande de divulgação para esse show.
Lembro-me de ter comandado equipes de colocação de cartazes e filipetadores, por duas semanas ininterruptas, cobrindo os quatro cantos da cidade, e também cidades vizinhas da Grande São Paulo, como Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul (Diadema, Mauá e Ribeirão Pires, também), todas da região do ABC, e Osasco, na outra extremidade, divisa com a zona oeste de São Paulo. Foram mais de 600 cartazes, colados em lojas de discos, livrarias, sebos, escolas de música, lojas de instrumentos e equipamentos, etc.

E acredite, para quem não conhece São Paulo, isso é um pingo d'água no oceano... Mas era a melhor forma de divulgarmos shows, com os parcos recursos que tínhamos, fora eventuais apoios em publicações. Duas oportunidades de fazer TV aberta surgiram, contudo. Uma, foi forjada na raça, pois tratava-se de um programa ao vivo da TV Bandeirantes, onde uma apresentadora jovem (esqueci seu nome), falava ao vivo, cada dia de um lugar público da cidade. O mote era mostrar "talentos" desconhecidos dos bairros, reivindicação de melhorias para a prefeitura etc. Aquele misto de pseudo prestação de serviços com anarquia...
Eu e o Rodrigo resolvemos arriscar, e fomos de improviso num dia onde estavam transmitindo direto da Praça Dom Orione, no bairro da Bela Vista (popular  Bixiga). Abordamos a apresentadora, falamos da banda e demos-lhe filipetas do show, mas ela esnobou-nos, e colocou-nos na fila, sem privilégios. Entre moleques reclamando de falta de pista para skatistas no bairro, reclamações prosaicas sobre lâmpadas da iluminação pública queimadas e buracos no asfalto das ruas do bairro, deram-nos menos de 10 segundos para falar do show. Por uma infelicidade minha, eu havia esquecido de levar um cartaz, e assim, munido apenas de uma minúscula filipeta, e com parcos segundos, receio ter sido uma aparição que pouco, ou nada agregou...
Tenho essa aparição registrada em vídeo, mas ainda não postei no You Tube. Pretendo fazê-lo, como peça curiosa a ser colecionada pelos fãs do trabalho, certamente. E a outra aparição, cabe uma explicação ainda mais detalhada, tamanho o seu caráter inusitado...

 
Nessa mesma época, recebemos um telefonema do departamento de jornalismo do SBT. Queriam que nós participássemos de um Talk-Show exibido no início da madrugada, e conduzido pelo jornalista Ney Gonçalves Dias. Achamos bacana por ter sido uma manifestação espontânea daquela emissora, e curiosa de certa forma, pois é público e notório que o SBT não dá espaço para outro espectro artístico do que o dirigido ao mundo brega, seu alvo tradicional.

Mas o talk-Show era bacana, bem produzido e por que não participar e divulgar o trabalho, centrando forças obviamente no novo show e no último CD ? Então, avisaram-nos que só poderiam receber uma dupla representando a banda, o que consideramos ideal também, porque nesse tipo de programa, é inevitável que um ou dois apenas falem e os demais passem quietos pela entrevista, tornando suas presenças meramente decorativas na tela da TV.
Como não haveria número musical, aceitamos eu e Rodrigo apenas, irmos representando a Patrulha do Espaço.

Uma viatura da emissora apanhou-nos no local combinado e assim que chegamos aos estúdios do SBT, às margens da rodovia Anhanguera, próximo à cidade de Osasco, fomos conduzidos ao camarim / lounge. Fomos tratados com bastante dignidade e desfrutamos do conforto desse espaço, com um ar condicionado muito forte, e que amenizava o forte calor de janeiro.


No camarim, confraternizamo-nos com outros convidados do programa que seria gravado. Estavam ali presentes os atores Paulo Cesar Grande e Cacilda Lanuza, que promoviam uma peça teatral em cartaz, na cidade de São Paulo. Conversamos descontraidamente com ambos, que mostraram-se bastante simpáticos e até assistimos juntos um bom pedaço do jogo final do Campeonato Brasileiro de 2000 (disputado em janeiro de 2001, por conta de parte da arquibancada do estádio São Januário, do Vasco, ter desabado na partida final e assim determinando o adiamento para outra data, no caso, esse dia, 18 de janeiro de 2001).

E funcionários do SBT comemoravam eufóricos um fato inusitado : dando um golpe na Rede Globo, o presidente do Vasco na ocasião, Eurico Miranda, fechara um patrocínio pontual para esse jogo somente, e era com o SBT !! Era uma afronta e tanto, pois o jogo foi transmitido para todo o Brasil, via Rede Globo, mas o Vasco exibia enorme em sua camisa, o logotipo do SBT...
Até que uma produtora chamou-nos para a sala de maquiagem e quando voltamos ao lounge, o Paulo Cesar Grande caiu na risada, pois divertia-se com o fato da maquiagem não ter feito nenhuma diferença...e não fez mesmo, pois apenas usamos o pó que inibe o suor dos refletores, o que é obrigatório para não causar constrangimentos em cena. Rimos também, pois foi uma cena engraçada e percebemos de imediato que a brincadeira dele houvera sido sadia. O casal de atores foi chamado primeiro e assim que terminaram, despediram-se de nós, convidando-nos para o espetáculo teatral que encenavam em São Paulo, naquele momento. Vou ficar devendo o nome da peça, pois realmente não recordo-me.
Antes disso, encontrei um velho amigo, chamado Luiz Antonio Galvão, nos bastidores do departamento de jornalismo do SBT. Eu conheci-o nos anos setenta, quando ele ainda nem pensava em tornar-se jornalista.

O jornalista Luiz Antonio Galvão, que eu conheço desde os anos setenta, antes mesmo dele ter enveredado no mundo do jornalismo televisivo
 
Fiquei contente por ver que chefiava o departamento e de fato, durante os anos oitenta eu sabia que ele havia tornado-se repórter de TV, vendo-o fazendo matérias em reportagens de noticiários. Agora, estava muito bem, como chefe do departamento, e eu fiquei contente por vê-lo. Então, uma produtora chamou-nos e levou-nos ao estúdio. Fomos colocados nas poltronas em frente ao apresentador Ney Gonçalves Dias, que foi educado ao receber-nos.

Figura importante do jornalismo televisivo desde os anos sessenta, Ney Gonçalves Dias tinha muita credibilidade no meio

Antes de começar a gravar, alguém da produção pediu-nos para escolhermos alguma música para tocar de BG ("BG" é uma sigla que radialistas e gente de TV usa há décadas, e significa "música de fundo", ou "Background" em inglês, daí a sigla "BG"). Escolhemos "O Novo Sim", por ter um caráter mais palatável ao padrão da emissora. Considerávamos que seria a mais "pop" para não chocar o telespectador do SBT, pouco acostumado à uma banda de Rock.
A entrevista começou e o Ney fazia perguntas previsíveis sobre o surgimento da banda, o papel de Arnaldo Baptista, etc.

Realmente não poderíamos esperar outra coisa de um pauteiro despreparado e com preguiça de realizar uma pesquisa mais aprofundada, e claro que nem era culpa do Ney, que apenas lia as perguntas traçadas em sua ficha. Tudo corria bem, contudo, sem constrangimentos maiores, quando ele quis quebrar o protocolo e "cantar" uma música, seguindo a letra, mediante o encarte do CD. Ele improvisou esse desejo repentino, e não tinha como dissuadi-lo de levar a entrevista para esse mico desnecessário.
Portanto, ele pediu à produção para soltar a música e foi um momento de constrangimento quando percebeu que não conseguiria nem balbuciá-la. Nervoso, ficou nitidamente embaraçado com o encarte na mão e batucando na poltrona, com um semblante atônito. Naturalmente que ele esperava usar o encarte como "cola", mas não deu tempo de avisá-lo que o encarte não continha as letras das canções...

Eu e Rodrigo ficamos completamente vendidos e limitamo-nos a disfarçar a nossa expressão facial de "vergonha alheia". Terminando ao aviso da produção, despediu-se e rapidamente saiu do estúdio, dirigindo-se ao seu camarim pessoal. Saímos e a produtora avisou-nos o horário que iria ao ar. Despedimo-nos e fomos ao estacionamento onde a viatura aguardava-nos para cruzar a cidade, levando-nos de volta. Naquela madrugada, assisti no horário combinado, com meu velho videocassete preparado para dar "Play & Rec", mas simplesmente o programa não foi exibido. Como o SBT é famoso por promover atrasos mastodônticos na sua grade, fui assistindo, até desistir, por volta das 5:00 h da manhã. Era para ter sido exibido, à 1:00 h...

O que aconteceu ? Será que ele melindrou-se e mandou cancelar tudo ?? Nesse caso, que culpa nós tínhamos ??  E os outros entrevistados que também perderam tempo e queriam promover sua peça teatral ? Nunca ficamos sabendo o motivo de não ter ido ao ar e lamentamos muito perder uma tarde e noite praticamente, para nada, fora o prejuízo na divulgação, pois mesmo o SBT sendo uma rede de TV que teoricamente não atingia o nosso público alvo, por outro lado, para uma banda marginalizada como era a Patrulha do Espaço, não era algo corriqueiro estar num talk-show de uma emissora de sinal aberta e popular. Paciência...
Foi frustrante não ver o programa ir ao ar, mas enfim, era um programa que não agregaria público ao show em profusão, e seu alcance teria sido mais subjetivo. Portanto, absorvemos rapidamente esse quase desdém para conosco, e seguimos focados na mini temporada que faríamos no CCSP.

A despeito disso, a divulgação tradicional mediante cartazetes e filipetas, foi executada e tivemos alguns poucos apoios na mídia escrita. Em 1999, comemoramos o fato de fazermos dois shows no Centro Cultural São Paulo; Em 2000, só tivemos uma data, mas com possibilidade de maior capricho na produção. Agora em 2001, estávamos satisfeitos por termos três dias, uma micro temporada.


Cada pequeno sinal desses era comemorado, claro, e movia-nos para frente, com esperança. E nessa nova temporada, tínhamos mais músicas novas, que seriam gravadas adiante, fazendo parte do novo CD. Nessa mescla, o predomínio das músicas do Set List ainda era do CD Chronophagia, na crista da onda, mais um apanhado dos trabalhos setenta / oitentistas da banda.

O primeiro show foi na sexta-feira, dia 19 de janeiro de 2001, com um surpreendente público de 90 pagantes. Digo surpreendente, pois no horário das 19:00 h das sextas, nem artistas consagrados conseguem levar públicos significativos, pois é um horário inviável pelo fato de estar bem na hora do rush em São Paulo.


Para estar no teatro pontualmente nesse horário, ou a pessoa tem uma vida flexível, ou fica muito difícil sair do trabalho e / ou escola, enfrentar o trânsito completamente caótico e chegar na hora certa.


Os próprios funcionários do CCSP contavam-nos histórias de shows vazios, envolvendo artistas de renome, que nem citarei, para não comprometer ninguém, mas digo que são cult na MPB.


 
Foi um bom show, com energia. Fotografamos e filmamos, mas não inteiramente. Sei que o Junior possui esses fragmentos de imagens dos três dias, mas desconheço que tenha postado no You Tube ou lançado em DVD.  


Eis abaixo uma música de um dos três shows que fizemos (19 de janeiro de 2001), em que apresentamo-nos. Trata-se de “O Pote de Pokst”, um momento sempre mágico dentro de nossos shows, com climas “Zeppelinianos” explícitos.
Eis o link para assistir  no You Tube, “O Pote de Pokst” ao Vivo no Centro Cultural São Paulo, em 19 de janeiro de 2001 :
https://www.youtube.com/watch?v=i9pFXnnDGBU

Quase todas as fotos desse show do CCSP em janeiro de 2001 (na verdade, na maioria, apenas fotos de bastidores), são do acervo de Rodrigo Hid, que cedeu-as gentilmente para ilustrar a minha autobio, onde ele é personagem, também.


No dia seguinte, contamos com o relaxante fator do palco já estar montado do show anterior, e dessa forma, bastava chegar para o horário do Soundcheck, com poucos ajustes a serem feitos.

Com Hélcio Aguirra participando como convidado em 20 de janeiro de 2001. Foto do acervo pessoal de Salvatore D'Angelo

O ponto negativo ficou por conta do público que consideramos decepcionante, sem dúvida. Apenas 110 pessoas viram-nos tocar e por ser sábado, apesar do incômodo horário de 19:00 h, não havia a desculpa do rush.
Camarim do Centro Cultural São Paulo em 20 de janeiro de 2001 Da esquerda para a direita : Marcello Schevano; Luiz Domingues; a produtora Claudia Fernanda; Salvatore D'Angelo; Rolando Castello Junior, e Rodrigo Hid.

Uma novidade interessante ocorreu. Como convidado, o Golpe de Estado subiu ao palco no meio do nosso show, e mesclando-se à nós, tocaram duas músicas.

Era a estreia da nova formação, com o novo vocalista, Kiko Müller, em ação. Essa participação do Golpe de Estado também transformou-se numa grande oportunidade para divulgar o show que faríamos um mês depois no Teatro Dias Gomes, dividindo a noite com eles.

Tanta a participação do Golpe de Estado, quanto o nosso show propriamente dito, foram muito bons, apesar do público tímido. No dia seguinte, domingo, as coisas melhorariam em termos de público presente. E assim foi o nosso show de 20 de janeiro de 2001...
O Golpe de Estado tocando conosco, inclusive com o Nelson Brito usando meu Fender Jazz Bass nessa foto rara. Acervo e cortesia de Salvatore D"Angelo

Como já disse, no dia seguinte, o público foi muito melhor, com maior animação para nós, certamente. 180 pessoas passaram pela bilheteria e repetimos a participação do Golpe de Estado como convidado especial. Ficamos animados também com a perspectiva do show que já estava marcado para o mês seguinte, pois essa parceria com o Golpe do Estado haveria de ser vitoriosa. Quanto ao nosso show desta tarde / noite, foi muito bom, encerrando a micro-temporada com sucesso. Foi no dia 21 de janeiro de 2001...

A próxima meta era o show que faríamos dividindo a noite com o Golpe de Estado, num Teatro. Tratava-se do Teatro Dias Gomes, localizado numa galeria de mesmo nome, na Rua Domingos de Moraes, entre as estações Paraíso e Ana Rosa, do metrô de São Paulo. Ali, por muitos anos, desde a década de sessenta, funcionara o Cinema "Capri", tradicional no bairro da Vila Mariana.

Soundcheck no Teatro Dias Gomes. O equipamento das duas bandas misturou-se, fazendo um volume grande no backline de palco. Estou no palco equalizando o baixo no P.A., neste instante da foto.

Uma foto aproveitando a presença imponente do órgão Hammond
As instalações, há muito tempo haviam deixado de ser de sala de cinema, e estavam agora adaptadas para servir ao teatro. Quem costumava (e costuma), arrendar o espaço permanentemente, é a trupe teatral / musical de Osvaldo Montenegro, "Menestréis", que ensaia periodicamente ali, e usa-o para suas apresentações. Conversamos portanto com o dono do espaço, que nas raras brechas onde os Menestréis do Montenegro não usam-no, aluga-o geralmente para montagens teatrais, e muito raramente para música.

No palco, iniciando os preparativos da montagem. Da esquerda para a direita, Nicolas, o filho do iluminador Wagner Molina e que apesar de ter apenas cinco anos de idade na ocasião, era auxiliar do pai e sabia mexer na mesa de luz (!!); Rolando Castello Junior e Samuel Wagner. Ao fundo, de costas, Wagner Molina, conversando comigo, Luiz Domingues, que estou encoberto.

Mas, sujeito acessível e solícito, recebeu-nos, e o Junior convenceu-o a realizar um show de Rock numa esquema de sociedade. Ele não cobraria aluguel e arriscaria dividir a bilheteria entre as bandas. Além do teatro, ele responsabilizar-se-ia pelo P.A. e luz e as bandas pela divulgação. Ficamos até surpresos com sua aceitação, pois geralmente esse tipo de administrador é arredio com shows musicais e principalmente com Rock, onde nutrem diversos preconceitos e temores. Medo de quebra-quebra, problemas com drogas & bebidas, ocorrências policiais etc.

Da perspectiva dos camarins, uma bela foto do palco montado. Parece foto de Book Concert de bandas europeias dos anos setenta...

Mas o sujeito aceitou, e dessa forma, o desafio era lotar o teatro, fazendo uma produção rentável e quem sabe assim, o rapaz animava-se a tornar o teatro, um polo para o Rock, como havia em profusão nos anos setenta. Seu nome era Paulo e tinha uma característica a mais : era um pastor evangélico, dono de uma igreja, e de um estúdio de gravação bem equipado, onde costumava gravar artistas gospel. Num futuro não muito distante, nós usaríamos esse estúdio, mas essa história ainda está longe na cronologia, deste ponto do relato. Chegarei lá...
Fechado o acordo, iniciamos nossos esforços para divulgar o máximo possível o espetáculo. A divisão era animadora com o Golpe de Estado, que faria enfim, a estreia oficial de seu novo vocalista, Kiko Müller. A estreia oficiosa fora nas canjas que deram nos shows da Patrulha no CCSP, que já relatei anteriormente, mas agora, seria de fato, a "volta" da banda perante seu público, num belo teatro, portanto, era a certeza de soma de público ao nosso, e perspectiva de lotação máxima.

Na garagem da residência do Junior, ele colou o lambe-lambe triplo no azulejo. Marcello Schevano segura um cartaz do show. Colamos 600 desses pela cidade de São Paulo (os cartazetes), e algumas cidades vizinhas, conforme já relatei...Fotos de bastidores do show no Teatro Dias Gomes, são do acervo de Rodrigo Hid

  Pelas "Ruas da Cidade"...

O esforço de divulgação foi ainda maior para esse show do Teatro Dias Gomes. A ideia era lotar a casa, para o seu dono animar-se, e daí o Teatro ser doravante, um ponto para artistas autorais, coisa rara no início dos anos 2000, e que ansiávamos resgatar. Portanto, o sucesso dessa empreitada, seria fundamental para servir de argumento nessa pretensão que tínhamos. Fizemos um cartaz extremamente criativo. Na verdade, foi um cartaz adaptado de um que já existia há décadas, mas que estilizamos para promover o show das duas bandas.

Era o cartaz clássico da Revolução Constitucionalista de 1932, com a figura de um soldado convidando os homens paulistas a engajarem-se na força armada revolucionária. Com o slogan clássico, "Paulistas, às armas", usado como palavra de ordem etc.
Logicamente o adaptamos e a convocação seria para o publico rocker cumprir o seu dever "cívico" ou "Rocker" etc etc.

Nosso esforço foi enorme para os espalharmos nos quatro cantos da cidade, todas as cidades do ABC e Osasco. Só não fui à Guarulhos e demais outras cidades da grande SP, por falta de tempo, mas lembro-me de ter rodado mais de 500 km, sem duvida. Outro fator que apareceu nesse processo de divulgação e preocupou-nos, foi quando descobrimos que vários cartazes nossos estavam sendo vandalizados, e muitos deles, tinham inscrições de suásticas desenhadas por cima.O que significaria ? Alguém estaria ofendido com o uso do cartaz inspirado na Revolução de 1932 ? Seriam pessoas com tendências pró-nazistas ou pelo contrário, anti-nazistas interpretando-nos mal ? Nunca descobrimos, pois nada de anormal ocorreu durante o show, ou mesmo depois do público deixar o Teatro. Mas tal manifestação, ocorrida às vésperas, chamou-nos a atenção e ficamos preocupados, logicamente.

Estávamos focados em shows, mas resenhas do álbum "Chronophagia" ainda repercutiam. Aqui, na Revista "Batera e Percussão", logicamente que enalteceram a performance do Junior no disco, e modéstia à parte, tinha mesmo que enaltecer seu trabalho...

Passado esse esforço de divulgação, chegou enfim o dia do show.
Nosso esforço natural de chegar cedo era uma praxe, mas havia um problema estrutural no Teatro Dias Gomes. O fato é que por ser arrendado pela trupe de teatro "Menestréis" do Oswaldo Montenegro, mesmo quando não usavam-no para apresentações, haviam ensaios.

E foi o que aconteceu no dia do nosso show, atrasando obviamente, toda a nossa produção. Enquanto descarregávamos o equipamento, os atores faziam exercícios de dança, portando cabos de vassouras e esvoaçando-se pelo palco, saltitando e rindo, sem importar-se com a nossa presença e apreensão com os ponteiros do relógio insistindo em não parar de avançar rapidamente.

E já havia um aviso de que não poderíamos atrasar o show em hipótese alguma, pois o teatro ficava (fica) no piso térreo de uma galeria comercial acoplada à uma torre de apartamentos residenciais. Para a sonorização de peças de teatro, havia uma tolerância dos moradores, mas o dono do teatro temia por problemas com a realização de um show de Rock, com duas bandas. Houve uma demorada debandada dos atores, que realmente não colaboraram em esvaziar o palco, e deixarem-nos montar o equipamento.

O teatro tinha um palco grande; com coxias e cenotécnica bem amplas; boa iluminação, e camarins muito confortáveis. Muitos anos antes, ali era o Cine Capri, um dos inúmeros cinemas de bairro de São Paulo, e só ali na Vila Mariana, na extensão da Rua Domingos de Moraes, haviam quatro ou cinco, além do Capri. O próprio Junior contou-me num momento nostálgico dele, enquanto esperávamos os atores desocuparem o palco, que costumava frequentar aquele cinema ainda quando criança, acompanhado de seu avô, e que assistira ali "Taras Bulba", um filme épico do grande ator, Yul Brynner, em 1962...

Contaríamos com o P.A. do teatro, mas como era insuficiente para um show de Rock, o pessoal do Golpe de Estado arrumou um reforço com amigos. A luz, contudo, estava OK e nós levamos um técnico de gabarito, Wagner Molina, que anos mais tarde, tornar-se-ia o técnico de luz do "Pedra". Nesse dia, ele surpreendeu-nos pois levou seu filho Nicolas, à época com cinco anos de idade e para a nossa estupefação, o menino era o seu assistente !! Enquanto ele afinava os spots no palco, seu filho é que ligava e desligava-os, a pedido do pai. O garoto sabia operar uma mesa de luz com desenvoltura, com cinco anos de idade e claro, hoje em dia, adulto, é um técnico profissional e muito requisitado por aí.


Com a demora da saída dos atores do palco e suas vassouras, tudo atrasou, é lógico...e o reforço de P.A. providenciado pelo Golpe de Estado, idem. Dessa forma, a passagem de som foi um exercício de paciência e tanto. E nesse ínterim, conhecemos o técnico de som do Teatro, um sujeito simpático e atencioso, chamado Yves. Ele sabia que aquele equipamento era insuficiente para um show de Rock, e que servia apenas para sonorizar peças teatrais. Ele foi solícito com o técnico que o Golpe de Estado trouxe, e que acabou operando os shows do Golpe e da Patrulha, naturalmente. Pouco tempo depois, ele mesmo operaria outro show que a  Patrulha faria ali mesmo, nesse teatro, coisa que contarei posteriormente.

Na hora do nosso soundcheck, e com o Wagner Molina fazendo seus testes de luz.

Passado o som e afinados os spots de luz, restava pouco tempo para o primeiro show ocorrer e o pessoal do Golpe insistiu muito para tocar primeiro. Numa circunstância dessas, com duas bandas de porte dividindo a noite, realmente não importava quem tocaria primeiro, pela questão de status. Ambas poderiam ocupar qualquer ordem, em igualdade de condições. Mesmo com pouco tempo hábil, aproveitamos para tirarmos algumas fotos promocionais nos camarins do teatro. Uma delas, ficou bem famosa e foi publicada inúmeras vezes em jornais e revistas, por bastante tempo.

No camarim do Teatro Dias Gomes, minutos antes de entrar em cena. Foto de Ana Fuccia.

Estamos sentados e rindo, com um bom semblante, com a parede do camarim decorada com discos de vinil, parecendo uma loja de discos de antigamente. A autoria da foto foi da Ana Fuccia, uma fotógrafa que tornara-se nossa amiga, e que dali em diante faria muitas fotos promocionais e ao vivo. Inclusive, a foto da contracapa do CD .ComPacto, de 2003, foi de sua autoria.


O teatro liberou a entrada do público e tivemos a grata surpresa de  termos um show com casa lotada. Eram 350 pessoas lotando o auditório, e estávamos contentes pelo esforço da divulgação ter dado certo. O show do Golpe de Estado iniciou-se, e de diversos pontos das coxias, pudemos ver a banda em ação, a reação da plateia e a rebarba do som nos monitores.

A banda e o público estavam ótimos, mas o som no palco estava embolado, extremamente. Uma frequência grave muito forte, tornava o som muito difícil para quem fosse tocar, e claro, preocupamo-nos. O rapaz que o Golpe levou para operar, tinha boa vontade, mas não demonstrava grande destreza técnica na pilotagem, e o show do Golpe foi praticamente inteiro com esse problema. Então, terminou a performance deles, e chegara a nossa vez...

O público lotou as dependências do Teatro Dias Gomes e apesar dos problemas de som que o Golpe de Estado enfrentou, gostou muito da performance de Hélcio Aguirra; Paulo Zinner & Nelson Brito, e mesmo reticentes com a entrada do novo vocalista, Kiko Müller, aplaudiram e gostaram bastante da performance da banda.
Chegou a nossa vez...


Logo na primeira música, "Não Tenha Medo", uma microfonia de frequência grave, perturbou-nos muito. O Junior não teve dúvida e mesmo criando o anticlímax, parou e pediu ao técnico para detectar e eliminar essa frequência desequilibradora. Sei que é chato, constrangedor mesmo, mas ainda assim é preferível a prosseguir o show em condições técnicas insuportáveis, que só prejudicariam ainda mais a banda.

Teatro Dias Gomes, 10 de fevereiro de 2001. Click, acervo e cortesia de Salvatore D"Angelo

Feito isso, prosseguimos com "Festa do Rock"; "Ser", e demais canções do Set List. O show foi muito bom, com uma boa resposta do público. 
No mesmo dia no Teatro Dias Gomes, tendo participação especial do saudoso Hélcio Aguirra, guitarrista do Golpe de Estado. Click, acervo e cortesia de Salvatore D"Angelo

A luz funcionou muito bem com a condução do Wagner Molina, que é um mestre da iluminação. O som deixou a desejar com a precariedade do P.A. inadequado, mesmo com algum reforço vindo de fora, mas sobretudo por conta da operação fraca do rapaz que o Golpe de Estado trouxe.
Outra foto com o grande Hélcio Aguirra abrilhantando nosso show como convidado especial no Teatro Dias Gomes. Click, acervo e cortesia de Salvatore D'Angelo

Era o dia 10 de fevereiro de 2001, e 350 pessoas assistiram-nos no Teatro Dias Gomes, ex-Cine Capri.

O show foi legal, e o dono do teatro animou-se. Parecia que ali poderia tornar-se enfim, um novo templo do Rock paulistano, e pela estrutura de palco e luz, boa localização e o charme de ter sido um cinema de bairro nos anos cinquenta / sessenta, tinha tudo para tornar-se, mesmo. Ajustando-se a questão de um P.A. adequado e a normatização de um horário não conflitante com o condomínio residencial anexo, tinha tudo para tornar-se um ponto incrível para o Rock paulistano de começo de novo milênio, tal como o Cine Joia, no bairro da Liberdade tornou-se hoje em dia (2016), em relação à cena do Indie Rock. Em meio à empolgação o Junior  marcou uma nova data a seguir, desta feita, só com a Patrulha do Espaço apresentando-se. Seria logo a seguir, mas numa data inóspita : o domingo de carnaval... 

Claro, viria à tona, a velha estratégia de marketing de achar que os rockers mais radicais e desafetos das folias de Momo, compareceriam em massa, felizes da vida por um show de Rock redentor, para quebrar o tédio do feriado compulsório etc etc.
Indo nessa direção, aceitamos fazer o show, mas particularmente eu temia por um resultado não tão eficiente. O Junior vinha de uma outra escola de administração artística. Seu pensamento sempre convergia para a ideia de que após um show realizado com sucesso, imediatamente devia-se marcar outro no mesmo local, aproveitando-se o embalo e o inevitável rumor que as pessoas que o assistiram, realizariam e dessa forma, motivando-as a assistir de novo e indo além, angariando mais gente, influenciada por essa propaganda de "boca-a-boca". 

Esse expediente era muito comum nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta, mas já não fazia sentido em pleno início de anos 2000. Agora, as pessoas tendiam a reagir de outra forma, com a mentalidade de darem-se por satisfeitas com o bom show que viram e sem que isso suscitasse a vontade de ver de novo. Mas ele ainda não havia notado essa mudança comportamental e seguia a cartilha da produção à moda antiga e não só nesse caso do segundo show no Teatro Dias Gomes, mas em outras ocasiões também, insistiu nessa estratégia. 


Resenha do show anterior, realizado em fevereiro, na revista "Rock Brigade", nº 176, de março de 2001

A vantagem desta feita, era que tocaríamos sozinhos, sem ter que dividir a noite com outro artista, e não haveria ensaio dos atores da trupe de Oswaldo Montenegro, portanto, teríamos mais tempo hábil para montar e fazer o soundcheck. Por outro lado, toda a despesa de divulgação correria por nossa conta, além do fato de que teríamos de usar forçosamente o precário P.A. do Teatro, pois no show anterior, o reforço trazido por fora, tinha sido providenciado pelo Golpe de Estado. E outra desvantagem, estaria na questão do tempo hábil para realizar a divulgação, bem menos confortável do que a do show interior e com a agravante do próximo ser numa data bastante ingrata.


Com pouco tempo para divulgar o próximo show, realmente a perspectiva não era das melhores para essa segunda investida no Teatro Dias Gomes. E o fato desse show estar marcado para o domingo de carnaval, mais ainda. Nesse ínterim, uma oportunidade para fazermos uma aparição num programa de TV surgiu e haveria de ser um reforço bom num momento em que precisávamos divulgar esse segundo show no Teatro Dias Gomes, fora a obviedade de sermos tão carentes de apoio televisivo mainstream e portanto, qualquer brecha era importante para podermos divulgar mais o nosso trabalho. Todavia, não era exatamente um programa de grande visibilidade, e nem mesmo a emissora poderia ser considerada importante em termos práticos.

Falo do programa "Intimação", exibido na obscura Rede Vida, uma emissora que operava em sinal aberto, mas dirigida por religiosos de orientação católica, apesar de ter na grade atrações culturais até razoáveis, no bojo era um canal focado em religião e com público alvo centrado em gente da terceira idade, predominantemente e entusiasta de programas focados em religiosidade cristã. No caso desse "Intimação", fugia à regra no entanto, pois tratava-se de um programa nos moldes da "Turma da Cultura", "Matéria Prima"; "Altas Horas" e similares, com a presença de um apresentador jovem e comunicativo, entrevistando personalidades culturais e do mundo sociopolítico em geral, envolto à uma plateia formada por adolescentes que eram convidados a interagir com perguntas aos convidados, e tudo entremeado por atrações musicais.
O jornalista Thiago Gardinali, que apresentava o "Intimação" em 2001, e nos dias atuais apresenta um telejornal de teor policial numa emissora de TV de uma cidade interiorana do estado de São Paulo
 
Como fomos convidados para tal programa ? Como o Rodrigo havia formado-se jornalista, conhecia vários ex-colegas da Faculdade Cásper Líbero que haviam espalhado-se por diversos órgãos de imprensa após concluírem seu curso, e era o caso do apresentador desse programa, que fora seu colega de classe, um rapaz chamado Thiago Gardinali. Graças a ele, fomos indicados para a produção e pautados para participarmos do programa em 28 de fevereiro de 2001. Não havia estrutura para uma apresentação ao vivo, portanto decidimos irmos em trio, apenas, sem a presença do Junior e assim apresentamo-nos eu; Rodrigo e Marcello, somente, tocando a música "Céu Elétrico" com violões e a flauta, mais as vozes, naturalmente. Mas cabe acrescentar que o número musical que executamos ao vivo ocorreu nos estertores do programa e nem chegamos a concluí-lo, visto que os caracteres subiram e cortaram nossa exibição. Não foi culpa do Thiago, eu sei e acrescento que sua boa vontade em ajudar foi tremenda, e graças à ele, um ano depois teríamos uma ótima entrevista na Rádio Jovem Pan AMn inclusive. No caso desse "Intimação", apesar dele, Thiago ser o apresentador e teoricamente coprodutor, a verdade é que a engrenagem ali não era comandada por ele, exatamente e daí o seu poder de decisão ser pequeno, Nesses termos, nossa participação fora pífia, visto que o tempo do programa foi gasto inteiramente com um debate ridículo sobre o então emergente "funk carioca" e defensores dessa suposta estética artística / cultural debatiam contra detratores, tudo baseado no teor lascivo de sua atuação e digamos que num canal católico e de público bastante conservador e idoso, era um debate até surpreendente. Uma pena, no entanto, é que o debate foi absolutamente de nível sofrível, com opiniões esdrúxulas emitidas por jovens de baixo padrão educacional e cultural e um defensor que era bastante astuto e bom sofista, mas motivado única e exclusivamente por seus interesses pessoais, visto estar atuando como fomentador dessa cena pseudo artística lastimável, por produzir espetáculos com os artífices dessa manifestação. Era o ator, Alexandre Frota, que falou bastante defendendo o indefensável, mas como todo bom argumentador e orador, não passava de sofismas o que afirmava, é claro, mas eu respeito-o, pois sei que apesar de estar ali defendendo uma coisa abominável, sua astúcia era valorosa, é claro. A única vez que interagimos nesse debate de baixo nível, foi quando Thiago interpelou o Rodrigo para que este emitisse sua opinião e ele falou que esse tal "Funk" não era o legítimo, mas algo deturpado e que o real Funk era uma escola da Black Music com muito valor artístico e no início dos anos setenta assistira seu esplendor no Rio de Janeiro, através de muitos artistas de imensa qualidade etc etc e citou Gerson King Combo entre seus principais artífices. Claro, ninguém daquela plateia de jovens incautos entendeu patavina de suas ponderações bem embasadas...

Rodrigo dirigiu parte de sua explanação ao próprio Alexandre Frota, que sinalizou com o movimento de cabeça que entendia e concordava com tal ponto de vista, mas, isso era obviamente irrelevante para ele, pois queria mesmo era ganhar dinheiro produzindo bailes daquele Funk fajuto & usurpador do nome, indevidamente, e ponto final.

Curiosidade engraçada, no decorrer do programa, um grupo de fãs do "Sepultura" organizara um protesto contra o Frota e fora impedido de adentrar o estúdio dessa emissora. Ficaram na rua gritando palavras de ordem e exibindo cartazes com dizeres de repúdio ao ator. Segundo soubemos, Frota havia por um período envolvido-se com tal banda e fomentado ações de produção nos bastidores em prol deles, mas abandonara tal apoio e engajara-se a seguir nessa "'onda" do funk de araque e com isso, despertara a fúria inconformada dos adeptos do Metal extremo do Sepultura. Ao ser mencionado o fato de que "metaleiros" fãs do Sepultura estavam na porta da emissora protestando e um link dessa imagem foi mostrado na tela, Frota ironizou-os  dizendo com seu forte sotaque carioca : -"quem são esses caras de camisetas pretas aí fora ? Onde é o velório, estão de luto ? Quem morreu ? Isso gerou uma gargalhada generalizada no estúdio e jogou o suposto protesto dos rapazes no ralo. Esperto ao extremo, capitalizou algo que seria-lhe maléfico em tese, em trunfo, dando um golpe de judô nos molequinhos da rua. Quando fomos chamados a atuar e nem deu tempo de concluir nosso número, é claro que a discussão inócua e totalmente manipulada a favorecer a opinião do Frota, graças à sua hábil astúcia, tornara o ambiente inteiramente desfavorável para nós. "Funk" dos morros do Rio era legal e nós, com nossa musiquinha acústica e plena de docilidade psicodélica, não tinha registro para aquela plateia, onde muitos haviam emitido "opinião forte" de que achavam o "funk legal porque era legal". Não fomos hostilizados, mas vendo o vídeo, é nítido que a imensa maioria adotou postura de deboche, rindo com escárnio e fazendo movimentos coreografados para acompanhar o ritmo de "Céu Elétrico", inclusive o próprio Frota. Mas ao apagar da luz vermelha, em off, Frota foi simpático conosco e disse-nos que gostava de Rock setentista, era fã de "Deep Purple"; "Led Zeppelin" e "Black Sabbath" e assim, ofertando-nos seu cartão de visitas, falou que realmente havia feito trabalhos com o Sepultura e que gostaria de conversar conosco, visando algumas produções no futuro. O Rodrigo teve boa vontade e ligou para o seu escritório de produção artística muitas vezes nos dias subsequentes, mas nunca teve um retorno...bem, "funk" é que era legal...e o inferno da anti cultura abissal estava apenas começando. Aquele "funk" de 2001 que achávamos ser o fundo do poço era uma mera manifestação ingênua para freirinhas noviças perto do que observamos nos dias atuais...

Boa vontade máxima de Thiago Gardinali, somos-lhe grato por essa e outras que ele arrumou-nos, mas claro que tal aparição em nada auxiliou-nos na prática. Não era sua culpa, certamente. Tenho uma cópia editada com nossa participação nesse "Intimação" e que já está digitalizada e um dia irá para o You Tube. Então, foi uma pena, mas tal programa nada representou para auxiliar-nos na divulgação da próximo show que faríamos no Teatro Dias Gomes...

O fato, é que não tivemos meios de realizar uma divulgação a contento, e contamos com um reduzido público de cinquenta pessoas. Embora o público tivesse sido aquém do que esperávamos, tivemos alguns aspectos positivos nesse segundo show. Primeiro, que a montagem do equipamento e soundcheck foram muito mais tranquilos do que na primeira ocasião, quando dividimos com o Golpe de Estado.

O simples fato de não sermos atrapalhados pela trupe de atores do grupo Menestréis do Oswaldo Montenegro, colaborou muito nesse êxito. O segundo ponto foi inusitado : mesmo sem o reforço de equipamento que tivemos no primeiro show, conseguimos ter um som de P.A. e monitoração de palco, muito melhor. Com calma e muita boa vontade, o técnico de som do Teatro, um sujeito chamado Yves, conseguiu tirar "leite de pedra", fazendo um som melhor, com o fraco P.A. disponível no teatro, que convenhamos, era adequado somente para sonorização de sonoplastia de peças teatrais, e não para shows musicais, mais ainda show de Rock. Portanto, apesar dos pesares, o segundo show foi muito melhor tecnicamente falando, e foi uma pena ter tido um público muito menor. Fizemos amizade com o técnico Yves, e surgiu um convite inusitado da parte dele, para diminuirmos o tamanho e o peso do órgão Hammond do Rodrigo. Segundo ele, isso poderia ser providenciado facilmente, pois estava habituado a fazer isso em sua oficina. Passou-nos então o endereço da oficina, onde fabricava caixas de P.A; potências, caixas de monitor etc. Alguns dias depois, fomos lá com o órgão e conhecemos sua oficina. Realmente ele tinha uma infinidade de caixas e equipamentos que fazia sozinho, sem funcionários, de forma artesanal. Bem equipado, com uma infraestrutura bacana, surpreendeu-nos também por usar métodos pouco usuais para potencializar altofalantes. Num dos gabinetes, havia uma pirâmide de grande porte, onde ele deixava os altofalantes sendo energizados, demonstrando ter conhecimentos de radiestesia.

Particularmente, achei muito interessante essa abordagem. O ponto chato nessa nossa investida foi que a casa dele ficava num terreno em declive e dessa forma, suamos, literalmente, para colocar o órgão Hammond lá embaixo...
E pior que isso, o Yves acabou ligando-nos posteriormente e alegando estar sem tempo, pediu para buscarmos o Hammond, pois não teria condições de realizar o trabalho de redução no pesado móvel. Sem alternativa, só restou-nos voltarmos à sua casa, num distante bairro da zona norte de São Paulo, e apanharmos o instrumento. O show no Teatro Dias Gomes que comentei neste trecho, realizou-se no dia 4 de março de 2001, sob a audiência de 50 pessoas. E diga-se de passagem, foram poucos, mas animados espectadores, e que saíram contentes do teatro, pela nossa performance. Acredito que para levar um bom público em pleno domingo de carnaval para ver um show de Rock, é preciso uma divulgação muito forte e o que tínhamos em mãos naquela ocasião, era uma verba curta para cartazetes e poucas filipetas, apenas.
Numa cidade da proporção de São Paulo, não daria nem para divulgar no bairro onde localiza-se o Teatro...
E como agravante, computo o fato do Teatro Dias Gomes, apesar de ter ótima localização (numa conhecida rua de muito movimento de ônibus, e a dois quarteirões de uma estação de Metrô), ter pouca ou nenhuma tradição como espaço musical, apesar de estar arrendado há anos pelo Oswaldo Montenegro. Parece que só o público dele frequenta-o, pois não vejo outras produções ali realizadas. E como terceiro fator, o fato da estratégia do Junior ser ultrapassada. De fato, nos anos sessenta e setenta, era muito comum desbravar um lugar, e na base do "boca-a-boca", criar atmosfera para novas investidas num curto prazo, com o público entusiasmando-se e arregimentando mais gente a cada aparição do artista. Mas infelizmente, a partir dos anos oitenta, essa dinâmica havia mudado, e a tendência que persiste até os dias atuais é a da mentalidade de assistir-se uma vez, e não ter vontade de ver novamente. Ou seja, não há um comprometimento, uma simbiose entre artista e fãs. Dessa forma, sem "seguir" o artista, como era comum em décadas passadas, um bom show realizado não garante a realização vitoriosa de outro a seguir, no mesmo local. Pelo contrário, a tendência é a da segunda tentativa redundar em melancólico fracasso.

Continua...

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