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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 6 - Quer Comprar um Ônibus ? - Por Luiz Domingues

O próximo compromisso que teríamos, seria numa casa noturna famosa do interior de São Paulo, e que já havíamos visitado no final de 2000. E nesse show em específico, uma novidade aconteceria como um teste preliminar, mas que tornar-se-ia doravante uma esperança de solução para a logística da banda, mas concomitantemente, uma fonte permanente de dores de cabeça, para todos nós. A esposa do Junior na ocasião (Claudia Fernanda, e que era nossa produtora), conhecera um rapaz que era dono de duas vans, e que levara a banda para shows no interior, anteriormente, no regime de locação.

Esse sujeito disse ter conhecido um outro rapaz que estaria vendendo um ônibus, por um preço convidativo, e que estaria disposto a facilitar o pagamento. Então, numa fase onde tínhamos muitas oportunidades de tocar em cidades interioranas; viajar para outros estados, e sobretudo, deixávamos uma gorda fatia de nossos cachets sair de nosso bolso para pagar a locações de micro-ônibus; vans, e similares, a ideia de ter um transporte próprio, parecia ser boa em princípio, mas muitos desdobramentos ocorreriam dessa ideia. Claro que conversamos e ponderamos os prós e contras de um investimento desses. A autonomia para viajar, parecia ser o grande argumento pró, mas a contrapartida gerava dúvidas. Não seria melhor investir tal dinheiro em outras coisas importantes para a banda ?  Enfim, essa conversa ocupou-nos a atenção entre agosto e setembro de 2001.


Embora fosse óbvio que teríamos gastos adicionais da ordem de ajustes de manutenção do veículo, além das prestações da aquisição propriamente dita, o nosso sócio / motorista, sempre minimizava tais questões, como se fosse fácil resolve-las. É claro que não era, mas a contrapartida dessa aquisição, era a óbvia perspectiva de aumento da demanda de shows, com o consequente aumento da arrecadação. Nesses termos, parecia que a estratégia lograria êxito, e na pior das hipóteses, conseguiríamos manter a banda no "azul", o que já seria aceitável naquele momento.

Rara foto desse show no Delta Blues de Campinas em 2001, e do acervo pessoal do nosso roadie, Samuel Wagner

Enfim, gastamos uma boa quantia para alguns ajustes mínimos, no intuito de usar o ônibus o quanto antes e torná-lo assim, rentável.
E a primeira experiência com o veículo, deu-se no início de setembro de 2001. Fomos à Campinas, para mais uma apresentação na casa de shows, "Delta Blues". Como a cidade de Campinas dista apenas 100 Km de São Paulo, julgamos ser uma experiência ideal para testar o carro na estrada e sentir assim se poderíamos confiar no seu desempenho.

O motorista também parecia bastante animado e como costumava enfatizar, queria aproveitar a vida na estrada levando a banda para tocar a toda parte. Nesses termos, parecia uma parceria perfeita, mas não pensávamos nessa ocasião, o quão imprudente era / é contar com um único motorista para conduzir o veículo. Na animação inicial, não ponderamos os impedimentos inevitáveis que poderiam ocorrer, tais como : problemas de saúde; imprevistos familiares; problemas com a carteira de habilitação do dito cujo etc etc...

Tais questões só viriam à tona, tempos depois, quando deparamo-nos com eventos desse nível, pois naquele momento inicial, só pensávamos o dia-a-dia. E assim, com o ônibus tendo passado por pequenos ajustes iniciais básicos (troca de óleo e filtros; dois pneus novos; um check-up na mecânica; freios, e parte elétrica), encaramos o primeiro desafio. Posso afirmar hoje em dia, que era uma nova etapa na vida da banda e não simplesmente só uma mera aquisição. Realmente, daí em diante, as coisas pautaram-se muito em cima desse ônibus, pelos aspectos bons e ruins de tal rumo que tomamos.

Encarando a novidade, rumamos à Campinas e logo no primeiro posto rodoviário, fomos "convidados" a parar para uma conversinha com o policial rodoviário. Apesar da aparência discreta do veículo e estar tudo em ordem, inclusive a documentação já registrada no nome do nosso motorista / sócio, éramos novatos nessa dinâmica de considerarmo-nos donos de um ônibus, e posso afirmar que foi o primeiro susto desagradável que tal atribuição poderia proporcionar-nos e infelizmente, coisas muito piores aconteceriam doravante, por anos...

Imbuído da típica malandragem de quem tinha vivência nesse tipo de coisas, o motorista só disse-nos para ficarmos quietos dentro do veículo e aguardarmos, pois ele trataria do assunto com o policial.
De fato, o policial quis olhar os itens básicos de segurança do veículo, não achou nada de errado na documentação e só alertou sobre os pneus que não havíamos trocado previamente e certamente também precisavam ser substituídos (só trocáramos dois, os piores, mas o certo seria ter comprado um jogo novo). Mas o policial quis dar uma olhada na parte interna, e com feição facial de "poucos amigos", entrou e verificou que era uma banda de Rock a bordo, com um monte de cabeludos, instrumentos e equipamentos. Temi por um pedido de inspeção geral, alimentado pelo preconceito de praxe em relação à drogas, mas ele apenas desejou-nos feliz viagem e liberou-nos, enfim. A parada consumiu quase meia-hora da nossa viagem, ou seja, a metade do tempo que gasta-se normalmente para ir de São Paulo à Campinas.

Enfim, chegamos finalmente ao Delta Blues, no simpático bairro Castelo na cidade de Campinas, e assim como na ida, ficou a constatação de que carregar e descarregar o equipamento pela porta tradicional do veículo era um fardo. Além de pouco anatômica para a função, produzia um lógico cansaço extra para a equipe de roadies, além da morosidade nesse processo, gerando um stress a mais. Providências teriam que ser tomadas sobre tal questão, além da adequação dos bancos, pois o ideal era ter menos que as quarenta e tantas poltronas tradicionais do ônibus.

Falando do show em si, foi uma excelente performance. Honrando as tradições da banda, "fizemos (de fato), uma noitada excelente"...
Era a noite do dia 6 de setembro de 2001, véspera de feriado nacional, e cerca de 300 pessoas entraram na casa para assistir-nos.

Um fato alheio à banda abaixou um pouco o astral da noite, com uma briga que aconteceu quando seguranças da casa expulsaram alguns garotões impetuosos que tentaram entrar sem pagar. E outro fato, este sim, pertinente para nós, foi que logo na saída, havíamos notado areia no interior do veículo, ainda que não em grande quantidade e nitidamente notava-se que havia escapado de uma vassourada prévia.

O nosso "sócio" tentou disfarçar, falando que transportara areia de uso pessoal, mas a verdade veio à tona a seguir : ele transportara uma banda de pagode para a cidade de Santos, alguns dias antes, e o passeio na praia certamente deixou vestígios. Nosso trato era o de usarmos o veículo exclusivamente para nós, mas logo de início, já ficamos desapontados com tal atitude sem a nossa concordância, e aí já começou uma quebra de confiança que só aumentaria nos meses subsequentes. Na volta para São Paulo, a viagem foi tranquila. O ônibus não esboçou nenhuma pane, e a polícia não parou-nos para inspeções, mas quando já estávamos transitando pela cidade de São Paulo, um problema surpreendeu-nos em pleno Vale do Anhangabaú, bem no meio do túnel subterrâneo...
Uma falha lamentável ocasionada pelo marcador de combustível, deixou-nos sem noção da real situação do abastecimento do tanque de óleo diesel. Foi repentino e lamentável, ficar por volta das seis horas da manhã com o carro sem meios de prosseguir. A sorte, era que tratava-se de um feriado e num horário muito cedo, pois se fosse num dia útil qualquer, seríamos alvo fácil dos xingamentos dos motoristas estressados. Enfim, sanado esse "probleminha", seguimos em frente e já tínhamos uma outra questão para resolver : o marcador de combustível e sua indefectível boia...


Diante da dificuldade que detectáramos na tarefa de carregar e descarregar o equipamento do ônibus, surgiu a ideia de promover uma transformação na lataria, abrindo um novo caminho mais confortável para o empreendimento de tal tarefa logística.
O sócio / motorista indicou um amigo funileiro que tinha experiência com esse tipo de serviço e dessa maneira, fomos até o município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, onde ele morava, e posteriormente à oficina de seu amigo, num bairro daquela cidade. Era o começo de uma era de peregrinações ao universo de oficinas; lojas de autopeças; eletricista de autos; borracheiros e afins, que confesso, sempre detestei, mesmo para cuidar de meu carro particular, quanto mais de um ônibus.

O sujeito era mais um daqueles típicos personagens desse universo, cheio das malandragens e maneirismos, e claro que eu e qualquer outro membro da banda, destoava disso completamente, e aos olhos dessa gente, éramos presas fáceis para que exercessem sua arte de ludibriar, usando de terminologia estranha ao nosso vocabulário e métier. Só não foi fatal, porque nesse quesito, o sócio / motorista tomou a dianteira e falou a linguagem desses tipos, mas num curto espaço de tempo, ficaríamos vendidos nesse quesito, conforme relatarei na cronologia. Enfim, o tal funileiro avaliou e projetou uma porta lateral no fundo, que facilitaria a tarefa de carga e descarga de equipamentos. Aproveitando o ensejo dessa intervenção, cotamos a pintura do veículo. A pintura original de fábrica não estava ruim, mas se pudéssemos dar uma melhorada no carro, por que não aproveitar a oportunidade ?  Pairava contra, a ideia de uma dívida extra, pois ainda tínhamos prestações a pagar do veículo e vários pequenos reparos a serem feitos. Contudo, o preço que o rapaz pediu para pintar o veículo, ficou abaixo da média de mercado e portanto, tornou-se uma oportunidade. Antes de comentar sobre essa pintura, preciso retroagir um pouco, pois mesmo antes dessa possibilidade aparecer, nós já havíamos pensado numa pintura, porque conversas foram mantidas com um artista plástico, que inclusive entregou-nos um raf incrível que fez-nos "viajar" nessa hipótese, literalmente.


Os irmãos Peticov, Antonio acima, em foto dos anos sessenta, e André, abaixo, em foto mais atual

Foi assim : o Júnior era amigo dos artistas plásticos Antonio e André Peticov, desde o final dos anos sessenta. Para quem conhece a história do Rock Brasileiro, sabe bem que esses irmãos tem uma parcela enorme de contribuição à arte de uma maneira geral e interagiram com bandas de Rock, desde essa época, com muita profundidade. Antonio foi mentor dos Mutantes e André foi um dos primeiros artistas a fazer projeções psicodélicas de bolhas, em shows de Rock em São Paulo. Mais ou menos em abril de 2001, fui com o Junior ao atelier do Antonio Peticov, um enorme galpão no bairro do Itaim-Bibi, na zona sul de São Paulo para uma visita.
Nessa visita, conhecemos um de seus muitos pupilos e quase todos ali eram entusiastas do Rock 1960 / 1970. Algum tempo depois, lembramo-nos desse rapaz, pois ele havia oferecido-se para ajudar-nos com qualquer tipo de lay-out que precisássemos, de cartazes de shows a capas de discos, enfim.

Então o Junior chamou-o à sua casa e conversamos sobre a possibilidade dele desenvolver uma pintura psicodélica ao estilo dos ônibus e vans que circulavam na América, nos anos sessenta, no auge do movimento Hippie. Claro que o rapaz adorou a ideia e alguns dias depois, voltou à casa do Junior com um raf, mas na verdade, já era um "boneco". Para quem não conhece o jargão de quem lida com lay-outs gráficos, "Boneco" é uma miniatura bem realista de como um produto vai ficar quando pronto, para o cliente ver e aprovar ou não a sua confecção. Enfim, o ônibus de papel que trouxe-nos ficou absolutamente incrível !! Era uma pintura louquíssima, multicolorida e o que era fascinante : 100% fidedigna à psicodelia sessentista, porque o conceito "psicodelia", há muito tempo foi deturpado por aí, por gente que lida com grafite, ou está ligada à tais "raves" de música eletrônica. Mas não era o caso desse rapaz, pois como pupilo de Antonio Peticov, era naturalmente inteirado da egrégora, sabendo exatamente o que procurávamos, e indo além, claro que desenhou com paixão, pois também amava aquela estética. Portanto, quando tivemos a chance de pintar o ônibus, claro que queríamos aquela pintura psicodélica incrível, mas fatores alheios à nossa vontade, mudaram nossos planos...

A ideia de pintar o ônibus era acalentada pelos quatro membros da banda, com muito entusiasmo, porém, não era só uma questão de querer fazer, pois logo descobrimos que para oficializar uma pintura desse tipo no veículo, gastaríamos mais uma verba considerável,  havendo a possibilidade de ficar sob judice das autoridades, pois ao contrário do que imaginávamos, inocentemente, pensando na enorme profusão de veículos conduzidos por hippies nos anos sessenta, para rodar tranquilos, com o veículo regularizado em sua documentação, a questão era muito mais complicada, principalmente aqui no Brasil. Então, levando em consideração tais fatos e somado ao fato de que o funileiro quando consultado sobre uma possível pintura artística, relutou e deu a entender que não saberia fazê-la corretamente, acabamos abortando o projeto, lamentavelmente.

Ficamos chateados obviamente, pois teria sido um prazer enorme, além de uma propaganda móvel muito bacana. Chegamos a cogitar levantar patrocínio, mesmo conspurcando um pouco a pintura psicodélica, mas logo desistimos pois seria um trabalho que demandaria muito tempo e nós estávamos com o carro parado na oficina já em fase de serviço de funilaria (aos cariocas que estiverem lendo : entendam "lanternagem"), e o rapaz (aliás nem nós mesmos), não poderia esperar por tal definição financeira para cobrir essa ideia. O artista plástico que concebeu a pintura, chegou a oferecer-se para pintar pessoalmente, mas precisaríamos de uma garagem adequada, pátio ou estacionamento e haveria toda a estrutura de pintura que sairia cara com a compra não só das tintas, mas de pincéis adequados e material de apoio, fora a questão da sujeira inevitável e posterior responsabilidade pela limpeza e possível reparação de danos causados.

Ele chegou a falar sobre um mutirão, trazendo alguns colegas do atelier do Peticov, e que seria um prazer para todos, mas infelizmente não tínhamos estrutura para tal e já estávamos inclinados a abortar a missão pelas dificuldades que teríamos com as autoridades de trânsito. Não consigo recordar-me do nome desse jovem artista, pupilo de Antonio Peticov, mas lembro-me que graças à ele, nessa mesma época, ajudamos uma ONG de reciclagem de materiais, doando uma música para um CD coletânea com várias bandas. 

O Junior cedeu "Ser", extraindo o áudio diretamente do CD "Chronophagia". Tal coletânea chamou-se "Música para Reciclar" e a ONG pertencia à uma associação de um bairro da zona norte de São Paulo, não lembro-me se Pirituba ou Freguesia do Ó. Nela, haviam bandas novas e desconhecidas e só a Patrulha e o Tutti-Frutti como "dinossauros", com história. Dessa maneira, tivemos que optar por uma pintura tradicional e discreta. Numa consulta à loja de tintas, apreciamos um tom de azul bem escuro, que na nomenclatura do catálogo de tintas, chamava-se "Azul Universo".

Gostamos da ideia do ônibus ter uma cor sóbria, e essa discrição ser fator de segurança, pois também ponderamos que a pintura psicodélica era maravilhosa, mas estávamos em 2001, no Brasil, e não na América de 1967, portanto, não obstante o fato de ser lindo para o nosso gosto estético; cultural e ideológico, aquilo seria uma chamariz para coisas potencialmente ruins na estrada, também.
Por isso, ao descartarmos a pintura psicodélica, fomos em direção diametralmente oposta, optando pela segurança, via "camuflagem"...
Outro aspecto dessa parada no "estaleiro", veio do Junior. Quando o funileiro perguntou sobre os frisos, ele foi incontinente na determinação de mandar arrancá-los. Eu fui contra, mas ele persuadiu os garotos, e numa eleição de última hora, perdi nessa escolha. O ônibus mantendo os frisos originais que estavam em bom estado e só precisavam de uma limpeza e polimento, teriam ornado muito melhor com a cor escura que escolhêramos, mas com a lataria "pelada", realmente ficou muito feio, a meu ver. Fora a questão estética, havia o aspecto da segurança, também. Frisos não servem só para enfeitar, mas são sustentáculos importantes dos gomos de lata do veículo. Em 2003, passaríamos um apuro na estrada, justamente pela falta desse equipamento importante. Enfim, vivendo e aprendendo...


Enquanto o ônibus passava por tais modificações de funilaria e pintura, cumprimos um novo compromisso, alguns dias depois do show que fizéramos em Campinas, conforme já descrevi anteriormente. Desta feita, nem que o veículo estivesse à nossa disposição, creio que valeria a pena usá-lo, pois tratava-se de um compromisso numa casa noturna, na movimentada Rua 13 de maio no bairro do Bexiga, aqui em São Paulo, e convenhamos, para estacionar um ônibus nessa via em pleno dia útil, seria uma proeza, com direito à uma carga de stress, absolutamente desnecessária. Dessa forma, fomos com nossos carros particulares mesmo, a despeito de termos sempre um backline grande, e que demandava trabalho para transportar.

Enfim, o compromisso ocorreu no Café Aurora, no dia 13 de setembro de 2001 e portanto, numa quinta, dois dias após o atentado terrorista contra as Torres gêmeas do "World Trade Center", de Nova York. Lembro-me inclusive que o Junior chegou a proferir algumas considerações sobre o atentado, e arrancar alguns gritos da plateia, com tal manifestação.

O surpreendente baterista do "Quarto Elétrico", Ivan Scartezini

A banda de abertura foi o "Quarto Elétrico", banda que gostávamos muito pela identidade grande da qual comungávamos, além é claro, da qualidade artística que eles possuíam, e para nós era um prazer ter uma banda desse quilate abrilhantando a noite. Mundo pequeno e sempre surpreendente, pois apenas cinco anos depois, numa reviravolta da vida, eu e Rodrigo Hid estaríamos fora da Patrulha do Espaço e tocando numa nova banda onde o baterista do "Quarto Elétrico", Ivan Scartezini, seria o nosso companheiro de jornada...
Enfim, assunto para outro capítulo (Pedra), e que encontra-se logo após o encerramento da minha história com a Patrulha do Espaço, na sequência cronológica desta narrativa. Nesse show do Café Aurora, cerca de 80 pessoas estiveram presentes e uma presença ilustre na pessoa do produtor Antonio Celso Barbieri, que há anos estava radicado em Londres. 

Foto de Antonio Celso Barbieri, de 2015, quando esteve em São Paulo promovendo o lançamento de seu livro : "O Livro Negro do Rock"

Barbieri fora produtor de inúmeros shows de Rock nos anos oitenta e produzira muitos para a Patrulha do Espaço e também para A Chave do Sol, minha banda naquela década, e tais histórias estão contadas devidamente nos capítulos da Chave do Sol, naturalmente. Dois dias depois, tivemos um novo compromisso em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.


Enquanto o ônibus "embonecava-se" no estaleiro, cumprimos mais um compromisso próximo. Voltamos então à casa "Volkana", de São Bernardo do Campo e desta feita não arriscamos bilheteria como das ocasiões anteriores. Mais tranquilos com cachet fixo, não preocupamo-nos com a conversa fora da realidade do folclórico gerente da casa. Mas na realidade nós deveríamos ter preocupado-nos, pois o sujeito falava em mutirões de divulgação, como se fosse tarefa fácil mobilizar equipes gigantescas de voluntários e na realidade, mal havia verba para produzir um modesto material de divulgação.

Nesses termos, nós relaxamos e confiando que eles fariam o máximo para divulgar, levando-se em conta que pagar-nos-iam um cachet fixo e de valor substancial para os padrões de 2001, não levamos em conta de que na iminência de uma revés, a casa teria problemas para honrar seu compromisso. Isso sem contar o quanto era chato para nós, artisticamente, tocar numa casa com público aquém de sua capacidade, caso isso acontecesse.

Haveriam duas bandas de abertura. Uma delas era o "Madreterra", um ótima banda do ABC, mesmo, e cujo baixista era um ex-aluno meu, chamado Marcos Pessoto Lira, um artista 100% bacana e ótimo músico. Tal banda desenvolvia um trabalho próprio muito bacana e calcado em Hard-Rock setentista, mas com muitas dificuldades para achar espaços, tinha que necessariamente tocar covers na noite, para sobreviver. Todavia, mesmo tendo que usar desse recurso, ao menos tocavam um repertório agradabilíssimo de covers "setentões", e lembro-me claramente de tocarem coisas até surpreendentes de bandas como "Grand Funk", "Uriah Heep", "Ten Years After" etc.

Outra banda que tocou, foi o "Railway". Sinceramente, não recordo-me com muitos detalhes do som deles, tampouco de seus componentes. Só lembro-me que achei agradável também a sonoridade dos rapazes e provavelmente tratava-se de uma banda de influência setentista para eu ficar com essa pálida lembrança de algo simpático aos meus ouvidos. Infelizmente, o público presente não foi muito grande. O dono da casa chamou-nos para uma conversa na hora do acerto de contas e recorreu à clássica choradeira de falta de condições para honrar integralmente o cachet combinado, vindo à baila.

Todavia, ao contrário da imensa maioria de donos de estabelecimentos dessa categoria, eu reconheço que esse rapaz em particular era extremamente sincero e honesto, e realmente viu-se em apuros para cobrir o cachet, pois era nítido que a bilheteria não cobriria nem a metade do valor. Com ele, houve a compreensão de nossa parte e apesar de não ser correto de forma alguma, nós acabamos cedendo e aceitando o valor do cachet, reduzido.

Mas se dependesse de seu gerente, creio que não teríamos tal consideração, pois o sujeito deu um show de amadorismo nessa noite. E sua atuação de canastrice iniciou-se ainda antes do nosso show, com as bandas de abertura ainda tocando. O sujeito, percebendo que o movimento da casa não aumentaria, começou a ficar nervoso com a perspectiva de ter de dar-nos um cheque num valor alto, que a bilheteria não garantir-lhe-ia o ressarcimento e dessa forma, tentou sensibilizar-nos da pior maneira possível, simulando estar numa crise estomacal. Usando uma toalha de rosto que apanhara no toilette da casa, dizia estar numa crise aguda de úlcera e que sentia ânsia de vômito. Contorcendo-se, dizia estar com muitas dores e entremeava tais lamentos com frases pseudo-subliminares, fazendo alusão à "preocupação em pagar-nos".

Nota sintética sobre o lançamento do CD Dossiê Volume 4, na Revista "Rock Brigade", nº 181, de agosto de 2001

Era nítido tratar-se de um teatro medíocre que fazia, pois numa circunstância real de crise, já teria saído correndo para um pronto-socorro, sem nenhuma perda de tempo em querer angariar a pena de quem quer que fosse. De certa forma, foi engraçada a cena patética do elemento com a toalhinha no rosto e claro que o Rodrigo, um imitador nato, já compôs o personagem no camarim e aquilo divertiu-nos ali mesmo.

Nota sobre o lançamento do CD Dossiê Volume 4, na Revista "Guitar Player" nº 64, de agosto de 2001

Lógico que sabíamos que o pouco público presente traria dificuldades para a casa. Era óbvio que o espaço não tinha reservas para bancar shows e dependia do movimento da bilheteria. Infelizmente foi o que aconteceu, mas como já disse, o dono era um rapaz honrado, e sempre tratou-nos bem, portanto, acabamos relevando. Mas se dependesse do "ator", e sua indefectível toalhinha...
Isso aconteceu no dia 15 de setembro de 2001, um sábado, e o público presente foi de 120 pessoas. O próximo show seria uma aventura e tanto. Conto a seguir...

 
Algum tempo antes dessa cronologia que enfoco, de setembro de 2001, eu e Rodrigo havíamos visitado a unidade do Sesc Itaquera, na zona leste de São Paulo, levando nosso material. Acho que foi em maio ou junho do mesmo ano. Não fora uma visita a esmo, mas sim motivada por um contato que o Rodrigo havia arregimentado, mas de uma forma inusitada, pois não era muito usual.

Explicando melhor, tratava-se de um contato oriundo de um amigo de infância do Rodrigo, que tinha um tio que por sua vez era da cúpula diretora daquela unidade. O inusitado, foi que o senhor foi solícito e educado, mas em nenhum momento esboçou entender que a Patrulha era uma banda de história e portfólio gigantesco. Na sua avaliação prosaica e sem senso, éramos uma banda de jovens desconhecidos, pleiteando tocar no Sesc, como se fosse o primeiro show da vida. Eu ouvia e via, mas não acreditava !! 

Palco ao ar livre da unidade do Sesc Itaquera, na zona leste de São Paulo, e que costuma promover shows com artistas populares, movimentando multidão de até 25 mil pessoas

Ele parecia não entender, não esforçava-se nem um pouco para absorver nossas ponderações e mecanicamente falava que analisaria a possibilidade de uma apresentação, mas não no palco grande ao ar livre, onde costumavam acontecer shows de artistas famosos da MPB e para multidões de até 25 mil pessoas, mas sim, num espaço mais tímido, visivelmente destinado para bandas cover tocar num ambiente lounge, só para entreter poucas pessoas. Enfim, nem o fato de eu estar presente e com minha aparência de meia-idade (tinha 40 para 41 anos de idade nessa ocasião), parece ter acionado o "desconfiômetro" do senhor em questão.

Saímos de lá desconfiados de que o material chegaria às mãos de quem cuidava da parte artística e aí, se o senhor quisesse ajudar por conta da indicação de amizade que motivara a nossa conversa, seria uma ajuda bem vinda. A vida seguiu e no início de setembro, a Claudia Fernanda que era a nossa produtora, disse-nos que recebera um telefonema do Sesc Itaquera, oferecendo-nos uma data, mas que seria muito próxima, e compartilhada com outros artistas. Era em cima da hora, tínhamos que correr para resolver todas as exigências burocráticas que o Sesc solicita normalmente, e não seria um show exatamente como gostaríamos que fosse. Todavia, como o próprio rapaz do Sesc disse-nos, seria uma forma simpática de colaborarmos, e isso alavancaria a possibilidade de shows só nossos nessa, e em outras unidades dessa instituição. Nesses termos, como um "investimento de carreira", aceitamos tocar. Falo a seguir sobre o show e as companhias de palco que nós teríamos naquela tarde...


Infelizmente, a única peça de portfólio que tenho desse show é um "memorandum" da produção...paciência !


Decidimos ir com nosso ônibus, pois afinal de contas era um show de porte e seria um gesto mínimo de profissionalismo de nossa parte levar o nosso backline, ainda que houvesse um equipamento disponível no palco, da parte da produção do evento. A nossa participação fora mesmo um encaixe, pois o evento era um daqueles típicos promovidos por uma estação de Rádio, onde o artista toca de graça, como "investimento de carreira", em troca de execuções radiofônicas de seu trabalho. Muitos artistas submetem-se à esse tipo de permuta, que na prática é uma espécie de "jabá branco"...
Enfim, chegamos ao Sesc no início da tarde, pois o soundcheck seria muito cedo, rápido e em cima da hora do show. O ônibus ainda não havia recebido a sua nova cor, portanto, voltou à oficina depois desse compromisso, para o arremate final.

Logo que estacionamos o nosso valente "Mercedão" 1976, vimos que a diferença entre estar ou não no mainstream refletia-se desde o estacionamento. As duas bandas que eram as estrelas do show, ostentavam ônibus de última linha, modernos e tinindo, enquanto o nosso parecia um velhinho saído de algum museu da categoria.
Uma equipe de "carriers" do Sesc veio auxiliar-nos na árdua tarefa do descarregamento e fora providencial, porque só tínhamos dois roadies nossos. Ali já ocorreu uma coisa hilária...
Um dos carriers do Sesc, era um sujeito nanico, ainda muito mais baixo do que eu (tenho 1.65 m). Na hora em que o vimos, entreolhamo-nos estupefatos, pois apesar de ser troncudo e com braços musculosos, sua baixa estatura deixava-nos incrédulos sob sua profissão, por motivos óbvios. O que é o preconceito... pois o sujeito tinha uma força descomunal e uma agilidade inacreditável. Seu primeiro ato dentro do ônibus, foi colocar o amplificador do Rodrigo no ombro e sair correndo, literalmente, dali até o palco, como se estivesse transportando um volume simples e sem peso algum.

Ficamos boquiabertos vendo o rapaz fazer essa tarefa hercúlea e o festival de piadas começou ali mesmo. Eu mesmo antecipei-me
e apelidei o sujeito como : "Cacique Cobra Coral", porque tinha a pele avermelhada e ostentava uma cabeleira parecida com o corte que indígenas costumam fazer, no estilo "tijelinha". E para quem acompanha a política, deve recordar-se que o "Cacique Cobra Coral" é supostamente um espírito que manifesta-se para um médium e dá conselhos para políticos, e bem nessa época, sua figura estava popular na mídia, pois presumivelmente estaria alertando o governo federal sobre o colapso energético iminente,
mas pelo visto, os tucanos não deram-lhe ouvidos...
Enfim, quando pensávamos que o pequeno Cacique Cobra Coral, o carrier, e não o "espírito", teria um colapso cardíaco no palco, ei-lo de volta no ônibus e com a mesma desenvoltura, colocou a carcaça pesada do piano Fender Rhodes do Marcello nos ombros, e saiu em disparada novamente...
Primeira lição da tarde : não prejulgue um homem pela sua baixa estatura...


Como típico show promocional de uma estação de rádio FM, havia todo um circo armado pela produção de tal emissora, para a sua autopromoção, com tendas estilizadas; carrinhos "envelopados" para a distribuição de souvenirs; banners e faixas espalhadas pela unidade toda, como se fosse uma quermesse escolar. Só que havia um detalhe crucial e mórbido nessa equação : o nosso nome não era mencionado em nenhuma peça publicitária dessas, e nem mesmo no release oficial do evento, estávamos mencionados, portanto, nas notas de imprensa, o evento saiu sem menção à nossa participação com as outras bandas.

Resumindo, era nítido que a nossa inclusão fora às pressas e causando um certo incômodo à produção da rádio, provavelmente por ter sido uma forçação de barra imposta pelo Sesc. Aquele clima estranho era bastante desagradável para nós também. Se fôssemos uma banda nova de garotos, estaríamos mais confortáveis com tal situação, ainda que adversa, mas em se tratando de uma banda com história e árvore genealógica nobre, saída da raiz dos Mutantes, era no mínimo desrespeitoso por parte da organização, ter inserido-nos dessa forma. Bem, claro que reconheço que houve nosso consentimento nessa circunstância, mas eu sei que tamanho sacrifício que fazíamos, tentando cavar um espaço dentro do universo da estrutura do Sesc, era doloroso para a autoestima da banda, e devia doer ainda mais no Junior, que trazia os anos e anos de labuta & história nas costas, e esse tipo de afronta à dignidade, machucava-lhe em suas entranhas. Enfim, eu também sentia esse disparate, pela minha já longa carreira naquela ocasião, mas Rodrigo e Marcello, muito mais jovens, sentiam menos, por razões óbvias.

Voltando à narrativa, nosso equipamento foi montado rapidamente pelos roadies e fomos convidados a fazer um soundcheck muito rápido, na medida em que o evento seria realizado ainda no período da tarde e as outras bandas, que eram na verdade as atrações anunciadas, também desejavam fazer o soundcheck. Apesar dessa pressa demasiada, tivemos uma até certa boa vontade da equipe terceirizada responsável pelo P.A. e monitoração. Não era uma equalização "dos sonhos", mas também não ficou a típica "maçaroca"que espera-se em shows realizados sem um soundcheck decente.

Lembro-me que ao tocarmos um tema mais complexo como "Terra de Minerais", ficou um clima de surpresa generalizado, pois desavisados completamente, os técnicos envolvidos na produção, não faziam a menor ideia sobre quem éramos, tampouco o som que fazíamos. Por completa ignorância, devem ter achado que faríamos um Heavy-Metal, julgando-nos por nossas cabeleiras, tão somente, mas ao ouvirem um tema de complexidade musical como é "Terra de Minerais", ficaram estupefatos. Bem nessa hora, olhei para trás e vi que os membros do "Biquini Cavadão", estavam chegando e pararam um pouco para ouvir-nos. 

Patrick Laplan, bom baixista do Biquini Cavadão nesse show que estou relatando

O baixista Patrick Laplan veio até perto do palco e quando fitou-me, cumprimentou-me com reverência, num sinal de reconhecimento e boa educação. Fiquei contente, pois denotou respeito, além de ter sido a primeira manifestação positiva da parte de alguém naquela tarde, e eu apreciei o gesto cortês do colega.
Quando saímos do palco, no entanto, tivemos uma desagradável surpresa. Foi uma das piores manifestações de mesquinharia que presenciei na minha carreira toda, infelizmente.

Um roadie da produção, advertiu-nos que o técnico de monitoração queria falar conosco. Com expressão facial de "poucos amigos" e numa arrogância incrível, disse-nos que havia sido contratado para operar duas bandas e a nossa inclusão fora uma surpresa para ele, portanto, recusava-se a abrir o monitor, se não pagássemos-lhe um cachet "por fora"...
Primeiro que tal determinação de sua parte parecia descabida, profissional e eticamente falando. Se julgava estar sendo desrespeitado profissionalmente, deveria questionar a produção que contratara-o, não sei se reportando-se diretamente à produção do Sesc ou à produção da estação de rádio FM que patrocinava o evento. Uma das duas, ou as duas em parceria devia ser a responsável contratante de seu serviço. Segundo, portou-se de forma maquiavélica, pois não disse nada quando de nossa chegada; assistiu resignadamente a montagem de nosso backline e pior ainda, operou o equipamento de monitor, inclusive atendendo algumas reivindicações básicas de aprimoramento, que fizemos-lhe. Portanto, era um tremendo golpe baixo de sua parte usar desse tipo de abordagem mafiosa de coação repentina, para arrancar-nos dinheiro. Quando esse clima de baixo astral instaurou-se na coxia, chamamos imediatamente um responsável pelo Sesc que ali circulava e o inserimos na discussão, para que persuadisse o rapazinho impetuoso a não levar adiante tal estratégia vergonhosa de coação. O clima esquentou, pois o referido sujeito era bastante prepotente e dentro de seus padrões "éticos", julgava-se no direito de exigir de nós, a compensação financeira extra-contratual...

O sujeito era bastante arrogante e usava de aspereza como estratégia de intimidação. Estávamos diante de um impasse, pois pagar o "pedagio" que exigia, era uma indecência e também um fator de baixo astral abominável naquele momento, precedendo poucos minutos antes de subirmos ao palco. Claro que o produtor de palco do Sesc também indignou-se, e o clima esquentou. Vendo que o impasse estava incontornável com a postura intransigente do rapaz, o responsável do Sesc disse-nos para irmos para o camarim "relaxar" e fazer um lanche. Teve a sensibilidade óbvia de poupar-nos (nesse caso, minimizar, pois o estrago já estava feito...), de um stress absolutamente desnecessário e muito inoportuno naquele momento, pois paz de espírito no camarim, nos minutos que precedem o show, é uma necessidade básica para qualquer artista.

Disse-nos para ficarmos tranquilos, pois o show transcorreria com tranquilidade e que aquela ameaça seria contornada. O cachet extra que o sujeito exigiu de nós, era de um valor alto para os padrões daquela época. Equivalia a um cachet muito maior do que de um técnico de padrão mainstream, ou seja, o sujeito quis aproveitar-se da nossa situação insípida naquela tarde, para arrancar um cachet duplo, pois ganharia o mesmo valor operando as duas bandas programadas.  O produtor do Sesc ficou bastante irritado com o oportunismo e comportamento pouco recomendável do rapaz, mas apesar de ter alterado um pouco o volume de sua voz em algum momento mais tenso da conversa, contemporizou com classe, eu diria.

O que conversaram e acertaram após a nossa debandada para o camarim, não sei o que foi. Duvido que tivesse aceitado a reivindicação monetária que pleiteava, mas o fato é que fomos avisados no camarim que tudo resolvera-se, e que  tranquilizássemo-nos, pois não teríamos problemas técnicos derivados de boicotes e / ou sabotagens. No camarim, claro que não conseguimos relaxar totalmente depois de um clima desses. Mas o fato de não sermos uma banda acostumada às benesses da estrutura mainstream, até que proporcionava-nos certas vantagens, no sentido de que tão habituados a lidar com adversidades, o fato do som não ser maravilhoso no palco, não derrubar-nos-ia facilmente.
De tanto tocar sob condições técnicas adversas, o músico que acostuma-se ao esquema underground, acaba desenvolvendo uma espécie de "casca grossa" e para derrubá-lo no palco, um monitor mal equalizado não basta.

Portanto, estávamos indignados pela questão moral, mas tecnicamente, o fato do rapazinho não empenhar-se para proporcionar-nos as melhores condições sonoras, não faria diferença para nós. 

Um momento lúdico aconteceu quando descobrimos que um dos ônibus que transportava as bandas mainstream, tinha placa da cidade de "Santo Antonio da Patrulha". Tratando-se de uma pequena cidade interiorana no Rio Grande do Sul. Ainda no camarim, enquanto lanchávamos, o pessoal do Biquini Cavadão também desfrutava do mesmo espaço e lanche. O vocalista Bruno, foi bastante respeitoso e veio cumprimentar-nos, fazendo questão de falar mais detidamente com o Junior, apresentando seus respeitos ao membro fundador e contemporâneo do Arnaldo Baptista, demonstrando um conhecimento e respeito que eu apreciei. Quanto à outra banda, o tal Tihuana, só apareceram no Sesc, bem mais tarde. Quem passou o seu som foram seus roadies, um bando de sujeitos mal encarados, arrogantes e prepotentes.
O som dessa banda estava em voga desde os anos noventa, como uma mistura agressiva de Punk; Hip Hop e Metal extremo, ou seja, chegava a ser um disparate tocarmos juntos pela obviedade do antagonismo estético. Talvez num mundo devastado e pós-apocalíptico ao estilo de ambientações de filmes como "Blade Runner" e "Mad Max", esses sujeitos possam ser considerados "rockers", mas certamente que não compactuo com tal determinação. Enfim, tocar junto com o Biquini Cavadão era até aceitável, mesmo não havendo nenhuma proximidade entre os respectivos trabalhos, mas a segunda banda em questão, era um disparate. Tanto foi assim, que quando fomos chamados ao palco, uma recepção inamistosa surpreendeu-nos, segundos antes de darmos o primeiro acorde da primeira música...


 
Eu ainda estava tirando o meu baixo do suporte, quando ouvi vários impropérios vindo das primeiras fileiras de pessoas próximas à grade de proteção, ante o fosso de jornalistas e fotógrafos.

Chamavam-nos de "bichas", "veados", fora pessoas aos berros fazendo considerações esdrúxulas sobre a nossa vestimenta.

Calças "boca-de-sino"; batas coloridas e acessórios como echarpes de seda, não tinham conotação rocker para essa gente desconectada da história do Rock. Aos olhos dessa gente, não havia conexão com o passado, portanto, não havia conotação "retrô", "vintage" e que tais...ao não reconheceram o nosso visual como algo que remetesse ao Rock propriamente dito, demonstravam de uma forma muito triste, que o fio-da-meada estava rompido irremediavelmente, há muito tempo. Acostumados aos valores pós / 1977, ou melhor dizendo, nascida sob tais ditames infames, essa massa olhava para nós e de uma forma bizarra, não reconhecia-nos como rockers, justamente porque seu paradigma era diametralmente oposto, e em sua visão deturpada, rockers eram aqueles trogloditas de bermudas.
Nunca ouviram falar de "Chuck Berry", nem dos "Beatles". "Jimi Hendrix" e "Janis Joplin" eram fantasmas menos importantes que o "Beatllejuice"; "Led Zeppelin", talvez fosse uma marca de pneumáticos alemães...
Era uma demonstração muito triste na minha visão, pois denotava o estrago que por tantos anos denunciei, e não só era uma voz no deserto, como muitas vezes fui tido como um louco de opinião desprezível até por gente que supostamente deveria no mínimo, entender-me, ainda que não concordasse.

Naqueles segundos diante de tal recepção aviltante, senti-me o astronauta "Taylor", do filme "O Planeta dos Macacos", dando socos na areia, inconformado com o desastre  apocalíptico de quem acreditou e achou "bonitinho" entrar na barca furada do niilismo barato. "Seus malditos, vocês enfim conseguiram"...dizia Taylor diante dos escombros devastadores da estátua da liberdade...
Claro que estou edulcorando a situação, mas no seu âmago, simbolicamente falando, foi o que aconteceu naquela aviltante recepção que tivemos dos fãs da banda agressiva que fecharia o evento. Contudo, apesar de sermos aos seus olhos, completos desconhecidos de visual "não-rocker" (pasmem !!), assim que iniciamos a nossa apresentação, foi nítida a mudança de comportamento. Não posso afirmar que adoraram o show e ovacionaram-nos, mas de uma situação adversa de escárnio gratuito e má vontade extrema com nossa presença, em segundos adotaram a postura de ouvir e aplaudir, pois mesmo não acostumados com um show de Rock, propriamente dito, a nossa sonoridade era sofisticada demais em relação às bandas que suceder-nos-iam.

O Biquini Cavadão fazia aquele som de FM, oitentista e ainda que baseado na simplicidade do padrão pop, tinha em suas fileiras, músicos com qualidade. Mas a outra banda, vinha com aquela proposta de agressividade do crossover do punk com o metal, acrescido da verborragia suburbana do rap gangsta e derivados dessas vertentes vergonhosas que conspurcam a Black Music de verdade, que amamos. Então, nesses termos, era um contraste e tanto evocarmos Psicodelia e Prog Rock na mesma tarde que os homens das cavernas pronunciar-se-iam e para piorar, com a ambientação toda favorável à eles e hostil para nós...

Portanto, esperávamos uma reação negativa de tal público, ainda mais agressiva que os escárnios desrespeitosos do início, mas para a nossa surpresa, arrancamos aplausos e convenhamos, tal tipo de público não aplaude "por educação", costumeiramente. Foi um show de choque, evidentemente, e naquelas condições tão especiais e plenas de adversidades como já relatei. Não cometeríamos a loucura de fazer um show longo naquelas circunstâncias. E muito interessante foi tocar "Terra de Minerais", um tema Prog Rock e intrincado, onde certamente aquele público acostumado à uma sonoridade agressiva e nada sutil, não entenderia a proposta.

Pelo contrário, fiquei surpreendido com a reação, pois esperava que indignassem-se com tantas passagens, convenções e climas, ou seja, recursos musicais de um universo do qual nunca haviam ouvido falar, sequer. Saímos do palco sob aplausos, inclusive quando falamos sobre a banda rapidamente, contatos de internet que já estávamos iniciando naquela época e venda de discos etc.

Voltamos ao camarim e enquanto o Biquini Cavadão tocava, sentíamos uma certa satisfação pelo sacrifício todo empreendido e a absorção de alguns dissabores naquele dia, que estavam minimizados pela boa performance e reação do público. O intuito estava cumprido, pois o que estava em jogo naquela tarde, era o esforço em abrir uma porta no universo do Sesc, e acredito que logramos êxito, pois outros shows sucederam-se em outras unidades doravante, principalmente no ano seguinte, 2002, conforme relatarei na cronologia adequada. Quanto à produção da rádio em questão, assim como ignorou-nos o tempo todo, procedeu-se no pós-show. Era como se não existíssemos aos seus olhos, numa demonstração de desprezo bastante acentuada.

Nesse caso, isso não incomodou-me, tampouco aos demais, mesmo o Junior, sempre atento em sua visão periférica no que toca às nuances de qualquer produção. E não vou citá-la, pois era a típica emissora comprometida até a sua medula com esquemas de empresários; gravadoras; jabá e armações da máfia que rege o mundo da música mainstream, portanto, não merece consideração diante desse tipo de atuação predatória com a qual enxerga a arte.
Se arvora como uma estação que privilegia o Rock como instituição, mas na verdade, usa o rótulo "rock" a seu bel prazer, promovendo as mais equivocadas deturpações em nome do gênero e claro, criando artistas de laboratório, à medida dos hypes que cria através de seu respectivo departamento de marketing.

A arte passa longe de seus desígnios, para sermos brandos numa avaliação realista. Satisfeitos, na medida do possível que a situação proporcionara-nos, entramos no nosso humilde ônibus velho, regozijando-nos de um fato concreto : não éramos uma banda do mainstream, mas ao menos o nosso ônibus era próprio...dava para viver com esse consolo prosaico ?
Esse show aconteceu no dia 23 de setembro de 2001. Apesar de ser um espaço ao ar livre onde o Sesc costumava promover shows para até 25 mil pessoas, nesse dia o público foi bem inferior a essa marca. Na hora em que tocamos, o meu "olho clínico" disse-me que haviam cerca de 500 pessoas no lugar, com a metade pelo menos espremendo-se na grade de proteção e os demais dispersos, sentados ou mesmo deitados no chão. Quando o Biquini Cavadão começou a tocar, aumentou bastante o contingente, e era natural que isso acontecesse. Nesse momento, mais de 2000 pessoas já deviam estar frente ao palco. Aliás, o fato de não haver tido nenhuma menção sequer à nossa participação, contribuiu muito, evidentemente, para não atrair, ainda que num pequeno número, fãs da Patrulha. Se o nosso nome estivesse ao menos nos cartazes, tenho certeza de que teríamos levado público da zona leste que seguia-nos, e muito provavelmente de cidades do ABC como Santo André e Mauá, que não distam muito dali, no extremo de Itaquera.
Tanto foi assim, que nas semanas posteriores, recebemos a informação que muitos fãs estavam indignados por terem tomado consciência de que a Patrulha do Espaço havia tocado no Sesc Itaquera sem divulgação alguma. Alguns dias depois voltaríamos à nossa rotina de casas noturnas, voltando novamente à cidade de Santos, no litoral de São Paulo.

Na quinta-feira posterior, fomos à Santos, no litoral de São Paulo, com o objetivo de fazermos um show de choque numa casa noturna. Era na verdade um micro-festival onde bandas locais tocariam, e o dono do estabelecimento pediu-nos para apresentarmo-nos também, para dar um verniz à noitada, em meio à tantas bandas de jovens, sem muito apelo pelo fato de serem bandas iniciantes. Bem, como já havíamos apresentado-nos nessa casa algumas vezes, tal pedido soou como mais um favor, e camaradagem de nossa parte, do que uma data propriamente dita.
Todavia, por ter público e pelo fato de terem sido cobrados ingressos, claro que considero como uma apresentação oficial e entrou para as minhas anotações, e sei que o Junior também computou-a, pois também tem o salutar costume de anotar tudo para os registros oficiais da banda. Contudo, não anotei os nomes das bandas que apresentaram-se. Com todo o respeito, eram bandas novas e se houvesse alguém com relevância artística à época, eu teria anotado. O show foi curto, no formato típico do "show de choque". Tocamos apenas cinco músicas e as escolhidas foram apenas as de duas guitarras, eliminando assim a operação logística de montar a "tecladeira" para Rodrigo e Marcello usarem-na. Ocorreu no dia 27 de setembro de 2001, no Praia Sport Bar, localizado na avenida da praia do Gonzaga, em Santos / SP.

Passados esses dois shows que relatei anteriormente, o ônibus finalmente foi para a sua fase de pintura. O azul "universo" que escolhêramos, era realmente bastante escuro. Parecia bonito por sua sobriedade e discrição, mas não havíamos pensado num detalhe crucial, que só a experiência da estrada fazer-nos-ia entender : em viagens noturnas, essa cor tão escura seria um fator de risco e tanto.
Só percebemos isso quando começaram as viagens para valer, no final de 2001 e ao longo de 2002 e 2003, principalmente, mas são histórias que contarei na cronologia correta, certamente. Por enquanto, prefiro recordar-me que o Brasil entrara num colapso energético sem precedentes naquela fase de 2001, e o governo federal de então, decretara racionamento de energia elétrica que nem na segunda guerra mundial com seus "blackouts", fora tão radical.

Todo mundo ficou apreensivo, pois cairia vertiginosamente como uma bomba no mundo do show business em geral. E caiu mesmo...
Sendo assim, com teatros e casas de shows cancelando eventos por conta dessa vergonhosa situação, temíamos também por uma queda de oportunidades, mas uma surpresa apareceria, e justamente motivada pela situação e dessa forma, realizando um verdadeiro contraponto à falta de energia.

Ocorreu que a produtora Sarah Reichdan contactou-nos com uma proposta exatamente que ia de encontro com essa perspectiva de andar na contramão da crise energética, e assim, pelo contrário, aproveitarmo-nos dela...
Como isso seria possível para uma banda ultra elétrica e rocker como a Patrulha do Espaço era normalmente, e ainda mais nessa fase onde evocávamos valores sessenta / setentistas ao extremo em nossa música ?

Bem, a proposta dela era bastante bizarra em princípio, mas no alto de sua loucura proposital, havia uma possibilidade de dar certo, exatamente por esse exotismo, e claro que nós paramos para ouvir e logo embarcamos na aventura umplugged...
A Sarah era uma produtora que estava no mercado desde a metade / fim dos anos noventa e que vinha de experiências nesse setor, há quase dez anos naquela altura. Portanto, tinha seus contatos e apesar da ideia parecer maluca em princípio, havia fundamento.
Para entender a proposta desse show acústico, é preciso retroagir um pouco para o leitor ver que ela era uma produtora não só de contatos, mas suas ações eram pautadas por ideias e muita determinação em fazê-las "acontecer". O Júnior já conhecia-a há tempos, mas eu a conheci em 1999, mais ou menos quando a Patrulha dava seus primeiros passos com a nossa formação. Sabia que ela havia sido tradutora oficial de artistas famosos do Rock internacional, principalmente os ditos "dinossauros" setentistas que aqui apareceram nos anos noventa. 

Graças ao seu bom inglês e sua simpatia natural, logo ganhou a confiança de muitos artistas e produtores "gringos" e dessa forma, foi emendando trabalhos bons, assessorando bandas como o "Jethro Tull", "Deep Purple", "Page & Plant" e muitos outros artistas internacionais que vieram ao Brasil na década de noventa.
Logo foi travando contatos e envolvendo-se com produção musical, apaixonando-se pela profissão e com grande vontade de crescer nessa carreira e tornar-se um dia, uma empresária, de fato. Seu talento para a produção era nato e como "road manager", ela demonstrava desenvoltura, que lembrava-me a Cida Ayres, a ótima produtora que trabalhou com o Língua de Trapo e deu muita força para A Chave do Sol nos anos oitenta.

Em 1999, quando a conheci, estava agendando shows para a banda alternativa que o baterista Paulo Zinner tinha formado, chamada "Paulo Zinner Orchestra", que basicamente tinha o objetivo de tocar covers de Hard-Rock setentista pela noite de São Paulo.
Mas ela ambicionava passos maiores na carreira e logo aproximou-se da Patrulha. Num primeiro instante, no início de 2000, ela tentou alguns agendamentos, mas não logou êxito imediato. Sendo assim, em 2001, numa nova abordagem, conseguiu uma data no Sesc Pompeia, que muito animou-nos. Contudo, na negociação, algo deu errado, pois a produção daquela unidade mudou de opinião repentinamente e fez uma exigência de última hora, denotando que não acreditava que a Patrulha pudesse levar um grande público ao teatro. Dessa forma, cogitaram a presença de um outro "dinossauro" setentista para dividir a noite conosco, como condição sine qua non...

Nesses termos, a Sarah teve que comunicar-nos essa repentina decisão da produção e assim, sem muitos meios de fazer impor a nossa determinação em usar a data só para nós, acostumamo-nos com a ideia do compartilhamento. É o tal negócio : tem um prato de comida para duas pessoas, prefere dividir ou abre mão da sua "metade" ? O lado bom disso é que o artista com o qual compartilharíamos a data e o palco, seria necessariamente um "dinossauro" setentista, o que era um alívio, pois poderia ser pior se inventassem de nós dividirmos a noite com uma banda daquelas modernosas do início dos anos 2000, onde predominavam os trogloditas de bermudas, o que chega a ser curiosa a denominação pejorativa de "dinossauro" para designar artistas oriundos das décadas de 1960 e 1970, pois homens das cavernas eram na verdade aqueles trogloditas, enfim...

Então, numa rápida reunião interna da banda, pensamos nas hipóteses óbvias do "Made in Brazil"; "Tutti-Frutti", e "O Terço" como opções setentistas que estavam na ativa naquele momento. Mas uma quarta sugestão pareceu-nos interessante naquele instante, para dar uma diferenciada, visto que já tínhamos tocado com o Tutti-Frutti e o Made in Brazil num passado bem recente, e O Terço parecia um pouco inacessível naquele instante. Lembramos que o Sergio Dias estava mudando-se de volta para São Paulo, após muitos anos fora do Brasil e também depois de uma temporada longa na Serra das Araras, na fronteira tríplice entre Rio, Minas e São Paulo. Quando encontramo-nos com ele em março de 2001 nos bastidores do programa Miguel Vaccaro Netto, ele havia falado-nos que preparava sua mudança definitiva para viver em São Paulo novamente e que iria articular-se para fazer shows promovendo o seu novo CD solo, que estava recém lançado, chamado "Estação da Luz". Era isso  !

Patrulha do Espaço & Sergio Dias seria sensacional nessa época, em que fazia muito tempo que ele não fazia shows no Brasil e talvez não soubesse com a concreta dimensão, mas havia toda uma nova geração de jovens que adoravam Mutantes, numa onda Neo-Hippie e que certamente que lotaria o Sesc Pompeia, com possibilidade forte de deixar gente do lado de fora, sem ingresso.
Fora que a Patrulha do Espaço com a proposta do CD Chronophagia, cairia como uma luva no evento, e dessa forma, mandamos essa devolutiva para a Sarah. Ela adorou a ideia e prontificou-se a correr atrás do projeto. Imediatamente o Junior forneceu o contato do Sergio para ela, e a abordagem foi feita.
Mas, a reação dele não foi a que esperávamos, infelizmente...

Pois então, a informação que a Sarah passou-nos, surpreendeu-nos negativamente. Segundo ela, o Sergio não interessou-se na parceria, alegando que seu trabalho solo era voltado para o futuro, e não no "passado" e que a Patrulha desfraldava bandeiras velhas em seu front de batalhas. Tudo bem, poderíamos até entender essa mentalidade diferente, mas lamentamos que por outro lado ele não enxergasse a realidade da mesma maneira que nós. Enquanto ele pensava em atraso e estagnação, nossa visão era diferente, pois víamos ressurgimento; reciclagem; resgate...enfim, o religare...
Havia toda uma geração nova, resgatando a vibe "Woodstockiana", apaixonada pelos Mutantes, e que nem era nascida naquela época. 

Aprenderam a amar toda aquela estética através dos discos velhos dos pais, e quando ninguém mais esperava, havia uma juventude em expansão, querendo (re)viver a experiência naqueles moldes, e infelizmente ele não havia percebido isso ainda (poucos anos depois, percebeu enfim, e trouxe os Mutantes de volta à cena e claro, seu público costumeiro são esses Neo-Hippies), e ainda trilhava a mentalidade oposta de buscar o futuro e renegar o passado, para não sentir-se uma peça de museu. Bem, não cabe julgamentos por juízo de valor. Ele fez o que achou melhor para os seus interesses na ocasião e ponto final. Mas ficamos chateados, aí sim, quando vimos cartazes "Lambe-Lambe" nas ruas, anunciando o show dele no Sesc Pompeia, na data que era nossa !!
Caramba, numa inversão total, fomos chutados para escanteio...

Muitos amigos nossos foram nesse show e ficamos sabendo que eram mais de 1000 pessoas, em sua maioria jovens com aparência de Hippies sessenta / setentistas, ávidos por ver o grande Mutante em ação.

A abertura do show foi com o tema "Exp", uma vinheta psicodélica e ufologica gravada pelo Jimi Hendrix na abertura de seu LP : "Axis : Bold as Love", de 1967, e assim, o Sergio dava mostras de que começara a repensar a sua opinião sobre "bandeiras velhas do passado"...
Tudo bem, a vida seguiu e após explicar nesse preâmbulo a relação pregressa da Sarah Reichdan conosco, posso enfim falar sobre a proposta de show acústico que fez-nos, para o Sesc Pompeia, e bem no meio da crise energética que assolava o país nessa época, graças ao planejamento "brilhante" de suas autoridades "visionárias" de então...


A ideia que a Sarah apresentou-nos, era a de um show inteiramente acústico, inclusive sem a presença de P.A., ou seja, seria um show acústico literal, pois não tratava-se apenas de fazer um show  tocando violões e evitar assim o uso de amplificadores para guitarras; baixo & teclados. Indo além do conceito do "acústico" propriamente dito, não havendo P.A., nada seria mixado numa mesa e retransmitido num equipamento de P.A. !!
Com isso, o "show" seria uma experiência inóspita de quase um "Luau", com a banda tocando violões, instrumentos de  percussão e vozes na "raça", sem apoio sonoro de amplificação alguma.

E seguindo o padrão, seria um show sem iluminação, usando velas apenas, e reforçando o conceito de um show adaptado ao "Blackout" que o Brasil vivia naquele segundo semestre de 2001...
Em princípio, claro que relutamos...a Patrulha era uma banda essencialmente elétrica. A fúria, no bom sentido, de suas apresentações ao vivo, desde os primórdios com o Arnaldo Baptista na formação, não davam margem à dúvidas. Então, a Sarah convenceu-nos de que seria uma experiência interessante, pois haveriam algumas motivações a serem consideradas.

Por exemplo, ela falou-nos que haveriam outras atrações. Sua ideia era a de trazer três ou quatro artistas convidados. A Patrulha faria seu show normal, e também receberia tais convidados, acompanhando-os em suas performances. A decoração seria toda inspirada em cultura indiana e para tal, ela já tinha contactado uma loja especializada em artigos de decoração indianos, e caríssima do bairro dos Jardins, e eles cederiam muitas peças sem cobrança de aluguel em título de patrocínio.

Nas mesas onde o público ficaria alojado, candelabros com velas e incensos seriam colocados, e os artistas não usariam o palco normal da Chopperia do Sesc, mas um palco todo ornado como uma tenda hippie, ficaria bem no meio do salão, e o público cercar-nos-ia como num "Luau". Tais artistas convidados seriam : Luiz Carlini e Helena T., representando o Tutti-Frutti; o baterista Paulo Zinner; um coral de monges que fariam uma apresentação vocal no pré-show, como lounge; e um citarista chamado "Krucis", que viria acompanhado de um percussionista específico para tocar tabla.
Então, toda a nossa resistência quanto a fazer um show com características de "Luau na praia", sem o uso de um "P.A.", foi sendo minada aos poucos. Não foi uma coisa que digerimos imediatamente. Contudo, pelo que lembro-me, jamais colocamos em cheque a nossa participação no evento, mas tentamos a todo custo que houvesse um P.A., mesmo que fosse numa proporção mínima, pois cantar no "gogó", na sala de casa é uma coisa, mas fazendo um show ao vivo, mesmo sob condições intimistas, é outra situação completamente diferente.

Quando fechamos a participação, a Sarah correu atrás da produção e divulgação. Não dispunha de grandes recursos para fazer uma divulgação realmente significativa, mas era o que tínhamos e assim, mediante cartazetes e filipetas, numa quantidade bem módica, fizemos o que foi possível. Por outro lado, a produção do show em si, foi caprichada. Ela realmente esmerou-se para decorar a Chopperia do Sesc Pompeia, de uma maneira que ficou um show muito intimista e com tal decoração, aproximou o público dos artistas, tornando o espetáculo, algo muito aconchegante e até surpreendente.

Sob a luz de muitas velas, colocadas em muitos candelabros estilosos, e com o aroma de incensos perfumados, o público lotou a Chopperia e sentiu-se muito confortável sob tal atmosfera. O tal grupo de monges que cantaria no início, não deu certo, mas a Sarah foi rápida e convocou um grupo de adeptos do Hare Krishna, que cantaram pelos corredores do Sesc Pompeia, até antes das pessoas entrarem nas Chopperia. E enquanto as pessoas acomodavam-se, continuaram cantando, circulando pelas mesas.

Após essa performance que arrancou uivos do público que adorou a recepção à base de mantras, a Patrulha entrou e tocou quatro ou cinco músicas. No início, a ideia era a do Junior fazer apenas percussão, mas aquilo era demais para ele, baterista histórico que é...sua vida é a bateria e dessa forma, adaptamos o repertório para ser 100% acústico, e embora não houvesse a presença do baixo elétrico e nesse caso eu usei um "Baixolão", cedido por um amigo da Sarah (na verdade, Silvio Alemão, o baixista da banda "Irmandade do Blues"), ele sentir-se-ia melhor tocando bateria do que instrumentos de percussão, aleatoriamente.

Mas precisávamos justificar a presença de Paulo Zinner como convidado e não teria nenhum cabimento ter duas baterias no palco, ainda mais num show totalmente acústico, e sem P.A. Nessa circunstância, o próprio Junior teria que fazer um esforço descomunal para não exagerar na sua dinâmica, pois um "grauzinho" a mais de intensidade, seria o suficiente para encobrir todos os violões, o "baixolão", e as vozes. Claro que o Marcello faria algumas intervenções à flauta, também. Voltando a falar do Paulo Zinner, ele então tocou percussão no show. A seguir, Luiz Carlini e Helena T. entraram e nós os acompanhamos em algumas músicas do Tutti-Frutti, onde o público vibrou demais, também.
Tocamos mais algumas músicas da Patrulha, e ao final, o citarista Krucis entrou em cena e fez algumas ragas indianas com seu acompanhante da tabla.

Um momento muito bonito deu-se quando o Rodrigo entrou em cena de improviso, e munido de um violão de 12 cordas, tocou junto com o Krucis, quando fizeram uma música dos Beatles, unindo a cítara indiana à viola caipira do interior. Foi mesmo um momento mágico, e que arrancou uivos da plateia. Encerramos tocando mais uma música e apesar da loucura toda de fazer um show sem P.A., foi um espetáculo muito bonito e guardo com carinho na memória o rosto das pessoas sorrindo, satisfeitas pela noitada. Todavia, reitero, foi tudo muito bacana, mas não custava ter um P.A., ainda que usado numa potência reduzida, dando um pouco mais de qualidade sonora ao show. Nem precisava ter grande volume, mas com a possibilidade de uma ambientação com paramétricos à disposição, as vozes e os instrumentos teriam soado muitíssimo melhor.

Lembro-me bem, era assustadora a necessidade das pessoas da plateia ficarem em silêncio absoluto para não prejudicar a performance dos músicos. E como as pessoas tendem a serem tagarelas em shows musicais, cada pequeno comentário que faziam, gerava uma reação das demais, exigindo silêncio, só para o leitor entender como a situação sonora sem um P.A. era dramática.
Bem, insisti bastante nessa tecla, mas é para deixar claro que não trata-se de uma "frescura" de minha parte. Fazer um show, mesmo acústico, mas totalmente desprovido de apoio sonoro, equivale a dirigir um carro, sem volante, guardadas as devidas proporções...
O show levou um ótimo público ao Sesc Pompeia. Cerca de 300 pessoas passaram pela bilheteria, e em se considerando a questão do Blackout nas ruas naquele instante, foi acima da expectativa, pois as ruas estavam muito mais perigosas de circular-se do que o são normalmente em meio àquele breu, e as pessoas estavam evitando sair para divertir-se, infelizmente. Para quem não é de São Paulo e não conhece aquela unidade do Sesc, é preciso esclarecer que se trata de uma instalação enorme, com muitas dependências. Para as produções musicais, existem dois grandes espaços : um teatro tradicional, ainda que sua anatomia seja a de uma arena dupla, e o outro é uma Chopperia, onde literalmente existe um serviço de bar e restaurante. Mas é muito grande e o palco tem uma dimensão apta para shows de grande porte. Portanto, tocar na Chopperia é igualmente prazeroso, sem nenhum demérito. A Sarah deu um nome ao show : "Luz de Emergência", e para corroborar o mote, nem mesmo a luz de serviço do Sesc foi ligada e para suprir o mínimo de visibilidade para as pessoas, além das velas, pequenas lamparinas movidos a bateria foram acesas em pontos estratégicos.
Com esse sucesso, a porta do Sesc Pompeia abriu-se para nós e poucos meses depois, estaríamos de volta à Chopperia do Sesc Pompeia, desta feita em outro projeto da Sarah e tocando conforme gostávamos de fato, com toda a eletricidade que um show de Rock merece...o "Luz de Emergência" ocorreu no dia 14 de novembro de 2001. Assista abaixo uma música extraída dessa apresentação. Trata-se de "Transcendental", música do repertório clássico da banda, do disco "branco", lançado em 1982 :



Eis abaixo, o link de "Transcendental" ao vivo no Sesc Pompeia em 14 de novembro de 2001




Resenha do Show que realizamos em setembro no Café Aurora, elogiando bastante a nossa performance. Revista Rock Brigade nº 183, de outubro de 2001

Passada essa aventura insólita para uma banda das características da Patrulha do Espaço, nossas atenções voltaram-se para a preparação do ônibus. As gravações do novo CD estavam encerradas, mas descapitalizados pois empreendemos todo o nosso caixa na compra e reforma do veículo, tivemos que paralisar nossos esforços para finalizá-lo e lançá-lo, enfim. Depois do show no Sesc Pompeia, emendamos uma série de compromissos avulsos antes de iniciarmos uma nova fase da banda, onde aí, sim, a ideia de turnê propriamente dita, foi posta em prática, e a aventura de estar na estrada, literalmente, produziu muitas histórias. Falarei sobre os compromissos avulsos a seguir e logo, começo a contar sobre as turnês, com muitíssimas histórias engraçadas e algumas angustiantes, também. Os próximos compromissos antes da primeira turnê para valer, na verdade estavam tão próximos uns dos outros que já caracterizavam um tour propriamente dita do que shows avulsos e dispersos.

Por exemplo, fomos à Mogi-Guaçu, na região de Campinas para mais uma apresentação no "Tempo Club", onde já havíamos apresentado-nos no ano de 2000. Como naquela ocasião, o show fora bom, com público significativo, o convite para uma volta parecia ser uma nova oportunidade segura de se repetir a boa experiência do ano anterior. Só que havia um detalhe : naquela ocasião, a produção girava em torno de uma festa organizada por um programa de rádio, e com seu público cativo mobilizado. Desta feita, era uma aposta no sucesso anterior, mas sem o apoio da tal rádio. Dessa forma, tínhamos o apoio da banda que faria a abertura, chamada "Wild Shark". Na verdade, o apoio era quase exclusivamente de seu abnegado vocalista, um rapaz chamado Alexandre Quadros, que além de músico, era (é), um tremendo agitador cultural nessa cidade, e em toda a região. Com esse apoio,  animamo-nos, pois a força de trabalho incansável que ele demonstrava, aliado ao seu conhecimento logístico da cidade e da região, fez-nos crer que seria novamente um grande êxito esse novo show nessa cidade. Então, tive a oportunidade de viajar com o Junior e o nosso roadie, Samuel Wagner para tal cidade e encontrando-nos com o Alexandre, fizemos um agito e tanto colocando cartazes nos pontos sugeridos, distribuindo filipetas e cavando matéria no jornal local. Repetimos essa estratégia em cidades vizinhas como Itapira; Mogi Mirim, e Amparo, e dentro das possibilidades logísticas das quais dispúnhamos, parecia termos feito o máximo e assim, voltamos à São Paulo com a sensação do dever cumprido. Haveria outra banda além do "Wild Shark", chamada "Le Fou". Certamente contribuiria para trazer mais gente ao evento, assim esperávamos.

Resenha da Coletânea "Dossiê Volume 4", que a banda havia lançado em 2001, na Revista "Guitar Player", nº 68

Então soubemos que o nosso ônibus ainda não estava liberado para o usarmos e dessa forma, o nosso "sócio / motorista" prontificou-se a levar-nos à Mogi-Guaçu com sua van. Seria bem apertado, pois o nosso backline era gigante, mas diante da necessidade, não tínhamos escolha. E além disso, no dia seguinte ao compromisso de Mogi-Guaçu, tínhamos show em Santos, no litoral, portanto, era uma jornada dupla, com quase 300 Km para encarar entre a cidade interiorana e o litoral, tendo que passar por São Paulo necessariamente. 

Fanzine "Yellow Pepper's", com ares "Beatlemaníacos"(como sugere seu nome), nº 4, de outubro / novembro / dezembro de 2001. Uma entrevista bem simples, mas claro que como quase todo fanzine, muito bem intencionada e conduzida pelo seu responsável, Vladimir José

Chegamos enfim na cidade de Mogi-Guaçu, com a van do nosso "sócio / motorista". Nosso anfitrião, Alexandre Quadros, estava muito animado e esperançoso pela presença de um público numeroso, visto que havia esforçado-se bastante para divulgar o espetáculo na cidade e também nas cidades vizinhas. O local já era nosso conhecido e as condições de som, luz & infraestrutura de camarins eram portanto esperadas por nós. Mas, à medida que o horário do show aproximava-se, infelizmente notávamos que o público seria aquém da expectativa e aí, só preocupamo-nos em fazer o show para os poucos que dignaram-se a comparecer e o raciocínio do artista é sempre o de fazer o melhor possível, mas muito mais que isso, honrar o fã abnegado que foi.

Resenha do CD Coletânea "Dossiê Volume 4", na Revista "Rock Brigade", nº 181, de agosto de 2001

O Alexandre ficou muito desapontado, pois era a cidade dele, e o seu esforço pessoal que poderia ter sido arranhado pelo insucesso de público. Mas o isentamos completamente desse ônus. Pelo contrário, o nosso reconhecimento pelo seu empenho, que foi extraordinário, não mudou um centímetro sequer. Sabíamos que ele havia esforçado-se ao máximo, e o não comparecimento do público em massa, era meramente ocasional, e jamais por sua culpa. Indo além, digo que já no tempo da Chave do Sol, eu já havia passado por situações parecidas, onde numa pequena cidade do interior, ninguém vai ao show, embora seja sabido haver fãs em tal localidade. É um acontecimento bizarro que nem a parapsicologia explica, mas existe como "fenômeno", e acontece muito no interior.
Não lembro-me muito bem da apresentação da banda "Le Fou". Minha lembrança efêmera é a de uma banda pesada, com influência de Hard-Rock oitentista e talvez uma pitada de grunge noventista.


Quanto ao "Wild Shark", era uma banda de boas influências setentistas, misturando com elementos dos anos 1980 e 1990 também. Era híbrida, pois tocou material próprio, mesclado a covers e lembrou-me o Rock'n Roll quase Hard do Kiss, em alguns aspectos. O Alexandre estava muito chateado com a pouca presença de público e chegou a exaltar-se ao microfone, cobrando mais atitude dos rockers da região, em tom de desabafo, mas era inútil reclamar, pois quem merecia ouvir a bronca, simplesmente não esta lá. Ficou pelo seu desabafo pessoal, mesmo. Era o dia 16 de novembro de 2001, e cerca de 30 pessoas pagaram ingressos para ver o show da Patrulha do Espaço e das bandas de abertura.
No dia seguinte, a missão era em Santos, no litoral...



 
Estávamos cansados pela viagem, mas também chateados pela noite anterior não ter tido o público que esperávamos etc etc. Dessa forma, chegamos em Santos, não com toda a disposição ideal, mas claro, imbuídos de dar o nosso melhor, como sempre. A casa em questão não ajudava, pois tratava-se do "Praia Sport Bar", que não era o espaço mais adequado para fazer-se shows naquela cidade praiana, mas era o que costumeiramente estava abrindo as portas para nós.

Se serviu de consolo esse show, apesar de ser feito numa casa muito mais tímida em termos de espaço, levou muito mais gente para ver-nos, do que o show da noite anterior em Mogi Guaçu. Dessa maneira, o cachet que amealhamos em Santos, praticamente empatou o prejuízo da noite anterior, visto que em Mogi Guaçu, a produção fora nossa e por conseguinte, de alto risco. Assim, em 17 de novembro de 2001, tocamos mais uma vez no Praia Sport Bar, da cidade de Santos, com um público de cerca de 100 pessoas, muito bom em se considerando as proporções da casa.


 





Entrevista com o Júnior na Revista "Batera e Percussão", nº 49, de setembro de 2001. Lembro-me da produção da foto grande, com ele posando com sua bateria numa praça pública. Ocorreu perto da redação da referida revista, no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo, numa tarde de um dia útil de agosto desse mesmo ano. A entrevista foi conduzida pelo jornalista e editor dessa revista, Régis Tadeu, que por ser músico também (baterista), tem grande conhecimento da matéria  

Uma semana depois, teríamos outro show de casa noturna, mas ao menos sem ter que encarar a estrada. Foi em São Paulo, mesmo, conforme relatarei a seguir.

Então, lá fomos nós novamente ao bar "Rock'n Roll", na zona norte de São Paulo, para mais uma apresentação. Desta feita, a abertura seria feita pelo "Tomada" banda de meu ex-aluno, Marcelo "Pepe" Bueno. A banda já dava mostras que estava profissionalizando-se há tempos e deixara para trás qualquer resquício de amadorismo infanto-juvenil de outrora e aquilo alegrava-me, sem dúvida. Tanto que após esse show, convidamos o Tomada para abrir o nosso show em Itu, no interior de SP, que ocorreria dali a alguns dias, com total confiança de que seria uma ótima banda de abertura.

Nesse dia, no bar "Rock'n Roll", apareceu o Luiz Carlini e a Helena T. e dessa forma, fizeram uma participação conosco, quando tocamos  "Agora Só Falta Você", do repertório do Tutti-Frutti e "Bixo da Seda", da banda homônima , gaúcha. O Luiz ficou contando-nos histórias de sua amizade com o pessoal do "Bixo da Seda"(a grafia do nome da banda é essa mesma, com "x", sei que é errado, mas foi escolha deles), nos anos setenta e claro que foi um grande prazer, ouvi-las. Aconteceu no dia 24 de novembro de 2001, e haviam cerca de 60 pagantes na casa. A próxima parada seria na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo.




Duas semanas depois, estávamos finalmente de posse do nosso ônibus, e o novo compromisso que teríamos demandaria uma viagem ao interior do estado, quando estaria justificado o seu uso, enfim. Seria na cidade de Rio Claro, cerca de 180 Km de São Paulo, numa casa noturna local que costumava abrir portas para bandas de Rock, embora não fosse assumidamente um "point" Rocker. Chamava-se "Monkey  Music Bar", e tal denominação era pelo fato do seu proprietário ser conhecido na cidade pelo apelido de "macaco"... 
A viagem ocorreu sem problemas, deixando-nos bastante tranquilos, apesar do forte calor que fazia, e quanto mais embrenhávamo-nos rumo ao interior, claro que a temperatura esquentava significativamente, como é tradição no interior do estado de São Paulo. Como fato inusitado, relato que levamos nessa viagem um roadie diferente que não costumava figurar na nossa equipe, mas na verdade, era um velho conhecido da banda e azucrinara no camarim do Fofinho Rock Club, quando fizemos o show de estreia dessa formação, em agosto de 1999. Preservarei sua identidade para não expô-lo publicamente, mas relato que era uma figura muito louca. Lembrava-me pelo caráter performático em seus trejeitos, o Edgard Puccinelli Filho, o popular "Pulgão", que fora roadie da Chave do Sol, nos anos oitenta.

Posso dizer que esse rapaz era de boa índole e prestativo para trabalhar, mas bastava ingerir um pouco de álcool, e transformava-se, tornando-se bastante inconveniente. E sua transformação adotava parâmetros não usuais no tocante à pessoas que mudam de comportamento por conta do álcool. Isso porque é público e notório que existem comportamentos padrão para a alteração de personalidade de pessoas que estão sob o efeito de bebidas. Há os que ficam alegres; outros ficam agressivos; outros salientes com as mulheres; e alguns ficam sonolentos e apáticos. Em linhas gerais são os biotipos mais conhecidos.

Mas no caso desse rapaz, era completamente imprevisível como ele ficaria após beber, e isso era bastante desagradável, não só por aborrecer-nos, mas por causar-nos constrangimentos com terceiros.
Então, essa era uma razão para não podermos contar com ele, mas como era "bonzinho" quando sóbrio, sempre pedia-nos mais uma chance e dessa vez, aceitamos conceder-lhe tal oportunidade.

Já para o outro roadie que já estava fixo conosco desde outubro, a noite foi feliz, visto que aconteceu-lhe uma coisa fortuita e absolutamente insólita. Foi o seguinte : o soundcheck tinha finalizado-se e houve uma dispersão geral. Uma parte da comitiva foi jantar num restaurante próximo, e a outra preferiu permanecer no local. Eu acabei ficando e estava junto a esse roadie sentado na porta do bar e aproveitando a brisa do início da noite, pois era um momento em que refrescara a temperatura e estávamos esbaforidos pelo calor que sentíramos o dia inteiro em Rio Claro.

Estávamos em frente ao nosso ônibus que estacionara na porta da casa, quando passou pela calçada uma garota e quando fitou-o, fez uma expressão de quem lembrava-se dele, mas não sabia de onde...
Então, ela deu poucos passos adiante e resolveu voltar repentinamente, abordando-o de uma forma inusitada, pois disse-lhe que precisava muito conversar com ele em particular, pois estava muito triste por ter rompido com seu namorado...

Era uma garota bonita e bem vestida e não parecia ser uma golpista caçando "trouxas" (aí é que reside o perigo, na verdade, pois aparência não quer dizer nada...), pelas ruas, então ele empolgou-se e foi para uma praça próxima para tal conversa. Claro que na hora, o advertimos para tomar cuidado etc e tal, mas depois de uma hora, aproximadamente, ele retornou todo cheio de marcas de batom (e com a carteira intacta no bolso da calça...), e contou-nos que garota começou com essa conversa de estar triste pelo rompimento de seu namoro e querendo fazer algo concreto para "aumentar a sua autoestima", resolvera e abordá-lo, pois achara-o atraente...
Era inacreditável estar ouvindo tal história, mas realmente aconteceu. Mesmo não revelando o nome de tal roadie "sortudo", é só o leitor mais atento juntar 2 + 2, e fica óbvio de quem falo...
A casa era rústica, mas tinha a infraestrutura mínima necessária e o seu proprietário, o tal "Macaco", era um bom anfitrião que recebeu-nos bem, cumprindo fielmente tudo o que prometera. O show foi muito bom, com bastante energia, apesar do público não ser essencialmente rocker. Saímos bastante satisfeitos do palco, mas no final acabamos aborrecendo-nos, pois nosso roadie bonzinho quando sóbrio, estava visivelmente agressivo porque contrariando suas promessas, é claro que sucumbiu à tentação de ficar horas num bar em meio à tantas garrafas...
Quando já avançava a madrugada e os roadies começavam a carregar o equipamento para o ônibus da banda, vimos que ele estava muito agressivo e por pouco não arrumou confusão com um grupo de pessoas do público por uma bobagem qualquer. Ainda bem, a "turma do deixa disso" agiu rápido e tudo foi contornado.
Infelizmente, depois dessa ficamos sem vontade de chamá-lo novamente. Isso ocorreu no dia 7 de dezembro de 2001, na cidade de Rio Claro / SP. O público presente no Monkey Music Bar, foi de cerca de 300 pessoas. Realmente lembro-me que a casa estava abarrotada de gente. Era um público jovem e de bom nível, a maioria universitários, estudantes da Unesp, universidade estadual com muitos campus espalhadas pelo interior de São Paulo, e o campus da cidade de Rio Claro, é um dos maiores, com várias faculdades em anexo. Por falar nisso, quando começar a relatar fatos ocorridos em 2002, logo falarei sobre um show da Patrulha ocorrido dentro da Unesp de Rio Claro, produzido pelo D.A. dos estudantes.

O próximo show seria efetivamente o estopim da nova fase em que a banda mergulharia, emendando muitos shows colados e seguindo uma logística inteligente que caracterizava enfim, a organização de uma tour. E nesse próximo show que comentarei, ocorreram histórias muito inusitadas que certamente não podem deixar de serem contadas. O compromisso seria num clube, na cidade de Itu, no interior de São Paulo, mas não o famoso Ituano, clube onde imediatamente desconfiei ser, quando recebi a notícia da confirmação do evento, graças à minha percepção sempre presente no campo do futebol.

Na verdade iria transcorrer num outro clube da cidade e este, sem vínculos com o futebol profissional. Seria na "Associação Atlética Ituana ", um clube de menor proporção, mas com belas instalações, e bem localizado num bairro nobre daquela cidade interiorana.
Esse show começou alguns dias antes, no entanto, pois assim como fizéramos por ocasião do show em Mogi-Guaçu, que comentei poucos capítulos atrás, houve uma pré-produção em cooperativa com o produtor local, e dessa forma, eu mesmo, pessoalmente, fui à tal cidade acompanhado do nosso roadie, Samuel Wagner, quando fizemos algumas ações de promoção. Acompanhados desse rapaz que estava produzindo o evento (acho que chamava-se Paulinho, mas não tenho mais certeza disso), percorremos vários pontos por ele sugeridos para colocarmos cartazes, além de visitarmos redações dos jornais locais, visando angariar-lhes apoio.

Esse rapaz, era bem jovem e estudava cinema. Ao saber de meu interesse pela sétima arte, apressou-se em contar-me que um estabelecimento comercial que havia sido propriedade de um parente seu (acho que era de seu avô), havia servido de locação para o filme "O Bem Dotado, o Homem de Itu", um clássico do cinema brasileiro dos anos setenta, na vertente da "pornochanchada". E como se não bastasse, o dia seria ainda mais cinematográfico para o meu deleite naquela tarde, visto que numa visita à cidade vizinha de Salto, separada de Itu, por uma avenida, apenas, tive um contato desse nível. Ocorreu que nessa cidade, Salto, fizemos também esforços de divulgação, pela óbvia proximidade de Itu, e tal município era a terra natal do ator /diretor Anselmo Duarte, e na casa onde ele nasceu, funciona um pequeno museu e cine-clube em sua memória, e claro que dei uma olhada, ainda que muito rapidamente, pois o tempo urgia, e o objetivo da missão era divulgar o show da Patrulha em Itu, e assim procedemos em Salto.


Daí em diante, uma rotina estabeleceu-se, com minha residência sendo o QG de saída e retorno da banda de todas as viagens. Com todo o equipamento guardado na minha ex-sala de aulas, ficava mais prático partir dali.

Foto clicada na sacada da minha residência, mirando no cruzamento das Ruas Castro Alves e Safira, no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo 

Todavia, havia um empecilho e tanto : para quem conhece o bairro da Aclimação, aqui em São Paulo, sabe que são raras as ruas que tem uma topografia plana. E a minha rua na ocasião, era a típica rua do bairro, ostentando uma ladeira íngreme. Portanto, estacionar um ônibus sem o "manequinho"(jargão de motoristas para designar freio de mão dos ônibus), em condições adequadas, e ainda tornando-o mais pesado com a inclusão do equipamento, aumentando em pelo menos mais uma tonelada o seu peso, era temerário. Bem, essa rotina perpetuou-se, durando até 2003 com bastante frequência, e só diminuindo nos momentos finais dessa formação da banda, no ano de 2004.

Nesse dia em específico, o pessoal do Tomada chegou na hora combinada, e haveria um personagem a mais nessa viagem, o amigo Marco Carvalhanas, que estava iniciando sua carreira como produtor e empresário, e insinuava-se assumir esse posto conosco.
Seria um apoio e tanto, principalmente nas viagens, e de fato, ele já havia viajado conosco na viagem anterior, à cidade de Rio Claro, que descrevi anteriormente e testemunhou na porta do estabelecimento comigo, a história do roadie que foi assediado sexualmente por uma transeunte bonita, naquela história insólita que mencionei antes. Carvalhanas era músico, baterista, e tocara na "Santa Gang" nos anos setenta / oitenta, e também acompanhou o "Serguei' por algum tempo. Desde o início dos anos 2000, foi embrenhando-se no mundo da produção e foi gostando dessa nova vocação, e agora queria seguir em frente. Com todos a bordo, seguimos para Itu num clima descontraído dentro do ônibus, sob muito calor, mas também com bastante camaradagem e brincadeiras. Chegamos ao clube interiorano ainda na metade da tarde (Itu fica a apenas 77 Km de São Paulo), e rapidamente os roadies fizeram o duro trabalho de descarregar o equipamento e levá-lo ao palco do salão de festas. Aí, já tivemos o primeiro problema do dia, pois apesar de ser um clube bem arrumado, a acessibilidade deixava a desejar. Para sair do pátio onde o ônibus estacionou até o palco, havia uma penosa escada que os fez sofrer bastante para carregar todo aquele equipamento. Contudo, surpreendemo-nos ao verificarmos que um novo roadie que estreava na equipe aquele dia, fez uma coisa inacreditável, ao estilo do "Cacique Cobra Coral", aquele sujeito nanico que trabalhou como carrier no Sesc Itaquera. Com uma truculência desproporcional ao seu porte, visto que também era nanico, apanhou o piano Fender Rhodes do Marcello, colocou-o sem pestanejar nos ombros, e saiu correndo, literalmente, pela escada íngreme, como se estivesse carregando uma mochila vazia...

Caímos na risada, claro, pois aquela cena era bizarra. Esse sujeito na verdade nunca havia trabalhado como roadie na vida, mas era um carrier que o nosso sócio / motorista conhecia de trabalhos que haviam feito juntos. E e muitas outras histórias hilárias aconteceram em shows futuros, envolvendo-o e na hora certa, comento. Então, com o equipamento no palco e tudo ligado, fizemos o soundcheck...


Estava tudo correto até então, com a Patrulha passando o som e o Tomada, idem, sem problemas. O P.A. contratado para o evento, era compatível com o salão onde ocorreria o show. Não era um equipamento sofisticado mas continha o mínimo necessário para um show de qualidade, na dignidade que as bandas mereciam. Então, encerrada essa etapa, ficamos livres para dar uma relaxada. O camarim era improvisado, e na verdade eram vestiários para atletas que deviam utilizar as quadras de esportes e / ou piscinas. Tudo bem, eram limpos e amplos, portanto habitáveis...

Quando o horário avançou, percebemos que o clube havia aberto as portas para o público. Não eram muitas pessoas chegando, mas o fluxo era contínuo, prenunciando que haveria um quórum mínimo.
Chegada a hora do espetáculo, demos o sinal para o pessoal do Tomada iniciar a abertura. Eles subiram ao palco e começaram a tocar. Estávamos no camarim e notamos que a voz do vocalista Ricardo Alpendre não entrava. Pensamos inicialmente que a banda talvez iniciasse o seu show com um tema instrumental, portanto fosse premeditado. Mas o fato, é que a música alongava-se e nada de terminar, tampouco entrar enfim a voz do Ricardo. Ressabiados, fomos verificar e pasmem !! O vocalista Ricardo Alpendre estava com o microfone em mãos e sinalizando freneticamente para o técnico de som tomar uma providência, mas como o "mesista" posicionara-se longe, e com o advento da iluminação, não dava para visualizá-lo com nitidez, para quem estava no palco. Mas nós vimos claramente que não estava presente ali na mesa, e pior, o som da banda era o que estava vindo direto dos amplificadores, pois o P.A. estava desligado !! Só havia o som de guitarra e baixo sendo escutado direto dos amplificadores no palco, e mesmo assim, sem passar adequadamente pelo P.A.
Aonde estaria o profissional responsável pelo equipamento ??


Foi quando o Marcello e o Marco Carvalhanas ouviram o som de alguém usando o equipamento de musculação na sala de academia do clube. Foram lá dar uma olhada e constataram que o sujeito em questão, estava lá, despreocupadamente "exercitando-se"...
Ouvia a banda tocando sem P.A. e nem dignou-se a ir lá para dar uma satisfação...
Então, abordado por nós, alegou que não havia recebido o seu dinheiro, e que não abriria o P.A. enquanto não visse  a "cor do dinheiro"...

Não vou entrar no mérito da questão, mesmo porque não sei o que fora combinado com o produtor do show, mas claro que ninguém aprovou esse tipo de atitude rude. A despeito de ter o direito de cobrar e não sendo honrado o compromisso, o direito de desmontar o equipamento e ir embora, bastava uma conversa prévia algumas horas antes do espetáculo iniciar-se. Aliás, cabe a reflexão : por quê realizou o soundcheck e não mencionou a sua reivindicação ao produtor ? Ali, por volta das 17:00 h, era o momento para tal conversa, e tudo isso teria sido evitado. Não quero prejulgar, mas talvez ele tenha feito de propósito, para a sua pressão psicológica ganhar ares de dramaticidade. Se foi isso, claro que premeditou, e nesse caso, é mais um ponto negativo na sua conduta.

Com essa atitude mesquinha, expôs o Tomada de uma forma vergonhosa. Não importava que a banda era nova e dava seus primeiros passos na carreira. Pouco importa isso numa questão que envolve ética, respeito e a dignidade do artista exposto no palco, que nada tinha a ver com o acerto financeiro da produção com esse "profissional" terceirizado etc. Enfim, após um bate boca acalorado, o produtor foi arrumar o dinheiro, e só quando as notinhas foram parar no bolso do sujeito, é que dignou-se a interromper a sua sessão de musculação na academia, e foi abrir o P.A., com a banda tocando no palco. O show prosseguiu porque os componentes do Tomada eram (são) muito gente boa, pois outros talvez abandonassem o palco em sinal de protesto, pois foi realmente uma situação lamentável e vexatória para eles. Terminado esse imbróglio, o show deles encerrou-se, e chegou a nossa vez...

Nosso show transcorreu mais tranquilo, visto que o imbróglio com o "fisiculturista" e técnico de P.A. nas horas de folga, estava sanado...
Foi um show de muita energia, pois se o público não era uma multidão, ao menos quem foi ali para assistir era rocker de fato e entre eles, havia uma ala de fãs da Patrulha da velha guarda, que inclusive abordou-nos no pós-show, no camarim, com pedidos de autógrafos nos discos de vinil antigos da banda, além do CD Chronophagia.

Na anotação que tenho, o público nessa noite foi de 70 pessoas presentes na Associação Atlética Ituana. A despeito do resultado financeiro não ter sido o que esperávamos, pelo lado artístico saímos satisfeitos, pois fora um show de muita energia e sinergia com o público. Lembro-me inclusive de momentos de euforia, quando em certos momentos, com a interação que foi total e deu-nos um enorme prazer de estar ali com esses poucos, mas ótimos fãs.

No final, quando o público já dispersava pelas ruas de Itu, presenciamos uma cena triste. Não tinha nenhuma relação direta com a banda, mas acho que vale a pena relatar, pelo caráter dramático em que apresentou-se aos nossos olhos, ainda que por outro lado, fosse até cômico, de certa forma. Um rapaz bebeu demais e aparentava não ter condições de caminhar sozinho. Seus amigos carregavam-no e vendo que nem assim estava dando certo, resolveram ligar para o pai dele, pedindo ajuda. Alguns minutos depois, chegou o senhor e ao ver o filho naquele estado deplorável, perdeu a cabeça, e aos gritos, deu-lhe uma bronca mastodôntica que a cidade inteira ouviu. Infelizmente, estávamos nas proximidades do ocorrido, próximo de nosso ônibus que estava sendo carregado pelos roadies, e não tinha como ignorarmos o escândalo...

A parte cômica disso, se é que exista alguma graça num evento desse nível, foi que o pai do rapaz estava tão ou mais embriagado que o filho...só pelo jeito que o carro aproximou-se, e o senhor saiu do veículo, era nítido que o cidadão estava num "fogo" só...portanto, a bronca escandalosa era um tremendo paradoxo, e dessa maneira, soava engraçada nesse aspecto. Mas claro, na verdade foi uma cena triste perpetrada por ambos, pai e filho num estado deplorável de embriagues...
A partir da semana subsequente, entramos de vez na perspectiva de fazer turnês exaustivas. Era o sonho de todo artista concretizando-se, tocando de quarta a domingo, cada dia numa cidade diferente. Mas claro, não era uma turnê de banda "mainstream" e nesses termos, se havia esse prazer recôndito, havia também a perspectiva de enfrentarmos inúmeros dissabores oriundos do fato de sermos uma banda off-mainstream, e no underground, a aspereza muitas vezes supera qualquer possibilidade de haver algum glamour...são muitas histórias para contar...
E só para encerrar a história do show em Itu, ele ocorreu em 15 de dezembro de 2001.


 
O show de Itu  foi uma avant-premiere do que seriam as turnês interioranas doravante. A dinâmica do ônibus, nortearia as nossas ações dali em diante, e só precisávamos azeitar melhor a equipe técnica, porque na prática, só tínhamos um roadie, e ele era novato, tendo recebido um treinamento rápido e ministrado por nós mesmos, pouco tempo antes. A sua vantagem, era a de ser um rocker de carteirinha, e na parte estética / cultural, ter a noção exata de quem éramos e indo além, era fã da banda, um verdadeiro conhecedor de sua história. Sua pouca experiência profissional naquele instante, era compensada por essa qualidade pessoal.

Já o outro rapaz que estávamos levando nessa excursão era só um carrier. Não tinha nenhuma noção do que representava ser um roadie propriamente dito, e portanto, na hora da montagem e desmontagem, nada poderia contribuir, a não ser auxiliar a alcançar as peças para o único roadie, numa ajuda pífia. E sobretudo, na hora do show, qualquer eventualidade que ocorre, e são muitas as ocorrências nesse sentido, só teríamos um roadie na equipe para suprir a necessidade, quando uma equipe realmente profissional conta no mínimo com um roadie para cada instrumentista, especializado no seu respectivo instrumento e equipamento, portanto pronto a resolver qualquer pane específica. Bem, era o que tínhamos e assim viajaríamos...
O reforço seria a presença do Marco Carvalhanas, que atuaria como road manager, encabeçando toda a logística e resolvendo questões pontuais, como encarar, eventualmente, até a bilheteria de casas noturnas onde apresentar-nos-íamos, por exemplo.
A namorada do Junior na ocasião, Claudia Fernanda, também viajaria conosco, e ela desde o início, atuava como produtora e munida de sua experiência como coordenadora de eventos de grande porte, geralmente ligados à produção de exposições de artes plásticas, vernissage & afins, era muito ativa, determinada e tinha uma visão muito boa de estética, pois estava acostumada a cuidar do visual de galerias de arte, portanto, mesmo com a nossa banda não tendo nem 10% dos recursos visuais com os quais ela estava acostumada a lidar, sempre achava um jeito de dar o melhor acabamento possível ao nosso palco. E finalmente o sócio / motorista, que só dirigia o carro e era o responsável pela sua manutenção, não ajudando em nada no processo de montagem e desmontagem do equipamento, em cada show. Faltava-nos pelo menos um técnico de som, que seria o ideal, e mais um roadie, quiçá mais experiente, mas nossas condições gerenciais naquele instante não permitiam que pudéssemos contratar um profissional pelo menos, pois o certo mesmo seria levar dois, um no P.A. e outro só para operar o monitor. Isso sem contar o iluminador, outro profissional muito importante para a equipe. E la nave va...

Continua...

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