Pesquisar este blog

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 5 - Fazendo TV e Preparando um Novo Álbum - Por Luiz Domingues

Uma nova oportunidade de fazer um programa de TV surgiu, mais ou menos nessa época. Era o Programa Miguel Vaccaro Netto, uma produção independente, exibida no canal comunitário de São Paulo.
O convite surgiu não para a Patrulha do Espaço exibir-se propriamente dito, todavia, para o Junior participar de um debate com outros convidados, falando possivelmente sobre o panorama musical daquele instante, 2001. Então, fui com ele a um pequeno estúdio localizado na Vila Sonia, bairro da zona sudoeste de São Paulo, numa tarde de um dia de semana.

             O músico; jornalista & crítico musical, Régis Tadeu 

               O hoje saudoso crítico musical, Toninho Spessoto 

A banda "La Carne", cujo guitarrista que compareceu ao debate, é o primeiro à esquerda e chamava-se, Jorge Jordão  

Sérgio Dias, o mito mutante que dispensa maiores apresentações

Chegando lá, soubemos que além do mediador Miguel Vaccaro Netto, participariam também os jornalistas Régis Tadeu e Toninho Spessoto, além do guitarrista da banda independente, "La Carne"(Jorge Jordão), e Sérgio Dias, guitarrista dos Mutantes.

A Chave do Sol reunida no gabinete de Miguel Vaccaro Neto, em 1986. Da esquerda para a direita : Eu, Luiz Domingues; Rubens Gióia; Sonia Magno (sócia de Miguel); Miguel Vaccaro Netto; Beto Cruz e José Luis Dinola.

Eu tinha um envolvimento com o Miguel Vaccaro Netto, pois ele houvera sido empresário da Chave do Sol, durante um curto período entre 1986 e 1987. Não fora uma experiência positiva, mas tantos anos depois, não haveria porque ter ressentimentos, e eu fui tranquilo, sem nenhuma preocupação em revê-lo. E de fato, a culpa por esse fracasso não havia sido dele diretamente, mas sim de sua sócia que... bem, conto essa história no capítulo da Chave do Sol, naturalmente ! Chegando ao estúdio, fomos bem recebidos por uma produtora, e na sala de espera, encontramos com Régis Tadeu e posteriormente, Toninho Spessoto. O Régis Tadeu era um velho conhecido. O Junior conhecia-o há muito tempo e eu, desde 1997, quando ele entrevistou o Pitbulls on Crack, para a sua revista, "Cover Guitarra". O Spessoto eu só conhecia de vista, e sabia que fora editor da Revista Bizz, e tinha um programa na All TV, uma TV de Internet. O Sérgio Dias chegou e também foi gentil, conversando na rodinha de amigos. Sua esposa, Lourdes, era bem simpática e contou-me que estava estudando para tocar baixo, e confundindo-me, por conta do antigo apelido que eu tinha, veio perguntar-me sobre questões técnicas do instrumento, achando que eu fosse o famoso luthier que tinha o mesmo apelido. Desfeita a confusão, ficamos amigos e conversamos algumas vezes doravante, em outras ocasiões onde encontramos com ela e Sérgio. Então, algo inusitado ocorreu...

O Miguel apareceu e cumprimentou a todos com muita educação e simpatia, e quando veio saudar-me, notei nitidamente que ele simplesmente não reconhecera-me. Fiquei um pouco atônito com essa reação, mas vendo que era um lapso realmente da parte dele, mantive-me discreto, e não achei adequado lembrá-lo da Chave do Sol, e sobre o tempo em que tentou empresariar tal banda etc. Ninguém notou o meu ligeiro constrangimento e tudo seguiu, sem sobressaltos. O debate começou, enfim. Era um programa gravado e portanto, foram filmados quatro blocos de aproximadamente 12 minutos cada, que somados aos intervalos comerciais, daria uma hora de exibição na edição final.

Decepcionei-me contudo, pois com tanta gente gabaritada na mesa, esperava por um debate interessante, com muita informação e opinião contundente da parte de todos. Todavia, logo na primeira pergunta, Miguel jogou o debate na vala comum da mesmice, perguntando a cada um, o que significava o Rock...
Um bloco inteiro foi gasto com considerações tolas por parte de todos, na base do : "Rock é atitude", "Rock é a expressão da juventude revoltada com a sociedade" e outras frases feitas e vazias. Posteriormente, o debate melhorou um pouco com a conversa evoluindo para uma questão pertinente àquele momento, envolvendo a guerra entre a pirataria de discos e as gravadoras, os prós e contras para o artista independente etc. Mas em momento algum foi realmente um debate interessante, esbarrando-se em obviedades. Além disso, o programa era obscuro e por ser exibido numa TV comunitária de audiência zero, praticamente, pouco ou nada, para ser mais preciso, acrescentou à Patrulha, ou aos demais participantes. Uma última nota curiosa sobre esse evento : um rapaz da produção levou uma foto dos Mutantes, clicada num show no interior do Paraná (Umuarama ? Maringá ?), não lembro-me mais em qual cidade, em 1972. Tratava-se de uma foto registrada pelo pai ou mãe do rapaz, que assistiu o show e portanto, era raríssima. Nessa foto, os Mutantes estavam tocando num caminhão de trio elétrico, improvisado como palco. Prática incomum para os anos setenta, mas certamente foi algo inusitado e improvisado, porque não havia outra alternativa para o show acontecer. O Sérgio apreciou a foto e lembrou-se do show, confirmando que tudo fora improvisado, pois o show não pode acontecer no clube local, por problemas técnicos. Pouco tempo depois, a Patrulha do Espaço receberia um novo convite para participar novamente do Programa Miguel Vaccaro Netto, mas desta vez, eu e o Rodrigo é que participamos. Tenho uma cópia desse debate que o Junior participou e assim que possível, vou postar no You Tube, para os fãs da Patrulha ter esse material disponível. Tenho também a segunda participação no programa, comigo e Rodrigo, e também está nos planos disponibilizá-lo.


Pouco tempo depois, ainda em março, recebemos o segundo convite para participar do programa Miguel Vaccaro Netto. Desta feita, eu e Rodrigo Hid é que fomos representar a Patrulha do Espaço. Ao invés de irmos àquele estúdio na Vila Sonia, fomos instruídos a comparecer à Praça de Alimentação do Shopping Paulista, o que de certa forma foi bem mais conveniente pela logística, pois esse Shopping fica bem próximo do bairro onde eu e Rodrigo morávamos, na Aclimação, zona sul de São Paulo.

Chegando lá, aguardamos por alguns minutos alguém da produção aparecer e no caminho, comentava com o Rodrigo, que desta feita, achava impossível o Miguel não reconhecer-me e relembrar do tempo em que ele propôs-se ser empresário da Chave do Sol, minha ex-banda nos anos 1980. Conforme já contei anteriormente, ele não reconheceu-me dias antes, quando acompanhei o Junior naquele debate realizado em gravação de seu programa num estúdio. Mas desta vez, achava inevitável, pois eu estaria na entrevista, e era óbvio que ele lembrar-se-ia, no meu entendimento. Logo surgiu uma garota da produção e levou-nos a uma mesa, instruindo-nos a aguardar um pouco, pois o Miguel atrasaria alguns minutos, quando chegaria acompanhado do cinegrafista e do cabo man. 

Grande figura icônica dos anos sessenta, um dos poucos Rockers de verdade no movimento da "Jovem Brega Guarda" (ao lado de Erasmo Carlos e outros poucos), "o bom", Eduardo Araújo...
 

E também contou-nos que haveria um outro convidado nesta tarde, Eduardo Araújo. Gostamos de saber disso, pois o Eduardo era realmente um dos poucos artistas bacanas egressos da Jovem Guarda, sem o ranço brega que a maioria tinha, e que haviam carregado para a carreira inteira. 

Então chegou o Miguel com sua pequena equipe de filmagem e o improvável ocorreu... ele cumprimentou-me efusivamente, mas não reconheceu-me !! E eu senti nitidamente não tratar-se de fingimento ou desfaçatez. Realmente ele demonstrou pelas reações, que não reconhecia-me, tratando-me como a um estranho...
Feitas as apresentações e os ajustes de câmera, gravamos a nossa entrevista em dois blocos, falando sobre a Patrulha do Espaço, diferentemente do debate em que o Junior participara anteriormente, onde falou-se da banda minimamente, em detrimento de um enfadonho debate sobre o significado do Rock, numa discussão inócua. 


O único senão de nossa entrevista, foi a insistência do Miguel em falar sobre o Arnaldo Baptista. Talvez considerando a carreira atual da Patrulha desinteressante para o seu público, ele insistia em perguntas sobre o Arnaldo, como se ele fosse ainda membro da banda, e convivesse conosco. E naquela época (2001), ele (Arnaldo), estava recluso, longe dos holofotes da mídia. Só na metade dos anos 2000, é que voltaria à tona, com a volta dos Mutantes; lançamento de um documentário sobre sua trajetória etc etc. Portanto, foi constrangedora para nós essa linha de entrevista, e mesmo com nossas tentativas para desviar o rumo dessa conversa e fazer voltar o foco sobre nós, ele parecia querer falar apenas sobre o Arnaldo, e os Mutantes. 

No segundo bloco, ele propôs que participássemos do seu quadro "Não diga não". Cabe uma explicação : Miguel teve seu auge no radialismo, na década de sessenta, quando tinha um programa de Rádio famoso. Seu foco era a música evidentemente, mas ele gostava também de inserir brincadeiras em tom de gincana, uma coisa bem típica daquela época. Uma de suas criações mais famosas, era uma espécie de teste psicológico, onde convidava as pessoas a conversar com ele, e testar a capacidade de cada um de conversar o maior tempo possível, sem usar as palavras "não" e "não é"( ou "né"). Maliciosamente ele conduzia uma conversa no sentido de encurralar mentalmente a pessoa, provocando o ato falho. Em 90 segundos, se a pessoa conseguisse o intento, ganhava um brinde, geralmente um LP, pois o foco sempre era a música.
O programa entrou em decadência e já no fim dos anos setenta, o Miguel foi sumindo do rádio e da TV. Então, em pleno 2001, aquilo era algo bizarro e só fazia sentido para quem lembrava-se dos anos sessenta. Nesse caso, o Rodrigo nunca tinha ouvido falar da brincadeira. Eu aceitei ser o primeiro, e não durei nem 20 segundos, sendo traído pelo ato falho. Mas o Rodrigo deu-se bem, e suportou muito mais tempo, embora não conseguisse os 90 segundos propostos. Num dado instante, diante de uma provocação para tentar desestabilizá-lo, o Rodrigo improvisou algo deselegante, e o Miguel pareceu não ter gostado. Mas o Rodrigo pediu desculpas, alegando ter usado como mera estratégia para tentar vencer o desafio etc etc. Finda a nossa entrevista, conversamos rápido com o Eduardo Araújo, que foi muito simpático conosco. Ele falou do filho dele que era guitarrista, e gostava de Hard-Rock etc. Terminado tudo, despedimo-nos do Miguel e da sua equipe, e no meu caso, saí dali convicto de que ele não lembrou-se de mim, realmente. Assim que disponibilizar essa entrevista no You Tube, aviso aqui neste relato...



O próximo passo foi mais um show no interior. Desta feita, voltaríamos à cidade de Avaré, onde havíamos tocado no ano de 2000. O local seria novamente a mesma casa, o "Ferro Velho Bar".
Diferente da vez anterior, o show não teve o mesmo astral, mas teve seus momentos bons. Revermos os amigos Dárcio e Marcos, valeu certamente. A única ocorrência de que lembro-me desse show em específico, nem tem a ver com o show em si. O que aconteceu foi que após o espetáculo, Marcello; Rodrigo, e o motorista da van, foram à pracinha perto do bar, para um lanche no trailer de hot dog.

O clima pesou, pois aquela imagem de cidade interiorana pacata, não correspondia mais em Avaré, tampouco em nenhuma localidade, desde muito tempo, e nós que morávamos na capital, estávamos defasados com essa realidade. Portanto, diante da iminência de algo pior acontecer, com a praça cheia de meliantes em potencial, o melhor foi voltar para o bar, carregar o equipamento, e voltar para São Paulo. Tudo isso ocorreu em 10 de março de 2001, e o público no Ferro Velho Bar, foi de 200 pessoas.
Muito bom para uma banda autoral, mas aquém de nossas expectativas, certamente.

A próxima parada seria em Santos, no litoral de São Paulo. Eu não tocava naquela simpática cidade praiana, desde 1987, quando ali apresentei-me pela última vez com a "A Chave do Sol", num espaço chamado Circo Marinho, aliás, literalmente um circo, instalado na Av. Ana Costa, mas que era usado muito mais para promover shows musicais, do que espetáculos circenses. Bem, a Patrulha já tinha estado no litoral, um ano e tanto antes, tocando numa cidade vizinha, Praia Grande.


Desta feita, tocaríamos numa casa noturna, denominada "Praia Sports Bar". Era pequeno, mas muito bem localizado, na av. da Praia do Gonzaga, próximo ao clube XV de Novembro, para quem conhece a cidade. O bar tinha tradição de mesclar bandas autorais a bandas cover, e ostentava razoável estrutura, mas no quesito "negociação", era duro de lidar-se, pois nesse específico item, seu dono (apelidado "Ratinho", por ser semelhante ao apresentador popularesco da TV), tendia a esquecer-se quem tinha uma carreira autoral solidificada, e dessa maneira, querer estabelecer remuneração indigna.



Nessas horas, ter um portfólio volumoso, como a Patrulha já tinha há décadas, de nada valia, tampouco a história, respeito entre os fãs, discos lançados, e a decantada árvore genealógica que fazia de nós, parentes próximos dos Mutantes; Rita Lee, e outros "primos" importantes na história do Rock brasuca...
O show foi bom, descontando todos os problemas que uma banda autoral sofre para impor sua obra com um mínimo de dignidade.
Cerca de 200 pessoas estiveram presentes, o que surpreendeu o incrédulo "Ratinho", que esperava um fiasco de bilheteria. Muitos fãs da Patrulha, da cena Rocker do litoral, estiveram presentes, muitos deles, da mesma turma que vira-nos um ano antes naquele show da Praia Grande, realizado num salão / bar de um moto clube, nessa cidade vizinha. A lembrança engraçada do "Praia Sports Bar" nessa ocasião, e que repetir-se-ia em outras em que voltamos a essa casa, era a da presença de uma garçonete que usava uma micro saia tão curta, que acabou tornando-se uma concorrência para nós em termos de prender a atenção do público. De fato, os olhares masculinos ficavam hipnotizados, e claro, era uma estratégia do dono do estabelecimento que veladamente sabia que no boca-a-boca, a fama da garçonete loira, usando micro-saia, atrairia muitos fregueses, independente da atração musical.

Prova cabal disso, deu-se quando dias depois, em São Paulo, comentamos o ocorrido com um amigo e colega nosso, grande músico, aliás, que preservarei o nome. Falávamos sobre o último show, e antes de mencionarmos a garçonete, ele já disparou : "Ah... Praia Sport Bar... e a garçonete da micro-saia, estava lá ?"...
Então foi assim a nossa presença em Santos, no dia 17 de março de 2001...


O próximo compromisso era uma oportunidade boa para impulsionar a banda. Aliás rara oportunidade para a Patrulha do Espaço, que pelo menos nessa fase em que fui componente, teve parcas aparições na TV, e em sua maioria, em programas de pouca audiência, em canais comunitários e similares. Desta vez, iríamos participar de algo maior, tratando-se do programa "Musikaos", da TV Cultura de São Paulo. 
O "Musikaos" tinha a melhor das intenções por parte da direção da TV Cultura, e seu artífice maior era o Gastão Moreira, ex-VJ da MTV, e que era assumidamente um Rocker, inclusive sendo músico também. Eu conhecia-o bem, desde os meus tempos no Pitbulls on Crack, e portanto sabia de seus propósitos dentro da TV, e o quanto queria fazer coisas desse porte na MTV, e descontente com os rumos daquela emissora (outrora interessada em música...), havia adotado no sentido oposto, e sendo assim, sua adesão à TV Cultura parecia ser um alento para todos os artistas marginalizados na mídia.

E certamente foi assim que ocorreu. Contudo, a esperança de que o "Musikaos" adotasse a aura perdida desde a extinção do programa "A Fábrica do Som", frustrou-se totalmente. Ninguém envolvido nessa produção tem uma explicação definitiva, mas muitas hipóteses foram ventiladas. A mais óbvia, certamente, é a de que vivia-se uma outra época, e aquele entusiasmo do público por bandas autorais independentes, havia diluído-se nesse grande hiato de anos perdidos. Concordo com esse raciocínio, claro. De fato, o "Musikaos", apesar de ter uma linha um pouco diferente da velha "Fábrica", tentava resgatar alguns ícones antigos e marcas registradas daquele programa oitentista.

Por exemplo, as gravações eram realizadas no mesmo local onde gravava-se a "Fábrica", ou seja, o teatro do Sesc Pompeia. E por coincidência (na verdade, é claro que por conveniência de agendas), no mesmo dia de semana, a terça-feira. E para tentar resgatar a magia de outrora, o dia de exibição na TV Cultura, e com retransmissão para as TV's educativas coligadas de quase todos os estados do Brasil, no mesmo dia e horário em que a Fábrica era exibida na grade daquela época : sábado, 18:00 h.

O baterista dos Titãs, Charles Gavin citando o Junior, na Revista "Batera & Percussão". - Março 2001 

Tinha tudo para ser um estouro e repetir o sucesso da "Fábrica", mas não deu liga, e teve vida curta, infelizmente. O seu lançamento foi saudado com grande entusiasmo por todos os artistas independentes, onde incluo-me, claro, pois seria um raro oásis na TV para artistas fora do esquema do famigerado jabá, onde o artista precisa pagar (e muito), para ter seu trabalho executado em rádios ou exibido nas TV's.

Alheio a essa análise que só faz sentido agora, com o distanciamento histórico (2016), sua vida efêmera não era imaginada à época, claro. E o que importava-nos, era fazer uma boa aparição, tanto para o público presente, quanto para os telespectadores, em número muito maior, esperávamos.

Fomos à gravação do Musikaos, com esperança de que seria mesmo uma boa oportunidade de dar-nos visibilidade em rede nacional, coisa rara numa época já completamente dominada pela máfia do
jabá. Era o velho teatro do Sesc Pompeia; a equipe da TV Cultura com sua unidade móvel estacionada no mesmo cantinho da Rua Barão do Bananal, quase esquina com Rua Venâncio Aires; era uma terça-feira; e algumas pessoas da produção do Musikaos, eram da época da velha "A Fábrica do Som", mas, não havia nem de longe o mesmo clima da euforia de outrora, infelizmente.

E era uma pena realmente que não houvesse, pois o empenho das pessoas era para que fosse resgatado tal clima, principalmente da parte do Gastão Moreira, imbuído de ideais nobres nesse sentido.
A passagem de som foi tranquila e bem objetiva. O som contratado para suprir o P.A. do teatro, era de uma empresa famosa de locação de equipamentos no mercado do Show Business, e a luz do teatro, de qualidade, obviamente no mesmo padrão. Dividiríamos a noite com amigos. Baranga e Made in Brazil seriam as outras bandas da noite.

Um sinal de que os tempos eram outros, deu-se logo que chegamos e vimos que metade do auditório estava interditado. Segundo contaram-nos, era para evitar a dispersão das pessoas, causando constrangimento aos cinegrafistas da TV Cultura, ao fazer enquadramentos com grandes espaços vazios, e isso causar dificuldades na ilha de edição, pegando mal para o programa. O fato é que já estavam habituados a ter pouca presença do público, muito diferente do tempo da "Fábrica do Som", onde filas kilométricas dobravam o quarteirão no cruzamento da Rua Barão do Bananal, desde o cruzamento com a Rua Clélia, até a Rua Venâncio Aires, nos dias de gravação. 

Fora o fato de que passaram a cobrar para diminuir a procura, e nem assim espantou o enorme fluxo de gente interessada e muitas vezes a polícia foi chamada para coibir climas oriundos de pessoas inconformadas com a lotação esgotada e forçarem a entrada. Agora, a produção temia pelo constrangimento da pouca presença de pessoas, apesar do ingresso gratuito e tudo. Bem, foi chato, mas era o que tínhamos em mãos, e seguimos na nossa determinação de fazer o melhor possível. Ficou estabelecido que o "Baranga" tocaria primeiro, nós em segundo, e o "Made in Brazil" fecharia a noitada de Rock, no Sesc Pompeia. Se por um lado tínhamos essa má notícia de tocarmos para meio teatro apenas, por outro, tivemos duas boas novas, sendo que uma não era exatamente uma novidade.

O fato de Jorge Mautner ser um membro honorário do programa e fazer suas intervenções intelectualizadas, era um verniz que particularmente eu apreciei. Fá dele desde os anos setenta, vi-o muitas vezes ao vivo naquela década, e admirava-o pela postura como artista da música e da literatura / filosofia. E outro fator muito bacana e este sim, descobrimos no dia, haveria a presença de um artista plástico de renome, pintando enquanto tocaríamos. Tratava-se de André Peticov, irmão do também artista plástico, Antonio Peticov, e ambos, ícones da contracultura sessentista em São Paulo e no Brasil. 

Para quem não sabe, os irmãos Peticov tem um histórico de muita proximidade com o movimento hippie no Brasil, e diversas histórias de envolvimento com os tropicalistas, principalmente com os Mutantes. De André Peticov, por exemplo, corria a lenda dele ter sido um dos primeiros, senão o primeiro, a fazer projeções de bolhas psicodélicas em shows de Rock, em São Paulo.

Essa versão, inclusive, era sempre contada pelo próprio Rolando Castello Junior. Portanto, seria um enorme prazer ter André Peticov pintando uma tela ao vivo, enquanto tocaríamos, não só pelo artista plástico criativo e renomado que era, mas pelo seu comprometimento com o Rock; contracultura, e vibrações sessenta / setentistas, ou seja, tudo a ver com a ideologia pela qual a Patrulha estava comprometida nessa sua nova fase, iniciada em 1999.

Então, passado o soundcheck, aguardamos no camarim a entrada do público e percebemos que mesmo com o fato da produção ter limitado o espaço do teatro pela metade, havia um murmurinho que ouvíamos do camarim.

No camarim, a bancada de lanches disponibilizada para os artistas participantes, estava farta, e num dado momento, o Jorge Mautner entrou para fazer uma boquinha, também. E quando entrou, olhou-me, e perguntou-me se o lanche estava servido. Eu cumprimentei-o de forma efusiva, soltando um : -"salve, profeta".
Ele riu, mas não deu vazão para a minha brincadeira, e é claro, fiquei na minha. Quem conhece-me bem, sabe que não sou de bajular ninguém, e mesmo sendo um admirador dele como artista, e escritor / filósofo, preferi ficar quieto, e deixá-lo comer seu sanduíche em paz.

Quando o Baranga foi chamado ao palco, lembro-me de assisti-los um pouco. De fato, a parte das cadeiras liberadas para o público, estava preenchida, mas confesso que senti saudade da velha "Fábrica do Som", quando o Sesc Pompeia transbordava de gente, inclusive acima da capacidade oficial. O som estava legal, e o Baranga fez sua performance com muita energia, como era / é de sua natureza.

A seguir, chegou a nossa vez, e quando subimos ao palco, André Peticov já estava trabalhando numa tela, com o auxílio de uma bela assistente, pupila sua do atelier. Após uma calorosa recepção do Gastão Moreira, tocamos o primeiro número, "Não Tenha Medo", que era sempre a primeira música de nossos shows.



 

 

Acima, o vídeo de "Não Tenha Medo", dessa aparição no Musikaos - 2001
 

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=AEK8yNO93bo

O público reagiu muito bem, e o Gastão interveio logo a seguir, emendando uma entrevista curta com o Junior, introduzindo o Peticov, e pedindo que fizéssemos uma segunda música.


Acima, o vídeo da execução de "Ser", no Musikaos - 2001
 

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=hlDb2bcBV3A

Tocamos então, "Ser", com bastante energia, e a seguir,  mais uma intervenção do Gastão, com uma micro entrevista com um casal de ativistas de alguma causa ecológica / ambiental. O Jorge Mautner deu seus palpites, como uma espécie de consultor intelectual do programa etc etc.


Nova deixa para nós, e tocamos "Homem Carbono", uma música inédita que já estávamos tocando ao vivo e que seria lançada oficialmente no próximo disco.

Acima, o vídeo de "Homem Carbono no You Tube, dessa aparição no Musikaos - 2001
 

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=5rbJfeZUH-Q
 

Uma rápida brincadeira com o público, fez com que algumas pessoas agitassem-se para ganhar brindes, incluso CD's da Patrulha. 


Ganhou quem correu e respondeu que famoso "ex-mutante" fundou a Patrulha do Espaço, convenhamos, uma pergunta bem óbvia. Terminada a nossa participação, descansamos no camarim um pouco e a seguir, voltamos ao teatro para assistirmos um pouco a performance do Made in Brazil, terceira atração da noite. Encerrado o programa, confraternizamo-nos com todos, nos camarins do Made in Brazil, e deixamos o teatro satisfeitos com a acolhida da produção, do Gastão Moreira e com a certeza de que nossa performance fora boa e repercutiria na TV, dias depois.

O resultado prático de tal aparição na TV, deixou a desejar,
infelizmente.
Como já salientei, o Musikaos não tinha nem 10% da força que a velha "Fábrica do Som" tinha nos anos oitenta. 

Vida que seguiu, o próximo compromisso da Patrulha do Espaço foi uma volta ao Volkana, casa noturna de São Bernardo do Campo, onde já tocáramos anteriormente. 

Única foto da Patrulha em ação no Volkana, nesse dia. Click; acervo e cortesia do fã, Belo

Era a noite de 5 de maio de 2001, e 120 pessoas viram-nos tocar. 
Antes de nós, duas bandas apresentaram-se. O "Blues Riders", boa banda, que aliás está em atividade até hoje, heroicamente fazendo seu trabalho autoral, com muita dignidade no campo do Blues-Rock. E a outra, chamada "O Toque de Midas". Em breve, uma outra frente de trabalho abrir-se-ia para a banda. Graças a um acordo firmado com um estúdio no bairro do Cambuci, zona sul de São Paulo, começaríamos a gravar um novo álbum.


O Junior descobrira esse estúdio por conta de seus esforços para lançar o "Volume 4" da série antológica, denominada "Dossiê". Eu mesmo fui com ele numa mini sessão que fizemos para mixar rapidamente algumas músicas ao vivo e oriundas do show que fizéramos em 2000, no Centro Cultural Camerati, de Santo
André. 


Nesse dia, mixamos (num padrão bem simples, é lógico),  tais músicas, e também formatamos algumas músicas de uma Fita K7, de onde haviam versões ao vivo de músicas do CD Chronophagia, executadas num programa de rádio, chamado "Brasileiros e Brasileiras", da Rádio Brasil 2000 FM. 

Foto que usamos como promocional em 2000, mas que fora clicada no estúdio da Rádio Brasil 2000 FM, por ocasião desse programa que citei acima

Apesar de estar armazenada numa fita K7, estavam com uma qualidade incrível, e a performance da banda fora excelente, porque estávamos muito ensaiados e inspirados. Dessa forma, ele acabou usando os serviços do estúdio para finalizar a capa, visto que também faziam esse serviço ali, e dessa forma, alinhavou um acordo para gravarmos algumas faixas no meio do ano, que possivelmente resultariam no novo álbum.

Ainda falando sobre a coletânea "Dossiê Volume 4", o bojo desse lançamento tratou da fase da banda entre 1992 e 2000, portanto, nossa formação é citada ao final da história da banda até aí narrada, no excelente libreto escrito pelo Junior, dando continuidade aos trabalhos já lançados anteriormente, com os dossiês 1; 2 e 3. Como estávamos construindo uma história ainda em 2001, ele só contou sobre o nosso início em 1999, e foi até o limite de maio de 2001, ou seja, a data limite possível naquele instante em que finalizou a produção dessa coletânea.

Como registro fonográfico, além do álbum "Primus Inter Pares" de 1992, este CD contém duas faixas do CD "Chronophagia",  "Ser" e "Céu Elétrico". Contém também, duas músicas gravadas por formações sazonais de 1995 e 1998 : "Gata" e "Pátria Amada".


E para fechar com a nossa formação "chronophágica", quatro músicas gravadas ao vivo e extraídas de dois shows que fizemos, em janeiro de 2000. "'Depois das Onze" e "Sr. Barinsky", que eram takes do show que gravamos no Camerati, de Santo André, e "O Ritual", extraída do áudio de nossa aparição no programa "Turma da Cultura", da TV Cultura de São Paulo, em maio de 2000; e "Retomada", também em maio de 2000, no estúdio da emissora Brasil 2000, durante nossa performance ao vivo no programa "Brasileiros e Brasileiras".


No caso de "Retomada", o incrível é que o material original dessa gravação, veio de uma simples fita K7 e tem um áudio surpreendente enquanto resultado de captura. Claro, houve uma maquiagem de estúdio, melhorando a equalização geral, mas uma coisa mínima, em se considerando que numa fita K7, era impossível separar canais e só trabalhar assim um sinal "LR", sem poder trabalhar separadamente cada instrumento. Por esse cenário limitante, surpreendeu...
Sobre a capa, o Junior optou por manter a estética dos volumes anteriores dessa coletânea, uma decisão acertada a meu ver. Portanto, trata-se de mais uma ilustração evocando signos aéreos, um pouco menos Sci-Fi, no entanto, retratando assim um avião de caça, aparentemente dos anos 1940, com o piloto e sua acompanhante, uma bela garota, em situação de ataque, usando metralhadoras. O crédito é do ilustrador Tom Gianni, um importante desenhista de Comics.


Toda a parte de diagramação de texto e lay-out do encarte ficou a cargo de Givaldo Silva, e eu acompanhei várias sessões de seu trabalho, junto ao Junior, ali em 2001. 


“Depois da Onze”

Gravação ao vivo durante show realizado no Espaço Cultural Camerati, de Santo André / SP, em 29 de janeiro de 2000. Um clássico do repertório antigo da banda, lançado em 1981, apresenta uma seminal versão, respeitando o arranjo original, mas trazendo uma sutil modificação em nossa fase, com o advento de um solo de Mini Moog numa parte dobrada do ritmo. Com uma boa dose de loucura que lembra bandas da escola do Krautrock setentista, apresenta também a voz rouca do Marcello na condução solo e ao final um solo duplo de Moog e guitarra, muito anos setenta. A gravação deixa a desejar e a mixagem feita a toque de caixa não ajudou a dizimar certos aspectos, infelizmente. O timbre do baixo achatado, várias peças da bateria e a guitarra base bastante prejudicada, são exemplos. Mas vale pelo registro em clima de Bootleg, sem dúvida alguma. Não havia, ao menos até em 2016, disponibilidade dessa faixa no You Tube. 
"Sr. Barinsky"
Extraída do mesmo show de janeiro de 2000 em Santo André, como a faixa anterior, essa versão de “Sr. Barinsky” padece dos mesmos problemas de áudio, mas por ter outra dinâmica e arranjo, soa melhor. Dá para ouvir os instrumentos, incluso a incrível performance de bateria do Junior, que é um solo praticamente dentro da música em andamento, sem ficar isolada como em solos de bateria tradicionais em shows de Rock. O baixo soa melhor e dá para ouvir lampejos do timbre característico de um Fender Jazz Bass. A performance do Rodrigo ao piano e na condução da voz solo é maravilhosa e o solo de guitarra do Marcello, incrível. Parece Eric Clapton tocando com os Beatles. Os backing vocals com minha voz e a do Marcello estão bem proeminentes e soam muito bem. Ouça abaixo : 
A versão ao vivo de "Sr Barinsky", que está contida no CD coletânea, Dossiê Volume 4. Eis o Link para ouvir no You Tube :

“O Ritual”

Essa versão aconteceu no estúdio da TV Cultura, fruto de nossa participação no programa "Turma da Cultura", dessa referida emissora.  Inacreditável, mas a captura desse áudio armazenado numa simplória fita VHS, mostra uma qualidade surpreendente, com tudo soando bem, numa mixagem convincente, exatamente como os ouvintes ouviram ao vivo. Versão muito boa, com a banda tocando coesa, com muita garra e transbordando emoção por todos os poros. Muito fidedigno portanto ao que fazíamos ao vivo nos shows dessa época. Parafraseando o Grand Funk : “We’re were an late sixties / early seventies Rock Band” !!

“Retomada”

No caso de “Retomada”, aconteceu no estúdio da Rádio Brasil 2000 FM. Mostra a banda numa energia incrível, tocando e cantando com uma verdade estampada no semblante, inquestionável. Boa versão, tecnicamente falando e acho que o Junior foi feliz em lançá-la nessa coletânea, dando uma amostra da nossa espetacular fase artística em 2000.
Infelizmente, tanto “O Ritual”, quanto “Retomada” não estão disponibilizadas ainda (2016), no You Tube. Só comprando o disco Dossiê Volume 4, mesmo para ouvi-las, ao menos por enquanto.


Então foi isso, entre o CD "Chronophagia" e o ".ComPacto", essa coletânea ocupou uma lacuna e mesmo tendo pouca participação efetiva de nossa formação, está aí, contando um pedaço da nossa história na história geral da banda, e com raridades ao vivo, sobretudo, como presente aos fãs da banda e da nossa formação em específico. E bacana ter uma versão ao vivo de "Depois das Onze", quando deixamos o registro de uma música clássica do repertório antigo da banda, sob nossa interpretação "chronophágica".

Além de tudo, esse "Dossiê Volume 4" abriu caminho para concretizarmos o segundo álbum da nossa formação, conforme relatarei a seguir. Nessa altura, maio de 2001, já tínhamos repertório novo para compor um novo CD. Algumas canções, inclusive, já estavam sendo tocadas há meses nos shows, casos de "Homem Carbono"; "São Paulo City"; e "Terra de Minerais", esta última inclusive, ainda não tinha esse título, e de forma provisória, nós a chamávamos de"Aclimação", nosso bairro "base", e certamente o QG da Patrulha no início do novo século.

Matéria na Revista "Guitar Player", publicada em março de 2001, focando na nossa dupla de guitarristas, Rodrigo Hid e Marcello Schevano

Nossas atenções voltar-se-iam agora para a gravação do novo álbum. Tínhamos seis canções engatilhadas, e com aquele estúdio do Cambuci na mira, planejamos entrar nessa produção no feriado de Corpus Christi, que aproximava-se.

Todavia, tínhamos alguns compromissos pela frente ainda. O próximo, ocorreu na Feira de Artes da Vila Pompeia, tradicional feira daquele simpaticíssimo bairro, da zona oeste de São Paulo.
Fomos o Headliner do palco Rock, na Rua Caraíbas, no quarteirão entre as Ruas Venâncio Aires e Padre Chico, tendo como convidados especiais, Luiz Sérgio Carlini e Helena T., que era a vocalista do Tutti-Frutti à época.

Para essa participação especial, ensaiamos com o casal alguns dias antes, num pitoresco estúdio localizado na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Sou amigo do dono desse estúdio e moro perto dele, atualmente (2016). Nele, seu dono era (é), um rapaz chamado Lourival, que é músico também, e já trabalhou como roadie por muitos anos. O pitoresco no caso, fica por conta de que além de manter essa sala de ensaio no fundo de seu quintal, ele trabalhava também com artigos de couro, fazendo e consertando bolsas; malas; mochilas, e diversos objetos de uso musical, como "cases" (estojos) de instrumentos e correias para tocar guitarra; baixo, e violão.

Placa na porta da oficina / estúdio do Lourival, onde a Patrulha do Espaço ensaiou algumas vezes em 2001.

E indo além, o que realmente chamava a atenção pelo exotismo, ficava por conta dele ser um ufólogo muito estudioso da matéria, e por isso, ministrar aulas e consultorias sobre o assunto, e anunciar na porta de sua casa, essas três funções, o que despertava a atenção. Ele já chegou a ser entrevistado no Jô Soares, por causa disso.

Ensaiamos no estúdio do Lourival, e Carlini e Helena tocariam e cantariam conosco em três músicas : "Ando Meio Desligado"; "Jardins da Babilônia", e "Agora Só Falta Você". No dia da Feira, sabíamos que cerca de 150 mil pessoas circulavam por ela. Eram centenas de barracas de artesanato; comidas, e bebidas etc etc. E vários palcos espalhados por muitos quarteirões. O mais concorrido, tradicionalmente, era o palco Rock. E por sermos o Headliner do dia, tocamos com o pico de público daquele palco, que devia ser de pelo menos três mil pessoas, naquele momento. Foi um show tenso, por conta do praticável de bateria estar balançando, deixando o Junior bastante incomodado para tocar, mas pelo aspecto energético para o público, foi muito bom. A participação do casal do Tutti-Frutti foi ótima também, arrancando muitos aplausos, e urros da plateia. Isso ocorreu no dia 20 de maio de 2001, um domingo, com frio na Vila Pompeia.

Depois do show, fomos todos para a casa do Luiz Carlini, que ficava há dois quarteirões desse palco, e ficamos tocando por horas.
Lembro-me bem de fazermos uma versão gigantesca de "Little Wing", do Jimi Hendrix, e com a participação do guitarrista gaúcho, Bebeco Garcia (ex-"Garotos da Rua"), que estava hospedado na casa do Carlini, passando uns dias em São Paulo.

Uma rara foto dessa visita à residência do Luiz Carlini, que descrevi acima. Da esquerda para a direita : Helena T.; um amigo de infância do Carlini, cujo nome esqueci-me, infelizmente; Rodrigo Hid, e Bebeco Garcia.

A mesma turma da foto acima, acrescida de Luiz Carlini (primeiro à esquerda; Marcello Schevano (o mais alto no fundo, de bata indiana roxa), e eu, Luiz Domingues (primeiro à direita)

Bem, estávamos focados na gravação do próximo disco, mas ainda teríamos ainda um compromisso pela frente. A convite do Paulão, vocalista da banda "Velhas Virgens", fomos tocar num novo bar, chamado "RoquenRow Bar", que era de sua propriedade e de outros membros da sua banda. A ideia dele era ótima, e sem dúvida, a casa fora concebida para ser um palco para bandas de Rock autoral, com estrutura bacana de som e luz, e liberdade artística para todo mundo sentir-se a vontade. Nessa primeira oportunidade em que apresentamo-nos por lá, tivemos o prazer de ter o nosso show aberto por uma jovem banda paulistana autoral, e de extrema qualidade, muito ligada em ideais 1960 / 1970, denominada "Quarto Elétrico". Nós já os conhecíamos há alguns meses, mas essa foi a primeira vez em que tocamos juntos. Eram ótimos músicos, todos. Lembro-me de ter impressionado-me muito com a qualidade da banda e dessa forma, estreitamos ainda mais a nossa amizade, com uma convivência legal, que prosperaria de forma muito contundente.

O guitarrista / cantor e compositor (inspiradíssimo, por sinal), Denny Caldeira

O outro guitarrista (e também um grande baixista atualmente), Marcião Gonçalves

O baixista Thiago Fratuce (e atualmente um excelente violonista erudito)

Dessa banda, ficamos muito amigos dos guitarristas Márcio Gonçalves e Denny Caldeira, e do baterista Ivan Scartezini. O baixista (Macarrão), logo sairia, mas eu mesmo teria o prazer de indicar-lhes um ex-aluno meu, Thiago Fratuce, que encaixar-se-ia muito bem na banda.

Ivan Scartezini, cinco anos depois, tornar-se-ia, meu colega, e de Rodrigo Hid, no Pedra, onde vivemos muitas histórias já relatadas no capítulo daquela banda, e continuamos criando histórias.

Ivan Scartezini em foto da época desta narrativa, atuando com o "Quarto Elétrico"

Passado o ótimo show do "Quarto Elétrico", fizemos o nosso show com tranquilidade. Nessa noite, tivemos a presença de Luiz Carlini e Helena T., que mais uma vez representaram o Tutti-Frutti, e tocaram conosco duas músicas. Com um público de aproximadamente 100 pessoas, foi uma boa noitada de Rock, sem dúvida. Era o dia 2 de junho de 2001...


Rodrigo Hid fazendo pose de Ian Anderson, nas dependências do Estúdio Sonarte, em junho de 2001. Foto de Samuel Wagner, nosso roadie

A seguir, iniciaríamos enfim, as gravações do segundo álbum de inéditas. Era o feriado de Corpus Christ, em 14 de junho de 2001, quando realizamos um intensivo no estúdio, aproveitando o final de semana prolongado, e sem sessões agendadas para a clientela tradicional daquele estúdio. Infelizmente, tratava-se de um estúdio bastante defasado, e tinha graves problemas de manutenção, mas naquela circunstância, não tínhamos meios de pleitear gravar o novo disco num estúdio melhor, uma pena. Nossa compensação era que o técnico que ficaria trabalhando conosco, era um amigo; Rocker, e fã da Patrulha, chamado Isaías, mas popularmente conhecido como "Kôlla".

Nessa foto, apontando para uma guitarra que pertenceu ao guitarrista norteamericano B.B. King e que pertence ao acervo da casa de shows "Bourbon Street" de São Paulo, o técnico, Isaías "Kôlla" Galdez

Extremamente gentil e dedicado, o Kôlla tinha bastante competência, e uma vocação tremenda para a paciência monástica em lidar com adversidades múltiplas que aquele estúdio apresentava. O estúdio tinha tantas deficiências oriundas da sua defasagem institucional, e falta de manutenção adequada, que se não fosse ele, Kôlla, com sua incrível paciência para "dar um jeito", nas coisas que pifavam, não teríamos conseguido gravar aquelas canções.

Eu, Luiz Domingues, na linha de ataque para gravar na sala da técnica do estúdio "Sonart". Click, acervo e cortesia de Samuel Wagner
 
O material novo que tínhamos em mãos, seguia a linha de resgate 1960 / 1970 da safra anterior, do CD "Chronophagia", mas tínhamos menos material em mãos, devido ao fato de que ensaiamos pouco desde o lançamento do último CD em questão, privilegiando a realização de shows. Eram apenas seis canções, das quais três, já estavam sendo executadas nos shows ao vivo, desde o ano 2000, casos de "São Paulo City", "Terra de Minerais" e "Homem Carbono".




Uma resenha do CD Chronophagia, proveniente de um Site da Internet, não identificado, publicada em 2001

O estúdio ficava localizado no Cambuci, zona sul de São Paulo, instalado numa enorme casa que fora residencial um dia. Ali funcionava, além do estúdio, o escritório deles; uma sala usada como estúdio fotográfico; salas de reprodução de cópias de fitas K7, com velhas máquinas dos anos setenta; e salas onde funcionários trabalhavam com computação gráfica, preparando capas de discos; releases; portfólios, e books de fotos. A intenção era boa, pois estavam organizados para atender todas as necessidades de quem pretendia gravar um disco, fornecendo todos os elementos para o artista sair com disco; capa; release, e fotos promocionais. Mas, infelizmente, tudo era precário, ainda que a sua clientela base, fosse de artistas do mundo brega, onde o padrão de qualidade era baixo, e portanto, o resultado oferecido por eles em todos os quesitos citados, costumavam ser de baixo nível estético / visual, e também no áudio. Fazer o quê ?

Outra resenha retardatária do CD Chronophagia, em abril de 2001, na Revista "Dynamite".

Precisávamos usar a oportunidade do estúdio, mesmo sabendo que só um milagre poderia fazer com que o áudio do nosso disco ficasse no mínimo igual ao anterior, e convenhamos, o CD Chronophagia peca pelo áudio, infelizmente. Para dar um clima inspirador e tirar um pouco o ranço brega de tais instalações, aproveitamos o fato do estúdio estar vazio naqueles dias (sem funcionários devido aos feriados, e também pelo Kôlla, ser "um dos nossos"), queimando uma quantidade absurda de incensos, além de colocamos posters com fotos de artistas 1960 / 1970, por todas as dependências, para trazer uma inspiração. Começaram então as gravações, e para ganhar tempo, a dinâmica inicial foi semelhante à das gravações do CD Chronophagia, ou seja, nos takes de gravação da bateria, estavam valendo também o baixo, e algum instrumento harmônico base, ou guitarra ou teclado. Claro que não gosto de gravar desse jeito, prefiro o método tradicional, do "um de cada vez", mas com orçamento apertado e tendo que correr contra o relógio, não restava outra alternativa...

Poucos dias depois dessa nossa exibição ao vivo no programa "Musikaos", da TV Cultura, já circulava na Galeria do Rock, em várias lojas, esse DVD acima, com a cópia pirata de nossa participação, além do Made in Brazil e Baranga, também. A ação pirata era ligeira naquela ocasião...

A gravação foi bastante corrida, pois estávamos usando o feriado prolongado como espaço cedido. Se pelo lado técnico, prevalecia uma suprema dificuldade pela inadequação do estúdio, por outro, tivemos a sorte de ter o "Kôlla" como parceiro, imprimindo uma dose de paciência e alto astral incríveis, não deixando o ânimo abaixar em hipótese alguma. Sem dúvida que foi mais sofrido e corrido do que a gravação do Chronophagia, mas era o que melhor poderíamos fazer naquele momento. Na parte artística, estávamos bem ensaiados, mas não tão afiados quanto na época da gravação do CD Chronophagia. As circunstâncias eram bem diferentes :
1) No bojo das 16 canções do Chronophagia, 13, eram da época do Sidharta, portanto, eu, Luiz Domingues; Rodrigo; e Marcello, as tocávamos desde 1998;
2) Em relação à safra do CD novo que estávamos gravando, apenas três estavam bastante preparadas para a gravação, por serem canções que estavam no set list dos shows.
3) Não tivemos muitos ensaios, porque ao contrário da fase do Chronophagia, nós havíamos engatado uma fase de shows e viagens, que inviabilizaram a existência de ensaios exaustivos.
Voltando ao estúdio, muitas vezes tínhamos que paralisar takes por conta de cabos e / ou conexões de patches, que estavam falhando ou dando ruídos inadmissíveis.



O "Kôlla" tinha que parar tudo, esquentar o ferro da solda e fazer emendas, reparos e coisas que num estúdio de maior qualidade, jamais aconteceria. Mas a impressão que tínhamos, era a de que aquele estúdio fora montado nos anos setenta, e jamais teve uma manutenção, mínima que fosse. Para o mundo brega que frequentava-o costumeiramente, não fazia nenhuma diferença, mas para gravar uma banda de Rock, onde o padrão de qualidade de áudio é fundamental, não reunia condições.



Resenhas misturadas sobre shows e o CD Chronophagia, que saíram em Sites da Internet, em 2001

E assim fomos gravando e enfrentando as adversidades, numa maratona contra o relógio, e contra a podridão reinante naquele ambiente...

Mesmo com todas as adversidades, gravamos todas as bases com relativa tranquilidade. Até músicas complexas, com características de Prog Rock, como "Terra de Minerais" e "Sendas Astrais", foram gravadas sem maiores dramas, em se considerando que as bases estavam sendo gravadas ao vivo. Quando a gravação encerrou-se, na madrugada de domingo para segunda, corríamos contra o relógio, pois o dono do estúdio, e os funcionários chegariam para o expediente, logo cedo. Mas na verdade, já estava amanhecendo e tentávamos aproveitar até o último segundo, gravando solos nos "overdubs" de guitarra, e teclados.

Porém o dono do estúdio chegou um pouco mais cedo do que previa-se, e foi hilário ver sua reação ao deparar-se com uma amplificador colocado num banheiro externo do estúdio, para aproveitar a acústica, devido aos azulejos, etc e tal. Fora esse espanto por ver uma maluquice, que jamais aconteceria na gravação de um disco brega com o qual estava acostumado a lidar, havia aquela enorme profusão de posters, e o aroma de "milhões" de incensos que queimamos naqueles quatro dias...

Foi hilário ver a expressão facial do sujeito, vendo aquele circo rocker montado no seu estabelecimento...
Então, encerramos a sessão e desmontamos tudo a toque de caixa, antes que os funcionários chegassem. Marcaríamos sessões posteriores para a gravação das vozes, e a mixagem, mas muitas coisas aconteceriam, e nós nunca mixaríamos o disco nesse estúdio, e convenhamos, ainda bem que não...

E esse estúdio tinha outros pormenores exóticos, além dos que eu já relatei. Não citarei nomes, para não causar constrangimentos, mas o fato é que havia vários personagens ali. A começar pelo dono, que era um ex-monge beneditino, e confesso que ex-padre eu já conhecia, mas ex-monge, era algo inusitado, devido ao fato de que geralmente para quem busca uma reclusão contemplativa, não há sentido voltar atrás, e buscar a reinserção na sociedade etc etc.

Outro personagem exótico, era o "vigia" do estabelecimento... que era na verdade, o único elemento que dormia no local, numa edícula sobre o estúdio. Sua função, além de prestar atenção nos ruídos estranhos da madrugada, que ameaçassem a integridade do estabelecimento, era também fazer o café dos funcionários e clientes.

Até aí, tudo bem, fora o fato do rapaz ser um travesti, e estar "montado" 24 h por dia...
Mas ali no ambiente de trabalho, não desmunhecava, apesar de estar vestido como uma mulher sensual; com saias curtíssimas e decote generoso; com direito a uma peruca feminina com cabelo enorme; maquiagem pesada etc. Talvez por orientação da direção (muito provavelmente), portava-se de maneira muito discreta, e todos chamavam-na pelo nome fictício, feminino. Contudo, quando o dono do estúdio queria repreendê-lo por alguma conduta inadequada, perdia a compostura e chamava-o pelo nome real, masculino, e isso causava um constrangimento geral, vendo a mocinha ficar furiosa pela bronca, e muito mais por ser chamada por um nome masculino, certamente.

Muitas vezes presenciamos broncas homéricas do dono, chamando a atenção do travesti, pelo fato do café estar impregnado com o odor de esmaltes fortes. O nome masculino da mocinha ecoava pelos corredores e ele / ela, rangia de raiva. Certa vez, nesse período em que gravitamos nesse estúdio, aconteceu uma coisa muito constrangedora. Era preciso levar uma fita ao estúdio imediatamente, no período noturno, onde possivelmente não havia mais expediente, e dessa forma, a esperança de que a tarefa fosse cumprida a contento, era a de entregá-la ao travesti. Lembro-me que parei o carro e pedi ao Samuel Wagner, nosso roadie, e que acompanhava-me nessa tarefa, que descesse e entregasse o material.

Vi-o tocando a campainha e demorando para aparecer alguém para atendê-lo. De repente, vi que ele aproximou-se da janela de um carro que estava estacionado, e conversando com uma mulher, entregou-lhe o material. Quando voltou ao meu carro, estava intrigado e perguntei-lhe : -"caramba, Samuel... para quem você entregou o material" ? Pois era o travesti / vigia / barista do estúdio, que estava namorando um rapaz dentro de um "Corcel II"...
E o que dizer dos clientes ?

Manolo Otero, astro hispânico dos boleros, já idoso, estava gravando um álbum nesse estúdio, nessa mesma época
 
Aspirantes a artista brega, formavam o grosso da clientela, mas também astros decadentes desse mundo, ou submundo, como queiram. Todavia, também era significativa a parcela de clientes sem pretensões musicais mais sérias, mas apenas interessados em gravar para satisfazer um desejo recôndito, ou mesmo presentear a progenitora, namorada etc. Para esse tipo de cliente, geralmente usavam a alcunha de "disco de dentista", para designar tal parcela de pessoas, geralmente profissionais liberais, interessados em gravar um CD, por hobby ou outro motivo diletante qualquer.

Bem, aspectos folclóricos a parte, o estúdio era o que tínhamos de melhor naquela ocasião, e portanto, tínhamos mais é que animarmo-nos com essa oportunidade, sem nenhum "Complexo de Pollyana", mas sendo apenas realistas. Encerrada a gravação das bases, que foi naquele espírito de correria para aproveitar o feriado de Corpus Christi de 2001, as sessões suplementares para gravar overdubs de solos e vocais, foram, logicamente mais espaçadas.

Como o aproveitamento da gravação das bases houvera tido um desempenho ótimo, com direito há alguns overdubs sendo adiantados, a necessidade de sessões suplementares, foi bastante reduzida, para a nossa sorte.




Entrevista conduzida pelo ótimo e hoje saudoso jornalista, Dum de Lucca para a Revista "Dynamite", nº 45, de junho de 2001.

Outro fator animador nesse aspecto, era que Marcello e Rodrigo estavam afiados para fazer suas partes adicionais de guitarra e teclados. Portanto, as sessões de overdubs desses instrumentos, foram bem rápidas e eficazes, também. Nesse ínterim, tínhamos enfim uma nova data de show pela frente.

O compromisso era na cidade de Santos, novamente no "Praia Sport Bar". Com um público de 150 pessoas, fizemos um bom show no dia 29 de junho de 2001.

Voltando à gravação, a rapidez com que estávamos gravando emperraria logo a seguir, e uma saída alternativa surgiria para resolver o imbróglio. Como o estúdio fazia muitas gravações de aspirantes a artistas no mundo brega, e os chamados "discos de dentista", também, o dono do estabelecimento propôs que pagássemos a dívida contraída pelas horas que usamos, com trabalho como músicos em gravações dessa natureza. Claro que aceitamos e a ideia inicial seria que eu e Rodrigo prestássemos tais serviços nesse sentido. Essa história já foi contada com detalhes no capítulo "Trabalhos Avulsos", quando contei a saga em gravar o disco de uma cantora chamada Regiane.

 
Uma pausa na cronologia da narrativa para retroagir um pouquinho.
Eis então, mais um apanhado básico das matérias que ainda falaram do álbum "Chronophagia".

1) Saiu no Site Wiplash, assinado por Marcos Cruz :

"Uma das coisas que mais me entristece, é quando ouço um novo trabalho de alguma banda 'das antigas', e constato que devido à ânsia de 'faturar' um pouco,  acabam embarcando em algum tipo de modismo, descaracterizando totalmente sua sonoridade; às vezes isso também ocorre quando os caras 'erram na mão', e acabam fazendo um trabalho muito experimentalista, resultando em algo não muito agradável aos ouvidos. E por mais paradoxal que possa parecer também, fico triste quando constato que a banda continua fazendo o mesmo 'arroz com feijão' de anos atrás, sem nenhum 'punch', apenas reciclando de forma burocrática sonoridades perdidas em outras eras, de modo a conservar seus velhos fãs (chato eu, não ?)...
Por isso foi uma grande surpresa quando ouvi este novo trabalho do Patrulha, que mesmo sem trazer absolutamente nada de novo, conseguiu fazer um disco que sem sombra de dúvida agradará a todos que gostem  de um bom Rockão 'das antigas', ora soando bem Rock'n Roll, ora como as típicas bandas de hardão setentistas, ora beirando o progressivo clássico, tipo 'Yes'. Aliás, a própria banda já deixa clara  suas influências no encarte, onde dedicam os temas à bandas/artistas como 'Humble Pie', 'Blind Faith', 'Grand Funk Railroad', 'Yes', 'Paul McCartney, e alguns brazucas ilustres como 'Mutantes', 'Arnaldo Dias Baptista", 'Som Nosso de Cada Dia', entre outros. Há deficiências ? Sim, claro que há, mas nada que afete de forma profunda o trabalho. Talvez a maior de todas seja o fato dos vocalistas às vezes aparentarem estar no limite de seu alcance vocal. Mas esta deficiência é totalmente encoberta pela competência com que cuidam dos arranjos. Marcello Schevano, além de tocar flauta, se reveza com Rodrigo Hid na guitarras, vocais e teclados. Luiz Domingues (ex-A Chave do Sol e ex-Lingua de Trapo),  cuida do baixo e a bateria continua a cargo de um dos fundadores do Patrulha, o legendário Rolando Castelo Junior, que tocou no Made in Brazil, além de ter participado do lendário 'Aeroblues', juntamente com Pappo, um famoso guitarrista argentino. Além de 15 temas próprios, uma releitura extremamente sensível de 'Sunshine', do mestre Arnaldo Dias Baptista, com a participação, com a participação especial de Manito, no sax. Dificilmente este trabalho atingirá  'disco de platina' , dificilmente será tocado nas rádios (com exceção de alguns poucos programas segmentados), dificilmente alguma faixa se tornará 'trilha sonora de novela global'...
Mas creio que o objetivo de Mr. Junior & Cia, não é este, e sim de sobreviver fazendo o que gostam - que é tocar Rock com muito prazer e competência. Portanto, se o leitor tiver dificuldade em encontrar este CD (afinal trata-se de um lançamento independente), ou quiser entrar em contato com a banda para shows etc, escreva para a Caixa postal 45367, São Paulo, CEP 04009-970). Vamos prestigiar estes que são um dos últimos representantes de uma raça em extinção - a dos Roqueiros co 'R' maísculo !

Long Live Patrulha !!!"

Marcos Cruz


Bem, como é do feitio do Marcos Cruz, em suas resenhas de discos e shows no Site "Wiplash", o texto é longo e recheado de impressões detalhadas sobre o assunto abordado. Particularmente acho essa liberdade de expressão sem limites de espaço, uma iniciativa excelente da parte dele. Nada tenho a considerar sobre o que ele disse. Apreciei bastante essa resenha, assim como todos da banda.

No Jornal "Ponto Final", que era distribuído gratuitamente para usuários de ônibus, das cidades da Região do ABC, a resenha escrita pelo jornalista Vladimir :

" Seguindo a mesma fórmula dos antigos sucessos, a banda Patrulha do Espaço, lança seu novo CD, 'Chronophagia', após passar mais de dez anos sem nenhuma novidade. Em 1997, eles lançaram uma coletânea com três CD's , reunindo os sucessos da banda, desde os anos setenta. O novo trabalho é independente e a produção ficou por conta do baterista Paulo Zinner. Quinze faixas, mais uma vinheta de bateria , estão muito bem produzidas, no estilo dos anos setenta. A maior parte das composições e das músicas deste CD, foram feitas pelos novos integrantes, Luiz Domingues, Rodrigo Hid e Marcello Schevano, além do precursor da Patrulha, Rolando Castello Junior.

Vale a pena conferir !"


Saiu no "Jornal da Liberdade", simpático semanário do bairro da Liberdade, centro de São Paulo :

"O Patrulha do Espaço volta ao cenário musical com um novo trabalho, para provar mais uma vez, que o brasileiro também sabe fazer Rock. E dos bons ! CD independente, ele vem assinado por Luiz Domingues, Rodrigo Hid e Marcello Schevano, os quais, juntamente com os outros integrantes do grupo, depositaram nele toda garra, vontade e dedicação, com a finalidade de reconquistarem público e crítica. Que as gravadoras fiquem atentas, pois eles tem a certeza de que esse retorno é apoteótico".

A despeito das partes elogiosas a enaltecer-nos, não dá para deixar de observar que o texto equivocou-se num ponto crucial !
Ao nominar os componentes da banda, citou apenas três, omitindo o Junior, justamente o membro  / fundador, e para piorar, deu a entender que haviam outros membros, talvez obscuros... ha ha ha...
Sem desmerecer o esforço em enaltecer-nos, deixo a pergunta : Onde esse jornalista estava com a cabeça quando escreveu essa resenha ?


E essa próxima, foi publicada num fanzine de Londrina / Paraná, chamado "Matéria Prima", assinada por um resenhista chamado Paulão "Rock'n Roll" :

"A Patrulha do Espaço foi a banda que Arnaldo Baptista comandou, quando saiu dos Mutantes. Logo em seguida, ele pulou, e a patrulha continuou. Existe uma caixa contendo 3 CD's com um encarte contando histórias verdadeiras e lendas misteriosas a respeito desta banda que consegue criar o melhor hard brasileiro. Coube a Rolando Castello Júnior a nobre missão de pilotar a Patrulha. "Chronophagia" é seu novo lançamento. Júnior reuniu a tropa de elite e construiu um álbum que resgata numa boa, a melhor musicalidade dos anos setenta. A Patrulha tem a receita certa para o hard progressivo, reativaram um velho Hammond e a flauta ácida, colocando em atividade 15 faixas inéditas e reeditando "Sunshine" do Arnaldo, com Manito no sax. A Patrulha mantém a fantasia intacta, alimentando os sobreviventes dos bons tempos e descobrindo para a nova geração, as raízes da nata do Rock".
Que pena que esse Paulão não escreve resenhas para órgãos de imprensa mainstream, não é mesmo ? A despeito de sua forma simples de escrever, os dados e a percepção do que era o álbum Chronophagia, e o significado dessa formação da Patrulha, foram captados com fidedignidade. Nada como ser do ramo...


Essa saiu na Revista "Rock Press" :

"Após anos de ausência da cena Rock nacional,  e depois da trindade de álbuns que cobriu suas formações entre 1978 e 1990,  Rolando Castello Junior, o supremo batera (um dos melhores do nosso país),  remonta a banda / mito e coloca no mercado um disco do mais puro Rock, sem sombra de dúvida.
Cada nova música das 16 contidas no disco, pratica uma singela homenagem às figuras do Rock mundial, sem vergonha de pagar mico, inspirando-se em características das próprias.
Como assim ?  Por exemplo, vejam a lista : Som Nosso de Cada Dia; Humble Pie, Blind Faith; Grand Funk; Luiz Carlini & Tutti-Frutti; Arnaldo Dias Baptista; Procol Harum; Yes; Mutantes; Led Zeppelin e Paul MCartney. O Patrulha mistura seu estilo ao de cada um dos agraciados, resultando em um álbum repleto de rockaços emocionantes. Para os amantes do Rock brasileiro praticado nos 70 e para os fãs do classic Rock, imperdível".


Excelente análise, realmente entendendo que a proposta era explícita em evocar raízes 1960 / 1970, sem medo de enfrentar o preconceito dos que são obcecados pela contemporaneidade. Na Revista da 89 Revista Rock, saiu assim a resenha :

"Após um período estacionado, o histórico grupo Patrulha do Espaço levanta voo e volta a sondar o universo do Rock'n Roll.
O disco começa com a progressiva "Sendo o Tudo e o Nada", e segue explorando outras fronteiras em "O Ritual"; "Retomada" e "Alma Mutante". "O Novo Sim" e as lisérgicas "Eu Nunca Existi" e "Céu Elétrico" já se tornaram clássicos do gênero. A fase "Arnaldo & Patrulha" é lembrada na regravação de "Sunshine" (com o sax de Manito, ex-Som Mosso de Cada Dia e Os Incríveis), e os Mutantes são homenageados na viajante "Nave Ave". As belas vozes e guitarras dos novatos Rodrigo e Marcello se encaixam harmoniosamente na swingada "Terra de Mutantes" e na Beatleniana "Sr. Barinsky". Enquanto  a experiência do baixista Luiz (ex-Lingua de Trapo e A Chave do Sol), e do baterista fundador Junior, ultrapassam a barreira do tempo em instrumentais perfeitas. "Chronophagia" é uma aula de Rock psicodélico anos 70, em pleno final de milênio".

Daniel Vaughan


Muito boa a resenha do jornalista Daniel Vaughan, que conheço pessoalmente, e sei que tem conhecimento enciclopédico do Rock, portanto, suas impressões tem muito fundamento, e se elogiou, isso muito honrou-nos e deixou-nos com o sentimento de dever cumprido. Já no "Rocker Magazine", o que disseram sobre o nosso disco foi o seguinte :

" Este CD é uma dádiva para aqueles que acreditam na existência do Rock'n Roll no Brasil. Chronophagia mostra a experiência, técnica e precisão de Rolando Castello Júnior, aliada ao baixo de Luiz Domingues, e a juventude e energia da dupla Rodrigo Hid e Marcello Schevano. São 16 faixas incluindo um solo de bateria. O CD abre com "Sendo o Tudo e o Nada", faixa com mais de 9 minutos, onde a banda flerta com o progressivo e mostra de cara que são músicos excepcionais.
Grandes composições , das quais vou destacar "Sr. Barinsky", com um belo trabalho de backing e um ótimo solo de Marcello.
A volta do Patrulha não poderia ser melhor : a alma dos anos 70 aliada à tecnologia do novo século".

Eduardo de Souza

Bem, mais uma resenha com observações muito pertinentes. A curiosa constatação de quanto mais longe do mainstream, mais preparados são os resenhistas, ou sendo bem realista, menos comprometidos com interesses escusos...
Na Revista "Cover Guitarra", n°69, de agosto de 2000, falaram o seguinte :

"Justamente quando as pessoas começam a acreditar que o futuro do Rock é a música eletrônica, ouvir guitarras e baixos vintage fazendo um som puro e virtuoso é um sopro de vida para os fãs de Led Zeppelin e Cia. E fazer um hard Rock progressivo com letras em português tem sido a proposta da Patrulha do Espaço que, desde 77, vem unindo elementos pouco comuns à música brasileira, com bom gosto e qualidade. Musicalmente, os excelentes timbres e solos da dupla de guitarras e Rodrigo Hid e Marcello Schevano são dignos de nota. Vale conferir as viagens na pesada "O Pote de Pokst" e a maravilhosa faixa de abertura, a quase Genesis, "Sendo Tudo e o Nada", bem como o riff matador de "Ser" e os solos alucinantes de "Sr. Barinsky".

Viva a Patrulha !"


R.V.

Não lembro-me mesmo quem é o jornalista que assinou só com as iniciais. Mas gostei de sua análise fidedigna do trabalho, e não posso deixar de observar que a fina ironia com a qual alfinetou os apressadinhos de plantão, que decretavam o triunfo final da dita música eletrônica, em pleno ano 2000, soa hoje (2016), como uma verdade simples e cristalina. Cadê a vitória esmagadora da música eletrônica ?  Só se for nas boites gays, onde costuma agradar os seus alegres aficionados...


Nunca foi meu objetivo de carreira ser "reconhecido" como baixista; buscar elogios; enaltecimento individual etc etc. Desde o primeiro instante de minha carreira, nos primórdios de minha primeira banda, o Boca do Céu, minha meta sempre foi trabalhar coletivamente, jamais individualmente.

Por isso, nunca quis ter matérias em revistas especializadas, como fator de autopromoção individual. Mas claro, se tal tipo de oportunidade gerasse um dividendo para a minha banda, seja lá em qual estivesse, logicamente que não recusar-me-ia a conceder entrevista. Foi o que aconteceu na revista "Cover Baixo", especializada para baixistas, em sua edição de agosto de 2000.
Aceitei o convite para ser entrevistado, e por telefone, respondi uma série de perguntas do jornalista de tal veículo, com o claro objetivo de agregar mais exposição para a Patrulha do Espaço, e consequentemente de nosso recém lançado CD. Eis a íntegra da matéria :



"Luiz Domingues - Palhetada Rock na Patrulha"

Quando se pensa em contrabaixistas brasileiros, a primeira imagem que vem à cabeça de muita gente é a de alguém tocando com muito swing e slap, como fazem Pixinga e Arhur Maia, por exemplo. No entanto, desde 76, Luiz Domingues - anteriormente conhecido como Tigueis - vem colocando os baixistas de Rock nacionais num patamar de reconhecimento nacional. Tocando agora com a lendária Patrulha do Espaço, Luiz une o hard Rock tradicional dos anos 60 e 70, com pitadas de progressivo. O resultado pode ser conferido no novo álbum da banda, Chronophagia, gravado no início deste ano. "É um disco bem eclético, no qual mesclamos todas as nossas influências", afirma Luiz. "Tanto é que dedicamos cada faixa a uma banda que gostamos, como Yes e Led Zeppelin". Os fãs do som "gordo" que Luiz extrai palhetando seus baixos não ficarão decepcionados : "Meu som sofreu muitas influências, mas sempre procurei ter uma característica própria, que se dá enfatizando as sonoridades médias e graves". Luiz ainda garante que não vê problema nenhum em ser um baixista roqueiro no Brasil : "Sempre assumi essa postura, com todos os prós e os contras". E digo mais : os músicos brasileiros tem uma facilidade muito grande para unir o Rock com o Funk, e essa música agressiva, mas com groove, vai estourar no futuro".


Bem, é preciso salientar que nesse mundo específico de baixistas, existe muito preconceito em diversos aspectos. O primeiro deles, é o do uso da palheta, que para os radicais de plantão, é uma heresia.
Uma certa "estrelona" do mundo dos virtuoses do baixo, falou mal de minha  pessoa, sem ao menos conhecer-me, por conta dessa imbecilidade. Um ex-aluno meu disse ter ido a um workshop desse "maioral", e num dado instante, alguém formulou uma pergunta, citando-me como exemplo. Teria sido algo do tipo : "fulano, o que você pensa de baixistas que usam palheta, como o Luiz Domingues, por exemplo" ?  Segundo contaram-me, ele ironizou-me, e foi bem deselegante, respondendo que eu "não toco nada", e isso explicava o que ele pensava sobre "palheteiros".

Está bem, então... não importo-me em "não tocar nada", mas falar isso sobre quem usa palheta, implica citar subliminarmente um músico como Chris Squire, por exemplo. E claro, é de uma imbecilidade atroz... só para citar um baixista que ele chama pejorativamente de "palheteiro". Não faço parte desse mundo, definitivamente. Toco baixo de 4 cordas, vintage; com encordoamento 040; uso palheta; odeio captação ativa; amplificadores Hartke e similares desse naipe, desenhados para serem usados por baixistas que usam "baixos" de cinco ou seis cordas, principalmente. Estou fora !!

Sou Rocker, e não tenho vergonha alguma de assumir-me nessa condição. Claro, no cômputo geral, achei a entrevista bacana, e certamente que foi bastante benéfica para engrossar os esforços de divulgação pró Patrulha e novo CD. Dois anos depois, essa revista procurar-me-ia novamente e desta feita, lançou uma matéria ainda maior.


Um mês depois, a revista "Cover Guitarra" lançou matéria com os dois guitarristas da Patrulha, seguindo a tendência iniciada comigo, um mês antes, na "Cover Baixo".

"Rodrigo Hill & Marcelo Schevano - Patrulha Setentista

"Nosso show é uma volta aos anos 70". É assim que Rodrigo Hid e Marcelo Schevano  definem as apresentações da Patrulha do Espaço, antológica banda fundada pelo ex-Mutante Arnaldo Dias Baptista e pelo batera Júnior, que vem mantendo as tradições vintage num Rock 1n Roll cada vez mais assolado pela música eletrônica. "Nós sempre escutamos um som mais antigo e só nos sentimos confortáveis tocando  instrumentos daquela época", afirma Marcelo. "No Brasil, há o mito que diz que uma banda só é boa quando está "antenada" com as últimas tendências, usando equipamentos ultra-modernos. Besteira ! No exterior, existe uma série de bandas especializadas em som vintage, acrescenta Rodrigo. Essa falta de tradicionalismo no país também acarretou muitas dificuldades para os músicos conseguirem os instrumentos. "Você vai em uma loja e o vendedor nunca ouviu falar num pedal Ecoplex, por exemplo", afirma Rodrigo. "Achar instrumentos vintage no Brasil, é muito complicado. Você tem que ter dinheiro e garimpar muito, inclusive no interior de outros estados. Conheço até uma loja especializada em garimpar órgãos Hammond em pequenas igrejas espalhadas pelo país". Um dos detalhes mais interessantes de Chronophagia, o novo disco da banda, é o fato de que cada música é dedicada a grandes nomes, como Yes, Grand Funk Railroad e Paul McCartney. "Isso surgiu durante a mixagem, já que sempre que alguém ouvia uma faixa, imediatamente se lembrava de algum músico ou banda. Decidimos então, prestar a devida homenagem não só a grandes nomes, mas também a figuras menos conhecidas, como o "Som Nosso de Cada Dia" (ótima banda brasileira dos anos 70), diz Rodrigo. Marcelo começou suas investidas pelo universo guitarrístico  aos quatorze anos, fazendo aulas particulares que duraram apenas oito meses. "Não aguentei a rotina de aprender e decorar escalas. O meu negócio era compor e fazer os solos de meu próprio jeito". Já Rodrigo iniciou seu aprendizado no instrumento com seis anos, influenciado por uma longa lista de músicos na família. "estudei muito violão clássico e jazz, mas sempre soube que o meu negócio era o Rock'n Roll. Então, larguei os estudos e passei a tirar músicas de ouvido, aprendendo com elas. Além da guitarra, ambos também tocam piano e orgão - Marcelo também é hábil na flauta transversal. "Nós simplesmente compramos os instrumentos e aprendemos a tocar na "raça", de modo totalmente autodidata", confessa Marcello. "Valorizamos muito as músicas que compomos, e o processo de composição é muitas vezes facilitado pelo fato de você tocar mais de m instrumento. Você pode, ás vezes, expressar melhor algo que está em sua cabeça no piano do que na guitarra, por exemplo", conta Rodrigo. "Você não tem que ser um virtuose em cada um deles, mas simplesmente saber colocar suas ideias"

RV


Não sei exatamente quem é o jornalista que assinou só com as iniciais "RV", mas creio que fez um bom apanhado do que os dois guitarristas da Patrulha representavam para a banda. Sobre as respostas que deram, nota-se um pouco de imaturidade de ambos em algumas colocações, mas dou o gigantesco desconto de que eram absolutamente jovens nessa ocasião.

Pelo contrário, relevo tudo, e prefiro dizer que quando saiu essa matéria, além de comemorar o estupendo benefício que trazia à banda, tal reconhecimento do talento dos dois, enchia-me de orgulho. Mais que isso, tal tipo de manifestação pública, era o triunfo de uma percepção que eu tinha desde 1998 sobre o talento deles, e do quanto seriam enaltecidos no futuro, e de certa forma, ler uma matéria desse teor publicada em 2000, dava-me a impressão de que tal reconhecimento estava chegando até que rápido demais, pois em apenas dois anos antes, eram adolescentes imberbes tocando comigo e José Luiz Dinola, no Sidharta, somente em estúdios de ensaio, e agora, estavam numa revista importante de guitarristas. Quanto ao teor da matéria, creio que o jornalista deixou-os a vontade para expressarem-se livremente, sem pressioná-los com perguntas técnicas ou pior ainda, capciosas.
A única ressalva que faço, foi na diagramação, onde o nome do Marcello foi sempre grafado com um "L" apenas e pior, na manchete em negrito, o sobrenome do Rodrigo foi grafado como "Hill" e não "Hid". Um erro crasso da revista, mas que gerou uma série de piadas internas que custaram a cessar. Por um bom tempo, as brincadeiras com o sobrenome errado, "Hill", ecoaram entre nós...



Nesse ínterim, além de resenhas específicas sobre o CD Chronophagia, fizemos boas entrevistas para jornais interioranos, e uma para a Revista Rock Brigade. Mais uma resenha ainda sairia falando do álbum, já no avançar de 2001. Era natural que um novo álbum repercutisse por meses após o seu lançamento, pois a morosidade da imprensa escrita naquela época, numa fase pré massificação da internet, era de praxe. Muitas vezes corríamos às redações no afã de provocar uma avalanche de matérias, mas o resultado só começava bem além do que esperávamos e de forma pulverizada. Eis a sintética resenha publicada na revista "Batera & Percussão", especializada nesse universo de instrumentistas :

"É uma grata surpresa ouvir esse CD onde apesar da nova formação, a banda conseguiu manter intacto o espírito setentista do som. É isso  que o leitor interessado encontrará : Rock'n Roll de primeiríssima qualidade que lembre bastante as bandas nacionais daquela época, como o Made in Brazil, por exemplo. O destaque fica, é óbvio, para o grande batera, Rolando Castello Junior, que sempre impressionou, desde os tempos em que participava do já citado MIB, Inox, entre outras e felizmente encontra-se em excelente forma".
 

João Gobo

Bem, o tal "João Gobo", que desconfio ser um pseudônimo de um jornalista famoso e que não quis assinar diretamente por alguma questão pessoal, falou bem, mas puxou a sardinha para a sua clientela da revista. A despeito de também achar o Junior excelente baterista e ter feito um trabalho magnífico nesse disco, não acho que seja o "destaque óbvio", como assinalou o resenhista.

Penso que o disco é multifacetado e tem a colaboração dos seus quatro membros em igualdade de condições, e se assim não o fosse, ficaria limitado como uma mera peça a serviço de um só instrumentista, ainda que ele fosse, e é, excelente. E não é o caso de Chronophagia, definitivamente, pois é um álbum com grandes canções, muitas nuances de cada um dos membros, conceito e energia. Bem, não trata-se de uma queixa, mas apenas uma constatação, de minha parte. Muitas matérias sobre shows e entrevistas sairiam nos meses vindouros, e ainda falando sobre o Chronophagia, teríamos mais resenhas em abril de 2001.

Em abril de 2001, a Revista "Guitar Player" também abordou os dois guitarristas da Patrulha, entrevistando-os, e de quebra falando bastante do CD Chronophagia.

Eis a íntegra dessa matéria :

"Patrulha do Espaço - Pegada

'Gostamos de tudo o que é vintage. Aliás, nós somos vintage', diz Marcello Schevano.  É algo natural que está no nosso som, no nosso equipamento, na maneira como a gente se veste. É a nossa vida', completa Rodrigo Hid. O nome Patrulha do Espaço talvez o leve a imaginar uma banda futurista e seus integrantes, vestidos em roupas prateadas, produzindo um som no estilo das trilhas sonoras de filmes de ficção científica. No entanto, tudo na Patrulha do Espaço é vintage. Músicas, letras, timbres, equipamentos e visual. A banda, que já possui em seu currículo oito LP's gravados, teve há dois anos, 75% de sua formação reformulada, e consta agora com os guitarristas Marcello Schevano e Rodrigo Hid, e o baixista Luiz Domingues (ex-A Chave do Sol). Da formação anterior, permaneceu Rolando Castello Junior. Mesmo com a inclusão dos novos membros, a sonoridade da banda permanece com sua característica própria, sem perder a referência dos bons trabalhos do passado. No mais recente CD da banda, Chronophagia, as tarefas de guitarra rítmica e solo, vocais e teclados são divididos pelos dois guitarristas. 'Somos amigos de infância e tocamos juntos há muito tempo, por isso temos um bom entrosamento musical', diz Marcello. Ambos são multi instrumentistas autodidatas, e dividem também as partes dos vocais e teclados. Por gostar muito de composição, Marcello decidiu aprender outros instrumentos. Hoje, também toca flauta transversal.
'O músico que toca vários instrumentos tem mais facilidade para compor, pois consegue concretizar melhor suas ideias', diz Rodrigo. O CD foi gravado ao vivo no Estúdio Camerati, em fita de rolo de 1 polegada, em 24 canais. 'A mixagem também foi analógica. Tudo foi gravado microfonado , nada direto', conta Marcello. 'Muitas coisas  foram improvisadas, pois a banda tem a característica de fazer muitas jams e deixar as coisas bem livres'. Marcello usou uma Gibson SG e uma Fender Stratocaster, e Rodrigo, uma Gibson Les Paul Custom Black Beauty 1973 e uma Fender Stratocaster 1990, modelo Eric Clapton. As guitarras foram plugadas em um Fender the Twin; um Marshall JCM 900; Um Fender Bandmaster e um Meteoro MHA 100. De efeitos, Marcello usou um Cry Baby e um Roland Space Echo; e Rodrigo empregou um Wah Vox, e um pedal super phaser da Boss. Os violões foram Yamaha de 6 e 12 cordas e um Giannini de 12 cordas, dos anos 70. O Patrulha do Espaço conta com dois bons guitarristas, mas sem o conceito de virtuosismo individual. 'O que me chama a atenção numa música é uma guitarra bem aplicada. Gosto de músicas que tem canção, como as do Paul McCartney, com solos do George Harrison, que são simples e embelezam a música', declara Marcello. 'Outro exemplo é o solo do Carlini em 'Ovelha Negra'. É simples, mas é perfeito'."

Vera Kikuti


Boa matéria, sem dúvida. Parece que em relação à matéria da revista concorrente, "Cover Guitarra", os dois meninos deram uma amadurecida, mas na verdade, houve um tempo muito pequeno entre uma entrevista e outra. Bom para eles e para a Patrulha que ganhava mais uma matéria bacana nas bancas de jornais e revistas, e com os dois mostrando-se mais preparados, desta feita. Claro, por tratar-se de uma revista técnica, e destinada à guitarristas e aspirantes a, houve uma descrição de guitarras, violões, amplificadores e pedais usados nas gravações do álbum, questão pertinente para os apreciadores de técnicas e timbres, produção de áudio etc.


Na revista Dynamite, de abril de 2001, a resenha foi publicada, com esse teor :

"Janeiro de 1983, Ginásio do Ibirapuera : Lá estava o Patrulha do Espaço abrindo pro Van Halen. Esse foi apenas um dos voos do Patrulha pelo cosmos do Rock' n Roll. Agora,  o Patrulha almeja voos mais altos e sob o comando de Rolando Castello Junior (bateria - o único  da formação original), vem com esse novo trabalho mostrar que o Rock nacional continua vivo. Junto com com o competente multi-instrumentista evocal Marcello Schevano, Luiz Domingues (baixo,  Ex- A Chave do Sol), e Rodrigo Hid (guitarra, piano e Hammond). Chronophagia  é um CD que não pode faltar para quem curte ou vive o Rock. Destaque para 'Ser', 'Alma Mutante' e 'O Pote de Pokst'."

SK


Quase um depoimento de fã, essa resenha foi positiva, apesar de bem sintética. Infelizmente não faço ideia de quem seja o resenhista, devido ao uso lacônico de iniciais na sua assinatura.

Em maio de 2001, outra resenha, desta feita num fanzine chamado "Megarock", editado por um rapaz chamado Fernando Cardoso, e oriundo do ABC paulista, mas não lembro-me exatamente de qual cidade daquela região.

"Mantendo o fôlego e o estilo, o Patrulha do Espaço vem ao longo dos tempos tentando manter as suas atividades, sempre procurando produzir um trabalho de alta qualidade, e o Chronophagia é uma amostra disso. Este álbum é um Hard Rock bem no estilo dos anos 70, com peso moderado e bastante ritmo, onde a produção ficou a cargo do Paulo Zinner (Golpe de Estado). De uma maneira geral, as músicas são criativas e virtuosas, tocadas por músicos de talento notável. Merece destaque também a parte gráfica do álbum,com belas tonalidades de cores, além do visual gráfico. O Patrulha do Espaço é um exemplo de persistência, de um grupo que trabalha muito para conseguir os seus objetivos."

Bem, como geralmente acontece entre resenhadores amadores de fanzines, a sinceridade decorrente pelo fato de não fazerem parte de grupos corporativos e com comprometimentos com estéticas ou questões obscuras, é nítida. Falando o que pensa e sem preocupação em estar "fechado" num paradigma de eleger hype e modismos trôpegos, faz jornalismo melhor que muitos profissionais.


Voltando a falar da cronologia, o próximo compromisso foi um convite de uma casa noturna tradicional do bairro do Bexiga, próximo ao centro de São Paulo. Tratava-se do "Café Aurora", casa que existia há muitos anos na Rua 13 de maio, e que costumava privilegiar uma programação de bandas cover, predominantemente.
Mas como o convite partiu da casa, era óbvio que haveria um cuidado especial em produzir uma noite para o som autoral e dessa forma, aceitamos o convite. Ainda por cima, haveria a boa companhia dos amigos do "Baranga", portanto, no mínimo, seria uma noitada de Rock, agradável. Isso ocorreu no dia 26 de julho de 2001 e 120 pessoas foram computadas na plateia. 

Enquanto a gravação do novo álbum encerrava-se, um convite para fazer um programa de TV surgiu, mas vale a pena estender-me um pouco nele, pois rendeu história. Como foi muito comum nessa fase da Patrulha, foram raros os programas de TV aberta ou mesmo paga, em que participamos. As raras oportunidades que tivemos, foram proporcionadas por programas obscuros de TV's Comunitárias e / ou universitárias, com pouca visibilidade, infelizmente. E quando surgiam, é claro que os aceitávamos, de bom grado, pois a boa vontade expressa ao formular o convite, não poderia ser desprezada de forma alguma. Foi o caso desse convite que recebemos de um grupo de estudantes universitários, que produziam um programa, como atividade curricular de seu curso de Rádio e TV, numa universidade privada de uma cidade do Grande ABC. Era a turma de estudantes de Rádio e TV da Universidade Metodista, de São Bernardo do Campo, cidade da região do ABC paulista.

O convite surgiu através de uma amiga do nosso roadie, Samuel Wagner, chamada Rosângela. Ela não era estudante desse curso, mas conhecia a turma de Rádio e TV, e sugeriu a Patrulha, exatamente pela proximidade de conhecer o Samuca e saber que o contato seria fácil, nesses termos. A ideia seria gravar um especial de uma hora de duração, com a banda tocando ao vivo nos estúdios da Universidade, e claro, com direito a uma entrevista falando do trabalho, etc etc. Seria sem cachet, evidentemente, mas a estrutura da universidade foi-nos oferecida, e pelo menos a logística estava garantida, com a cessão de vans para providenciar o transporte do equipamento, e da banda. OK, estava aceito e assim, no dia 10 de agosto de 2001, dirigimo-nos ao campus da universidade, em Rudge Ramos, bairro daquela cidade, que faz divisa com São Paulo.

Chegando ao campus, verificamos com pesar que o estúdio de TV dos estudantes do curso de Rádio e TV, ficava no quarto andar de um prédio, sem a existência de um elevador sequer. Ora, diante dessa escadaria massacrante, e do fluxo gigantesco de estudantes subindo e descendo pelos andares, percebemos que nossos roadies esgotar-se-iam nessa tarefa, e pior, essa logística atrasaria demais o trabalho de montagem do equipamento, e consequente início dos trabalhos de gravação do programa.

Então, mais uma vez contando com o poder da improvisação e camaradagem, alguns alunos envolvidos nessa produção, dispuseram-se a ajudar, num ritmo de mutirão, pura e simplesmente...
Conseguindo assim, escalar os quatro andares com aquela parafernália toda, incluso o órgão Hammond, que demandava a presença de no mínimo, quatro homens fortes para carregá-lo.
Claro, muita gente caiu na real quando viu o tamanho do equipamento, pois talvez alguns desavisados, principalmente do corpo docente da instituição, deviam ter imaginado a presença de uma banda despojada, de garotos de bermudas, sem essa preocupação com a qualidade sonora etc etc.

Começamos então a montar tudo, e nesse ínterim, acompanhei uma conversa em off de uma professora envolvida na produção do programa, com o técnico de som, preocupada, vendo que o áudio não poderia sair mal, com uma banda profissional desse nível. Era óbvio que estava mesmo surpreendida, pois esperavam uma banda amadora, formada por alunos ou conhecidos dos mesmos, mas com um equipamento mais simples e certamente, completamente despojada. Diante disso, era compreensível que ficasse preocupada, ao ver os alunos sob sua responsabilidade, intimidados com uma banda com história. De fato, dava para perceber que estavam nervosos, principalmente a garota que seria a apresentadora.
Percebemos que andava para lá e para cá, com a ficha de informações e perguntas na mão e tentando decorar alguns tópicos.
Aliás, esse procedimento é comum entre profissionais de jornalismo televisivo, já vi repórter tarimbada fazendo isso, portanto, a professora ensinara corretamente a técnica, mas a garota era só uma estudante, chamada Alessandra Leite, bem novinha e estava nitidamente intimidada com a nossa presença. Normal, ninguém nasce sabendo...

E na medida do possível, nós solidarizamo-nos com ela, pois tratamos de quebrar o gelo, dando-lhe suporte nos momentos antes da gravação iniciar-se, enfim. Haveria também um pequeno público presente, que foi acomodado numa pequena arquibancada dentro do estúdio. De última hora, o Samuca avisara alguns amigos seus, e que misturaram-se a alunos. Foi bem legal essa participação, trazendo um pouco de calor humano, fundamental para soltarmo-nos um pouco mais, pois é sempre intimidante tocar em estúdio de TV, só com a presença de técnicos.

O programa chamava-se "Página Aberta", e era exibido no canal comunitário da cidade de São Paulo e também num similar da região do ABC. Infelizmente, a audiência era perto do zero, mas não podíamos e não desprezamos a oportunidade, sem dúvida.
Tocamos diversas músicas, e uma conversa foi intercalada em trechos. O programa foi dividido em dois blocos, e exibido em duas datas de agosto, com meia hora cada um. A qualidade sonora da mixagem televisiva surpreendeu-nos, até, quando o vimos no ar, dias depois.

Uma postagem no You Tube, foi feita anos atrás, de um trecho desse programa, mas dando o credito errado, dizendo ser um programa da TV Cultura. Não é verdade, e por isso deixei um comentário na página, fazendo a correção. A iluminação deixou a desejar, mas acho que por falta de mais recursos. De fato, é um vídeo um tanto quanto escuro, em se considerando ter sido feito num estúdio de TV, não 100% profissional, mas em termos experimentais e didáticos, bem aparelhado. Essa postagem que citei, onde tocamos a nossa versão para "Ando Meio Desligado", dos Mutantes, obteve muitos "views". Claro que o chamariz por ser uma música famosa dos "Mutantes" pesa, mas creio que a nossa performance tem seu valor, ainda mais pelo improviso que fazíamos no meio da canção, com direito à citação de "In-a-Gadda-da Vidda", do Iron Butterfly...



O vídeo de "Ando Meio Desligado", dessa citada aparição no programa "Página Aberta", produção dos alunos do curso de Rádio e TV da Universidade Metodista, de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Exibido na TV Comunitária de São Paulo, em agosto de 2001.
http://www.youtube.com/watch?v=GPbNby6HyCo O Link para assistir no You Tube




O Link para assistir no You Tube



http://www.youtube.com/watch?v=UYzqmDaqkgc
O Link para assistir no You Tube


Tocamos outras músicas nesse dia, mas os vídeos que um fã / amigo, e que teve curta participação como roadie da banda em 2000, (Rogério André), disponibilizou no You Tube, são esses anteriormente citados. O programa era obscuro, e evidentemente que teve audiência quase zero na época de sua exibição. A despeito da qualidade de imagem ser precária, pela falta de recursos de iluminação melhores no estúdio daquela universidade, claro que foi válido participar. Uma pena, pois a performance da banda foi boa, com pouquíssimos erros e isso deve ser creditado ao fato de que estávamos bem azeitados pela frequência boa de shows que fazíamos.

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário