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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 11 - Véu do Amanhã - Por Luiz Domingues

Após o show no Centro Cultural São Paulo, contabilizamos mais matérias de jornais e revistas contendo resenhas do novo disco, ".ComPacto", além de entrevistas com a banda, e também individualizadas com seus componentes, principalmente em fanzines e revistas especializadas para músicos. Uma longa brecha na agenda deixou-nos fora de combate entre agosto e novembro, portanto, um hiato raro e incômodo, mas além das matérias saindo na imprensa escrita tradicional, outros fatos ocorreram. O primeiro e que achamos até estranho pela deferência pouco usual, veio da MTV...

Falo isso pelo óbvio, ou seja, a MTV Brasil, que nascera em 1990 e nunca fora simpática ao Rock vintage, a não ser em manifestações isoladas e perpetradas por fatos isolados e graças ao empenho de poucos abnegados rockers ali infiltrados, casos de Gastão Moreira e Fabio Massari, e de certa forma, Kid Vinil; Luiz "Thunderbird", e Edgard Piccoli. Os demais "DJ's" eram absolutamente desconectados com a música, principalmente as garotas, que eram selecionadas por serem bonitas, e terem vida profissional pregressa como modelos e atrizes, ou aspirantes a. Portanto, nunca esperávamos ter alguma exposição ali naquela emissora, que dizia-se "especializada" em música, mas que na prática, tinha uma linha de atuação bem equivocada sob muitos aspectos.

Principalmente se levarmos em contra que se nos seus primeiros anos ainda podia-se dizer que a MTV priorizava a música, ainda que com mentalidade decepcionante, a partir da metade dos anos noventa, a situação piorou ainda mais, pois a emissora começou a adotar postura popularesca, abrindo caminho para o mundo brega da música, e paralelamente trazendo elementos alienantes de entretenimento, mediante programas baseados em "games"; gincanas infantojuvenis e programinhas eróticos, reduzindo a inteligência que ali existia, e era pouca, ao patamar zero, e muitas vezes, abaixo de. Dessa forma, não esperávamos nada daquela emissora, e nunca preocupávamo-nos em enviar-lhes release sobre agenda de shows, tampouco lançamentos de discos.

Contudo, tínhamos um aliado na redação da Revista da MTV, tratando-se de um abnegado jornalista chamado Daniel Vaughan, que era aficionado de Classic Rock, e reconhecia em nós, o valor pelo resgate que estávamos promovendo a partir do lançamento do CD "Chronophagia". Portanto, mesmo não sendo uma voz forte naquela redação, que tinha a mentalidade parecida com redações de órgãos mainstream com Folha de São Paulo e Revista Bizz, ou seja, com um comprometimento ainda que velado com o manifesto Punk de 1977, como modelo editorial a ser seguido.

Mesmo assim, não sendo uma voz potente a confrontar a opinião reinante, Vaughan esforçava-se para derrubar tais paradigmas, e graças aos seus esforços, nosso material promocional do CD ".ComPacto" foi parar na redação do Jornal da MTV, um dos últimos programas da emissora que falava de música, o que chegava a ser irônico se considerarmos que a MTV nascera para ser a "Music Television"...
E quem apresentava o jornal diário, que tratava de notícias do mundo da música, era o "DJ", Edgard Piccoli, um radialista que eu já conhecia desde os anos noventa quando este fora locutor da emissora 89 FM, e onde minha banda nessa década, o Pitbulls on Crack, tanto interagiu. Aliás, lembro-me do Edgard até apresentando show do Pitbulls ao vivo, como mestre de cerimônia de um festival em que participamos no Ginásio do Ibirapuera, em 1994.

VJ da MTV nos anos noventa e início dos 2000, Edgard Piccoli

Bem, claro que ficamos muito contentes em ver a capa do nosso disco exposta no "Jornal da MTV", e com Edgard falando bem do lançamento, e com direito até a ouvir trechos do disco ao vivo, tecendo breves comentários. Em setembro, fomos surpreendidos novamente, quando recebemos um telefonema da MTV, solicitando uma entrevista. Ora, será que as coisas estavam mudando, finalmente ?

Então, uma equipe de reportagem dessa emissora, encostou sua viatura na porta da residência do Junior, na tarde de um dia útil de setembro de 2003, e filmou uma entrevista bastante digna, e que na edição final, mesclou com imagens da banda através de fotos de fases e formações passadas, além de capas de discos lançados na carreira. Bem, claro que apreciamos e agradecemos a oportunidade...

Eis abaixo a reportagem / entrevista com a Patrulha do Espaço, no Jornal da MTV :


Eis o Link para assistir no YouTube :
https://www.youtube.com/watch?v=ZLufcw1lzD8 

Entre julho e setembro de 2003, matérias; entrevistas e resenhas do novo álbum e sobre shows, foram saindo em várias publicações.
Eis algumas delas com seu teor, e os respectivos comentários de minha parte.


  

1) Dynamite  - Nº 66  -  Julho 2003



"São Paulo City, é a velha história, primeira frase do novo álbum desse veteraníssimo grupo paulistano, aplica-se também ao próprio Patrulha, só que no melhor sentido. Sempre foi fiel ao Hard Rock desde seu surgimento nos idos de 1976, o Patrulha nem sempre conseguiu traduzir em gravações seu grande potencial, prejudicado às vezes por uma produção abaixo da merecida, outras por uso excessivo de clichês do estilo. Mas o melhor disco do grupo talvez seja esse novo. Sonoridade, execução, melodias e arranjos, tudo foi bem cuidado e merece atenção. A embalagem, imitando um velho e bom compacto de vinil (e motivando o trocadilho do título que une o passado ao presente), é apenas um detalhe a mais".



AMJ



Bem, não sei exatamente quem é o resenhista, pois não decifrei o significado das suas iniciais. Mas digo que apreciei a sinceridade e não tenho nenhum problema em absorver uma crítica não muito favorável, desde que seja plausível, com argumentação fidedigna e cunhada no espírito construtivo. E foi exatamente o que esse rapaz fez ao elaborar sua crítica. De fato, a carreira da Patrulha foi permeada pelas dificuldades em todos os sentidos e no quesito, gravações de álbuns, isso foi gritante e estigmatizou-a com certeza. Nesse caso, o jornalista teve razão e não cabe relevar sobre as dificuldades da banda em ter recursos para gravar em condições melhores etc etc. Sobre abusar de clichês, e este ".Com Pacto" ser o melhor álbum, é opinião pessoal dele, e não cabe contra argumentação; cabe correção no entanto, a data por ele mencionada como a da fundação da banda, mas tratou-se de um mero lapso, sem problemas. Foi em 1977, e não 1976.


 
2) MTV - Nº 28 - Agosto 2003

"Nos anos 70, a banda acompanhou o mestre Arnaldo Baptista e depois alçou um brilhante voo solo. Aqui, eles continuam com uma nova formação comandada pelo batera Junior".

Não está assinado, mas eu tenho a quase certeza de que é obra do jornalista Daniel Vaughan, o único dentro daquela redação que dignar-se-ia a escrever sobre uma banda não comprometida com a estética do Pós-Punk e seus bisnetos dos anos 2000, os indefectíveis "indies" ...
Bem, sem espaço para uma análise como ele certamente gostaria de escrever, aqui fez uma breve nota, ao estilo "twitter", com poucos caracteres. Mas louvo a sua extrema boa vontade em sempre cavar espaços para nós, tanto na revista, quanto na MTV propriamente dita.


 
3) Comando Rock - N° 1 - Agosto 2003

Nessa entrevista com o Junior, nenhuma pergunta fora do esperado foi feita pela jornalista Luiza de Carvalho, mas não posso deixar de achar curioso que seja uma rara entrevista onde a minha pessoa em específica, tenha sido ignorada. Não trata-se de reclamação, isso nem aborreceu-me na época e muito menos hoje em dia, 2016, porém, achei inusitado esse fato, pois a moça simplesmente não citou-me, falando do Junior, Rodrigo e Marcello, apenas.




4) Roadie Crew  -  Nº 5 - Julho 2003

 "Se você quer saber um pouco sobre o desenvolvimento do Rock no Brasil, pode começar escutando as bandas Patrulha do Espaço e Made in Brazil. Como aqui se trata de um novo lançamento do Patrulha, vamos ao que interessa. A banda foi fundada em meados de 1977 por Arnaldo Dias Baptista ( Mutantes ) e, além de outros fatos marcantes, fez abertura para o Van Halen no Brasil, em 1983.
Após a saída de Arnaldo Baptista, o Patrulha do Espaço teve como figura central o mestre e baterista Rolando Castello Junior (Made in Brazil; Aeroblues; Inox, e El Tri), e atualmente com Junior, Luiz Domingues no baixo e vocal (Ex-A Chave do Sol; Pitbulls on Crack e Língua de Trapo); e os jovens Rodrigo Hid (guitarra; vocal, piano; Hammond e Moog) e Marcello Schevano (guitarra; vocal, Hammond;piano e flauta). .ComPacto mostra um Rock and Roll bem forte (a la Jimi Hendrix, Cream, The Who, James Gang, Grand Funk), com guitarras distorcidas, toques do Rock Progressivo e uma série de improvisos de Jazz, notadamente pelas partes criativas de mini solos de bateria do mestre Junior. Mas não é só.
O som ainda traz guitarras suingadas, solos com muito feeling, um baixo pra lá de preciso e versátil, e vocais bem encaixados, cheios de dobras e coros. Outra coisa bem interessante na produção do material, é que a capa e o encarte apresentam um trabalho gráfico que reproduz com fidelidade um compacto de vinil como era costumeiro nos anos 70. Faixas em destaque : Sendas Astrais, São Paulo City, Terra de Minerais e Tooginger (solo de bateria do Junior, em homenagem ao inglês Edward Baker, "Ginger Baker").
Se quer ter a chance de ter em mãos mais um mais um registro da histórica Patrulha do Espaço, confira" !

Nota 8.0

Ricardo Batalha


Bem, Ricardo Batalha escreveu uma boa resenha, observando vários detalhes interessantes e pertinentes, não tenho dúvida e isso foi louvável, pois sua predileção pessoal, e da revista que representa é o Heavy-Metal, portanto, foi bem bacana ter essa deferência conosco. Discordo da sua percepção de haver o elemento "jazz" no nosso som, que realmente não tinha, mas é o tal negócio : questão de referência pessoal do resenhista e onde ele define como "jazz", talvez na minha percepção, ou de outra pessoa, soe outra coisa. Achei que ele perdeu tempo em acrescentar dados sobre a história da banda nos primeiros parágrafos, e poderia ter usado tal espaço na lauda para falar mais do disco, mas por esse aspecto também entendo-o, pois deve ter julgado importante situar o leitor padrão daquela publicação, visto ser um público em 99% formado por adolescentes e apreciadores de Heavy-Metal, portanto, sem muita noção do história do Rock.


 

5) Revista Poeira Zine  -  Nº 2 - Agosto / Setembro 2003

"Qual será o segredo do bom gosto ? Por que será que tantos buscam, mas só alguns conseguem colocá-lo em prática ?
Bom, a Patrulha do Espaço com certeza possui essa genial receita de se executar o bom gosto, e exemplos não faltam nesse novo CD da banda. A surpresa já começa pela embalagem, uma autêntica réplica daqueles maravilhosos dos anos 60 e 70. Os timbres são um oásis sonoro em pleno ano de 2003, mostrando que a galera estudou muito a sonoridade setentista. Outro ponto favorável é a curta duração do CD (27 minutos), o que com certeza acaba fazendo com que o ouvinte ouça o disco repetidamente, assimilando de forma muito mais prazerosa todas as faixas. Para sentir o drama, o disco abre com "São Paulo City", uma espécie de "Mississipi Queen", moderna, com riffs mastodônticos e bateria avassaladora, cortesia do mestra Rolando Castello Junior. Em "Sendas Astrais", a bateria parece que dita a melodia da música, e de quebra, a faixa ainda traz um órgão Hammond e um Moog, criando um  clima todo especial.
"Nem Tudo é Razão" tem como destaque a grande atuação de Rodrigo Hid. "Terra de Minerais" (a minha preferida), mescla distintas influências, que vão de "Yes" até "Allman Brothers", com o mérito de soar Patrulha pra caramba !
Também são muito dignas de notas as atuações de Luiz Domingues no baixo, e de Marcello Schevano na guitarra, teclados e também vocal. Mesclando essas maravilhosas influências e ainda por cima demonstrando muita personalidade, a Patrulha lança mais um de seus melhores trabalhos".

Bento Araújo   


Bom, aqui é difícil até comentar uma resenha feita por um dos jornalistas mais preparados e especialista em Rock vintage. Bento Araújo é conhecedor da matéria e não tenho nada para acrescentar, a não ser duas observações preciosistas de minha parte, mas que em nada desabona a qualidade da resenha excelente que ele publicou na sua revista. Primeiro, acho que ele falou de brincadeira e com a mais bela intenção de enaltecer-nos, é claro, mas os timbres em questão, não foram objeto de estudo, mas eram fruto da nossa sonoridade natural. E olhe leitor, que pelo que já descrevi dessa produção em si, é um milagre dos "Deuses do Rock" e do Kôlla Galdez, que tenhamos chegado nesse resultado, diante das adversidades que tivemos e foram múltiplas. Segundo ponto, em "Terra de Minerais", ele enxergou influência do "Yes" e "Allman Brothers". Duas bandas maravilhosas que exercem enorme influência sobre todos nós, mas nesse caso em específico, creio que o "Focus" e o "The Who" tem mais a ver como inspiração.



Mais matérias e entrevistas continuavam saindo, eis mais alguns exemplos :
Na revista Modern Drummer, nº 9, de setembro de 2003, o jornalista Felipe Cirelli entrevistou o Junior, e a conversa girou mais em torno dos timbres e concepção de gravação da bateria no novo álbum, e alguns aspectos gerais sobre a sonoridade e estética adotada pela banda.



 
Muito boa a reportagem sem assinatura do autor, mas pelo teor e estilo, parece ser obra de Marcos Cruz, colaborador do Portal "Wiplash" e editor das revistas "Rock Made in Brazil" e dessa "Metal Massacre". Ele observou tudo, da capa inusitada ao conteúdo do álbum; a dubiedade do título; estética & ideais, e até a qualidade do áudio, que realmente deixava a desejar. Enfim, franco e honesto para tecer críticas construtivas, mas ao mesmo tempo tecendo elogios retumbantes à parte artística, envolvendo composições, arranjos e performances, elaborou uma ótima reportagem.





Na revista Guitar Player de nº 88, de setembro de 2003, o jornalista Luciano Marsiglia fez uma entrevista muito boa com os nossos guitarristas, Rodrigo e Marcello e foi fundo nos aspectos focados nas guitarras, com bastante informação sobre as guitarras usadas na gravação do disco, assim como a obtenção dos timbres, uso dos pedais, amplificadores etc. E também falaram sobre influências, citando guitarristas etc etc. Em suma, uma entrevista muito bem conduzida e a edição da conversa, bem editada.



Em setembro, tivemos uma notícia muito ruim. Marcello ligou-me numa terça feira com a voz embargada e deu-me a notícia de que o ex-guitarrista da Patrulha do Espaço, Dudu Chermont, havia falecido. Muito doente, não era novidade para nós que ele não estava nada bem, há tempos. Em março e julho, ele fizera participação como convidado especial em dois shows nossos, conforme já relatei anteriormente. Portanto, em julho de 2003, foi o último show que fez na sua vida, lamentavelmente.



Um dos portões de acesso do cemitério da Consolação, situado no bairro homônimo, próximo ao centro da cidade de São Paulo

Levei a banda inteira no meu carro ao velório e sepultamento no cemitério da Consolação, no bairro do mesmo nome, zona central de São Paulo. Ali, a quantidade de pessoas ligadas ao Rock era enorme, desde veteranos dos anos 1960 / 1970, até rockers mais mais novos. Achei justa a movimentação e comoção gerada, mas era triste ver um artista de tantos méritos e história construída, indo tão prematuramente para o "lado de lá". Um funcionário do cemitério vendo aquela quantidade de cabeludos ali presente, abordou-me, e perguntou-me se o falecido fora artista. Apresentou-se como guia turístico do cemitério, pois além das múltiplas esculturas e mausoléus que despertam a atenção de artistas plásticos; estudantes de artes & arquitetura, havia um fluxo de turistas procurando tumbas de pessoas famosas.



De fato, o cemitério da Consolação é pródigo nesse aspecto, e recebe turmas organizadas para visitar tais sepulturas de artistas, políticos e personalidades brasileiras em geral, que ali estão enterradas. Contei-lhe sobre Dudu Chermont, e espero que ele tenha buscado pesquisar mais e incluído assim a tumba onde ele foi sepultado, nessas visitas.



Junior levou uma cópia do primeiro álbum da Patrulha e colocou entre as mãos de Dudu, que assim foi enterrado, com essa justa homenagem. Sem perspectivas de shows para outubro, e só em novembro voltaríamos à estrada, o Junior agendou uma apresentação off-Patrulha para o Centro Cultural São Paulo.


Seria mais um show tributo ao Keith Moon, o mítico baterista do "The Who" e desta feita, Junior que costumava promover tal tributo de forma sazonal, com a parceria do baterista Paulo Zinner, ampliou-o, convidando também os bateristas superb, Marinho Thomaz ("Casa das Máquinas"), e Franklin Paolillo ("Rita Lee & Tutti-Frutti").



Portanto, seria um show de arrepiar, com quatro bateristas tocando, sempre em duplas, e um eventual número em conjunto, com os quatro, simultaneamente. Sobre o evento, em se considerando que foi uma atividade extra / Patrulha, e pelo fato de eu ter participado também, preferi relatá-lo em separado, arrolado devidamente como um "Trabalho Avulso" de minha carreira, portanto, está descrito com detalhes naquele capítulo em específico.



Leia tal história no meu Blog 2, procurando por Trabalhos Avulsos - Capítulo 78  -  Tributo à Keith Moon, publicado em agosto de 2003 :


http://blogdoluizdomingues2.blogspot.com.br/search?q=Trabalhos+Avulsos+Tributo+%C3%A0+Keith+Moon

E também publicado neste meu Blog 3, procurando por "Trabalhos Avulsos - Capítulo 30 - Tributo à Keith Moon, quatro bateristas alucinados

http://luizdomingues3.blogspot.com.br/2015/03/trabalhos-avulsos-capitulo-30-tributo.html


Voltando a Patrulha, uma nova viagem para Santa Catarina esperava-nos em novembro.


Resenha do show Tributo ao Keith Moon, na revista Rock Brigade, nº 208, de novembro de 2003

Uma nova viagem ao sul aproximou-se. Estávamos em novembro de 2003, e mais uma vez teríamos como destino o belo estado de Santa Catarina.

Na viagem de ida, tudo corria bem, até quase na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná. Chegando próximo ao município de Registro, ainda em território paulista, é obrigatório passar pela ponte sobre o rio Ribeira e de fato, aquela região do estado de São Paulo é denominada "Vale do Ribeira", caracterizando as cidades que beneficiam-se desse rio. Ninguém notou, a não ser eu Luiz "Barata", que viajávamos próximos ao nosso motorista, quando um barulho estranho irrompeu na parte da frente do ônibus e o "seu" Walter soltou um grito fortuito.

Como os demais riam em conversas animadas que estavam travando na parte traseira do carro, não notaram que algo ruim estava acontecendo, mas nós, eu e Barata, notamos e levantamo-nos para ver o que ocorria. Com expressão assustada, "seu" Walter mal conseguia balbuciar uma palavra inteligível, mas segurava a direção do ônibus com enorme força.

O ônibus foi diminuindo sua velocidade e quando a ponte, que era relativamente longa, foi ultrapassada, foi saindo lentamente pela direita, e pasmem, foi rastejando até tocar numa árvore as margens de um posto de gasolina. Atônitos, não entendemos porque ele não havia manobrado o carro para adentrar o posto e deixado-o assim, bater levemente numa árvore frondosa, quando finalmente parou.
Foi quando os demais espantaram-se e também sem entender a manobra, aparentemente sem sentido, quiseram saber o que ocorrera.

Ora, a barra de direção havia quebrado, e a solução encontrada para que não sofrêssemos um acidente grave, fora deixar o carro perder velocidade e manter a direção reta, até que chegasse um acostamento pós-ponte e no braço, ele tentasse levá-lo para a direita para pararmos em segurança. Se tivesse algum buraco ou desvio de qualquer natureza em nossa frente, o acidente seria inevitável, pois naquela velocidade e sem possibilidade de manobrar, teríamos colidido, fatalmente. Isso sem contar que poderíamos ter caído no rio e "guardrail" algum seguraria aquele bólido enorme. O "seu" Walter era prático ao extremo e sem tempo para recompor-se do susto, foi buscar uma solução e por sorte, naquele posto tinha uma oficina mecânica, com peças etc etc.
Claro, ficou caro pelas circunstâncias da estrada, e a sempre clássica exploração desses sujeitos que agem como aranhas esperando a mosca aderir-se na sua teia...
Mas com o intrépido "seu" Walter por perto, tudo amenizava-se, pois na "conversa de boleia" que estabelecia com esses tipos, o preço extorsivo caia absurdamente e ele mesmo punha-se a ajudar a instalar a peça em questão, e tudo ajeitava-se. Seguimos viagem e quando passamos um pouco da altura de Balneário Camboriú, havia um posto da polícia rodoviária federal e o guarda de plantão mandou-nos parar.

Documentação em ordem e itens básicos de segurança, também, não tememos nada. Todavia, era um sujeito muito mal humorado e estava particularmente atacado naquele dia...
Querendo ver minúcias, ameaçou prender o carro, considerando nossos pneus irregulares. De fato estavam velhos, mas todos ainda com riscas e na chamada "meia vida", segundo o "seu" Walter dizia-nos, não era motivo para multas, e muito menos ameaça de apreensão. Mas o sujeito estava imbuído da vontade de prejudicar-nos e custou para o "seu" Walter convencê-lo a liberar-nos. Entretanto, em tom ameaçador, foi enfático ao afirmar que se visse-nos passar ali, prenderia o ônibus, pouco importando-se se éramos uma banda e tínhamos compromissos e transportávamos instrumentos e equipamentos. E falou em tom de escárnio, pois nessa altura, sabia que íamos para Florianópolis, e no dia seguinte teríamos compromisso em Balneário Camboriú, portanto, passaríamos no outro lado da pista, e curiosamente, ainda mais perto da sua cabine policial...

Com pelo menos três horas de atraso devido ao acontecido em Registro / SP, mais a parada policial em Balneário Camboriú / SC, quando chegamos na porta do estabelecimento onde tocaríamos em Florianópolis, encontramo-nos com Helena T., vocalista do Tutti-Frutti na época, que aguardava-nos no local. Preocupada com o nosso atraso de quase quatro horas, contamos-lhe o que havia ocorrido na estrada e ela teve uma crise de choro, e acredito que só aí demo-nos conta de que havíamos passado por um grande perigo de fato. Corroborando a tese, Daniel "Kid", nosso roadie, veio correndo e comunicou-nos que o "seu" Walter estava tendo uma crise de choro dentro do ônibus.

Fomos ver o que estava acontecendo e aos prantos, ele disse-nos que aquilo que passamos fora grave e que ele temeu que o ônibus desgovernasse-se sobre a ponte em Registro, e que cairíamos no rio, com risco de morte certa para todos. Incrível, mas ele não falou nada na hora do problema, nem enquanto consertava a peça, tampouco no restante da viagem inteira, mas só quando estacionou o carro no nosso destino final, deu-se ao luxo de extravasar sua emoção.

Ficamos consternados com essa cena, e ao mesmo tempo agradecidos pela sua ação heroica que preservou a nossa integridade física e a de nosso patrimônio, segurando firmemente suas emoções, só extravasou quando sentiu ter cumprido o seu dever, entregando-nos são e salvos em nosso destino final. Foi uma lição de vida impressionante, sem dúvida alguma. O primeiro show dessa micro turnê seria no Drakkar, um bar bem "Rock'n Roll", onde já havíamos apresentado-nos anteriormente.



Já conhecíamos a casa onde tocaríamos, conforme já disse anteriormente. Tratava-se do Drakkar, simpática casa encravada no boulevard comercial da Lagôa da Conceição, ponto turístico forte na cidade, recheado de restaurantes e lojas para atrair turistas, principalmente os argentinos, que ali são em número tão grande que ouvindo o "castellaño italianado" deles em grande profusão pelas ruas, fica-se com a sensação de estarmos na província de Buenos Aires.

O show foi sensacional, e já esperávamos por isso, baseado na experiência ali vivida meses antes. A estrutura não era das melhores, mas o público respondia com entusiasmo e compensava tudo.

Viajando pelo sul a bordo do intrépido "azulão"... da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Rolando Castello Junior; Samuel Wagner e nosso grande amigo, Junior Muelas que viajou conosco nessa turnê. Atrás, encoberto, Rodrigo Hid. Acervo e cortesia de Junior Muelas 

Aconteceu no dia 13 de novembro de 2003, com cerca de 70 pessoas na casa, e mais uma vez, tivemos a participação especial de Luiz Carlini e Helena T., abrilhantando a noite, como convidados.

Era para dormirmos na cidade, mas pensando no guarda rodoviário mal humorado que fora ameaçador na vinda, mudamos a nossa estratégia, visando não dar margem ao azar, resolvemos dar baixa no hotel onde hospedáramo-nos e viajarmos ainda com a escuridão da madrugada proeminente, no afã de o evitarmos. Um último episódio a ser relatado em Florianópolis nesse dia, deu-se quando fomos dar baixa no hotel, e o funcionário de plantão abriu-nos a porta, mas depois sumiu, misteriosamente.

Tiramos nossas bagagens dos quartos, levamos tudo para o ônibus e quando voltamos para fazer o check out e entregar as chaves, ele ainda não estava no balcão. Paciência, deixamos as chaves dos quartos ali e um bilhete avisando de nossa partida... acho que nunca tinha visto algo parecido e claro, com a conta sendo paga pelo contratante e na ausência de frigobar nos quartos, não havia nenhuma pendência financeira a ser saldada, portanto, nada desabonava-nos nesse sentido, mas que foi esquisita a nossa saída e pior ainda o sumiço do funcionário...
Chegamos na estrada ainda sob a escuridão, e a corrida era a favor da escuridão proteger-nos dos olhos de lince do nosso algoz neurastênico... se sobrepujássemos esse perigo, chegaríamos tranquilamente ao nosso próximo destino, que era o Balneário Camboriú.

Quase todos dormiam no ônibus, quando avistamos o temível posto da polícia rodoviária federal a nossa frente. Somente estavam acordados e preocupados com as ameaças do rancoroso guarda, eu; Junior; Barata e Samuel, além do "seu" Walter, logicamente, na condução do "azulão".

Quando aproximamo-nos mais do posto, vimos nitidamente o mesmo guarda, que estava sentado na mesa, lendo um livro, com luz acesa e o auxílio de um abatjour para reforçar o seu foco.
Incrível, o sujeito estava acordado naquela hora da madrugada, e supostamente devia estar dobrando o seu plantão. A medida que o ônibus aproximava-se, mais nós ficávamos apreensivos, pois estávamos sozinhos na pista naquele instante, e claro que quando ouvisse o barulho do carro, levantaria a cabeça para olhar e lembrar-se-ia de nós.

Mas quando emparelhamos com o posto, ele não esboçou nem levantar a cabeça e permaneceu lendo o seu livro. Assim que passamos, gritamos como crianças comemorando a nossa "proeza", e o "Seu" Walter passou a gritar, usando de seus jargões característicos : -"sai da frente do Azulão, seu FDP" e,  -"ninguém pode com o azulão" !!
O que será que o guarda estava lendo que o entretinha tanto, que nem dignou-se a olhar o único ônibus passando naquele instante na pista da estrada ?
Teria sido, " O Mágico de Oz" ? "Ulysses" ? "Morte e Vida Severina", ou o "Mein Kampf" ?

       Vista aérea da bela cidade de Balneário Camboriú / SC 

Chegamos muito cedo em Balneário Camboriú e fomos direto para o hotel. Fizemos o check-in e fomos dormir, fatigados. Não passou nem meia hora e o telefone tocou da portaria, com o gerente chamando alguém da banda para explicar a nossa presença ali. O combinado era darmos entrada na virada da diária, após o almoço, é bem verdade, mas os acontecimentos de Florianópolis, mais detidamente o receio de enfrentar a ameaça do guarda rodoviário ameaçador, havia motivado a nossa mudança de planos, portanto, o sujeito estranhou nossa chegada antecipada, e quis saber quem pagaria pela diária extra...

Ora, havíamos deixado claro que a diária extra seria por nossa conta, e além do mais, mesmo que não tivéssemos deixado isso claro no check in, acordar-nos para buscar tal esclarecimento foi de uma grosseria ímpar da parte do gerente, que certamente deve ter faltado na aula de ética do curso de hotelaria, que deduzimos que ele tenha feito para capacitar-se para a função...
Ficamos bastante irritados, pois na hora do check in, havíamos deixado bem clara com o atendente, toda a situação, e lógico que havíamos prontificado-nos a pagar a diária extra do nosso bolso, sem onerar o contratante do show, e acima de tudo, queríamos dormir...
Esclarecido, voltamos para os quartos e finalmente iríamos dormir. Passava das seis da manhã e estava amanhecendo, quando achamos que teríamos descanso, mas...

Uma excursão de estudantes acabara de chegar, e a balbúrdia que fizeram na sua entrada no hotel foi gigantesca. Eram quatro ou cinco ônibus repletos de adolescentes e absolutamente excitados pela aventura de estarem em grupo, e sem a presença dos seus respectivos pais, transformou seu check in num inferno. Cada um teve uma reação diferente nesse instante, e no meu caso, desisti de abafar o barulho infernal que faziam mediante o meu travesseiro nas orelhas, e então, levantei-me, vesti-me e fui para o refeitório tomar o café da manhã e a seguir, fui dar um passeio nos arredores do hotel, que ficava a um quarteirão apenas da avenida da praia.
Então, agora era esperar as longas horas que separavam-nos da abertura vespertina da casa, e a realização do soundcheck.

Cidade muito bonita, e de forte apelo turístico por conta da praia, Balneário Camboriú tinha uma filial da casa Drakkar, onde apresentáramo-nos na noite anterior em Florianópolis. Nossa esperança era de que a filial do Drakkar tivesse o mesmo astral da sua matriz na capital catarinense. A casa era bem diferente, estruturalmente falando. Mas era bacana, aliás, tinha uma aparência mais sofisticada, o que despertou-nos a impressão de que devia ser mais "burguesa", e não Rocker.

Tudo bem, estávamos acostumados a lidar com casas não exatamente ideais para um show de Rock. Soundcheck tranquilo, com um equipamento compatível para o tamanho da casa e razoável para as nossas necessidades. O gerente da casa estava animado, dizendo que recebera muitos telefonemas perguntando sobre o show, e que portanto, tínhamos a perspectiva de casa lotada. Ótimo, melhor que isso, só se fosse um público inteiramente rocker e a fim de ver-nos, sem reservas. Jantamos no hotel e fomos para o show. A casa estava vazia quando chegamos, e poucas pessoas chegavam, de forma paulatina quando resolvemos não atrasar mais o início do show e soltamos assim os primeiros acordes da noite. Chega num ponto da vida de qualquer artista, que percebe-se facilmente quando um show não vai atrair o público esperado e aquele ali era um típico caso desses. Ponto bom, os vinte e poucos presentes estavam ali para ver-nos. 

Havia fãs com velhos discos de vinil da banda debaixo do braço e claro que mesmo em pouco número, despertavam em nós a animação vital que precisávamos para tocar com o entusiasmo além do sentido profissional. Portanto, a despeito da baixa frequência, reputo essa apresentação em Balneário Camboriú, como boa. Foi no dia 14 de novembro de 2003. Finalmente podendo dormir, pois os adolescentes da tal excursão escolar deviam estar em alguma balada noturna pela cidade, acordamos no dia seguinte com a energia refeita, e prontos para uma curta viagem para a cidade seguinte, Joinville.


Viagem muito tranquila por conta do curto percurso (80 Km, aproximadamente), chegamos rapidamente a Joinville. Apresentar-nos-íamos mais uma vez no "Cais 90", uma casa que sempre abria as portas não só para a Patrulha, mas diversas bandas autorais do circuito underground. O estabelecimento passara por um período de reformas e estava reabrindo com o nosso show.

Gostávamos de apresentarmo-nos ali pois o contratante era muito gente boa, recebendo-nos sempre com muita hospitalidade; havia sempre um bom público com contingente de Rockers, significativo, e já tínhamos amigos na cidade, que sempre proporcionavam-nos momentos prazerosos de conversas sobre assuntos de interesse mútuo. Desta feita, a banda escalada para fazer a abertura do show, foi uma chamada "Ferro Velho". Era o dia 15 de novembro de 2003, feriado, e caindo numa sexta-feira, não era estratégico para o show em si, mas mesmo assim, atraiu um bom público para a casa. Cerca de 350 pessoas estavam nas dependências do "Cais 90". Foi um show bastante animado, com o público respondendo bem a nossa performance. Mas o P.A. da casa continuava sendo operado em mono...

Não dormimos na cidade desta feita, pois resolvemos voltar a São Paulo imediatamente após o show. Tínhamos descansado bastante em Camboriú e julgamos que encarar 650 Km até São Paulo, seria tranquilo e com o frescor da madrugada, muito mais ameno do que o calor que sentiríamos viajando no período da tarde do dia seguinte. Além do mais, a perspectiva de estar em casa no sábado, animou-nos. E assim foi, encerramos essa micro-turnê por Santa Catarina. Só teríamos novos shows em dezembro, desta feita no interior de São Paulo, mas o restante do mês de novembro exigir-nos-ia outro tipo de esforço.


Continua...

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