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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 8 - Mais Shows e Turnês ! - Por Luiz Domingues

Esse último final de semana desgastara-nos em demasiado. Além dos danos materiais que tivemos com o ônibus, o aspecto psicológico minara-nos. Tivemos uma semana taciturna com a lenta absorção de tal revés, mas os compromissos (e as contas), urgiam e dessa forma, no próximo final de semana teríamos um novo show.

Desta feita, no entanto, não seria uma viagem extenuante, mas um show na grande São Paulo, cidade de Osasco, para ser específico.
Em se tratando de uma cidade vizinha, resolvemos evitar o uso do ônibus, mesmo porque, pela localização do estabelecimento em questão, seria um estorvo estacioná-lo em pleno centro daquela cidade, ainda em se considerando ser perto do paço municipal, tradicionalmente congestionado. Tratava-se do "Taco & Birra", uma casa noturna, com ares de motoclube, misturado com salões de Rock como o Fofinho e a Led Slay, da zona leste de São Paulo.
A proposta de tocar nesse estabelecimento fora uma dica dos amigos da banda "Baranga", que costumeiramente apresentava-se em bares desse porte, conhecendo o circuito todo da grande São Paulo e muitas cidades do interior. Apesar da Patrulha não encaixar-se como uma luva em tais estabelecimentos, como o Baranga encaixava-se, acabamos muitas vezes apresentando-nos em lugares assim. Nesse dia em específico, realmente tivemos a companhia do Baranga, compartilhando o palco e a noite. Além das duas bandas, uma terceira banda fez o show de abertura, chamada "Nonah". Realmente não sei o significado que queriam dar com esse título, ainda mais com essa grafia, acrescentando um "H" sem propósito ortográfico formal. Talvez fosse "nona", no sentido aritmético ordinal; talvez denotando uma evocação à avó italiana de alguém, ou mesmo algo cabalístico, místico ou coisa que o valha.
Não recordo-me do som desses artistas para deixar um parecer digno, portanto, prefiro não dizer nada nesse sentido. Após o show do Baranga, com aquela energia Rock'n Roll e permeada pelas loucuras do Deca e do Paulão, sobretudo, tocamos, e devo dizer que foi um show de bastante energia.

Era um público Rocker, não vou dizer que não, mas apesar dessa sinergia presumida, saí do palco com a impressão de que haviam poucas pessoas que realmente tinham noção da história e das tradições da Patrulha. Foi um público caloroso e atento, mas no semblante da maioria, parecia nítida a questão que eu levantei acima. Não que isso incomodasse-nos além da conta. O Junior, pela sua enorme experiência, tirava de letra e eu, também, mas cabe como reflexão certamente. Era interessante deparar-se com um público Rocker, que não necessariamente, apesar disso, tinha a noção exata de quem éramos e o que representávamos. Ouso dizer que tal situação era inusitada de certa forma, pois eu não imagino-me assistindo uma banda dos anos sessenta, mesmo que não tivesse ficado mega famosa na época, sem no mínimo ter uma noção de onde ela vem, de quem foi contemporânea etc. Portanto, soava-me bastante exótica a perspectiva disso acontecer com a Patrulha, e de fato, tal fenômeno ocorreu várias vezes. Uma coisa era tocar para um público não acostumado com shows de Rock, onde espera-se a perplexidade diante de uma sonoridade com a qual não estão acostumados de forma alguma. Outra bem diferente e surpreendente, eu diria, era deparar-se com plateias Rockers, mas sem muita noção do tempo / espaço, dentro de seu próprio nicho de interesse e atuação. Foi o caso no "Taco & Birra", de Osasco...

Tratou-se de um bom show, não tenho queixas, aliás, a hospitalidade dos responsáveis foi notória, destacando-se Paulo Callegari, este sim um rocker com muita noção das coisas, mas por outro lado, era exótico perceber nitidamente que a maioria dos presentes não dimensionavam corretamente o que representava a Patrulha do Espaço...
Tal show ocorreu no dia 2 de março de 2002, e haviam cerca de 220 pessoas na casa, não superlotando-a, mas estava bem cheia, eu diria. No pós-show, duas ocorrências não necessariamente a ver com a banda, mas dignas de nota : uma presença ilustre e inesperada, o baterista Ivan Busic, do "Dr. Sin", apareceu para cumprimentar-nos; e uma moça que aparecia nos shows da Patrulha nessa época com regularidade e que quase tivera uma participação como assessora da produtora Sarah Reichdan em algumas situações entre 2001 e 2002, apareceu no recinto com a edição da Revista da Folha de São Paulo em mãos, e tendo sua foto na capa. Como tal revista era encartada na edição de domingo, mas a partir do final da tarde de sábado já encontrava-se à venda nas bancas, ela já estava com a edição em mãos. Tratava-se de uma matéria sobre adolescentes que tinham fixação por algum assunto em específico e ela participara nesses termos, dando entrevista para falar que gostava de aparecer em programas de auditório da TV aberta. Em suma, uma bobagem, mas que rendera-lhe os tais 15 minutos de fama, preconizados pelo Andy Warhol...
O próximo compromisso seria no interior novamente, e era a hora para exorcizar o demônio da semana anterior, quando da "Tour do Azar"...

Assim como surgira uma oportunidade para tocarmos num show de recepção de calouros de uma universidade municipal em São Caetano do Sul, recentemente, uma nova chance surgiu nesse sentido, num dos campus da Unesp, especificamente o da cidade de Rio Claro. Desta feita, o show seria realizado no campo de futebol desse campus, ao ar livre e com perspectiva de um bom público, com noite estrelada e temperatura quente, como é tradicionalmente nas cidades interioranas de São Paulo. Viajamos sem problemas para Rio Claro, com o "seu" Wagner já firmado como nosso motorista oficial doravante e mediante alguns ajustes no ônibus, verificamos que o pior havia passado, e o carro reunia condições para continuar servindo-nos, apesar dos estragos sofridos na última viagem. Uma revelação inusitada e nada a ver conosco, ou mesmo com o ônibus, chocou-nos ! 
O Marcello olhou a "CNH" (Carteira Nacional de Habilitação), do nosso motorista e ao invés de "Wagner" como havíamos habituado chamar-lhe, estava escrito "Walter", no documento...
Cobrado a explicar-nos tal confusão no seu documento, sua explicação foi feita de forma tão prosaica, que de pronto afastamos a hipótese de tratar-se de alguma falcatrua deliberada, mas pelo contrário, era até risível, remetendo à sketches de humor popularesco da TV. O que ele disse-nos, foi que logo quando apresentou-se, o Marcello entendera mal e passando a chamá-lo de "Wagner", passou tal informação aos demais e ele ficou com vergonha de corrigir. 


Inacreditável, parecia piada dos filmes do Mazzaropi, mas foi o que ocorreu. Guardei essa passagem exótica para contar neste momento exato da cronologia, chamando-o de "Wagner" até aqui, para passar ao leitor exatamente o que nós sentimos diante de uma revelação tão inusitada como essa...
Bem, doravante "seu" Walter, levou-nos numa viagem sem problemas até Rio Claro, cerca de 180 Km de São Paulo e chegando até aquela simpática cidade interiorana, famosa por adotar o mesmo método de Nova York, denominando suas ruas e avenidas por números (e acreditem, como isso é muito mais lógico e fácil para não confundir quem não conhece a cidade !), fomos para o Campus, um pouco afastado do centro e já entrando no perímetro rural desse município. Quando chegamos ao campo de futebol onde aconteceria o evento, já vimos que o palco estava montado e os técnicos do P.A. contratado, já faziam os testes preliminares de equalização. Muitos estudantes veteranos trabalhavam na preparação de barracas de venda de comes & bebes e detalhes de decoração do ambiente, lembrando uma quermesse de festa junina.
Estacionamos o nosso ônibus ao lado do palco e aguardamos o momento de iniciar o soundcheck, sob o calor tórrido e tipicamente interiorano.
Feito isso, informaram-nos que haveriam apresentações de bandas locais antes do nosso show, e que a noite seria fechada por uma banda chamada "Ambervision", que eu não conhecia, mas deduzia ser similar à banda Quasímodo", na proposta de fazer releituras da "Disco Music" dos anos setenta.

Cumprido o soundcheck, um funcionário da secretaria municipal de cultura guiou-nos até uma fazenda anexada ao campus, que pertencia à Universidade, e logicamente ao governo do Estado, visto ser a Unesp, uma universidade estadual (para quem não sabe, o Estado de São Paulo tem três Universidades sob sua administração : Usp, Unesp e Unicamp). Essa lembrança, de chegar à essa fazenda, é uma das mais legais que guardo na minha memória, enquanto bastidores das turnês da Patrulha. A ideia era que a usássemos como alojamento e estava aberta a possibilidade de pousarmos nela, para voltarmos a São Paulo somente no dia seguinte.Tratava-se de uma fazenda centenária, outrora particular e nas mãos da Universidade, havia tornado-se um misto de museu; laboratório de pesquisas as mais diversas, de botânica a zoologia, e alojamento geral para pesquisadores. Mas talvez por ser uma época de reinício das aulas, estava completamente vazia, portanto, e o alojamento deserto parecia um set de filmagens para filmes Sci-Fi.
Não é preciso dizer o quanto apreciamos tal visão, e mesmo com o tempo relativamente curto do qual dispúnhamos para arrumarmo-nos para o show, resolvemos promover uma excursão pelas redondezas. 


Era uma típica fazenda cafeeira do século XIX, e dispunha de grandes galpões; senzala; haras, e até uma capela, parecendo uma mini cidade do velho oeste americano. Já escurecia, mas realizamos tal caminhada como estudantes fazendo excursões escolares, sob intensa brincadeira, num momento lúdico dos mais agradáveis, como se fôssemos os "Monkees" num dos seus episódios malucos da série homônima. Existe uma filmagem amadora disso, em VHS, mas que já tenho digitalizada no meu acervo, e pretendo editar para lançar um dia, postando no You Tube. 

Vimos muitas aranhas enormes, morcegos pelas árvores e um simpático gato preto seguiu-nos durante a nossa caminhada, adotando postura de cão...
Já era noite, quando o funcionário da secretaria de cultura levou-nos ao Museu anexo na fazenda. Era uma exposição sobre literatura, mas contendo muito material de artes plásticas, também. Lembro-me que algumas ilustrações eram bastante exóticas, talvez um tanto quanto macabras, o que provocou as inevitáveis especulações e piadas inerentes. Apesar da hospitalidade, resolvemos não aceitar o convite para pousarmos, pois a viagem de volta seria bastante tranquila, e todo mundo preferia estar em casa ainda na madrugada, além da curta distância até a capital favorecer essa possibilidade. Todo mundo de banho tomado, voltamos ao campus e agora era só esperar a última banda local encerrar, para subirmos e tocarmos... 


Bandas locais tocavam ainda quando retornamos ao campus. Não estava super lotado, mas havia um bom contingente no campo de futebol. A temperatura era amena e a noite estrelada do interior, garantia que a noitada seria agradável, sem dúvida. No palco, o backline era o nosso, portanto havia uma garantia de haver qualidade sonora mínima, que tornasse a performance agradável. O P.A. era razoável, mas a luz bastante inadequada. Pelas fotos, e pela pequena filmagem que existe desse show, dá para ver que a luz era bastante deficiente, infelizmente.

Rara foto desse show de Rio Claro / SP, no Campus da Unesp. Click, acervo e cortesia de Germano Meyer

O clima entre o público, era bastante ameno, apesar de ser nítido que para a maioria ali presente, nós éramos desconhecidos. De fato, ali não era um show direcionado à um público rocker, e conhecedor da matéria, portanto, era previsível que não causássemos uma grande comoção. Todavia, foi um show animado, mesmo com o público em sua maioria encarando-nos como uma banda a mais na sua "balada", e sem dar-nos o devido valor artístico. No meio do show, o Junior quis fazer uma brincadeira, promovendo um improvisado "Quiz" sobre a banda, causando um rebuliço engraçado. O objetivo era doar alguns CD's da banda e demos muitas risadas nesse momento pastelão da apresentação.

Outra foto rara desse show nesse campus da Unesp em Rio Claro / SP. Click, acervo e cortesia de Germano Meyer

Tocamos nosso set um pouco reduzido, pois era quase um show de choque. Encerramos bem aplaudidos e o pessoal do "Ambervision" já estava paramentado para entrar em cena, só aguardando a nossa saída e a rápida retirada de nosso equipamento. A viagem de volta foi muito tranquila. Ainda era alta madrugada e estávamos descarregando o equipamento na minha residência em São Paulo, com o sentimento de dever cumprido. Nosso próximo compromisso seria numa cidade ali ao lado de Rio Claro, mas como não haviam outras datas seguidas, não havia cabimento em ficar no interior naqueles dias que antecediam esse novo compromisso, por isso voltamos. Segundo os organizadores, cerca de 2 mil pessoas estiveram presentes no campus da Unesp de Rio Claro, neste dia 7 de março de 2002.

Voltaríamos à mesma região de Rio Claro, alguns dias depois. Desta feita, nosso compromisso seria na cidade vizinha, de Limeira, para mais uma apresentação no Bar da Montanha. Conforme já falei anteriormente, o ambiente do Bar da Montanha era o melhor possível em termos rockers. Os donos, super hospitaleiros, solícitos e dispostos a agradar-nos em sua recepção. Mas o público, era um ponto estranho nessa equação. A casa recebia um bom público, e no visual da maioria das pessoas, denotavam serem rockers, mas em sua maioria, parecia alheio ao show, conversando nas mesas sem prestar atenção na performance da banda.

Chamava-nos a atenção tal comportamento surpreendente, pois a casa era teoricamente um reduto rocker, e não uma boate de playboys incautos, como muitas onde apresentamo-nos em outras cidades, portanto, causava-nos espécie essa comportamento blasé.
Foi uma apresentação tranquila, apesar disso. Os fãs que compareceram porque gostavam da Patrulha, concentraram-se na frente do palco, e comportaram-se como gostaríamos que os demais comportassem-se também, mas não dava para exigir isso de ninguém, e assim...
Isso ocorreu no dia 10 de março de 2002, com 200 pessoas na plateia, aproximadamente. Voltamos para São Paulo com o dever cumprido, um cachet razoável no bolso e alguns dias depois, iríamos para um outro quadrante do estado, para um compromisso no Sesc de Bauru, onde dividiríamos a noite com o Tutti-Frutti, e mais uma vez teríamos o guitarrista do Sepultura como nosso convidado, Andreas Kisser.

Voltaríamos ao interior de São Paulo em poucos dias, explorando desta feita um outro quadrante do estado. Iríamos para o centro do estado, especificamente à cidade de Bauru, uma pujante e tradicional cidade de grande porte paulista, para apresentarmo-nos na unidade do Sesc local. Particularmente, eu não tocava no Sesc Bauru desde maio de 1980, quando ali apresentei-me com o Língua de Trapo, participando de um festival universitário de MPB, aliás, a banda ainda nem tinha o nome de "Língua de Trapo" nessa ocasião, maio desse referido ano, e claro, tal relato encontra-se com detalhes no capítulo do Língua de Trapo. Bem, no caso da Patrulha do Espaço, seria um show compartilhado com o Tutti-Frutti e tendo como convidados especiais, o guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura e o trombonista Bocato.

Era mais uma produção da Sarah Reishdan, e seguiria a ideia do espetáculo que fizemos no início de 2002, no Sesc Pompeia, na capital de São Paulo, no show que ficou batizado como "São Paulistas". Desta feita, a única diferença básica em relação ao show de São Paulo, seria a ausência do guitarrista e vocalista Clemente, da banda Punk, "Os Inocentes". Bem, seria bem bacana pela convivência com tantos amigos e artistas legais e claro, tocar nas unidades do Sesc era garantia de um tratamento digno, com infraestrutura logística da melhor qualidade, cachet decente e tudo mais.

Fizemos um ensaio básico para acomodar a presença dos convidados, conforme também havia acontecido por ocasião do show de janeiro no Sesc Pompeia, e a Sarah comunicou-nos que haveria uma van disponibilizada para levar-nos para Bauru.
Contudo, já estávamos acostumados a usar o nosso ônibus próprio e mediante uma compensação financeira advinda do não uso da van, cobrimos a nossa despesa operacional de viagem. E tal acordo foi selado por conta de que Andreas; Bocato, e Sarah precisavam voltar imediatamente à São Paulo por conta de compromissos pessoais e dessa forma, ficou acordado que o pessoal do Tutti-Frutti voltaria conosco no dia seguinte, portanto, nossa predisposição de usarmos nosso ônibus próprio, veio a calhar par acomodar os interesses pessoais diferentes nessa questão.

Contudo, nem todos gostaram da ideia de voltar com nosso "carrinho velho", e isso geraria uma pitoresca história engraçada, que seria flagrada pelo nosso motorista, o "seu" Walter. Assim que chegamos a Bauru, fomos direto para o Sesc, descarregar nosso equipamento no palco daquela instituição. Enquanto os roadies faziam o duro trabalho braçal, sob o sol causticante e típico daquela cidade interiorana, eu fiquei na supervisão desse trabalho, como costumava fazer, na ausência de um road manager que cumprisse tal função.

Puxando conversa com os seguranças do Sesc, falamos sobre futebol e a conversa girou sobre o Noroeste, tradicional clube de Bauru e que há anos estava afastado dos holofotes da primeira divisão estadual, portanto vivia decadente, perambulando por divisões inferiores e longe da mídia.Mas enquanto eu conversava sobre o Noroeste, nosso motorista que encontrava-se dentro do ônibus ouviu uma conversa de duas pessoas ligadas ao Tutti-Frutti, e uma delas comentou que lamentava muito ter que voltar para São Paulo "neste ônibus horroroso"...
Ha ha ha...de fato, a van contratada pela Sarah era novinha em folha; tinha um ar condicionado glacial (e importante para viajar-se pelo sempre muito quente interior paulista); tinha vídeo de qualidade etc etc e em comparação, nosso carrinho era de fato sem uma infra nem perto disso. Mas o fato é que o nosso motorista melindrou-se com a conversa que ouviu e pegou "bronca" dessa pessoa em específico, e mesmo não fazendo nada para ela particularmente, rangia os dentes secretamente quando via-a...
Segundo o "seu" Walter, essa pessoa estava no caderninho negro dele, por ter desprezado o "azulão", apelido que ele mesmo criara para o nosso bólido. Era engraçado ouvi-lo berrando a esmo durante as viagens, palavras de ordem que ele mesmo criava e que arrancava-nos gargalhadas pelo caráter inusitado das circunstâncias. Do "nada", ele berrava coisas como : -"ninguém pode com o azulão", ou -"sai da frente do azulão, seu FDP", referindo-se a outros motoristas que atrapalhavam-no etc.
E nesse caso em específico, ele realmente ficou ofendido pela colocação, muito mais que nós, pois a despeito da consideração ser desagradável, a pessoa em questão tinha razão, no sentido de que nosso ônibus não tinha nem 10 % do conforto da van que a trouxera da capital até Bauru. Nós nem ficamos chateados e rimos da história, mas o "seu" Walter tomou como afronta pessoal e na viagem de volta, resmungava-me entre os dentes, visto que geralmente era eu quem sentava-me no banco mais perto dele nas viagens, que tal pessoa -"comia mortadela e arrotava peru, e que se fosse colocada de cabeça para baixo, não cairia nem uma moeda de seus bolsos"...ha ha ha !!!


Independente dessa animosidade que o "seu" Walter criou por sua conta própria, nós relevamos completamente essa colocação vinda de uma pessoa que era nossa amiga, e sua observação não era ofensiva à nós, diretamente, mas uma constatação, ainda que a maneira pela qual ela expressara-se não fora a mais adequada, e nesse ponto, nosso motorista tinha razão em ter aborrecido-se.
Enfim, gostando ou não do nosso ônibus velho, era tal bólido que garantiria sua volta à São Paulo...

Fizemos o soundcheck com tranquilidade nas dependências do ginásio de esportes do Sesc Bauru e enquanto passava aqueles momentos vespertino ali, claro que fazia minha reflexão pessoal sobre a longa trajetória pessoal que eu fizera, desde que ali mesmo apresentara-me no já longínquo maio de 1980, quando ali apresentei-me com o Língua de Trapo que dava seus primeiros passos na carreira, concorrendo num festival universitário local.
Bem, claro que tudo isso foi uma conjectura de segundos... estava ali com outros propósitos e não numa visita afetiva e nostálgica.
Voltando ao hotel, o relax foi bom após uma viagem cansativa e sob aquele intenso calor interiorano. Lembro-me do Andreas Kisser surtando, mas no bom sentido, quando numa conversa sobre futebol, ficou eufórico ao exaltar seu clube do coração, aos berros lançando odes ao São Paulo FC, fanático torcedor que é daquele clube da Vila Leonor...
Reunimo-nos para voltar ao Sesc, e na van a descontração e camaradagem era total.

Quando a van estacionou no pátio do Sesc, vimos que uma pequena multidão de caçadores de autógrafos estava a postos, mas sem ilusão alguma, sabíamos que nenhum de nós seriamos assediados e toda aquela movimentação era única e exclusivamente para o Andreas Kisser. Sim, apesar dele estar nesse espetáculo apenas como convidado especial, e não haver nenhuma menção de que tocar-se-ia músicas do Sepultura, seu nome com apelo internacional no mundo do Heavy-Metal, despertava comoção, naturalmente. E assim ocorreu...

Quando passamos pelo séquito de fãs separados pela ação dos seguranças, houve comoção total e vimos uma menina passando mal de tão emocionada que ficou, numa crise nervosa de choro compulsivo, desmaiando. Claro que foi socorrida prontamente pelos seguranças do Sesc e nada de mais grave aconteceu-lhe, mas foi até chocante ver essa cena. Bem, assim como no show que fizéramos com sua participação em janeiro no Sesc Pompeia, eu nutri preocupação em ver tantos fãs do Sepultura presentes só para prestigiar o Andreas, e que fatalmente frustrar-se-iam ao ver que não tocaríamos nenhuma música de sua banda. Mas durante o show, nada ocorreu que denotasse tal insatisfação de seu público específico. Foi um show normal, um pouquinho reduzido, porém, para dar espaço ao Tutti-Frutti. Ao final, repetimos a dinâmica apresentada em janeiro, e as duas bandas e seus respectivos convidados, subiram ao palco para um número final. Foi uma boa noitada para as duas bandas e seus convidados, com o público respondendo bem.

Aconteceu no dia 15 de março de 2002, com público estimado de 1500 pessoas presentes, segundo informação do Sesc, passada à produtora Sarah Reichdan. Despedimo-nos de Sarah; Andreas, e Bocato que voltaram para São Paulo imediatamente após o término do espetáculo, e fomos para o hotel repousar. Nem todos no entanto, pois alguns foram aproveitar a noitada de Bauru, numa casa noturna local. Claro, preferi o silêncio monástico do quarto do hotel. No dia seguinte, bem cedo, fui ao saguão do hotel para tomar o café da manhã e lá encontrei-me com Luiz Carlini e Rufino, que também buscavam o mesmo objetivo. Na mesa, Carlini recordou-se das muitas vezes em que hospedara-nos naquele mesmo hotel em ocasiões anteriores, tocando com o Tutti-Frutti ou mesmo  
acompanhando medalhões como Guilherme Arantes e Erasmo Carlos. Café recheado de histórias saborosas do Rock brasuca.
Estava tudo tranquilo e chegara a hora, fomos para a estrada, voltar para São Paulo. Sob o clássico calor de rachar do interior paulista, iniciamos a viagem de volta e o clima no nosso "azulão" era o melhor possível. Somente o "seu" Walter guardava para si a bronca adquirida com uma pessoa ligada à comitiva do Tutti-Frutti. Quando ela entrou no ônibus, ele rapidamente procurou-me visualmente, e deu aquela piscada de olhos com ar de deboche, para fazer-me relembrar de sua bronca e eu ri, internamente, é claro...

Paramos exatamente nesse posto aí da foto acima, da Rede Rodoserv, na estrada Castelo Branco, cerca de 50 Km antes de Sorocaba, no sentido São Paulo, Capital

Numa parada no meio do caminho para refrescarmo-nos num desses super postos luxuosos e caríssimos de beira de estrada, conseguimos amenizar um pouco do calor tórrido que atormentava-nos. A tal pessoa que criticara nosso carrinho velho, estava esbaforida e tinha razão em lamentar não ter voltado para São Paulo naquela van de ar condicionado glacial que a levara para Bauru...
Paramos num outro posto adiante, para outra sessão de refresco geral, quando um pequeno fenômeno natural aconteceu entre nós e foi registrado em vídeo pelo Rodrigo. Um mini tornado levantou muita poeira do chão e ficou circundando-nos de forma engraçada.

O chato de assistir esse vídeo é que dois membros do Tutti-Frutti que ali estavam rindo e brincando conosco, já não estão mais entre nós. Os saudosos Rufino e o tecladista. Mas, mesmo com essa constatação triste, um dia essas imagens vão para o You Tube...
Deixamos a comitiva do Tutti-Frutti na porta da residência do Carlini, na Pompeia, e de lá, deixamos o nosso backline na minha residência na Aclimação, para a seguir, levar o ônibus para uma oficina de tapeceiro automotivo. Já estava programado que deixaríamos o ônibus lá após a volta de Bauru e que por alguns dias ele lá permaneceria para receber várias benfeitorias no seu acabamento interno. E assim foi...
Teríamos um pequeno hiato de shows doravante e nosso próximo compromisso seria só no início de abril, no Sesc Pinheiros, no bairro homônimo, em São Paulo.


Após o show de Bauru, e com o ônibus no estaleiro para melhorias estéticas na tapeçaria dos bancos, estávamos com um hiato de shows em duas semanas, aproximadamente. Mas os compromissos em outros campos prosseguiam e nesses termos, tínhamos agendado um programa de rádio e um de TV para  apresentarmo-nos.

Sobre o programa radiofônico, tratava-se de um gentil convite que partiu do guitarrista superb, Luiz Carlini, que apresentava-o em dupla com o famoso ex-jogador de futebol e agora comentarista esportivo, Walter Casagrande Junior, popular "Casão". Tal programa que apresentavam na emissora Transamérica FM de São Paulo, uma emissora top de linha em termos de popularidade e pertencente à uma rede de alcance nacional, era um misto de programa esportivo e cultural, nos moldes do velho "Balancê" dos anos oitenta (falo muito sobre o "Balancê" de Fausto Silva, o hoje popular "Faustão", nos capítulos sobre o Língua de Trapo e A Chave do Sol, principalmente), mas este era mais centrado no campo cultural e mais detidamente na música. Ambos rockers, privilegiavam boa música e convidados geralmente do mundo do Rock. Portanto, além da exposição que era ótima pela audiência massiva, seria um prazer interagirmos entre amigos.

E assim fomos ao estúdio da emissora, localizado no bairro do Alto da Lapa, na zona oeste de São Paulo, numa noite muito agradável, com o objetivo de tocarmos um set semi acústico com duas canções, onde resolvêramos que eu usaria o baixo, para dar um peso maior na apresentação, reforçando os violões de Hid & Schevano. Nos bastidores, tudo foi maravilhoso, com Carlini e Casagrande mega simpáticos, deixando-nos absolutamente a vontade. Interagimos com conversa animada e brincadeiras, dando muitas risadas ainda no estacionamento da rádio e uma vez lá dentro, enquanto aguardávamos o chamado para adentrar o estúdio, ficamos um bom tempo num "lounge" observando a movimentação dos outros convidados e funcionários da emissora. Figuras folclóricas estavam ali também para serem entrevistadas. O ator Alexandre Frota, com o qual interagimos um ano antes num programa de TV da obscura "Rede Vida" e cuja história está contada em detalhes em capítulo anterior, nem esboçou lembrar-se de nós, ali naquele ambiente. A badalação estava grande não só por sua presença, mas pela de outros artistas com visibilidade mainstream e nós éramos os outsiders do underground ali, infelizmente obscurecidos pelo glamour alheio...

Outra figura que chamava a atenção dos cinegrafistas e fotógrafos presentes, era o vocalista da banda punk, Os Raimundos. Estava presente também Paulo Miklos, famoso componente dos Titãs e o rapper "Sabotage". Miklos e Sabotage estavam em dupla porque divulgavam um filme no qual haviam atuado como atores. Fomos chamados e acertados os detalhes da mixagem bem simples ali estabelecida para a nossa apresentação musical, tocamos ao vivo, "Céu Elétrico", com dois violões; flauta; baixo; percussão, e as vozes, é claro. E tivemos um segundo número, e escolhemos fazer uma música clássica dos primórdios da banda e que eu particularmente, gosto muito, chamada "Transcendental". Tal canção, além de ser muito bonita, musicalmente, tem de fato, uma vibração muito a ver com os anos setenta e coadunava-se perfeitamente com os ideais "Chronophágicos" da nossa formação. Adorava tocá-la ao vivo e nessa versão semi acústica que fazíamos, o final emendava-se com o refrão de "Listen to the Music" do Dobbie Brothers, numa menção das mais agradáveis que criamos e claro, tendia a emocionar os antenados que estivessem ao nosso alcance. E foi o que aconteceu com Paulo Miklos que assistia a nossa entrevista mas não aguentou e juntou-se ao Rodrigo para cantar tal refrão. Devo registrar também que o som do meu baixo, usando apenas uma de minhas caixas Ampeg, revela-se surpreendente nessa tosca filmagem, por incrível que pareça. Usando o Fender Precision, mais comedido do que seu natural  pelas circunstâncias, apresenta um som mais abafado e sensacional. Sou fã incondicional de seu famoso estalo metálico, mas usando dessa forma, também é muito bonito. Tenho uma cópia de uma filmagem dessa nossa participação na referida emissora, que foi gravada na velha mini VHS na época, mas já foi digitalizada e a qualquer momento será postada no You Tube. Aconteceu no dia 25 de março de 2002. E sobre o programa de TV que também tínhamos, tal contato fora-nos fornecido pelo músico / produtor, Marco Carvalhanas, que não estava mais trabalhando conosco diretamente, como fizera-o exercendo a função de roadie manager na última tour de 2001, mas estava sempre auxiliando-nos de uma maneira ou de outra.

O excelente comunicador, Atílio Bari, um raro caso de apresentador de TV que mostra-se culto, fora ser muito generoso ao abrir espaço para artistas outsiders como nós... 
 
Tal programa, chamava-se "Em Cartaz", e era exibido no obscuro canal comunitário de São Paulo, infelizmente eu diria, pois sua proposta era extremamente salutar e deveria ter um espaço melhor na TV, ao invés de um canal que tinha audiência no patamar ínfimo, de quase traço zero. Conduzido por dois apresentadores, tratava-se de um misto de Talk Show com revista cultural muito dinâmica e antenada, disposto a divulgar tudo de bom que São Paulo oferecia em termos de arte, cultura e espetáculos. Geralmente tinha uma atração musical por dia, que era entrevistada e ocupava um generoso espaço para tocar várias músicas ao vivo, e os apresentadores entremeavam o foco no artista musical, com dicas de lançamentos culturais os mais diversos, e espetáculos pela cidade.


                    Os apresentadores eram Atílio Bari e Uka.  

Atílio era / é ator, e Uka, uma simpática menina de origem oriental, estudante de cinema na época. Super simpáticos, brincalhões e cultos, deixaram-nos muito à vontade, e foram pertinentes nas colocações e perguntas, quando ficou aquele sentimento de que era uma pena um programa tão legal estar num canal que não era assistido por quase ninguém. O estúdio onde fomos entrevistados era minúsculo, e claro que nossa apresentação ao vivo foi na base do "acústico", com Rodrigo e Marcello tocando violões e eu apenas no baixo, mas tocando bem baixinho (e peço perdão pelo trocadilho infame), para não destoar da dinâmica, logicamente. Marcello tocou flauta também e o Junior fez uma percussão legal. Por incrível que pareça, o som do meu baixo ficou com um timbre espetacular, e não muito usual para o Fender Precision, abafado, pois mudei o registro que eu sempre usava / uso para deixá-lo mais agressivo, com aquele "estalo" típico dele, e abafado ficou mais "doce", mas muito bonito a meu ver. Lembrou-me o som do baixista John Ford, nos discos do Strawbs, de certa forma. Essa participação da Patrulha em tal programa foi digitalizada e lançada no You Tube em 2011, com o apoio que tive do Site / Blog Orra Meu. Na época, o Emmanuel não conseguiu postá-lo em versão integral, por isso foi dividido em três partes.

Na parte 1, tocamos "Céu Elétrico".

Programa Em Cartaz - TV Comunitária de São Paulo
26 de março de 2002 


Eis o link para assistir a parte 1 no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=-l3nFMmaD8I

Na parte 2, tocamos "Transcendental", com direito à uma incursão de "Listening to the Music", do Doobie Brothers

Programa "Em Cartaz" - TV Comunitária de São Paulo
26 de março de 2002


Eis o Link para assistir no You Tube
https://www.youtube.com/watch?v=lGpJq4Eo3C0

Na parte 3, tocamos "Retomada"

Programa "Em Cartaz" - TV Comunitária de São Paulo
26 de março de 2002


Eis o Link para assistir no You Tube
https://www.youtube.com/watch?v=bcPrNOsCUNE


A registrar-se também, que tive uma surpresa lá nesse estúdio, pois jamais imaginaria que um vizinho meu era o sonoplasta do programa...esse rapaz eu sabia que era músico, tocava muitos instrumentos de cordas, na noite, geralmente em combos de música brasileira, da gafieira ao samba tradicional, passando pelo chorinhos e outras manifestações bem brasileiras. Ele era casado com a Luana Escobar, neta da atriz Ruth Escobar e que morava na casa em frente à minha, do outro lado da calçada e que eu conhecia desde que mudei-me para tal residência, em 1991. Não conhecia-o muito além de cumprimentos no cotidiano e apenas sabia que era músico, vendo-o saindo de noite carregando cases de instrumentos e que tocava ritmos brasileiros na noite. Mas chegando ao estúdio da TV Comunitária, deparei-me com ele, que então contou-me que era o sonoplasta do programa. Seu nome nunca soube, mas era conhecido pelo apelido de "Chambinho" e durante o programa, ouve-se o apresentador Atílio o chamando, para alguma intervenção no áudio.
Bem, foi assim que apresentamo-nos no programa "Em Cartaz", da TV Comunitária de São Paulo, no dia 26 de março de 2002.

A produtora Sarah Reichdan estava a todo vapor arrumando coisas para a Patrulha, e claro que isso era louvável e muito animador.
Essa parceria ia de vento em popa, desde o final de 1999, eu diria, mas esquentara de vez no final de 2001 em diante, quando muito de seus esforços lograram êxito, principalmente em produções dentro do universo do Sesc. Tudo era maravilhoso nesse sentido, mas havia um senão, e esta ressalva não era necessariamente culpa dela.

Dos muitos shows da Patrulha em unidades do Sesc que ela fechou e produziu, nenhum, infelizmente, foi 100 % confortável para nós, artística ou tecnicamente falando, dadas as circunstâncias em que constituíram-se. Explico...
O fato, é que ela estava encaixando-nos em projetos onde a banda não apresentava-se sozinha ou pior ainda, fugia de suas características totalmente, fazendo concertos semi acústicos, ou seja, saindo de sua característica natural que era a da extrema eletricidade de uma banda de Rock clássica, que éramos.

Então, cabem algumas reflexões sobre essa linha de atuação da Sarah como produtora :
1) Seu argumento de que muitas vezes certas condições desfavoráveis eram válidas para pleitear-se a seguir situações melhores, era um fato, e baseado nisso, principalmente, é que aceitamos fazer shows em condições desconfortáveis;
2) Já elogiei efusivamente a atuação do Sesc no âmbito da produção cultural deste país em capítulo anterior, e não acho necessário cansar o leitor com uma repetição, mas realço a minha crítica em caráter construtivo, de que o maneirismo em que baseiam-se para fazer sua programação, na qual, só agendam mediante "projetos" e invariavelmente apresentem como condição sine qua non a ´"obrigatoriedade" de trazer um ou mais convidados para participar do evento, é muito equivocada. De antemão, com essa predisposição, desqualificam o artista, desprestigiando seu trabalho e sua história, pois se sua simples presença não dá segurança à cúpula de cada unidade que isso seja o suficiente para atrair público, naturalmente estão depondo contra, no subliminar.

A produtora Sarah Reichdan em foto mais atual, já como Road Manager da artista baiana, Daniela Mercury
 
Observadas essas questões, a verdade era que a produtora Sarah estava logrando êxito em inserir-nos no universo Sesc, mas sempre em condições não favoráveis para nós, sob o ponto de vista artístico e técnico. Sabedores disso, mas cientes que era uma estratégia de inserção da parte dela, portanto sujeita a pequenos sacrifícios, aceitamos fazer um show acústico na unidade do Sesc Pinheiros, no bairro homônimo da zona oeste de São Paulo. Claro que era desconfortável para nós fazermos shows "acústicos", sendo a nossa banda essencialmente elétrica e historicamente dotada de uma volúpia Rocker que honrava as mais autênticas raízes em que ela fundamentava-se. Mas por outro lado, apesar de ser desconfortável e chato para nós, não era uma tarefa impossível, pois a versatilidade dos nossos dois multi instrumentistas certamente que viabilizava uma apresentação nesses moldes. E convenhamos, se havíamos sobrevivido à experiência de um show ultra acústico em novembro de 2001 (Projeto "Luz de Emergência", no Sesc Pompeia), onde a condição sonora de apresentar-se sem o reforço de um P.A. fora extremamente periclitante, esse show no Sesc Pinheiros seria bem mais ameno nesse sentido. Isso porque não haveriam "convidados" (milagre o Sesc não ter exigido isso...), e melhor ainda, sim, teríamos um P.A. !!

Marcado para o dia 2 de abril de 2002, usamos as duas semanas que tivemos sem shows, e sem o nosso ônibus, para prepararmos um set de canções adaptadas para o formato semi acústico. Claro que não seria 100 % acústico, pois usaríamos a cozinha tradicional de baixo e bateria. E também não furtar-nos-íamos ao uso alguns teclados, com parcimônia, naturalmente, evitando Mini Moog e outros onde a eletricidade e a volúpia eram muito proeminentes. Portanto, acústico mesmo seria pela ausência das guitarras, substituídas por violões e claro, tentaríamos aproveitar melhor o recurso da flauta, que o Marcello executava bem. Diante disso, fizemos pequenas adaptações para músicas normais do nosso repertório habitual, e aproveitando, resgatamos algumas canções clássicas do repertório antigo da banda, caso de "Transcendental" (música aliás, que gosto bastante e adorava tocar ao vivo); e canções lado B da época do Arnaldo Baptista, como "Cowboy"; "Pé na Jaca", e "Trem", que não costumávamos tocar no set elétrico normal. E o dia do show chegou...

Eu sei que passo a imagem para alguns que "pego no pé da mídia", mas como não deixar de observar esse texto escrito pelo estagiário da revista "Veja", na ocasião : como se não bastasse ignorar os trinta e cinco de carreira da banda naquela ocasião, ao imputar-nos importância apenas por termos "acompanhado" Arnaldo Baptista", fruto do descaso absoluto em que bandas relegadas ao limbo do underground, sofrem costumeiramente neste país, ainda teve agravantes. Tem dois erros crassos na consideração desse desinformado, então aspirante a jornalista. Primeiro, a Patrulha do Espaço sempre foi uma banda e não mera acompanhante de Arnaldo. Ele era componente da banda e se nos dois primeiros álbuns seu nome foi colocado em destaque, foi mera opção dos marqueteiros da gravadora. Segundo, ele não fez parte da banda nos anos 1980. Arnaldo foi componente da banda entre 1977 e 1978, num período de apenas 9 meses. É duro exercer jornalismo na base do chute e movido a preguiça, isso quando não entra o desdém motivado por idiossincrasias no meio...


A unidade do Sesc Pinheiros nessa época, era bem tímida. Estavam construindo ainda a sede gigantesca dessa unidade, que hoje em dia é muito bonita e promove dúzias de atividades educacionais, artísticas e culturais, mas nessa ocasião de nosso show, era um sobradão residencial adaptado. Ficando em plena avenida Rebouças, claro que era uma tremenda casa, nos moldes dos casarões residenciais que tornaram-se comerciais dos anos setenta em diante, mas bem modesta em comparação às instalações que ostentam hoje em dia, naquele bairro. Bem, a despeito disso, fomos com toda boa vontade fazer o melhor possível, dentro da perspectiva que apresentavam-nos, ou seja, não havia um auditório adequado com infraestrutura para shows musicais, mas sim um espaço adaptado, onde outrora deve ter sido uma ampla sala de estar residencial.
Claro, mesmo assim, era o Sesc e toda a estrutura mínima de eletricidade, assim como um equipamento terceirizado de P.A. e iluminação estavam a postos. Era tudo "pocket", claro, calculado em parâmetros de engenharia acústica para o local. Fomos bem recebidos pelos funcionários do Sesc e pelos técnicos terceirizados, mas mesmo assim, tivemos um princípio de stress, quando os primeiros trabalhos de ajustes de som começaram. Assim que o Junior montou a bateria e fez uma checagem básica, tocando (isso é praxe de todo o baterista, tocar um pouco simulando situações de show para acertar os ajustes das peças), duas senhoras que trabalhavam num gabinete em anexo, como escriturarias, apareceram exaltadas no salão, clamando que o "barulho" era inadmissível e que estavam trabalhando, blá-blá-blá...
Ora, aquilo era apenas o início do trabalho de soundcheck e a bateria ainda nem tinha sido microfonada. Se o seu som natural era demais para elas, imagine então quando o técnico iniciasse o ritual de captura de cada peça, e os testes de equalização geral começassem...
Com tal manifestação, de início já estava caracterizado que aquela unidade em específico não estava acostumada a realizar shows. No máximo deviam acontecer ali apresentações intimistas de voz e violão, em termos musicais e o espaço, naturalmente, devia ser mais usado para palestras, saraus literários ou atividades infantis com contadores de histórias para os pequenos etc. Portanto, aquela situação era um tanto quanto surreal, pois o usual ali era o silêncio quase de um ambiente de trabalho de um escritório convencional e fora do horário comercial, é que as atividades culturais deviam acontecer. E como não costumava-se fazer apresentações que necessitassem de um PA, por mínimo que fosse, não estavam habituados a conviver com tardes de soundcheck, uma atividade profissional natural em qualquer casa de espetáculos / teatros.
Até aí tudo bem, a Sarah Reichdan intercedeu com explicações, e as pessoas em questão não eram brucutus ignorantes que não tinham discernimento para enfrentar conflitos. De comum acordo, combinou-se então que o trabalho mais pesado de soundcheck ficasse para depois das 18 horas, onde o expediente burocrático da unidade encerrava-se, e nós concordamos em cooperar, mesmo sendo desconfortável para nós deixarmos essa atividade para mais tarde, e assim tirando minutos preciosos de nossos momentos pré-show, onde é importante estar relaxado para fazer um bom espetáculo.
Enfim, diante de outros problemas que enfrentamos em circunstâncias muito mais adversas de outras apresentações em outros lugares, isso não foi nada... 
O som ficou bem equalizado e claro, era patente a necessidade de fazermos uma dinâmica "espartana", pois qualquer acento mais forte do baixo e bateria, causaria um verdadeiro tsunami sonoro sobre os violões, flauta e vozes. O jeito era tocar de forma muito comedida, entrando no âmbito dos violões e vozes como parâmetro, evitando os tradicionais voos que a cozinha dessa nave fazia nas apresentações elétricas corriqueiras. E assim foi no show...
Um bom público compareceu (para os padrões daquele tímido salão, é bom ressalvar), e quem apareceu, viu um show diferente, não só por essa docilidade sonora não usual para a nossa banda, mas principalmente pelo set list com muitas surpresas que fãs mais ardorosos e conhecedores da nossa história, certamente regozijaram-se.

Voltando ao que venho comentado nos últimos capítulos, louvo muito a atuação da produtora Sarah Reichdan, que nesse período, muito ajudou-nos, principalmente em produzir shows nossos em várias unidades do Sesc, que era / é, um dos melhores, senão o melhor circuito de shows deste país. Todavia, era mais um show não exatamente confortável, fugindo das nossas melhores características. Fazer show acústicos ou semi-acústicos, ou tendo que abrigar convidados, não era de todo mau, mas o que ambicionávamos mesmo, era engatar uma série de shows nas unidades do Sesc, sob condições normais, ou seja, um show de Rock com eletricidade e volúpia, que era o nosso real modo de ser.
Mas isso nunca ocorreu, lamentavelmente, da parte dela, Sarah.
Isso porque em breve faríamos um show na unidade do Sesc Ipiranga, no bairro homônimo da zona sudeste de São Paulo, onde fizemos um show de Rock ao nosso estilo e predileção, mas o produtor desse show foi o Paulo Barnabé, baterista e irmão do compositor / pianista Arrigo Barnabé. Enfim, quatorze anos depois (2016), agradeço muito a Sarah, sem dúvida alguma, embora suas produções nunca tenham caminhado conosco em igualdade de sintonia, nesse aspecto dela enxergar apenas saídas alternativas para semear algo para um futuro que nunca chegou. No dia seguinte ao nosso show no Sesc Pinheiros, tínhamos um compromisso no interior de São Paulo. Era uma volta à casa noturna "My Way", da cidade de Americana. Falei sobre nossa primeira passagem por essa cidade e casa em específico, com detalhes em capítulos anteriores. Não vou cansar o leitor com uma eventual repetição nesses termos.
O que posso acrescentar, é que desta feita, tal show não serviria de apoio estratégico para um turnê interiorana como houvera ocorrido em dezembro de 2001, mas tratava-se de uma oportunidade sazonal. Claro, naquela casa noturna, o dividendo artístico a ser conquistado era nulo. Sendo muito claro, ali só valia a pena tocar pelo cachet. E o único consolo extra monetário nessa determinação, era o de que mesmo em condições infrutíferas, sempre apareciam fãs reais da banda. Foram poucos, mas certamente que a emoção deles em estar ali, contagiou-nos e estimulou muito.

E para encerrar o mês de abril de 2002, apresentamo-nos mais uma vez na casa noturna "Volkana", em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

Desta feita, duas bandas de abertura estiveram presentes : "O Vale das Borboletas" e o "General Pig". Não tenho grandes lembranças dessas bandas, a não ser que "O Vale das Borboletas" era  bem mais leve e com esse nome, bem interessado em sonoridades 1960 / 1970, e que o "General Pig" era mais híbrido e pesado, sem grande comprometimento retrô, e pelo contrário, soando "modernoso".

Sobre as datas e público presente em cada show :
Sesc Pinheiros - São Paulo / SP - 2 de abril de 2002 - 50 pessoas
My Way - Americana / SP - 3 de abril de 2002 - 200 pessoas
Volkana - São Bernardo do Campo / SP - 26 de abril de 2002 - 100 pessoas

Uma aventura e tanto aconteceu logo no início de maio, e que gerou uma história bizarra, e que de certa forma, foi triste para a banda.
Mas antes, abrirei parênteses para falar da inclusão digital que a banda adquiriu, graças aos esforços solidários e espontâneos de um adolescente que abordara-nos ainda em 2001...


Centro Cultural São Paulo; em janeiro de 2001, com Hélcio Aguirra tocando como convidado em três músicas. Click, acervo e cortesia de Salvatore D'Angelo

Retroagindo um pouco, ainda em 2001, um garoto adolescente abordou-nos certa vez com uma filipeta em mãos que ele mesmo produzira, anunciando algo a respeito de nossa banda, mas sem nosso conhecimento prévio. Relutante e tímido pela pouca idade, temia talvez por uma reação intempestiva de nossa parte, principalmente da parte do Rolando, o membro fundador da banda.
Contudo, seu propósito era dos mais nobres e assim que expôs-nos a sua pretensão, imediatamente entrou para aquele rol seleto de apoiadores da banda. Seu nome era Marcelo Dorota Oliveira Martins, e sua proposta era a de gerenciar como web designer um site oficial da nossa banda, coisa que ainda não tínhamos, apesar da era digital já estar consolidada na entrada dos anos 2000.

O que interagíamos desde a volta de 1999, era algo tímido, com ações caseiras perpetradas por Rodrigo e Marcello, em seus computadores familiares e ainda sem grande desenvoltura no campo da informática / computação / internet. Enfim, claro que gostamos da oferta desse rapaz imberbe e mesmo sendo muito novo e tendo limitações típicas dessa pouca idade, tais como obrigações escolares e controle familiar de seus atos, sabíamos que sua boa vontade em auxiliar-nos era total e faria o máximo nesse sentido.
De fato, apesar das limitações expostas, ele empenhou-se e o site que construiu, na base da gratuidade máxima, ficou para lá de digno para uma banda com o volume de notícias que gerávamos e sobretudo, pela história contada até então, com várias formações históricas; discos; fotos; peças de portfólio etc etc.

       Marcelo Dorota Oliveira Martins, em foto bem mais atual

Marcelo Dorota deu o seu máximo, foi uma mão na roda naquele momento, e graças aos seus esforços, a banda pode ter um site à altura de sua grandeza. Claro, algum tempo depois a vida tomou outro curso e tendo que focar em seus estudos, o site acabou passando para as mãos de um Web Designer mais experiente, no caso de Luiz Carlos Cichetto, popular Barata, um famoso poeta Rocker e agitador cultural dos mais ativos de São Paulo / Brasil, aliás até hoje, e tendo promovido várias modernizações em diversas reformas que o site já teve ao longo desses anos todos. Mas fica aqui o meu agradecimento formal ao então garoto, Marcelo Dorota, hoje um adulto, e que muito ajudou-nos ali nos idos de 2001; 2002; 2003...


Numa outra ação muito bem vinda da produtora Sarah Reichdan, tínhamos uma temporada em uma casa noturna, mas numa condição estranha. Temporada denotaria uma continuidade de shows em progressão diária, normalmente, mas a proposta era outra nesse caso. Sarah havia fechado cinco shows a serem cumpridos no mês de maio, toda quinta, numa casa noturna chamada "Venice", localizada no boêmio bairro da Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo. Mais parecia a sistemática de um "Stand Up Comedy", que trabalha com esse tipo de agendamento em casas noturnas, mas para artistas da música não era uma prática muito usual. Ficamos contentes com o agendamento, é claro. Cinco shows no mesmo local, ainda que espaçados e diluídos em 30 dias, quase caracterizava mini temporada, mas ao mesmo tempo, ficamos bem desconfiados de tal dinâmica pouco usual.

Isso porque a tradição desse tipo de dinâmica para uma banda de Rock, não era usual só na nossa percepção, mas tínhamos dúvidas se o público entenderia tal predisposição em ver a banda bater ponto numa casa noturna, de forma fixa, num específico dia da semana, por cinco semanas consecutivas. Aí, entra aquela estratégia que era comum nas décadas de sessenta e setenta e que não existia mais, apesar do Junior insistir nela, que baseava-se na repetição e na crescente audiência gerada pela formação de opinião. Naquelas décadas, o público tendia a ver o mesmo show várias vezes e tal movimentação ia agregando novos curiosos motivados pela propaganda espontânea gerada pelo "boca-a-boca", a tal da  "formação de opinião".

O Junior ainda acreditava nessa estratégia, mas eu não, e realmente preocupou-me essa temporada em gotas homeopáticas que a Sarah fechou para nós. É bem verdade que havia uma atenuante nessa história, pois a Sarah espertamente fechou os cinco shows com um cachet fixo, e num valor digno para os padrões da época. Isso era um bálsamo de tranquilidade, mas sabíamos que se nos primeiros shows não houvesse um público razoável, teríamos problemas, pois contrato assinado não era garantia de que a casa cumpriria sua palavra numa situação adversa, como é bem comum em casas noturnas, lamentavelmente. Então fizemos nossa parte e trabalhamos numa divulgação enfatizando essa continuidade de shows marcando ponto toda quinta-feira etc e tal.

No dia do primeiro show, montamos o nosso equipamento e fomos fazer o soundcheck no período vespertino, quando o técnico de som da casa falou-nos educadamente, mas de forma enfática, que teríamos que tocar num volume muito baixo, pois a casa estava com problemas com a vizinhança, e sendo vigiada e ameaçada pelos fiscais do "Psiu", um órgão ligado à prefeitura de São Paulo, e que controla o nível de ruído nas casas noturnas da cidade. Isso era / é comum na noite paulistana. Não há casa noturna que não seja incomodada pela fiscalização do "Psiu". Todavia, causou-nos espécie tal afirmação, pois aquela casa noturna em específico, era vizinha de um sem número de outros estabelecimentos noturnos, aliás, uma marca registrada daquele bairro que tem fama boêmia justamente por abrigar uma quantidade absurda de bares e casas de espetáculos, e muitas, com música ao vivo. Outro fator a desabonar a alegação estranha do rapaz, era a de que na noite anterior, houvera apresentado-se duas bandas no mesmo espaço. Uma era declaradamente Heavy-Metal e a outra, Punk-Rock. Ora, teriam esses artistas tocado baixo, diante da obviedade de professarem estilos absurdamente barulhentos ? Conhece alguma banda de Heavy Metal ou Punk-Rock que faça dinâmica na performance, amigo leitor ?
Bem, eram obviamente duas contradições, e o sinal amarelo acendeu imediatamente para nós...

Tudo bem que a foto promocional da banda era inadequada na tipologia da diagramação desse jornal acima (Jornal Agora). Mas descrever Rodrigo e Marcello como "integrantes do conjunto", no mínimo denotou a preguiça acentuada do jornalista que preparou a nota. E a manchete em si...para que dizer "Rock do passado" ? Nítida a vontade de estigmatizar com desdém. Bem, melhor ter a divulgação, mesmo com falhas assim, digamos, desrespeitosas, que nada, como diz-se por aí...

Já antevendo que aquilo não acabaria bem, ficamos bastante desconfiados da continuidade do projeto em si, pois se antes mesmo da realização do primeiro espetáculo da temporada, o rapaz já advertira-nos com essa conversa sobre "volume de som", era de fato um sinal de mau agouro. A noite chegou e nós fomos tocar...
O público presente era muito tímido, com cerca de 20 pessoas, mas para nós, em termos de ânimo, tocar num lugar vazio ou no palco do Festival de Woodstock, não mudava a nossa determinação de entrega artística absoluta. 

Fomos determinados a fazer nosso set tradicional e com a performance habitual, sem reservas, a despeito das observações vespertinas do técnico de som da casa. Quem estava ali era fã da banda e estava apreciando a nossa tradicional entrada com a música "Não Tenho Medo", quando o técnico sinalizava insistentemente para abaixarmos o volume. Se há algo que irrita um artista em pleno momento de performance, é alguém insistindo em querer tirá-lo das nuvens onde está, quando exerce sua interpretação no palco, para trazê-lo abruptamente para o solo, mediante quebra total da magia da ribalta. Ninguém tolera essa falta de sensibilidade da parte de alguém que não percebe que ali, naquele momento, o artista está quase que num transe "shamânico", fora da realidade telúrica, e isso vale para atores; músicos; bailarinos ou poetas em ato de declamação. Ali em cima é uma outra realidade imersa em magia, e assim, voltar para o chão é uma quebra energética visceralmente ruim, e que quase sempre causa um dano irreversível ao artista, pois perdida essa sinergia mágica, o espetáculo está arruinado, mesmo que ele o leve até ao seu final e a grande massa não perceba o desconforto enorme ali causado.

Sinalizamos que abaixaríamos os amplificadores e para que ele ficasse calmo, quando fomos para a terceira música, visto que a segunda, "Festa do Rock", era emendada na primeira, e não dava para interromper ao bel prazer do elemento. Mesmo segurando e abaixando bastante, assim que começamos a tocar "Ser", o sujeito não notou a nítida amenizada que déramos e ficou ainda mais contrariado, como se tivéssemos aumentado, ou seja, ele estava transtornado e mesmo que desligássemos os amplificadores, ainda pediria para abaixar mais, caracterizando que estava predisposto a  incomodar-nos a noite inteira.

Ouça "Ser" enquanto lê, amigo leitor, e medite sobre a possibilidade dessa música ser executada com o volume de uma canção ao estilo "Bossa Nova", com voz e violão, como o rapaz em questão talvez achasse o ideal para a sua casa noturna...

"Ser", como todo fã da Patrulha sabe, é um Hard-Rock vigoroso e tocá-la num patamar de volume baixo daqueles, era uma tortura para nós e o sujeito ainda querendo menos volume. Prosseguimos, tentando fazer ainda mais dinâmica na música seguinte, "O Pote de Pokst", abaixamos a canção num patamar hiper desconfortável para a banda, ao ponto do Junior ficar muito irritado em ter que tocar sua bateria "pisando em ovos", comprometendo completamente sua performance, sem pegada alguma. Diante de tal pastiche sonoro, a banda estava muito prejudicada e mesmo assim, o rapaz mostrava-se indignado, gesticulando de forma a mostrar que não conformava-se, e que possivelmente nós não o "obedecíamos" por rebeldia ou coisa que o valha. Mas a realidade, era que estávamos tentando atender a orientação da casa, embora o patamar sonoro em que encontrávamo-nos, fosse muito abaixo do padrão de um ensaio, portanto, aquilo estava arruinando a nossa performance.

Pavio curto ao extremo, claro que o Junior se indignou, jogou as baquetas longe e pôs-se a andar contrariado para o camarim. A noite estava estragada e a tal continuidade da temporada alardeada, seriamente comprometida. O gerente da casa chegou a pedir desculpas, mas ainda insistindo na tese de que o "Psiu" estava "pegando no pé" deles etc etc. Ora, se estavam com problemas dessa natureza com a fiscalização sonora da prefeitura, porque insistiam em programar shows de Rock ali ??

E como se não bastasse isso, toda essa conversa era muito suspeita, pois sabíamos que na noite anterior, haviam tocado duas bandas muito barulhentas, uma de Heavy-Metal, e outra de Punk-Rock, ali mesmo, e que fizeram portanto dois shows longos e na íntegra. Não quero alimentar teoria da conspiração, mas o que realmente ocorreu ali, foi um mistério para nós. A produtora Sarah Reichdan não esteve presente, mas mandou um representante seu, o baterista Carlinhos Machado, que eu já conhecia desde 1995, aproximadamente, pelo fato dele ser uma figura super conhecida no Rock paulistano, tendo tocado em inúmeras bandas. Curiosamente, 9 anos depois desse ocorrido, eu entraria na banda do guitarrista Kim Kehl, "Kim Kehl & Os Kurandeiros", e toco com ele, Carlinhos, desde 2011, portanto, por ele ser o baterista dessa banda.

Meu amigo e desde 2011, colega de três bandas, o baterista Carlinhos Machado

Um gentleman no trato pessoal, Carlinhos estava ali representando a produtora Sarah, e foi conversar com o gerente sobre o ocorrido e este garantiu-lhe que a temporada continuaria normalmente, e que na próxima quinta-feira deveríamos voltar ali para dar continuidade na temporada. Mas no dia seguinte, Sarah ligou-nos e comunicou-nos que a temporada estava cancelada...
Difícil mesmo de entender esse episódio, por tudo o que já expliquei. O que pretendiam essas pessoas, está na consciência delas, muito provavelmente jamais saberemos. Ainda no decorrer de maio, a Sarah comunicou-nos que nas quintas posteriores, fãs da banda apareceram na tal casa e surpreenderam-se com nossa ausência, visto que muitos cartazes e filipetas foram para a rua anunciando temporada de cinco shows. Bola para frente, não foi a primeira, nem seria a última vez que um espetáculo causar-nos-ia dissabor. Para compensar, tínhamos uma boa data para cumprir, mas aí sim num teatro bem estruturado, e com promessa de bom público.


Sempre um porto seguro para qualquer artista, tocar no Sesc representava não só uma apresentação com infraestrutura adequada para uma banda de nosso porte, história e musicalidade, mas a certeza de um bom público presente, e indo além, um aquecimento para a nova turnê que faríamos ao sul do país, desta feita sem apresentações no Paraná, mas apenas em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Como já disse anteriormente, a produtora Sarah Reichdan havia ajudado-nos muito, desde 2001, mas sua estratégia de introduzir-nos no universo do circuito Sesc, baseava-se numa peregrinação de shows não exatamente confortáveis, na tentativa de ganhar a confiança primeiro dos produtores culturais dessa instituição, para depois, encaixar-nos em circunstâncias mais agradáveis, artisticamente falando.

Fazer shows semi acústicos; ultra acústicos, ou ter que dividir o palco com muitos convidados, não era exatamente o que desejávamos. Aliás, claro que não, se dependesse de nossa escolha.
Aceitamos suas ideias e táticas, na esperança de que viesse uma etapa mais confortável e vitoriosa a seguir, quando faríamos muitos shows em diversas unidades dessa instituição, mas dentro de nossas características normais, ou seja, nosso show habitual com eletricidade total, e sem necessidade de convidados. Mas isso nunca ocorreu, infelizmente.

Portanto, esse show que faríamos na unidade do Sesc Ipiranga, seria dentro de nossa zona de conforto, mas não era produção dela, Sarah, mas sim do baterista / cantor, Paulo Barnabé, irmão do pianista / compositor e cantor, Arrigo Barnabé. Sujeito zen, de conversa amena e muito gentil, diga-se de passagem, foi solícito conosco em todas as etapas da produção desse show. No dia, lembro-me bem, a Copa do Mundo de 2002 estava a pleno vapor e como sabemos, o país para, literalmente, quando o Brasil vai jogar e nesse dia estava marcado o jogo : Brasil x China.

Por sorte nossa, o mundial de 2002, estava sendo disputado em dois países asiáticos, Japão e Coreia do Sul e por conta disso, quase todos os jogos ocorriam no fuso do fim da tarde ou noite desse dois países asiáticos, e assim, os jogos passavam aqui muito cedo, ainda madrugada, ou na parte da manhã. Dessa maneira, o fato do Brasil jogar não prejudicaria o nosso show, independente de resultado, havendo euforia ou depressão pós-jogo.

Cheguei na unidade do Sesc em primeiro lugar, e fui inteirando-me com os funcionários do equipamento de som e luz, terceirizados, sobre os primeiros procedimentos de montagem do palco. Logo meus companheiros foram chegando também e tudo transcorreu com calma, sem atropelos. A divulgação feita pelo Sesc Ipiranga estava a contento e nós também havíamos empreendido os nossos esforços na somatória e a expectativa era ótima, pois o boca-a-boca estava bem forte sobre uma presença boa de público.

Soundcheck bacana; luz decente de show de Rock profissional; camarim bem estruturado; cenotécnica... puxa, porque não era sempre assim ? Se fôssemos americanos ou britânicos, com a bagagem que tínhamos, a estrutura seria dali para muito melhor, e sempre, não tenho dúvida, mas no Brasil...
Ainda relaxando no camarim, a produtora da banda, Claudia Fernanda, sinalizou-nos que os ingressos estavam esgotados e que muita gente ficou sem possibilidade de entrar. Apelamos para o produtor Paulo Barnabé, para que convencesse os responsáveis pelo Sesc a liberar a entrada desse excedente para que assistissem nos corredores, mas foram inflexíveis alegando normas de segurança coadunadas com as exigências dos Bombeiros e Defesa Civil e que isso era impossível, portanto. Uma pena, mas a segurança em primeiro lugar, isso é indiscutível.

Com a possibilidade cênica de começar o show com cortinas fechadas, combinamos com os técnicos tal recurso, e foi muito legal começar a tocar com a cortina sendo aberta vagarosamente e ao depararmo-nos com o público, vermos em vários semblantes de pessoas, que haviam apreciado tal efeito cênico. Existe uma gravação caseira nossa de bastidores, feita pelo próprio Rodrigo com uma câmera Mini-VHS, que filmou-nos de costas pela perspectiva da câmera que ele posicionou em cima de uma cabeça de amplificador. Dá para ver a banda preparando-se segundos antes do show começar e está nos planos, lançar tal material no You Tube um dia. Infelizmente tem poucos momentos de show em si. Ali, tocamos no volume compatível com o ambiente do teatro, mas agradável para uma banda de nossa sonoridade, e não aquela tortura que vivemos na casa noturna "Venice", que descrevi em parágrafo anterior.

Na primeira fileira, notei a presença de um senhor que era vizinho de quarteirão do Junior. Esse senhor que já era veterano na época, era um saxofonista que trabalhara a vida inteira tocando na noite paulistana, e que vivia dizendo que queria ver-nos ao vivo etc e tal.
Mas claro, seu espectro musical era outro, e mesmo vendo-nos cabeludos e sabedor que éramos uma banda de Rock, não demonstrava contrariedade com essa diferença, mas o fato é que ele não devia mensurar direito o que era um show normal em nossas características.

Pois assim que vi-o, sua expressão facial era de pânico, nos primeiros compassos da primeira música. Imaginei imediatamente que ele não aguentaria a massa sonora, ainda mais sentado na primeira fileira e recebendo o impacto direto dos amplificadores no palco, somado à potência do P.A. Só não poderia supor que seu martírio fosse tão grande, pois ainda estávamos no começo da segunda música, "Festa do Rock", quando vi-o levantando-se incontinenti, para retirar-se do recinto...
Claro que não fiquei chateado e pelo contrário, tenho consciência de que mesmo sendo um músico experiente com tantos anos de carreira, seu espectro musical habitual, além da extrema leveza sonora, deve ter sido praticado em quase 99 % das oportunidades, em situações acústicas, com pequenos combos de samba de Roda; chorinho; ou no máximo, numa mini orquestra de gafieira.
Portanto, qualquer coisa minimamente mais pesada que um conjunto de Rock no padrão da "Jovem Guarda", que ele devia achar "barulhento" em 1966, não comparava-se à nossa volúpia ali naquele palco. Não faz muito tempo, ainda em 2015, vi-o andando pelas ruas do bairro da Aclimação, mas ele não viu-me. Estava muito envelhecido e demonstrava sinais de embriagues bem acentuados, lamentavelmente. Fora essa ocorrência exótica, foi um show excelente, que deixou-nos muito felizes, pois a resposta do público foi muito calorosa. Aconteceu no dia 8 de junho de 2002, um sábado. Lotação máxima com 300 cadeiras ocupadas ou 299 contando com a saída desse senhor saxofonista, e pelo menos 80 pessoas do lado de fora frustradas por não terem conseguido o ingresso. E o Brasil da dupla dinâmica, Felipão & Murtosa, venceu a China...4x0...

Resenha desse show publicada na Revista "Rock Brigade", um mês depois. O resenhista, cujas iniciais não consegui identificar, falou com propriedade e foi bastante elogioso à nossa performance, mas não consigo deixar passar em branco uma sutileza. Fazendo jus ao fato de tratar-se de uma revista dedicada ao mundo do Heavy-Metal, apesar de ostentar a palavra "Rock" em seu título, é incrível constatar o elogio que fez para as músicas "Robot" e "Olho Animal", que aos ouvidos dos que professam o Heavy-Metal, são mais agradáveis. Até elogio com ênfase para "Olho Animal", o rapaz salientou, qualificando-a como "ótima". Indiscutível o gosto pessoal dele, mas é incrível como tal canção que considerávamos uma peça antagônica ao conceito pós-Chronophagia, era querida por outra faixa de público que aprovava a fase mais pesada da Patrulha...

Após o show do Sesc Ipiranga que foi um sucesso, teríamos alguns dias sem compromissos antes da próxima tour pelo sul. Aproveitamos para solucionar enfim a questão do estacionamento do ônibus, e reiniciarmos os esforços para dar andamento no tape com seis músicas inéditas que graváramos em 2001, e estavam engavetadas desde então.

Sobre o estacionamento do ônibus, já havíamos sido convidados a deixar dois estacionamentos que haviam sido vendidos para a inevitável sanha da especulação imobiliária e nesse terceiro que havíamos estabilizado-nos, o gerente havia dito-nos que ficássemos tranquilos, porque o estacionamento não estava sendo pressionado por incorporadoras. Mas não passara nem pouco tempo e o quadro mudou, como imaginávamos dada a quantidade de grandes pátios sendo cooptados para a construção das torres residenciais e comerciais, acelerando o processo de verticalização do bairro.

Chateados por mais essa repetição de um problema, passamos a procurar, já acostumando-nos com a ideia de ter que buscar em bairros vizinhos, visto que as opções estavam escassas no nosso bairro, a Aclimação. Nessas buscas, encontramos um estacionamento gigantesco no bairro do Cambuci, vizinho. Era especializado em caminhões e ônibus, sendo administrados por dois irmãos mal saídos da adolescência, mas de bom nível cultural, estudantes universitários. Era o negócio da família, ou um dos, pois demonstravam ter posses e o pai de ambos delegou-lhes tal tarefa.
Tratava-se de um preço razoável, dentro da normalidade do mercado e assim o negócio foi fechado e ali naquele galpão imenso, coberto e com jeito "velho guarda" dos anos trinta (devia ser mesmo dessa época pelo seu visual arquitetônico), o nosso bólido alojou-se definitivamente.

Sobre o tape que graváramos com seis músicas no estúdio Sonart em 2001 (e curiosamente, muito próximo desse estacionamento citado acima), começamos a ver uma luz ao final do túnel, quando  lembramo-nos que um produtor teatral que conhecêramos em 2001, havia mencionado que era proprietário de um estúdio profissional, ainda que mais dedicado a atender uma clientela ligada no universo da música Gospel evangélica. Mesmo pairando a dúvida sobre a intenção de só atenderem a demanda de artistas religiosos, não custava nada ir lá perguntar e nessa altura, estavam rareando os estúdios que ainda tinham máquinas analógicas de gravação e se demorássemos mais um pouco, correríamos o risco de até perder toda a gravação, ainda armazenada numa jurássica fita de 2 polegadas, em pleno século XXI em curso...

O tal proprietário chamava-se Paulo, e era dono do Teatro Dias Gomes, na Vila Mariana, onde apresentamo-nos em 2001, em duas ocasiões. Ele acumulava a função de pastor evangélico, numa congregação por ele mesmo fundada e em anexo ao seu templo, era dono de um estúdio de gravação profissional cuja clientela alvo eram artistas do espectro do universo da música Gospel, ou seja, música evangélica. Tal filão era sólido como nicho de mercado e em franca expansão, ao contrário da música dita "secular", como eles mesmos referiam-se à produção artística não religiosa. Fizemos o contato com o produtor teatral, Paulo e ele disse que não era regra dele só atender artistas que praticavam música religiosa, absolutamente. Era a sua maior clientela, mas o estúdio estava aberto para qualquer artista, sem preconceitos ou sectarismo. Convidou-nos a conhecer suas instalações, sem compromisso, e assim o fizemos na tarde de um dia útil de junho de 2002.

Ficava localizado numa travessa da Avenida Bosque da Saúde, no bairro da Saúde, zona sul de São Paulo. Era uma construção ampla, que devia ter sido residencial anteriormente, mas sofrera mudanças, pois estava toda adaptada como um templo evangélico, e num anexo suspenso, estava o estúdio. Gostamos do estúdio, apresentado pelo técnico contratado que era falante ao extremo, mas foi solícito conosco. Claro, sua demonstração de áudio foi em torno das produções em que estava acostumado a trabalhar e tivemos uma demonstração baseada em bandas e cantores gospel naquele instante, com o rapaz que também era evangélico, empolgando-se na sua exposição, enaltecendo aqueles artistas que eram famosos, mas apenas dentro desse universo religioso.
Bem, com uma próxima tour aproximando-se, reuníamos condições de fechar negócio e assim, uma perspectiva concreta de mixarmos aquele trabalho gravado um ano antes, surgiu, abrindo caminho para um novo álbum de inéditas a ser lançado pela nossa banda.


Uma nova turnê pelo sul do país estava armada. Isso consumiu bastante tempo da parte do Junior, que agia como empresário da banda acumulando funções. Daí termos ficado sem uma sequência de shows maiores nos meses de maio e junho, pois as negociações para alinhavar uma tour com um mínimo de inteligibilidade logística, eram cansativas ao extremo.

Mesmo assim, com todas as dificuldades que uma banda sem estrutura empresarial adequada enfrentava, mesmo tendo história; curriculum; pertencer à uma árvore genealógica nobre na história do Rock brasileiro e também pela sua qualidade artística inquestionável, com o perdão pela minha absoluta falta de modéstia nesse último quesito...
Agora, era dar um check up básico no nosso ônibus velhinho, e dar o sinal para o "seu" Walter dar partida no "azulão" e nós fazermos a longa jornada rumo ao sul.

Ao contrário da primeira turnê que fizéramos no mês de janeiro, sob intenso calor, agora enfrentaríamos o inverno rigoroso do sul e para nós que gostamos mais do frio paulistano que o calor tropical de grande parte do Brasil, era um alento. Passaríamos por cidades catarinenses e gaúchas, algumas já antes visitadas, como São Leopoldo e Porto Alegre no Rio Grande do Sul, mas as demais programadas, seria pela primeira vez. Claro que estávamos motivados, mesmo levando em conta que seria cansativo ao extremo e com as dificuldades inerentes de uma banda fazendo tour numa estrutura muito aquém do que merecia. Mas resignados com as condições simples que tínhamos, só tínhamos a animação por estar na estrada levando nosso trabalho para o público sulista e isso era tudo para nós.

Partimos no dia 21 de junho de junho de 2002, com muito frio e aquele clima de Copa do Mundo. O Brasil enfrentava a Inglaterra nas quartas de final do Mundial e tudo girava em torno dessa partida no país inteiro, enquanto enfrentávamos a estrada. Já rodando em direção ao Paraná, mas ainda em território paulista, tivemos problemas com o ônibus. Uma pane na parte elétrica não dava para ser ignorada numa viagem que seria noturna em grande parte do trajeto. Então, tivemos que parar num posto onde havia uma oficina para dar uma olhada nisso e ali perdemos cerca de duas horas e deixamos uma nota preta não prevista, nas mãos do mecânico de beira de estrada...
Nosso destino inicial seria Concórdia, uma cidade do oeste de Santa Catarina e assim que passamos por Curitiba, mudamos de estrada, com o objetivo de estabelecer uma diagonal, que cortaria bastante o caminho para atingirmos Concórdia. Era por volta de duas da manhã quando passamos pelo entroncamento de duas pequenas cidades que são praticamente unidas mas marcam a divisa entre estados : Porto União e União da Vitória.


Pequenas cidades e completamente desertas naquela horário, pareciam fantasmagóricas naquele momento, potencializado pelo frio intenso e a presença de uma acentuada neblina. Entramos enfim no estado de Santa Catarina e com a madrugada avançando, o frio intensificava-se e a neblina, também. Então, chegamos num ponto em que andando muito devagar numa subida de serra íngreme, com aquele bólido pintado de azul escuro, sob intensa neblina, ficou muito perigoso o percurso, pois caminhões e ônibus providos de motor turbo, passavam por nós voando e naquela lentidão do nosso pobre bólido, o risco de colisão com aquela neblina era terrível. Resolvemos parar um pouco para esperar dissipar a neblina um pouco que garantisse-nos visibilidade mínima e só prosseguimos após melhorar um pouco, mas não muito. A neblina era fortíssima e a perspectiva é que continuasse até o sol raiar.

Vista aérea da simpática cidade de Concórdia / SC, primeira cidade dessa turnê de junho de 2002 que realizamos

Finalmente chegamos em Concórdia, já passando das 5 da manhã e nos instalamos no confortável apart-hotel que a produção local nos reservara. Assim que abrimos a entrada que dava acesso à uma sacada, vimos uma paisagem muito agradável, com um bosque e um riacho que produzia um ruído relaxante ao extremo e isso embalou o sono de todos na nossa comitiva. Apesar das dificuldades na estrada, a nova tour começava bem...

Bem descansados após boas horas de sono embalados pelo reconfortante som natural do riacho que passava atrás do apart-hotel, e também pelo frio intenso que valorizou o uso dos edredons e cobertores, recebemos a visita de pessoas ligadas à produção local. Estava tudo sobre controle e a hospitalidade estava excelente, aliás um padrão em cidades interioranas em geral, independente de que estado for da federação.

Cidade de porte mediano, e muito bonitinha, Concórdia tinha uma casa noturna que tinha tradição em abrir suas portas para artistas autorais. E assim que chegamos ao estabelecimento para o soundcheck vespertino, vimos murais espalhados pela casa, com fotos e shows pregressos, e verificamos então que muita gente boa já havia passado por lá. Claro, eram predominantemente artistas do patamar underground como nós, mas tinha também gente do mainstream, pois vimos fotos do Erasmo Carlos, Guilherme Arantes, Marcelo Nova; e Engenheiros da Havaí, por exemplo.

Fachada da casa de espetáculos, Tulipa Bar, em Concórdia / SC

A casa chamava-se Tulipa Bar e era bem montada. Não era luxuosa, mas mostrava-se aconchegante. Suas donas, eram duas mulheres simpáticas que receberam-nos muito bem e tudo prometia para a noite, principalmente quando disseram-nos que a expectativa gerada na cidade era grande e que haviam indícios que uma caravana vinda de outra cidade próxima, Chapecó, estava organizada com gente muito a fim de ver-nos. Claro que  motivamo-nos com tal perspectiva de casa cheia, e com público rocker.

Voltamos caminhando para o apart-hotel, visto que optamos por deixar o nosso ônibus estacionado ali e a distância era mínima. 

O frio estava apertando no entardecer, prenunciando uma noite gelada e de fato, ali era / é uma das regiões mais frias do Brasil, tradicionalmente, com temperaturas que chegavam aos graus abaixo de zero com costumeira facilidade, no rigor do inverno sulista. Antes de voltamos à casa, tivemos um compromisso radiofônico e já noturno, onde numa micro entrevista, reforçamos o convite para os rockers locais enfrentarem o forte frio das ruas, e irem aquecer-se ao nosso som Chronophágico... 
Mas uma grande surpresa aguardava-nos mesmo, foi quando entramos no estabelecimento, que já tinha um bom contingente de pessoas.

Assim que entramos, aquela turma de Chapecó que fretara um ônibus para vir assistir-nos, envolveu-nos aos berros, ovacionando-nos de uma forma tão contundente e emocionante que um clima de comoção instaurou-se no local. Munidos de capas de vinis antigos da Patrulha, mas também várias capas do CD Chronophagia em mãos, puseram-se a cantar em coro, a música "O Novo Sim", desse referido CD de nossa discografia e claro que emocionamo-nos. Concomitantemente, uma equipe de jornalismo da TV local estava ali pronta para fazer uma micro entrevista conosco, e claro, foram rápidos e filmaram essa chegada triunfal da banda em meio aos seus fãs, cantando uma música do novo disco que sabiam de cor e mais do que isso, demonstravam adorá-la.
Bem, claro que nesse torpor todo gerado pela comoção ali instaurada, deu-me a oportunidade de fazer uma reminiscência e reflexão imediata...

Passou um "filminho" na minha cabeça, pensando em todo o esforço para fazer o sonho do resgate energético 1960 / 1970 pulsar novamente, através dos primórdios do projeto Sidharta. Pensei bastante nos meninos Hid e Schevano, mal saídos da adolescência; nos ensaios para a composição daquelas canções; o sonho movimentando todo aquele esforço... e aquela garotada cantando aos berros, sob intensa emoção a música "O Novo Sim", era a concretização de tudo aquilo que começara no final de 1997.
Claro, pensei até no José Luiz Dinola, que mesmo não vibrando com a mesma intensidade o sonho do resgate aquariano, era, curiosamente, o autor dessa letra, que aqueles jovens Rockers catarinenses cantavam a plenos pulmões.

Bem, em termos de proximidade com o meu sonho primordial acalentado nos anos setenta, a Patrulha do Espaço provavelmente foi a banda onde atuei que mais proporcionou-me a chance de experimentá-lo concretizado, acredito. Claro que A Chave do Sol também proporcionou-me muitas alegrias nesse sentido, contudo, naquela conjuntura onde inseria-se, em meio à década de oitenta, era muito difícil exercer tais experimentações, portanto, não foi culpa da banda, mas das circunstâncias.

Porém, com a Patrulha, pelo fato da banda ter imbuído-se desse resgate, explicitamente falando, os resultados concretos eram muito mais visíveis, e assim, manifestações como essa de Rockers de Chapecó mobilizando-se para assistir-nos na cidade vizinha, Concórdia, e recepcionar-nos na casa noturna onde apresentar-nos-íamos, dessa forma esfuziante, era uma prova cabal de que nossos esforços logravam êxito, e em particular, eu sentia-me muito gratificado, por tudo o que expus. Com essa comoção toda, é claro que o show foi muito quente, e esse público respondeu cantando e vibrando do início ao final. Mas, tenho que registrar que a euforia e comoção ficou a cargo desses 40 e poucos fãs ardorosos da Patrulha que vieram de Chapecó, pois tirante poucos rockers de Concórdia, o grande grosso do público do Tulipa Bar, reagia ao nosso show de forma muito mais comedida. Fácil de explicar-se, o público habitue da casa era da jovem burguesia da cidade, fenômeno comum em muitas casas de outras cidades onde já havíamos tocado anteriormente, portanto, não aborrecemo-nos, tampouco surpreendemo-nos com essa apatia. Por sorte, a euforia dos Rockers de Chapecó tornou o show sensacional para nós e assim, saímos muito contentes daquele palco, e a satisfação da parte das donas do estabelecimento era visível, certamente abrindo portas para que voltássemos a tocar em seu estabelecimento, e foi o que ocorreu posteriormente, em outras ocasiões. Foi assim a noite no Tulipa Bar de Concórdia / SC, em 22 de junho de 2002, com cerca de 250 pessoas no estabelecimento. Como última ocorrência dessa madrugada, vimos que um casal de namorados muito jovens e freaks, estavam desolados no canto, quando o público já havia saído da casa, quase completamente. Os interpelamos e descobrimos que eram de Chapecó, mas deviam ter distraído-se namorando em algum cantinho escuro e não perceberam que seu ônibus fretado havia partido. E naturalmente que naquela adrenalina toda, seus amigos nem notaram sua falta no ônibus.
Aquela cena pungente remeteu-me aos anos sessenta e setenta, naturalmente, lembrando-me de jovens hippies em porta de teatros, sacrificando-se para ver grandes concertos de Rock e /ou MPB e tendo que amargar horas de espera para poder voltar para a casa.
Sem dinheiro no entanto para tomarem um ônibus comercial para a sua cidade, não era só a questão das horas de espera e do frio que estava intenso até para eles catarinenses, e acostumados com o rigor do frio num padrão europeu. Lembro-me portanto do Junior dando-lhes um dinheiro para voltarem, assim que o primeiro ônibus para Chapecó surgisse na rodoviária de Concórdia. A garota chamava-se Gabriela e o namorado, Lucas.
No dia seguinte, antes de sairmos da cidade, ainda tivemos o cuidado de mandar instalar faróis de milha que não tínhamos no nosso ônibus. A experiência de ficarmos sob uma neblina intensa na noite retrasada, passando muito perigo numa estrada íngreme, sobre encostas e sendo ultrapassados por caminhões e ônibus munidos de motor turbo, coisa que não tínhamos, nos deixou apreensivos e o mínimo nesse caso era instalar faróis de milha específicos para enfrentar situação de neblina, e colocar adesivos refletivos na parte traseira do bólido. Ainda falando dessa turma Rocker de Chapecó / SC, devo relatar que num dado instante da entrevista que concedíamos à uma equipe de reportagem da TV local, o jornalista veio com aquela conversa de darmos uma "palinha", naturalmente ignorando o fato de que qualquer vocalização "a capella" não substituiria a nossa volúpia Rock no palco, portanto, claro que preferíamos não cantar a toa ali, e sim convidar os telespectadores a virem assistir-nos. Mas não satisfeito, perguntou aos fãs à nossa volta se eles cantariam então e de imediato, passaram a cantar a canção "Berro", que era um tema da Patrulha anterior à nossa formação, mas que curiosamente nós todos gostávamos muito também e de fato, tal canção entraria no nosso set list de shows no ano posterior, 2003. Com essa comoção toda, é claro que o show foi muito quente, e esse público respondeu cantando e vibrando do início ao final. Mas, tenho que registrar que a euforia e comoção ficou a cargo desses quarenta e poucos ardorosos da Patrulha que vieram de Chapecó, pois tirante poucos Rockers de Concórdia, o grande grosso do público do Tulipa Bar, reagia ao nosso show de forma muito mais comedida. Fácil de explicar-se, o público habitue da casa era da jovem burguesia da cidade, fenômeno comum em muitas casas de outras cidades onde já havíamos tocado anteriormente, portanto, não aborrecemo-nos, tampouco surpreendemo-nos com essa apatia. Por sorte, a euforia dos Rockers de Chapecó tornou o show sensacional para nós e assim, saímos muito contentes daquele palco, e a satisfação da parte das donas do estabelecimento era visível, certamente abrindo portas para que voltássemos a tocar em seu estabelecimento, e foi o que ocorreu posteriormente, em outras ocasiões. Com bastante tempo, saímos de Concórdia no meio da tarde com destino à Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Nossa meta era viajar com tranquilidade, sabedores que havia um longo trecho de serra a ser enfrentado, e assim, com nosso ônibus possuindo um motor convencional e não turbo, a lentidão seria certa.

Paramos para jantar num simpático restaurante de posto de gasolina na altura de Passo Fundo, já no Rio Grande do Sul. Cabe explicar que tínhamos um show marcado para essa cidade naquele domingo, mas ele havia sido cancelado, daí termos descansado em Concórdia até a metade da tarde. No posto, a comida farta, bem feita e saborosa e num preço absurdamente baixo, deixou-nos satisfeitos, apesar do show de Passo Fundo não ter consumado-se e havia um certo ar de chateação por isso. Mas ter um carro velho é um problema, pois mesmo fazendo checagens básicas, sempre podemos ser surpreendidos...
Já eram mais de dez da noite, quando um barulho forte perto do motor, deixou-nos apreensivos. "seu" Walter parou no acostamento, e ao levantar-se do banco de motorista, só disse-nos : -"foi a caixa de câmbio, e é grave"...


Relembramos de imediato o fantasma da "excursão do azar" onde tudo dera errado numa sucessão de desgraças que acometeu-nos em fevereiro daquele mesmo ano, viajando para três cidades interioranas paulistas. Feita a constatação, e no meio da estrada, o "seu" Walter conseguiu ao menos tirar-nos do perigoso acostamento e conseguindo engatar a primeira marcha, advertiu-nos que não dava para chegar à terceira e quarta marchas. Portanto, andando só na segunda, ainda mais lento que o máximo que conseguíamos e que já era pouco, foi muito perigoso com aqueles caminhoneiros e outros ônibus mais modernos, passando voando por nós.

Para agravar, havia neblina e o frio estava de rachar. Mesmo assim, ele conseguiu levar-nos até a segurança de um posto razoável, onde outros caminhoneiros já haviam parado para dormir, também. Nesses termos, demos muita sorte, pois os frentistas do posto disseram-nos que havia uma mecânica, cerca de três Km dali, numa pequena vila que ainda pertencia à Passo Fundo. Mas claro, quase onze da noite de domingo, estava fechada. A única solução era dormir para na manhã de segunda, um pouco antes das 8:00 da manhã, estar com o ônibus na porta, e torcer para que eles tivessem a peça, e aí, sabemos como funciona um comércio remoto de beira de estrada etc e tal. Bem, dormir no ônibus não era lá muito confortável, mas também não era insuportável. Dava para aguentar uma noite ali nos bancos. Mas o grande problema era o frio. Com a madrugada chegando, o frio foi intensificando-se muito. Cada um tratou de agasalhar-se o melhor possível, mas mesmo havendo cobertores que havíamos levado por precaução, eram insuficientes para um frio de padrão europeu e com a agravante da umidade.
Passamos muito frio naquela madrugada, essa foi uma lembrança que marcou. Tem até um vídeo curto, mas significativo que o Rodrigo gravou com sua Mini-VHS, onde num momento em que todos dormiam e só ele estava acordado, registrou a situação, inclusive mostrando o gelo no ônibus, causado pela forte geada. Acordamos e aproveitando a facilidade do posto, fomos à lanchonete para tomar um café da manhã às 6:00 horas da manhã. O frio era tanto, que batíamos os dentes, literalmente quando tentávamos formular pedidos ao funcionário do balcão...
Naquela mesma estratégia de primeira e segunda marcha apenas, andamos até a tal mecânica no vilarejo e tivemos que esperar o dono chegar. Quando abriu a loja e ouviu nossa queixa, tranquilizou-nos, pois tinha a peça nova em folha à disposição, mas claro, alertou-nos que a instalação demoraria um pouco, pela obviedade de ser uma operação mecânica relativamente trabalhosa. Isso já esperávamos, alertados pelo "seu" Walter. E nessa morosa operação, verificamos que as ruas no entorno dessa oficina, tinham um cascalho mesclado à centenas de pedras, obviamente não preciosas, mas de uma beleza incrível e muito usadas para artesanato, sob múltiplas formas. 

Falamos com os mecânicos da oficina e eles disseram que aquilo era da natureza local e que muita gente vinha de fora para apanhá-las. Eram tantas que eles não demonstravam nenhum interesse em preservá-las para si e dessa forma, enchemos vários sacos com centenas delas e rateamos entre nós na volta à São Paulo. Fiquei com algumas e distribuí a vontade para parentes e amigos. Limpas e polidas, tinham aspecto muito bonito. Andando até uma banca de jornais vi a manchete no jornal "Zero Hora", o maior do Rio Grande do Sul : "Região de Passo Fundo registrou temperatura de -5º nesta madrugada...estava explicado o frio que passamos dentro do ônibus...
Por volta das 10:00 h. da manhã, o dono do estabelecimento anunciou a conclusão da instalação da peça. Pagamos e claro que foi caro pelas circunstâncias todas.

Seguimos viagem enfim, com o "seu" Walter regozijando-se porque agora, o "Azulão" estava com o câmbio parecendo uma "manteiga", de tão leve que estava para passar a marcha. Amenizando um pouco a situação que cansara-nos, certamente, arrancou-nos risadas até Porto Alegre, quando dirigiu eufórico com o câmbio "amanteigado" e berrava -"sai da frente que o azulão está com câmbio novo... ninguém segura o azulão"...
Chegamos em Porto Alegre no início da tarde e sem maiores problemas, ainda dentro do cronograma da tour. Tínhamos um compromisso na TVE gaúcha, e um pouco adiantados para tal, deu para parar no hotel e descarregar a nossa bagagem pessoal e tomar um banho antes de irmos à TV.

                  O ótimo guitarrista gaúcho, Evandro Demari

Encontramo-nos no caminho com o guitarrista Evandro Demari, que na excursão de janeiro hospedara-nos no sítio de sua propriedade nos arredores de Bento Gonçalves. Ele acompanhou-nos nessa incursão na TV, mas só como amigo, sem participar tocando.

Na TV, fomos muito bem recebidos pela sua produção. Participaríamos de uma revista cultural vespertina, onde concederíamos entrevista e tocaríamos duas músicas ao vivo.
Montamos o nosso equipamento, e fizemos o primeiro bloco com entrevista. Havia um grupo de rap paulistano que apresentar-se-ia na mesma noite em Porto Alegre, e que esperava a vez de apresentar-se também. Não lembro-me de seu nome, mas recordo que era enorme, com muitos componentes e ficaram assistindo a nossa entrevista e num dado momento, o apresentador inseriu-os na conversa e eles foram respeitosos, saudando-nos, e obviamente que retribuímos na mesma gentileza. Disseram ser de algum bairro da zona norte de São Paulo, Santana ou Mandaqui talvez, mas sinceramente não recordo-me exatamente. Fomos convidados a tocar, então, indo para um palco montado num outro lado do cenário, fazendo lembrar-me de programas como "Later With Jools Holland", da TV Britânica, com esse tipo de dispositivo de estúdio grande. Tocamos "Ser" e "Homem Carbono". Quando tocamos "Homem Carbono", um acidente terrível, cenicamente falando, ocorreu...


O suporte do teclado que o Rodrigo usou para tocar, cedeu e bem na hora do refrão, com ele em destaque sendo filmado por um cinegrafista móvel !! Lembro do barulho do piano caindo no chão, mesclado ao acorde involuntário de sua mão tentando salvá-lo no reflexo, e simultâneo ao seu esforço em não perder a linha e continuar cantando com intensidade e interpretação...
Foi tragicômico, mas ao mesmo tempo, louvei a intenção dele em tentar manter a postura artística apesar do desastre. Claro que rimos da situação depois, mas na hora sobrou bronca para um dos roadies que não apertara o suficiente os parafusos do suporte. Voltamos ao hotel lamentando o ocorrido, mas ao mesmo tempo contentes, pois a despeito desse acidente, a aparição fora muito boa no cômputo geral e o programa passava ao vivo para todo o estado do Rio Grande do Sul. Hora de ir para o show...

Nós tocaríamos novamente no Manara, casa noturna bem estruturada, e que já havíamos visitado em turnê anterior pelo sul, em janeiro desse mesmo ano de 2002. Desta feita no entanto, a produção não estava tão caprichada como da vez anterior em termos de divulgação, e a presença de público ficou bem abaixo do que esperávamos.

Fizemos o show no padrão habitual, naturalmente, e foi até surpreendente num certo aspecto. Explico : na ocasião anterior, havia mais gente presente, mas não conseguimos estabelecer sinergia com o público. Desta feita, o público era menor, mas a empatia foi muito melhor...vá entender...
Nosso amigo Evandro Damari fez o show de abertura, e depois participou conosco no nosso show. A banda "Spartacus" também fez show de abertura.

                   O ótimo guitarrista gaúcho, Evandro Demari

O som do Evandro e sua banda de apoio era bem Blues-Rock, de muita qualidade e técnica, e o Spartacus apresentou um som mais pesado, no limite do Hard-Rock, quase beirando o Heavy-Metal.
Voltamos para o hotel e a terça-feira seria livre para a banda, sem compromissos oficiais. Mas claro que aproveitamos para fazer contatos e no meu caso, fui com o Junior a várias lojas de discos de Rock no centro da cidade, ao estilo das lojas da Galeria do Rock de São Paulo. Foi uma tarde agradável, sem dúvida, conversando com muitos lojistas, e que na tradição desse tipo de empreendedores, eram todos profundos conhecedores da história do Rock. Um fato desagradável ocorreu quando estávamos numa dessas lojas do centro da cidade, mas alheio completamente à nós e a loja. Infelizmente, presenciamos um assalto do outro lado da rua, muito rápido, quando um "trombadinha" assaltou um senhor idoso. Aliás, era um "trombadão", pois o sujeito tinha seguramente mais de 1.90 de altura e empurrou o pobre vovô e arrancou-lhe a carteira numa fração de segundos. Não deu tempo nem de esboçar tentar ajudá-lo, com o meliante evadindo-se rapidamente.

Amenizando o astral depois dessa, apreciamos muito uma visita à Casa de Cultura Mario Quintana ali no centro de Porto Alegre. Na parte noturna, todos foram aproveitar a noite de Porto Alegre, mas eu preferi fazer uma caminhada pelo entorno do hotel, fazendo um reconhecimento do bairro. Gosto de conhecer cidades dessa forma, andando a pé e eventualmente usando o transporte público local.
O frio apertou e resolvi parar numa pizzaria que pareceu-me simpática, e ali jantei sozinho, mas apreciando o ambiente. No dia seguinte, enfim tínhamos a continuidade da tour, com um show na cidade de Novo Hamburgo. Para quem não conhece o estado do Rio Grande do Sul, é bom esclarecer que tal cidade fica muito perto de Porto Alegre, estando no espectro de sua região metropolitana, com muitas outras cidades agrupadas. Por ser perto, demo-nos ao luxo de programar viagem só para o período da tarde, portanto ainda esticamos mais algumas horas na capital gaúcha. No café da manhã, ficamos vendo o jogo da semifinal da Copa do Mundo, e o Brasil venceu por 1x0. O Rodrigo saiu sozinho para um passeio matinal pelo bairro e filmou tal passeio. Nessa filmagem, dá para ouvir gente gritando e foguetório com o gol do Brasil, o que chega a ser curioso como registro. Após o almoço, partimos para Novo Hamburgo, onde tocaríamos na noite de quarta-feira.




Chegamos em Novo Hamburgo com muita tranquilidade e bem antes do horário combinado para a abertura da casa; arrumarmos o palco e realizarmos o soundcheck. A casa tinha nome e ambientação condizente com seu nome : Abbey Road.
Foto da internet, mostrando um pedaço do ambiente da casa noturna "Abbey Road", de Novo Hamburgo / RS
 
Dessa forma, haviam muitos itens de decoração remetendo aos Beatles naturalmente, mas também outros ícones do Rock e do Blues internacional, presentes. O dono do estabelecimento montou um pub aconchegante, sem dúvida alguma, e com uma estrutura até boa para uma banda tocar, logicamente em se considerando o fato de que as dimensões do estabelecimento eram pequenas.

Outra foto do mesmo estabelecimento que cito e o submarino amarelo da decoração dispensa maiores comentários sobre a ambientação "Beatle" ali predominante

Gostamos muito da ambientação Rocker, e Beatle, sobretudo, fizemos o soundcheck e aguardamos a hora do show nas imediações, jantando perto. Não dormiríamos em Novo Hamburgo, pois nosso plano era ir direto para São Leopoldo, onde tocaríamos no dia seguinte. Um bom público compareceu à casa, e o dono surpreendeu-se, bem naquela dinâmica de não acreditar numa banda de trabalho autoral, acostumado que estava a produzir costumeiramente bandas cover no seu estabelecimento. Mas também pelo fato de ser uma quarta-feira, dia difícil normalmente para produzir-se shows. E vou além, foi um bom público, bem animado e deixou-nos bastante satisfeitos, naturalmente. Nosso amigo de São Leopoldo, o guitarrista Luciano Reis, apareceu e foi nosso guia para seguirmos na madrugada para sua cidade, onde tocaríamos no dia seguinte.


Chegamos no meio da madrugada em São Leopoldo, sem nenhum problema com o ônibus e sob a condução firme de nosso motorista, "Seu Walter". Com nosso amigo, Luciano como guia, tudo foi facilitado também em termos de caminho.

               Aspecto da entrada da cidade de São Leopoldo / RS

Novo Hamburgo e São Leopoldo ficam tão perto uma da outra, que a impressão é que muda-se de um bairro para outro. O local onde tocaríamos em São Leopoldo seria novamente o BR3 do "Biba", aquele freak doido e cheio de ideias mirabolantes que encontráramos em janeiro. Toda a produção seria novamente do amigo Luciano e mais uma vez, a sua banda faria a abertura do nosso show, mas desta feita não seria a banda Tributo ao Black Sabbath, "Sabbra Cadabra", mas sim um trio onde curiosamente ele tocaria baixo ao invés de guitarra, desta feita com proposta de covers variados e denominado : "Voodoo Trio". Tudo foi basicamente igual ao show anterior, mas desta vez houve maior agilidade, pois todo mundo sabia das limitações de uma casa pequena e de fraca infraestrutura e sendo assim, o Luciano antecipou-se e tomou as providências devidas.

Visão de ruas da cidade de São Leopoldo / RS, no período noturno

Após o rápido soundcheck, tivemos um bom tempo livre e dispersamos, sem marcar jantar oficial da comitiva em algum restaurante, onde cada um aventurou-se sozinho pelo centro da cidade de São Leopoldo e nessa caminhada que fiz acompanhado do Junior, vimos que havia uma outra casa noturna de ambientação Rocker, a alguns quarteirões do BR3 (na avenida Lindolfo Collor), e com as portas abertas, entramos e vimos que a banda "Autoramas" fazia seu soundcheck. Bacana ver que mesmo em outro mundo, e especificamente no caso deles, o do universo do "Indie Rock", estavam "ralando" como nós, tocando em turnês montadas no ambiente do underground. Fizemos o nosso show e foi mais uma vez sensacional. São Leopoldo recebia-nos com um calor Rocker extraordinário mais uma vez, e aquele público emocionou-se e emocionou-nos com sua reação muito intensa.

Num dado momento do show, quando falei ao microfone que havíamos tocado em Porto Alegre dois dias antes, agradecendo o carinho do público gaúcho, alguns gritos de repúdio aos portoalegresenses soaram no ambiente. Alguns mais exaltados xingaram os habitantes da capital gaúcha, e claro que tal manifestação nada tinha a ver comigo, tampouco com a nossa banda. Era pura rixa local entre cidades e a seguir, alguém começou a cantar o hino gaúcho, e todos uniram-se, numa demonstração impressionante de comprometimento com sua cultura regional.
Passado esse momento de demonstração do orgulho gaúcho, o show prosseguiu e tudo continuou na sua normalidade, com a banda a mil por hora na performance, e o público em estado de êxtase. No dia seguinte, seguimos para Joinville e nosso amigo Luciano Reis viajou conosco como convidado. Ele teria que voltar a São Leopoldo no sábado, mas aceitou assim mesmo aproveitar mais um pedaço da nossa turnê. E claro que era um prazer contar com ele na comitiva.
Ótimo show em São Leopoldo, agora estava encerrada a etapa gaúcha e voltaríamos para Santa Catarina, onde três shows esperavam-nos : Joinville; Blumenau, e Florianópolis.

Saímos na hora do almoço para Joinville e tivemos um problema logo no início, pouco além de São Leopoldo, quando um pneu estourou na estrada. Nada muito problemático, pois demos sorte de ser um pneu em melhores condições, e no primeiro borracheiro que encontramos, resolvemos o problema sem maiores traumas. Dali em diante, a viagem foi prazerosa ao extremo, com longos trechos vendo a orla marinha do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e a conversa animada dentro do "azulão". Chegamos em Joinville com tranquilidade e com um bom tempo hábil antes da chegada do dono do estabelecimento. Tratava-se de uma casa de amplitude, praticamente um galpão que em outra época possivelmente serviu de armazém para as atividades do pequeno porto de água doce da cidade. Chamava-se "Cais 90", e ficava à beira de um rio, perto do centro da cidade.

Enquanto o dono do estabelecimento não chegava, resolvi dar minha volta rotineira nas imediações, à cata de uma banca de jornais, onde criei o costume de comprar os jornais locais, por conta de possivelmente existir a possibilidade de ter sido publicada alguma matéria, ou no mínimo um tijolo com o serviço do show no caderno de atrações culturais do dia.

Ruas do centro da bela Joinville / SC, uma cidade pujante ao extremo
 
Como nas cercanias nada achei, fui caminhando até o centro da cidade que não era tão distante dali e fiquei bastante impressionado com a beleza da cidade, com várias construções residenciais principalmente, em estilo germânico acentuado. Muitas das ruas tinham nome duplo, grafadas em português e alemão, mostrando o óbvio que eu já sabia, mas comprovei in loco : a força da imigração alemã na região, era enorme. Quando voltei para o estabelecimento, o dono já havia chegado e os nossos roadies estavam a todo vapor levando o equipamento para o palco. O dono era um rapaz de meia idade, muito educado e simpático, recepcionando-nos muito bem em sua casa. Mas apesar dessa hospitalidade agradável, havia um problema no equipamento de P.A. da casa : só havia a metade de um equipamento normal, portanto, trabalhava num sistema mono, muito bizarro, eu diria. Leigo no assunto, o dono nem entendia o que falamos-lhe sobre o equipamento, pois promovia shows ali para bandas locais que estavam acostumadas a usá-lo dessa forma, sem reclamar de nada. Bem, fazer o que numa circunstância dessas ?
Montamos o nosso backline e conformamo-nos em ter um P.A. mono no show, o que era absolutamente bizarro. Ficamos alojados num bom hotel e após o jantar, fomos para o Cais 90, esperar a hora de tocar.

Quando entramos no local, a casa estava abarrotada, o que animou-nos, mesmo sob a perspectiva de ser mais um show em casa noturna inadequada. Nesses termos, estávamos mais do que acostumados a lidar com tal tipo de adversidade de apresentarmo-nos para plateias não rockers, e sem noção alguma de quem éramos, portanto desconhecendo nosso repertório. Pela aparência geral, parecia ser uma juventude burguesa da cidade, mas não hostil, pois assistiram o show com atenção, e aplaudiram educadamente todas as músicas. Contudo, havia uma ala rocker também, e esta bem animada.

Nessa foto ao vivo de "Os Depira", Parffit está do lado esquerdo, com um baixo Rickenbacker em suas mãos.

Ali nessa noite conheci o baixista da banda "Os Depira", bastante conhecida na cidade, e que foi mais um dos encontros bacanas que sempre cito na minha história com a Patrulha, que surpreenderam-me positivamente. A banda não tocou na abertura do nosso show, mas foi muito bacana ter conhecido Parffiti Balsanelli, e verificado que ele era um rapaz na nossa sintonia. Em nossa conversa, lembro-me bem que falamos bastante sobre Rock Progressivo, onde ele citou bastante bandas italianas setentistas que também aprecio bastante, caso do "Banco Del Mutuo Soccorso".
Bem, muitos anos depois, tive o prazer de publicar uma resenha de um álbum de "Os Depira" em meu Blog 1, cujo link está aí abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2014/11/cada-qual-com-seu-vicio-os-depira-por.html

Voltando ao show, foi bom pela junção da animação dos Rockers locais e fãs da Patrulha, com a boa vontade educada do público alheio em portar-se educadamente perante um artista desconhecido por ele. Saímos satisfeitos do palco, portanto. Aconteceu no dia 28 de junho de 2015, uma sexta-feira, e o "Cais 90" recebeu cerca de 150 pessoas nessa noite. No dia seguinte, um outro show em outra cidade, mas com percurso pequeno. Iríamos para a não menos bela, e fortemente influenciada pela cultura germânica, Blumenau.


Chegamos em Blumenau com muita tranquilidade, na tarde do sábado. Esse show seria sui generis para a banda, pois a proposta do contratante era bacana, porque seria uma festa comemorando os dez anos da coluna de um colunista social local, no jornal estadual Jornal de Santa Catarina.

Mas havia um componente exótico nessa história : seria realizado na praça de alimentação de um Shopping da cidade !!
Qual artista não passou por situações inusitadas no decorrer de sua carreira ? Pois é, a Patrulha do Espaço iria tocar numa praça de alimentação de Shopping, onde naturalmente muitas mesas estariam reservadas para os convidados do colunista Horácio Braun, mas muito usuários normais do Shopping estariam misturados, e naturalmente que haveria uma sensação de estranheza generalizada.
Outro fator a limitar-nos seria a orientação prévia de que deveríamos observar uma disciplina férrea no tocante à dinâmica. 
Eu toco atualmente (2016), e já toquei anteriormente em bandas que fazem / faziam dinâmica com muita normalidade, mas a Patrulha não tinha essa característica. Banda de volúpia Rocker na tradição de bandas de expressão do porte como The Who e Led Zeppelin, dinâmica não constava do dicionário da Patrulha.

Bem, além do cachet, havia a vantagem da festa ser de um colunista social de prestígio na cidade, mas artisticamente estávamos apreensivos sobre a performance, pensando no local inadequado; a questão da dinâmica, e também pelo equipamento que sabíamos de antemão tratar-se de um P.A. muito modesto, adequado apenas para apresentações intimistas de voz e violão, na melhor das hipóteses. Bem, a hospitalidade estava ótima, e o mínimo que poderíamos fazer é imbuirmo-nos de muita boa vontade e dar o nosso melhor dentro desse cenário não adequado para nós, em respeito ao contratante e seus convidados. Sobre o repertório, cogitou-se fazermos algumas concessões e a ideia seria resgatar algumas músicas que tocáramos em formato acústico,em show realizado no Sesc Pinheiros em São Paulo, dois meses antes. De fato, o kit de violões estava conosco na viagem, e poderíamos ter feito isso.

Todavia, ponderou-se que nunca mais havíamos ensaiado músicas com tais arranjos e seria um risco apresentá-las assim, despreparadas. Então, resolvemos fazer o repertório habitual e tentarmos segurar na mão, o ímpeto natural da banda. Havíamos hospedado-nos num hotel de categoria em Joinville, mas em Blumenau, o contratante não economizou e colocou-nos num hotel 5 estrelas, portanto, o conforto ali foi ainda melhor que o da noite anterior e o relax pré e pós show foi muito grande para dar-nos gás para encerrarmos a turnê no dia seguinte em Florianópolis, e voltarmos para São Paulo, a seguir. Bem, era a véspera da final da Copa do Mundo e a cidade estava toda mobilizada para esse jogo que seria transmitido diretamente do Japão, na manhã de domingo.

Aspecto da cidade de Blumenau, provavelmente da sua famosa festa germânica "Oktoberfest", a julgar pela multidão nas ruas



Tão bonita quanto Joinville, Blumenau também tem traços fortes da cultura germânica. Isso é público e notório, mas constatamos in loco e apreciamos isso. O hotel era muito próximo do referido Shopping, e a caminhada foi prazerosa, mesmo com o frio intenso e outra lembrança que guardo é a do Junior usando um chapéu alemão típico que comprou no comércio de rua, naquela tarde.

Quando chegamos ao Shopping Neumarket, vimos que ele estava lotado, o que era normal para um sábado a noite, ainda mais numa cidade interiorana que não prima por ter muitas opções noturnas.
A praça de alimentação estava bem lotada e o jornalista Horácio confraternizava-se com seus amigos, quando uma banda de abertura foi apresentar-se. Apreciamos o inusitado da situação, pois ao contrário de estarmos habituados a ter bandas de Rock como abertura de nossos shows, desta feita tratava-se de uma banda de folclore germânico, típica, inclusive nos trajes que usavam.

Bem, Blumenau tem uma tradição fortíssima a começar pelo "Oktoberfest", uma tradicional festa alemã, portanto, era mais do que natural, para eles, esse tipo de atração. De nossa parte, gostamos muito da apresentação da banda "Meiose", com seu cancioneiro folclórico teutônico e muito legal. Mas ao mesmo tempo que apreciávamos a apresentação desse grupo folclórico, preocupávamo-nos, pois o som deles era uma "pluma" perto do nosso, e fora a aceitação deles que era total pela questão cultural da cidade e o nosso, sendo Rock autoral e off-maisntream, certamente haveria de causar estranheza. Enfim, estávamos na chuva e a melhor coisa era molhar-se com dignidade...

Portanto, fomos resignados para a apresentação e para a nossa total surpresa, nosso set list não causou grande estranheza e pelo contrário, não observamos dispersão constrangedora, tampouco hostilidades.Tocamos num patamar de volume bastante desagradável, é verdade, mas foi um show até legal em se considerando os nossos temores. Claro, mesmo nas condições mais adversas, sempre haviam fãs... eram poucos, mas lá estavam eles munidos de capas de discos em mãos, inclusive o Chronophagia, que era o trabalho da nossa formação, no afã de pedirem-nos autógrafos. Fomos dormir satisfeitos com o resultado e o jornalista Horácio também gostou da nossa apresentação, agradecendo-nos por termos feito o show em sua festa. No hotel, o aquecedor no quarto foi providencial, com aquele frio rigoroso do sul e lembro-me de ter apagado, e só acordando atordoado pelo foguetório, quando o Ronaldo mandou duas bolas para a rede do goleiro Oliver Kahn. Pior que essa gritaria nas ruas, foi quando o interfone tocou e eu ouvi a voz do Junior...


Ainda torpe pelo foguetório comemorando os gols da seleção brasileira, mas não querendo sair daquela cama quente de jeito nenhum, até pelo menos o meio-dia, fui massacrado pelo toque intermitente do telefone do hotel. Não havia pedido para chamarem-me da recepção, despertando-me, pois a ideia era realmente sair na hora limite da diária, visto que a distância entre Blumenau e a capital, Florianópolis, era mediana e mesmo saindo com prudente margem de vantagem para prevenir eventuais problemas na estrada, não haveríamos de atrasar-nos.

Todavia, não foi o que aconteceu, pois quebrando todo o planejamento, era o Junior do outro lado do fone, comunicando-me de forma agoniada que deveríamos partir de forma acelerada, pois olhando o Cafu levantando a Taça de campeão na mão, e ouvindo a gritaria e foguetório nas ruas, deu-lhe o insight que ficaríamos presos nas comemorações de rua e assim, ficara desesperado, temendo um atraso mastodôntico...

Enfim, todo mundo saiu com a face amassada dos quartos, lamentando muito estar deixando o conforto de um Hotel 5 estrelas e naquele frio do sul, assim, às pressas, como se estivéssemos perdendo o último trem para Clarkesville ou Jaçanã, como queiram...
Entramos no ônibus e realmente havia uma movimentação popular intensa, mas longe de uma interdição completa das ruas. Além do mais, era uma cidade interiorana, e mesmo que isso ocorresse, não seria muito difícil desvencilhar-se da multidão de torcedores ufanistas, e de fato, foi o que ocorreu. Rapidamente já estávamos na estrada, e a adrenalina absolutamente desnecessária já havia devidamente sido abaixada no organismo de todos da comitiva...

Bem, chegamos em Florianópolis muitas horas antes da previsão da casa onde apresentar-nos-íamos, abrir para a montagem do palco e soundcheck. Apresentar-nos-íamos numa casa noturna de ambientação Rocker, chamada "Underground". Ficava na avenida que margeia a Lagoa da Conceição, um lugar de uma beleza incrível e recheada de turistas, com imensa maioria de argentinos, tanto que muitas placas de informações são bilíngues ali, com português e espanhol grafados lado a lado. Almoçamos nas imediações da referida casa, num restaurante decorado com motivações náuticas, e após uma longa espera, finalmente fomos aguardar a abertura da casa onde apresentar-nos-íamos.

A cidade de Florianópolis estava festiva pela vitória da seleção brasileira, mas também havia a notícia da morte de uma personalidade religiosa famosa e querida, o Chico Xavier.

Dias antes já havíamos amargado a notícia da morte do lendário baixista do The Who, John Entwistle, que chocara-nos profundamente, visto ser um dos grandes ícones da história do Rock, evidentemente. Bem, mortes de celebridades e ufanismo futebolístico a parte, estávamos prestes a encerrar essa mini tour pelo sul. Florianópolis era a última etapa para nós e podíamos já comemorar antecipadamente o sucesso dessa turnê, independente de como seria o show no "Underground". Como uma praxe, sempre que sentíamos uma "vibe" legal do local, e das pessoas envolvidas na produção, a infraestrutura deixava a desejar...

Tratava-se de uma casa rústica, parecendo um mini centro cultural aberto para artistas do underground e daí o nome do estabelecimento ser coadunado com esse espírito, mas o equipamento de som e luz eram precários. Na base da boa vontade, o pessoal responsável desdobrou-se para providenciar ajustes de improviso, e assim o som melhorou um pouco, mas mesmo assim, seria sofrido tocar com um P.A. tão tímido. Quando a noite chegou, compensamos toda a precariedade do equipamento e fizemos um dos mais energéticos shows não só dessa turnê, mas creio que do ano inteiro até ali. Foi um clima de show de Rock de outrora que contagiou o público presente, que era inteiramente antenado nessa vibe e tal sinergia fez-nos levantar voo naquele palco escuro, carente de uma iluminação alucinante e condizente com a vibe estabelecida.

Aquela plateia de Rockers merecia ver-nos no auditório Fillmore West, com aquela vibe de 1970...bem, suando aos píncaros, deixamos o palco mega satisfeitos com a energia do show, e o assédio foi grande embora não fosse um grande contingente presente.

Com o amigo Paulo Valério Silva, no camarim do "Underground", que foi nos ver naquela noite. Foto rara dessa noite, e do acervo dele mesmo, gentilmente disponibilizado-me na Rede Social "Facebook"

Aconteceu no dia 30 de junho de 2002, no "Underground" de Florianópolis. Bem, fechada com chave de ouro essa etapa da tour, voltamos para São Paulo extenuados pela somatória dos 11 dias longe de casa. Não tivemos grandes problemas com o ônibus (troca da caixa de câmbio em Passo Fundo, além de um pneu furado em São Leopoldo), e poucos aborrecimentos com coisas corriqueiras extra musicais, apenas. Despedimo-nos do pessoal do Underground e entramos no ônibus ainda no fim da noite de domingo, com vontade de voltar para São Paulo, sem escalas. Relaxados dentro do ônibus, e apreciando a paisagem noturna belíssima de Florianópolis, o astral quebrou-se como por encanto, quando alguém notou que o banner da venda de discos e souvenirs não estava dentro do carro.
Um dos roadies havia esquecido o banner na casa noturna...
"Seu" Walter sugeriu voltarmos, mas o Junior pediu para ele seguir em frente, pois provavelmente a casa já estaria fechada e seria um aborrecimento ter que ligar para o responsável voltar e abrir etc e tal...paciência, mais um prejuízo de última hora, desta feita de pequena monta. A viagem seguiu tranquila e já na alta madrugada, todo mundo dormia, menos eu que ficava ligado o tempo todo e conversando com o "seu" Walter.

Então, do nada, perdemos a luz externa do nosso ônibus. Walter disse-me que provavelmente perderíamos a ignição se parássemos para verificar o ocorrido e assim, sugeriu que parássemos num posto onde houvesse certeza de haver um eletricista, para não corrermos riscos. Já estávamos adiante de Curitiba, aproximando-nos da fronteira de estados entre Paraná e São Paulo, quando achamos um posto com um auto-elétrico aberto. Quando o ônibus desacelerou e fez manobra de entrada no posto, os demais foram acordando e perguntando o que ocorria e seu Walter foi explicando, mas daquele seu jeito enigmático, dando a entender que teríamos problemas...
Como quase todo mecânico de beira de estrada, o sujeito fez suas verificações e foi dando indiretas que seria difícil achar um dínamo novo naquela hora em seu estoque etc e tal. Nossa sorte era que o "seu" Walter falava a linguagem dessa gente e ficou em cima do sujeito barganhando e a peça "miraculosamente" apareceu numa embalagem lacrada em algum compartimento secreto daquele barracão insalubre, e foi-nos vendida por um preço pouco acima do normal de mercado. Se estivéssemos sozinhos, o elemento teria arrancado o dinheiro absurdo que pedira inicialmente.

Enquanto instalava, ouvimos um barulho incrível na estrada, e de repente, surgindo da curva, um caminhão apareceu capotando e parando com violento estrondo na encosta de rochas. Pior que ver um acidente desse porte, ali a menos de 50 metros de distância de onde estávamos, foi ver que em meio a pessoas que socorriam o caminhoneiro todo ensanguentado e atordoado, uma multidão de maloqueiros apareceu sabe-se de lá de onde, e iniciaram um saque que parecia um ataque de gafanhotos na carga do caminhão. Eram caixas de "bolachas" (entenda "biscoitos", se você que estiver lendo não for paulista ou gaúcho). Fiquei chocado com a cena, mas muita gente que estava no posto, portava-se como se estivesse acostumado com uma barbaridade dessas e... bem, é o povo brasileiro e depois surpreendem-se que os políticos sejam gatunos, ora, de onde eles vem, se não é do seio desse mesmo povo com essa índole ?? Sem meios para ajudar, ficamos chocados, e temerosos com todo o nosso equipamento no ônibus. Se roubam caixas de bolachas com aquela volúpia animalesca...
Consertado o nosso carro, voltamos para a estrada e vimos que a Polícia Rodoviária e ambulâncias de paramédicos estavam chegando para socorrer o caminhoneiro. Quanto à sua carga...
Chegamos em São Paulo já na metade da manhã, extenuados, mas felizes pelo cômputo geral da turnê. Nosso próximo compromisso formal, seria só no mês de julho, com mais três shows no Centro Cultural São Paulo.

Voltamos para São Paulo, e nosso próximo compromisso seria só em duas semanas, mas o tratamos como uma importância extra, devido ao fato de ser uma micro temporada no Centro Cultural São Paulo, com três datas.


 
O Junior traçou uma estratégia de encarar tal temporada como o fim da turnê dos discos "Chronophagia" e "Dossiê Volume 4", mais para ter um mote publicitário do que demarcar oficialmente, visto que só lançaríamos um novo álbum de fato, em março de 2003, portanto, por meses, ainda estaríamos sob a égide dos discos anteriores, fazendo muitos shows, e até mais micro turnês interioranas e interestaduais. Voltou à tona também o assunto da mixagem do novo álbum, e com os lucros obtidos na última turnê pelo sul, estava viabilizada enfim tal produção, mas só fomos tratar do assunto após a realização da temporada no Centro Cultural São Paulo.

Então, nossos esforços nessas duas semanas que tivemos sem shows, foram no sentido de sua divulgação, e quem colocava a mão na massa mesmo, nesse sentido, era eu, colocando meu carro à disposição para cruzar a cidade inteira e muitas vezes indo para cidades vizinhas da Grande São Paulo, também, em uma corrida frenética e extremamente onerosa, pois a gasolina gasta era absurda. Gastava dias numa campanha dessas e mediante a ajuda do roadie Samuel Wagner que colocava os cartazes nos lugares efetivamente, rodávamos juntos centenas de Km's, enfrentando calor, frio e chuva nessas ações ultra cansativas. Mas apesar do caráter arcaico de tal empreitada, eu gostava da sensação de dever cumprido, espalhando o nome da minha banda pela cidade toda.
Claro, numa capital do tamanho de São Paulo e ainda por cima atingindo municípios vizinhos da Grande SP, para cobrir mesmo tudo, eu precisava de pelo menos dez equipes montadas e com pelo menos três auxiliares em cada carro, mas na escassez de recursos para contratar equipes profissionais acostumadas à esse tipo de divulgação, trabalhava sozinho e com um auxiliar apenas e digo, mesmo não cobrindo nem 10% do que eu gostaria, era um volume absurdo de cartazes colocados em estabelecimentos que tinham perfil compatível de pessoas circulando e interessadas em nós.
Só na famosa Galeria do Rock, do centro de São Paulo, houve época em que haviam mais de 200 lojas de discos reunidas, só para o leitor não acostumado à dimensão da cidade de São Paulo, ter uma noção.

Portanto, cobrir a cidade inteira e nossa proposta era de buscar amplitude, não colocando cartazes apenas em lojas de discos, tratava-se de um trabalho hercúleo. O Junior e a Claudia centravam seus esforços na parte burocrática e o CCSP, assim como o Sesc, costumava exagerar em demasia na exigência de documentos, dando trabalho correndo para lá e para cá, para deixar tudo em ordem. E a colaboração do Rodrigo era positiva, também, mas de cunho secreto. Como jornalista formado e tendo muitos colegas da faculdade atuando na mídia, tinha seus contatos e usando o expediente de um pseudônimo, abordava diversos órgãos de imprensa apresentando-se como assessor de imprensa da banda e cavando matérias. Graças aos seus esforços, muito do material que a banda obteve em termos de mídia escrita, foi seu mérito.
Infelizmente, dois dias antes da estreia, fiquei fortemente gripado. Até aí, gripe é super chato de lidar-se, mas não impede que trabalhe-se, pensei. Mas desta vez passou da conta e na véspera, eu estava prostrado, com febre alta e uma indisposição inacreditável.
Passei a informação aos companheiros que prontificaram-se a suprir minha ausência na produção do dia e toda a logística de transporte e arrumação do equipamento ficou a cargo deles e dos roadies.
Quem conhece-me pessoalmente sabe que não suporto ficar alheio à esse trabalho, inclusive o trabalho braçal, portanto, foi frustrante para a minha pessoa não ajudar. Eu só teria que fazer o soundcheck e o show, o que era frustrante ao extremo, acostumado a ser bem atuante nos bastidores, mas...paciência...

Feita a divulgação, hora do Rock, mas com a repentina baixa operacional de minha presença, acometido por uma gripe que surpreendeu-me negativamente. Fiquei frustrado duplamente, porque nosso amigo Luciano Reis de São Leopoldo, fora convidado a vir a São Paulo, para assistir e ser convidado de uma das noites, tocando guitarra e gentil como nosso anfitrião e cicerone em duas ocasiões no sul, agora eu estava fora de combate para retribuir a gentileza, sendo bom hospitaleiro.

Mas tal ausência foi suprida pelos rapazes que levaram-no para conhecer a Rua Teodoro Sampaio, o maior centro de lojas de instrumentos e equipamentos do país, e Rua Santa Ifigênia, no centro, referência para eletro / eletrônicos. Não tenho certeza, mas acho que levaram-no também na Galeria do Rock, visita inevitável para quem gosta de discos. Bem combalido, fui levado pelo Rodrigo somente na hora do soundcheck, que ocorreu dentro da normalidade de sempre no Centro Cultural São Paulo. Tivemos o apoio do iluminador Wagner Molina, que é um grande mestre das luzes e era bastante conhecido no meio, tanto que conhecia a equipe de iluminação fixa da casa e teve portanto toda a cooperação para afinar os spots, conforme os efeitos que estava criando em sua mente.

E o técnico de som seria o mesmo dos anos anteriores, nosso amigo Paulinho, ex-baterista da banda "Cygnus", que militou na cena pesada de São Paulo nos anos oitenta. Tirante o meu estado lamentável de debilidade física, foi um show agradável, com o público não notando com exatidão que eu estava num momento de mal estar físico, com febre, tosse violenta e fraqueza generalizada.

O primeiro show ocorreu no dia 19 de julho de 2002 , sexta-feira e com cerca de 70 pessoas na plateia. Tratava-se de um bom público em se considerando que show em São Paulo às 19 Horas é contraproducente ao extremo pela obviedade de ser a hora do rush...

No dia seguinte, sábado, o relax de se estar em temporada era grande, pois o palco montado de um dia para o outro era uma dádiva para quem sabe a trabalheira que é montar um palco e fazer um soundcheck inicial, da estaca zero. Precisando fazer apenas alguns ajustes pontuais, o soundcheck do segundo show em diante quando faz-se temporada em local fixo, é muito mais ameno. E com isso, sobra tempo para relaxar convenientemente para o show.
No sábado, teríamos dois guitarristas convidados : Xando Zupo e Hélcio Aguirra. Por incrível que pareça, esta seria a primeira vez que eu tocaria com o Xando, efetivamente, pois na prática, eu conhecia-o desde 1984. E sobre o Hélcio, não era nenhuma novidade, pois desde os tempos da Chave do Sol nos anos oitenta, estava acostumado a tocar com ele em diversas circunstâncias, de brincadeiras informais em estúdio, até show tributo (Ufo / Michael Schenker Group e Black Sabbath, tudo isso contado devidamente nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos").
Com um público mais encorpado, foi um show de energia e eu estava um pouco melhor da minha convalescença gripal. Ocorreu no dia 20 de julho de 2002, com cerca de 200 pessoas na plateia.
Fechando a micro tour, no domingo, tivemos mais público e mais três participações especiais. Luciano Reis, nosso amigo gaúcho e que estava acompanhando esta etapa da nossa tour, tocaria, além de uma micro apresentação da banda Quarto Elétrico, como uma espécie de abertura do show, tocando 20 minutos num show de choque.

Tínhamos apreço por essa banda com a qual interagíamos desde 2001, e cujos laços de amizade foram selados ad eternum, eu diria, pois o Ivan Scartezini seria meu companheiro no Pedra por dez anos; Marcião Gonçalves é nosso super amigo até os dias atuais e mesmo não convivendo muito conosco, Denny Caldeira , também. Isso sem contar o Thiago Fratuce que fora meu aluno nos anos 1990, por muito tempo. E haveria mais uma atração importante e sem nenhum demérito aos artistas já citados, muito emocionante para a Patrulha e seus fãs : Dudu Chermont.

Dudu fora o guitarrista da Patrulha em sua fase de ouro no fim dos anos setenta e início dos oitenta. Ele não gravou o disco de estúdio com o Arnaldo, cujo guitarrista era John Flavin, ex-Secos & Molhados e Humahuaca, mas entrou a seguir na banda, e fez história ao participar dessas duas fases de ouro da banda. Infelizmente, Dudu não estava bem e apresentava um quadro de debilidade física muito acentuado, que arrastava-se há anos. Muito envelhecido e com nítidas limitações decorrentes da saúde fragilizada, Dudu não tinha mais o aspecto de outrora, ficando quase irreconhecível.

Lembrava dele na Patrulha, mas minha memória retroagia antes até, vendo-o entre 1976 e 1977 tocando no Santa Fé, banda do ex-vocalista do Made in Brazil, Cornélius Lúcifer. Quando no soundcheck do domingo, ele deu os primeiros acordes de sua participação especial, fiquei arrepiado (e era a música "Arrepiado", curiosamente), pois tocava e cantava como se o tempo não tivesse passado e indo além, passava por cima de sua condição de saúde que era péssima.

Parecia que estava tocando normalmente na Patrulha em 1980, no auge de sua forma, com uma execução à guitarra e também na voz, perfeita. Bem, na hora do show, ocorreu sim uma comoção entre os fãs mais veteranos da banda que suspiraram de saudade em ver o grande Dudu Chermont assumindo a guitarra ao lado do Marcello e com o Rodrigo indo aos teclados. Era um verniz e tanto ter a glória da Patrulha do passado, mesclada ao presente da nossa formação então, e poeticamente falando, nada mais "Chronophagia" do que isso...

O show foi o mais emocionante, exatamente por termos um membro histórico da banda fazendo sua participação como convidado.

Foi no dia 21 de julho de 2002, e com 250 pessoas na plateia.

Estava encerrada oficialmente a turnê do álbum "Chronophagia",  e que levou de carona também o lançamento da coletânea "Dossiê Volume 4" na sua esteira. Continuaríamos fazendo muitos shows e micro tours interioranas e interestaduais até março de 2003, quando enfim lançaríamos um novo álbum.


Continua...

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