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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 1 - Preparando uma Armadilha em Nome do Sonho - Por Luiz Domingues

Para falar da Patrulha do Espaço, seria preciso recuar no tempo e falar do final de 1997, quando deixei o Pitbulls On Crack, e criei com Rodrigo Hid, o Sidharta. Não culminou numa banda propriamente dita, com carreira isoladamente consolidada, mas foi um período da minha vida que relembro com muito carinho, pois foi uma fase de extrema euforia, criatividade, e o desabrochar de dois jovens talentos (Marcello Schevano e Rodrigo Hid), além de proporcionar meu reencontro com José Luiz Dinola, com quem não tocava desde 1987.

Então, posto isso, o Sidharta foi o embrião da volta da Patrulha do Espaço. Toda a história do Sidharta está contada no seu capítulo específico, portanto, por aqui vou resumir o preâmbulo. Em fevereiro de 1999, o Zé Luiz decidiu não ficar mais na banda, sentindo-se descontente com o direcionamento que o Sidharta tinha ao fazer som retrô, radical e propositalmente anos 1960 / 1970.
Especifico essa história naquele capítulo, é lógico. Por isso, pensamos em recrutar um novo baterista que encaixasse-se nessa mentalidade em 100%.  Pensamos em alguns bateristas, e surgiu a ideia de Rolando Castello Júnior, baterista da Patrulha do Espaço.
Como a Patrulha como banda só fazia shows sazonais e com formações improvisadas há anos, e desde os anos 1980 não lançava um álbum de inéditas ( o LP "Primus Inter Pares", de 1992 era praticamente um disco de regravações e uma ou duas músicas novas), comecei a sondar o paradeiro do Júnior, para fazer-lhe essa proposta do Sidharta.

E finalmente achei-o, pois estava voltando para São Paulo após ter morado por alguns anos em Curitiba. Feito o contato telefônico, convidei-o para uma Jam-Session no estúdio onde o Sidharta estava ensaiando, no bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, onde eu e o Rodrigo morávamos. Essa estratégia foi uma armadilha, um ardil que criamos. Sabíamos que ele talvez recusasse uma oferta direta para entrar numa banda "zerada", e com dois integrantes tão jovens e inexperientes como eram Rodrigo e Marcello, naquele ano de 1999.

Nesse específico momento em que o Zé Luiz Dinola deixou o Sidharta, e nós convidamos o Júnior para a Jam em que aplicamos-lhe o "bote", estávamos ensaiando no estúdio "Alquimia", onde bandas amigas como o "Supernova", e o "Soulshine" (o "Pré-Tomada"), também ensaiavam. Ele ficava no bairro da Aclimação, onde eu e o Rodrigo morávamos naquela época. O Marcello morava no Paraíso, um bairro vizinho. 
O Junior contou essa mesma passagem, sob o ponto de vista dele, no texto do encarte que acompanha o CD "Dossiê Volume 4", que foi lançado em 2001.Trata-se daquela série de coletâneas da Patrulha, que ele lançou, contando a história da banda através de um ótimo texto, no book de cada respectivo volume. Por quê não o convidamos direta e francamente a assumir o projeto Sidharta ?
Porque sabíamos que estava descrente e cansado, pelos anos de luta e dissabores na música, e não sei se aceitaria começar a luta da estaca zero, como nós estávamos fazendo. A seguir, esclarecerei na narrativa, como foi essa ideia de contactá-lo, e a estratégia que armamos para impressioná-lo, visto que seria a única maneira de persuadi-lo.

Sabíamos que se o convidássemos usando como argumento a criação de uma banda zerada; sem empresário; sem esquema e sem dinheiro, ele recusaria de pronto, pois já estava cansado dos dissabores da música; as idas e vindas; os fracassos financeiros etc.
E tudo agravar-se-ia se eu dissesse-lhe tudo o que citei acima, acrescido do fato de termos dois garotos muito jovens, e inexperientes no time.

A Patrulha vinha de anos e anos de formações efêmeras e shows sazonais. A última tentativa de uma volta para valer, houvera sido no final de 1990, e logo foi frustrada com a morte do baixista Serginho Santana. Então, para convencê-lo, nós só tínhamos uma chance : impressioná-lo com o repertório excelente que o Sidharta havia preparado, e sobretudo fazendo-o ver o talento dos dois garotos. Porém, era preciso uma estratégia diferente, pois abordá-lo para que ouvisse nossas músicas gravadas precariamente nos ensaios ou convidá-lo a tocar conosco, seria infrutífero. No final de fevereiro, eu encontrei-o no Centro Cultural São Paulo, onde assistimos ao show da banda "Cheap Tequilla", e daí ele disse-me que faria na outra semana, um show tributo ao Keith Moon, numa casa noturna.

Fui com os garotos assistir esse show numa casa noturna de Rock na zona leste de São Paulo, onde curiosamente cinco meses depois, nesse mesmo palco, músicas do Sidharta estariam sendo executadas... mas conto na cronologia dos fatos. Não falei nada nesse show, onde arrastei pelo menos 20 agregados do meu exército de Neo-Hippies da minha sala de aulas, incluso Rodrigo e Marcello.
Isso foi no dia 5 de março de 1999. No dia 7, liguei para o Júnior e disse-lhe que gostaria de marcar uma Jam-session com ele. Ele quis saber o porque disso, e eu esquivei-me, dizendo que queria apenas fazer um som para brincar, descontrair. Ele aceitou, meio desconfiado, mas quis saber o que tocaríamos. Fui lacônico, e disse-lhe apenas que tocaríamos clássicos do Rock. E assim, ficou marcado para o dia 12 de março de 1999, essa jam-"bote"que armamos para impressioná-lo.

Fui buscar o Júnior onde ele estava hospedado, num apartamento em Santa Cecília, perto da estação do Metrô de mesmo nome, e claro que eu notei que ele estava ressabiado, mas limitei-me a responder suas perguntas investigativas com evasivas. No caminho, falei sobre os garotos, que ele não impressionasse-se com a pouca idade deles etc. Os garotos ficaram com a incumbência de preparar o estúdio "Alquimia", montando o nosso set de guitarras e teclados.



No percurso de Santa Cecília até a Aclimação, o Júnior ia especulando... mas eu respondia com evasivas, pois a nossa estratégia era a de deixá-lo fazer-se cativar pela qualidade sonora da banda, sem que entrássemos incisivamente, porque sabíamos que ele estava desanimado e descrente da música e do Rock.

Chegando ao estúdio "Alquimia", eu apresentei-o aos garotos e ele de imediato mostrou-se mais ambientado ao ver que o Marcello usava uma camiseta cuja estampa era o segundo álbum do "Grand Funk Railroad". Certamente era um ponto a mais para confirmar o que eu dissera no carro, sobre eles serem adolescentes, mas 100% antenados no som retrô. Quando estávamos prontos e afinados para começar, a inevitável pergunta dele foi : "o que vamos tocar" ?

Então, o Rodrigo antecipou-se e disse : -"Atenção"...

Essa sacada desconcertou-o, pois era uma música da Patrulha que nem ele tocava, há anos...
Sem transparecer emoção ou estupefação, ele tocou, mas certamente deve ter impressionado-se com a performance afiada de nós três, e as passagens intrincadas daquela música cheia de Riffs e convenções, sendo executadas à perfeição. Seguiu-se "Columbia"; "Bomba"; "Meus 26 anos"; "Ruas da Cidade", quando ele quebrou o gelo, brincando que havíamos tirado só repertório da Patrulha...
Então tocamos vários clássicos do Rock, com aquela estratégia de fazê-lo ver os dois meninos fazendo solos, e base de guitarra, cantando e revezando-se aos teclados. 

Até Jethro Tull tocamos, para ele poder ver o Marcello à flauta.
Mas o auge foi quando tocamos "Inside Looking Out", e "Footstompim' Music" do Grande Funk... aí ele soltou-se de vez e viu o potencial.

Lembro de termos executado "Rock'n Roll" do Led Zeppelin; "A New Day Yesterday" do Jethro Tull; "Can't Get Enough" do Bad Company; "21 Century Schizoid Man" do King Crimson; "Roundabout" do Yes; "Badge" do Cream; "Day Tripper" dos Beatles; "Baba O'Rilley" do The Who; "Let's Spend the Night Togheter" dos Rolling Stones; mais aquelas do Grand Funk que já citei anteriormente, e as da Patrulha. Além de "Hey amigo" d' O Terço.

O Júnior era experiente há tempos e disfarçava as suas emoções...
Não demonstrava nenhuma comoção especial. Ao término de cada música, limitava-se a checar as posições das peças de sua bateria, e perguntar qual seria a próxima. Não foi gravado, mas o Rodrigo fotografou. Ele deve ter os negativos guardados dessas fotos da jam. Mas nenhuma de nós tocando. Deve ter umas duas ou três do final da sessão, com a namorada do Rolando na ocasião, capturando-nos no final, quando estávamos indo embora. E não foi gravado, infelizmente. Não que tivesse importância pela quantidade de covers, mas por ser um documento histórico.

Sem dúvida que foi uma pena não ter gravado essa jam-session inicial, pois seria um documento valioso hoje em dia. Tocamos por duas horas, ou seja, o tempo que alugamos o estúdio, mas pela sinergia criada, poderia virar a madrugada. E depois, eu fui levar o Júnior ao apartamento onde estava hospedado, e "estrategicamente", os meninos foram junto conosco. Deixamos o equipamento e os instrumentos em minha casa, e fomos levá-lo ao bairro de Santa Cecília.

A estratégia era não falar nada diretamente, tratando a Jam como uma atividade meramente recreativa, sem nenhuma segunda intenção, exatamente para despertar nele a vontade espontânea de abordar-nos com outro enfoque. Falamos muito laconicamente que estávamos juntos num projeto de banda nova, e que tínhamos 21 músicas compostas e arranjadas. Então o deixamos na porta do apartamento onde estava hospedado, e ele caiu na primeira isca, pois propôs que esticássemos a noitada num bar ali perto.


Ficamos até as 4:00 h da manhã conversando, e claro, após ficar "alegre", a conversa descontraiu-se e ele ficou contando histórias da sua vida; do início da Patrulha; Made In Brazil; suas andanças pela Argentina e México etc. Mesmo assim, não forçamos nada sobre o Sidharta, nem mesmo o convidando a ouvir as gravações caseiras das músicas. Ficamos rindo e falando dos anos sessenta e setenta, e ao final, despedimo-nos sem combinar nada. Um fator sintomático, no entanto, foi quando num horário bem avançado, ele ficou meio depressivo, e ficou repetindo que não acreditava mais na música, no Rock etc. Era exatamente por esse sintoma de desilusão, que não abrimos mão de mudar a estratégia, e não forçar a barra em nenhum momento. Fomos embora e no caminho, os meninos e eu comemoramos a jam que fluiu musicalmente de forma soberba, mas tínhamos dúvida se ele voltaria a procurar-nos, sabendo que só funcionaria se ele tomasse a iniciativa. A Jam ocorrera numa sexta-feira, e passado o sábado, recebi o telefonema dele no domingo a noite. Queria saber se eu poderia encontrá-lo na quarta-feira, na hora do almoço, numa xerox da Rua Augusta, onde estaria. Pediu-me que não comentasse com os garotos e isso intrigou-me.
Temi que talvez fizesse restrições a pouca idade deles, inexperiência etc.

Na ligação ele foi seco, só marcando o encontro, e sem mencionar mais nada. Já naquele encontro no bar, pós-jam, ele também não deixou transparecer nenhuma emoção, e não havia como falar reservadamente sobre os meninos, pois eles estavam presentes na mesa.

Mas eu sabia que era tudo estratégia da parte dele, pois é claro que havia impressionado-se com a banda. Tanto foi assim, que o jogo foi aberto na hora em que encontramo-nos na quarta-feira subsequente. Não falei nada aos meninos, para não criar expectativas.

Fui encontrar-me com o Júnior, e ele estava numa papelaria da Rua Augusta, xerocando material de portfólio pessoal, com o objetivo de buscar patrocínios para um show que faria, visando comemorar os seus 30 anos de carreira, que completavam-se em 1999. Com a estratégia de não demonstrar emoções, foi falando que estava precisando formar uma banda para servir de apoio em tal show, e se achava que os garotos segurariam essa tarefa. Eu disse que sim, apesar da inexperiência de ambos, tudo seria superado pelo talento dos dois. Então ele começou a perguntar sobre o Sidharta, como conheci os dois, quantas músicas tínhamos compostas etc. Fui falando, mas não esboçando a nossa intenção de pedir-lhe nada.


Então, espontaneamente, ele perguntou-me se tínhamos gravações dessas músicas, ainda que precárias, de ensaios. Eu disse-lhe que sim. Então ele pediu para ouvi-las. Dessa forma, marcamos para o sábado seguinte, uma audição dessas fitas K7, onde ele as ouviria.
Fomos eu e o Rodrigo, dessa vez. Ele começou a ouvir, e com um caderno e uma caneta, ouvia e fazia anotações enigmáticas que não  deixava-nos ver. Limitava-se a perguntar-nos o nome de cada canção. Muitas vezes parava para anotar algo, voltava, e ouvia um trecho em específico, passando para a seguinte. Ao final, agradeceu e disse-nos que faria contato na segunda-feira. Antes disso, chamou-me novamente reservadamente para outra conversa, onde fez mais perguntas sobre os dois.

Estava impressionado, mas forçava para não transparecer. Fazia parte de sua estratégia esse mistério todo. Então, finalmente ligou-me e fez uma proposta : se aceitaríamos a banda de sua festa, e depois do evento, tornássemo-nos a nova Patrulha do Espaço, incorporando esse material do Sidharta. Usou o argumento de que começar um trabalho da estaca zero, seria muito difícil e que com a marca "Patrulha do Espaço", seria muito mais fácil alavancar shows, mídia, e chance de gravar um CD mais rapidamente. Ele tinha razão.

Assim que cheguei em casa, liguei para os meninos e pedi para que viessem visitar-me. Comuniquei-lhes a proposta do Júnior, e eles animaram-se. O fato dele primeiro insistir com essa ideia da tal festa, era mais uma questão de prevenção. Apesar de tê-los visto em ação com seu potencial imenso, tinha dúvidas, exatamente como eu tinha no início do Sidharta. Eu já estava acostumado com os dois, e havia adquirido confiança absoluta com ambos. Mas ele só vira-os na jam, e colocar os dois em cima de um palco, era algo muito mais preocupante, posso entender.

Desta forma, marcamos uma nova reunião para fecharmos o compromisso, e já discutirmos a questão do repertório a ser escolhido. Enquanto isso, o Júnior fazia esforços para concretizar essa festa que chamar-se-ia: "Rolando Castello Júnior - 30 anos de bateria". Fui com ele em vários locais possíveis para a realização da festa, e muitos contatos com potenciais patrocinadores, mas as negativas eram em quase 100%. Conseguimos fechar apenas um patrocínio para realizarmos ensaios, gratuitamente, no mesmo estúdio em que estávamos ensaiando nos últimos momentos do Sidharta, e onde fizemos a Jam com ele, Júnior.

Com a definição do repertório, marcamos o primeiro ensaio para o dia 2 de abril de 1999, no estúdio Alquimia, no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo. Havíamos combinado ensaiar diversas músicas da Patrulha, mais algumas possíveis músicas de apoio para convidados que ele traria à festa, e algumas novas, do repertório do Sidharta, agora oficialmente incorporando-se ao repertório da Patrulha. Mas nos primeiros ensaios, essas novas ficariam de lado, num primeiro instante. Era um dia histórico, pois o projeto Sidharta que nascera timidamente no final de 1997, mais por uma vontade imensa de minha parte de romper com todas as concessões de anos a fio e retomar o sonho primordial de 1976, era cercado de dúvidas. 

O primeiro tijolo fora construido por eu mesmoim e um garoto mal saído da adolescência, chamado Rodrigo Hid. Portanto, era algo muito insípido. Tornar-se Patrulha do Espaço, agregando essa história adquirida de tal banda, foi um grande passo.

     Ensaiando no Estúdio Alquimia, 1999. Acervo de Rodrigo Hid

Creio que o Júnior não tinha receio quanto à musicalidade dos meninos. A grande questão aqui era o receio em torno da pouca experiência de ambos. Temor natural para ele que era experiente, e mal conhecera os dois, mas eu tinha outra visão, pois com quase um ano e meio de convívio com eles no Sidharta, apesar dessa banda não ter feito shows ao vivo, eu sabia que os dois não tremeriam diante de uma responsabilidade maior.

                                Acervo de Rodrigo Hid

Além do mais, eles eram garotos, mas já haviam tocado ao vivo em bares; festas, festivais colegiais etc. Por outro lado, fiquei eufórico por ter dado esse destino ao projeto Sidharta, pois tornar essa semente primordial, uma flor colhida com uma história relevante na História do Rock Brasileiro, havia sido um grande passo.

                                  Acervo de Rodrigo Hid

O que era um sonho incerto em 1997 (e de certa forma representava a retomada do fio da meada de 1976 no meu caso), estava revelando-se um triunfo ao precipitar a volta de uma banda com história, e da árvore genealógica dos Mutantes. Portanto, se analisarmos sob o ponto de vista do garoto Luiz Domingues que sonhava ser Rocker em 1976, sem saber tocar uma única nota musical, era significativo demais...


                                               Acervo de Rodrigo Hid

 
Na verdade, se algum vidente tivesse dito-me isso em 1976, eu não acreditaria. Era inimaginável ter a certeza de um dia estar numa banda de porte, descendente direta da árvore genealógica dos Mutantes.

                              Acervo do Rodrigo Hid

Evidentemente que os anos passaram, tornei-me um homem de meia-idade e mediante a experiência acumulada por anos e anos, e somada a toda a gama de vivênciass pelas quais passei, positivas e negativas, claro que minha visão era diferente. Portanto, havia sim essa reflexão de regozijo, mas também a cautela de saber que essa visão edulcorada não cabia mais no frescor do momento.

                                Acervo de Rodrigo Hid 

Nós havíamos abandonado o Sidharta, apenas simbolicamente, pois todo o repertório, e principalmente o conceito do projeto estavam apenas incorporando-se a outra vestimenta. Nesse sentido, o fato do Sidharta ter precipitado a volta da Patrulha poderia ser interpretado como uma fusão que deu a possibilidade do Sidharta subir um degrau, sem ter feito nenhum show na sua história.


                                           Acervo de Rodrigo Hid 

E do lado da Patrulha, uma banda há anos no ostracismo, através de aparições sazonais, e sem criar nada desde a metade dos anos oitenta, a possibilidade de injetar sangue novo, com 21 músicas inéditas na bagagem, dois multi-instrumentistas jovens, e sensacionais, além de toda uma evocação sessenta / setentista que não tinha desde a época de sua fundação em 1977, com Arnaldo Batista no comando da nave. Era portanto, uma fusão muito boa para ambos.

                                   Acervo de Rodrigo Hid 

E os meninos, estavam eufóricos. Claro, eles já eram ultra talentosos, mas completamente desconhecidos na cena musical.
Suas experiências resumiam-se a aparições amadorísticas de bandas de garagem em festinhas; festivais colegiais, e bares onde a audiência era predominantemente formada por amigos, apenas. Em poucos meses de Patrulha, seus rostos já começaram a aparecer em jornais e revistas, shows etc. Mas aí é assunto dos próximos capítulos...

Eu previa dificuldades, sim, mas estava muito confiante no fato dessa formação ser a redenção da Patrulha, que não tinha regularidade desde a saída do Dudu Chermont, em 1985. Eu confiava muito no potencial dos garotos, e tinha a certeza de que eles seriam um estouro. E também no enfoque que evocava a "vibe" 1960 / 1970, trazendo a Patrulha de volta às suas próprias raízes, pois desde 1985, estava numa aura sombria, quase de Heavy-Metal.

Não via a hora de lançarmos um novo disco, e exorcizar esse estigma pesado da banda. Queria dar um fim às camisetas pretas e baixo astral, e trazer incensos, batas coloridas, e o som do Sidharta falando de alto astral, vibe aquariana, e Woodstockiana. O Júnior também sonhava com esse direcionamento, mas não tinha meios de promover isso, graças aos rumos que a banda tomou após 1985.

Tendo que manter a banda como alicerce de sua sobrevivência, foi levando-a na base do som pesado, improvisando formações, e sem pensar em criar nada novo. O Júnior adorou esse pacote que caiu-lhe inesperadamente sobre a cabeça.

                                Acervo de Rodrigo Hid

Apesar de toda essa confiança na banda e no projeto, não tínhamos infraestrutura alguma. Sem empresário; sem dinheiro, sem produtor para correr atrás das coisas. Como nos meses de abril e maio, o Júnior ainda focava seus esforços atrás da sua festa de comemoração de seus 30 anos de bateria, os esforços Pró-Patrulha estavam em segundo plano.

Seguíamos ensaiando e nesse sentido foi bom, pois tiramos um repertório enorme da Patrulha, com músicas de todos os discos. E paralelamente ensaiávamos as novas que eram do Sidharta, e passariam agora a ser o novo material da Patrulha. E nesse quesito, o Júnior era o artista certo para essas músicas concebidas para soar tão 1960 / 1970 como sonhávamos. De fato, logo nos primeiros ensaios, ele imprimiu toda a sua técnica; experiência, e apreço pelas coisas que amávamos.

Uma música como "Ser", por exemplo, passou a soar exatamente como desejávamos, ou seja, com a sonoridade do Grand Funk. Os ensaios então começaram a acontecer no estúdio Alquimia, na Aclimação, zona sul de São Paulo. Estávamos tocando diversas músicas da Patrulha, inclusive as dos dois primeiros discos, coisa que a Patrulha não fazia desde que Arnaldo Baptista saíra da banda, pois nunca mais tiveram formação com os teclados inseridos de forma fixa. Se houve teclado depois, foi como mero apoio ocasional, graças a um convidado ou outro, e de forma esporádica.

Assim que começamos a ensaiar, ainda que o foco fosse para a tal festa, já havíamos incorporado músicas como "Sexy Sua"; "Sunshine"; e "Raio de Sol", do primeiro disco, com o Marcello pilotando o piano com desenvoltura. É claro que o Júnior gostava desse resgate para a banda. Na estratégia dele de não demonstrar emoções, deixava escapar aqui e ali, sua felicidade por ver que não seria uma simples volta, mas sim uma volta em grande estilo, resgatando as sementes primordiais da banda, plantadas pelo Arnaldo.

                                  Acervo de Rodrigo Hid 

E as músicas novas estavam encaixando-se perfeitamente, também.
Portanto não tratava-se de uma volta nostálgica, e caça-níqueis, mas sim, uma volta para valer, com material fresco, e dois jovens talentos de tirar o fôlego. Nessa altura dos primeiros ensaios, o Júnior trouxe sua nova namorada para trabalhar como produtora da banda. Ela não tinha experiência com música, mas tinha experiência como produtora de eventos no ramo das artes plásticas, como exposições e vernissages. Portanto, tinha proximidade com a arte.

                                Acervo de Rodrigo Hid

Os primeiros ensaios eram animados, cheios de gente assistindo.
Meu exército de Neo-Hippies apoiou em massa a fusão do Sidharta com a Patrulha, e foi público certo nos primeiros shows. Lembro-me até de reações engraçadas nos ensaios, como palmas e gritinhos em passagens mais elaboradas. Um ex-aluno meu, chegou a provocar risadas quando num breque brusco de uma música, foi flagrado gritando euforicamente, e olhe que era um aluno da primeira safra de 1987, ou seja, nessa altura, em 1999, já havia passado dos trinta...

Acompanhei o casal Júnior e Claudia em algumas tentativas de fechar um lugar para a tal festa, mas as negativas eram constantes.
Em termos de patrocínios, o mesmo fenômeno, infelizmente. Isso foi minando as esperanças do casal em torno desse projeto, até que o Júnior finalmente descartou-o. Numa reunião com a banda, comunicou que havia desistido da festa, e que focaria na Patrulha. O objetivo seria agora arrumar um lugar para fazermos a nossa estreia da nova formação. Então, ensaiávamos firmes, e tentávamos acertar logo essa data.

Nesse ínterim, o Rodrigo conseguiu em caráter gratuito o estúdio e o laboratório fotográfico de sua faculdade. Um colega dele prontificou-se a fazer fotos promocionais por cortesia, e assim, só pagaríamos os filmes e o material de revelação.

Essa foto acima foi do making off da primeira sessão de fotos que estou narrando. Mas realmente, as fotos clicadas não ficaram melhores do que essa, bastante prejudicada na revelação...

Isso ocorreu mais ou menos em junho de 1999. Fizemos uma quantidade absurda de fotos, aproveitando bem o caráter gratuito da empreitada, mas nenhuma foto foi aproveitada, pois realmente não ficaram boas. O rapaz tinha boa vontade, mas não clicou nada que agradasse-nos. 

Acima, dois clicks dessa sessão que cito, como primeira tentativa de promocionais da noiva formação da banda, em junho de 1999

As fotos ficaram meio caricatas, retratando-nos com roupas sessentistas, mas não tirando o ranço do que mais parecia uma festa a fantasia dos anos sessenta.

Imprimir uma imagem autêntica era importante para o projeto, e não uma caricatura patética para depor contra. Em junho, o Júnior começou a fazer negociações com um salão tradicional de Rock na zona leste de São Paulo, e após diversas reuniões, resolveu-se então por uma data.

Tínhamos enfim, uma data de estreia, o dia 14 de agosto de 1999, um sábado. Mas essa negociação tem histórias engraçadas. Chegou num ponto onde tornou-se quase um acontecimento folclórico negociar com os donos do salão. O fato, é que os donos do salão não colocavam fé na Patrulha como capaz de arregimentar um público interessante. Eram raros os shows ao vivo ali, e para eles, era muito mais cômodo, fazer suas tradicionais noitadas ao som mecânico. Mas acabaram convencidos de que poderia dar certo, e assim, fecharam a data.

Continua...

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