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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 13 - Missão Cumprida na Área 13 - Por Luiz Domingues

Disco gravado, missão na área 13 cumprida. De volta à São Paulo, não tínhamos mais compromissos para os últimos dias de 2003.
Hora de fazer um balanço final desse ano que encerrava-se.

2003 foi o ano em que finalmente concluímos o projeto de lançarmos um novo álbum de nossa formação. Talvez tenha sido o grande feito desse ano para a banda, pois além de ter sido um ponto de honra desengavetar esse projeto que fora tão sofrido para concretizar-se, significou a consolidação de nossa formação.

Não que o CD Chronophagia não fosse marcante o suficiente para demarcar isso na história da banda, mas com um segundo disco, creio que tornou irrefutável o argumento de que nossa formação tornara-se histórica na trajetória da banda, marcando presença lado a lado com a fase inicial com Arnaldo Baptista e igualmente com a fase de ouro do trio Junior / Serginho / Dudu. Portanto, era motivo de orgulho, certamente. Mas por outro lado, tivemos um ano mais difícil no tocante à agenda. Fizemos muito menos shows do que em 2002, isso foi um fato, e também havia um desgaste natural interno, que toda banda atravessa, mais cedo ou mais tarde.

Marcello e Rodrigo já não demonstravam aquela garra inicial que ainda trazia no bojo a sua extrema juventude dos tempos do Sidharta. E já não havia aquela firmeza toda em torno dos ideais aquarianos que norteou a euforia inicial de 1999 e 2000, e claro, o cotidiano e os problemas prementes de viver-se o tempo todo pensando em viabilizar receitas, e lidar com problemas nem sempre ligados à música, forjaram aborrecimentos múltiplos. Cuidar da manutenção de um ônibus não é nada agradável, e toda vez que eu via-me lidando com borracheiros; mecânicos & afins, tratando de assuntos que detesto, pensava que a música passava ao largo; a arte era uma miragem; e o Rock, um sonho distante e apenas forjado no celuloide dos filmes que eu havia assistido no Cine Bijou, nos anos setenta...


Um alento seria esse novo disco, e a esperança de dias melhores, com mais oportunidades, portanto, quem saberia afirmar isso com absoluta certeza, afinal ?



Não podíamos queixarmo-nos da mídia especializada impressa que  tratava-nos com reverência, é bem verdade, e de forma surpreendente, até com algumas ocasiões em que a mídia mainstream notou nossa presença. Mas no frigir dos ovos, era pouco diante de nossas necessidades mais básicas. Sem empresário, e contando com os esforços do próprio Junior, que desgastava-se tremendamente em arquitetar turnês, foi louvável que tenhamos tocado tanto entre o final de 2001, e meados de 2003, mas agora estávamos vivendo um período de seca de oportunidades, e isso gerava tensões múltiplas. Havia uma esperança em torno do novo disco, mas ao mesmo tempo, o desgaste estava grande e foi assim que encerramos 2003, com uma certa esperança de um 2004 melhor, mas ao mesmo tempo, cansados das dificuldades...

Quando 2004 amanheceu no horizonte, tínhamos a esperança de que o novo e ótimo disco que havíamos acabado de gravar, desse-nos novas oportunidades. Mas sendo realistas, sabíamos que o que necessitávamos de verdade era uma revolução por completo no panorama da difusão cultural mainstream para termos espaço, e isso era utópico num país como o Brasil, e naquela época, a mísera fresta que havia à nossa frente como pedaço desse quinhão, estava amarrada com um nicho de bandas da cena "emocore", formada por moleques, muitos deles ainda adolescentes ou recém saídos dessa fase da vida, e controlados por empresários sanguessugas que haviam construído um pequeno império, estruturado como uma autêntica linha de produção de fábrica.

Era monstruoso, mas esses pequenos "Frankensteins" estavam fabricando bandas sob tais características em seus castelos fantasmagóricos e lançando-as no mercado, devidamente amarradas com emissoras de Rádio FM, dispostas a fomentar tal cena fraquíssima, com a qualidade abaixo do aceitável e vendo tais bandas em ação, chegava a dar saudade daquelas bandas mainstream dos anos 1980, que considerávamos fracas demais...
E isso tudo em se considerando tratar-se de uma cena minúscula, porque o mainstream já estava dominado em 99 % pelas duplas sertanejas; o axé da Bahia, o crescente "Funk" dos morros do Rio etc etc.

Portanto, o estrangulamento era total para artistas off-mainstream do nosso tipo, e pior ainda, outsiders em nosso próprio nicho, por sermos considerados "dinossauros" dentro do Rock. Bem, desde que sonhamos com toda a ideologia retrô ainda nos anos noventa, e vivendo os primórdios do projeto Sidharta, sabíamos que seria uma luta inglória, mas as conquistas que tivemos e aí graças à Patrulha do Espaço, que foi de peito aberto nessa estética e queimou a borracha do pneu na estrada, de fato, tivemos muitas alegrias, e os leitores mais atentos hão de recordar-se de que contei-lhes inúmeras vitórias incríveis que tivemos entre 1999 e 2003.

Todavia, a despeito do prazer intelectual e subjetivo que tivemos nessas conquistas, a realidade do cotidiano era massacrante quando a sobrevivência era posta em cheque, e na ponta do lápis, bancar a manutenção de um ônibus; pagar funcionários; bancar a produção de discos & material promocional da banda e inúmeras despesas decorrentes de outros fatores, atormentava-nos. Como consequência natural, o desgaste interno na banda foi acentuando-se e o clima deteriorou-se, com cada componente perdendo a paciência com os demais; irritando-se com posicionamentos contrários em várias questões, notadamente no âmbito gerencial, e isso foi subtraindo a energia, paulatinamente.

Se em 2003, tocamos menos do que nos anos anteriores, creio já ter explicitado esse fato nos capítulos anteriores, mas no desencadear dos acontecimentos, mesmo cônscios de que o processo era inerente à nós, e não causado por falha humana, claro que a chateação gerou insatisfação. Sendo assim, mesmo sendo um disco sensacional e certamente gravado num clima muito legal proporcionado por nossos amigos de São José do Rio Preto, o fato é que não estávamos 100 % bem uns com os outros, e se o áudio desse novo disco ficara sensacional na captura, em comparação com os álbuns anteriores, o clima dentro da banda não era nem 30% igual à empolgação com a qual graváramos o CD "Chronophagia". Eu estava fatigado nessa época e começava a ganhar força dentro de minha cabeça, a ideia de aposentar-me da música. 

Sentia-me sem forças, envelhecido (estava com 43 anos e meio de idade em janeiro de 2004), e absolutamente descrente de que uma banda como a Patrulha, com aquela sonoridade pudesse ter esperanças de manter-se num patamar digno de sobrevivência, que seria o de inserir-se no universo do circuito Sesc / Senac, um verdadeiro porto seguro para qualquer artista basear e gerenciar sua carreira. Se fôssemos uma banda americana ou europeia, tranquilamente que poderíamos esticar a carreira "ad infinitum" num patamar super digno, lançando trabalhos novos regularmente e fazendo shows de qualidade artística, com a infraestrutura que nossa banda merecia e os fãs, igualmente.

Mas apesar de termos feito muitos shows em unidades do Sesc por São Paulo e cidades interioranas entre 2001 e 2003, não serviu como aquele "investimento de carreira" que achávamos que seria, portanto, cada show, mesmo sendo bom (e todos foram, sem dúvida), não deram-nos o passaporte para gozar das benesses dessa instituição, de forma definitiva, como é o caso de muitos artistas medianos que conhecemos e "'vivem" desse circuito seguro, há décadas, e nem vou revelar seus nomes para não comprometê-los, mas quem frequenta o Sesc sabe de quem falo, pois estão sempre agendados e anunciados na programação das unidades, utilizando um rodízio gerencial e logístico, bem rotineiro. Enfim, creio que mesmo que ficássemos confinados ao circuito de pequenas casas noturnas e fazendo exaustivas turnês, como fizemos entre 2001 e 2003, acho que ficaríamos mais firmes em termos de animação pelo trabalho, mas com a queda de agenda em meados de 2003, estava duro manter o ânimo. Bem, explicado o panorama, digo que 2004 começou com nosso tanque de combustível mais baixo, mas algumas coisas ainda aconteceriam no primeiro semestre e relatarei-as, certamente.


Nos meses de janeiro e fevereiro de 2004, o assunto foi a preparação da capa, e a expectativa para marcar as sessões de mixagem do novo álbum. O Junior tomou a dianteira de tudo e comunicou-nos que o pessoal do estúdio "Área 13" sinalizara que em janeiro não haveriam meios de ter agenda para as nossas sessões de mixagem. Portanto, a perspectiva seria apenas para fevereiro.

Cabe destacar que em comparando-se aos problemas que tivemos para concluir o álbum anterior, ".Com Pacto", uma espera desse porte não era nada. E por outro lado, ficamos contentes em saber que o estúdio prosperava, agendando outros artistas para gravar e mixar. Se a nossa participação era a de servir como banda propaganda do estúdio para alavancar seus negócios, melhor ainda se já estavam dando seus primeiros passos para a prosperidade e sem necessariamente depender do nosso disco ficar pronto para servir-lhes de vitrine no métier do Rock. Sobre a capa, o Junior já tinha na cabeça o mote do título do álbum : "Missão na Área 13" seria o seu título.

Mas ao contrário do que esperava-se, apesar de toda a insinuação ufológica que tal título poderia sugerir, ele teve outra ideia para a elaboração da capa, e com outra motivação bem diferente do que esperar-se-ia, com extraterrestres; naves espaciais e afins.
Sendo assim, a ideia proposta foi de retratar-nos na capa, numa situação de metalinguagem. Fazendo alusão aos nossos esforços para mantermo-nos na estrada do Rock, figurativa e literalmente falando, a foto ilustrativa teria que passar tal mensagem. Então, essa discussão suscitou várias sugestões, até se chegar à resolução de retratar-nos numa situação de estratégia militar, simulando uma reunião de cúpula de comandantes, definindo metas de ataque, mediante análise com mapa.

Para quem não sabe, o Junior gosta muito do assunto, e é um expert em Segunda Guerra Mundial, conhecendo muito a história do conflito e muitas nuances da estratégia geopolítica e militar de ambos os lados do conflito, tendo lido inúmeros livros sobre o assunto. Conversei muitas vezes com ele sobre o assunto, em momentos informais na convivência interna da banda, e sabia que ele tinha grande cultura no assunto. Além do mais, buscar um outro mote foi estratégico para quebrar uma rotina, haja vista que a Patrulha já havia usado o mote da ufologia muitas vezes anteriormente. No próprio CD "Chronophagia" essa referência era clara, apesar de haver alguns signos díspares simultaneamente.

Mas isso era explícito mesmo na coleção de coletâneas "Dossiê", que o Junior havia produzido e lançado, com 4 volumes e todas as respectivas capas aludiam ao Sci-Fi de motivação interplanetária, retratado em forma de Comics (História em Quadrinhos). Portanto, louvo a ideia do Junior em ter buscado uma outra solução de capa, fugindo do tema, e ainda mais em se considerando que o título do novo disco era uma tentação para usar-se o tema do Sci-Fi / Ufologia / Naves & ET's etc etc...
Mais ou menos no fim de janeiro, o Junior conversou com nossa amiga, a fotógrafa Ana Fuccia, e começou a planejar a sessão de fotos para essa capa, e que fatalmente serviria para extrair-se fotos promocionais necessárias no processo de divulgação do álbum.

Para a sessão de fotos que comporia a capa do novo álbum, Junior e a Claudia esmeraram-se para criar as melhores condições possíveis para a fotógrafa Ana Fuccia trabalhar, numa locação ao ar livre.
Providenciaram guarda-chuva fotográfico; iluminação; e rebatedores de luz, além de pensarem na direção de arte, com objetos de cena que fariam a composição da ilustração principal.
Entre nós, a orientação era para vestirmo-nos a vontade, usando figurino de show, mas evitando a cor preta, quebrando a ideia do PB radical que norteou a concepção da capa do álbum anterior.

Tudo ocorreu numa noite de um dia útil, creio que era uma terça-feira, não anotei a data precisa. O ambiente era uma laje agradabilíssima na residência de Junior & Claudia, que era um sobrado amplo, provavelmente uma edificação dos anos trinta ou quarenta do século passado, com vários patamares. Tal laje ao ar livre era um espaço livre, intermediário entre a entrada da residência e o portão que dava acesso à rua. Dava para promover festas ali e de fato, o Junior comemorou seu aniversário em 2001, com uma festa ali realizada.

A ideia seria que Ana Fuccia fotografasse-nos por cima, mostrando-nos em volta de uma mesa, simulando uma discussão de estratégia militar, e na mesa, um mapa ficaria em destaque.
Para buscar tal ângulo, Ana enquadrou-nos da janela de um cômodo no primeiro patamar da residência, e claro, ali fez inúmeros clicks dessa tomada básica, da qual sairia a ilustração principal da capa. Muitas fotos alternativas foram feitas, e uma sessão de promocionais foi realizada também, aproveitando a ocasião.

Sobre os objetos de cena, o destaque obviamente era o mapa do estado de São Paulo, estilizado com a figura de uma moça ("a paulistinha", segundo a tradição do Partido Republicano Paulista), onde um suposto lenço e parte de sua própria cabeleira, ajudava a dar o formato de nosso estado. Tratava-se de um mapa muito antigo, e pertencente ao extinto "PRP" (Partido Republicano Paulista), fundado em 1873, e que apoiou totalmente a revolução constitucionalista de 1932, objeto de uso desse singelo mapa.
Uma lupa; um par de baquetas; um pote; esquadro; palhetas de guitarra; uma chave de afinação de bateria; um pequeno castiçal com uma vela acesa... enfim, a ideia era aludir à banda, mas com toda uma aura de estratégia militar.

A mesa em si, era de fato antiga também, e nos fora emprestada de um bar temático e localizado no bairro vizinho, com Cambuci, cujos donos eram amigos do Junior. Não sei precisar, mas acredito que era uma mesa dos anos 1940, como quase tudo que decorava tal estabelecimento, e portanto, foi uma boa ideia que o Junior teve para compor a cena da ilustração. No cômputo geral, o disco pendeu para o amarelo e o marrom, como tonalidades principais, muito pela concepção das fotos, buscando o amarelado da luz diáfana. Foi uma opção da fotógrafa Ana Fuccia, e acho que ficou bonito.



Sobre o encarte, toda a sua criação ficou a cargo do Junior.
Acho que ele escreve muito bem, e de fato, para quem já leu os livros que acompanham os quatro CD's da coleção "Dossiê", onde toda a carreira da Patrulha é retratada do primeiro disco pós-Arnaldo Baptista, ao CD Chronophagia, há de recordar-se que o texto contando a história da banda é minucioso e tem uma narrativa realizada com carga poética e plena de emoção.
Acho esse texto tão bom, que acredito que mesmo quem não conheça a carreira da banda, fatalmente acaba interessando-se em conhecer, cativado por ele. Portanto, mesmo sendo público e notório que eu gosto de escrever e participei desse processo de preparar texto para encarte de quase todos os discos que gravei com outras bandas, acho que ficou em boa mãos esse trabalho.

Junior começa  falando da missão da banda e toda a concepção desse disco galgou-se nesse mote, falando de um compromisso com o Rock, espalhando-o aos quatro cantos, daí a vocação pela estrada que essa banda sempre teve. Após comentar rapidamente sobre como fora o ano de 2003 para a banda, sob o ponto de vista do disco anterior, mergulhou numa boa explicação sobre como surgiu a oportunidade de gravar o disco em si, e ainda teve presença de espírito para fazer várias conjecturas sobre a coincidência em torno do número "13", para fazer inveja ao "velho lobo", o mestre Zagallo.

Numa forma peculiar de citar a banda, usou uma nomenclatura não usual para descrever um a um e no meu caso, escreveu : "Baixos soberbos, Rickenbacker; Fender e vocais"...
Tomei como elogio duplo, fazendo menção à minha criação pessoal e performance em cada canção e também à qualidade de meus "meninos" de 4 cordas. No mais, as informações técnicas sobre o estúdio; seus técnicos; a produção da capa etc. Bacana a menção ao "Seu" Wagner", o valente motorista / mecânico da nossa nave azul e também aos roadies da banda, Samuel e Daniel. Michel Camporeze Téer, que era webdesigner da Baratos Afins, e da banda "Dr. Sin", deu uma ajuda substancial na diagramação da capa. A seguir, analiso a parte musical, faixa a faixa.


Apesar de ter sido um material composto e arranjado às pressas, as canções que formam o "Missão na Área 13", são muito bonitas, e dignificam o trabalho de uma forma muito contundente. Creio que mesmo numa situação de pressa e com o astral entre os componentes em franco processo de deterioração pelo desgaste natural que uma banda com cinco anos de atividades apresentava, a parte artística não só manteve o nível dos trabalhos anteriores, mas creio que superou-os em muitos aspectos. A despeito de achar o álbum anterior, ".ComPacto", muito bom, acho que "Missão na Área 13" superou-o e chegou ao patamar do penúltimo, "Chronophagia".

E isso era quase um fenômeno, na medida em que já expliquei amplamente que o "Chronophagia" fora concebido com toda uma aura plena de ideologia e sobretudo, com muito carinho. Isso sem mencionar que o grande bojo do repertório fora criado com um tempo elástico, tratando cada música como uma gestação de um filho, passo a passo, com planejamento etc e tal. Portanto, ao atingir tal grau de excelência artística, o "Missão na Área 13" surpreende pelo fator da absoluta pressa com o qual foi concebido.

Sinto-me constrangido em falar, mas a despeito de estar faltando com a ética e a modéstia, um fator não pode deixar de ser observado : o talento de Rodrigo e Marcelo como compositores, era / é, absurdo. Tanto quanto ambos são monstruosos na capacidade de dominar vários instrumentos, é também o seu talento para compor; arranjar, e igualmente para escrever letras.

Portanto, artistas completos que são, executam todas as funções da criação e performance musical com um grau de excelência inacreditável, e isso explica a razão pela qual a toque de caixa, um repertório inteiro foi tirado de uma cartola de mágico e num espaço de tempo exíguo e pasmem, tratando-se de um apanhado de canções sensacionais e multifacetadas, bem ao estilo da proposta do álbum Chronophagia, onde as nossas influências musicais calcadas em inúmeros aspectos de um enorme leque aberto, explodiram no disco. Falo sobre as canções, agora...

Falo sobre as canções, agora...

 
"Rock com Roll" do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=yuGB3y3B3U0
 
1) Rock com Roll (Marcello Schevano - Rolando Castello Junior)
 
Riff ganchudo, lembra bastante o Hard Rock setentista de bandas como o "Bachman Turner Overdrive"; "Blue Oyster Cult" e "Foghat", ou seja, apesar do peso e da contundência instrumental absurda, tem um quê de pop, por incrível que pareça...

As duas guitarras trabalham com uma composição de sobreposições muito inteligentes, como se tivéssemos ensaiado-a à exaustão, ou mesmo se a tocássemos ao vivo nos shows, há tempos, mas como já esclareci antes, não era o caso. Marcello e Rodrigo acertaram-se em pouco tempo e ficou tudo espetacular, a meu ver. Junior arrebenta como de costume, com uma condução mega inspirada e suas costumeiras viradas impossíveis. Não gosto do som do bumbo logo no começo, fazendo acentos ainda com a ausência, mas não pelo arranjo e muito menos pela performance dele que é perfeita, mas pelo timbre que deixou-o "latoso". Exagerando muito na sensação do "Kicking", mas creio que isso tenha ocorrido na masterização que trouxe uma sonoridade muita aguda para o disco inteiro e aí, prejudicou especificamente o bumbo, nessa música, justamente pelo fato dele ter ficado proeminente pela ausência da banda naquele trecho. No caso do baixo, usei o Fender Precision e assim como tudo ficou agudo ao extremo por conta da masterização, ele nunca soou tão agudo, em nenhum outro disco que gravei, usando-o. Alguns graus menos, teria ficado melhor a meu ver, mas também não posso queixar-me de ouvi-lo assim tão agressivo. Parece o baixo do Phil Lynott ("Thin Lizzy"), mas elevado ao cubo, cortando como uma lâmina de tão afiado que ficou. Sobre o meu arranjo pessoal, fiz uma frase de difícil execução na parte da introdução, que também serve ao refrão, e naquela rapidez e com aquele timbre agudo, impressiona, admito. No restante, fico mais comedido, numa condução de Rock'n Roll tradicional, recorrendo à escalas cinquentistas, mas acho que era o que a música pedia e me dou ao luxo de usar o recurso de passar pela 9ª; 9ª aumentada e décima, um recurso estilístico mais usado nos anos setenta, e que gosto muito (obrigado, Herbie Flowers !!). Os solos e contra solos dos nossos guitarristas são ótimos, gosto muito. Tem um interlúdio com a base deixando acordes soltos, muito legal e o solo é bastante melodioso. O slide no fim é muito criativo também. O vocal do Marcello é bem no seu estilo de voz, com aquele grave natural que ele tem, mas rasgando, quase chegando na rouquidão. Os backing vocals estão muito precisos e por incrível que pareça, minha voz parece de forma cristalina, e por força da natureza, eu entre os três cantores da banda era o que tinha a menor emissão natural e por isso sempre evitei cantar solo, apesar do Rodrigo sempre ter incentivado-me a fazê-lo. Sobre a letra, acho que é uma boa sacada e apesar de alguns clichês, que eu não escreveria se fosse o seu autor, acho o mote bom. Tal letra surgiu de uma ideia tirada de uma resposta que eu dei certa vez num programa de TV, que gerou risadas generalizadas. Indagado sobre o que eu achava de bandas moderninhas que faziam "misturas" inusitadas em sua obra, eu ironizei, respondendo que a Patrulha também fazia uma mistura insólita : misturávamos "Rock com Roll"...

Tal piada desconcertante fora proferida muito tempo antes, mas o Junior havia adorado a ironia implícita e que batia nos críticos buscadores de artistas novos, não pela qualidade de seu trabalho, mas pela simples menção de ser "esquisito", propositalmente...
 
2) Vou Rolar (Marcello Schevano - Rolando Castello Junior) 
"Vou Rolar", do áudio do Disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=fPXEQ0q5LX4

Essa música tem uma letra que eu gosto bastante, pois tem um significado interno para todos nós que vivemos essa banda nesses quase seis anos em que ficamos juntos. Fala da estrada, e sobretudo do que fazia valer a pena todo o esforço e sacrifício pessoal de cada uma para fazer turnês exaustivas e num patamar de estrutura de artista underground e não dos mega stars, ou seja, o prazer de chegar numa cidade e deparar-se com a alegria dos fãs, que desconhecendo seus problemas para poder concretizar a chegada ali, respondiam-nos com sua emoção. São citadas as cidades de São Carlos / SP; São José do Rio Preto / SP; Chapecó / SC e São Leopoldo / RS, de forma explícita, onde sempre fomos ovacionados por plateias rockers quentíssimas. Sobre a parte musical, trata-se de um riff mega ganchudo, lembrando o "AC/DC" em sua introdução, mas tem outras influências ali. Acredito que a intervenção do slide deixa algo do "Uriah Heep", claramente. A condução "tribal" criada pelo Junior, é sensacional e tem um peso mastodôntico, lembrando muito o Roger Taylor em suas intervenções mais Hard-Rock, nos primeiros discos do "Queen". A passagem para parte "A" traz um peso impressionante, lembrando o som do "UFO", e deixa-me com a impressão de que uma divisão "Panzer" está passando por cima do peito. Gosto do interlúdio que traz uma dinâmica, e a intervenção do baixo fazendo um looping com a cabeça do acorde sempre numa nota só, e as demais intercalando-se em quinta justa, quinta diminuta, quarta justa...
Sobre o baixo, o Fender Precision roncou forte mais uma vez. Menos ardido que o da faixa anterior, mas não muita coisa, ele rasga com um agudo impressionante, metálico. Inevitável não lembrar-se mais uma vez do som do baixo do Phil Lynott. A opção por abrir o disco com duas músicas desse punch, no limiar do Hard-Rock, e ambas com a voz rasgada do Marcello foi ousada, mas pensando num público bem fã da banda, acho que agrada em cheio. Em termos comerciais não teria sido uma boa escolha, mas uma banda como a Patrulha nem pensava em agradar alguém que não fosse o seu público cativo, portanto...

3) One Nighter (Marcello Schevano - Rolando Castello Junior)

"One Nighter", do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=itgjuo8yyW0

Aqui, a opção é um Funk Rock bem setentista, e é inevitável não se lembrar de bandas como "James Gang"; "Aerosmith"; "Trapeze", e o próprio "Deep Purple" em sua fase Mark III, mas sobretudo, Mark IV. O riff inicial é bem Aerosmith, com peso de Hard-Rock, mas trazendo o swing da Black Music. O peso do baixo nesse riff é absurdo e com o brilho do Fender Precision, ficou matador. Nem o Tom Hamilton creio ter gravado com um Precision nesses termos, embora geralmente nos discos do Aerosmith e principalmente nos primeiros, dos anos setenta, era algo nesse patamar. A parte "B" explicita o lado mais "Trapeze", e aí é funkão setentista mesmo, sem concessões. Muita guitarra "cutucada" e o baixo swingando forte, com o Precision roncando forte e lembrando bastante o som do Glenn Hughes. O Junior "swinga" forte, lembrando bastante a quebradeira do saudoso Pedrinho Batera ("Som Nosso de Cada Dia"), mas com suas costumeiras viradas violentas, é claro. Tem um interlúdio para um solo que é bastante dentro do swing do Funk-Rock, mas com um solo de uma delicadeza ímpar, extremamente melodioso. De minha parte, faço algumas evoluções inspiradas em bandas funk setentistas como o "Funkadelic / Parliament"; "Kool & the Gang"; "Lafayette"; "Mandrill"; "Earth, Wind & Fire" e acho que "ornou" bem com o espírito da canção. Na parte "A", o Marcello canta, rasgando como nas músicas anteriores e finalmente o Rodrigo intervém com uma voz solo, levando a parte "B". Ambos cantaram muito bem, cada um no seu estilo. Não aprecio a letra, pois acho que cai na vala comum de muitas bandas que insistem em temática sexista / machista / "porcochauvinista" etc etc. Acho que destoa dos princípios que nortearam o clima do "Chronophagia", mas era o tal negócio, o clima já não era de união total na banda em torno desses ideais e escorregadas desse tipo eram até compreensíveis. OK, garotas "One Nighter" são comuns nos bastidores de bandas de Rock, principalmente em longas turnês, mas do jeito que a canção desenvolveu-se, parece que éramos americanos e nosso ônibus carregava um harém nas turnês, e claro que isso não era a nossa realidade de Rockers tupiniquins...
Apesar disso, é divertidíssima a intervenção vocal do Junior ao final da canção, falando "One Nighter" em tom jocoso e com aquele vozeirão grave, de fato ficou engraçado e parecendo o Barry White.


Tanto que ele mesmo brincou com isso e citou tal cantor na ficha técnica ("vocal Barry White"). A risada foi absolutamente espontânea ao final. E durou muito mais que os poucos segundos que ficaram registrados no disco. Contagiou o estúdio inteiro e demorou para pararmos de rir, pois foi engraçado ao extremo.

4) Trampolim (Rodrigo Hid)

 
"Trampolim", do áudio do disco :
Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=VfhryfcA95w

Finalmente uma canção para abaixar a adrenalina, aqui sim, o clima "Chronophágico" renasceu. "Trampolim" trata-se de uma das mais belas canções da nossa formação inteira, a meu ver. Rodrigo sempre trazia uma canção "Beatle" na manga, em todo disco, mas desta vez, superou-se, e digo isso sem nenhum demérito às suas canções de discos anteriores que são belíssimas, mas "Trampolim" é realmente uma que poderia estar em qualquer disco dos Beatles, ou do Paul McCartney solo, pois é de uma qualidade melódica e harmônica incrível. Tudo é bonito nela. Desde a introdução, com a harmonia doce levada ao violão, apoiada pelo slide brilhante, tecendo uma voz de guitarra extremamente melodiosa, das mais inspiradas. A interpretação vocal do Rodrigo é perfeita. Lembra Paul McCartney é claro, mas tem muito de Rock brasuca setentista, e também da MPB hippie e maravilhosa dessa década. Gravei com Rickenbacker e isso acentuou ainda mais o McCartney explícito, embora eu tenha recorrido à chave de captadores para baixo, explorando o médio / agudo mais ao sabor "Prog". Nesses termos, para ouvidos mais atentos, vai lembrar o som do Beto Guedes, podem reparar. Gosto muito não só do timbre do "RK", como as soluções que criei para compor minha linha de baixo. E para realçar ainda mais o McCartney, a entrada do órgão Hammond ao final lembra "Maybe I'm Amazed", e a interpretação vocal do Rodrigo explode, inclusive com a aparição de um segundo canal com um vocalise desenhando uma melodia diferente. O Junior montou uma bateria perfeita, com apenas pontuais intervenções mais fortes, realçando a melodia. Marcello arrebenta no slide, sem dúvida uma de suas melhores criações de contra solos em todos os discos da Patrulha em que ele gravou. A letra é linda, e aí sim no espírito com o qual unimo-nos ainda fora da Patrulha, eu; Rodrigo & Marcello e criamos o projeto do Sidharta, com toda aquela atmosfera 1960 / 1970. Rodrigo usa da poesia e da metáfora com muita propriedade, mostrando-nos mais uma vez que também é um poeta, e ali, no subliminar, tem uma dose de espiritualidade sutil em algumas colocações.

"Estou chegando na ponta de um trampolim,

O mergulho vai ser para dentro de mim

Na minha mente paira a eterna ideia da missão, pois cada passo é um passo e cada tropeço, a lição

A vida é um novelo de lã, e eu...o gato a brincar com moinho de vento"


5) Quando a Paixão te Alcançar (Marcello Schevano - Rodrigo Hid - Rolando Castello Junior)

Mais uma canção com acento de Funk-Rock, mas aqui mais próxima da Soul Music. Tem muito balanço, e uma sensualidade implícita que remonta de certa forma ao trabalho solo de Rod Stewart nos anos setenta. Começa com uma insinuação de guitarras como se fosse uma jam session livre e nesse caso, com o som "apodrecido", como se estivesse sendo escutado num radinho de pilhas com as frequências esmagadas pelos falantes "liliputianos" desse tipo de aparelho sonoro. Mas quando começa para valer, tudo clareia e a banda entra com peso e timbre, naturalmente. Entrecortado ritmicamente, lembra bastante o som do "Santana", ainda mais com a presença de uma percussão descoladíssima que o Junior concebeu e gravou com a apoio do nosso amigo Junior Muelas. Com Cowbell e o Guiro (este último instrumento, no Brasil, costuma ser chamado de "Reco Reco"), o balanço que essa música ganhou foi impressionante, e tornou-se mesmo um atrativo e tanto para a banda. As guitarras "cutucam" o tempo todo e o baixo segue na linha da Soul Music, buscando o máximo do swing. Gravei com Fender Jazz Bass, buscando o registro mais grave, aveludado, principalmente pensando nesse sabor de "Soul Music", mas o baixo ficou com um brilho agudo além, graças à masterização, todavia não queixo-me, porque ficou incrível, mesmo não sendo exatamente o timbre que eu planejava. Portanto, tem o peso normal de um Jazz Bass, mas com um metálico brilhante incomum, porém muito bonito, em minha opinião. Em alguns momentos, o Junior improvisou uma batida bem Deep Purple, ao estilo "You Fool no One". Foi improviso mesmo em sua gravação e quando gravei o baixo separadamente, claro que realcei isso, fazendo um desenho de reforço rítmico e usando tônica e oitava. E acho que ficou muito bonito. Tem um interlúdio para a intervenção de um solo em duo, que é um primor na minha opinião. Ali, baixou como incorporação mesmo, o espírito do "Wishbone Ash", e é tão bonito que toda vez que eu escuto, fico torcendo para alongar-se, mas infelizmente é uma parte curta, com três módulos apenas, com direito a uma subida de tom, na terceira repetição. Sutil, mas linda igualmente, é a presença de um piano Fender Rhodes nesse trecho. Ao final, o Marcello gravou um solo curto, mas eficiente de Sax. Sua incrível capacidade para dominar inúmeros instrumentos mais uma vez trouxe esse brilho extra para a banda, certamente. A interpretação vocal do Rodrigo é boa, como sempre, porém mais uma vez acho que a letra deixa a desejar. Tratando de sensualidade, falando de conquistas noturnas etc, não era a melhor solução para escrever-se para o meu gosto e ainda pensando em princípios que estavam esvaindo-se nessa fase da banda, infelizmente. Mas entendo que a música tinha uma sensualidade implícita, e falar de gnomos ou seres extraterrestres talvez destoasse de sua intenção.

6) Tão Perto Tão Distante (Marcello Schevano)


Veja abaixo um vídeo montado por um fã, provavelmente para homenagear sua namorada, pelo teor das fotos editadas, mas bacana pela iniciativa de usar nossa música como sua inspiração romântica.

Eis o Link para assistir no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=dUIrdHqi3u8 



E o áudio da canção, direto do CD oficial: https://www.youtube.com/watch?v=3qz4PaJWF_U

Quando o Marcello mostrou-nos essa canção nos ensaios para definir o repertório desse disco, claro que a tratamos como a uma composição fortemente inspirada no Prog Rock setentista, mas em alguns aspectos, ela tem muito a influência de Southern Rock, e nessa junção bastante improvável, acho que acertamos a mão no arranjo, usando as duas influências com coesão. Bem, assim como "Trampolim" do Rodrigo, "Tão Perto Tão Distante" é também uma canção belíssima, pela melodia, harmonia, letra e arranjo final.
Acho-a uma das melhores do disco, com muito sentimento e profundidade. Claro que para quem é fã de estéticas dos anos setenta, só de ouvir a introdução com um órgão Hammond pontuado pela caixa Leslie, já desperta a simpatia imediata. O piano acústico desenhando por baixo é belíssimo. É uma sutileza mixada para ficar quase imperceptível, mas convido o leitor a prestar atenção nesse detalhe. O Rodrigo desta vez é que pilotou os contra solos de slide e brilhou muito. Muito lindos os desenhos que criou.
E é na parte B que mais parece-se Southern Rock americano, lembrando bastante o som do "Allman Brothers Band". Gravei com Rickenbacker, mais pensando em Prog Rock inglês do que Southern Rock americano, mas se tivesse optado pelo Fender Precision, acho que teria sido correto também. Sobre o "RK", o timbre agressivo deixou-o tão "RK", que nesse caso, acho que dei sorte com a masterização que realçou agudos no resultado final. Nem era o caso pela docilidade da canção (com exceção do solo de Hammond, mais proeminente), mas ficou espetacular. Nos discos do Pedra, o som do meu "RK" ficou bom, mas acredito que neste disco da Patrulha, alcancei o melhor resultado sonoro com tal instrumento, mesmo que tenha sido um golpe fortuito da sorte, graças ao efeito involuntário da masterização final. Um lindo solo de Hammond executado pelo Marcello, lembra bastante o som de bandas Prog britânicas. É Rick Wakeman em dose maciça...
Intervenções pontuais de sintetizador, são sutis, mas estão lá, basta prestar atenção. A interpretação mais suave do Marcello que mais contrastava com vocais mais rasgados, lembra bastante a voz do Tim Maia em baladas Soul. Gosto bastante. Letra com uma certa intenção romântica, mas acho que o Marcello foi feliz e não correu nenhum risco de soar piegas, um perigo constante para quem propõe-se a abordar o tema.

7) Universo Paralelo (Marcello Schevano - Rodrigo Hid - Luiz Domingues- Rolando Castello Junior)


"Universo Conspirante", do áudio do disco :


Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=LDcfa4iB8i4


Essa era a única música que tínhamos antes de reunirmo-nos para definir o repertório do disco e até já a tocávamos nos shows, em 2003. Fruto de uma jam, foi criação coletiva, daí os nomes de todos na assinatura da composição, embora o riff primordial tenha sido uma ideia do Marcello. Bem, aqui trata-se de Blues Rock, mais ou menos na linha de "São Paulo City", do disco anterior, mas com certos elementos do Jazz Rock em sua constituição. O riff é poderoso e as partes "A" e "B" são muito fortes, com uma intensidade impressionante. A linha melódica costurando o riff e cantada em coro por nós três (eu, Marcello e Rodrigo), no refrão, tem uma força dramática enorme. Gosto bastante da parte "A" cantada pelo Rodrigo, também entrecortada no Riff. Tudo soa poderoso na música, com um peso incrível, e o solo tem uma parte feita em duo, mais uma vez lembrando o Wishbone Ash, mas aqui com mais peso do Blues Rock do "Mountain", "Blue Cheer" etc.
A letra, como já revelei em capítulo anterior, foi escrita no último dia de nossa permanência no estúdio / chácara "Área '13".
Lembro-me do Junior finalizando-a ao ar livre, buscando inspiração no bucolismo ali presente. Contudo, a letra nada tem de "silvestre", e pelo contrário, é densa, super urbana e tem como tema a teoria da conspiração, vista de forma generalizada, poder oculto e manipulação...
Acho-a uma letra forte e que condiz com a densidade da música.

8) Phrâna (Marcello Schevano)

 

Eis o link para ouvir a canção no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=9yWjB_34YQ4 

Essa canção ultra prog-Folk e hippie ao extremo, o Marcello havia composto há muito tempo. Mas nós nunca havíamos tido tempo para dedicarmo-nos a ela anteriormente. Reputo ter sido uma ótima ideia incluí-la no disco, pois é de uma beleza incrível, super a ver com o espírito perdido na banda, e seu arranjo ficou maravilhoso.
Canção em 6/8, mais ou menos resgatando a linha de "Céu Elétrico", tem aquele sabor Prog Folk setentista e evoca também o Folk tupiniquim, com o Rock rural de "Sá; Rodrix & Guarabyra"; "Secos & Molhados"; "Bendegó"; "Flying Banana"; "O Terço" e tantos outros exemplos setentistas sensacionais que curtíamos. O trabalho de violões de Rodrigo e Marcello é magnífico. Fazem tantos dedilhados inspirados que chegam a lembrar o som flamenco e intrincado de Paco de Lucia e congêneres. Meu Rickenbacker falou alto mais uma vez. Aquele médio / agudo encorpado que ali gravei, é um dos melhores sons de "RK" que já gravei na vida.
Gosto muito das sutis percussões que estão ali inseridas, auxiliando a bateria corretíssima que o Junior criou. Marcello canta-a com intensidade e os backing vocals são muito bonitos. Tem uma intervenção rápida de flauta do Marcello, num micro solo.
A letra é toda calcada em espiritualidade de viés hippie e buscando referências na Índia. Fala em "prana", a energia vital que espalha-se no ar e através da respiração, segundo os yogis, é passível de ser absorvida por qualquer pessoa, promovendo o seu bem estar.
Tenho uma séria dúvida sobre o título, em termos de ortografia. Creio que a maneira correta de escrever-se seria "prana", sem o "h" adicional e o acento circunflexo na primeira letra "a". Em sânscrito, transcrito em caracteres ocidentais, existiria um acento exótico para nós, sobre a primeira letra "a", algo como um "underline", mas do jeito que o Marcello quis que ficasse, "Phrâna", receio não fazer sentido, e pode até induzir algumas pessoas a interpretarem a junção "PH", com a fonética antiga de "F", chamando a música de "Frana", erroneamente. Paciência...

9) Anjo do Sol (Rodrigo Hid)
 

Eis o áudio oficial de "Anjo do Sol" do disco "Missão na Área 13" e o seu link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=aZQsaGJ_vPg

Eis aqui um tema eminentemente Prog Rock. Rodrigo trouxe-o praticamente pronto na cabeça e só montamos as parte da suíte, arranjando-a, paulatinamente. Bem, como peça tipicamente "prog" setentista, tem muitas imagens sobrepostas, como num grande mosaico. Sua introdução ao piano é muito bonita, trazendo uma harmonia um tanto quanto melancólica, ao estilo do "King Crimson", e eu sei o quanto a obra do grande Rei Escarlate influencia o Rodrigo bem, e ainda bem...
Seguem-se parte de intensa massa instrumental. Logo de início, ao sair do piano solo, a banda mergulha numa progressão de dois acordes sob aceleração total, e que lembra bastante o trabalho da banda italiana, "Banco Del Mutuo Soccorso". A seguir, partes diferentes propõe mudanças frenéticas. Uma rápida intervenção que lembra o "Emerson; Lake & Palmer", emenda-se em um passeio de órgão Hammond, bastante ao sabor do "Focus" e do "Atomic Rooster". Convenções muito rápidas e precisas abrem o caminho para um final apoteótico que lembra muito o trabalho do "Genesis". Com um vocal muito emocionante, cantado por nós três em vocalise, realmente é muito bonito e inspirador. Acho que é uma das músicas mais emocionantes no disco, e foi uma pena que tenha sido tão pouco executada ao vivo, pois emocionava-nos e nas poucas vezes que a tocamos, causou comoção no público, principalmente pelo trecho final com apelo apoteótico e muito melodioso. Gravei com Rickenbacker e mais uma vez o som ficou matador. Acho que já mencionei amplamente o fator que gerou essa carga a mais de agudos no disco inteiro, mas no caso específico do Rickenbacker, que é um baixo que poucos técnicos sabem gravar no Brasil, acho que dei uma sorte danada, pois ele soa exatamente como deve soar. Sobre os demais instrumentos, todos brilham muito. Junior massacra na bateria, fazendo levadas e frases que só bateristas de altíssimo nível fariam, e esse é o seu caso, naturalmente. Marcello faz um fraseado belíssimo de guitarra que só realçou a parte final ainda mais. É um item que ajudou decisivamente a criar a emoção que mencionei anteriormente. As intervenções de sintetizadores também são muito legais. Música instrumental, acho que teve no vocalise algo tão significativo que realmente dispensou a palavra cantada.

10) For Loonies Only (Rolando Castello Junior)  
 

Nessa versão acima, "For Loonies Only" traz também em enexo a faixa posterior "Véu do Amanhã"

Eis o link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=NcLW2UkDAIQ 

Uma tradição iniciada no CD Chronophagia, o Junior sempre gravava uma vinheta instrumental só de bateria, geralmente um improviso gravado a esmo após encerrar a gravação de todas as baterias do disco. Desta feita no entanto, ele planejou sua performance e trabalhou com os técnicos alguns efeitos interessantes com delay. O título em inglês, diz tudo..."para lunáticos apenas", é uma boa menção à loucura, e entendido à luz do desbunde contracultural sessenta / setentista, tal menção à loucura é um elogio e não refiro-me a Erasmo de Rotterdam...

11) Véu do Amanhã : A) O Agora / B) A Confortante Incerteza do Futuro (Marcello Schevano)

 
"Véu do Amanhã" , do áudio do disco

Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=HmS9_xyHe1E


Bem, aqui temos mais um tema Prog Rock do disco, e desta feita radicalizando ainda mais que "Anjo do Sol", pois a letra da canção mergulha em considerações subjetivas sobre a expectativa do homem em relação ao tempo / espaço, ou seja, um hermetismo nada pop, mas que eu defendo enfaticamente enquanto peça artística, e que danem-se os que enxergam música como produto de gôndola de supermercado. Sobre a parte musical, a simples menção a dois subtítulos, já deixa clara a intenção de ser uma peça "Prog" sem concessões, rezando pela cartilha setentista do gênero. Iniciando-se com um belo prólogo comandado pelo piano, tem intervenções muito bonitas da guitarra do Rodrigo, e entrecortadas pela bateria e o baixo Rickenbacker que mais uma vez rasga na carne, com seu potencial de peso e timbre inigualáveis. Logo o apoio do órgão Hammond chega, e o peso toma conta. Também com apoio de sintetizadores, ao estilo Moog, intrincadas partes fazem com que todos os instrumentistas brilhem bastante em seus arranjos pessoais.
A referência ao "Emerson; Lake & Palmer"; "Banco Del Mutuo Soccorso"; "Triumvirat"; "Trace"; e "Omega", para citar algumas poucas bandas prog setentistas, é total. São partes bastante agressivas e exigiram muito dos quatro instrumentistas. A parte final tem uma particularidade engraçada até. A despeito de sua beleza incrível, a frase contínua e ultra melódica que o Rodrigo criou na guitarra, lembra de certa forma, a melodia da música "Leãozinho", do Caetano Veloso. Não trata-se de plágio, não caracteriza ipsis litteris tal semelhança, mas lembra-a vagamente e assim, claro que brincadeiras surgiram já desde os ensaios que fecharam o arranjo da música. Independente disso, a parte final também executada em looping, tal qual "Anjo do Sol", emociona, e muito. Por fim, uma intervenção robótica ao final, lembra a parte final da "Karn Evil 9 / Third Impression", do Emerson; Lake & Palmer, bastante interessante, portanto. Sobre o meu baixo, creio já ter dito que mais uma vez o som do Rickenbacker ficou excelente,  deixando-me bastante satisfeito com o resultado. Isso é "Missão na Área 13", um disco gravado sem muito planejamento, mas que diante das circunstâncias, ficou muito melhor que os anteriores, no quesito áudio. Agradeço muito a Fabio Poles; Gustavo Vasquez e Alberto Sabella, que proporcionaram-nos tal oportunidade de usar seu ótimo estúdio, e sobretudo pelo empenho que tiveram em operar essa gravação, com carinho, tornando-a, a melhor gravação que a Patrulha teve em nossa formação, e quiçá da carreira toda.
Agradeço também a Junior Muelas, que ajudou muito no processo todo.



Continua...

2 comentários:

  1. Nossa que bela trajetoria dessa grande Banda De Rock com Rollllll, PATRULHA DO ESPAÇO ,so mesmo voce escrevendo a gente como fã do lado de cá vai poder saber como foi toda essas Viagens Cosmicas na Nave Mãe ( como diz o Mestre Junior ), pilotadas por grandes Musicos que temos o prazer de conhecer aqui a Hisotira e Epopéia dessa Fase tão importante dentro do cenrario Musical do nosso bom e velho Rockroll, obrigado por mais uma ves por linda Autobiografia grande Mestre dos Baixo , nosso Amado Luiz Domingues .abraços .

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  2. Sensacional saber que está acompanhando, amigo Oscar ! Ainda vem mais alguns capítulos da Patrulha do Espaço, para a conclusão dessa etapa da minha autobiografia.

    Em breve !!

    Abraço !!

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