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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 7 - A Era das Turnês - Por Luiz Domingues

Era o dia 26 de dezembro de 2001, uma quarta-feira. Fazia o calor escaldante e típico de dezembro, e sabíamos que a sensação térmica só aumentaria à medida que afastássemo-nos da capital, rumo ao interior. A logística desse primeira etapa da tour não fora a ideal, mas foi o melhor que o Junior conseguiu armar, e convenhamos, o trabalho que teve para alinhavá-la, fora imenso. O ideal teria sido fazermos o primeiro show na cidade mais longínqua de São Paulo, e progressivamente ir tocando nas demais num caminho de volta, amenizando assim o cansaço da estrada, mas ocorreu justamente o contrário, pelo jogo de interesses que são decorrentes desse tipo de negociação. O show de Jales, por exemplo, que era a cidade mais distante, 500 e tantos Km de São Paulo, teria que ocorrer no sábado, por todo o esforço que estava sendo demandado pela produção local etc.

Enfim, na ordem inversa, partimos para a primeira etapa, a ser cumprida na cidade de Americana, cerca de 130 Km de São Paulo, na região de Campinas. A equipe dessa mini tour, era a mesma que trabalhara no show anterior, em Itu, duas semanas antes, ou seja : os quatro membros da banda, mais Claudia Fernanda na produção; Marco Carvalhanas como Road Manager; Samuel Wagner e Ruiter como roadies, e o sócio / motorista na pilotagem do carro. Sabíamos que o ônibus tinha muitos problemas, mas aparentemente, o básico estava em condições de fazer essa rodagem de mais de mil kilometros, e sob intenso calor. Saímos de minha casa, o ponto que tornou-se o novo QG da banda, já há algum tempo, por volta de 11:00 horas da manhã. O calor era intenso, mas não poderíamos dar-nos ao luxo de sair mais tarde, mesmo sendo um curto percurso, justamente por sabermos que uma eventual falha mecânica, ou mesmo problemas com a polícia rodoviária, poderiam surpreender-nos na estrada. Enfim, a viagem transcorreu de forma tranquila e dessa forma, chegamos bem no início da tarde na cidade de Americana. Para quem não conhece o estado de São Paulo, "Americana" tem esse nome porque foi fundada no século XIX por americanos que ficaram inconformados com a vitória do norte sobre o sul na Guerra de Secessão, daquele país. Muitos estavam falidos, tendo perdido todo o seu patrimônio, outros temiam por represálias do pós-guerra, e alguns vislumbraram na região de Campinas, um terreno bom para as atividades agropecuárias etc.
O lado bom de chegar cedo na cidade, foi que pudemos descansar no hotel, e refrescar-nos, visto que o calor estava insuportável.
Deu também para visitar a única loja de discos Rocker da cidade, no estilo das lojas da "Galeria do Rock", da capital, São Paulo e cujo dono, tanto o Junior quanto eu, conhecíamos desde os anos 80. Aliás, visitar lojas em cidades interioranas, ou mesmo em capitais que visitaríamos, tornar-se-ia uma praxe nessas turnês. Verificamos também que uma matéria fora publicada no jornal local. 

Dividimos a mesma página com a dupla sertaneja "Christian & Ralf", e essa dinâmica de imprensa também acompanhar-nos-ia doravante, com muitas matérias em jornais interioranos e muitas delas em companhias não tão ilustres...
A casa onde tocaríamos, merece uma análise mais pormenorizada...

             A fachada da casa mencionada, em Americana / SP

A casa em questão, eu e o Junior já conhecíamos, pois havíamos viajado ao interior várias vezes para fechar shows em diversas cidades daquela região, e de outras, também. Não era um ambiente Rocker, mas uma casa noturna criada para atender a jovem burguesia da cidade de Americana, e certamente de cidades vizinhas muito próximas, caso de Santa Bárbara D'Oeste, cuja fronteira com Americana nem percebe-se, pois as cidades estão grudadas, literalmente. Até aí, tudo bem. Não seria a primeira, tampouco a última vez que nos apresentaríamos numa casa sem uma ambientação rocker adequada, infelizmente. Ossos do ofício, nem sempre as condições artísticas e/ou técnicas eram as ideais...

                         Foto do interior da casa mencionada

No caso desse estabelecimento, o equipamento era muito bom. Havia um P.A de bastante pressão, aliás era até demais para o tamanho da casa, portanto o técnico tinha que dosar bem o volume geral, pois a tendência era a de ensurdecer, se não tomasse cuidado.
A iluminação também era muito digna, até surpreendente em se considerarmos se tratar de uma casa noturna, sem preocupações maiores, a não ser entretenimento. O equipamento pertencia a uma banda de bailes da região (não recordo-me ao certo, mas acho que era de Araras, uma cidade vizinha), e o técnico / dono era o baterista da banda. Veterano, era da época da Jovem Guarda sessentista e passamos bons momentos ouvindo suas histórias contando como sua banda acompanhou cantores desse movimento, em shows pelo interior de SP etc. Rimos bastante de algumas histórias que contou, principalmente de trapalhadas envolvendo certos cantores da jovem "brega" guarda.

                        Outra foto do interior da casa citada

Esse foi o lado bom da casa, e diga-se de passagem, era bastante surpreendente poder contar com um palco de extensão bem confortável, e um equipamento de som e luz muito digno, fora a camaradagem do técnico e de seu filho, auxiliar de produção, e também simpático e solícito. O lado ruim, era o fato de não ser um ambiente Rocker, sob vários aspectos. O primeiro aspecto, era o fato do público habitue da casa, não dar a mínima para qualquer banda que ali apresentava-se. Acostumado a tratar as bandas como mero "jukebox", adotavam comportamento blasé nesse sentido. Para uma banda cover, caso de 99% dos combos que ali apresentavam-se, isso não era problema, pelo contrário, facilitava-lhes a vida, mas para uma banda autoral, e no caso da Patrulha, com uma história significativa sobre os ombros, era no mínimo, desagradável...

Quando eu e Junior fomos visitar a casa, cerca de três meses antes, notamos isso claramente. Uma banda tocava e ninguém, absolutamente ninguém, olhava para ela que tocava. Pelo contrário, a maioria colocava-se de costas para ela, preferindo ater-se à movimentação da paquera, que era a real intenção de meninos e meninas que ali encontravam-se. Até aí, tudo bem, era compreensível que essa molecada não estivesse com a mínima intenção de apreciar música e muito menos assistir show de uma banda autoral. Não cabe crítica de minha parte, mas apenas constato que essa exposição, ou melhor, "falta de", não era agradável para nós. Enfim, esse show foi estratégico para o início dessa micro-tour, e a quarta-feira era o único dia da semana onde os donos da casa disponibilizavam para uma banda autoral se apresentar. E mesmo assim, havia a ressalva de que deveríamos inserir alguns covers no meio da apresentação. Nesse sentido, acrescentamos algumas que costumávamos tocar em ensaios de "brincadeira" e uma versão de "While my Guitar Gently Weeps", homenageando o George Harrison, que havia falecido há poucos dias.

Outro aspecto desagradável dessa casa, era a sua decoração. Tudo ali dentro remetia à ambientação de um motel, com insinuações de erotismo, luxúria etc. Estátuas de personagens mitológicos greco / romanos com intenções eróticas, eram de um mau gosto atroz. Do carpete à decoração das paredes, passando pelas luminárias, tudo parecia um motel decadente. Como set de uma pornochanchada setentista, seria perfeito, mas como casa noturna, era um exemplo de mau gosto Kitsch. Às quartas, o ingresso das mulheres até a meia-noite, era  inteiramente gratuito. Por isso, por volta das 23:00, a fila na rua dobrava a esquina e só com garotas que pareciam estar "embonecadas" para participar de um concurso de Miss...
Claro que isso amenizava e muito o clima brega da casa, com a beleza das meninas ofuscando aquele horror kistch, mas claro também que não teríamos a atenção delas, muito mais interessadas em exibir-se para os rapazes e estabelecer a competitividade entre elas mesmas, naquela típica tendência feminina..."espelho, espelho meu, quem é mais bonita do que eu ...??" E assim, resignados fomos para o palco...

Todas as fotos que achei na Internet para ilustrar este capítulo, são do "My Way", de Americana, de fato, com exceção da foto de estátuas, que é meramente ilustrativa.  

A nossa sorte nesse show, residia exatamente no fato de que sabíamos exatamente como seria a reação do apático público daquela casa, não pelo fato de sermos uma banda desconhecida dentro daquele universo não-Rocker tão somente. Esse fator pesava, é claro, mas o maior problema era mesmo o da apatia crônica daquele público, como uma praxe, segundo
amigos da cidade já haviam advertido-nos. Era a casa noturna com a melhor estrutura técnica da cidade, eles falavam, mas qualquer show ali era morno, mesmo com artistas famosos do mainstream que ali apresentaram-se, e queixaram-se da frieza. Portanto, não esperávamos uma reação diferente. E não deu outra, começamos o show e ninguém sequer olhava para nós. E não demonstravam estarem incomodados com a nossa performance ou com fato do repertório não soar-lhes familiar. Apenas andavam para lá e para cá, flertando como se estivessem fazendo o famoso
"footing" de pracinhas do interior de antigamente... o negócio ali era paquerar acima de tudo, e numa segunda instância, beber...
Justiça seja feita, haviam poucos, mas valorosos fãs da Patrulha, presentes.

Era uma constante nesses shows pelo interior e pelas cidades sulistas, também. Por mais inóspitos que fossem certos shows pela disparidade entre o que representava a banda e algumas casas, sempre apareciam fãs reais da banda, com discos de vinil debaixo do braço, à procura de autógrafos e isso sempre foi muito legal, é claro. 

E no meu caso, era bastante comum também ser abordado por fãs que lembravam-se de outros trabalhos meus, e nesse caso, dei muito autógrafo em discos e fotos da Chave do Sol e Língua de Trapo principalmente, mas até do Pitbulls on Crack, algumas vezes. Como já frisei, foi um show frio por parte do público, mas o fizemos sem nenhum prejuízo artístico. Tocamos normalmente, e eu diria que foi um show particular para aquela meia dúzia de pessoas que eram realmente fãs da Patrulha, e que inclusive vieram de cidades vizinhas, como Rio Claro e Araras. Nem mesmo quando tocamos covers, ocorreu alguma reação diferente por parte do público habitue da casa. A homenagem para George Harrison passou batida...e nesse show estreamos um pout pourri de canções do Led Zeppelin, que preparamos para apresentar como uma homenagem, e que doravante sempre caía bem nos shows, arrancando urros de rockers mais antenados.

Era um"medley" com trechos de algumas músicas interligadas, tais como "Ten Years Gone";"Communication Breakdown"; "Heartbreaker"; "Moby Dick" etc etc. Encerrado o show, fomos a pé para o hotel, que era bem próximo, e foi prosaico pararmos na pracinha da matriz para fazer um lanche numa barraca de fast food.
A viagem no dia seguinte seria relativamente tranquila, com apenas cento e poucos kms de distância a serem percorridos, e portanto, não precisamos sair cedo. Deu para dormir na parte da manhã, almoçar ainda em Americana, e partir então para São Carlos, onde teríamos o nosso segundo compromisso no dia seguinte. O show em Americana ocorreu no dia 26 de dezembro de 2001, na casa chamada "My Way", com cerca de 300 pessoas na casa, mas na prática, só com aqueles seis rockers abnegados realmente prestando atenção e gostando. Uma pena, pois estávamos tocando com condições de som e luz bem legais, e muitos fãs da banda certamente gostariam de ver-nos com tal estrutura melhor...


Após o almoço, já estávamos prontos para a retomada da jornada.
Particularmente, estava apreciando o empenho do Marco Carvalhanas, como Road Manager da tour, embora ele não fosse nada experiente na função.Todavia, sua força de vontade em querer aprender era notável, e o empenho em agir e ser útil, facilitando a nossa vida ao máximo, estava agradando-me, e acredito que também aos demais. Deixamos Americana por volta das 13:00 h. Como primeiro show da turnê, foi muito válido tocar nessa cidade, embora a casa onde apresentamo-nos não tenha sido a ideal para um show de Rock e sem falsa modéstia, para a tradição de nossa banda, enfim...
Mas o importante é que serviu como estopim, ganhamos um cachet razoável que ajudou no cômputo geral, e "ensaiamos" ao vivo, reforçando a nossa condição para os demais shows. Mas havia também mais a ser comemorado, e embora soassem como coisas pequenas, eram positivas. Vendemos discos na loja de discos Rocker local; saímos com destaque no jornal da cidade, além de atendemos as expectativas de nosso diminuto público, e isso valia muito para nós. Como já mencionei, haviam mais de 300 pessoas na casa noturna "My Way", mas aqueles jovens ignoraram retumbantemente o nosso show, embora servia-nos de consolo o fato de que qualquer banda sofria essa indiferença, inclusive gente conhecida do mainstream da música, conforme contaram-nos, e vou preservar a identidade de tais artistas, para não criar alvoroço.
Missão cumprida em Americana, saímos da simpática cidade fundada por americanos "Southern", e fomos para São Carlos, nossa segunda escala.

O calor era fortíssimo e nessa época do ano, não esperávamos outra coisa por parte da natureza, pois quanto mais dirigíamo-nos ao centro do estado, a tendência era de esquentar ainda mais. Saindo de Americana pela Rodovia Anhanguera, sentido Ribeirão Preto, passamos por Limeira, cidade onde apresentamo-nos em 2000, e voltaríamos a tocar no futuro. A Patrulha do Espaço tinha / tem uma longa tradição nessa cidade, desde os primórdios da banda, onde tocou muitas vezes e uma delas, com a minha banda nos anos 1980, A Chave do Sol, fazendo o open act (história já relatada com detalhes no capítulo da Chave do Sol). Logo que passa Limeira, existe um entroncamento de estradas e seguindo o nosso objetivo, entramos na Rodovia Washington Luis, sentido São José do Rio Preto, com destino a São Carlos. Passada Rio Claro e algumas cidades de menor porte, chegamos enfim nessa ótima cidade interiorana, com forte tradição universitária, pois ali funcionam a UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), e um Campus avançado da USP. Eu nunca havia estado nessa cidade, e impressionei-me com a sua pujança, logo que adentramos em suas avenidas que conduziam-nos ao centro. Nessa noite, tocaríamos numa outra casa noturna, bem próxima à uma bela praça, na avenida São Carlos, no centro da cidade. O hotel em que nos hospedaríamos, ficava na mesma avenida e distante apenas um quarteirão da casa.O comércio era farto, com muitos restaurantes e lanchonetes, e logo descobrimos uma sorveteria, daquelas típicas do interior, bem em frente ao hotel, que visitamos muitas vezes naquelas 24 h. que ficamos na cidade, aproximadamente. Feito o check in do hotel, fomos para a casa noturna, descarregar o equipamento e começar o processo da montagem. 




Assim que o ônibus estacionou e começamos a descer do "mercedão", a primeira pessoa que vi, tinha visual de "freak", era um rapaz usando uma camiseta cuja estampa era a capa do primeiro álbum do Gentle Giant...
Parece uma bobagem irrelevante, mas preciso registrar aqui que essa visão inusitada deu-me um sentimento bom, de que estávamos logrando êxito na nossa empreitada.

O excelente baixista, e um grande amigo desde então, Gabriel Costa, que nos dias atuais (2016), é componente do Violeta de Outono

Apresentando-se como baixista da banda de abertura, estava ali para recepcionar-nos e auxiliar no soundcheck. Seu nome era Gabriel Costa, e a banda em questão, "Homem com Asas". Esse era o contato do Junior na cidade, e não só aí, mas na continuidade dessa tour, teríamos muitas surpresas nesse sentido, com bandas de abertura auxiliando na produção local, e indo além, bandas extremamente antenadas na vibe 1960 / 1970, e de excelente nível técnico, abrilhantando e muito os eventos. Muitos anos depois, o Gabriel Costa seria baixista do "Violeta de Outono", "Gong", e outros tantos trabalhos muito significativos. Então, foi assim que conheci o Gabriel, que tornou-se um grande amigo, doravante. Com o apoio dele, e dos demais membros da banda que logo a seguir conhecemos e também eram extremamente simpáticos e solícitos, fomos então montar o equipamento e iniciar o soundcheck...

Visita à loja "Cosmic", no centro de São Carlos, especializada em Rock 1960 / 1970, com o seu proprietário sendo o segundo da esquerda para a direita, cercado por Rodrigo; Marcello e Rolando. Acervo de Samuel Wagner

E nessa perspectiva de ajuda fraternal, todo o apoio que recebemos foi fundamental para fazer o evento ser um sucesso. Não era a primeira e muito menos foi a última vez que fizemos um show nessa circunstância, ou seja, espetáculos produzidos na "raça", com apoio de fãs abnegados ou bandas locais de mesma vibe da Patrulha, e fraternalmente dispostas a fazer acontecer o sonho em suas respectivas cidades.

Foto mais recente do "Homem com Asas", apresentando-se em São Paulo

Portanto, esse primeiro contato com o "Homem com Asas", na cidade de São Carlos, tornar-se-ia rotina e particularmente, guardo com muito carinho tais lembranças, não só dessa banda e de São Carlos, mas também de outras ocasiões onde isso transcorreu, e nessa mesma tour, por exemplo, relatarei outro caso, logo a seguir.
Voltando à cronologia, a passagem de som foi realizada nesses termos cooperativos. O P.A. disponibilizado não era alugado de uma empresa constituída, como geralmente acontecia, mas era o fruto do esforço dos pessoal do "Homem com Asas", mais amigos aquarianos da cidade.

Aliás, São Carlos surpreendeu-me positivamente nesse sentido, e parece que ter visto a capa do disco do Gentle Giant, estampado na camiseta de Gabriel Costa, fora mesmo o indício da vibe que a cidade oferecer-nos-ia. Claro, apesar de toda a camaradagem e empenho dos amigos, o equipamento disponibilizado preocupava, pois parecia bastante inadequado. Quando chegamos ao bar, achávamos que seria um palco de pequenas proporções como muitos em que apresentamo-nos até então, portanto, ter um P.A. de pequenos recursos poderia suprir a necessidade, mas na verdade, a instalação física da casa em questão, surpreendeu-nos. A fachada do bar sugeria a de uma casa noturna de pequeno porte, mas adentrando-a, descobrimos que tinha uma área avantajada na parte dos fundos, como segundo ambiente. De fato, na frente funcionava um pequeno bar lounge, mas a área do show propriamente dito, era bem ampla, parecendo o ginásio de esportes de um colégio. Nesses termos, o ideal seria alugar um P.A. profissional, mas o show fora viabilizado como um esforço de mutirão, com o objetivo de minimizar custos, visto que a casa não reunia condições de bancar um show da Patrulha do Espaço, nas condições mínimas necessárias. Portanto, o esforço para fechar a data, era um mérito do pessoal do "Homem com Asas" e dos Rockers locais, que vislumbraram na nossa ida, uma oportunidade de ouro para realizar um Concerto de Rock, como nos velhos tempos. Então, o equipamento era um autêntico "Frankenstein", com caixas; potências, e paramétricos oriundos  de vários donos, e nem sempre uma junção maluca dessas é viável, podendo haver incompatibilidades de configurações entre diferentes aparelhos etc etc...


Sendo assim, pequenas dificuldades que iam surgindo eram sanadas na base do mutirão, com sempre alguém lembrando-se de um vizinho, de um primo, ou alguém que possuísse uma alternativa
mais viável, e alguém pegava o carro incontinente, à cata de tal aparelho. E assim, um P.A. razoável foi montado, com uma mesa; potências; alguns paramétricos; multicabo, e microfones para suprir todas as necessidades mínimas da banda. Não era nem de longe o ideal, mas o esforço em ritmo de mutirão fora notável e o show estava garantido. 


O mesmo ocorreu com o equipamento de iluminação. Na base do improviso e camaradagem, duas torres laterais foram montadas com spots de 500. Era um nítido equipamento usado por bandas de bailes e parecia ser dos anos 1960, remetendo a bandas da Jovem Guarda. Claro que não erra o ideal também, mas resolveu o nosso caso ali...
Agora, devo relatar fatos ocorridos durante esse soundcheck. 

Da esquerda para a direita, Rodrigo Hid; o dono da loja "Cosmic"; Marcello Schevano, e Rolando Castello Junior, no interior da loja citada.

O primeiro, muito positivo, recebemos a visita de um rapaz que patrocinara o material de divulgação do show. Era o dono da loja de discos de Rock, local, chamada "Cosmic". Seguindo a tendência que existia nas grandes cidades interioranas, havia sempre pelo menos uma loja desse estilo, parecendo-se com as lojas da Galeria do Rock, de São Paulo. Muito simpático e solícito, convidou-nos a visitar sua loja, que ficava localizada bem próxima da casa onde tocaríamos, numa travessa da Avenida São Carlos. Claro, deixamos discos da Patrulha para abastecê-lo e no show, ele veio prestigiar-nos acompanhado de sua esposa. O outro fato ocorrido, foi engraçado, e absolutamente bizarro. Estávamos fazendo o soundcheck, tocando "Ser" ou "São Paulo City", não lembro-me ao certo, quando vimos uma pessoa estranha entrando no recinto.
Continuamos tocando normalmente, achando tratar-se de alguém ligado à casa, uma funcionária talvez, ou mesmo que fosse uma pessoa autorizada para transitar por ali, pelos proprietários.

Era uma mulher rude, bastante masculinizada, trajando calça jeans de corte masculino, camiseta do Kiss e boné virado para trás. Ela entrou com expressão facial fechada e de súbito, começou a dançar, aumentando a sua volúpia, à medida que tocávamos. Em um dado momento, seus seios ficaram à vista, pois não demonstrava nenhum pudor em conter a natureza diante de seus movimentos bruscos, e pela ausência de uma sustentação estratégica, via soutien...
Ficando frenética, dançava como louca e urrava, despertando a nossa atenção. Ríamos da situação, considerando-a apenas uma louca de ocasião. Então, paramos de tocar bruscamente, pois aquele momento ali não era de show, e num soundcheck para-se toda hora, assim que alguém detecta um problema sonoro a ser sanado. Nesse momento, a mulher ficou ensandecida e aos berros, exortou-nos a continuar tocando, pois tomara a nossa parada como uma afronta pessoal... -"por que parou ???  Toca um KiiiSSSS"....

Nunca esquecer-me-ei de sua queixa, com uma voz gutural e cavernosa, que faria vocalistas de Heavy Metal ficarem com inveja...
Convidada a retirar-se do recinto pelos proprietários, saiu com bastante agressividade, xingando a todos, inclusive a nós...
Depois ficamos sabendo que tratava-se de uma pessoa conhecida no pedaço, uma homeless que vivia embriagada pelas ruas, e apesar de parecer agressiva, não costumava ir para as vias de fato, ficando só nos insultos. O fato de estar usando uma camiseta do Kiss, e pedir Kiss para continuar dançando, denotava que tinha cultura, e em algum momento da vida perdera-se socialmente, e se era "homeless", certamente fora derrotada pelas drogas / bebedeiras etc etc.


Voltamos para o hotel, jantamos, e na hora combinada fomos para o bar. A casa estava abarrotada. O esforço empreendido pelo pessoal do "Homem com Asas" e sua rede de amigos fora notável. Uma matéria saíra também no jornal local, dando apoio. Apesar do equipamento improvisado, tinha tudo para ser uma grande noitada de Rock.


Quando chegamos ao ambiente do show, ficamos contentes por ver que mal dava para caminhar.

A casa estava abarrotada. O Show do "Homem com Asas" estava para iniciar-se, e nós arrumamos uma mesa para acomodarmo-nos e assisti-los. Assim que chegamos na mesa, vi uma moça loira e muito bonita que pareceu-me conhecida. Ela reconheceu-nos, e veio cumprimentar-nos. Era a pupila / assistente de pintura do artista plástico, André Peticov.

Neste frame do programa Musikaos, onde apresentamo-nos, uma imagem de André Peticov, e sua pupila em ação 

Essa moça esteve no palco do Teatro Sesc Pompeia, em abril de 2001, quando apresentamo-nos, e auxiliou o Peticov a pintar, enquanto tocávamos na edição do programa "Musikaos", da TV Cultura de São Paulo, conforme já relatei muitos capítulos atrás.
Sua reação foi engraçada, pois chegou dizendo : -"o que vocês estão fazendo aqui" ? Ora, éramos a atração principal da noite na casa, mas distraída, ela nem tinha dado-se conta do fato. Então ela contou-nos que São Carlos era a sua cidade natal, e estava ali passando as festas de fim de ano, com sua família. O show do "Homem com Asas" foi ótimo, apesar de serem naquela ocasião, uma banda só trabalhando com covers. Era uma pena, pois o nível técnico dos rapazes era excepcional e sua cultura rocker 1960 / 1970, notável. E tanto era assim, que davam-se ao luxo de tocarem muitas pérolas só identificáveis por conhecedores do assunto. Ficamos muito amigos deles, que abririam outros shows nossos, ajudariam em outras produções, e nossa amizade prossegue até os dias atuais, pelas redes sociais. Chegou a nossa vez, enfim.
A expectativa era enorme, dava para sentir no ar. São Carlos seria uma cidade que visitaríamos outras vezes no futuro, e era uma daquelas onde o público rocker era muito grande. E o nível cultural desses jovens, muito elevado, a começar pelos membros da banda "Homem com Asas", todos universitários, e a maioria estudantes de física na USP, ou na UfSCAR. Era um turma de freaks, com visual de hippies sessentistas e cientistas experts em física, principalmente... 

Começamos a tocar e o equipamento não era mesmo suficiente para suprir um ambiente amplo com cerca de 400 pessoas presentes. Não foi um show confortável para nós, tecnicamente, mas compensou pelo público receptivo e em sua maioria, bastante antenado no que representava a Patrulha do Espaço, e principalmente pelo astral que queríamos imprimir após a grande volta de 1999, ou seja, São Carlos era uma cidade ideal para a nossa proposta reverberar, conforme tudo que elucidei. Um fato engraçado (desastroso, na verdade), ocorreu quando eu fui falar com o público. Aproveitando uma deixa do show para efetuar agradecimentos, falei o seguinte :
-"a Patrulha estava muito feliz por estar tocando em Rio Claro"... 

Eu não bebo, tampouco drogo-me, portanto não havia desculpa para falar uma bobagem dessas no microfone, mas o lapso ocorreu...
Assim que pronunciei "Rio Claro", muitas pessoas do público gritaram "São Carlos", corrigindo-me e no interior, existem as rivalidades locais bem acentuadas, portanto, creio ter aborrecido muita gente naquela noite, infelizmente. Sem graça, tentei corrigir, alegando que tocaríamos em Rio Claro no dia seguinte e confundi-me, mas o estrago estava feito... nem passaríamos por Rio Claro nessa tour, pois no dia seguinte o show seria na verdade em Monte Alto...


Apesar das dificuldades, o show foi muito bom, com momentos de euforia, até. Músicas antigas da Patrulha, dos primeiros discos eram muito saudadas, denotando que aquele público, apesar de jovem, era mesmo ligado em Rock vintage. Quando o set list aproximava-se de seu final, notamos um clima tenso vindo de fora, e nada a ver conosco diretamente ou com o show em si, mas dizia-nos respeito indiretamente. Percebemos que a produtora Claudia Fernanda estava agitada, gesticulando, e parecia tensa. Quando o show acabou e já estávamos fora do palco (infelizmente a casa não tinha estrutura de camarins), o assédio foi grande por parte do público. Claro que era maravilhoso atender os fãs e naquele caso, eram fãs mesmo, com discos de vinil antigos da banda debaixo do braço para caçar autógrafos etc etc. Mas, diante de um assédio assim, ficamos atordoados para saber o que havia acontecido afinal na portaria.

Contudo, a própria Claudia sinalizou tranquilizando-nos, pois fosse o que fosse, já havia acalmado, e só depois tomaríamos conhecimento do ocorrido. E assim, finalmente depois de serenizado o fluxo de fãs, tomamos consciência dos fatos. Durante o show, um grupo de três ou quatro rapazes tentou entrar na casa a força, sem pagar ingressos. No auge da discussão, autodeclararam-se como "Punks do ABC", e com isso, acharam que as pessoas ficariam com medo, e os deixariam entrar gratuitamente, mas ninguém intimidou-se, e pelo contrário, a polícia foi acionada e bastou uma só viatura da Polícia Militar aparecer, para os arruaceiros descerem a Avenida São Carlos em frenética disparada.
Ameaçaram voltar com reforços e que hostilizariam a banda, o que deixou-nos apreensivos por ficar na calada da noite, carregando o ônibus e de repente tal promessa ser cumprida, mas o próprio pessoal de São Carlos tranquilizou-nos, dizendo-nos que isso não aconteceria, pois aqueles vagabundos eram conhecidos de todos, e que não haveria "volta com reforços". Era um grupelho de baderneiros locais, com os quais todos estavam acostumados e que só gostavam de ameaçar com bravatas. E usavam essa alcunha de serem punks do ABC para amedrontar, visto que tal gang é famosa nacionalmente, mas eles provavelmente nem sabiam onde ficava a região metropolitana do ABC...

O último ato da noite, aliás madrugada, foi carregar o equipamento para o ônibus e nessa hora tivemos um micro stress. O Carvalhanas, na ânsia de querer mostrar eficiência como road manager, exagerou no rigor com os roadies, Samuca e Ruiter. Tivemos que contemporizar, e na manhã seguinte, com todo mundo de cabeça fria, tudo voltou ao normal. Tirando esses pequenos acontecimentos mais pesados, foi uma noite muito boa. Era o segundo show da turnê e a banda estava afiadíssima no palco. O contato com os fãs estava excelente, já tínhamos matérias de jornais para engrossar o portfólio, e as notícias que tínhamos sobre a produção local dos três shows que faríamos nos dias posteriores, eram muito animadoras.
Fomos dormir contentes com o dia produtivo. Era o dia 27 de dezembro de 2001, e nessa quinta feira, tocamos no "Planet Z", de São Carlos. Cerca de 400 pessoas passaram pela bilheteria e ao contrário do show de Americana, na noite anterior, haviam muitos fãs da banda no recinto. No dia seguinte, sexta, o destino seria Monte Alto...


Fazer tour é cansativo para qualquer um, mas é claro que a disparidade de condições que existem em inúmeros patamares é gritante. Tenho certeza que para os Rolling Stones também é cansativo, mas o luxo e as mordomias que tem a seu dispor, minimizam a canseira. No nosso caso, as condições eram hercúleas em todos os sentidos, mas haviam inúmeras compensações, também. Se por um lado, nem todo hotel ou restaurante que dispúnhamos era "bacana" (e nesse sentido, a cada dia éramos surpreendidos positiva ou negativamente), por outro, havia a doce constatação de que estávamos exercendo a nossa profissão com total vigor, sendo uma banda de Rock literalmente na estrada (e num país como o Brasil que não dá suporte algum à cultura, e que sobretudo padece de uma real democracia no âmbito cultural, deixando que uma maldita máfia domine todos os espaços, despoticamente, e não deixando  nem as migalhas para outsiders do mainstream como nós), a possibilidade de fazer uma tour, com um show por dia, e cada dia numa cidade, era uma vitória retumbante.
Nesse sentido, não importava que não fossem shows realizados em teatros bem estruturados com som e luz de primeira; estrutura de camarins e logística perfeita; não importava se não ficássemos em hotéis "5 estrelas" e fazendo nossas refeições em restaurantes sofisticados. E nem mesmo que a tour fosse realizada mediante percurso aéreo, com uma equipe enorme e azeitada, só incumbindo-nos de sermos o que éramos, ou seja, artistas, preocupados com o desempenho no palco e nada mais.

Estávamos tão contentes em estar viajando, que a falta dessas condições ideais que arrolei, não incomodava-nos, apesar das dificuldades que enfrentávamos na contramão da nossa realidade como artistas do underground. Por exemplo, o show de São Carlos fora sensacional pela "vibe", mas a infra que tivemos, foi toda improvisada. A bilheteria "gorda" que tivemos por conta de cerca de 400 pagantes, compensou a economia em não ter alugado um P.A. e equipamento de luz profissionais, além da estadia num modesto hotel, mas claro que isso limitava-nos em vários aspectos.
A respeito do hotel em que hospedamo-nos, sofremos um pouco com o calor interiorano desprovido de ar condicionado nessas condições, fora o barulho, por estar localizado na principal avenida da cidade, e nesses termos, mal amanheceu e o movimento urbano da rua não deixou-nos repousar convenientemente, com as pessoas não levando em conta que éramos rockers extenuados por uma noitada de Rock excelente...
Ainda deu tempo para um sorvete refrescante na sorveteria que virou nosso oásis "anticalor" em São Carlos, após o almoço.
O pessoal do "Homem com Asas" veio despedir-se de nós e agradecer pela oportunidade da noitada rocker... ora, nós é que deveríamos agradecer-lhes por todo o suporte recebido em todos os sentidos e se houve o show, e este foi um sucesso, o mérito deles pela produção e esforço em fazer acontecer, fora notável...
Hora de partir, e o velho Mercedes'1976 tomou o rumo da estrada.
O destino agora era Monte Alto, uma pequena cidade na região de Bebedouro e Jaboticabal, no caminho para Ribeirão Preto...

Grande parte do trajeto para Monte Alto foi por uma estrada vicinal bastante aprazível e em alguns trechos, arborizada, que amenizava o forte calor naquela região e em específico naquela época do ano, com o início escaldante do verão. Chegamos na aprazível cidade de Monte Alto, ainda antes das 15:00 h. e com tempo para instalarmo-nos no hotel disponibilizado para nós pela produção local, quando aguardarmos com bastante tranquilidade a hora da montagem e soundcheck. A casa em que tocaríamos era bem montada e tinha dois ambientes.

Um de grande porte, semelhante à um salão de festas de clube poliesportivo e outro de menor porte, mas bastante digno, com um palco bem montado e equipamento com qualidade e pressão de P.A. para shows de artistas autorais. E seria nesse ambiente menor que tocaríamos, pois o grande espaço estava montado para uma festa jamaicana com bandas de reggae, que aconteceria no dia seguinte, sábado. O dono da casa, era jovem, mas parecia ser bastante dinâmico e antenado no métier do agendamento de shows e festas por diversas cidades interioranas daquela região. Estava acostumado a produzir shows de artistas do mainstream, de duplas sertanejas a artistas do Pop Rock vagabundo das FM's; pagodeiros; axé music etc etc. Portanto, sabia que uma banda como a Patrulha, apesar de ter uma história e sua dignidade artística, era obviamente outsider e nesse patamar do underground, não deveria levar um grande público à casa, em se considerando ser Monte Alto uma cidade de pequeno porte, e sem a perspectiva de um público rocker acentuado como havia em São Carlos, uma cidade universitária e com cena cultural forte.

Vista aérea de Monte Alto, uma cidade aprazível ao extremo
 
Na pequena Monte Alto, o público que comparecia à casa era a juventude local à cata de baladas tão somente e sem fechar com uma estética em específico. Tanto fazia se a noite seria de reggae, música sertaneja ou pagode. E o curioso é que a casa chamava-se "The Doors Pub", e tinha uma decoração que remetia ao Rock, com óbvia menção ao "The Doors", e inclusive usando e abusando do logotipo da banda norte-americana e da imagem de Morrison; Manzareck; Densmore & Krieger...
Por isso, ele encaixou-nos na sexta, e isso explica o alinhamento da turnê e cada dia era um encaixe muito mais em função da casa, do que do interesse da banda, daí a turnê ter sido montada ao contrário, ou seja, com o penúltimo show no ponto mais longínquo da capital...
Mas se as condições não eram boas por tudo o que relatei, por outro lado, a infra estrutura técnica era muito melhor do que o show da noite anterior, em São Carlos. Que pena que essa casa, com esse equipamento, não pudesse ter sido a de São Carlos... O público rocker de São Carlos merecia ter visto-nos com aquele som e luz de Monte Alto, mas no mundo underground as coisas eram montadas na base do melhor possível, e nem sempre dávamos sorte, enfim...

                    Outra imagem do centro de Monte Alto / SP

Toda a estrutura de Monte Alto, aliás, era muito melhor em todos os aspectos, a despeito de ser uma cidade minúscula, e a casa não ser Rocker, propriamente dita. Fomos muito bem tratados em todos os sentidos. A começar pelo hotel que tinha uma infraestrutura de um nível muito superior ao que hospedamo-nos em São Carlos. O jantar foi pizza a vontade para todos, e depois de encher a barriga de gorgonzola e provolone, o sono começou a rondar-nos, vendo filmes nas TV, mas...tínhamos um show de Rock para fazer...

Resolvemos ir a pé para o recinto do show, apesar da advertência do gerente do hotel, de que era relativamente longe o local. Havíamos optado por deixar o ônibus no pátio da casa, estrategicamente preparado para o carregamento do equipamento logo após o show, e fomos para o hotel através de caronas de pessoas da produção. Mas subestimamos a distância e não combinamos que ninguém apanhasse-nos no hotel. Claro, na hora "H", não encontraríamos táxis de forma alguma numa cidade daquele porte, e resignados, resolvemos ir a pé. Mas eram dez ou doze quadras, e daquelas de metragem interiorana, de porte grande, portanto, seguramente andamos quase dois Km ... ha ha ha...

A parte boa, era que a cidade estava completamente deserta, e esse passeio chegou a ser lúdico. A brisa noturna era refrescante, aliviando o forte calor que fizera durante o dia inteiro. Ouvíamos o ruído de grilos, tipicamente interiorano, e o revoar de um ou outro morcego, além de eventual barulho de corujas. Passamos por uma enorme praça pública inteiramente deserta, muito aprazível, parecendo uma pracinha de cidade europeia, de tão florida, bem iluminada e bem arrumada que estava. Era uma visão prosaica e bonita, mas ao mesmo tempo, questionamo-nos se haveria público na casa, visto que a cidade estava deserta, parecendo o cenário de um toque de recolher de cidade sitiada.

Mas à medida que aproximamo-nos da casa noturna, vimos que os quarteirões anteriores eram parte da ala mais residencial da cidade, e nos arredores do "The Doors Pub", havia movimento, sim. Então, chegamos à casa. Realmente não havia um grande público, mas já esperávamos essa fraca frequência, por tudo o que já ponderei e pela conversa franca que tivemos com o dono do estabelecimento, que era um experiente agente de shows na região. Que pena !!
Pois o equipamento estava ótimo, com um luz legal e a despeito do público pequeno, fizemos nosso show normal e pasmem, apesar do tamanho diminuto da cidade, haviam sim, fãs da banda ! Eram poucos, mas entusiasmados, como sempre ocorria em show realizados em locais de nenhuma tradição rocker. Foi portanto, um prazer tocar para tais fãs entusiasmados, ainda que em pequeno número. A baixa da noite fora o road manager Marco Carvalhanas, que teve uma indisposição estomacal, e aconselhado por nós mesmos, não acompanhou-nos no show, tendo recolhido-se no hotel.

Encerrado, foi tudo tranquilo e voltamos para o hotel, onde numa instalação de ótimo nível pudemos descansar bastante, pois já era o terceiro dia da turnê, e além do cansaço diário de fazer um show, que desgasta muito, haviam os percursos de ônibus, sob a intensa violência solar interiorana. E foi providencial dormir bem, pois encararíamos o maior percurso no dia seguinte, indo à Jales, a cidade mais distante da tour, com a perspectiva de ser o show mais festejado dessa tour, pois os organizadores locais estavam esmerando-se para divulgá-lo em toda a região. O show de Monte Alto aconteceu no dia 28 de dezembro de 2001, no Doors Pub, com cerca de 70 pessoas na plateia. Jales, era o próximo destino...


E lá fomos nós rumo à Jales, enfrentando o maior percurso nessa turnê e um calor incrível. Para quem não conhece o estado de São Paulo, informo que Jales fica no extremo noroeste do estado, quase na divisa com Mato Grosso do Sul, e onde numa minúscula divisa com Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, quase encosta em Goiás. São Paulo não faz fronteira com Goiás, mas atravessando por esse estreito de Minas, são poucos quilômetros para chegar numa segunda fronteira. Aula de geografia à parte, uma coisa era certa : o calor ali é de uma extrema potência e assim, quanto mais aproximávamo-nos de Jales, mais sentíamos a temperatura subindo...

Cidade de porte maior e muito quente, Jales aguardava-nos

Mas havia também o aspecto do calor humano e de fato, assim que chegamos em Jales, fomos muito bem recebidos pelos produtores do show. Eles demonstravam estarem eufóricos com a nossa presença e era notável o esforço que haviam empreendido para fazer do show, um sucesso. Haviam faixas nas avenidas, nas praças públicas e pelo pouco que andamos pelo centro da cidade, cartazetes nos estabelecimentos comerciais, anunciavam o show. Lastimavelmente, não tenho nenhum material desses para ilustrar aqui.

             Mais uma visão panorâmica da cidade de Jales / SP

Os organizadores hospedaram-nos no próprio local do evento, pois tratava-se de uma espécie de sítio, um pouco afastado do perímetro urbano, mas nem tanto assim. E nesse local, havia um alojamento isolado, que serviu-nos de hotel e camarim ao mesmo tempo. Não tinha as mordomias de um hotel formal, mas a vantagem de estar no palco em menos de um minuto, parecia conveniente numa primeira impressão. Não foi, mas isso eu conto depois. Fomos levados para um restaurante próximo, num "pesqueiro", esse tipo de estabelecimento que é bastante comum em cidades que tem ligação forte com rios de água doce, e Jales tem essa tradição. Para quem aprecia pescaria e comer peixes, foi uma aventura e tanto, eu como vegetariano, fiquei só no prato trivial de arroz, feijão e saladas, mas meus companheiros esbaldaram-se nos peixes que eram pescados e escolhidos ali mesmo para as refeições. A banda que faria abertura era formada por rapazes jovens, muito gente boa, mas não eram antenados como a rapaziada do "Homem com Asas", com quem tocamos na noite da quinta feira em São Carlos. Pelas conversas dos rapazes, pareciam gostar de coisas híbridas e até antagônicas, eu diria, mas não cabe nenhum julgamento, apenas constatação.

O nome da banda era "O Velho Lobo", e logo a piada parecia pronta, pois o nome do treinador Zagallo, foi pronunciado inúmeras vezes naquele dia. E era até chato, pois os rapazes eram muito gente boa e claro que a piada não ofendia-lhes diretamente, mas era obviamente motivada pelo nome estranho com o qual resolveram batizar a sua banda. O equipamento alugado para o evento era de qualidade. Percebemos que o palco tinha tudo o que precisávamos, com um P.A. de pressão e adequado à expectativa de público que os organizadores esperavam ter na hora do show. Segundo informaram-nos, a divulgação não limitara-se à cidade e haviam rumores de que viriam fãs de muitas cidades da região. Mais de 100 ingressos foram vendidos na cidade vizinha de Fernandópolis, por exemplo, e uma excursão fora organizada para trazê-los. Um  programa de rádio dessa cidade estava anunciando há mais de um mês, e massacrando uma música na sua programação para auxiliar.
Qual música ? Era "Olho Animal", que segundo diziam-nos, o público adorava e ansiava que tocássemos...

Mas essa música nem estava no set list da banda. Nunca cogitamos incluí-la pois a considerávamos completamente fora da proposta estética desde que voltamos no início de 1999, e certamente que destoava da nossa "pegada chronophágica"...
Por ser uma canção de uma fase mais pesada da banda, tinha um ranço de Heavy-Metal oitentista que abominávamos, fora a questão da letra, que com todo o respeito ao seu autor, era destoante, com uma dose de infantilidade enorme. Surpreendidos com tal afirmativa dos organizadores e também do pessoal da banda de abertura, ficamos muito constrangidos, pois nem teríamos como tirá-la emergencialmente, apesar de ter uma estrutura harmônica primária. Não haveria como decorar e tocar com desenvoltura. Bem, imaginamos : o público está ansioso pelo show, vai gostar o tempo todo, e nem vai lembrar-se dessa música...


Fizemos o soundcheck e as condições sonoras no palco seriam boas. Tocaríamos com o conforto que tivemos em Americana e Monte Alto, e faltou-nos em São Carlos, lamentavelmente. Nessa altura, já haviam dado-nos a notícia de que a cantora Cássia Eller havia falecido há poucas horas, e todos ficamos abismados com a notícia chocante e lamentável. De noite, o Junior dedicou o show ao George Harrison e à Cássia Eller. Quando a noite chegou, arrumamo-nos e ficamos à disposição da produção local, pois um link ao vivo de uma emissora de Rádio faria a cobertura do evento, e queriam que participássemos concedendo entrevistas, e criando "teasers" testemunhais para incrementar a divulgação.

OK, seria legal colaborar nesse sentido e quanto mais gente viesse, melhor para a banda, apesar desse show em específico, ser de cachet fixo, sem preocupação com a féria da bilheteria. Lembro-me então de uma pequena parafernália eletrônica ter sido montada pela rádio, e o repórter abordando-nos para fazer perguntas e pedir testemunhais. Pela excitação toda, parecia uma ambientação de show de Rock de banda internacional mainstream, e claro que estávamos apreciando esse, digamos, glamour...
Finalmente liberaram a entrada do público, já com a noite avançando. Era de fato uma multidão e na pequena estradinha vicinal de acesso, dava para ver um congestionamento. De fato, o evento seria um sucesso, pelo que estávamos presenciando.

Chegou a hora, e a banda de abertura iniciou a sua apresentação. Arrancaram aplausos da plateia, mas dava para sentir que estavam ali para assistir-nos, e isso era sensacional e raro para nós, acostumados que estávamos a não ter essa atenção, infelizmente, e eram os ossos do ofício de uma banda do underground. Mas era preocupante no entanto, que na aparência, parecia ser um público típico de bandas de Heavy-Metal, pois o visual das pessoas, em sua imensa maioria, era um autêntico uniforme : a cada dez, dez usavam camisetas pretas com estampas de bandas de Heavy-Metal...
Era um indício, mas não podíamos formular um preconceito baseado numa constatação meramente visual. Se estavam ali, se vieram de várias cidades vizinhas em excursões (denotando interesse e sacrifício), era porque gostavam de nossa banda, não acha ? O "Velho Lobo" encerrou sua performance e após alguns ajustes feitos pelos roadies, subimos enfim no palco. A excitação era enorme, o público bem grande. Com gritinhos típicos, aplausos e aquela sensação de adrenalina típica de início de show, começamos...

À medida que tocávamos, contudo, sentíamos nitidamente que a excitação diminuía progressivamente. Não havia hostilidade, mas olhares de perplexidade, que nunca tinha sentido num show da Patrulha, e sendo mais amplo, acho que em nenhuma outra banda onde toquei, em toda a carreira. Tal perplexidade parece que era uniforme, pois a cada música, olhavam-nos com aquela expressão de quem estava estranhando tudo. Era como se tivessem uma imagem da banda, e ali ao vivo, estivessem atônitos por estarem vendo-nos completamente diferentes do que imaginavam que seríamos. Todos os pontos chave de nosso show, onde estávamos acostumados a provocar reações de euforia, não tinham nenhum grande respaldo por parte deles. Sentíamos que olhavam-nos com perplexidade até pelo nosso visual, o que era bastante decepcionante para nós também, pois a nossa "vibe" não era a deles. Quando anunciamos que o show estava chegando ao seu final, um coro surgiu e ganhou força entre o público : -"Olho animal, Olho animal, Olho animal"...
Queriam ouvir a música que tocara insistentemente na emissora de rádio de Fernandópolis, e claro, gostavam da Patrulha que chegara à eles, na sua fase mais pesada, dos discos "Patrulha 85" e "Primus Inter Pares", praticamente álbuns de Heavy-Metal...
Não conheciam a história da banda a fundo, a fase inicial com Arnaldo Baptista, nos anos setenta; tampouco a fase do trio que fora prolífica...e muito menos entenderiam a proposta de religare que esta formação trazia em seus anseios artísticos, desde 1999.

Em suma, conheciam a fase mais obscura (a meu ver, não quero tecer juízo de valor e contrariar quem não pensa assim e gosta dessa fase pesada da banda), com uma Patrulha pesada e flertando com o Heavy-Metal...
Estava explicada a expectativa criada, e a perplexidade por ver-nos de calças boca de sino e batinhas hippies tocando as músicas de intensa inspiração "1960 / 1970" do álbum Chronophagia, e as clássicas da banda, incluso da fase Arnaldo Baptista. Em nenhum momento hostilizaram-nos, mas a decepção era nítida...
Achavam que destilaríamos o repertório dessa fase pesada da banda, mas nós, pelo contrário, estávamos com proposta sonora e visual, completamente antagônica ! Bem, o Junior teve presença de espírito e no auge do coro por "Olho Animal", pegou o microfone e pediu desculpas, dizendo que essa canção não estava no repertório, mas voltaríamos em breve, e prometia tocá-la para eles. Um princípio de ovação foi ouvida, denotando que haviam resignado-se com tal frustração e compraram a promessa do baterista e membro original da fundação da banda. De fato, um ano depois voltamos à Jales e cumprimos a promessa, mas isso eu conto depois...

O público foi escoando do local, mas para nós, ficou um sentimento de estranheza muito grande. Tocar para um público que nutre outras expectativas é uma coisa normal na carreira de qualquer artista, mas nesse caso, a estranheza fora mútua, pois tanto nós, quanto eles, o público, estavam estupefatos pelo falta de sincronia, na medida em que ambos, esperavam uma grande festa e por motivações diferentes, ficou um gosto de frustração para todo mundo. Pelo agito todo, esperávamos um público quentíssimo, reagindo exatamente como o público de nossos melhores shows desde 1999. As condições de som e luz eram boas, o volume de pessoas enorme, e a expectativa gerada pelo show, muito grande, portanto, era o cenário ideal que esperávamos. E da parte deles, o público, esperavam a Patrulha pesada dos discos que mencionei e sonhavam com os riffs de "Olho Animal" e "Robot", por exemplo.
Foi um choque térmico para ambos, e tal falta de sinergia, transformou toda aquela expectativa numa frustração. Mas a noite / madrugada ainda reservaria algumas surpresas...


Quando chegamos ao local, no dia anterior, achamos prático hospedarmo-nos no alojamento anexo ao complexo onde aconteceria o show. Mas no calor da madrugada, vimos que a real perspectiva era outra, muito diferente. Passada a etapa de assédio pós-show (apesar dos pesares, fomos abordados, como de praxe), queríamos mais é recolher-nos e descansar, pois ainda faltava mais uma etapa, com o derradeiro show da turnê, na cidade de Mirassol.
Contudo, o público escoava de forma lenta e muitos, ainda permaneciam no local, parecendo não dispostos a evadirem-se, simplesmente, pois conversavam e gargalhavam em rodinhas. Durma-se com um barulho desses...literalmente !!

Eu desisti de querer dormir e fiquei perambulando. Em princípio, preocupei-me com o processo de carregamento do ônibus, pois no meio do tumulto da saída do público, era preciso ficar atento, pois é nessas horas de balbúrdia que "gatunos" podem achar propícia a oportunidade de tentarem furtos etc etc. Fiquei próximo do ônibus observando o trabalho dos roadies e do Marco Carvalhanas, que também estava em alerta. Rodrigo e Marcello arrumaram companhias femininas e foram para recantos do complexo, mas Junior e Claudia estavam exaustos e tentaram dormir. Contudo, claro que não conseguiam, apesar de cansados, pois o barulho que a garotada fazia, irritava-os. Então, por volta das 3:00 h da manhã, um dos produtores do show, que era muito simpático e solícito, ofereceu-se para trazer-nos um lanche da cidade. Rapidamente, organizou uma lista com pedidos de todos de nossa comitiva, e foi busca-lo numa lanchonete 24 h, do centro da cidade. Antes porém de partir, nós preocupamo-nos (e isso é típica reação de quem mora em cidade grande), com a segurança dele. Oferecemo-nos para acompanhá-lo à lanchonete, para que ficasse mais seguro, enfim, pois era alta madrugada etc e tal...

Aí o rapaz, na base da brincadeira, claro, fez um discurso ironizando o fato de que éramos paranoicos porque vivíamos na "loucura de São Paulo" e usou e abusou de argumentos exaustivamente repetidos em programas de conteúdo "mundo cão" da TV aberta...
Dizia às risadas, que vivia numa cidade pacata, sem crimes, com a típica prática interiorana de "dormir com as janelas da casa, abertas"; "deixar chave do carro na ignição" etc etc...
Então, está bem...demos risada juntos, e o rapaz partiu. O tempo passou e achamos estranho a demora para tal, pois a distância era pequena. É bem verdade que no padrão interiorano, as coisas são bem mais devagar do que nas cidades grandes. Estamos acostumados a ter tudo 24 h por dia e entregue muito rápido, no padrão de São Paulo, e sabíamos que nas cidades interioranas, o padrão é de maior lentidão em tudo, mas realmente estava demorando muito. Então o rapaz chegou e ficamos assustados !!
O lanche estava providenciado, mas o rapaz estava todo arranhado, com o olho "grudado", apresentando hematoma, e as roupas rasgadas !! Resumindo : enquanto esperava o preparo do lanche, fora abordado por bandidos que assaltaram e agrediram-lhe !!

Era trágico e compadecemo-nos, é claro, mas no fim, ele mesmo ironizou a situação e rimos muito enquanto comíamos, pois essa era a tal "tranquilidade do interior" ??  Não cabe tripudiar, é claro, mas que foi irônico, isso foi...
No dia seguinte, despedimo-nos e tomamos o rumo para Mirassol, na região de São José do Rio Preto. Seria o último dia dessa micro tour. Despedimo-nos de todos, agradecendo o apoio e hospitalidade, além é claro de todo o empenho para fazer desse show, um sucesso e apesar dos pesares, foi mesmo, sem dúvida. O show aconteceu num espaço alugado para eventos, chamado "Recanto das Festas", na noite de sábado, dia 29 de dezembro de 2001, com cerca de 500 pessoas na plateia. Agora a próxima parada seria em Mirassol...


E lá estávamos nós de novo no nosso ônibus, rumo à Mirassol.
Calor forte mais uma vez, e ao contrário de outros percursos que fizéramos, desta feita havia um silêncio no ar. O cansaço arrebatara-nos após quatro dias de shows, e viagens intercaladas.
Era a primeira experiência de uma turnê nesses moldes, e depois acostumar-nos-íamos em futuras novas micro-tours que faríamos, mas sendo a primeira nesse sentido, cansara-nos, é claro.
Chegamos em Mirassol antes do horário previsto e esperamos um tempo pela chegada do pessoal da banda de abertura, que era responsável pela produção local. Seria um show em casa noturna, produzido pelo pessoal que citei, portanto as características desse show seriam idênticas às do show de São Carlos, pelos aspectos positivos e negativos que tal tipo de produção poderiam gerar.
E de fato, foi um domingo memorável, conforme relatarei a seguir, pois a banda de abertura era excepcional, e os rapazes, tão bacanas e antenados quanto o pessoal do "Homem com Asas", de São Carlos. A banda em questão chamava-se "Hare". 

Junior Muelas, o baterista do "Hare" na ocasião, e que tornou-se um amigo eterno, movido pelos nobres ideais aquarianos no Rock

Tratava-se de um Power-Trio antenadíssimo na vibe 1960 / 1970.
Cultuavam toda a magia dessas décadas e vibravam nela, usando visual woodstockiano, e tendo seu trabalho autoral orientado por preceitos aquarianos. E assim como o pessoal do "Homem com Asas", a constatação de que haviam esmerado-se para divulgar ao máximo o evento, era notável. O esforço que fizeram para viabilizar o evento, foi sensacional, e a simpatia que sentimos por eles, foi instantânea. Pelo lado negativo, seria um show de equipamento improvisado de som e luz, mais uma vez e curiosamente, onde a vibe era mais legal. Nos três shows que fizemos com equipamento de som e luz adequados, a vibe deixou a desejar, mas nos mais bacanas ideologicamente falando, as condições eram inadequadas, portanto, a conclusão era óbvia : tínhamos um "cobertor de pobre", e não dava mesmo para cobrir o corpo inteiro...

                         Visão aérea da cidade de Mirassol / SP

Para amenizar tal constatação, o fato de que o bar em questão, era bem menor que o de São Carlos, portanto, não seria necessário um grande P.A. para fazer um som honesto. Dessa forma, com o equipamento que o pessoal do "Hare" viabilizara, achamos que o show seria adequado para o tamanho da casa, e dessa maneira, preocupamo-nos muito menos do que em São Carlos, na quinta-feira anterior. O fato do show de Mirassol cair num domingo, tampouco preocupava-nos, pois era em pleno dia 30 de dezembro, portanto, a segunda-feira cairia no dia de Reveillon. Pelo contrário, era até um alento para esperarmos um bom público. Mirassol é uma cidade pequena, mas com boa infraestrutura e está distante apenas a 15 Km de São José do Rio Preto, uma grande cidade interiorana, com quase 500 mil habitantes, e porte de metrópole. Portanto, esperávamos um público também dessa grande cidade, pois a distância era mínima, e o pessoal do "Hare" era de Rio Preto, portanto, sua base de fãs e amigos viria de lá, com certeza. Era para termos sido alojados num hotel, mas resolvemos voltar imediatamente após o show, pois estávamos muito cansados e queríamos voltar logo para São Paulo, mesmo com a perspectiva de que isso ocorresse quase ao amanhecer (foi o que aconteceu, de fato).

Mas, mesmo sem hotel, precisávamos tomar banho e dessa forma, o dono do bar, que era dirigente do clube local, o Mirassol, lançou a ideia de usarmos as duchas dos vestiários poliesportivos do clube e claro que aceitamos. Fomos então para o clube, que estava fechado para sócios naquela tarde, e assim, pudemos usar as dependências dos atletas, com conforto. O dono do bar era uma figura falante e desbocada. O tempo todo que esteve conosco, fazia brincadeiras malucas, e descontraiu o ambiente, provocando muitas risadas.
Voltando ao bar, jantamos e colocamo-nos à espera da hora do show. Estava marcado para o meio / fim da noite e dessa forma, fomos para o nosso ônibus, estacionado na porta, para descansar nesse momento. Quando a noite já estava consolidada, ouvimos muitas vozes vindas da calçada. Era o público colocando-se em fila, esperando a abertura da casa. A fila era enorme e isso animou-nos muito, embora não fosse um público rocker, mas rapazes e moças, típicos frequentadores de casas noturnas à cata de balada & diversão, tão somente. Para o nosso consolo, mais moças que rapazes...


Com a aproximação do horário combinado, resolvemos então ir para o interior da casa, e assistirmos o show do "Hare". Foi difícil entrar no recinto, pois estava abarrotado, e a fila de pessoas querendo ainda entrar, era muito grande. Se não fosse pela intervenção de Claudia Fernanda e Marco Carvalhanas que estavam na portaria, teria sido difícil entrar. Lá dentro, estava bastante quente, apesar da farta existência de ventiladores de teto. O fato é que a casa estava muito lotada, e o calor humano só reforçava a típica temperatura interiorana, ainda mais nessa época do ano.

Arrumamos um cantinho e assistimos a apresentação do "Hare", com muito prazer. O "Hare" tinha seu trabalho autoral, mas estava acostumado a tocar covers de clássicos do Rock 1960 / 1970, pois infelizmente, raramente tinha oportunidades de fazer shows exclusivamente autorais, como desejavam e mereciam. De minha parte, impressionei-me muito com a performance da banda, mas não só pela questão técnica. Claro que eram bons músicos, com grande capacidade técnica. A questão era : eles tinham um "algo a mais" que cativou-me e detesto usar a palavra "atitude", porque tal termo ganhou conotação deturpada nos últimos trinta e tantos anos por razões nefastas, e não cabe um desvio de conversa aqui para explicar o por quê disso. O fato, é que o "Hare" tinha a rara capacidade de mostrar no palco mais que uma influência boa daquelas décadas, como muitas bandas bem intencionadas apresentam, mas conseguia, aí sim, transmitir tal vibração, como se realmente fosse uma banda da época, e isso cativou-me. Mesmo quando tocaram covers (e por mais que eu goste de tais músicas, ainda assim, sempre irei preferir ouvir material autoral de um artista novo), a vibe estava ali, perfeitamente transmitida pelos três membros da banda. Claro, essa perspectiva era muito particular minha, e mais ou menos percebida pelos demais. Não que não ligassem-se nessa particularidade, mas claro, cada um tem uma visão e uma motivação, e pelo que lembro-me, só eu estava enxergando a performance do "Hare" mediante lentes lisérgicas de vibrações aquarianas...

Claro que havia um grupo de amigos e fãs do "Hare" presentes e vibrando, mas a grande maioria ali presente, era formada pela juventude não-Rocker da cidade de Mirassol, e também das vizinhas, incluso São José do Rio Preto, a maior cidade da região e uma pequena metrópole pelo porte e infraestrutura. De minha parte, estava muito motivado para tocar, depois de um show de abertura tão legal, perpetrado pelo "Hare", cujos membros eram Renato (guitarra e voz), Sandro (baixo e voz), e Junior Muelas (bateria e voz).


 

Depois do excelente show do "Hare", chegou a nossa vez. Claro que não esperávamos nenhuma comoção, pois era nítido que a casa estava lotada de um público não aficionado, e em sua maioria, formada por playboys e patricinhas locais.

Fotos desse show em Mirassol, em 2001. Clicks, acervo e cortesia de Junior Muelas

Mas, os rockers presentes eram valorosos e trataram de arrumar um jeito de ficarem bem próximos do palco, garantindo atenção e acolhida boa para nós. 
Patrulha do Espaço em ação em Mirassol / dezembro 2001. Clicks, acervo e cortesia de Junior Muelas

E foi assim que tocamos, com bastante garra, arrancando aplausos dos rockers, e despertando a atenção generalizada somente quando tocamos nossa releitura de "Ando Meio Desligado", mas claro, da parte dos incautos, reconhecendo-a como uma música do "Pato Fu", que regravara-a no início dos anos 2000, e que tornara-se tema de novela da Rede Globo.
Mirassol 2001/ Patrulha do Espaço em ação - Clicks, acervo e cortesia de Junior Muelas

Enfim, a despeito disso, foi um show muito bom, e apesar do cansaço que era evidente pelo acúmulo de dias na estrada, tocamos com muita motivação, e saímos do palco bastante satisfeitos com a performance. Pelo aspecto financeiro, o show de Mirassol era uma aposta na bilheteria. Como era um encaixe, voltando para a casa, encerrando a tour, era o único show que não preocupava-nos, nesse sentido. Em Americana e Monte Alto, o cachet cobriu a despesa toda da viagem, São Carlos era uma perspectiva de engrossar a féria e surpreendeu positivamente, com Jales apresentando cachet fixo e bom, significando assim o lucro garantido da turnê. Portanto, Mirassol seria um adendo, um reforço de caixa.

Mas, a super lotação da casa fora muito além de nossas mais otimistas projeções, e a féria engordou o nosso lucro geral de uma maneira absurda. Não citarei valores, obviamente, mas digamos que o lucro dessa tour pagou mais da metade do ônibus, e toda a despesa de oficina para transformar sua porta traseira, e promover a nova pintura do veículo. Lembro bem do sorriso da Claudia, anunciando o sucesso financeiro da empreitada, após fechar a conta com o dono do estabelecimento. Aliás, nem o próprio dono esperava um sucesso tão grande e inebriado por esse sucesso estrondoso, já abriu perspectiva de voltarmos à casa, e de fato, isso ocorreria novamente no início de 2002. Quanto ao carro, o nosso sócio / motorista promovera uma troca de óleo na cidade de São Carlos. Como ele mesmo quis fazer a operação, alegando que economizaria ao não levar o veículo à um posto de gasolina, tratou de comprar baldes de plástico e arrumou muitos maços de jornais velhos para não sujar o pátio onde foi feita a operação.

Guarde esse fato singelo, caro leitor...daqui a alguns capítulos adiante, você irá lembrar-se do tal baldinho...
Encerrando : após o show, fizemos um lanche na loja de conveniência de um posto de gasolina próximo à saída de Mirassol, acompanhado dos amigos do "Hare", e de vários amigos deles que eram fãs da Patrulha. Um rapaz abordou-me e desconcertou-me, pois de forma surpreendente, disse ser meu fã, e que havia visto-me tocar com o Língua de Trapo em São José do Rio Preto, no ano de 1984 !! O rapaz aparentava ser jovem, e portanto devia ser criança ou no máximo pré-adolescente naquele ano...
Ele descreveu com detalhes o show e até particularidades sobre o equipamento de palco que usamos na ocasião, comprovando que fora mesmo...mundo pequeno ! Despedindo-nos dos amigos, tomamos o rumo à São Paulo. Eram mais de 4:00 h da manhã, do dia 31 de dezembro de 2001. O ano de 2001 estava encerrando-se, e o fecháramos com uma turnê de shows consecutivos, o sonho de qualquer artista, independente de seu espectro. Não éramos os Rolling Stones, fazendo tours gloriosas e plenas de cachets milionários e mordomias, mas estávamos felizes por estar na estrada e fazendo nosso som.

O resultado financeiro da tour fora acima das expectativas, e vendemos discos nos shows e nas lojas locais. Muitas matérias foram publicadas nos jornais interioranos, também. Enfim, apesar das dificuldades inerentes, estávamos com a sensação de vitória nessa viagem de volta à São Paulo. Já tínhamos perspectivas de outras mini-tours para o início de 2002, e queríamos enfim, acelerar o processo para lançar o novo álbum que estava gravado, mas engavetado naquele instante. Chegamos em São Paulo por volta de 11:00 h da manhã, muito cansados, mas satisfeitos, portanto. Agora era descansar e reagruparmo-nos para darmos prosseguimento.
E o próximo compromisso seria logo no dia 5 de janeiro de 2002, na cidade de São Roque, interior de São Paulo, e tem história maluca para contar...
Finalmente, faltou dizer que o show em Mirassol ocorreu na casa "Planet Beer", no dia 30 de dezembro de 2001, um domingo. O público presente nessa noite, foi de cerca de 400 pagantes. Próxima parada: São Roque, em 2002 !


O ano de 2002 começou animado então, com a perspectiva de continuarmos a tour, e a ideia básica era mesmo de dar essa continuidade com micro tours semanais, na raça, na vontade, e no sonho Rocker. Era um circuito off, é bem verdade, e dessa forma, muitos shows eram arranjos improvisados por fãs; bandas locais que fariam a abertura, e amigos em geral sempre dando uma mão na produção. Vez por outra, um show mais produzido ocorria no meio da tour, mas acabamos acostumando-nos com a rudeza da produção off-mainstream, e isso não prejudicava a nossa performance no palco, jamais, e sobretudo, não tirava-nos o foco da grande missão, que era resgatar a estética "old school", e respeitar os fãs da banda, mesmo que fossem poucos, como muitas vezes aconteceu em casas lotadas de "playboys & patricinhas" sem noção alguma de quem éramos. Carry on, Rockers !
E a continuidade da tour dar-se-ia logo no início de janeiro de 2002. Uma nova investida ao interior de São Paulo, estava programada para a primeira semana de janeiro. Seriam só dois shows, e o primeiro na cidade de São Roque, bem próxima da capital paulista (cerca de 50 KM), numa casa noturna local, chamada "V8".

Pelo nome, sugeria ser uma casa ligada à motoclubes ou aficionados de motos e carros em geral, mas na verdade era uma casa noturna comum, sem ligação direta com esse tipo de associação de motoclube. Fomos então para essa nova etapa da tour, após um período de descanso nos primeiros dias do novo ano.

Desta feita, a estrada não cansar-nos-ia muito, pela curta distância das duas cidades que visitaríamos, São Roque e Limeira. Claro que o calor era enorme, mas nessa primeira etapa, ir à São Roque era uma viagem que não dava para sentir, praticamente. Portanto, saímos de São Paulo no meio da tarde, dando-nos ao luxo de evitar o sol a pino e com a perspectiva de chegar na hora do soundcheck, sem prejuízo.

Eu e Junior já conhecíamos a casa, pois fomos visitá-la ainda em 2001, quando viajamos ao interior para semearmos o terreno para a realização da tour. Agora, estávamos em plena fase de colheita, com a realização dos shows em si, obviamente. E por conhecermos a casa, sabíamos que ela tinha uma instalação sui generis, no sentido de que ficava num ponto muito alto, construída numa encosta, praticamente. Portanto, para acessá-la, era necessário subir uma escada íngreme e enorme !! Chegava a ser assustadora pela dificuldade e também pelo perigo que constituía, sem dúvida.
Avisamos todos sobre essa dificuldade e principalmente os roadies, que sofreriam muito nessa etapa da tour, mas não havia outro meio de se transportar o equipamento, a não ser essa dura peregrinação com ares de penitência...

Mas quando chegamos na porta do estabelecimento, mesmo avisados, todos manifestaram-se com ênfase, ainda dentro do ônibus, olhando aquela escada absurda, pelas janelinhas...
Foi um festival de palavrões, daqueles típicos pronunciados como interjeição de estupefação, entremeadas por risadas, algumas de escárnio, outras nervosas e trazendo nas entrelinhas um certo ar de lamento...
Enfim, não tinha remédio e os roadies sofreram muito para transportar todo o backline da banda, com subidas sofridas e o único consolo nessa circunstância era o de que emagreceriam bastante, e sem pagar academia de musculação. Mas essa não era a única bizarrice nessa história ! O clima na casa era muito estranho. Era um bar musical e acostumado a promover shows de bandas periodicamente; havia um palco razoável; equipamento de P.A. e luz, compatíveis etc etc, mas o clima na casa não parecia ser de uma casa noturna tradicional. Era na verdade, tenso, parecendo ser agressivo, não só pela rudeza das instalações, mas pelo astral sobretudo. Fizemos o soundcheck e ajeitamos o som da melhor maneira possível. Fomos jantar e quando voltamos, começamos a entender a "vibe" do estabelecimento, e o quanto seria estranho tocar ali...



Quando chegamos na casa para aguardar a hora do show, começamos a entender enfim o astral predominante no ambiente.
Assim que o adentramos, o som mecânico que alimentava a casa era absolutamente antagônico à nossa proposta artística.

Tocava uma seleção de rap, e o que mais aproximava-se de nós ali, era o som de bandas de orientação punk, ou ligadas em street culture, como o Charlie Brown Jr, com aquela questão ligada ao skate etc etc, ou seja, antagonismo total...
O clima era tenso na casa. A maioria das pessoas ali presentes eram jovens de camadas sociais mais humildes e aparentando serem entusiastas desse tipo de abordagem cultural ou subcultural, sendo mais realista, e deixando de pisar nos ovos moles da postura massacrante do "politicamente correto"...

E todos pareciam dispersos, não interessados em apreciar aquele som que aparentemente seria do interesse deles. Andavam para lá e para cá, desinteressados no som, acintosamente, como se estivessem fazendo "footing" numa pracinha interiorana. Até aí, tudo bem, tocamos muitas vezes em casas híbridas, que não eram exatamente adequadas para shows de Rock de bandas autorais, mas nessa em específico, o clima era estranho, tenso, fugindo até do padrão de casas onde o mote é a paquera e a bebedeira, e numa terceira; rara, e obscura instância, a atenção para a performance do artista que ali apresenta-se. E com a agravante de que se for show autoral, o desinteresse é ainda maior...
Bem, apesar dessas observações, fomos encarar o show e de fato, quando começamos a tocar, o desinteresse era total. Tocávamos para ninguém praticamente, apesar de haver na dependência do estabelecimento, uma multidão.

Ninguém hostilizou-nos, pois pareciam não importar-se com o show, e mesmo que fosse um artista teoricamente de seu agrado apresentando-se ali ao vivo, creio que não interessar-se-iam, o que era bizarro. O que queriam afinal, era óbvio : divertirem-se num sábado a noite, bebendo a arrumando parceiros sexuais, o que é a praxe da noite em qualquer parte do mundo. Mas ali, era de uma forma bastante obscura, eu diria. Bem, dos males o menor, pois não houve hostilidade e o máximo que aborreceu-nos ali foi o desinteresse generalizado, mas isso são ossos do ofício para qualquer artista.

O lado ruim mesmo foi enfrentar novamente a escada íngreme. A máxima popular que diz que na descida "todo santo ajuda", era só uma meia verdade ali. O fato, era que numa escada altíssima e íngreme daquelas, a preocupação em evitar acidentes com equipamentos pesados, era total. Cogitamos dormir na cidade, mas de última hora, mudamos de ideia e seguimos para a cidade onde tocaríamos no dia seguinte, ainda na madrugada. Foi uma viagem tranquila e relativamente rápida, apesar de termos usado uma estrada secundária que fazia comunicação entre as cidades de São Roque e Limeira, passando por Itu e Salto. Chegamos em Limeira sem reserva de hotel, pois o plano inicial era dormir em São Roque, e aí começou mais uma história maluca...
O show de São Roque aconteceu em 5 de janeiro de 2002, na casa "V8". Cerca de 600 pessoas estavam presentes na nossa apresentação, mas prestando atenção e apreciando mesmo, 15 ou 20, pois mesmo nas situações mais inóspitas, sempre apareciam fãs abnegados com discos de vinil da banda, debaixo do braço etc etc..."santo suvaco, Batman" !
Em Limeira passamos por uma história maluca, assim que chegamos, com o dia raiando...


Chegamos na cidade de Limeira com o dia amanhecendo, domingo, 6 de janeiro de 2002. Não tínhamos nenhum compromisso na cidade antes do soundcheck, marcado para as 15:00 h., pois em se tratando de um domingo, não faríamos as costumeiras visitas a lojas de disco, tampouco haviam entrevistas agendadas em nenhum órgão de imprensa local. A ideia portanto, era dar entrada num hotel e descansar na parte da manhã, almoçar e descansar mais, pois a casa só abriria naquele horário que mencionei acima. Mas, com preços proibitivos, hotéis mais categorizados ficaram inviáveis e dessa forma, nossa busca centrou-se nos mais baratos e nessa circunstância, fomos parar nos arredores da rodoviária da cidade.

          Vista da estação rodoviária da cidade de Limeira / SP

Como é público e notório, hotel de entorno de rodoviária, tende a não ser o tipo de estabelecimento indicado para quem quer apenas dormir e dessa forma, fomos entrar num pulgueiro e tanto...
Até aí, tudo bem, nossa banda não era formada por estrelas exigentes que dão chiliques quando não são atendidas em suas reivindicações mais básicas. Ali era uma turma sem frescuras, e se tivesse que dormir no próprio ônibus, ninguém reclamaria, com certeza. Mas na falta de um lugar seguro, priorizamos
parar num hotel que ao menos possuísse uma garagem que comportasse nosso ônibus, e nessas circunstâncias, quase todo hotel normal só comportava carros de passeio.

Com o backline da banda todo no nosso bólido, não dava para arriscar deixá-lo na rua, e assim, fomos parar nessa pocilga. Era um hotel de frequência rápida, digamos assim, e a simples presença de um bando de cabeludos, já chamava a atenção de uma forma absurda...
Eu até divertia-me com esse tipo de situação, pois sentia-me nos anos sessenta, causando estupefação entre caipiras de cidadezinhas americanas no calor do Flower Power, o que não deixava de ter um glamour enviezado, eu diria...
Mas o pior estava por vir, pois quem conseguiria dormir com gritos e tiros ?

Pois é, segundo apuramos depois com amigos de Limeira, mais que barra pesada por ser entorno de rodoviária, aquela região era a "cracolândia" da cidade, e ali a prostituição; tráfico de drogas, e abordagens criminosas mediante armas, era uma constante...
De fato, a rua estava forrada de prostitutas seminuas, mas com todo o respeito que todo ser humano merece, a pergunta era : quem em sã consciência pagaria para fazer sexo com aquelas "moças" (que na verdade aparentavam serem bem "veteranas"), tão prejudicadas pela aparência nada atraente ??  Mesmo assim, o carrier, e dublê de roadie que o sócio / motorista arrumara-nos, animou-se com as opções femininas que vira encostadas na parede em frente ao hotel, e foi gastar seu cachet do show da noite anterior, feliz da vida...há gosto e estômago para tudo neste mundo, definitivamente...
Quanto aos tiros, eram decorrentes de pequenas ações criminosas, talvez acerto de contas de traficantes, e coisas do gênero.

Sem condições de dormir com um mínimo de silêncio naquele momento, encaramos o café da manhã que começava a ser servido. mas quando vimos as opções disponibilizadas na mesa, desanimamos. Ficou só pelo café, pois era um ambiente nada asseado e os produtos oferecidos, de má qualidade, mas perfeitamente compatíveis com o padrão do hotel, e a tarifa da diária. Bem, diante desse quadro perturbador, só conseguimos pregar os olhos quando a manhã já estava na sua metade, e o sol a pino com o típico calor interiorano. Mas aí haviam os pernilongos e as pulgas, portanto, dormir mesmo, era um luxo inacessível naquele momento... ha ha ha !!

Bem, não éramos os Rolling Stones, e se hoje esse relato desperta-me risadas, e muito provavelmente o leitor também ache graça da situação, na hora, não era bem assim...
Acordamos então, mas ainda não revigorados devidamente e tratamos de sair daquela espelunca. Por volta do meio dia, o clima de decadência da rua do hotel, amenizara-se. Era possível sair à rua sem a certeza de que seríamos vítimas de um assalto. Fomos então para as imediações da casa onde tocaríamos, aí sim localizada num bairro residencial decente e tratamos de arrumar um lugar para almoçar e completar a longa espera pela sua abertura e realização do soundcheck.

O estabelecimento chamava-se "Bar da Montanha" e desta feita era uma casa de forte tradição rocker na cidade, e em toda a região.
Era a primeira vez que tocaríamos ali, mas só pela sua fachada, já  sentimo-nos mais adequadamente à vontade, com pinturas na parede, ostentando motivos psicodélicos e caricaturas de astros do Rock 1960 / 1970. Mesmo que a infraestrutura não fosse boa, haveria de ser um show muito melhor do que o da noite anterior, quando tocamos para um público avesso à nossa proposta.


Então, após uma longa espera, eis que um dos donos da casa finalmente chegou e pudemos assim, descarregar o nosso equipamento e começar a montagem. O local era bastante agradável, com um palco coberto, mas a maior parte da casa, era ao ar livre, com muitas mesas lembrando quiosques praianos. Algumas paredes ostentavam pinturas psicodélicas rústicas, mas só a intenção de evocar tal vibe, já era adorável por si só. O astral do local lembrava o de salões rústicos que existem em São Paulo, onde ainda existiam / existem hippies, como Fofinho e Led Slay, por exemplo.

A famosa fase do trio clássico da Patrulha do Espaço, entre 1981 e 1984. com Dudu Chermont; Rolando Castello Junior & Sergio Santana

O dono que recepcionou-nos era extremamente simpático e sabia com quem estava lidando. Era fã da Patrulha, e contou-nos ter visto a banda em ação na cidade de Limeira nos anos 1980, na fase do trio : Junior; Dudu e Serginho. O palco era um pouco apertado, mas na base do "jeitinho", acabamos acertando-nos. Já havíamos tocado em palcos muito piores, como por exemplo naquele show que mencionei muitos capítulos atrás, numa casa noturna de característica jazzística de São Paulo, onde sentimo-nos verdadeiras múmias tocando engessados, sem poder fazer nenhum movimento brusco com o braço do instrumento.

O camarim era a parte mais curiosa da casa, no entanto. Era um charmoso chalé pré-montado que o rapaz adaptara como camarim para os artistas que ali apresentavam-se, com uma estrutura de moradia, talvez para uma pessoa só ou no máximo um casal. Mas como "camarim" dava conta do recado, visto que em muitos lugares que tocamos, nem isso existia. Um das janelas dessa casinha, dava para a parte de trás do palco, e ali fora colocada a mesa e as potências do P.A. da casa. Claro que era inadequado, mas foi a melhor forma que o rapaz teve para deixar o equipamento em segurança, visto que com a maior parte da casa ficando ao ar livre, não oferecia tal guarida, apesar de que nos momentos em que a casa ficava fechada, a segurança ficava por conta de dois dobermans, bastante agressivos, que vimos presos no canil.

Feito o soundcheck, vimos que ali o som não seria de primeira qualidade. Por que será que nas casas mais rockers tínhamos esse azar, e em casas de playboys, o equipamento quase sempre era de qualidade ?  É possível que haja alguma explicação lógica para essa dinâmica (e havia...o Rock estava mergulhado no underground, com casas Rockers sendo mais debilitadas financeiramente falando e assim, pecavam pela falta de infraestrutura, simples assim...), mas na hora, só atribuíamos ao fator "azar"...
Deu para dar uma relaxada no pós-soundcheck, quando a casa abriu e o público começou a tomar lugar pelas mesas espalhadas.
O som de lounge era bem agradável, e pelas janelas da casinha onde estávamos alojados, víamos rockers; cabeludos; e freaks em geral chegando, enfim, parecia que teríamos um público antenado.


Fomos tocar então no horário determinado. Haviam muitos fãs da banda, o que deixou o clima muito agradável para a nossa performance. Mas a grande maioria do público parecia apático, e disperso pelas mesas mais distantes do palco. Parecia um público rocker pelo visual, mas surpreendentemente, não demonstravam interesse na nossa performance. Isso não aborreceu-nos, absolutamente, mas causou-nos espanto, é bem verdade.

O importante foi que o show foi animado, com os verdadeiros fãs da banda demonstrando no semblante e na gesticulação que estavam extasiados. Na abordagem pós / espetáculo, fomos agraciados com o carinho desses fãs, e sobraram histórias bacanas de fãs mais veteranos, falando sobre as andanças da Patrulha por Limeira na década de oitenta e de fato, a cidade tinha uma tradição de gostar da banda e vice-versa. O Bar da Montanha recebeu-nos muito bem, e as portas ficaram abertas para outras ocasiões. De fato, voltaríamos lá algumas vezes no futuro. Quanto à reação apática de uma parte do público, os donos falaram-nos que era normal tal comportamento daquelas pessoas. Por incrível que pareça, na visão deles, essa turma gostava de Rock vintage, mas não demonstrava entusiasmo, explicitamente. Ficavam sempre tão entretidos com suas conversas particulares nas mesas, que tendiam a não prestar atenção nas bandas, portanto, não era nada contra nós ou pelo fato de sermos uma banda autoral.

Ok, "cada louco com a sua mania", como diz-se no jargão popular...
Na saída, enquanto os roadies carregavam o ônibus, um fato bizarro ocorreu. Um cão vira-lata, parecendo ter alguma descendência "poodle", ficou rondando o ônibus. Lembro-me que sua sujeira era incrível, e seu pelo parecia-se com uma fantasia de gás carbônico...
Todos afeiçoaram-se ao bichinho e logo surgiu comida para tirá-lo do sufoco de sua vida de "homeless". Contaram-nos que ele era conhecido no bairro e não tinha dono etc etc. Quando já estávamos na estrada, voltando para São Paulo, ouvimos ruídos estranhos vindo do compartimento onde o equipamento alojava-se. Fomos ver o que era aquilo e bingo...lá estava o cachorrinho !
O Ruiter, carrier / roadie, resolveu adotá-lo e  colocou-o no ônibus.

Bem, acho que o bichinho gostou da oportunidade que a vida deu-lhe, é claro. Alguns dias depois, quando encontramos o Ruiter para uma nova etapa da tour, ele contou-nos que após um banho e tosa, ele era branco de fato, e o cinza era uma cor adquirida pela vida sofrida sem um lar...
Assim foi o show em Limeira. Aconteceu no dia 6 de janeiro de 2002, um domingo, no Bar da Montanha e com cerca de 400 pessoas no estabelecimento. Para a nossa sorte, mais da metade estava realmente gostando e interagindo conosco. A próxima etapa da tour prosseguiria na semana seguinte, com mais três shows no interior de São Paulo, e uma escapada fora do nosso estado, rumo ao Paraná.


Nesse início de ano a prioridade era mesmo excursionar, fazer muitos shows e capitalizar ao máximo essa boa fase que a agenda proporcionava-nos. Tínhamos um disco novo gravado, ainda não mixado, mas a verba para dar continuidade estava comprometida, na verdade. Nossa prioridade era quitar o ônibus, e investir em alguns ajustes nele, para tornar nossas viagens mais seguras e confortáveis. A despesa operacional para organizar as turnês, também era cara e tínhamos planos de expansão nesse sentido gerencial. Por exemplo, entre 1999 e 2000, precisávamos de um "site" e nessa época, ainda engatinhávamos no quesito informática / computação / Internet, e todas as ações virtuais eram improvisadas, com o Rodrigo e o Marcello tomando a dianteira, mas com a parca experiência de simples usuários, e usando os seus respectivos PC's caseiros, sem muitos recursos, como hoje em dia (2016).  

Logo surgiria uma opção (ainda 2001, saindo um pouco da cronologia), mais categorizada nesse sentido, mas falo disso depois.
Por enquanto, o próximo passo a ser dado no mês de janeiro de 2002, foi uma nova micro excursão ao interior de São Paulo, com uma esticada ao Norte do Paraná. Seriam três shows : Avaré; Ourinhos, e Londrina / PR, cidades que ficam na mesma rota geográfica, obedecendo uma coerência no quesito logística.  

No caso de Avaré, seria uma volta à casa "Ferro Velho", onde já havíamos apresentado-nos em duas ocasiões anteriores (2000 e 2001), e não obstante o fato de ser uma casa de proporção pequena e condições de som e luz precárias, era um ambiente bacana para a banda pela história pregressa ali escrita por nós. Na semana dessa micro-tour, recebemos a notícia de que o show de Ourinhos "caíra", como diz-se no jargão do show business, e dessa forma, com tal cancelamento, chegou-se a cogitar cancelar toda a micro-tour, pois excepcionalmente, essa fase da tour era bastante arriscada financeiramente falando, visto serem três shows a serem realizados em casas noturnas de pequenas proporções. E ainda por cima, com a desistência de Ourinhos, ficamos inseguros se somente dois shows sem cachet fixo, cobririam as despesas. Mas as notícias vindas de Londrina eram muito otimistas e com a perspectiva de uma casa lotada assegurada pela produção local, praticamente estaria paga a micro-tour e um eventual lucro viria de Avaré. Sendo assim, mantivemos tudo conforme o combinado e partimos para Londrina, na noite de 9 de janeiro de 2002, e como quase sempre acontecia, acumulamos histórias mais uma vez, numa nova investida de estrada... 

A bela e pujante Londrina / PR, cidade onde tocamos muitas vezes

Londrina fica distante de São Paulo, cerca de 520 Km, portanto, viajando no período noturno, fugimos do calor torrencial de janeiro, mas perdemos em agilidade, com a viagem sendo feita numa velocidade mais comedida, por questão de segurança. Chegamos em Londrina com o amanhecer pronunciando-se, e fomos direto ao hotel Berlim, no centro da cidade. Ao instalarmo-nos, apreciamos a atmosfera antiga do estabelecimento, parecendo ser uma construção dos anos 1920, mas desistimos de dormir pelo restante da manhã, quando notamos que tal tarefa seria impossível por um motivo : os quartos que foram-nos reservados, ficavam numa ala próxima à uma avenida de grande movimento.

Estacionamento interno do Hotel Berlim, em Londrina / PR. Foto extraída da Internet e do acervo de Vincoleto Kajão 

Em suma, com aquele barulho de carros, ônibus e motos em velocidade, com direito à freadas, buzinadas e eventuais gritos de xingamentos, realmente inviabilizou-se nosso sono vespertino e convenhamos, mesmo dormindo grande parte do trajeto da estrada, estávamos "moídos", após cerca de 520 Km. Resolvemos então dar um passeio interno pelo hotel, visando apreciar essa atmosfera vintage que remetia aos filmes do Win Wenders, e posteriormente pelas cercanias do mesmo. Dentro do estabelecimento, divertimo-nos em descobrir algumas partes do hotel que realmente davam-nos a ideia de que eram instalações antigas, e recordo-me que o Marcello fez algumas filmagens que um dia poderão aparecer no You Tube, como lembranças de bastidores, tranquilamente.
Num passeio pelo centro, comprei os dois jornais da cidade, e fiquei feliz ao constatar que haviam saído matérias de página inteira em ambos. A reverência com a qual a imprensa local tratou-nos, era até comovente de certa forma, e fazia-nos pensar o quanto uma banda da história e tradição da Patrulha, deveria ser tratada sempre dessa forma, e em contraponto, o fato de que isso era raro, tornava tal atenção um fato dispare, diante da realidade brasileira.

Em tais matérias, falaram de nossa história, mas também do então momento presente da banda, e das perspectivas que tínhamos, o que era bastante animador para nós.


Havia um grande mérito nesse específico fato, pois a produção desse show, apesar de que tocaríamos num bar de pequeno porte, tratou o evento como se fosse de um porte maior, e daí ter dado-nos a segurança de termos ido tocar, pois não obstante o fato da casa ser pequena, a projeção era de público máximo e com expectativa para ver-nos em ação.

O produtor do show era um rapaz chamado Marcelo Domingues e apesar do sobrenome igual ao meu, não era parente meu. Esse rapaz era bastante dinâmico e mesmo sendo novo na profissão, mostrava bastante competência e de fato, pouco tempo depois, estava à frente de um Festival independente que ficou famoso no circuito de bandas independentes, chamado "Demo Sul". Inclusive, a Patrulha participaria de uma edição de tal festival no ano seguinte, 2003,  como headliner. Almoçamos, descansamos um pouco e fomos fazer soundcheck no período da tarde. De fato, a casa era bem pequena, mas havia um P.A. digno, que garantia uma sonoridade legal para o show. O palco era apertado, mas já havíamos acertado-nos em lugares até menores anteriormente, portanto, adaptar-nos-íamos. Voltamos ao hotel, jantamos, e no horário marcado, fomos ao local, que chamava-se "Valentino", inspirado no galã latino do cinema dos anos 1920, Rodolfo Valentino.


Quando chegamos ao local, realmente era animador verificar que a a casa estava muito cheia. Uma pena ser um espaço pequeno, mas o produtor Marcelo assegurou-nos que aquela primeira investida era uma preparação para algo maior e compatível com a tradição da banda, portanto, resignamo-nos em tocar nessa ocasião no pequeno Bar Valentino, mas estávamos alegres pela acalorada recepção, e o show foi quente do primeiro ao último acorde.

De fato, foi um show energético, de muita garra, e sobretudo marcado pela calorosa recepção do público de Londrina. Quando demos o último acorde e não haveria mais um bis, o público teve uma reação engraçada pois debandou rapidamente do bar, como se estivesse num teatro. Não era comum uma debandada dessas num ambiente de casa noturna, pois o normal seria terem permanecido no ambiente, pelo menos a grande maioria. Mas havia uma razão para tal atitude e só depois percebemos. 

Segundo amigos de Londrina, aquele procedimento era comum ali, porque o público que acompanhava shows autorais comparecia, apreciava o artista e evadia-se rapidamente, pois depois a casa recebia outro público completamente diferente, interessado em aproveitar a "balada" e paquera, sem música ao vivo. E havia mais um elemento nessa dinâmica, pois a nova turma que tomava conta do ambiente, era um público gay, predominantemente. Por isso, vimos a debandada do público rocker, e a chegada de casais gays masculinos e femininos, lotando as mesas, e ignorando a desmontagem de nosso equipamento. Nessa etapa da tour, estávamos desfalcadíssimos, pois o único roadie de fato, Samuel Wagner, ficara doente, e não acompanhou-nos nessa viagem. Nossa equipe que já era reduzidíssima, ficou inoperante praticamente, pois só tínhamos a presença do carrier que estava viajando conosco, e ele não entendia nada das funções de montagem, desmontagem e sobretudo os socorros que todo roadie presta no decorrer dos shows, sendo absolutamente inadequado para tais funções. Por sorte, nenhuma ocorrência mais grave acometeu-nos, que precisasse de um apoio mais categorizado no palco.

Fomos ao hotel Berlim e enfim pudemos dormir. No dia seguinte, tínhamos mais de 300 Km para rodar rumo a Avaré, voltando ao nosso estado. No caminho para Avaré, o produtor do show de Ourinhos, que havia desistido do show naquela cidade, ligou-nos lamentando o cancelamento etc etc. Ele desmarcara porque no mesmo dia haveria uma festa ao ar livre patrocinada pela Prefeitura da cidade e dessa forma, temeu por um fiasco em sua casa noturna, mas também foi surpreendido pelo cancelamento da festa da prefeitura pelo mau tempo e assim, ficou sem show. Pena mesmo, pois teria sido um prazer tocar em Ourinhos...paciência.

Faltou dizer que essa show em Londrina ocorreu no dia 10 de janeiro de 2002, e no Bar Valentino, haviam cerca de 150 pessoas, mas acreditem, a casa comportava com certo conforto, apenas 50 pessoas, ou até menos, portanto, estava mesmo superlotado.
O azar foi mesmo ter sido realizado numa casa de pequeno porte, pois certamente teríamos levado um público maior, mas o produtor Marcelo trabalhou dentro de suas possibilidades e ao contrário do aventureiro que levara-nos para um festival mal produzido na mesma cidade, em 2000, não quis fazer nenhuma loucura. O cachet prometido era módico, mas pagou a despesa da viagem inteira dessa micro-tour. A ideia era ganhar dinheiro com os dois outros shows, mas com a desistência de Ourinhos, esse plano veio terra abaixo. 


Agora, a última esperança dessa semana dar-se-ia em Avaré, mas havia um quase impedimento para que isso concretizasse-se e nós sabíamos desde o princípio : em Avaré, a casa "Ferro Velho" era pequena, e para dar um resultado financeiro razoável precisava super lotar como ocorrera em Londrina...


Saímos pela manhã de Londrina, mas não tão cedo, pois estávamos muito cansados, pois havíamos aberto mão de tentar dormir um pouco na chegada no dia anterior, devido aos problemas de barulho que enfrentáramos no hotel à beira de uma avenida de tráfico intenso. O produtor desse show em Londrina foi bastante consciente de todo o processo e nós sabíamos que não tinha mesmo condições de oferecer-nos melhores condições diante de uma quadro de colocar-nos para tocar numa casa de pequeno porte.
Contudo, ficamos apalavrados para uma volta à Londrina num futuro não muito distante e sob circunstâncias mais favoráveis. E de fato isso ocorreu e no momento oportuno, falo a respeito.
Seguindo viagem, como já mencionei, o produtor do show de Ourinhos ligou no celular, mas era só para lamentar o cancelamento, e quando entramos de novo no estado de São Paulo, saindo do norte do Paraná, também lamentamos quando vimos Ourinhos às margens da estrada.  

Chegamos num bom horário na cidade de Avaré, e mesmo só com a presença de um carrier, montamos rapidamente o pequeno palco da casa Ferro Velho, onde tocaríamos pela terceira vez. Tínhamos novamente o apoio dos amigos Dárcio e Marcos Cruz, que auxiliaram-nos muito nas duas passagens anteriores que tivemos naquela cidade, mas eles mesmos estavam meio desanimados quando os encontramos no soundcheck. Era uma época diferente mesmo, e o Junior ainda tinha a dinâmica sessenta / setentista de trabalho de formiguinha do artista que a cada visita numa cidade, mais público angariava. Eu desconfiava dessa estratégia estar ultrapassada e muitas vezes deparamos com segundo e terceiro show no mesmo local, com resultado de público muito aquém do primeiro.Isso contrariava a lógica empresarial "old school", pois nos tempos modernos da Internet popularizando-se, a tendência era o público ver uma vez o artista em ação e não interessar-se em vê-lo de novo tão cedo.  

Claro que eu achava isso triste, por vários motivos. Vendo como artista, era óbvio que achava isso terrível e queria mais era fazer temporadas fixas em teatro, de quarta a domingo, com direito a sessão maldita no sábado e matinê no domingo, como extras. Mas a realidade era a de uma juventude cada vez menos interessada em cultura e iconoclasta ao extremo, portanto, a concepção antiga de formar um séquito fiel, não existia mais, lamentavelmente.
Portanto, sob judice, o show de Avaré era temerário nesse aspecto e pela desanimação de nossos amigos Dárcio e Marcio, creio que não tínhamos porque nutrir grandes esperanças para mais a noite. E não deu outra...de fato, o semblante preocupado dos nossos amigos Dárcio e Marcos, já prenunciava que a noite não seria de casa cheia, e assim ocorreu, com apenas 60 pessoas presentes, destoando das ocasiões anteriores em que ali apresentamo-nos, com público mais substancial. O show foi morno, confesso. Estávamos com meia força naquela noite, pois o cansaço era grande, e o fato dessa etapa da tour ter apenas gerado uma renda para cobrir despesas operacionais, mexeu um pouco com nosso ânimo. Mas, eram ossos do ofício e na vida de qualquer artista, isso era comum, ainda mais artistas como nós, acostumados a lidar com a realidade áspera do mundo off-mainstream. No underground, "o bicho pega", como fala-se na gíria, e revés financeiro era algo normal, aliás, mais normal do que raro.  

Bem, claro que tocamos com respeito aos 60 fãs que ali compareceram, mas a energia com um público pequeno é sempre mais diminuta, independente do profissionalismo que todo artista tem a obrigação de exercer no palco. Foi o dia 11 de janeiro de 2002, no Bar Ferro Velho da cidade de Avaré, no interior de São Paulo, e com 60 pagantes. Essa etapa da tour foi sofrida também pela falta de um apoio técnico. Sem um roadie mais experiente, restou-nos apenas um carrier sem noção alguma, e isso certamente cansou-nos também. A próxima etapa da tour seria uma aventura e tanto... 
Viajaríamos para o Rio Grande do Sul, para três shows em três cidades : Bento Gonçalves; São Leopoldo, e Porto Alegre. Essa viagem rendeu inúmeras histórias, que contarei a seguir !

 
Agora teríamos uma viagem cansativa de fato, atravessando os três estados do sul do Brasil. Não só o cansaço da longa jornada estaria em jogo, mas seria um teste e tanto para o nosso ônibus. Será que ele aguentaria o tranco de mais de 2000 Km, sob o sol ardente do verão ? Bem, não tínhamos outra alternativa a não ser apostar no bólido, não é mesmo ?

Partimos então para a nossa primeira tour no Rio Grande Do Sul, com essa formação, pois a Patrulha tinha uma forte tradição naquela estado, desde a época de seus primórdios, nos anos setenta.
Claro que esse carinho do público rocker gaúcho para com a Patrulha, era um fator de esperança para nós, nessa nova investida.
Nosso primeiro alvo seria a cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, com um show a ser feito numa casa noturna, na sexta-feira. Haveria um show em Caxias do Sul no sábado, mas fora cancelado, infelizmente, deixando-nos sem atividade no sábado, mas aproveitamos bem o dia, conforme contarei a seguir. No domingo, a apresentação seria em São Leopoldo, e na segunda-feira, em Porto Alegre. Saímos de São Paulo na quinta, logo após o almoço, visando fazer uma viagem tranquila, sem correria, parando em algum lugar entre o Paraná e Santa Catarina, para dormir e prosseguir no dia seguinte com tranquilidade.

O calor era bem forte e apesar dos estados do sul serem tradicionalmente os mais frios do Brasil, com invernos rigorosos de padrão europeu, o verão é tórrido também por lá e nesses termos, não podíamos forçar o ônibus numa jornada tão quente. O primeiro trecho entre São Paulo e Curitiba é bastante tenso, com muitos caminhões num longo trecho de serra, onde a velocidade é reduzida para um ônibus velho, sem motor turbo. Logo após a fronteira com o Paraná, decidimos parar numa estalagem à beira da estrada.
Não era uma lanchonete de posto de gasolina, mas uma exótica casa encravada numa encosta da serra, parecendo um saloon de velho oeste. 

Ali renovamos as forças refrescando-nos com bebidas geladas e definitivamente estávamos fora de São Paulo, ao ouvir o forte sotaque paranaense dos funcionários da casa, com a nítida influência do polonês na sua maneira de pronunciar as palavras.
Seguimos em frente e logo avistamos Curitiba, pois quem conhece aquela região, sabe que logo que cruza-se a fronteira entre os dois estados, a capital paranaense não tarda a aproximar-se, com poucos Km de percurso.

Nesse momento, o Junior contou-nos suas reminiscências de quando morou em Curitiba, a cena local nos anos noventa etc etc.
E que bela visão é Curitiba, uma metrópole vistosa, com ares americanizados (no bom sentido), vista de forma panorâmica pela estrada, en passant.

Mas nem entramos na capital paranaense. Seguimos em frente pela BR 116, numa linha reta em direção à Porto Alegre. Existe a bifurcação logo após Curitiba onde é possível trocar de estrada e prosseguir pela BR 101, onde toma-se o rumo para Joinville em Santa Catarina, rumo à Florianópolis. Também chega-se à Porto Alegre por ela, mas a volta é maior, apesar do caminho ser muito mais bonito, pois tem grande trechos margeando o mar de Santa Catarina, e do próprio Rio Grande do Sul. Mas não estávamos a turismo e portanto, a opção mais objetiva era seguir em frente, descendo em linha reta o Paraná em direção a Santa Catarina.
Eram quase nove da noite quando o nosso motorista pediu para parar, pois estava no seu limite, fatigado. Claro que acatamos, e o apoiamos. Não havia motivo para corrermos mais riscos com o motorista bastante cansado, e a noite já em alto curso.

Paramos na pequena cidade de Mafra, em Santa Catarina, e dormimos num hotel de beira de estrada, que apesar de ser simples, era muito organizado e confortável, surpreendendo-nos positivamente. Combinamos de sair bem cedo, por volta das seis horas da manhã, para não surpreendermo-nos com alguma eventualidade da estrada. O ônibus seguia bem, sem nenhum problema e saindo cedo, chegaríamos em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, na metade da tarde, sem problemas, indo direto para a casa noturna onde tocaríamos, descarregando o nosso backline, e realizando o soundcheck.

Um probleminha interno gerado pelo motorista, revelar-se-ia uma pequena bomba relógio com hora para detonar, infelizmente. Dias antes da viagem ele comunicou-nos que gostaria de levar sua esposa e filho pequeno, na viagem. Disse-nos que seria uma oportunidade bacana de passar um tempo prazeroso com sua família, e sua esposa e filho não conheciam o sul etc etc. Claro, consultou-nos esperando uma aceitação de nossa parte, pois apesar de ser sócio do ônibus, sabia que o objetivo ali era fazer viagens de tour de uma banda, ou seja era trabalho para nós, e não turismo.
Bem, na base da camaradagem, claro que aceitamos, mas não ponderamos o que poderia ser constrangedor para nós, e para a família. Aquilo era um ônibus de uma banda de Rock e não uma excursão de turismo... então, é claro que conflitos aconteceriam e seria apenas uma questão de tempo para saber quando iniciar-se-iam...

 
Na primeira etapa da viagem, o clima era suportável, mas claramente havia um constrangimento mútuo entre a banda e os "convidados especiais" de última hora. Com exceção do menino, que interagiu conosco com bastante desenvoltura, brincando e assistindo os nossos guitarristas espantando o tédio da viagem com um show acústico aos violões & flauta, em vários momentos da jornada. Em contrapartida, a mãe do menino e o dublê de roadie que o motorista trouxera para fazer parte de nossa equipe técnica, desde o fim de 2001, ficaram segregados de nós, confabulando na parte da frente do ônibus, o tempo todo, e com expressões faciais de poucos amigos para nós. Enfim, se ficasse só nesse "climinha", tudo bem, mas as coisas piorariam bastante em questão de horas, mas falo na hora adequada. Por volta de duas da tarde, já estávamos em território gaúcho, passando pela cidade de Vacaria.
Saímos da BR 116 e numa estrada vicinal estadual gaúcha, seguimos rumo à Bento Gonçalves, apreciando belas paisagens. Quase fomos multados por absoluta ignorância de nossa parte, pois não sabíamos, mas nas estradas gaúchas existem controladores de velocidade escondidos em pontos estratégicos, quase "marotamente", e que por lá são chamados de "pardaiszinhos".

Isso porque quando passa-se por eles, o sensor emite um som semelhante à de tais pássaros, mas aí já é tarde demais e você foi multado. Não aconteceu conosco por um triz. Chegamos em Bento Gonçalves por volta de 15:30 h e decidimos ir direto para a casa onde apresentar-nos-íamos, pois o soundcheck estava marcado para as 17:00 h.

Encostamos o ônibus na porta e ligamos para a produtora da casa,  comunicando a nossa chegada e solicitando que viessem abri-la, visto que por chegarmos antes do horário estabelecido. Fizemos o soundcheck com tranquilidade e ficamos satisfeitos com as condições sonoras da casa. Era uma casa bem montada, mas pelo que apuramos, híbrida. Não tinha muito critério artístico, para não dizer nenhum, pois a mistura que ali promovia, caracterizava mais uma falta de noção do que um suposto ecletismo. Bandas cover e autorais misturavam-se sem nenhuma cerimônia e pior ainda, estilos díspares mesclavam-se no palco. Bandas de pagode; Rock; Axé Music; folclore gaúcho etc etc. Bem, não seria a primeira vez que tocaríamos numa casa dessas características, mas confesso, não era agradável e estimulante para nós quando acontecia. Como parte da intrincada logística de garantir-se uma tour dar certo para uma banda off-mainstream como a nossa, era válido. Muitas vezes, shows realizados em lugares não muito adequados ajudavam a garantir o restante da tour, financeiramente falando. Encerrado o soundcheck, fomos enfim instalarmo-nos onde ficaríamos hospedados por dois dias, visto que o show de Caxias do Sul havia sido cancelado. Ali, tivemos duas notícias : uma ótima e uma má...


Fomos instalarmo-nos, e aí a ótima nova era que tratava-se de uma chácara afastada do centro da cidade, muito bem cuidada e confortável, que fora-nos cedida graciosamente pelo guitarrista Evandro Demari, que era amigo do Junior de muitos anos, e quando soube que iríamos para o sul, prontificou-se a convidar-nos para hospedarmo-nos lá. Tal propriedade era de sua família, para veraneio, mas também continha uma ampla videira que produzia bastante uva para a indústria vinícola da cidade que ali é base da economia local.

Tanto que a chácara era muito próxima das instalações de uma famosa vinícola, que abastece o mercado nacional e para os enólogos e entendidos em geral, trata-se de um dos melhores vinhos nacionais. A chácara era muito confortável e o nosso anfitrião, extremamente simpático e solícito. Sua família era muito hospitaleira e veio conhecer-nos, abasteceu a despensa e a geladeira da casa, ofertou-nos garrafões de vinho e muitos cachos de uva in natura, quando fomos embora no domingo. Aliás, era uma quantidade absurda de uva, que suprir-nos-ia pela turnê toda e chegaríamos em São Paulo com ampla sobra para divisão total entre todos da nossa comitiva. Mas uma molecagem ocorrida dois dias depois em Porto Alegre, impediu isso, e na hora oportuna relatarei os fatos lamentáveis que fizeram com que as uvas fossem inutilizadas. Bem, após um descanso; banho reconfortante; e jantar, fomos para o show. Um amigo do Evandro Demari, saxofonista, foi-nos apresentado e o Junior de pronto convidou-o para uma participação de improviso e ele aceitou, ainda que relutando um pouco por sentir-se inseguro. A ideia era fazer um solo em "Sunshine", e nós o tranquilizamos, pois seria um looping no fim da música, com poucos acordes etc.

A casa de Shows em que tocaríamos, chamava-se "Boulevard".
Era bem montada e na verdade, era uma boite da burguesia local, nem um pouco preocupada em fomentar arte e cultura, mas apenas entretenimento; ambiente para bebedeiras; paqueras e "otras cositas más"...
Quando chegamos, a casa já tinha um grande público no seu interior, mas era nítido que seria um show burocrático, sem interação com o público. Para intensificar essa percepção, o som mecânico que tocava era híbrido e disparatado. Tocava um pagode, e a seguir, uma música sertaneja; pop lamentável de R'n'B modernoso americano, e "música" eletrônica; numa salada de frutas indigesta e nesses termos, o nosso show de Rock autoral poderia ser um fator insuportável para aquele público nada preparado para receber-nos. Por incrível que pareça, estávamos resignados com tais disparidades, por já termos enfrentado situações análogas anteriormente, portanto, não seria algo insuportável de fazer-se. Mas o que estragou mesma a nossa noite, não foi o show em si, mas um "clima" criado pelo sócio / motorista e sua "comitiva"...


Quando estávamos no palco, preparados para entrar em cena, o som ambiente da casa estava num volume inacreditável, tocando pagode pop, desses de FM. O público dançava animadamente e a impressão que tínhamos era que seria um choque térmico trocar um som de pagode tocado mecanicamente por uma banda de Rock tocando ao vivo, e por um momento tememos pelo pior, pois dificilmente o P.A. ajustado para nós, teria a mesma pressão; e segundo ponto, tocaríamos músicas autorais e certamente desconhecidas daquela plateia. E não deu outra, foi um choque térmico, mas sem hostilidades...

Fizemos nosso show normal, sem nenhuma adaptação especial para agradar uma plateia não preparada para a nossa música. O tal saxofonista convidado tocou conosco fazendo sua participação especial e foi legal. O show foi concluído com a sua normalidade, e saímos dali com a sensação de dever cumprido. O problema contudo, estava com uma crise instaurada entre a banda, e o sócio / motorista & sua comitiva. Alegando que nós estávamos "tratando-os com desdém", recusaram-se a usar as dependências da Chácara onde hospedáramo-nos, e rebelando-se, foram dormir num hotel no centro da cidade, separados da banda.

Ocorria que as instalações da Chácara eram amplas e super confortáveis, abrigando todos com total conforto, mas contaminados por uma percepção totalmente descabida e vinda sabe Deus de onde, achavam que nós os desprezávamos, e não queriam portanto prosseguir conosco, sentindo-se ofendidos. Ora, ninguém em momento algum destratou-os. O que ocorreu, e era natural, foi que durante a viagem, a comitiva do motorista concentrou-se na parte da frente do carro, junto ao banco do condutor, e conversavam entre si o tempo todo; e a banda, mais o roadie Samuel Wagner, ficou na parte do meio para trás, mas isso foi encarado por nós como uma divisão natural, meramente ocasional das circunstâncias da viagem. Por exemplo, nas paradas, interagíamos normalmente com todos, sentávamos todos juntos nas mesas de refeições etc etc. Portanto, muito surpreendeu-nos tal "rebelião"causada pelo motorista, pois não tinha nenhum cabimento a argumentação dele e de seus pares.

Nossa argumentação de que não havia motivo algum para tal reclamação, não surtiu efeito. Exaltado, dizia estar "ofendido" com nossa postura, e que estava avaliando a sua posição em continuar na tour, ou seja, ameaçava voltar para São Paulo imediatamente, deixando-nos sem transporte, com o equipamento na estrada.
Claro que era um absurdo tudo isso, mas havia o elemento político por detrás. Com tal atitude, queria deixar-nos acuados e talvez assim reivindicar mudanças na parceria, achando que ficaríamos apavorados com a perspectiva de sua ameaça concretizar-se. Claro que ficamos chateados com tal situação, mas fomos dormir na chácara, após o show, achando que no dia seguinte, que seria de descanso para a banda, a situação resolver-se-ia, quando as cabeças estivessem mais frias. O show na casa Boulevard ocorreu no dia 18 de janeiro de 2002, com cerca de 500 pessoas presentes. O dia seguinte rendeu história, apesar de ser um day-off...


 
O day-off na chácara da família do Evandro Demari, foi um verdadeiro "Spa" para nós. Apesar do clima tenso orquestrado pelo motorista e sua comitiva, estávamos alheios às suas bravatas, e sabíamos que ele pronunciar-se-ia a qualquer momento. Enquanto aguardávamos a manifestação do rapaz, descansávamos e aproveitávamos a estrutura da chácara. Lembro-me de um futebol animado no campo bem estruturado; piscina; muita uva colhida in natura na enorme videira; muita música etc.

Por volta das 17:00 h. recebemos o telefonema do motorista, dizendo que havia tomado a decisão de voltar imediatamente para São Paulo, e que passaria na chácara apenas para deixar o nosso equipamento e partir. Então ele chegou e surpreendeu-se pois a nossa postura foi de continuar jogando bola no campo, com outros na piscina, e ninguém parecendo estar preocupado com sua bravata descabida. Então, mediante uma conversa onde a ponderação de bom senso prevaleceu de nossa parte, e ele felizmente permaneceu quieto, o destituímos da falsa impressão de que haveria um suposto desdém por ele; sua família, e pelo carrier, que era seu fiel escudeiro. Mostramos para eles que não havia nenhum cabimento para pensarem em contrário e que deveriam usufruir da estrutura da chácara, e não segregarem-se num hotel, e ainda por cima gastando dinheiro do bolso.

Enfim, a contragosto, aceitou nossa argumentação, mas com o semblante fechado, como se o seu orgulho fosse maior que a razão. Nesse caso, o que poderíamos fazer ? Bem, nessa altura o seu filho que devia ter uns 4 ou 5 anos de idade, já estava divertindo-se na piscina, brincando com uma bola e interagindo conosco, o que mostrava que o clima era fraterno e só ele havia detectado o suposto "desdém" de nossa parte, e daí havia contaminado sua esposa e o carrier. A sabedoria da criança, através de sua ingenuidade, falou mais alto. O resto do dia foi de recuperação da relação azeda, mas a verdade é que nunca mais acertamo-nos e não só por conta desse episódio, mas por uma série de acontecimentos somados, a nossa insatisfação com ele inviabilizou a parceria doravante.

O sujeito tentou criar esse clima para estabelecer um certo domínio da situação, e nós não poderíamos ficar em suas mãos, sob coação, aceitando tal procedimento. Então, a "luz amarela" acendeu nesse dia, mas a verdade é que a relação já vinha azedando desde algum tempo. Daí em diante, começamos a cogitar a hipótese de comprar sua parte na sociedade, e assumirmos o veículo. Claro que acarretar-nos-ia  muita dor de cabeça inerente com tal responsabilidade, mas a perspectiva de não ficar à mercê de chantagens baratas como a que enfrentamos, era bastante animadora.

                             A bela Bento Gonçalves / RS

Bem, com o day-off, todo mundo quis passear por Bento Gonçalves após o jantar. De fato, trata-se de uma cidade muito bacana, com um infraestrutura excelente e forte identidade cultural regional, como acontece em todo o estado do Rio Grande do Sul. Somente eu não quis sair à noite, preferindo ficar no conforto da chácara. No dia seguinte, domingo, acordamos tarde e partimos na hora do almoço para a segunda cidade da Tour. A distância entre Bento Gonçalves e São Leopoldo era bem pequena e dessa forma, não havia a necessidade de sairmos cedo, mesmo porque, o soundcheck na casa onde apresentar-nos-íamos, seria só no final da tarde, portanto, tínhamos tempo de sobra. Deu para pararmos na estrada, para uma exótica sessão de fotos num avião que agora serve de enfeite para um posto de gasolina, nas proximidades de Caxias do Sul. Temos até uma filmagem de bastidores com essa parada, e um dia será disponibilizada, em DVD, ou direto no You Tube.

Chegamos em São Leopoldo por volta das 15:00 h. e logo o nosso contato na cidade apareceu. Tal rapaz, chamado Luciano Reis, era um fã da banda e músico também, sendo que sua banda faria o show de abertura naquela noite. Ele desdobrou-se para proporcionar-nos as melhores condições possíveis, e tornar-se-ia um grande amigo da banda doravante, não só nessa, mas como em diversas outras ocasiões em que fomos ao sul. Esse show seria o oposto do show que fizéramos na sexta em Bento Gonçalves, pelo bem e pelo mal : pelo bem, ao contrário da plateia de playboys daquela casa noturna, teríamos um público rocker, quentíssimo. Pelo mal, a casa em que tocaríamos era muito simples, e a infraestrutura, muito precária...


Luciano Reis, nosso anfitrião e produtor local improvisado, era bem jovem e de fato, assim que apresentou-se, perguntei-lhe se ele era o produtor local do show e ele riu, dizendo não ser um produtor profissional, mas apenas um fã e músico, e que ocasionalmente ajudara na logística por conhecer bem a cena da cidade. Apesar de jovem e enfatizar que não era um produtor profissional, o fato é que na base da boa vontade e intuição, o Luciano não mediu esforços para proporcionar-nos as melhores condições possíveis e nesse caso, tudo lembrava-me a produção do show que fizéramos em São Carlos, no interior de São Paulo, meses antes, quando a estrutura da casa onde tocaríamos era precária, e graças ao improviso dos Rockers locais, tudo viabilizou-se, ainda que de forma muito improvisada. Fazia um calor inacreditável quando chegamos à São Leopoldo.

Cheguei a brincar com o Luciano, perguntando-lhe se ali era mesmo o Rio Grande do Sul, ou tratava-se do Mato Grosso; Goiás, e outros estados onde o calor é tórrido. Apesar do sul ter invernos muito rigorosos no padrão europeu, com até ocorrências de nevascas, eu sabia que o verão gaúcho era igualmente rigoroso, e comparável aos estados que citei. A casa onde apresentar-nos-íamos, chamava-se "BR-3".

Era uma clara alusão à música do Toni Tornado que fez sucesso no ano de 1970. Tratava-se de um pequeno bar com ares de salão de Rock, muito rústico, simples mesmo. O equipamento de P.A. existente no local era precaríssimo. Para alimentar o som ambiente, dava, mas para segurar um show de Rock, não havia nenhuma
possibilidade. Nesses termos, o Luciano e sua rede de amigos Rockers locais, mobilizaram-se e reforçaram o equipamento com várias peças avulsas, transformando-o num autêntico P.A. "Frankenstein"...
Mas se ainda era tudo precário, ao menos garantimos as condições mínimas das mínimas para poder tocar. O tamanho do palco era outro problema e tanto a ser equacionado. Absolutamente minúsculo e bem alto, dava uma sensação de insegurança bem grande para nós. O Junior por exemplo, montou sua bateria num espaço enviezado para ganhar espaço, e seu banquinho ficava a milímetros de um vão entre o palco e uma porta de emergência que dava acesso à rua. Estranha porta de emergência obstruída pelo palco de madeira, mas na hipótese de um tumulto, o Júnior teria um escape, sem dúvida...

O dono do bar era um hippie da velha guarda, gente boa, mas completamente doidão. Era uma figuraça e todo mundo na cidade tinha-o como um personagem local, pelo que percebemos. Era conhecido pelo apelido de "Biba", mas no sul tal apelido não parecia ter conotação de homossexualismo como tem no nordeste, pois ninguém tecia brincadeiras maliciosas quando o citava. Além de falar pelos cotovelos, falava coisas absurdas, contando "causos" mirabolantes e no decorrer de poucas horas em que convivemos, deu várias sugestões bizarras para a Patrulha fazer nos shows, em termos de cenários e efeitos, e claro que rendeu muitas risadas de todos. Aos trancos e barrancos, conseguimos ajeitarmo-nos no palco. Desconheço fotos desse show, mas sei que existem filmagens de bastidores e trechos do show, que um dia serão disponibilizadas na Internet. Gostaria de rever tais imagens para constatar como conseguimos montar o palco com tão pouco espaço...
O som ficou "setado"(do inglês "Set Up"), no melhor padrão possível diante das circunstâncias de um infraestrutura precária, e por volta das 18:00 h. fomos para a casa do Luciano, onde passamos momentos agradáveis sob sua hospitalidade sensacional, quando desfrutamos de uma sessão de discos de vinil muito legal de sua vasta coleção. Ouvimos entre outros discos, o som do Mandrill, que beleza !!.

Ele era também Luthier, e mostrou-nos sua pequena oficina, onde costumava trabalhar no ofício de restaurar instrumentos de corda etc etc. Fez questão de checar a regulagem de oitavas das guitarras do Marcello e Rodrigo, além dos meus baixos, também. E cometeu uma loucura diante de nossos olhos, que arrepiou-nos : pegou uma de suas guitarras (acho que era uma Ibanez), e pediu para o Junior deixar uma assinatura em seu corpo. Daí, em cima da assinatura a caneta, pegou uma ferramenta de marcenaria e tratou de esculpi-la a talhos !! Sua banda abriria o evento e tratava-se de um Black Sabbath Cover, chamada "Sabbra Cadabbra".


Exatamente como estávamos sentindo que seria, o show ferveu !
Puxa vida, como era bom tocar para uma plateia que sabia exatamente quem você era, e ansiava por aquelas canções...
Como no melhor das tradições de um show de Rock à moda antiga, o público vibrou só por ver-nos subindo ao palco tomando posicionamento ao apanhar os instrumentos. Era uma plateia antenada; rocker; freak, na melhor acepção do termo. Assim que os primeiros acordes de "Não Tenha Medo" foram tocados pela guitarra do Marcello, o público incendiou-se, e na primeira virada do Junior, antes mesmo de iniciarmos o vocal, urros foram dados e aliás, esse era um termômetro que tínhamos, pois quando nesse comecinho de show, ouvíamos urros de regozijo nessa virada, sabíamos que estávamos diante de uma plateia rocker que entendia o que estava ocorrendo naquele palco, visto que uma plateia leiga, não valorizava uma virada de bateria milhas acima da média de bateristas comuns. Só por esse detalhe velado, percebíamos que haviam rockers no público e quanto maior o urro de satisfação, mais animávamo-nos, visto que a sinergia seria total durante o decorrer do show inteiro.

E mais uma vez na tour, constatávamos uma espécie de azar, eu diria, porque em shows realizados em casas de melhor infraestrutura, geralmente encontrávamos uma plateia "não iniciada" nas tradições do Rock, e que pior que isso, mal sabiam quem éramos e que a nossa banda tinha uma longa história dentro do Rock brasileiro, vinda de uma árvore genealógica nobre.
Em contrapartida, era curioso que geralmente em casas de estrutura modesta, ou mesmo ruim, deparávamos com plateias quentes, sabendo exatamente quem éramos, nossa história e nossa linhagem dentro do Rock nacional...
A lamentar-se apenas essa equação, que prejudicava indevidamente a nossa performance, ao tocarmos com um P.A. inadequado e ausência de uma iluminação decente, justamente para quem merecia assistir-nos / ouvir-nos, com as melhores condições técnicas possíveis...bem, feito o desabafo em ritmo de constatação ou vice-versa, relato que o show foi sensacional do começo ao fim, com vários picos de euforia. É muito gratificante para qualquer artista, olhar nos semblantes das pessoas e ver que estão emocionadas, e era isso que eu via na maioria das faces que mirava, no calor da mise en scené. A euforia era tanta, que arriscamo-nos a fazer um improviso de última hora, tocando um pedaço da música "Sociedade Alternativa", do Raul Seixas, fazendo uma brincadeira com o freak doido, dono da casa, o tal "Biba". Cantamos no refrão : "Viva, viva, viva o Biba e sua cabeça alternativa"... ha ha ha...

Quando surpreendemos o público com o riff de "In a Gadda da Vida", do Iron Butterfly, a casa caiu, com gente pulando de alegria, como se comemorasse um gol no estádio de futebol. Os temas mais progressivos fizeram o público vibrar, também. A cada demonstração de ecletismo dos nossos guitarristas, trocando de instrumentos o tempo todo, igualmente, e esse era um trunfo que somente plateias rockers poderiam mesmo valorizar. Em suma, esse show em São Leopoldo, foi um dos melhores que havíamos feito até então, desde o início dessa formação em 1999, com uma sinergia incrível. Quando encerrou-se, o assédio foi total, pois naquelas dependências muito simples, com ausência de camarim, era realmente inevitável, mas não queixo-me, e pelo contrário, guardo com bastante carinho essa lembrança das pessoas cercando-nos para pedir autógrafos em discos, ou em pedaços de papel.

Demorou para a adrenalina abaixar e o calor no recinto era imenso. Foram cerca de 200 pessoas confinadas num espaço que era adequado para cinquenta, talvez setenta, no máximo. A nossa sorte era que estávamos descansados, pois o dia anterior fora de lazer total na cidade de Bento Gonçalves, conforme já relatei anteriormente. Descansamos e programamo-nos para sair cedo no dia seguinte para Porto Alegre, onde faríamos o terceiro show no Rio Grande do Sul, pois teríamos compromissos de imprensa pré agendados a cumprir. Visitaríamos São Leopoldo outras vezes e gostamos tanto de tocar lá, que incluímos seu nome numa letra de música composta posteriormente, quando lançamos em 2004, o CD "Missão na Área 13". Na música, "Rock com Roll", citamos "São Leo" (São Leopoldo / RS), e "Sanca" (São Carlos / SP), duas cidades que sempre receberam-nos com um calor rocker acentuado. Chapecó / SC, também é citada. Era o dia 20 de janeiro de 2002 e haviam cerca de 200 pessoas no minúsculo Bar BR-3. Agora, "vou para Porto Alegre, tchau"...

Acordamos bem cedo, pois apesar de São Leopoldo ser uma cidade satélite de Porto Alegre, teríamos que encarar um razoável percurso de tráfego pesado, passando por outras cidades muito próximas da capital gaúcha, como Viamão e Canoas por exemplo, e o trânsito ali num dia útil, ganha contornos de engarrafamentos, no sentido de Porto Alegre. Estávamos muito satisfeitos com a performance da noite anterior, mas "quebrados" fisicamente, pois as condições no minúsculo Bar Br-3, eram difíceis em todos os aspectos, e tais dificuldades subtraíra-nos bastante energia. Já indo para Porto Alegre, de fato enfrentamos um trânsito considerável e fomos direto para a casa noturna onde apresentar-nos-íamos, onde o planejamento era de descarregar o equipamento ainda na parte da manhã, e o produtor do show ali encontrar-nos-ia para conduzir-nos à duas entrevistas que faríamos : uma na TV Bandeirantes; e outra na emissora de rádio Ipanema FM. O guitarrista e produtor do show em São Leopoldo, Luciano Reis, viajou conosco a fim de auxiliar-nos em Porto Alegre como um apoiador, e sua presença no ônibus foi fundamental como guia, levando-nos com precisão à porta da casa onde tocaríamos.

Fachada da casa de espetáculos, "Manara", em Porto Alegre / RS
 
A primeira impressão que tive ao entrar na casa de shows "Manara", foi muito boa. A estrutura era de médio porte, e lembrou-me muito o ambiente de casas de shows semelhantes que existiram em São Paulo entre os anos oitenta e noventa, como "Woodstock" e "Aeroanta". Ou seja, casas de médio porte, com estrutura de palco; equipamento de som e luz; e retaguarda de camarins, muito acima da média de bares que tem pretensão de serem casas de shows, mas não conseguem. No caso do Manara, realmente assemelhava-se às casas paulistanas que citei. Tinha um palco um pouco menor, mas muito digno para um artista autoral apresentar-se com desenvoltura. Um bom P.A. e boa iluminação de um teatro, estilo cabaret.

As instalações da casa eram de ótimo nível e a decoração era moderna, talvez não muito agradável para o meu gosto pessoal, pois remetia à motivos caribenhos que insinuavam "reggae", mas tudo bem, isso é mera questão de gosto pessoal. Logo que os roadies começaram a descarregar o ônibus, o produtor local do show chegou e muito educado e profissional, levou-nos para os compromissos de mídia e posteriormente conduziu-nos à um charmoso restaurante vegetariano de ótima frequência, relativamente próximo ao Manara. Na Ipanema FM, concedemos entrevista ao vivo.

Fico devendo o nome do locutor que recebeu-nos, mas lembro que tratou-nos com muita simpatia e respeito pela banda. Infelizmente, situações assim era tão raras em se tratando de mídia nos anos 2000, que até estranhávamos quando éramos tratados com o devido respeito e reverência que o nome da banda merecia pela sua história. Particularmente, eu estava muito feliz por estar ali e até comentei com o rapaz, num momento em off, fora do ar, que tinha uma simpatia e dívida de gratidão com aquela emissora gaúcha, pois a minha banda nos anos oitenta, A Chave do Sol, foi muito executada ali, em sua programação, ajudando a formar um grande público gaúcho para a nossa banda. Infelizmente, nunca tivemos a oportunidade de apresentarmo-nos em solo gaúcho, apesar de termos a consciência de que tínhamos naquele estado, um grande número de fãs, formados pelas nossas apresentações no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura de São Paulo, que era retransmitido pela TVE de Porto Alegre para todo o estado do Rio Grande do Sul, e muito em função da maciça execução radiofônica que tivéramos por conta da Ipanema FM de Porto Alegre. Portanto, estava realmente feliz por estar ali naquele estúdio, embora usando outra camisa agora, a da Patrulha do Espaço. Foi uma conversa muito legal, promovemos o show que faríamos no Manara, naquela noite e tocou-se duas músicas do CD "Chronophagia". Dalí, fomos voando para a TV Bandeirantes, apreciando a bonita visão do rio Guaíba e o estádio Beira Rio, do Internacional. Naquela época já era bem vistoso, imagino agora com a reforma para adequar-se ao "padrão Fifa", da Copa do Mundo...

Na TV Bandeirantes, a inserção foi um encaixe muito rápido no jornalismo local. Praticamente só o Junior falou, mas nós tocamos ao vivo, sim. Fizemos "Céu Elétrico" e  "O Pote de Pokst", com o Rodrigo, Marcello e eu "pilotando" violões, e o Junior na percussão leve de uma "pandeirola". Claro que o Marcello também tocou flauta em "Céu Elétrico". Mas estávamos contentes, com duas ações de mídia de massa, reforçando o show. Fomos então almoçar no restaurante que citei, nas proximidades do histórico auditório Araújo Viana, onde fiz questão de conhecer pelo menos a fachada, numa caminhada que fiz isoladamente após o almoço. Ali, shows históricos do Rock brasileiro foram realizados, incluindo a própria Patrulha do Espaço, muitos anos antes. Com razoável tempo de sobra, fizemos o soundcheck no Manara...

Num arranjo bem fraternal, economizamos uma boa quantia que gastaríamos com hotel, hospedando-nos no amplo apartamento do baterista da banda "Os Arnaldos", que faria a abertura do show da Patrulha. Solícito ao extremo, foi um anfitrião muitíssimo hospitaleiro, deixando-nos muito à vontade. O produtor do show, inclusive, era o vocalista da banda. Onde ele morava, ficava muito perto de uma casa de shows underground, mas bem falada da cena gaúcha, onde diversas bandas off-mainstream costumavam apresentar-se ("Garagem Hermética"). Na porta de tal estabelecimento, vimos dois freaks, que estavam vestidos como se estivessem na "Swinging London" dos anos sessenta. Achamos incrível avistarmos figuras assim e melhor ainda foi que eles reconheceram-nos e abordaram-nos com bastante simpatia.

Eram dois membros da banda "Cachorro Grande", que naquela ocasião ainda não tinham nem 10 % da fama que conseguiram construir no futuro próximo. Naquele instante, eram ainda artistas do underground, mas eu reconheci o baterista, porque lembrei-me dele em fotos da banda Júpiter Maçã, onde ele atuava anteriormente, no final dos anos noventa. O outro rapaz era o vocalista, e já usava o seu famoso boné estilo sixties, que é sua marca registrada. Simpáticos, ficaram contentes em ver-nos, e claro que os convidamos para o show da noite e eles acabaram indo, inclusive levando os outros membros da banda. Eu e Júnior fomos dar uma volta na Avenida Independência, a seguir, e achamos uma loja de instrumentos interessante. Entramos e ficamos felizes por ver que havia um cartaz de nosso show em exibição no quadro de avisos. O dono recebeu-nos com bastante empolgação, e ainda fomos abordados por um casal de paranaenses que reconheceu-nos por ter lido a enorme matéria de página inteira que havia saído nos dois jornais da cidade de Londrina, por ocasião de nosso show nesse município paranaense, bem no início daquele mesmo mês.

Rockers gostam de fazer ligações "mágicas" nessas horas, e claro que brincamos que eram muitos sinais positivos acontecendo para um dia só. Ao final da tarde, tínhamos mais um compromisso televisivo. Seria uma rápida inserção ao vivo num programa de variedades da TVE gaúcha. Eu no entanto, sucumbi ao cansaço, e fiquei no apartamento onde nos hospedáramos. Os demais foram e fizeram uma inserção acústica, tocando "Céu Elétrico". A banda de abertura, "Os Arnaldos", tinha uma particularidade exótica : era uma banda cover exclusiva dos trabalhos do Arnaldo Baptista !! Os músicos adoravam o Arnaldo e tinham no seu repertório, músicas de todas as fases da carreira do Arnaldo, o que era bastante salutar, apesar do caráter "cover" de tal empreitada.

Um dos músicos dessa banda, era o tecladista "Astronauta Pinguim", que era bem equipado com teclados vintage e ótimo músico. Anos depois ele mudou-se para São Paulo e hoje em dia é bem famoso na cena da música eletrônica e Indie Rock, inclusive com reportagens em jornais e revistas de mídia mainstream, fora aparições na TV etc. Chegava o momento do show com a noite avançando...

Chegamos ao Manara para o show, por volta das 21:00 h. e estávamos acompanhados do baterista dos "Arnaldos", que afinal de contas, era o nosso anfitrião...
Tivemos a boa surpresa de vermos na casa, os músicos e amigos Renê Seabra e Fares Junior, que estavam em Porto Alegre fazendo um trabalho de workshop. Renê Seabra foi baixista da Patrulha em duas fases, tendo gravado o LP "Primus Inter Pares", de 1992.
Havia um bom público na casa e até a hora do nossos show, aumentou, fazendo um bom quórum. Mas com a ressalva de que a casa comportava bem mais gente, portanto, as 250 pessoas que ali compareceram, não lotaram a casa, mas, numa segunda ressalva, considerando que tratava-se de uma segunda-feira, consideramos um número muito bom de pessoas presentes.

O show dos "Arnaldos" foi divertido, os rapazes tocaram várias canções do LP "Loki", com qualidade. E antes de tocarem,  abordaram-nos para pedir autorização para tocar "Sexy Sua", música do primeiro disco da Patrulha, que sabiam que era do nosso repertório também. Talvez eles temessem que nós vetássemos que eles tocassem, para privilegiar a nossa performance, mas muito pelo contrário, gostamos da ideia de que eles a tocassem e em seguida nós, também, assim o público teria a oportunidade de aproveitar a canção do Arnaldo, em duas versões. Se bem que no frigir dos ovos, não havia diferença radical entre as versões, visto que eles tocavam o arranjo do disco, e nós também...

Chegou enfim a nossa vez de subir ao palco. Estávamos ainda com a vibração de São Leopoldo na cabeça e projetávamos uma recepção semelhante em Porto Alegre, visto ser uma cidade grande e ter grande tradição rocker. Mas infelizmente, não foi o que aconteceu...
Música após música, recebíamos em troca, apenas aplausos educados e quase burocráticos, muito longe da comoção que causáramos em São Leopoldo, na noite anterior. O pessoal do "Cachorro Grande" apareceu em peso e foram simpáticos conosco no camarim do pós-show, mas sinceramente acho que não curtiram o nosso som, pois não demonstraram nenhum entusiasmos a mais do que a educação simpática. Achei estranho, pois os caras eram antenados em som retrô, portanto haveriam de identificar-se com todos os signos vintage inerentes à nossa proposta, mas não foi o que aconteceu, de forma enigmática para mim. Paciência.

Nenhuma canção parecia mudar tal panorama, nem mesmo os pontos chave do show, onde estávamos acostumados em despertar reações sempre parecidas, independente de onde estivéssemos, com exceção de ambientes inóspitos, onde era óbvio que defrontávamo-nos com pessoas que ignoravam retumbantemente a nossa cultura Rocker. O som e a luz estavam legais; nossa performance muito boa, pois estávamos muito bem ensaiados e o público ali presente era antenado, portanto, esse show no Manara entrou para a história da banda como um enigmático exemplo onde o cenário apontava para um sucesso retumbante, mas no cômputo geral, não houve "química"...
É a tal da sinergia que todo artista que apresenta-se ao vivo, ressalta que precisa existir para tudo funcionar bem. Tanto artistas musicais, quanto teatrais, sabem que o palco tem essa particularidade. E muitas vezes é absolutamente inusitado o motivo pelo qual não funciona tal predisposição, pois não havia nenhum motivo sequer para não dar certo. Bem, como último detalhe que recordo-me, teve uma participação de última hora, quando chamamos ao palco, o ótimo guitarrista gaúcho, Bebeco Garcia, que era famoso na cena oitentista sulista, por ter feito parte da banda "Garotos da Rua", que chegou a emplacar um hit no movimento do BR-Rock daquela década. 

                    Bebeco Garcia numa foto dos anos oitenta

Sujeito legal, boas influências, e muito bom guitarrista entrou para tocar conosco, mas infelizmente estava bastante alterado, digamos assim, e mesmo fazendo um solo Rock'n Roll muito legal no início, foi estendendo a sua participação e causando uma estranheza ao público. Não queríamos cortá-lo bruscamente, é claro, mas ele não demonstrava vontade de encerrar, e a cada segundo a mais que estendíamos, percebíamos uma insatisfação do público, mesmo sendo o Bebeco, querido por todos. Sua expressão facial era de catatonia, lembrando o Syd Barrett, não pela genialidade e estranheza psicodélica, mas pela patologia propriamente dita. Chegamos a ficar assustados vendo-o solando ad infinitum, sem demonstrar estar inserido com a banda, mais parecendo estar num mundo particular, tocando sozinho. Com os olhos esbugalhados, fitava as paredes do Manara, parecendo estar em outro lugar. E certamente estava. Bem, missão cumprida, foi assim o show em Porto Alegre, com aplausos educados e nada mais...
Era o dia 21 de janeiro de 2002, com 250 pessoas presentes na plateia. Ainda tenho alguns fatos para comentar sobre essa tour pelo Rio Grande do Sul...


Voltamos ao apartamento de nosso anfitrião e apesar do show não ter despertado a mesma reação que o de São Leopoldo na noite anterior, na capital gaúcha tivemos exposição midiática com dois programas de TV e um de rádio. Além do mais, o show não foi um desastre, pois tocamos bem, mas foi morno. No dia seguinte, acordamos e fomos ao Manara buscar o nosso equipamento que dormira lá na casa. E não havia outra alternativa, pois tememos deixá-lo no ônibus que também passara o dia estacionado numa rua.
O clima que azedara com o motorista e sua "entourage", amenizara-se com sua permanência no sábado em Bento Gonçalves, mas nunca mais foi o mesmo, e estava bem esquisito, na base da tolerância estabelecida no limite. Reservadamente, o nosso roadie, Samuel Wagner, revelou-me que ouvira uma conversa do motorista com seu fiel escudeiro, o carrier, de que deliberadamente transformaria a nossa viagem de volta "em um inferno", e que sabotaria o nosso plano de estar em São Paulo até quarta feira, pois na quinta tínhamos ensaio marcado para passar três músicas com o guitarrista Andreas Kisser, do "Sepultura", que seria nosso convidado de honra num show que faríamos no Sesc Pompeia, nas festividades do aniversário de nossa cidade.

Seu rancor era muito grande, e eu não duvidaria que seu plano de sabotagem lograsse êxito...
Despedimo-nos do nosso amigo Luciano Reis que acompanhou-nos nessa jornada desde o domingo, e o deixamos próximo de uma estação de trens, onde partiu para São Leopoldo.

Decidimos voltar pela estrada BR-101 que margeia o litoral dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, até a divisa com o Paraná quando bifurca-se com a tradicional BR-116, que vai para São Paulo. O clima estava azedo e tenso entre nós e o motorista, mas nada indicava o tal boicote que havia planejado. Resolvi guardar essa informação em segredo, para não preocupar ninguém, e só a revelaria se houvesse um indício disso na prática, e a guerra fosse declarada, de fato. Mas havia um fator decisivo nesse processo e no fundo, foi o que conteve-o : éramos em cinco e ele contava só com seu amigo. Não poderia contar com a esposa e o filho pequeno se o tempo fechasse nas vias de fato. E claro que não colocaria sua família numa situação de perigo e constrangimento.
Mesmo assim, ficamos em alerta, eu e Samuca, observando os movimentos de ambos. Paramos nas proximidades de Criciúma, em Santa Catarina, para um descanso quando já anoitecia e ele revelou estar fatigado na condução do veículo. Nesses termos, era mais prudente acatar e dormir. Muito cedo, no dia seguinte (6:00 h da manhã), fomos para dentro do veículo, e partimos para a segunda etapa da viagem de volta, sempre atentos aos movimentos da dupla dinâmica, enquanto nossos amigos riam, tocavam instrumentos ou simplesmente dormiam em longos trechos. Então, algo inusitado ocorreu quando alguém lembrou-se das uvas que ganháramos de nosso amigo Evandro Demari, de Bento Gonçalves. Naquele calor, foi uma boa pedida lembrar-se disso e todo mundo aceitou pegar alguns cachos para refrescar um pouco a garganta. Foi quando o Samuel deu um berro vindo do compartimento de carga do veículo ! As uvas estavam perdidas por uma questão de sabotagem !!
E apesar disso que estava contando até agora, não era obra do motorista e do carrier.

Ligando os fatos, o Samuel havia recordado-se que vira dois rapazes de uma banda famosa de Porto Alegre que haviam ido ver-nos no show de Porto Alegre, e que no meio do show, saíram de nosso camarim às gargalhadas, sem motivo aparente, enquanto nós tocávamos. Não revelarei suas identidades publicamente porque não quero fazer de minha autobiografia um muro das lamentações, mas o fato é que esses dois artistas desrespeitaram-nos, urinando na enorme caixa de isopor que continha uma quantidade absurda de cachos de uvas que ganháramos da família de Evandro Demari em Bento Gonçalves. Agora estava explicado o motivo das risadas e o motivo pelo qual colocamos o isopor no camarim era óbvio : no ônibus, sofrendo o calor escaldante do dia ensolarado, elas estragariam. Ficamos muito indignados, pois tratamos bem esses moleques e eles foram dissimulados tratando-nos com falsa simpatia etc, apenas aguardando uma oportunidade para aprontar uma molecagem dessas.

Pode ser que eu seja ingênuo, mas nunca na minha vida tive esse comportamento de querer fazer brincadeiras de mau gosto com as pessoas e fiquei muito chateado. Esses "guris" devem ter lido muitas biografias de bandas de Rock clássicas, falando de molecagens de bastidores e desejavam ardentemente viver tais experiências em sua vida, como uma espécie de autoafirmação Rocker, ou coisa que o valha. Eu jamais fui ou serei assim e não conformo-me com tal procedimento, que considero de baixo nível, e sou tão Rocker quanto eles pensam que o são. Enfim, na hora ficamos muito indignados e claro, tivemos que jogar tudo fora.
Apesar desses dissabores, a viagem acabou sendo normal e recordando hoje em dia, acho que o fator foi mesmo o da estratégia, pois ao menor sinal de que estivesse boicotando-nos, o tempo fecharia para o motorista, e apesar de ser um sujeito rude e que certamente encarasse as vias de fato, em outras circunstâncias, ali a desvantagem era enorme. Mas ele percebeu que o Samuel sabia, e dali em diante, o clima acirrou-se entre os dois e num futuro muito próximo, quase chegariam ao embate das vias de fato. Conto no momento oportuno. Chegamos em São Paulo extenuados e no limite de atravessar a cidade em tempo de escapar do rodízio de veículos, quase às cinco da tarde da quarta-feira. Descarregamos o equipamento e no dia seguinte o compromisso seria ensaiar com Andreas Kisser. A pré-produção desse show no Sesc e o show em si, rendeu muitas histórias !! Aguardem, que vou relatá-las a seguir...


Bastante tempo antes de termos ido ao Rio Grande do Sul, já sabíamos que tocaríamos no Sesc Pompeia no fim de janeiro de 2002, como parte das festividades de aniversário da nossa cidade.
Tocaríamos num projeto denominado : "São Paulistas", uma alusão à São Paulo, em forma de trocadilho.

Era mais um projeto idealizado pela produtora Sarah Reichdan, e o formato seria o de um show duplo, com duas bandas de rock setentistas e significativas do Rock paulistano, Patrulha do Espaço e Tutti-Frutti, além da presença de três convidados especiais : o trombonista Bocato; o guitarrista do "Sepultura", Andreas Kisser, e Clemente, o guitarrista e vocalista da banda Punk, "Os Inocentes".
A ideia era que o Tutti-Frutti e a Patrulha do Espaço fizessem seus respectivos shows, inserindo convidados em seu decorrer, e ao final, todos os músicos, incluso os convidados, tocassem juntos um número final.

Em torno disso, digo em primeira instância que a ideia de um show conjunto era legal e a presença de convidados especiais, idem. Sob o ponto de vista artístico, isso é bacana, eu aceito essa ideia de forma tranquila. Ainda falando do Sesc enquanto instituição, não canso-me de dizer que é uma organização impecável, e que cumpre sua função sociocultural de uma forma brilhante, mantendo suas atividades num padrão de primeiro mundo, subsidiando tudo e entregando ao público, atrações e atividades gratuitas, ou cobradas em patamares simbólicos. No esquema do Sesc, tudo funciona de forma exemplar, tanto para o público, quanto para os artistas e equipe técnica / produção. As instalações são impecáveis; o equipamento de som e luz é sempre de primeira linha; a cenotécnica é bem planejada, o camarim é super asseado, confortável e um lanche farto com comidas; bebidas, e frutas é disponibilizado; os funcionários são atenciosos e cordiais. Os cachets são pagos regiamente e sob valores dignos, que respeita os artistas.

O Sesc, a meu ver, cumpre com galhardia o que o governo deveria fazer e não faz no campo social, como fomento à cultura; esportes; educação; e até na área da saúde e cuidados com os membros da terceira idade. Mas permito-me fazer duas críticas construtivas, absolutamente bem intencionadas, para deixar bem claro :
1) Há um excesso de rigor burocrático quando os shows são marcados. Tal exagero pode aos olhos da instituição, denotar a extrema lisura no trato contábil; fiscal & jurídico, mas na verdade, menos da metade da papelada exigida é realmente necessária. Portanto, para tocar no Sesc, é preciso ter um agente cadastrado na instituição e com estrutura comercial toda montada e sem rusgas, para poder transitar e negociar.
2) Sob o ponto de vista artístico, parece que o Sesc caiu numa armadilha criada por algum formador de opinião há muitos anos atrás, que certamente criou um paradigma. Pois é quase impossível apresentar-se lá, se não for inserido num "projeto". O fato de um artista qualquer ter uma carreira; discografia & história, não parece ser suficiente para convencer um programador de Sesc, a contratar-lhe e anunciar seu show, simplesmente. Você só participa se houver um "mote", e invariavelmente apresentar "um convidado". Com isso, infelizmente, o Sesc dá a entender que não acredita nos artistas por sua força própria, mas pelo contrário, só considera-os viáveis, se fizerem parte de um contexto criado. Não há como deixar de observar-se que tem um elemento egóico nisso, pois alguém, dentro do Sesc, ou quem leva o pacote de tais "projetos", deve achar-se "genial" por tê-lo idealizado...
Nesses termos, reitero que acho isso um maneirismo desagradável, mas que não pode de forma alguma diminuir o bem que a instituição faz ao país.

Da esquerda para a direita, a bandeira estadual paulista, e à direita, a bandeira paulistana da capital de São Paulo

Dentro dessa dinâmica de "projeto", a Sarah criou esse pacote para o aniversário de São Paulo, e claro que ficamos honrados e felizes em participar. Um ensaio foi marcado, portanto, para ajustarmo-nos aos convidados tão somente, pois cada banda deveria responsabilizar-se por seu próprio show, naturalmente. Já estava definido há semanas que o Tutti-Frutti tocaria com o Bocato e Clemente; e nós com o Andreas Kisser. A sala de ensaio que a Sarah alugou para nós, foi o estúdio do tecladista Luiz De Boni, ex-membro do Terço nos anos noventa. Era uma belo estúdio com várias salas, incluso de gravação, e muito bem localizado na avenida Indianópolis, no elegante bairro do Planalto Paulista, zona sul de São Paulo.

Eu tinha uma história pregressa com aquele estúdio, pois fora ali que gravei a primeira fita-demo do Língua de Trapo, no longínquo ano de 1980. Claro que nessa época, o estúdio era bem mais simples, com característica de uma sala de ensaio, pertencente à banda de bailes, Cia. ILtda., onde o Luiz De Boni era tecladista. 
Nesse ensaio com Andreas Kisser, tive uma agradável surpresa da parte dele !


Chegamos no estúdio por volta das 16:00 h de uma quinta-feira, sob clima bastante amistoso, e com a produtora Sarah Reichdan recepcionando-nos. Estávamos descansados e bem dispostos, após uma extenuante viagem ao Rio Grande do Sul. Mas o dia anterior tendo sido "off", deu-nos a possibilidade de recuperação e convenhamos, após um dia de descanso; banho & uma bela pizza, tudo melhora. Foi quando chegou ao estúdio o guitarrista Andreas Kisser, super simpático e entusiasmado com a oportunidade surgida em tocar conosco, demonstrando um respeito que cativou-nos de pronto. Mas não foi só essa atitude que impressionou-nos. Enquanto arrumávamos as coisas para começar a ensaiar, Andreas surpreendeu-me de uma forma comovente, eu diria.

Pois então passou-me a contar que eu tivera uma importância muito grande na sua vida, como exemplo que incentivou-o a tornar-se um músico de Rock, no seu caso, o Heavy-Metal. Fiquei bastante desconcertado com tal afirmativa da parte dele e antes que perguntasse-lhe, ele prosseguiu contando : antes da metade dos anos oitenta, ele ainda nem tocava no então incipiente Sepultura, quando foi, de uma forma bastante fortuita, assistir um ensaio de uma banda de Rock emergente formada por músicos mais velhos, chamada...A Chave do Sol... Como assim ??
Sim, contou-me que era amigo de uma amigo da irmã do guitarrista Rubens Gióia, Rosana Gióia, e dessa forma, surgira a oportunidade de assistir um ensaio da minha banda naquela década, visto que Rosana Gióia formalizou o convite e de fato, era nosso costume receber pessoas na nossa sala de ensaios, desde o início de nossas atividades, em 1982. Então, encerrando seu belo depoimento, falou que ficara encantado com a nossa dinâmica de ensaio, e que ali, sedimentou a sua vontade de tornar-se um músico, de fato. Fiquei bastante comovido com tal depoimento e em seu semblante, era nítida a sua sinceridade desconcertante, eu diria. Era bastante inusitada  a situação por alguns aspectos :
 

1) Eu, que tenho uma memória de longo alcance bastante ativa, simplesmente não lembrava-me desse fato. Lembro-me de muitas visitas na sala de aulas da Chave do Sol, e algumas absolutamente insólitas que mereceram ser mencionadas e assim o fiz no capítulo da Chave do Sol, mas nem imaginava que um Andreas Kisser, ainda adolescente e imberbe, pudesse ter ido assistir-nos ensaiando. Tenho a atenuante de que ele era um garotinho apenas, e não havia nenhum indício na ocasião, de que tornar-se-ia mundialmente famoso no futuro;
 

2) Conheci os rapazes do Sepultura por volta de 1987, na redação da revista Rock Brigade. Eles já estavam estourados no métier do Rock pesado / Heavy-Metal, e eram "darlings" daquela publicação que privilegiava o mundo do Heavy-Metal. E nessa altura, já faziam barulho internacional, mas fariam muito mais, num curto / médio prazo. Eram todos cordiais comigo, mas o jovem Andreas nada falou-me na ocasião sobre ter ido ao ensaio da Chave, poucos anos antes. Dali em diante, entre 1988 e 1989, encontramo-nos várias vezes em bastidores de shows. Lembro até do baixista Paulo Jr. aparecer num show que fizemos em conjunto com o Golpe de Estado, na casa de shows Dama Xoc, em 1988 ,quando ele brincou comigo, dizendo-me que ele gostava da minha banda, mas eu não gostava da dele...
Em 1991, estava ciceroneando meu amigo Ricardo Aszmann, que é do Rio, e perambulando pelo bairro das Perdizes, aqui em São Paulo, resolvi levá-lo para conhecer o estúdio Quorum, cuja propriedade era dos irmãos Molina (Jeff & Jacques) e Ney Haddad. Surpresa total, o Sepultura estava ensaiando numa sala ampla, e que estava repleto de garotas, denotando que viviam a experiência do estrelato consolidado, e nessa fase, já eram estrelas mundiais. Estavam ensaiando para o show que fariam no Festival Rock in Rio, de 1991. Eu não sou hipócrita. Claro que é público e notório e nesta autobiografia, estou reafirmando isso sistematicamente em vários capítulos diferentes até, que não gosto, nem nunca gostei de Heavy-Metal e Punk-Rock. Se não gosto do "Iron Maiden", como muita gente achava / acha que eu gostava / gosto, imagine o metal extremo do Sepultura. Contudo, além do respeito e da ética, eu tenho uma admiração pelo Sepultura, não pela sua obra e estética, mas pela sua dignidade artística e status adquirido com muita labuta. Indo além, acho extraordinário no caso do Sepultura, que tenham feito sucesso internacional sem apelações. A despeito do álbum que gravaram com intervenções indígenas no Xingu, mas depois de solidificados, pois o sucesso foi construído sem que usassem de artifícios folclóricos para impor-se mundialmente.
Digo e repito, o Sepultura fez sua fama sem usar cestos de frutas na cabeça, como sempre o mundo lá fora espera que os brasileiros apresentem-se. E faço a ressalva, mesmo sendo a ironia cabível como institucional, que isento a Carmem Miranda como pessoa e artista, pois gosto dela e acho-a sensacional, artisticamente falando. Infelizmente, o exotismo com o qual ficou famosa, tornou-se uma espécie de estigma para qualquer artista brasileiro doravante. Salvo Tom Jobim (ainda que no caso dele hajam ressalvas, não por ele, pessoalmente), creio que a cesta de frutas na cabeça virou condição sine qua non para artistas brasileiros serem aceitos no exterior.
Mas o Sepultura venceu no mundo do Metal e fazendo seu som sem elementos folclóricos como apelação, para chamar a atenção pelo exotismo (repito : sei que tem aquele trabalho envolvendo índios do Xingu num determinado álbum da banda, mas foi num momento posterior na carreira, que já estava consolidada naquela altura). E isso, em minha opinião, tem um valor fantástico.
 

3) Era para enaltecer-se também a extrema humildade de Andreas, que mesmo sendo uma estrela internacional, mostrava-se um rapaz simples, educado e muito agradável no convívio.
 

Ensaiamos com muita tranquilidade, num clima muito agradável e estava acertado que ele tocaria as músicas "Robot" e "Olho Animal", que eram do álbum "Patrulha'85". Essas canções não faziam parte do set list até então, mas eram pedidas pelos fãs, vide o que relatei sobre o show em Jales / SP, alguns parágrafos atrás.
Ele também tocaria na música final, que em decisão tomada na hora, junto ao pessoal do Tutti-Frutti, e também dos convidados, ficou acertada ser "While My Guitar Gently Weeps", dos Beatles, em homenagem à morte de George Harrison, recentemente ocorrida naquela época. Terminado o ensaio, agora falarei sobre o show...

O  dia do show começou meio tenso, pois o sócio / motorista não sabotara a nossa volta para São Paulo como comentara que o faria com seu amigo carrier, numa conversa interceptada pelo Samuel Wagner, mas estava bem mal humorado. Sua relação conosco estava bastante desgastada, e caminhava para o seu final. Mas falo sobre isso mais tarde. Mesmo sob um clima meio estranho, auxiliou-nos com sua van, pois como não precisávamos levar o backline inteiro, não havia a necessidade premente de usarmos o ônibus.

Claro, teria e teve uma compensação financeira e justa, mas até poucos momentos antes de concretizar sua vinda, tínhamos o "plano B" de irmos com o equipamento em nossos carros particulares como uma possibilidade quase certa. Enfim, fomos com nossos carros, de qualquer forma, porque a van dele era de carga, sem bancos para passageiros. Chegamos ao Sesc Pompeia no horário combinado para o soundcheck. O show aconteceria nas dependências da Chopperia, onde dois meses antes, realizamos aquele show acústico 100%, à luz de velas, que já comentei anteriormente.

Desta feita, contudo, seria completamente diferente, com um show elétrico e portanto, muito mais confortável para nós. O soundcheck foi bastante tranquilo e as duas bandas e seus respectivos convidados, estavam bastante relaxados e satisfeitos com o som no palco. Rumores davam conta de que um público significativo de fãs do Sepultura estariam presentes para ver Andreas em ação. Para nós, era ótimo que o prestígio pessoal dele tivesse esse poder de chamariz adicional para o evento. Todavia, claro que o público típico do Sepultura não pagaria para ver a Patrulha, muito menos o Tutti-Frutti, em circunstâncias normais...

Quando subimos ao palco, a casa não estava lotada, mas havia um bom contingente presente. Aos poucos, em meio ao nosso show, eu via que chegavam mais pessoas e de fato, isso era uma tendência.
Não era o nosso show tradicional e completo, mas não posso afirmar que tenha sido um show de choque. Digamos que foi um meio termo entre os dois, com um show "quase" normal, levemente reduzido.

Quando o Andreas foi chamado ao palco, teve uma reação forte de seus fãs. De fato, haviam muitos deles no público. Sua performance foi de energia, mas respeitando inteiramente a nossa pegada infinitamente mais leve que a da sua banda. O Marcello foi tocar teclados, deixando o Rodrigo como guitarrista da banda a poder interagir com Andreas na outra guitarra. E de fato, houveram momentos muito bacanas de troca de solos entre ambos, improvisando livremente no arranjo adaptado das músicas "Olho Animal" e "Robot".

Nas duas fotos anteriores da participação de Andreas Kisser conosco no Sesc Pompeia, não tenho certeza, mas desconfio serem da autoria da fotógrafa Ana Fuccia

Claro que ambas tinham o ranço Heavy-Metal que tanto lutamos para tirar na Patrulha em nossa fase, mas os acontecimentos que haviam surgido nos últimos meses, quase que impeliram-nos para elas, infelizmente.

Outra foto do show "Sãopaulistas", com a presença de Andreas Kisser como nosso convidado. Não tenho o crédito oficial da foto, que achei na Internet e é do acervo de Ray Castello, filho do Rolando Castello Junior 

"Robot" até que era palatável e tinha um mote na temática da letra, interessante, mas "Olho Animal" era uma tortura para nós, Marcello, Rodrigo e eu, que a considerávamos fraca harmônica e melodicamente, e o pior de tudo, com uma letra infantil e bastante destoante da nossa proposta. Mas não teve jeito...dali em diante, ambas voltaram ao set list de shows, sob a alegação de que principalmente fora de São Paulo, eram canções solicitadas pelo público que mais reconhecia a Patrulha por esses trabalhos oitentistas, do que com Arnaldo Baptista e / ou da fase áurea do trio clássico : Junior, Serginho e Dudu. Passada a participação de Andreas, que causou muita comoção entre os fãs do Sepultura, encerramos o show com mais duas ou três músicas, e sem a presença dele mais no palco.

Saímos de cena bastante aplaudidos e entregamos ao Tutti-Frutti, um público já bem aquecido e ansioso por mais Rock. Lembro de assistir grande parte do show deles pela coxia. Foi bastante energético, com a banda tocando seus maiores hits, da época em que tinham Rita Lee em suas fileiras. Para encerrar, fomos chamados novamente ao palco para o número final. Eram dois backlines ligados ao mesmo tempo, pois cada banda ficou "setada" ao mesmo tempo, usando só a metade do palco. Isso foi bastante prático sob o ponto de vista do áudio, e o set up arrumadinho para cada um, mas cenicamente falando, foi muito estranho, pois cada banda tocou como se estivesse numa gangorra, espremida num canto...
Já no ensaio no estúdio do Luiz De Boni, sabíamos que seria uma grande confusão tocar com duas baterias; dois baixos; quatro guitarristas; um trombonista, e dois tecladistas. Por mais parcimônia que faça-se, é claro que um "bolo" seria produzido. Combinamos em fazer uma dinâmica máxima, e no "olho", combinar revezamento de solos entre os guitarristas, tecladistas e o trombonista Bocato. 

Nas duas cozinhas, o combinado era o mesmo, ou seja, os dois bateristas acertaram revezamento nas viradas e eu, e o saudoso baixista do Tutti-Frutti, Rufino, também combinamos de um ficar na região aguda e o outro no grave, evitando frases complexas e mudanças na divisão rítmica que derrubassem os demais. Começamos a tocar a canção dos Beatles, e no início parecia estar dando tudo certo, com todo esse cuidado sendo observado. Mas claro que na adrenalina do show e com o público respondendo bem, o trem da prudência descarrilou... e quando encerramos, estava muito alto e com vários músicos exagerando em suas respectivas performances pessoais. Mas, claro que teve momentos bons, com bastante emoção nos solos inspirados, e no peso que aquilo ganhou, com duas bandas e mais três convidados. Lembro-me do Bocato estar bem ao meu lado e ter feito um solo de trombone que arrancou suspiros do público e de nós também. Senti-me tocando no "Mothers of Invention" do Frank Zappa, em seus melhores momentos...
Foi um ótimo show, não só nosso e do Tutti Frutti, mas como espetáculo inteiro para o público. Mesmo assim, ainda sustento a minha opinião de que o Sesc deveria rever essa mentalidade de fazer sua programação só baseada em "projetinhos", pois isso diminui os artistas, ainda que eu deduza que tal perspectiva nem passe na cabeça dos programadores. Na saída, eu estava perto da van, supervisionando o seu carregamento, quando uma discussão muito ríspida entre o nosso roadie, Samuel Wagner e o motorista, irrompeu. O clima esquentou e por um triz, não foram às vias de fato. Seguranças do Sesc agiram rápido e os apartaram. O clima entre ambos estava azedado há algum tempo, e isso agora só piorava as coisas. De fato, não havia mais clima para manter essa parceria, e logo teríamos que tomar uma atitude, pois novos shows fora de São Paulo estavam marcados, e a tour não podia parar.
Nosso próximo compromisso nesse sentido seria só no final de fevereiro, mas antes disso, além de enfrentar esse problema para dissolver a parceria com o motorista, e ficar ou não com o ônibus, uma oportunidade fortuita foi-nos oferecida e estes dois shows em questão, renderam muitas histórias...
O show do Sesc Pompeia ocorreu no dia 25 de janeiro de 2002, aniversário de São Paulo, com cerca de 300 pessoas presentes.


Criada a indisposição com o sócio / motorista, a relação entre nós já estava azedada há tempos, essa é que a verdade. Basta o leitor recordar de vários pontos negativos que citei, desde que estabelecemos a parceria, em meados de setembro de 2001. Agora chegando ao ponto insustentável, ele queria vender o veículo pura e simplesmente, usando o dinheiro para zerar a dívida ainda pendente, e referente à sua aquisição, simplesmente dividindo um eventual pequeno lucro que viria desse montante. Na teoria, uma solução boa, mas na prática, mesmo que aceitássemos a ideia, a questão era diferente, pois quem disse, que tencionávamos vender o ônibus de forma rápida e com direito à uma margem de lucro ?
Pelo contrário, nós compramos um carro velho, mas com aspecto de ônibus de excursão, em relativa ordem, e agora, graças às nossas necessidades enquanto banda, o transformáramos num carro alternativo, com pouco espaço para pessoas, e mais parecendo um trem cargueiro. Portanto, o valor dele diminuiu a meu ver em termos de liquidez de mercado, pois fechara-se para um pequenos grupo de interessados. Tais eventuais interessados seriam ou bandas como nós, ou pessoas que compram carros assim para excursão de pesca, conforme descobrimos posteriormente, ao adentrarmos o "universo" dos entendidos em ônibus velhos...

Por outro lado, toda a logística da banda estava baseada nele naquele instante. As excursões que estávamos realizando, baseavam-se no fato de que tínhamos transporte próprio e isso facilitava a logística da tour de uma forma absurda. Sem o carro, teríamos um retrocesso, sem dúvida alguma, gastando fortunas para alugar micro ônibus ou viajando num desconforto incrível em vans, e deixando de levar o backline completo, portanto prejudicando a performance sonora da banda nos shows. Portanto, nossa predisposição era a de ficar com o carro, apertando o calo no nosso sapato para pagar a parte do rapaz na sociedade que desfazia-se, ainda assumindo o restante da dívida da aquisição e pior ainda, assumindo a sua manutenção, local de estacionamento e tendo que contratar um motorista.

Era uma perspectiva de prós e contras, portanto, mas uma coisa era certa, precisávamos manter o carro naquele instante e após discussão interna, resolvemos propor a compra da parte do sócio e ficar com o veículo, mesmo sabendo que os argumentos contra eram bem penosos. Ele, o sócio, surpreendeu-se quando propusemos-lhe essa solução final para o caso. Denotando que muito de sua atitude tinha uma intenção política velada de impor o terror e deixar-nos à mercê de seu domínio. Com essa atitude de nossa parte, assustou-se com nossa intenção de livrar-se dele, e ficar com o carro. Em princípio, aceitou, mas no decorrer dos dias posteriores, foi dificultando as coisas, numa clara postura de que queria tumultuar a negociação ao máximo, denotando que não era o dinheiro que interessava-lhe apenas, mas havia acumulado rancores. Profundamente lamentável, mas só reforçava a ideia de que não era uma pessoa adequada para associarmo-nos, e nós já tínhamos problemas demais para administrar, portanto ter que lidar com uma pessoa temperamental na equipe, seria um transtorno a mais. Curiosamente, no meio dessa negociação penosa, um convite surgiu para dois shows e ainda tivemos que contar com ele. O plano era assumirmos o carro e já havia uma planificação de shows para o final de fevereiro, no interior de São Paulo e portanto, o tempo urgia para resolver logo esse impasse, contratar um motorista novo e arrumar uma garagem para o nosso carro. Independente desse imbróglio todo, os dois shows inesperados em questão, renderam histórias e em alguns aspectos, são hilárias...


Em meio à essa confusão toda por conta do destino do ônibus, um convite inesperado surgiu por parte do diretório acadêmico de uma faculdade localizada numa cidade da região do ABC. Queriam que tocássemos na festa de recepção dos calouros de 2002. Em princípio, uma oportunidade legal de fazer um show numa data onde não tínhamos nada fechado, muito em função do fato de que o imbróglio por causa do ônibus freou a logística da banda e assim, houve um hiato na marcação de shows fora de São Paulo. A ideia era tocarmos no ginásio de esportes da Universidade IMES, uma instituição pertencente à municipalidade de São Caetano do Sul.
Feito o convite, ofereceram-nos um cachet razoável, mas marinheiros de primeira viagem, não tinham noção alguma sobre a produção de um show de Rock. No máximo, estavam acostumados a promover festinhas com bandas amadoras de estudantes e tocando sob condições inóspitas. Mas para nós, era muito mais complicada a situação, e nem vou perder tempo em explicar o óbvio ululante.

Como era uma situação pouco comum lidar com produtores amadores, por uma questão de prudência, eu e Rodrigo fomos alguns dias antes do evento, ao local e checarmos as condições do palco e o P.A. disponibilizado. Claro que por ser um ginásio de esportes, mesmo que se contratasse o serviço de uma empresa de sonorização top de mercado, já seria complicado, por conta da acústica completamente inadequada para espetáculos musicais, ainda mais show de Rock. Contudo, sem um equipamento condizente, pior ainda...
E não deu outra, pois o  equipamento que mostraram-nos era insuficiente e caracterizado pelo total improviso, parecendo um "Frankenstein", com peças misturadas. Não havia um número adequado de microfones e pedestais; multicabo; paramétricos essenciais etc. Ou seja, era um mini P.A. suficiente apenas para sonorizar uma sala de ensaios. Então, na base da boa vontade e improviso, bem no estilo do "jeitinho brasileiro", os estudantes prontificaram-se a tentar melhorar um pouco as condições no dia do show. O comprometimento dos estudantes foi bacana, devo admitir e isso compensava em muito a sua total falta de noção sobre o assunto. Não sabiam, mas não fugiam da raia e mediante nossas instruções, correram atrás de providências para minimizar as dificuldades. Não tinham verba para contratar uma empresa profissional, mas foram buscar reforço nesse equipamento, na base dos empréstimos de peças entre amigos etc etc. Mas uma coisa era inevitável e causou-nos espécie : o horário da apresentação era insalubre... queriam que estivéssemos no palco dando o primeiro acorde, às 8:00 h. da manhã !!
Ou seja, para que isso acontecesse, que horas deveríamos chegar lá para montar o palco ???


Nesses termos, não havia como negociar um horário mais digno, pois a despeito da insalubridade total dessa meta que estabeleceram, para eles, contratantes, era imprescindível que estivéssemos tocando às 8:00 h. da manhã, para receber os alunos novos na quadra do ginásio de esportes daquela instituição educacional. Portanto, aceitamos a insalubridade, mesmo porque, o cachet oferecido vinha a calhar num momento em que enfrentávamos a dissolução da nossa parceria com o sócio / motorista e assumiríamos o ônibus sozinhos, doravante. E assim, no dia marcado, lá fomos nós para São Caetano do Sul no final da madrugada, chegando na Universidade, antes das 6:00 h. da manhã, ainda com a escuridão reinante. Com apoio da garotada do Diretório Acadêmico da instituição, fomos montando rapidamente o nosso backline, e vimos que eles haviam cumprido a promessa de melhorar as condições do P.A.. De fato, haviam algumas caixas a mais, potências e um multicabo com uma extensão razoável para operar.

Na base da pressa, montamos e passamos muito apressadamente o som, e sabíamos de antemão que não dava para tocar num volume normal de show de Rock, pois a possibilidade de não ouvirmo-nos, era enorme. Enquanto terminávamos os preparativos finais, vimos que os portões foram liberados e os estudantes, calouros e veteranos, começaram a lotar a quadra poliesportiva, mas ignoravam o palco, nem pela mera curiosidade de fitar a movimentação, os equipamentos, e aquele bando de cabeludos, o que em pleno anos 2000, era algo que poderia ser considerado "normal", talvez, diferentemente como havia sido nos anos setenta.
Então, quando a quadra estava bastante lotada, os membros do Diretório Acadêmico deram o sinal para iniciarmos o show...


Ninguém, absolutamente ninguém olhava para nós, e a quadra estava repleta de estudantes. Já havíamos enfrentado situações adversas anteriormente, portanto aquela reação não estremecer-nos-ia de forma alguma, mas era algo totalmente bizarro para uma banda autoral com a tradição e história que a Patrulha ostentava...
E tanto não abalava-nos que estávamos rindo da situação, emendando uma piada atrás da outra, o que fez-me lembrar até dos tempos do Pitbulls on Crack, quando de fato, aquela era uma banda de piadistas, como já contei em seu capítulo. Começamos a tocar a nossa primeira música e num patamar de volume que não permitia que fôssemos ignorados, e ninguém olhava-nos, o que provocava ainda mais risos de nossa parte. Era uma situação tão inusitada que nem cogitamos ser algum tipo de desdém por parte daqueles jovens, tampouco uma espécie de bullying coletivo (naquela época ainda não existia o conceito do "Flash Mob" de internet).

Era simplesmente uma reação de profundo desinteresse, e digo profundo, porque nem os incomodávamos, apesar do volume e da nossa pegada Rocker...
Foi uma das reações mais estranhas que constatei em toda a minha carreira. Inexplicável a grosso modo, jamais esquecer-me-ei desse dia, justamente por ser algo intrigante e inusitado. E ainda haveria um requinte nessa história...
A verdadeira cereja do bolo ocorreu poucos minutos depois, quando ainda estávamos nas primeiras músicas do show, pois um alarme soou no pátio, e um aluno veterano com um megafone em mãos anunciou que começariam os "trotes", e quem queria submeter-se à isso, deveria ir imediatamente à outra ala da universidade. 

Como um enxame de abelhas ensandecidas, todos saíram correndo atrás desse idiota, como cordeiros obedientes. Acho que nunca havia visto uma demonstração de subserviência tão grande da parte de uma coletividade, acho que nem mesmo em comportamento de torcidas uniformizadas em estádios de futebol. Enfim, foi muito curioso ver a quadra esvaziar-se completamente, deixando-nos a sós, em meio à um show de Rock em pleno curso...ha ha ha...
Atônitos, mas de forma alguma sentindo-nos ofendidos com tal reação, sinalizamos aos contratantes do Diretório Acadêmico se deveríamos encerrar imediatamente a performance, diante de tal quadro. Pelo contrário, disseram-nos para prosseguir até o final normalmente e ficaram  vendo-nos tocar, aquela meia dúzia de jovens contratantes. Entre nós, as únicas reclamações eram por conta do equipamento todo improvisado do P.A. e o horário insalubre... no mais, estávamos sendo pagos para ensaiar, e de uma certa maneira, o sacrifício valeria a pena para manter a banda em forma, visto que voltaríamos a excursionar pelo interior de São Paulo, em breve. Dessa forma, fomos até o fim do show, com toda a dignidade e ao encerrarmos, tivemos uma surpresa ainda mais inesperada, mas não posso afirmar que fosse desagradável...


Achávamos pelo ocorrido, que os contratantes iriam pagar-nos, e ficaríamos só com essa história exótica para contar à posteridade, mas fomos surpreendidos pelo teor do que disseram-nos. Em primeiro lugar, estavam profundamente constrangidos pelo comportamento exótico dos estudantes ao tomarem a postura de  ignorar-nos. Pediram desculpas pelo acontecido, mas claro que não tinham culpa alguma sobre o ocorrido !! Mas claro que não tinham culpa alguma sobre tais manifestações alheias.

Justificaram tal atitude daquela massa de estudantes, exatamente como nós havíamos deduzido, ou seja, uma manifestação de subserviência automática, quase imitando o comportamento bovino.
Enfim, não sentíamo-nos ofendidos de forma alguma. Era só uma triste constatação de que nos anos 2000, o Rock não fazia sentido para a juventude, vide a reação que tivemos ao fazer um show de Rock, sob o manto da invisibilidade. Mas, considerações a parte, os rapazes nos surpreenderam na verdade, quando nos fizeram um pedido que não esperávamos, ainda mais pelas circunstâncias vividas minutos antes, quando nos convidaram a fazer uma segunda apresentação, no turno noturno, nas mesmas condições, ou seja, recepcionando a turma de calouros do período noturno.
Entreolhamo-nos estupefatos, pois a experiência matutina havia sido no mínimo exótica, portanto parecia uma loucura que queriam pagar-nos um cachet a mais para outra apresentação nas mesmas circunstâncias, mas era isso mesmo o que desejavam. Ora, pagando bem, por que não ? Não é essa a máxima popular ? Nessa altura dos acontecimentos, a perspectiva de passarmos pela mesma experiência do descaso, não teria como incomodar-nos e o cachet dobrado muito ajudar-nos-ia naquele momento conturbado que enfrentávamos por conta da dissolução da nossa sociedade com o sócio / motorista. E assim, aceitamos fazer a segunda sessão e desta feita, seria ao menos num horário mais digno para um show de Rock acontecer...
Ficou combinado, portanto, de iniciarmos a apresentação às 19:00 h.


Trato feito, voltamos para São Paulo para recompormo-nos.
Deixamos nossos roadies guardando o equipamento e instrumentos, e retornamos no final da tarde, prontos para o combate...
Não seria um show de Rock tradicional da Patrulha do Espaço, mas praticamente um ensaio aberto e remunerado. Nesses termos, chegamos preparados psicologicamente para enfrentarmos a situação adversa de uma forma ainda mais tranquila, no sentido de que o fator surpresa e / ou estupefação pela reação exótica dos estudantes, não surpreender-nos-ia novamente.

Mas, não fugiríamos do fator surpresa em 100%, pois contrariando nossas previsões, nessa segunda apresentação, muitos alunos prestaram atenção no show, e apesar de ser um evento fechado, o rumor que a Patrulha do Espaço estava na cidade, correu por São Caetano do Sul e cidades vizinhas do ABC, e dessa maneira, alguns fãs da banda apareceram, e a direção da universidade foi simpática por liberar a sua entrada. Enfim, foi uma apresentação bem mais animada, com quase a normalidade de um show tradicional da banda.

Sendo assim, poderíamos até comemorar o fato de que fizéramos dois ensaios abertos e remunerados no mesmo dia, numa oportunidade que surgira inesperadamente e quebrando um hiato de shows que estávamos vivendo por conta do fato de estarmos tentando resolver o impasse sobre o futuro do ônibus. Por falar nisso, havíamos decidido não usar o ônibus nesse compromisso da universidade. Levamos nosso backline em nossos carros particulares, e havia sido um tremendo incômodo, devo registrar.
Além de estarmos num clima ruim com o motorista, nesse show em específico, estacionar o veículo seria muito complicado, por conta da ausência de um estacionamento adequado na instituição e dessa maneira, havíamos abortado essa possibilidade. Mas não contávamos com a hipótese de um segundo show no mesmo dia, e quando isso foi acertado, resolvemos pedir apoio do motorista.
Sendo justo, ele era temperamental e turrão, havia ameaçado boicotar-nos em algumas ocasiões em sinal de retaliação, mas na prática, nunca deixara-nos na mão, apesar do clima desagradável entre nós. Então, convocamos-lhe para auxiliar-nos nessa tarefa noturna e ele foi solícito, saindo de uma cidade do outro lado da região metropolitana de São Paulo, no caso, o município de Taboão da Serra, deslocando-se para São Caetano do Sul, na região do ABC, portanto, atravessando também a cidade de São Paulo para chegar à São Caetano do Sul, trocando em miúdos, acredito que percorrendo cerca de 70 Km, 140 com a volta. Mas ele apoiou-nos com sua van, só pedindo uma ajuda no combustível. Após esse show, o desafio era resolver a dissolução da parceria com o referido motorista e tomar providências para assumirmos o veículo sozinhos, e contratar um novo motorista. O tempo urgia e shows já estavam marcados em cidades interioranas paulistas.

A negociação para decretar a dissolução da parceria entre a banda e o sócio / motorista não foi fácil, pois ele endureceu na sua pretensão, misturando as coisas, no sentido de que não era só o dinheiro que interessava-lhe. Realmente, na sua concepção, nós o havíamos "ofendido" por atitudes de "falta de companheirismo" e turrão, foi fechando-se nessa falsa compreensão dos fatos, levando portanto tal disputa para o lado pessoal. Aqui cabe destacar que não distorcendo de forma alguma os fatos, mas sendo absolutamente realista, o fato é que nada fizemos para justificar essa interpretação errônea da parte dele, e a relação azedou sem uma razão concreta para tal.

Todavia, por ter azedado, tornou-se irreversível pela incompatibilidade total entre as partes, e assim, não cabia uma boa conversa de reconciliação e lavagem de roupa suja, mas o melhor a ser feito para todos, era desfazer a sociedade e cada um tocar a vida longe do outro. De nossa parte, o ônibus era um mal necessário, pois não obstante ser um poço de problemas permanente por conta de sua cara manutenção e nossa total inexperiência para lidar com isso, era também o fator facilitador para fazermos turnês constantes, um luxo para uma banda que a despeito de sua dignidade histórica, estava no underground da música. Por isso, com a posse do veículo, poderíamos seguir na estratégia das turnês, minimizando custos, antes impossível de obter-se pelo fato de ter que incluir o preço altíssimo do aluguel de vans ou micro-ônibus no cachet, e afugentando contratantes, como consequência. Nas primeiras rondas de negociação, quando percebeu que queríamos o carro a todo custo, o ex-sócio endureceu e fez de tudo para atrapalhar-nos. Pediu um preço absurdo, mais para sabotar a negociação do que para tentar obter um lucro real nessa história.
Mas nós insistimos, e acabamos fechando o negócio, mesmo com ele contrariando-se.

No dia em que selamos o negócio, ele ameaçou cancelar tudo, quando exigimos que a entrega dos cheques de nossa parte fosse realizada num cartório de notas, com ele transferindo o documento de posse, de forma oficial para nós. Ele irritou-se, alegando que só um louco faria isso, pois o correto era quitar o último centavo, para depois efetuar a transferência. Isso não era um conceito errado, sob o ponto de vista da legalidade de uma negócio. Considerando que vivemos num mundo de golpistas e velhacos por todos os lados, e que ninguém confia em ninguém, ele tinha razão em sentir-se inseguro com a nossa exigência. Contudo, nossa intenção era honesta e claro que os cheques seriam honrados. Nem passava pela nossa cabeça qualquer outro tipo de atitude do que a da lisura no compromisso, mas vendo pelo nosso lado, não é que desconfiássemos dele, embora também teríamos o direito de desconfiar, seguindo o mesmo raciocínio moral. Contudo, nossa real necessidade era a de que precisávamos do ônibus com documentação legalizada em nosso nome urgentemente, para podermos viajar com tranquilidade, e não corrermos riscos em eventuais blitz nas estradas, com o documento registrado no nome de uma pessoa que não fazia parte de nossa comitiva, e todo problema inerente que tal situação poderia gerar e atrapalhar-nos muito. Foi um clima e tanto, num cartório localizado no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Ele chegou a gesticular e exaltar-se, mas não de forma hostil, todavia, apenas demonstrando seu inconformismo com nossa posição. Após alguns minutos e vendo que eu e Marcello estávamos irredutíveis na condução da negociação, finalmente sentou-se na frente do tabelião, e assinou a documentação, apanhou seus cheques e assim, selamos a dissolução da nossa parceria.

Estávamos felizes pelo desfecho dessa etapa, e aliviados por termos assegurado o ônibus como patrimônio da banda, mas sobretudo como alavanca importante de nossa possibilidade de excursionar.
Livrarmo-nos do ex-sócio também era um alívio, e aqui cabe dizer que meu objetivo não é "demonizá-lo" de forma alguma, mas deixo claro que não era a pessoa ideal para termos como parceiro e certamente ele devia achar o mesmo em relação à nós. O primeiro desafio era premente... ele viera com o ônibus para a entrega oficial sendo assim, pegou suas folhas de cheques e deixou-nos os documentos e a chave do carro...

Nenhum de nós aventurava-se a pilotar o carro, ainda que no meu caso, tenha a licença classe "D", que permite-me dirigir ônibus, mas nunca aventurei-me a fazer isso. Não tenho experiência alguma com ônibus e caminhões, só conduzo carros de passeio. Sendo assim, arrumamos um estacionamento adequado, próximo à casa do Junior, na Aclimação, bairro onde eu e o Rodrigo também morávamos, e nesse dia, um motorista da empresa do pai do Marcello, fez o favor de levar o nosso carro para lá. Mas isso fora um arranjo meramente emergencial. Não poderíamos contar com esse motorista, mesmo com ele interessando-se pessoalmente, conforme confidenciou-nos, mas impedido pelas suas funções na empresa, não poderia viajar conosco em hipótese alguma. Arrumamos um lugar para estacionar o carro, mas precisávamos urgentemente contratar um motorista, e fazer uma revisão no veículo, que agora estava por nossa conta...

Nossos problemas em tornarmo-nos donos de um ônibus, estavam apenas começando, pois os donos do estacionamento que arrumáramos para guardar o carro, haviam avisado-nos previamente que não poderiam aceitar-nos como mensalistas doravante, pois o terreno já estava comprometido com a sua venda para uma incorporadora, e em breve, teriam que fechar as portas para os tratores começarem a demolir os muros e assim, novas torres residenciais serem construídas, dentro daquele espírito avassalador das especulação imobiliária. Já tendo que enfrentar um novo problema logo de imediato, arrumamos um outro estacionamento, um pouco mais longe de casa, mas ainda no bairro, mas azar máximo, tal estacionamento também já estava vendido para uma incorporadora, e foi quando demo-nos conta que não tinha sido um mero golpe de azar em relação ao primeiro estacionamento que arrumáramos, mas era uma tendência cruel que estava minando os grandes espaços no bairro e nessas circunstâncias, começamos a preocuparmo-nos com a questão de um estacionamento seguro e que ficasse no bairro, perto de nós.

Fachada de uma das várias torres de apartamentos que foram construídas no segundo estacionamento onde guardamos o nosso ônibus, na esquina da Rua do Paraíso com a Rua Vergueiro

Do primeiro para o segundo estacionamento, quem dirigiu o carro foi o próprio pai do Marcello que tinha habilitação para tal e um pouco de experiência. Contudo, sofreu um pouco, pois o segundo estacionamento que arrumamos, ficava no alto da ladeira da Rua do Paraíso, e para quem conhece tal localidade, sabe bem que é uma ladeira muito íngreme...
E o drama prosseguia, pois no segundo estacionamento já haviam  avisado-nos que fechariam as portas em breve para outra incorporadora começar as obras do complexo de torres comerciais que construiriam.

Para quem conhece o local, hoje em dia, são aqueles prédios cuja aparência arquitetônica parecem-se como "Legos", ao lado da saída da Catedral Ortodoxa, na estação Paraíso do Metrô. E num curto espaço de tempo, precisávamos encontrar outro estacionamento, porém mais urgente ainda, contratar um motorista e dar uma revisão no carro, pois tínhamos viagem para três cidades no interior de São Paulo, em muito breve !!

 
Não tendo outra alternativa, tivemos que usar muito a cabeça, tentando achar tais soluções que mencionei no último capítulo.
O terceiro estacionamento que arrumamos, ficava no bairro vizinho, da Liberdade, mas o acesso era fácil, e a distância pequena devido ao fato de ser bem na divisa entre os bairros da Liberdade e da Aclimação. Ali, aparentemente teríamos um período de estabilidade maior, devido ao fato de ninguém alertar-nos sobre o fim do estacionamento, sendo vendido para uma incorporadora levantar suas torres "maledettas"...mas isso mudaria em breve, como contarei logo mais. Estávamos sem perspectivas de contratar um novo motorista, até que um golpe de pura sorte ocorreu...

Passando por uma rua próxima à residência do Junior, ele próprio e o Marcello avistaram um ônibus particular estacionado, e seu motorista ali conversando com comerciantes locais. Resolveram parar e perguntar-lhe se conheciam algum motorista particular com habilitação para conduzir tais veículos, e que interessasse-se em conduzir-nos ao interior. O tal senhor não fez-se de rogado e disse-lhes que ele mesmo aceiraria !!
A conversa evoluiu de uma forma muito rápida, e o senhor demonstrou real interesse pela oportunidade que caíra-lhe do céu, pois era um homem simples e conduzia aquele ônibus de frete, de forma irregular, fazendo viagens urbanas não autorizadas, levando pessoas do bairro do Cambuci até São Mateus, no extremo da zona leste de São Paulo, pelo preço de uma passagem urbana normal, mas dando-lhes a vantagem de viajarem num ônibus de viagem, portanto sentados em poltronas muito mais confortáveis. A desvantagem era o perigo iminente de serem parados em blitz policiais de trânsito, e terem a viagem interrompida, com o veículo sendo confiscado e o seu dono enroscando-se todo com uma multa pesada, fora amargar ficar sem o ônibus até regularizar tudo. Dizia ter sido um motorista de companhias de viagens interestaduais de linha, no passado, além de caminhoneiro, e que tinha experiência na estrada, além de ser mecânico.

Sem grandes perspectivas no momento e só tendo aquele meio de trabalho proscrito para sobreviver, passando medo diariamente pelo caráter clandestino de seu transporte irregular, mostrou-se muito interessado em conhecer a nossa proposta, e claro que animamo-nos, mesmo sendo um completo desconhecido que conhecêramos na rua. De nossa parte, tínhamos um prazo curto para contratar um motorista e a perspectiva dele ser mecânico, era convidativa, pois fora com essa perspectiva que compramos o ônibus, meses antes, confiando no nosso ex-sócio que no acordo inicial, responsabilizar-se-ia pela manutenção. Independente desse senhor estar falando a verdade e ser de fato um bom motorista e mecânico, se o fosse, estaríamos no lucro, pois o ex-sócio não era mecânico, mas apenas um curioso sem muitos conhecimentos. Portanto, viajar com alguém que tivesse esse atributo, seria uma mão na roda para nós. Mostrando-se realmente interessado, quis conhecer o nosso ônibus e assim que chegou ao estacionamento, dispôs-se a dar uma olhada inicial nos pontos mais críticos do carro. Foi quando descobrimos uma coisa chocante e completamente incautos que éramos em relação à manutenção de um ônibus, nem havíamos dado-nos conta disso. Há muitos parágrafos atrás, eu deixei um anúncio enigmático, que tenho certeza de que o leitor, mesmo o mais atento, já não deve lembrar-se mais, dado o volume grande de histórias que arrolei posteriormente. Mas refresco-lhe a memória, amigo leitor : na primeira grande turnê que fizemos, com cinco shows em cinco cidades diferentes, em dezembro de 2001, nosso ex-sócio resolveu trocar o óleo do veículo em São Carlos, segundo destino daquela tour. Para tanto, comprou dois baldes de plástico, com o objetivo de não emporcalhar o estacionamento local. Bem, quando o nosso novo motorista / mecânico abriu a tampa do motor para checar o óleo...

O "seu" Wagner, nosso virtual novo mecânico e motorista chamou-nos a atenção para uma pequena monstruosidade que achou no motor...
Um dos baldes que o ex-sócio havia usado em dezembro de 2001, estava ali, todo disforme e derretido. Era uma massa plástica em formato fractal, mas ao contrário do que pensa-se de tais formações da natureza, era horrenda, parecendo o "Retrato de Dorian Gray", se permitem-me uma citação literária / cinematográfica...

E o que significava aquela coisa grotesca ? Bem, o nosso ex-motorista esquecera o balde dentro do motor e assim, rodamos por milhares de kilometros, desde então, com o triste baldinho transformando-se numa matéria plástica disforme. Mas o grande problema não era a perda de um balde vagabundo de valor irrisório, mas o perigo incrível que corremos com aquele objeto derretendo dentro do motor e submetendo-nos à iminência de um incêndio, e sabe-se lá em que circunstância, portanto podendo até alastrar-se rapidamente e colocar-nos em risco de morte, ou na melhor das hipóteses, causando-nos prejuízo material. E a constatação evidente : o ex-motorista nunca mais dignou-se a checar o nível de óleo e água do veículo, o que segundo o "seu" Wagner, era praxe diária de qualquer motorista profissional minimamente consciente.

Boquiaberto, falou-nos que aquilo era um absurdo e claro que havia a nossa "mea culpa" nessa história também (pois como donos, mesmo sendo leigos e no trato que tínhamos, a responsabilidade da manutenção ser do ex-sócio), nenhum de nós quatro, membros da banda, interessou-se em perguntar que fosse, se o óleo e a água estavam em dia, e esses eram só dois dos itens mais básicos das necessidades do veículo...
De minha parte, confesso que tenho horror à manutenção de autos. Sei o básico do básico sobre o assunto, como usuário, e irrita-me profundamente tal assunto. O que dizer então sobre a manutenção de um ônibus ? Bem, feita essa constatação toda, escapamos de um incêndio e após o balde ali ter alojado-se, continuamos viajando pelo interior, voltamos para São Paulo; fomos de novo ao interior e voltamos; viajamos ao Rio Grande do Sul e voltamos...ou seja, pelo menos cinco mil kilometros, numa conta de cabeça. Então, "seu" Wagner prontificou-se a trocar o óleo e alguns filtros, gratuitamente, já agindo como nosso mecânico e só pedindo para comprar o material. E assim ele o fez, mas sem deixar nenhum balde em seu interior...
Acertamos um valor, e ele conduzir-nos-ia para o interior de São Paulo, sendo a sua primeira viagem, portanto. Já entrosado conosco, pediu-nos para o chamarmos pelo apelido que tinha : "Alemão". Viajaríamos no final de semana para Ribeirão Preto; São Carlos, e Mirassol, três cidades e três shows.



Apesar desse suposto golpe de sorte em "achar" um motorista / mecânico ter salvado-nos, a figura do "seu" Wagner ou "Alemão", como queria ser chamado, era uma incógnita. De fato ele era habilitado para dirigir ônibus e nós sabíamos que ele ganhava a vida pilotando um ônibus clandestino no transporte público de São Paulo, e não obstante tais constatações, mostrou-se solícito e eficaz ao trocar o óleo e alguns filtros do carro e fazendo algumas outras verificações na suspensão, freios e parte elétrica do veículo.

Mas a verdade é que o contratáramos sem referência alguma e encararíamos uma viagem para três cidades interioranas e entre ida e volta, seriam cerca de mil kms para encarar. Será que ele era realmente bom de volante ?  Sem meios para checar e sem outras opções, só saberíamos dessas questões na estrada...
Seriam três shows em três cidades, conforme já falei anteriormente. 

Em Ribeirão Preto, primeiro destino, seria numa casa noturna, numa sexta-feira. No sábado, tocaríamos no Sesc de São Carlos, e no domingo, tocaríamos numa casa noturna de Mirassol. No dia da viagem, recebo o telefonema do Junior, pedindo-me para ir buscar o "seu" Wagner em sua residência, porque ele alegara que se viesse de condução para o nosso bairro, atrasaria muito o início de nossa viagem, isso porque estava ocorrendo uma greve de motoristas de ônibus urbanos na zona leste da cidade, e dessa forma, morando num bairro longínquo e sem estações do metrô por perto, não tinha meios de ir à zona sul, porque sua única alternativa seria ir a pé até a estação de metrô mais próxima, e isso significava kilômetros de distância. Claro que não era uma situação correta. O empregador não tem obrigação alguma de ir buscar seu empregado em domicílio, isso é óbvio. Todavia, diante de um fator excepcional que é sempre o transtorno de uma greve no setor de transportes, para o povo mais humilde que não tem outra alternativa, claro que imbui-me de espírito de grupo, e entrei no meu carro e mediante o auxílio de um mapa desses que vendem em bancas (antes do Google Map e sobretudo do GPS popularizarem-se, todo mundo tinha uma "Mapograf" ou um "Guia Quatro Rodas" no porta luvas do carro e confesso que ainda tenho esse costume...), lá fui eu ao bairro de São Mateus, no extremo da zona leste de São Paulo, no intuito de minimizar atrasos na nossa viagem.

O "Seu" Wagner era um homem simples, mas dentro das características de sua personalidade prosaica, era brincalhão, muito emotivo e quando viu-me chegando na porta da sua casa, praticamente marejou os olhos e agradeceu-me efusivamente pela minha atitude de ir buscá-lo. Na sua ética particular, aquilo equivaleu à um sinal de respeito e humildade de minha parte, do qual ele certamente não estava acostumado a ser tratado, por parte de pessoas de classes sociais mais abastadas. No meu caso, era algo normal, na medida em que trato qualquer pessoa com respeito, pois faz parte de minha educação básica, desde o berço, não discriminar ninguém, mas aos olhos desse homem humilde, era algo excepcional.

Bem, dali em diante, essa admiração pela minha pessoa trouxe o lado ruim e pegajoso, pois automaticamente ele passou a enxergar -me como um "protetor" seu em diversas circunstâncias e assim, muitas vezes no futuro, aborreceu-me a sua insistência em que eu sempre interviesse a seu favor, quando conflitos surgiram. Mas isso fica para ser relatado mais para a frente, pois não vou atropelar a narrativa. Ali naquele momento, ele mostrou-se agradecido e muito falante, e foi o percurso inteiro falando de histórias vividas na estrada, como motorista de ônibus de linha e caminhoneiro. Mais que querer impressionar-me, dava para sentir que ele realmente tinha essa experiência que dizia ter, mas convenci-me mesmo de sua sinceridade quando percebi que demonstrava ter paixão pela profissão, e no meio da conversa, deixara escapar que sentia saudade da estrada e que há muito tempo não tinha essa oportunidade de dirigir nela, longe da loucura da cidade e fugindo de blitz policiais urbanas, visto que seu ônibus era clandestino.
Isso foi tranquilizando-me internamente, pois mesmo sendo um tiro no escuro, parecia que ele realmente era do ramo, e que levar-nos-ia para essa excursão, em segurança, com bastante profissionalismo ao volante.

Chegamos ao nosso destino e ele assumiu o ônibus no estacionamento em que estava parado, fez seus ajustes de praxe e fomos para a minha casa onde estava todo o equipamento da banda.
Carregamos o carro e contando com um roadie improvisado, visto que não contaríamos mais com o carrier que era amigo do ex-sócio e de fato, o rapaz era desqualificado para a função. Mas sem arrumarmos alguém do ramo, o próprio Samuel Wagner, nosso roadie oficial, tratou de indicar o Marcelo Fortunato, baterista da banda "Montanha", de Santo André, que aceitou auxiliar-nos nessa etapa da tour. Abastecemos o carro e fomos para a estrada. Na viagem de ida, fomos para Ribeirão Preto, sem nenhum incidente, com absoluta tranquilidade e com o "seu" Wagner entrosando-se rapidamente com toda a banda, fazendo brincadeiras, rindo conosco, mas demonstrando uma direção absolutamente segura e profissional. Chegamos em Ribeirão Preto, no final da tarde e fomos direto ao local onde tocaríamos, para montar o palco e fazer o soundcheck. Nem passava pela nossa cabeça que aquele início de tour, tranquilo e sem percalços, seria na verdade, mudado radicalmente, pois essa tour ficou marcada, posteriormente, por ter sido uma das mais dramáticas que tivemos, e vou contar tudo, certamente...

O local em questão chamava-se Paulistania Rock Bar, uma casa que normalmente promovia shows de bandas cover, mas também abria as portas para bandas com trabalhos autorais, louvável atitude, portanto. Ficava localizada próxima ao viaduto que dá acesso à Avenida Independência, para quem conhece Ribeirão Preto, meu caso em particular, visto ser a cidade natal de minha mãe, e onde sempre tive tios e primos morando.

Fachada da casa de espetáculos "Paulistânia Rock Bar", em Ribeirão Preto / SP
 
Era uma casa rústica, sem grandes recursos, e pelo contrário, tinha suas limitações, aliás precariedades, para ser bem sincero. O P.A. disponibilizado era bastante inadequado e na base da camaradagem, o pessoal da banda "Homem com Asas", de São Carlos, além da vocalista da banda "Senhor X", de Ribeirão Preto mesmo (Carla Viana), foram fundamentais no apoio, ajudando-nos com equipamentos suplementares para encorpar o equipamento fraco da casa. A luz também deixava a desejar, e o palco era de pequena dimensão, deixando a banda sem muita possibilidade de mobilidade cênica, aliás, nenhuma. Mas como já havíamos tocado em palcos ainda menores (em São Leopoldo / RS, poucos dias antes, e no Tom Tom Clube de São Paulo, em 2001, por exemplo), aquele não seria o nosso maior desafio.

A vocalista da banda "Senhor X", Carla Viana, que é muito boa cantora / performer, e gente boa ao extremo

A banda "Homem com Asas" de São Carlos, faria o show de abertura e no dia seguinte, o "Senhor X" de Ribeirão Preto, é que abrir-nos-ia, em São Carlos, com tal inversão significando uma oportunidade para cada banda tocar na cidade vizinha, expandindo seus próprios horizontes. Fizemos o soundcheck e na medida do possível, acertamos o melhor possível naquelas condições de equipamento. Fãs da Patrulha abordaram-nos na porta do estabelecimento, na hora em que estávamos saindo do estabelecimento para o hotel, e diziam que administravam um fanzine e queriam entrevistar-nos. Cansados, com vontade de recolhermo-nos para um banho, descanso e jantar, naturalmente que não era um momento adequado para conceder uma entrevista. Mas eu prontifiquei-me a ficar, pois sempre tive em mente que o fã tem que receber atenção, pois é o elo que sustenta toda a carreira do artista, sem dúvida. Não quero dizer com isso que meus companheiros não pensassem assim também, mas naquela circunstância, com o tempo apertado, realmente o correto era despedir-se amigavelmente dos rapazes, e da moça que compunham a pequena comitiva, e deixar a entrevistada solicitada para um outro momento, no pós-show de preferência, mas eles alegaram que não poderiam ficar, pois não eram de Ribeirão Preto, mas de outra cidade da região e assim, meu "coração mole" agiu e dessa forma, voluntariei-me para atender os jovens...

Paguei um preço por isso, pois quando cheguei no hotel, todos já descansavam, já estavam banhados e o jantar havia sido servido.
Para piorar a situação, descobri ao entrar no meu quarto, que minhas malas não haviam sido retiradas do ônibus e tal situação tinha que ser resolvida imediatamente. Infelizmente esse imbróglio gerou um pequeno stress e após uma peregrinação de quarto em quarto, para saber com quem estava a chave do carro, tive enfim a oportunidade de reaver minhas malas...cenas de uma banda em tour...
Fomos para o show, enfim, e quando chegamos ao Paulistania Rock Bar, o "Homem com Asas" já estava apresentando-se. Já os conhecíamos desde que abriram nosso show em São Carlos, no ano de 2001, e sabíamos de sua qualidade técnica e bom gosto em escolher um set list de Classic Rock, mas privilegiando o lado B, só para Rockers absolutamente escolados na matéria, poderem reconhecê-los. Claro que para nós, era uma delícia ouvir tal material e tão bem tocado, mas sinceramente, haviam dois aspectos contra nessa predisposição que eles tinham :

1) Para o lado prático deles, tocar tantas músicas "não conhecidas", não poderia dar-lhes muitas oportunidades de tocar no circuito cover das cidades interioranas, se continuassem agindo dessa forma e;

2 ) Eu ficava frustrado em ver uma banda boa daquelas não fazendo um trabalho autoral legal, coisa que tinham tudo para fazer. Mas claro, isso não era da minha alçada.


Enfim, constatações à parte, era só um lamento, e a direção artística de uma outra banda da qual eu não era componente, não era da minha competência, naturalmente. A casa estava abarrotada, apesar da precariedade de suas condições técnicas de som e luz, e o show prometia pela grande audiência presente. Contudo, observador que eu era / sou, percebi que a despeito de haver no ambiente um bom contingente de Rockers e nitidamente alguns fãs da Patrulha com discos de vinil em mãos para posterior abordagem e pedido de autógrafos, o clima reinante no ambiente parecia um pouco blasé.
O "Homem com Asas" tocava sons incríveis que só ouvidos rockers mais refinados conseguiam identificar, e isso denotava que a maioria no ambiente não tinha esse refinamento, em se considerando estarem alheios à ótima performance da banda. Era um indício de que não era mesmo o público mais adequado para uma banda autoral, com as nossas características. Quando começamos o nosso show, de fato, tirante os Rockers mais antenados e os fãs confessos da Patrulha, o clima foi blasé na maior parte do nosso set.

A despeito disso, cumprimos nossa missão com a galhardia de sempre, e quem apreciava a nossa banda saiu muito satisfeita, e isso era o que importava no final das contas. Era a noite do dia 22 de fevereiro de 2002, uma sexta-feira muito quente de verão, potencializada pela característica natural daquela cidade interiorana, tradicionalmente muito quente. Saímos do palco extenuados, suando em píncaros. Atendemos os fãs ali, sem uma estrutura adequada de camarins, como seria o ideal, com possibilidade de recompormo-nos etc etc. Ficou combinado então que todo o nosso equipamento ficaria na casa e no dia seguinte, após o almoço, passaríamos lá para resgatá-lo, e seguir viagem para São Carlos, onde apresentar-nos-íamos no sábado. A nossa programação tinha tudo para ser muito tranquila, pois a distância entre as duas referidas cidades é de apenas 80 Km, portanto, um percurso curto que permitia-nos descansar, almoçar e partir no início da tarde, chegando ao nosso destino antes do horário combinado de soundcheck. Mas não podíamos imaginar que os momentos amenos dessa tour estavam acabando ali, com o final do show em Ribeirão Preto, pois uma incrível sucessão de fatos desagradáveis estava por acontecer. Cerca de 350 pessoas estiveram presentes nesse show. Tranquilos até então, dispersamos entre nós, iniciando um período off onde cada um foi gastar suas horas livres como quis. A maioria resolveu ir para o hotel, dormir. Outros foram dar uma volta com companhias femininas etc.

Um membro de nossa comitiva, o roadie Samuel Wagner, foi dar uma volta na avenida Junqueira, ali próxima do hotel onde estávamos e voltou rapidinho, pois o clima que encontrara era de uma verdadeira "cracolândia", e sentindo a iminência de um assalto, com marginais rondando-o, não quis arriscar. De fato, a Ribeirão Preto pacata que eu conhecera na minha infância, não existia mais. Andar pelas ruas do centro da cidade durante a madrugada, não era nada recomendável. Eu resolvi esperar acordado pelo café da manhã que já estava para ser servido no hotel. Fiquei ali no saguão vazio, meditativo por alguns minutos, quando o Samuel chegou, contando-me sobre o perigo que passara na rua, e logo depois chegou o Rodrigo acompanhado de uma garota que conhecera naquela noite. O saguão onde servia-se o café matutino abriu-se, e pela janela, vi que iniciara-se uma chuva leve, nada que assustasse, mas que comemorei por representar uma chance de amenizar o forte calor típico da cidade. Terminado o café, fui para o quarto dormir e eram quase sete da manhã quando notei que a chuva começou a apertar. "bom para dormir", pensei...


Adormeci, mas não tive o repouso que esperava, pois acordei aos gritos que ecoavam nos corredores do hotel. A chuva era torrencial, mas muito pior que a chuva em si, era o fato de que as pessoas pareciam estar desesperadas. Claro que saltei da cama, e fui ver o que ocorria. O pânico estava instaurado, pois a chuva havia causado uma inundação monstruosa na rua. O andar térreo do hotel estava com um metro e meio de água, com todos os móveis submersos. Era desolador ver cadeiras e outros móveis e objetos boiando.

As pessoas estavam desesperadas pois muitos tinham horário para prosseguir viagem e ficaram ilhados no hotel. Muitos preocupavam-se com a situação de seus automóveis. Encontrei com o Rodrigo no corredor de nossos quartos e ele falou-me que havia um terraço no primeiro andar, onde a visão da rua era impressionante. Fui lá e vi que muitos hóspedes estavam estarrecidos olhando os estragos da chuva. A avenida estava completamente inundada, e numa altura impressionante. Para ter-se uma ideia, os "orelhões" estavam submersos...
Carros e motos boiavam, literalmente !! Mas haviam também outros objetos passando, como por exemplo, sacos de lixo e dejetos em geral, mas vimos também algo muito mais dramático : vários animais passando carregados pela enxurrada !! Naturalmente que muitos desses pobres animais estavam na rua, mas muitos foram levados também de quintais residenciais, pois vimos muitas tartarugas, por exemplo. A enxurrada tinha uma força impressionante, passando como um verdadeiro Tsunami.

Nessa altura, já sabíamos que o nosso ônibus havia sido salvo por um triz, pois assim que começara a enxurrada, o "seu" Wagner saiu voando de seu quarto e a nado, literalmente, foi até ao estacionamento onde o carro estava e colocou-o numa posição mais alta, numa rampa, evitando assim que a água inundasse o escapamento e o motor do veículo. Independente disso, com aquela inundação impressionante, começamos a preocupar-nos muito com a perspectiva sombria de que a água demorasse a escoar e assim, nossa viagem à São Carlos sofreria um considerável atraso. E em São Carlos seria justamente o melhor show da excursão, teoricamente, pois tratava-se de uma apresentação no Sesc, com a melhor estrutura possível de som; luz; infraestrutura de camarim, perspectiva de grande público, e um cachet de valor alto, fixo e pago imediatamente graças à um acordo com a produtora que intermediara o nosso acerto. Enfim, ficamos a partir dessa catástrofe, muito apreensivos e não era para menos.As horas foram passando e ali naquele terraço, víamos o lento escoamento da água, já sem a chuva que encerrara-se. Comemoramos o fato visível de que água estava abaixando, mas concomitantemente, estávamos atônitos ao constatar que o estrago houvera sido brutal. O asfalto, a partir do momento em que ficara visível, estava todo destruído, com buracos que eram verdadeiras crateras lunares, e também apresentando enormes chapas disformes, parecendo instalações de arte moderna, compostas por asfalto em forma bruta, que impossibilitavam completamente o tráfico de veículos. As pessoas começaram a sair à rua para ver de perto os estragos e nesse momento, vimos cenas dramáticas de cortar o coração. Lojistas desesperados abrindo seus estabelecimentos e vendo o estrago completo de suas instalações e mercadorias, por exemplo. Particularmente, vi uma cena horrível. A dona de uma boutique, assim que abriu sua loja, desmaiou, sendo amparada por outras pessoas. Que choque deve ter sentido ao ver o seu estabelecimento destruído, e sabe-se lá como poderia superar tal revés, se é que podia.

Uma outra loja, era uma concessionária de motocicletas. Era desolador ver as motos empilhadas e certamente bastante avariadas, senão inutilizadas. O barro também era um elemento a ser considerado. Diante da força da enxurrada, tal matéria bruta tratou de enlamear tudo, com uma força inacreditável. Já passava das quatro da tarde quando chegamos num horário limite para tomar o rumo para São Carlos, se não saíssemos imediatamente.

Resolvemos tomar essa providência urgentemente e para tanto, o "seu" Wagner falou para irmos com nossas bagagens pessoais até o estacionamento, pois não havia condição de pará-lo na frente do hotel. Ora, esse era o menor de nossos problemas naquele instante e claro que fomos caminhando com nossas malas. Mas até esse detalhe facilmente contornável foi difícil de cumprir-se, com as calçadas e o rolamento da rua completamente destruídos. Quando chegamos ao ônibus, comemoramos o ato heroico do "seu" Wagner, pois se não tivesse nadado até o estacionamento e mudado a posição do veículo, ele teria sido inutilizado, deixando-nos numa situação dramática. Mas se preservou-se o motor e o escapamento do carro, a sua dianteira ficou bastante comprometida, e muito barro sujou completamente a nossa área de passageiros e claro, a cabine do motorista. "Seu" Wagner estava muito preocupado, fazendo testes básicos na parte elétrica enquanto arrumávamos nossas malas, mas de pronto, disse-nos que o carro estava andando, mas ele estava muito preocupado com o nível do óleo, o possível comprometimento dos filtros e o pior de tudo, o sistema de freios.
O carro andou e no pequeno percurso até o bar, onde tocáramos na noite anterior, dava para sentir que o ônibus estava engasgado.
Paramos na porta do Paulistânia, e enquanto os roadies carregavam rapidamente, com nossa ajuda para acelerar o processo, "Seu" Wagner continuava fazendo verificações e mostrando-se muito preocupado. Chegamos na estrada vicinal que liga Ribeirão Preto à São Carlos e a despeito da nossa dramática pressa pelo avançado do horário, o nosso novo motorista foi taxativo e sugeriu que parássemos num posto e realizássemos a troca de óleo e filtros, sem a qual o risco de pararmos na estrada era grande. E assim, na altura da cidade de Cravinhos, em apenas 14 Km de Ribeirão Preto, paramos num posto...


O tempo estava contra nós. O atraso que tínhamos tido por conta do dilúvio, inundação e estragos nas vias públicas de Ribeirão Preto, dificultando a nossa saída, era enorme. Sem alternativa, resolvemos parar para efetuar a troca de óleo e filtros. Essa era uma operação demorada para um carro de passeio, quiçá para um ônibus. 

Mas era melhor perder 40 valiosos e escassos minutos, a ter uma pane na estrada e perder o show. O clima pesou entre nós. Ninguém tinha culpa por esse revés, mas os nervos estavam à flor da pele, e portanto, o melhor era ficar o máximo do tempo, calado.
O "Seu" Wagner tinha perdido roupas, por conta de ter nadado na água podre da enxurrada. Dizendo estar com bastante enjoo, tomava leite para tentar neutralizar o mal estar que sentia por ter ingerido aquela água fétida, e mesmo assim, não tínhamos nenhum elemento técnico para afirmar que leite era suficiente, e nem mesmo adequado para coibir um dor estomacal e promover uma limpeza. Com dor e tudo, trabalhava com afinco para efetuar a troca de óleo, o mais rápido possível. E se aquela era a sua primeira viagem e estava em experiência conosco, já estava aprovado, não só pela condução segura, mas principalmente pela atuação no momento crítico da tragédia aquática, salvando o nosso carro do colapso. A parte social do carro estava um nojo, pois o barro tratou de torná-la um chiqueiro, literalmente. Já começava o crepúsculo quando o Seu Wagner anunciou que estávamos prontos para partir. O tempo urgia, pois já estava ultrapassado o horário previsto para o soundcheck tranquilo que achávamos que faríamos, um dia antes, quando nenhuma gota de chuva ainda havia caído...
O gasto monetário com uma inesperada nova troca de óleo e filtros, visto que havíamos tomado essa providência anteriormente em São Paulo, não era o pior a lamentar-se naquele momento. 


Para amenizar, o visual da estrada ao crepúsculo estava lindíssimo. Rajadas de sol poente trespassavam as árvores e o silêncio dentro do carro deixou-nos um pouco mais relaxados, quase com a certeza de que o pior passara. Atrasaríamo-nos, sem dúvida, mas daria certo, mesmo sem a possibilidade de um soundcheck tranquilo. Talvez nem desse tempo de um soundcheck superficial...Chegamos na entrada de São Carlos, enfim, e após uma certa apreensão para achar o endereço do Sesc, chegamos à porta de entrada da instituição, e ao menos tivemos uma bela visão : uma multidão aguardava em fila para o portão principal abrir-se. Era um público jovem, enorme, e estava ali para ver-nos. Por alguns segundos, olhando a fila pela janelinha, lembrei-me dos anos setenta e daquele clima maravilhoso de porta de teatros e ginásios esportivos, com os freaks aguardando o momento de adentrar o recinto para um concerto de Rock...
Nesse breve instante, senti-me feliz por estar ali e realizando o meu sonho adolescente de 1976. Sim, eu tocava numa grande banda de Rock, com história e árvore genealógica nobre na história do Rock brasileiro, e aquela multidão ansiava pela minha banda subir ao palco. Nessa breve divagação, todo o drama vivido pelo atraso descomunal, havia sido obscurecido. O Rock falava mais alto, a missão tinha que ser cumprida...todavia, novos revés aguardavam-nos...  


 
Após uma rápida confusão com alguns funcionários do Sesc, finalmente alguém indicou-nos o caminho para o ônibus descarregar o equipamento, numa entrada de serviço. Todavia, essa entrada era localizada na rua paralela detrás da entrada principal da instituição e por ser uma ladeira, deixava a entrada de serviço numa espécie de encosta íngreme. Com isso, tivemos que descer um declive acentuado de gramado, visto que a tal entrada era recuada da calçada, e quando aproximamo-nos do portão, fomos informados pelos funcionários que o ônibus não entraria, pois logo adiante do portão, havia uma escada que já dava acesso ao ginásio poliesportivo, onde aconteceria o show. Dessa forma, tivemos que estacionar o ônibus na proximidade do portão e fazer o descarregamento ali, com os roadies enfrentando o declive, e uma escada perigosa a seguir, caminhar por toda a quadra, e finalmente enfrentar outra escada, para suspender o equipamento no palco de altura bem alta (acredito que mais de 2 metros do chão). Além desse esforço hercúleo, o tempo urgia. Tínhamos pouquíssimos minutos para arrumar o palco, tentar fazer um soundcheck muito básico, e arrumarmo-nos para o show. Os técnicos de som e luz contratados pelo Sesc, eram solícitos e foram bastante camaradas em auxiliar-nos a ter um soundcheck mínimo, ainda que o tempo estivesse estourado e os funcionários do Sesc aflitos para abrir o portão principal, e deixar o público que estava impaciente na rua, entrar. Contudo, mais um desastre aguardava-nos...essa tour não seria marcada só pela inundação de Ribeirão Preto, infelizmente !
Isso porque ao estacionarmos o ônibus, com a dificuldade em estacionar aquele bólido numa ladeira íngreme e levando-se em conta o fato de que não tínhamos o "manequinho" (freio de mão de ônibus e caminhões) em ordem, usávamos nessas circunstâncias um calço muito forte e manufaturado especificamente para essa função, com formato anatômico ao pneu de n° 900 (carros de passeio geralmente usam o 175...).

De maneira muito imprudente, quando o "seu" Wagner solicitou que alguém colocasse o calço, com ele segurando o carro no freio de pedal, o Marcello prontamente prontificou-se a realizar tal tarefa. Poderia ser qualquer um de nós e geralmente era o roadie Samuel Wagner, ou eu mesmo quem fazia isso, mas naquele dia o Marcello antecipou-se e apanhou o calço, que ficava sempre colocado perto da poltrona do motorista. Eu estava dentro do ônibus, preocupado em apanhar as malas pessoais de todos, quando ouvi um grito horripilante !! O ônibus descera um pouco e esmagara a mão do Marcello entre o calço e o enorme pneu !! Por uma fração de segundos pensei : sua mão está arruinada, meu Deus !!!


Naquela fração de segundos, sem saber a real situação, pensei no pior, e o quanto aquilo era catastrófico para um jovem talento que desabrochava artisticamente, caso do Marcello. Passou também pela cabeça, a cena tétrica de nós levando-o às pressas para um pronto-socorro, sua mão arruinada, ceifando sua carreira. Foi um horror, não tenha dúvida disso, amigo leitor. Todos correram, naturalmente para socorre-lo, mas o quadro não era tão grave, por incrível que pareça, ainda bem !!

De fato, houve o ato da prensagem da mão, mas o "seu" Wagner foi rápido, segurando carro no freio de pé. A prensada foi doloridíssima, mas não quebrou-lhe nenhum osso, aparentemente.
Ficou um hematoma feio, e produziu sim, a inibição dos movimentos musculares normais da mão, pulso e dedos, num primeiro momento. Mesmo afastada a pior hipótese, que seria a da fratura, naquele momento o mais prudente teria sido cancelar o show, e a apresentação do dia seguinte estaria também seriamente propensa a ser descartada. O correto teria sido ir imediatamente ao pronto-socorro mais próximo e depois de prestado o primeiro socorro, e quiçá exames preliminares, voltar para São Paulo e iniciar tratamento e repouso absoluto.

Todavia, valente e com forte espírito de grupo, o próprio Marcello recusou terminantemente a ideia do cancelamento e disse que faria o show, nem que fosse para cantar as músicas em que seu vocal era o principal, e que nós conduzíssemos o show como um trio instrumental. De fato, numa emergência, poderíamos levar o show somente comigo, Junior e Rodrigo tocando, mesmo que isso representasse um enorme prejuízo sonoro, e nas músicas mais imprescindíveis, onde a presença dele era vital na guitarra ou nos teclados, as cortaríamos do set list, substituindo por outras mais fáceis de serem tocadas em trio. Como estávamos aflitos para colocar o equipamento o mais rápido possível em cima do palco, nem todo mundo presenciou tal cena horrível. No entra e sai, os roadies estavam levando equipamento e por isso o Marcello voluntariou-se para colocar o calço no ônibus, daí expondo-se ao acidente. Cabe aqui uma reflexão : tal tarefa é perigosa e claro que ninguém merece machucar-se dessa forma. Geralmente quem faz isso, é o ajudante de caminhoneiro, que tem experiência em lidar com isso, embora pareça uma tarefa prosaica que qualquer pessoa possa fazer. No caso de um conjunto musical, o correto é que os componentes não arrisquem-se em realizar tarefas onde possam contundir-se, principalmente nos braços; mãos & dedos, isso é óbvio. As mãos dos roadies e do motorista também não merecem machucar-se, isso é evidente, mas pela função, sem um músico não há show, se não há show, não há tour.

Eu que muitas vezes fiz essa função do calço, também estava errado em arriscar-me. Nunca aconteceu nada comigo e acreditem, eu fiz isso inúmeras vezes, muito mais que o Marcello, que foi muito azarado nesse aspecto. Tem até na história do Rock, a clássica passagem de que o Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, era constantemente advertido pelo empresário Peter Grant, porque contrariando suas ordens expressas, adorava ajudar os roadies a montar o palco. Fazia até loucuras como pendurar-se em escadas altíssimas para empilhar as caixas do  P.A. auxiliando os carriers. E se ele machucasse-se ? Show cancelado, não é mesmo ?
Então, passado o susto, mesmo com a mão bem roxa pelo hematoma feio e com dor, o Marcello bravamente dispôs-se a tocar no soundcheck que foi rápido ao extremo, mas eficaz, e garantiu-nos que tocaria normalmente e que apesar da dor, seus movimentos não estavam comprometidos e poderia tocar guitarra, teclados e flauta. Era uma situação preocupante, pois sem um exame médico adequado, poderia até agravar a contusão, mas ele insistiu e nós acatamos a sua decisão de fazer o show no sacrifício.
Não havia nenhum tempo para pensar em ir ao hotel para tomar um banho, portanto recorremos às instalações esportivas do próprio Sesc, e tomamos banho nos vestiários dos atletas que ali treinam e jogam basquete, vôlei e futsal. Quando estávamos terminando o banho, ouvimos claramente o público entrando na arena onde tocaríamos. Saindo da instalação dos vestiários e indo para o camarim, tivemos que passar por uma área social que era caminho do público e vimos muitos correndo para garantir o melhor lugar possível próximo ao palco.

Nesse momento, internamente e sem comentar com o Rodrigo e com o Marcello que estavam caminhando comigo, tive uma epifania, praticamente : lembrei-me dos anos setenta e como era excitante ir à um show de Rock e por um breve instante, senti naquela correria perpetrada pelos jovens sãocarlenses, a mesma vibração setentista que eu sentia na porta de uma arena, indo assistir aquelas maratonas de Rock brasileiro, naquela década.
Rapidamente o "Senhor X", banda de Ribeirão Preto, cuja vocalista Carla Viana conhecêramos na noite anterior, dava os primeiros acordes de sua apresentação de abertura...
Como de praxe, o Sesc serviu um lanche caprichado no camarim, mas havia um detalhe que não levamos em consideração : apesar do Sesc ser sempre muito bem organizado, normalmente, tal camarim não ficava atrás do palco, como seria o correto, mas pelo contrário, na outra extremidade, e sem nenhum caminho reservado para os artistas deslocarem-se para o palco. E pior, era um camarim improvisado, como uma tenda, bonita e asseada, certamente, mas não um recinto fechado de alvenaria e seguro, por conseguinte...
Mais uma tragédia estava para acontecer...essa tour estava mesmo sendo realizada sob a égide do azar...


Quando o show da banda "Senhor X" encerrou-se, lembro-me que estávamos mais relaxados no camarim. O pior parecia já ter passado, com tudo o que vivenciamos de ruim naquele sábado, desde a tragédia em Ribeirão Preto; a angústia para chegar a tempo em São Carlos e o susto que tivéramos com o Marcello acidentando-se, conforme já relatei. O hematoma estava feio, mas ele dizia que tocaria assim mesmo, ainda que sentindo dores, e claro que sua coragem era enorme nessa circunstância. Os membros do "Senhor X" chegaram ao camarim e eu cumprimentei a sua ótima vocalista, Carla Viana e o guitarrista da banda. Eu incentivei-os a tocarem mais músicas autorais numa eventual nova oportunidade.

A banda era (é) ótima, mas fiquei frustrado em verificar que só tocaram cover de classic Rock. Muitíssimo bem, por sinal, mas uma banda boa daquelas precisava estar abrilhantando a cena autoral do Rock, e não tocando músicas do Black Sabbath, Jethro Tull, Led Zeppelin e outras bandas do gênero, por mais agradável que isso fosse aos meus ouvidos sessentistas / setentistas. Era a nossa hora de ir para o palco e sem outra maneira reservada, fomos pela beirada do ginásio, até a escada de acesso ao palco, do outro lado.
Nem eu, nem ninguém incomodou-se em deixar nossas malas de viagem no camarim, apesar dele ser aberto, improvisado como a uma tenda. Certamente que o Sesc providenciaria uma segurança monitorada, etc e tal. Ninguém questionou sobre isso, mas parecia implícito que teríamos segurança, com nosso camarim vigiado.
Lembro-me que quando estava a um passo de subir ao palco, a vocalista Carla Viana estava perto e desejou-me boa sorte. Ouvi o apresentador do evento falar algumas palavras com o público e anunciar-nos como locutores de pugilismo, com aquela ênfase clichê, e de certa forma engraçada.

Quando dei um passo para o palco, vi que o cabo do meu baixo, que estava ligado no direct box do amplificador, desconectou-se acidentalmente, e quando fui reconecta-lo, ele pareceu ter rompido-se no plug. Naquela fração de segundos, não dava nem para avisar o roadie, e o Junior já sinalizava iniciar a contagem da primeira música. Fui para o palco já imaginando a banda começando e sem o som do baixo, com um tumulto a ser deflagrado e criando assim, um anticlímax, quebrando o impacto inicial do show, que é sempre importante para um show de Rock, e não era diferente para nós. Mas num ímpeto de minha parte, puxei e reinseri o plug e o som apareceu. Ninguém percebeu tal momento de angústia, e no tempo forte do primeiro compasso da música "Não Tenha Medo", eu estava lá fazendo a frase costumeira..."sol - la - do"...
Ninguém percebeu que quase deu pane e seria mais um desastre a ser contabilizado para essa turnê já caracterizada pelo azar absoluto. O show foi energético, no entanto. Com som e luz de qualidade, palco grande, cerca de 2000 mil pessoas na plateia e performance tranquila, demos o recado da Patrulha como deve-se, e naqueles 90 minutos, nada de errado mais aconteceu, dando-nos a falsa impressão de que a onda de azar havia cessado. Até o nosso maior temor, que era o Marcello não conseguir tocar adequadamente, não confirmou-se. Ele sentia dores, é claro, mas tocou com seu brilhantismo habitual. Mas infelizmente, desastres ainda aconteceriam...
Terminamos o show em grande estilo, com ovação da plateia e volta ao palco para bis. Tudo parecia ter voltado ao normal, enfim...
Saímos do palco e a lateral estava cheia de fãs querendo autógrafos e tirar fotos. Nesses momentos, tendemos a distrair-nos uns dos outros e atendendo os fãs, vi que só o Rodrigo estava próximo de minha presença, também atendendo fãs, quando ouço a voz do Junior no P.A. Estava aos prantos, parecendo muito nervoso e chamava pela ajuda dos responsáveis pelo Sesc e imediata presença da Polícia Militar !! Seus berros nervosos, estavam confusos e claro que meu coração saltou da boca... e pedindo licença às pessoas que atendia, fui voando ao camarim para ver o que estava ocorrendo e aí...



Quando cheguei ao camarim, havia um tumulto generalizado. Junior, Marcello e Samuel estavam muito nervosos, e vários fãs estavam atônitos querendo ajudar ou consolar-nos, mas nada poderia ser feito naquele momento...o que aconteceu ?
Como desgraça pouca é bobagem, tínhamos mais uma tragédia a ser contabilizada : fomos furtados !! O camarim estava todo revirado; bolsas e malas abertas; roupas pessoais espalhadas; e toda a comida e bebida que havia sido servida, fora roubada, sobrando apenas farelos e algumas latas de refrigerantes, vazias...

Como era possível isso acontecer dentro de uma unidade do Sesc, onde a organização prima pelo extremo profissionalismo ?
Mas aconteceu...e segundo apuramos em cobrança feita aos funcionários do Sesc, a vigilância não era ostensiva, mas circular, e usando da mais esfarrapada das desculpas possíveis, disseram-nos que fora a primeira ocorrência registrada. Ok, como sempre no Brasil, nada é providenciado antes que algo ruim aconteça, portanto previsibilidade é palavra desconhecida no dicionário do imprudente povo brasileiro...
Fãs da cidade desculpavam-se conosco, envergonhados por estarmos passando por tal situação em sua cidade, mas claro que não era um problema de São Carlos. A cidade é maravilhosa e sempre recebeu-nos bem. Tanto que voltaríamos lá outras vezes, sem dúvida. É óbvio que fora um vacilo nosso em não dimensionar que esse negócio de que a violência e o crime não existem em cidades interioranas, é pura balela. Esse discurso ficou lá atrás, nos anos quarenta ou cinquenta do século passado, sei lá, e não tinha cabimento mais vacilar respaldado por tal premissa. O Sesc poderia ter designado um ou dois funcionários para ficar na entrada do camarim ? Claro que sim, mas acredito também que o vacilo foi nosso. Vendo aquela estrutura improvisada e devassada, deveríamos ter guardado tudo no ônibus e ponto final.

Fazendo uma avaliação do ocorrido, constatamos que o prejuízo mesmo foi pequeno, com exceção do Marcello que teve carteira subtraída e perdera algumas peças de roupas. Além dele, mexeram na mala do Junior, que perdeu uma toalha, apenas. Não roubaram nada da minha bagagem, tampouco do Rodrigo e ficamos perplexos pelo fato de não terem roubado tudo, principalmente carteiras, relógios, celulares e as melhores roupas e calçados em detrimento de uma toalha e poucas peças de roupas do cotidiano do Marcello. Talvez não tenham tido tempo para escolher com calma os objetos mais valiosos. Optaram só pela primeira carteira que acharam, e priorizaram as bebidas e lanches servidos na mesa. Bem, mais um golpe para minar o nosso ânimo que já estava bem baleado e destruiu completamente o astral legal com o qual tivemos o show, e a interação com o público. Cansados e bem chateados, resolvemos ir para o hotel e depois jantar e tentar esquecer tantos problemas.
Os roadies carregaram nosso equipamento, desta feita num ritmo mais lento e não foi fácil para eles subirem a escadaria que dava acesso ao gramado recuado da calçada, onde o ônibus estava.
Solidarizando-me com o Marcello, combinei de acompanhá-lo à delegacia na manhã seguinte para lavrar o Boletim de Ocorrência. Nessa altura, ele já tinha ligado para o banco, e companhia de cartão de crédito, para cancelar os cartões surrupiados. Mas a tour do azar estava longe de acabar-se...
Quando o ônibus estava carregado e com todos a bordo para irmos ao hotel, o "seu" Wagner deu a partida na ignição e aí...


Inacreditável diante de tudo o que havia acontecido-nos desde a manhã tumultuada em Ribeirão Preto, mas de certa forma, era previsível que alguma pane ocorreria no ônibus, após tantas ocorrências traumáticas. Portanto, ter a bateria arreada, não era o pior que acontecera-nos e não seria a pior ocorrência, pois mais acontecimentos nefastos aguardavam-nos...
Diante de tal impasse, tarde da noite, recorremos aos nossos contatos mais próximos para que algum socorro fosse providenciado naquele momento em que a madrugada já estava iniciada e todo o nosso equipamento estava no ônibus, com a unidade do Sesc fechando as suas dependências, não dava para ir para o hotel dormir tranquilamente deixando o carro ali com nosso equipamento.

Mas extenuados e tensos pelos acontecimentos negativos somados, todos precisavam muito de uma boa noite de sono, contudo, eu voluntariei-me para tentar uma solução imediata. Fui até um posto de gasolina próximo, e abordei os frentistas em busca de alguma dica sobre onde arrumar um socorro naquela hora. Mas ninguém passou-me uma informação animadora. Pelo que apurei, dificilmente eu encontraria ajuda na madrugada e se desse sorte, no domingo pela manhã, apenas. Uma boa alma prontificou-se a ajudar. Era um caminhoneiro que solidarizou-se e foi com seu carro até o local onde o ônibus estava, mas numa tentativa de recarregar a nossa bateria, não logramos êxito. Esse senhor ficou amigo do "Seu" Wagner, e ali percebi que a tal solidariedade entre caminhoneiros funcionava pela conversa que tiveram, contando "causos" da estrada etc e tal. Agradecemos, mas particularmente, achei que não voltaria, pois não tinha nenhum comprometimento, a não ser a ajuda de ocasião. Desanimado, voltei ao ônibus e só o Rodrigo ainda permaneceu ali, mas também estava cansado ao extremo e dessa forma, falei para ele ir para o hotel, que eu ficaria no ônibus, junto com o "seu" Wagner. Confesso, mais que representar a banda nesse momento, eu estava muito preocupado com a segurança do carro, e sobretudo, com o nosso equipamento. Antes tivéssemos deixado-o dentro do Sesc, e dormido lá dentro.
O "Seu" Wagner disse-nos que garantiria a segurança, mediante uma barra de ferro que tinha, mas convenhamos, numa situação real de ameaça, o que faria de fato ?

Claro, que a minha presença também não era garantia de nada nesses termos, mas seria um homem a mais para ficar atento.
A Madrugada estava quente, e eu muito cansado e aborrecido com os acontecimentos somados, portanto, apesar de fatigado, não preguei o olho. Cada pequeno barulhinho no entorno, deixava-me ressabiado, fazendo-me correr às janelas do veículo para checar seus flancos. Mas fui vencido pelo cansaço e apaguei, enfim, apesar de já estar amanhecendo naquele momento. Porém, não passou muito tempo e deviam ser 7 horas da manhã aproximadamente, quando acordei com batidas fortes na lataria do carro. No susto, pulei fora da poltrona onde dormia bastante mal acomodado, mas logo tranquilizei-me, pois vi que o "seu" Wagner conversava animadamente com o caminhoneiro que tentara atender-nos horas antes, durante a madrugada. Munido de uma outra bateria, fez o procedimento de recarga, quando...voilà !! Nosso ônibus deu a partida...
Fiquei feliz como uma criança diante de alguma coisa prosaica, só por ouvir aquele ronco do motor, e parecia que tudo havia sido resolvido. Agradecemos o caminhoneiro de forma enfática e quando ele partiu, o "Seu" Wagner disse-me algo como : -"viu ? caminhoneiro não deixa companheiro na mão"...

Verdade, já tinha noção sobre a existência de uma ética própria da categoria e esperava que houvesse solidariedade, mas ele percebera que eu duvidara na madrugada, e que nesse caso, diante das circunstâncias, isso de fato não ocorreria. Bem, nem preciso dizer que foi um aprendizado pessoal para a minha vivência íntima e num futuro próximo, eu constataria outras demonstrações desse porte na estrada. Feliz por ver o carro funcionando, fomos para o hotel, enfim, onde a ideia seria estacionar com a segurança que não tivemos na madrugada, e o "Seu" Wagner pudesse dormir então com um pouco de conforto, pelo menos até a hora do almoço. O "Seu" Wagner ficou com o carro ligado, por um bom tempo ainda, para garantir que a bateria recarregasse-se convenientemente.

Pelo menos todos estavam mais descansados, e só eu e o motorista é que estávamos mais prejudicados nessa história. Mas infelizmente eu não pude dormir um pouco numa cama decente, pois havia combinado de acompanhar o Marcello à delegacia, onde ele precisava lavrar o B.O. em referência ao furto do qual fora vítima na noite anterior. Tomei o café da manhã e esperei o horário combinado para acordá-lo, e irmos enfim. Chegamos à delegacia por volta das 9:30 h. da manhã e naquele processo lento, claro que demoramos para sermos atendidos. Enquanto o escrivão atendia-nos e preenchia o B.O. com as informações, conversamos sobre música, pois o funcionário em questão, era relativamente jovem e dizia gostar de Rock ao ver-nos cabeludos e constatar que éramos músicos. Era super simpático e gente boa, mas não animou-nos em nada em dizer que aquilo era só uma formalidade para o Marcello pleitear novas cópias para os seus documentos, pois jamais seus pertences seriam achados. Bem, nós também não tínhamos essa ingenuidade de achar que seria diferente. Voltamos para o Hotel e os demais já estavam almoçando num restaurante próximo. Como estávamos vivendo a tour do azar, algo a mais poderia acontecer a qualquer instante. Quando o "Seu" Wagner foi fazer sua checagem do carro...



O ônibus simplesmente não deu ignição, começando o pesadelo novamente. Nessa altura, o destino fizera com que eu estivesse perto novamente do desastre. Estavam todos almoçando e alheios ao problema que novamente rondava-nos. Desta feita, o compromisso que tínhamos era bem mais longe, em Mirassol, e não teríamos tempo hábil para essa viagem, se não resolvêssemos essa questão imediatamente. Como já estava no meio desse furacão desde o início da madrugada, abri mão do almoço e pus-me a correr atrás de uma solução. Achar uma bateria nova para um automóvel de passeio era relativamente fácil, mesmo sendo um domingo numa cidade interiorana, mas uma bateria de 24 (carros de passeio usam a de 12), para ônibus e caminhões, era bem mais complicado.

Vista da Avenida São Carlos, no centro dessa simpática cidade homônima do interior paulista
 
Fui ao ponto de táxi de uma praça bem próxima ao hotel onde hospedamo-nos e perguntando aos taxistas ali presentes, vi que teríamos problemas, pois demonstraram dificuldade em dar-me uma resposta rápida. Ficaram entreolhando-se e conjecturando sobre possíveis lugares onde nós poderíamos comprar uma bateria nova.
Citando três ou quatro nomes de estabelecimentos cujos donos moravam próximos e numa emergência poderiam abrir suas respectivas lojas para efetuar a venda, parecia haver uma luz no final do túnel, enfim. Quando os demais membros da banda tomaram ciência do ocorrido, um nervosismo instaurou-se, mas não cabia fazer reclamações ao léu e sim tomar uma providência prática, coisa que eu estava tentando fazer. Nesse ínterim, o "Seu " Wagner já estava fazendo uma tentativa de recarga mediante o apoio de um caminhoneiro que havia parado para ajudar. Naquela "conversa de boleia" que ele sabia tratar com seus pares, estava também tentando uma solução. Sem sucesso no entanto da parte dele, prontifiquei-me a ir aos tais lugares citados pelos taxistas e sem outro meio, contratei corrida com um deles, e a solidariedade ficara só na conversa, pois o senhor não teve dó de baixar a "bandeira 2", alegando ser domingo etc e tal...


Enfim, mesmo vendo o taxímetro voar numa velocidade assustadora, eu não via naquele instante outra solução melhor, e assim, fui à captura de uma bateria. Rodamos bairros periféricos da cidade e sem querer fazer mal juízo do senhor que atendeu-me, pairou a dúvida sobre o caminho, levando-se em conta o fato de eu não conhecer a periferia daquela cidade, e não ter a certeza de que tal busca fosse realmente plausível e não uma encenação, com a possibilidade dele ter certeza de que não lograria êxito e seu objetivo fosse apenas fazer uma "corrida dos sonhos", com um incauto forasteiro como eu, num domingo sem perspectivas de ganhar uma boa féria. Vai saber...


O fato, é que fomos à três ou quatro lugares e realmente eram oficinas de auto elétrico e / ou lojas de autopeças. Mediante abordagem de residências próximas onde supostamente seus donos moravam, ninguém foi achado. Nesse caso, será que ele tocava campainha em casas de conhecidos que sabia que não estavam e tudo não passava de uma manobra ? Que horror pensar isso, eu sei... 



Mas na hora, estava bastante desconfiado da ação do taxista, porém nada poderia fazer a não ser confiar nele. Desistindo, voltamos ao ponto da praça de onde partimos e outra caminhonete estava atracada ao nosso ônibus, tentando fazer a recarga, e os ânimos estavam acirrados. Faltava pouco tempo para extinguir-se o limite confortável para entrarmos na estrada e prosseguirmos rumo à Mirassol, distante dali, cerca de 250 Km. Foi quando o dono da loja de CD's "Cosmic", um simpático Rocker; amigo e entusiasta da Patrulha, apareceu e comovendo-se com nosso drama prosaico, lembrou-se de um amigo que tinha loja de autopeças, e que mediante uma checagem rápida, tentaria ajudar-nos. Bingo !!


Aquilo que eu tentara fazer sem sucesso e com uma ajuda suspeita da parte de um taxista, poderia ocorrer de fato, com o rapaz prontificando-se a abrir sua loja em caráter excepcional e  vendendo-nos uma bateria nova, enfim...
Questão de mais alguns minutos e o rapaz estava ali com uma bateria selada em mãos...

Instalada, o ônibus deu a ignição esperada e feitas as despedidas e agradecimentos, fomos para a estrada já com a tarde findando-se.
Naquele horário em que partimos, havíamos planejado já estarmos em Mirassol, na logística da tour, mas as circunstâncias não permitiram-nos isso. Não dava para correr além do limite da estrada para compensar o atraso, mediante problemas com multas / polícia rodoviária, também para não forçar o carro que estava bem baleado depois de tantos problemas. Ligamos para Mirassol e comunicamos que atrasaríamos, dispensando o soundcheck anteriormente combinado. Dessa forma, se nada mais ocorresse para impedir-nos, a perspectiva melhor possível era a de chegarmos só a tempo de montar o palco correndo e iniciar o show sem chance para recompor-se da viagem, jantar e nem mesmo fazer um soundcheck decente. Completamente extenuado por não ter dormido como os demais e não alimentado-me direito, apaguei no fundo do carro, e só despertei com o movimento do carro estacionando na porta da casa onde tocaríamos em Mirassol, e já era noite profunda, com o horário muito estourado. Era a tour do azar...e em Mirassol, não haveria de ser diferente...mais problemas aguardavam-nos...

Chegamos muito atrasados em Mirassol, e conforme já havíamos solicitado, a banda de abertura passou o som para o seu set up, e estava já postada para tocar. Apenas deixamos o nosso equipamento perto do palco (e era um espaço considerável, ainda bem, pois se a casa tivesse espaço reduzido como muitas em que tocamos anteriormente, nem isso teria sido possível), e a banda "Lier" (era com "e" mesmo, se você pensou tratar-se da palavra inglesa, "Liar"), iniciou a sua apresentação.

Estávamos muito cansados e esgotados psicologicamente devido à soma de acontecimentos desagradáveis com os quais lidamos desde o sábado pela manhã. A banda começou a tocar e tínhamos pouco tempo para arrumarmo-nos. Os rapazes do "Lier" eram amigos do pessoal do "Hare", de São José do Rio Preto, que havia aberto o nosso show em dezembro de 2001, ali mesmo no "Planet Beer".
O "Lier" não era uma banda acintosamente retrô como o "Hare", e seu som pendia para o Pop Rock oitentista / noventista, mas sem grandes voos. Bons músicos e gente boa no trato pessoal, mas não despertou-me a atenção como o "Hare" havia feito na ocasião anterior. Quando acabaram, uma pequena força tarefa comandada pelo baterista do "Hare", Junior Muellas iniciou-se para auxiliar os nossos roadies, e dessa forma, ganhamos alguns minutos preciosos nesse processo de troca de set ups entre as bandas. Montamos a toque de caixa e baseado na equalização da banda anterior, conforme já expressei anteriormente, pois não pudemos fazer soundcheck, começamos a tocar. Estávamos no início da primeira música do show "Não Tenha Medo", quando todos os três amplificadores que usávamos para tocar o baixo e duas guitarras, pararam de funcionar bruscamente. Fiquei com tanta raiva de passar por mais uma adversidade acumulada, que não esperei que algum roadie ou o técnico de som da casa esboçasse uma reação. Tirei a correia do baixo do meu ombro, coloquei o instrumento no cavalete de sustentação e fui voando às tomadas onde estavam ligadas as réguas de AC, mexendo em todas.

Suprema precariedade de uma casa que não preocupava-se em investir em infraestrutura para produzir shows musicais, tais instalações elétricas estavam frouxas e desconectavam-se a toa.
Apertei-as e pedi ao Samuel Wagner para passar uma fita adesiva e coibir assim novos acidentes desagradáveis no decorrer do show.
O nosso show foi morno. Diferentemente da ocasião anterior, onde havia até uma euforia decorrente do fato da casa estar absurdamente lotada, desta feita havia muito menos público, e ele parecia apático, sem estabelecer uma sincronicidade com a banda.
Isso acontece, é coisa normal na vida de qualquer artista, inclusive os mais famosos. Quando não existe tal sinergia, não adianta que não funciona, mesmo. Talvez fosse um reflexo da nossa energia baixa, com os ânimos muito prejudicados pela somatória de todos os aborrecimentos com os quais lidamos nesses três dias, ou sendo mais específico, no sábado e no domingo. Fomos até o final com o profissionalismo de sempre, mas estávamos com um abatimento quase indisfarçável, essa é que era a verdade. Quando o show terminou, o clima era de cansaço e o desejo era de voltar imediatamente para São Paulo, juntar os cacos e reorganizar para seguir em frente com os próximos compromissos. Esse show ocorreu em 24 de fevereiro de 2002, e com cerca de 200 pessoas na plateia. Mas ainda no domingo, haveria um último problema. O dono da casa, que revelara-se um espalhafatoso anfitrião quando da nossa primeira visita ao seu estabelecimento, desta feita estava bem carrancudo e nem quis tratar do acerto monetário com a banda, delegando tal função para a sua filha, que mal havia saído da adolescência.

Até aí, tudo bem, sem preconceito pela questão da pouca idade da moça, mas quando a conversa iniciou-se, havia uma reclamação por parte da casa, sobre o nosso atraso e diante disso, uma nova situação de acerto financeiro não acordada anteriormente estava sendo colocada pela mocinha. Ora, de fato, atrasamos bastante, mas isso causara apenas a perda do soundcheck de nossa parte, pois quando estacionamos na porta do estabelecimento, a banda de abertura ainda nem estava tocando, portanto, não seria esse o fator pela frequência mais baixa do que a ocasião anterior, de dezembro de 2001. E outra : falando especificamente dessa baixa frequência naquela noite, muito dessa situação era culpa da própria casa, pois era óbvio que não empenhara-se em fazer uma divulgação adequada na cidade, aliás como a maioria das casas noturnas, que geralmente limitam-se a deixar um cartaz anunciando as próximas atrações num mural e no site do estabelecimento. Mas claro que era mais uma contrariedade e nesse caso, envolvendo dinheiro e com todas as despesas extras que tivemos com a manutenção do ônibus, era insuportável ouvir a argumentação pífia da parte da casa, tentando quebrar um acordo previamente feito em outros termos.

Claro que os ânimos acirraram-se e nesse momento o dono apareceu e instaurou um barraco, deixando o clima insustentável. Pagou-nos o que pleiteava com essa quebra de acordo compulsória e o clima só não partiu para as vias de fato porque ele usou de força, e diante de tal atitude, era melhor ir embora com a quantia de dinheiro injusta no bolso, a ter outra desgraça para contabilizar nessa história. Eram três horas da manhã, quando paramos para um café numa loja de conveniência de um posto de gasolina, ainda dentro daquela cidade. Estávamos calados, sem forças nem para reclamar de tudo o que ocorrera, naqueles últimos dias. Foi quando entramos no ônibus e o "Seu" Wagner disse-nos uma coisa aparentemente reconfortante : -"sei que estão todos chateados e cansados, por isso, agora deixem comigo. Durmam, e eu acordo vocês quando estivermos entrando em São Paulo". Ninguém desejava outra coisa naquele momento, e claro que apagamos, todos. Mas aquela era a tour do azar e ainda haveria a cereja do bolo...

Estávamos extenuados e abalados psicologicamente pelo fato de termos suportado tantas adversidades nesses dias, e as palavras proferidas pelo "seu Wagner", soaram como um bálsamo naquele instante. Ninguém respondeu-lhe, pelo menos verbalmente, pois a resposta veio com a atitude quase ensaiada de todos, com cada um buscando ajeitar-se individualmente nas poltronas do ônibus, em silêncio profundo...porém, mais uma desgraça estava por vir...
Acordei por volta de seis e meia da manhã, com um forte estampido, semelhante a um tiro de rifle, e claro que voei da poltrona. Naquela fração de segundos, demorei um pouco para entender o que havia ocorrido, mas a voz do "seu" Wagner esclareceu tudo, de forma prosaica, pausada e resignada : -"estourou um pneu"... 


Apesar de estar numa velocidade razoável, tal ocorrência assustou mais pelo som, pois o "seu" Wagner assegurou-nos uma condução tranquila até o acostamento. Bem, estourar um pneu não é o fim do mundo para ninguém, teoricamente. Troca-se rapidamente e por prudência procura-se o borracheiro mais próximo, para efetuar o reparo e recolocá-lo, voltando o estepe para o bagageiro. Mas um pneu de ônibus / caminhão não é tão fácil de consertar ou repor na estrada, como ingenuamente achávamos nós que nunca fomos caminhoneiros. No primeiro posto onde paramos, não conseguimos êxito e no segundo, o borracheiro informou-nos que o pneu em questão não suportaria um conserto e pior, o estepe estava nas mesmas condições. Sem um pneu melhor para vender-nos, ficou aquele impasse insuportável para ser resolvido. O borracheiro sensibilizou-se com o nosso caso e ofereceu-se a levar-nos de carro até a cidade de Taquaritinga, cerca de oito Kilômetros de onde estávamos e levando-nos numa concessionária, para comprarmos dois pneus novos ou seminovos. 

Voluntariei-me para tal missão e junto com "seu" Wagner, fomos nessa missão, por volta de sete horas da manhã. O cansaço e a contrariedade por estar passando por mais essa adversidade, era gigantesco. Mas alguém precisava tomar a providência e lá fui eu, novamente. De fato, nesses três dias eu fui o bombeiro da maioria das ocorrências, e não foram poucas. Chegando em Taquaritinga, ainda tivemos que esperar a loja abrir, e minha expressão facial de insatisfação por estar ali nessas circunstâncias devia ser gritante, acredito. Bem, fizemos a compra e retornamos ao posto da estrada. Mais um bom tempo para efetuar a troca, e finalmente voltamos para a estrada, com a viagem de retorno para São Paulo, prosseguindo. Claro que o clima estava pesado. Foram muitas as adversidades e para piorar tudo, tivemos gastos monetários imprevistos, mas era melhor acostumar-se com essa dinâmica : ter um ônibus próprio, demandava gastos com manutenção, constantes.
Chegamos em São Paulo fatigados e chateados, mas a vida tinha que prosseguir. Desde o começo das atividades da banda, essa fora sem dúvida, a pior tour, mas não havia sentido em lamentar, pois teríamos novos compromissos em breve, e não era oportuno abaixar a guarda. Independente de tudo o que ocorrera nesses três dias, o "seu" Wagner estava aprovadíssimo como motorista / mecânico, e estávamos felizes por ele ter minimizado a situação, pois nas mãos do motorista anterior, teria sido muito pior, visto que não tinha os mesmos atributos e a malandragem de estrada do "seu" Wagner.
O próximo show seria em Osasco, na Grande São Paulo, portanto sem o uso do ônibus, mas uma nova investida no interior de São Paulo, já estava marcada para a semana subsequente. E assim, encerrou-se a "tour do azar", com os três shows de Ribeirão Preto; São Carlos; e Mirassol, em 22, 23 e 24 de fevereiro de 2002, respectivamente. 


 
Continua...

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