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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 14 - Nave em Pane - Por Luiz Domingues

Encerradas as sessões de mixagem e concluída a capa, em fins de fevereiro e começo de março, não tínhamos outras atividades marcadas, e aí, bateu um desânimo geral e de minha parte, aquele grau de insatisfação generalizada acentuou-se. Eu lastimo muito que tenhamos chegado nesse ponto, mas antes até da gravação do CD "Missão na Área 13", o clima estava em acentuada deterioração no interno da banda e agora, com o disco novo em mãos, mas sem nenhum sinal de que ele promoveria alguma mudança no nosso gerencial, apesar de ser uma peça artística de alto padrão, digo com pesar que o combustível da nossa nave espacial estava esgotando-se. Então, o que tínhamos de mais concreto de imediato, eram manifestações da crítica já repercutindo o novo CD.
 


Um exemplo, a ótima entrevista concedida à revista "Poeira Zine", que estava começando a firmar-se no mercado editorial e claro, tinha como leitor alvo, quem apreciava Rock retrô; Vintage; Classic Rock ou chame como quiser. Ótima entrevista ao jornalista Bento Araújo, que valorizou-a certamente pelo quilate das perguntas formuladas. Que bom seria se todo entrevistador fosse um jornalista especializado e muito culto no assunto, fazendo perguntas muito mais que pertinentes, mas com profundidade e conhecimento de causa.


Mais uma boa entrevista saída na mesma época, foi na Revista "Batera e Percussão", conduzida pelo seu editor em pessoa, o Régis Tadeu, que nessa época ainda não era um personagem midiático, como tornar-se-ia, anos depois. Entrevistando o Junior, falou-se bastante sobre o novo trabalho e assim como Bento Araújo, Régis Tadeu é uma conhecedor da matéria, dando verniz à entrevista.
Atrasada, mas válida, a resenha do disco anterior, ".Compacto", saiu no Fanzine Mega Rock.

Eis o que o seu editor, Fernando Cardoso, escreveu :

"Neste novo álbum o Patrulha apresentou muita criatividade na concepção gráfica, pois a capa tem o mesmo tamanho de da capa de um compacto de vinil. E dentro tem um envelope do mesmo estilo que vinha nos LP's  isso além de ter dado um aspecto de originalidade para esse álbum, também fez com que ele ficasse com um certo requinte luxuoso. O nome também foi um primor de originalidade, pelos múltiplos significados que ele possui, pois ele se chama ".ComPacto" em homenagem aos compactos de vinil e também ao passado, o ".Com" faz uma referência à modernidade com a internet, o "P" maiúsculo no meio do nome forma a palavra "pacto", pois eles estão "compactuados" com o Rock, ou seja, utilizaram muita imaginação com uma única palavra.Musicalmente a banda é esplêndida, com arranjos virtuosos e composições criativas, eles desenvolveram um álbum notável, fazendo Hard Rock estilo anos 70, cheio de energia. O baterista Rolando Castello Junior mantém a forma, tocando com muito virtuosismo e precisão, ele tem um estilo muito original. O Patrulha surgiu em 1977, e é muito bom ver uma banda se manter por tanto tempo, mesmo com as dificuldades que surgem pelo caminho. Para encerrar, também merece um elogio a bela ilustração da capa. Completam a formação : Luiz Domingues (BX/VZ), Rodrigo Hid (GT/VZ) e Marcello Schevano (GT/VZ).

Fernando Cardoso 


Mais matérias e resenhas sairiam, a partir de junho / julho. No fim de abril, uma luz surgiu no final do túnel. Dois shows em Santa Catarina, sendo que um deles num festival de grande proporção, ao ar livre.

O Junior comunicou-nos que teríamos shows, enfim. Foi um período difícil termos tido um hiato tão grande de apresentações ao vivo, pois nossa última aparição pública num palco remontava a dezembro de 2003. Concomitante com o astral que não era nada bom, desde o final de 2003, tal lacuna só contribuiu para desgastar mais ainda o clima de corrosão interna que vivíamos.

Convocados dois ensaios, pois estávamos enferrujados desde a gravação do álbum "Missão na Área 13", em dezembro de 2003, fomos no final de abril de 2004 reunirmo-nos num estúdio localizado no bairro da Chácara Klabin, um subdistrito na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Era uma casa imensa, com uma grande piscina e deck em sua parte externa, e segundo apurei, era conhecida informalmente por muitos músicos como "estúdio da piscina", e de fato, constatei que o proprietário deixava sua clientela a vontade para esperar a hora de ocupar o estúdio, acomodada nos quiosques do deck. Lá, o rapaz que cuidava da sala abordou-me e inocentemente, ficou falando que a nova banda do Marcello Schevano, chamada "Carro Bomba", estava ensaiando há meses ali, e admirou-se ao ver que eu desconhecia completamente que o Marcello montara uma banda paralela e autoral.

Hoje em dia, tenho outra visão sobre essa questão de fidelidade a uma banda, mas naquela época, ainda tinha o conceito romântico de outrora sobre o assunto, e mesmo sabedor que o clima na nossa banda estava ruim, confesso que fiquei chateado por saber assim dessa forma, com o fato consumado, e segundo contou-me o rapaz do estúdio, tal banda já estava pronta para gravar seu disco de estreia ou já estava fazendo-o, não sei ao certo. Se meu ânimo estava baixo nesses primeiros meses de 2004, agora o desânimo pegara-me de vez, pois tudo bem se o Marcello ou o Rodrigo saíssem da banda e formassem novas bandas, novos trabalhos nas suas carreiras. Eles eram muito jovens e tinham todo o direito de buscarem seu espaço fora da Patrulha, mas no subliminar, o que eu sentia de forma sutil, pareceu concretizar-se com essa notícia "bomba" e perdão pelo trocadilho...

Era a finalização do sonho construído desde 1997, quando formamos o Sidharta. Enfim, que os ideais já haviam diluído-se desde meados de 2001, eu sentia claramente, mas agora havia chegado ao plano concreto, e isso desanimou-me. Poucos anos depois, eu também estaria numa outra banda com o Rodrigo, e nós dois interagimos bastante com o Marcello e seu "Carro Bomba", fazendo shows compartilhados e tudo bem, estava tudo superado totalmente de minha parte, mas ali, ouvindo o rapaz falando de uma realidade que eu desconhecia completamente, foi bastante estranho absorver tal informação. Bem, ensaiamos por dois dias, e estávamos prontos para entrar no nosso ônibus e viajar para Santa Catarina.


Viajamos para o sul, com o objetivo de visitarmos de novo o estado de Santa Catarina, desta feita para apenas dois shows em duas cidades. A primeira que visitaríamos era nossa velha conhecida, Concórdia, para mais uma apresentação no Tulipa Bar. A viagem foi tranquila e sem incidentes com o ônibus, como houvera sido a última viagem ao sul quando a barra de direção do veículo havia quebrado dramaticamente sobre a travessia de uma ponte relativamente longa sobre um rio, quando passávamos pela cidade de Registro, ainda no estado de São Paulo.

Se por um lado o ônibus e seu desgaste costumeiro poupou-nos de prejuízos e perigos na estrada, conduzindo-nos numa jornada tranquila, o clima na banda não era mais o mesmo. Mesmo indo para dois shows onde tínhamos a certeza de que apresentar-nos-íamos para uma plateia super rocker, e que amaria os shows, já não estávamos mais no clima de euforia de outrora, infelizmente.
Essa seria de fato, a última viagem com o ônibus da banda, e pilotado pelo "seu" Walter, pois a seguir teríamos apenas shows em São Paulo e o derradeiro dessa formação, realizar-se-ia no interior de São Paulo, mas não o faríamos usando o ônibus e no momento oportuno comentarei sobre isso. Nessa última viagem com o "azulão", além do "Seu" Walter na pilotagem, contamos também com a presença mais uma vez de Luiz "Barata" Cichetto exercendo função de "road manager" da banda, além dos roadies, Daniel "Kid"; Samuel Wagner e James Castello. Chegamos em Concórdia com tranquilidade e no início de maio, o frio era ameno, mas já presente, para o nosso deleite, diga-se de passagem...

Hospedamo-nos no mesmo hotel onde estávamos habituados a ficar, e o velho som do riacho aos fundos mais uma vez embalaria nosso repouso reconfortante. Todo o trâmite de montagem de equipamento e soundcheck foi tranquilo e as donas do estabelecimento mais uma vez receberam-nos muito bem. Mas o show desta vez foi morno, pois não atraímos um grande público e o motivo determinante para tal, foi que o show que faríamos no dia seguinte, seria em Chapecó, de onde vinha sempre aquela turma animada de rockers para ver-nos. Portanto, com a nossa visita a cidade deles, e pelo fato de que seria num festival de grande porte ao ar livre, abstiveram-se de organizar excursão para Concórdia, como costumavam fazer e assim, o show de Concórdia esvaziou-se, mesmo porque, rockers de várias outras cidades vizinhas, também estavam mobilizados para ver-nos em Chapecó.

Rara foto do show no Tulipa Bar, de Concórdia / SC, em 7 de maio de 2004. Acervo e cortesia de Liza Bueno

Além de tudo isso, uma das proprietárias do próprio Tulipa Bar disse-nos que a sexta-feira era tradicionalmente mais fraca no seu estabelecimento e dessa forma, não esperavam nem um grande contingente de jovens burgueses locais e que seriam alheios ao nosso show. Dito e feito, tivemos um baixo contingente na noite em questão, e mais serviu para um último ensaio, visto que o show de Chapecó prometia. 7 de maio de 2004, no Tulipa Bar, com cerca de 70 pessoas na casa, e assim foi a última passagem da Patrulha com essa formação por Concórdia / SC. Alguns rockers locais e que já conhecíamos desde a nossa primeira passagem por essa cidade, disseram-nos que iriam a Chapecó assistir-nos tocar nesse grande festival, e assim, os convidamos para viajarem conosco no dia seguinte. Marcamos de sair após o almoço e a distância entre as duas cidades eram bem pequena (cerca de 82 Km), portanto haveria de ser uma viagem tranquila e rápida.


Viajamos para Chapecó no período da tarde, com muita tranquilidade. Conforme já disse anteriormente, fãs da banda, rockers de Concórdia, viajaram conosco no ônibus, e tudo foi bastante amistoso, sob o frio vespertino moderado desse início de maio. Pelo caminho, ficamos bastante admirados por ver que na encosta da estrada haviam muitas propriedades rurais cuja atividade principal era a suinocultura e quase todas, para não dizer todas, ostentavam placas explicativas dando conta que sua produção destinava-se a fornecer para indústrias frigoríficas renomadas nacionalmente, e situadas na região de Chapecó. Realmente era / é a base da pujança daquela cidade do oeste catarinense, e de toda a região. Chegando na cidade, fomos direto ao pavilhão onde realizar-se-ia o "Festival Sonora" 2004, onde éramos uma das atrações. Seríamos o sub "Headliner" da noite, com a presença de uma banda "estourada" no mainstream e que era muitíssimo antagônica aos nossos ideais; princípios & estética.Tratava-se dos skatistas do Charlie Brown Jr., e seu conceito deturpado do que era o Rock.

Enfim, essa era a dura realidade de conviver-se com uma difusão cultural equivocada, caso do Brasil, e para nós rockers outsiders dentro do que habituou-se a chamar de "Rock" desde os anos oitenta, era bem desconfortável conviver com tais distorções históricas e inversão total de valores. Não tenho e nunca tive nada contra os componentes da banda citada e não haveria motivo algum para falar mal dos rapazes na época, e muito menos agora, tantos anos depois, e com dois de seus integrantes já morando em outra dimensão nos dias atuais, ainda mais. Contudo, o choque estético era institucional, naturalmente. Chegando ao local do show, verificamos que havia dois palcos, e ao conversarmos com membros da produção local, soubemos que a montagem do segundo palco fora exigência da produção da banda dos skatistas, pois recusavam-se a usar o mesmo palco das demais atrações e sobretudo, o mesmo P.A.. Isento tal soberba da parte dos rapazes em si, e creio ser ação de seu staff, valorizando o seu produto ao máximo e no afã de conferir-lhe uma exclusividade, com seu equipamento próprio etc e tal.

Acostumados a lidar com tal tipo de estrelismo, relevamos e concentramo-nos na nossa alçada, fazendo o soundcheck e o equipamento do palco menor, era de extrema qualidade, com uma pressão para suportar mega festival de estádio de futebol, portanto, não tínhamos queixas. Já com nosso backline no palco e ouvindo o técnico fazendo os primeiros testes preliminares de bateria, lembro-me de estarmos dentro do ônibus e o som do bumbo fez a nosso carro trepidar. Era uma pressão sonora impressionante e por alguns segundos, achamos que quebraria todas as vidraças do nosso carro...

Feito o soundcheck, fomos levados para o hotel e após o jantar, tínhamos uma atividade ligada ao festival, antes do nosso show. Um entrevista ao vivo promovida pelos organizadores que queriam que eu e Junior participássemos. Fiquei impressionado com a reverência com a qual fomos tratados, entrando num galpão de grande proporção e vendo uma quantidade grande de pessoas, visto que era uma entrevista aberta ao público. Havia um mediador fazendo as vezes de um assessor de imprensa e muitos jornalistas da imprensa da cidade, e de localidades vizinhas. Quando entramos no galpão, muitos gritos irromperam da parte do público, o que surpreendeu-nos muito, pois esperávamos uma entrevista comedida para três ou quatro jornalistas e sem presença de público. Por tal cenário, tivemos que comunicarmo-nos com microfones, usando um pequeno P.A. disponibilizado para a coletiva. Bem, as perguntas não surpreenderam e ficaram dentro do trivial sobre a carreira da banda e panorama do show business. Só achei um pouco demasiado quando insistiram para que falássemos "mal" da banda dos skatistas, que fecharia o festival naquela noite, e de fato, havia uma revolta na cidade, conforme verificamos assim que olhamos o jornal local no hotel, dando conta de que havia uma denúncia de super faturamento dos custos do Festival, perpetrados por um político local, provavelmente alguém ligado à secretaria de cultura da prefeitura, e parecia que um vereador também estava envolvido na falcatrua. Segundo a reportagem do jornal e pelas conversas das pessoas na entrevista, a banda dos skatistas fazia parte da falcatrua, com um cachet declarado de um valor e na realidade, secretamente era outra coisa, e num patamar milionário. Queriam que nós entrássemos nesse mérito emitindo opinião, mas como isso seria possível ? Sem provas concretas, sem evidências... e além do mais, mesmo que fosse verdade, duvido que os componentes da banda tivessem ciência do imbróglio, portanto, qualquer declaração nossa nesse sentido, seria no mínimo, leviana.

Mesmo quando a conversa partiu para uma seara mais leve, dando conta da soberba da banda em recusar-se em tocar com bandas "menores", nós incluso nesse caldeirão, tampouco acho que tal ideia partiria dos rapazes em si. Isso era clara manobra do seu staff e dentro da praxe do mercado, mesmo tendo sido uma ação antipática perante outros artistas, eu acho que tem uma certa guarida ética, no sentido de que não é nada fácil atingir o mainstream e quando atinge-se tal patamar, o empresário da banda tem a obrigação de dar sempre as melhores condições para o seu artista trabalhar e indo além, aproveitar todas as circunstâncias para capitalizar vantagens para o seu contratado, realçando o seu produto. Claro que não falamos mal dos rapazes por conta disso, mas pessoas da plateia ficaram bem alteradas e manifestaram-se contra os skatistas, mas nada poderíamos fazer para conter tais ânimos acirrados. Hora de ir para o show, a última banda local ainda tocava quando fomos conduzidos ao camarim improvisado, próximo ao palco.

Haveria várias bandas locais, a partir da tarde, porém, eu só conhecia uma, que aliás é muito boa, chamada "Epopeia" e que era composta por músicos que faziam parte daquela turma sensacional de Freaks de Chapecó, que viajaram fretando ônibus para prestigiar-nos várias vezes, na cidade vizinha de Concórdia.
Uma banda do Rio Grande do Sul, que colocava-se como "emergente da vez", por ter um esquema de divulgação fartamente bancado por um produtor mecenas e que possuía seu nome em destaque nos cartazes e nos outdoors de rua, chamada "Reação em Cadeia", estava em evidência também na divulgação do evento.
Estavam com uma música tocando na Ipanema FM de Porto Alegre, e um clip na MTV etc etc, mas infelizmente parecia, a julgar pelo som em si, mais um embuste de marqueteiros. Não deu em nada (infelizmente para os seus componentes, e claro que lastimo pelo aspecto humano), e a tal "reação em cadeia" só se fosse uma rebelião de detentos, mesmo...
Com um som chinfrim entre o Indie e o Punk paupérrimo de sempre, claro que não levamos a sério e sendo realista, eu era mil vezes mais o "Epopeia" e uma ou outra banda local que tocou sem glamour algum. O "Ira" havia tocado na noite de sexta, como headliner, e a tal banda citada no parágrafo anterior, como sub headliner.

Enfim, após o debate sobre o panorama da música em 2004, etc e tal, lá fomos nós tocar. O local do evento devia ter naquele instante, cerca de 20 a 25 mil pessoas, aproximadamente. Mas aglomerados na frente do nosso palco, devem ter ficado apenas cinco mil, acredito, baseado na minha avaliação ocular, sem nenhuma informação concreta para apoiar-me com certeza. Isso porque o grande grosso do público estava aglomerado em frente ao palco da banda dos skatistas, esperando pelo seu show. 

Nada contra os rapazes, pessoalmente, apesar do choque estético abissal que separava-nos. Mas ao mesmo tempo era triste constatar que a manobra de seu staff para dar-lhes um palco exclusivo, havia sido um tiro no pé, pois nós estávamos para entrar no palco, passando das 21 horas, e o caminhão trazendo o P.A. exclusivo da tal banda, não havia nem chegado ao local. Ora, qualquer pessoa que milite na produção musical profissional, sabe que num show de multidão de grande porte, ao ar livre, a praxe é montar o equipamento de P.A., um dia antes do evento, pois é um trabalho pesado e que envolve muitos detalhes técnicos que para fazer-se "correndo", sob a escuridão da noite e com 20 mil pessoas impacientes berrando, fica praticamente impossível de ser executado. Bem, isso era problema deles. O que concernia-nos era subir ao nosso palco e tocar, com tudo montado e checado, como  deve ser.

A relação de rivalidade entre o próprio público era visível. Os cinco mil que estavam ali vendo-nos, eram os rockers da cidade e certamente oriundos das cidades vizinhas, também, e concomitante ao fato de apreciarem-nos e vibrar com o nosso som / performance, dava mostras de hostilidade em tom de ironia aos "20 mil" que estavam amontoados sob aquele frio de rachar, olhando para um palco vazio, sem uma caixa de P.A. sequer como ornamento.
Fomos tocando o nosso show normal e despertando a reação que sempre esperávamos nos pontos chave da nossa apresentação.

Muito gostoso tocar num palco de grande proporção, com luz e som de alto padrão; e P.A. de pressão sonora de show de Rock internacional. O nosso público foi maravilhoso até quando tocamos músicas desconhecidas ainda para eles, do repertório do novo disco que mal havia ficado pronto da fábrica. Aliás, demo-nos ao luxo de tocar peças progressivas desse disco e era uma dicotomia para lá de interessante tocar suítes desse grau de sofisticação para um contingente bem menos expressivo que a multidão que espremia-se para ouvir as canções daquela banda badalada no mainstream.

Enfim, existe até uma rápida filmagem da banda tocando "Anjo do Sol" e que planejo postar no You Tube, assim que possível. Uma pena, é só um trecho e bem tremido, pois o cinegrafista em questão não dominava a técnica. Valerá hoje em dia como um tesouro inédito e raro, mas não tem a qualidade que eu gostaria que tivesse.
Por falar nessa música, apesar da banda estar em seus momentos finais nessa formação, com o ânimo bem baixo entre todos, minha lembrança é a de ter sido uma performance excelente e com muita garra, presenteando o público Rocker de Chapecó, tão fiel à Patrulha, e do qual, jamais sairá de minha lembrança. Quando encerramos o nosso show, um produtor do festival pediu-nos que alongássemos a nossa apresentação, pois não havia nem sinal do caminhão do equipamento de P.A. da atração maior do festival, chegar. Claro, atendemos o pedido e tocamos por quase 40 minutos além do previsto para a nossa apresentação. Para nós foi um prazer duplo, pois o show estava com uma tremenda energia e também sinergia com o nosso público. E também por colaborarmos com a produção do festival que fora solícita conosco.

Contudo, nosso esforço em manter o som ligado enquanto a banda headliner não chegava, não logrou êxito em 100%, pois a grande massa ignorava-nos e onde estavam, nosso som chegava como um radinho de pilhas com delay (atraso), mas acima de tudo, não interessava-lhes em absoluto. Sorte do nosso público que deleitou-se para valer e ficamos contentes também por isso, ou seja, esses rockers verdadeiros de Chapecó mereciam esse presente de nossa parte. Encerramos o show e os organizadores agradeceram-nos pela esticada estratégica, mas que de nada adiantou na prática. Os skatistas deveriam ter começado seu show poucos minutos depois de encerrado o nosso, mas começaram a montar o seu P.A., depois das 11 da noite, e mesmo a toque de caixa, nem é preciso dizer que o show dos rapazes começou muito além disso, e que o seu público chiou muitas vezes, criando coros de protestos pela espera insuportável. Cada um com sua estratégia e certamente que o staff da referida banda deve ter conversado bastante a respeito, nessa madrugada e no dia seguinte.

Despedimo-nos dos nossos fãs no camarim, e zarpamos para o hotel, buscando o cobertor quentinho a salvar-nos da madrugada gelada do outono catarinense, e lembro-me que naquele instante o termômetro marcava 5º...
No dia seguinte, viajamos após o almoço, e se a viagem não causou-nos grande transtorno com as costumeiras panes no bólido azulado, estávamos todos taciturnos. Chegamos em São Paulo quase sob um silêncio constrangedor, cansados da viagem, certamente, mas o cansaço verdadeiro era outro. Nossa formação chegara ao limite. Sem perspectivas em dar um passo maior na carreira e ao mesmo tempo não conseguindo manter a sustentabilidade funcional para existir no mundo underground, estávamos exauridos. Tínhamos um ótimo novo disco em mãos, mas nem isso dava-nos forças para encarar as adversidades com otimismo. Mas uma pequena luz surgiu a nossa frente, e talvez fosse o último fio de esperança para acreditarmos em dias melhores.
Uma micro temporada no Centro Cultural São Paulo e que o Junior trataria de dar um verniz diferente, ao elucubrar uma ideia sensacional, eu diria. E se gravássemos os três shows visando lançar um disco ao vivo ??

 
Continua...

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