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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 12 - Alienígenas Lotados na Área 13 - Por Luiz Domingues

O Junior havia feito contato com o nosso amigo Junior Muelas, de São José do Rio Preto, e a informação que tivemos era que um estúdio estava recém montado nessa mesma cidade, com três sócios, todos amigos e interligados ao Muelas, por laços de amizade e parceria musical, de longa data. Com instalações bem montadas e equipamento "top" de gravação, tinha estrutura para gravar um álbum com qualidade, e melhor, ficava na zona quase rural de São José do Rio Preto, numa espécie de chácara, onde havia a possibilidade de hospedar bandas de fora da cidade, estabelecendo um regime de gravação "full time".

Foto do Chateau H'érouville, badalado estúdio nos arredores de Paris, onde Elton John gravou o LP "Honky Chateau", de 1972

Bem, eu nunca havia gravado um disco assim, nos moldes em que tantas bandas internacionais que eu gostava, haviam gravado, em estúdios montados em ambientes paradisíacos, em meio ao campo; castelos medievais ou localidades praianas desertas, de países exóticos. Não chegaríamos nem perto disso, mas seria algo similar, se acertássemos o negócio, ficando entre dez e quinze dias hospedados numa chácara interiorana e afastada do ambiente urbano da cidade, concentrados em gravar um disco inteiro.

Outro estúdio mítico, o Musicland, de Munique / Alemanha, onde o Led Zeppelin; Queen, e Rolling Stones gravaram álbuns, entre tantos outros artistas

Seria uma experiência muito próxima das que ouvíamos dizer sobre bandas clássicas que apreciávamos, e claro que seria muito legal para nós. Então, antes um pouco de irmos excursionar por Santa Catarina, o Junior comunicou-nos que havia feito um acordo com tal estúdio e que teríamos que decidir se aceitávamos gravar, mas havia um empecilho. Desde que entráramos no ano de 2003, nosso empenho era o de lançar o CD ".ComPacto", e apesar da agenda de 2003, não ter tido o mesmo ímpeto de 2002, não estava nos planos imediatos parar para pensar em músicas novas e ensaios para burilar um novo material. Portanto, a perspectiva de gravar nesse estúdio / chácara era maravilhosa, mas nós não tínhamos material inédito para gravar de imediato.

Dessa forma, Marcello e Rodrigo afirmaram que tinham algumas ideias novas em termos de riffs e que poderíamos marcar ensaios, aproveitando o hiato de shows até dezembro e vermos se conseguiríamos num tempo curto, relativamente, desenvolver tais ideias preliminares, transformando-as em músicas estruturadas, preparando arranjos e definindo letras a tempo de encarar a tarefa.
Ao contrário do "Chronophagia", que tinha uma base em que eu; Rodrigo e Marcello havíamos preparado com calma no projeto Sidharta entre 1997 e 1999, e que acrescidas de algum material feito em conjunto já como Patrulha do Espaço, e também o ".ComPacto", que demorou uma eternidade para ser lançado, mas teve um tempo de criação relativamente curto, neste caso, não tínhamos nada novo em mãos, a não ser ideias muito preliminares e vindas de ações individuais de criação da parte do Rodrigo e do Marcello e mesmo assim, que nunca havíamos escutado em conjunto.

Na verdade, só uma única ideia que era do Marcello, nós estávamos cientes e começando a desenvolver coletivamente, pois tratava-se de um riff que ele mostrara-nos em algum soundcheck de show, e que costumávamos então brincar livremente como "jam", e que acabamos desenvolvendo na estrada e incorporando-a ao set list dos shows, mas que não pensávamos em gravar num novo disco tão cedo. Era o riff do que veio a tornar-se a canção :  "Universo Conspirante". Mas como sempre ocorreu na história da Patrulha e muito por conta do senso de oportunismo do Junior, as coisas aconteciam muitas vezes de forma fortuita e atuando forçosamente no underground, a banda nunca pode dar-se ao luxo de recusar oportunidades, desde o tempo do Arnaldo Baptista nos anos setenta, e assim, sua história construiu-se por movimentos estratégicos abruptos.

Bem, não estou reclamando, pelo contrário, apesar da situação nova que apresentava-se de forma inesperada, gravar um disco novo era uma perspectiva muito boa. Marcamos ensaios então, num estúdio localizado no bairro da Saúde, zona sudeste de São Paulo, numa rua próxima a Rua do Cursino e Avenida Bosque da Saúde.
Chamava-se "Outro Estúdio" e tratava-se de uma residência muito ampla, numa zona residencial de casas de alto padrão, e portanto, um ponto do bairro muito bom para viver-se. O dono era um rapaz chamado Eduardo, que morava ali e montara um bom estúdio de ensaio numa área não habitada da sua residência. Já havíamos ensaiado ali em 2002, algumas vezes, e em 2003, os ensaios para o show Tributo a Keith Moon, que o Junior organizou em outubro próximo passado, haviam sido ali, também.

Marcamos ensaios que foram realizados antes e depois da viagem a Santa Catarina (foram treze ensaios no total), e aí, os riffs propostos pelo Marcello e Rodrigo foram apresentados à banda e então, começaram a tomar forma, tornando-se músicas de fato, com a consequente preparação de arranjos que foram elaborados para todas as novas canções. O material era de muita qualidade, sem sombra de dúvida, e mais coadunavam-se com o espírito do "Chronophagia", do que o do ".ComPacto", com muitas incursões ao Prog Rock setentista, e influência sessentista, via Beatles, principalmente. Como tudo fora abrupto, o montante concentrou-se nessas ideias que os dois disponibilizaram à banda, e não houve muita troca entre os quatro. Eu por exemplo, tinha só uma ideia de balada, mas que não prosperou ali, tendo sido aproveitada dois anos depois, numa outra banda na qual eu faria parte, o "Pedra", vindo a chamar-se "Amanhã de Sonho". Mesmo assim, saliento que não posso reclamar, pois apesar do caráter emergencial com que tudo foi preparado, tais canções que fechamos, eram ótimas.

Entre essas canções novas, o Junior teve a ideia de regravar uma música inédita da própria Patrulha em seus primórdios, de autoria do Arnaldo Baptista e que não entrou no repertório do primeiro LP da banda, o "Elo Perdido", de 1977. Chamava-se "Sr. Empresário", um Rock'n Roll bem visceral, com estrutura tradicional e quadrada harmonicamente falando, mas com uma letra cheia de deboche e cinismo, típica da criação do Arnaldo, e bem no estilo das letras de seu LP solo, "Loki", de 1975. Junior ponderou que teríamos que falar com a Lucinha, esposa do Arnaldo e que gerenciava a carreira dele, além de procurar a Warner Chappell, que detém os direitos de edição da canção, e certamente teríamos que pagar uma taxa para poder inclui-la no nosso novo CD, mas que pensaríamos nessa burocracia a posteriori, e que deveríamos aproveitar o estúdio, e gravá-la. Então foi assim, que ensaiamos durante uma semana nessa sala de ensaios, e fechamos o estúdio de gravação em São José do Rio Preto para gravarmos a partir da segunda semana de dezembro de 2003. Era uma sandice total pensando no caráter abrupto em que constituiu-se tal ação, mas como dizia-se nos anos setenta, "loucura pouca é bobagem"...


Antes de falar dos próximos shows e do retiro místico / ufológico que faríamos para gravar um novo álbum, devo comentar mais algumas matérias e resenhas que saíram na imprensa.

1) Revista "Tatuagem" - Nº 31 - outubro 2003

"Novo trabalho de uma das mais importantes bandas do Rock nacional. O Patrulha está na ativa desde o anos setenta. Já passou por várias formações, mas continua fazendo um som de primeira. Escute este CD e comprove".

Uma resenha superficial ao extremo, aliás nem dá para classificá-la dessa forma, mais parecendo uma nota sobre o lançamento do disco. Mas não dá para reclamar, pois apesar disso, foi positiva na abordagem e toda publicidade era válida, naturalmente, mesmo numa revista não muito a ver conosco, focada no universo das tatuagens; tatuadores & tatuados. Para quem pensa que esse universo é "Rock'n Roll", há um ledo engano na interpretação, mas não cabe aqui tecer explicações sobre tal.

2)  Rock Press - Nº 56 - setembro 2003

"O novo CD da decana banda Heavy Rock and Roll, apesar de ter sido nomeado e de vir embalado com capa de compacto, é um CD mesmo que cai de cabeça no som dos anos 70, aquele estilo que vai desde o Terço, até Triumvirat (só que com guitarra), até a velha reverência ao Led Zeppelin. A banda toca muito bem, mas o excesso de veneração ao passado, tanto em termos líricos (letras falando de minerais...), como nos clichês usados exaustivamente, nas composições, acrescida de uma sonoridade de ensaio, que não condiz com o conteúdo "progressivo"), dá uma soma com um som meio "passado" demais. O excesso de clichês soa, como diremos, excessivo. Apesar de tudo, "Nem Tudo é Razão" é uma boa composição".

CL

Bem, como já afirmei anteriormente, não tenho nenhum tipo de conflito em receber uma crítica desfavorável, desde que seja isenta; não apoie-se em idiossincrasia e/ou preconceitos; tenha argumentação farta e plausível, e acima de tudo, apresente uma clara intenção construtiva em sua formatação. Não foi o caso desse rapaz, cujo nome não consigo identificar nessa sigla, "CL".

Vamos aos fatos :

1) Já começou mal ao usar o termo "decano". Sim, éramos uma banda que já ostentava longa carreira naquela altura do campeonato, mas o termo usado em questão foi colocado sem nenhuma outra intenção a não ser depreciar-nos, e desnudando o comprometimento do resenhista com um preconceito descabido e que só faz-me deduzir que esse rapaz era um entusiasta de artistas oriundos da estética do Pós -Punk, e naquela ocasião em específico, quem estava em voga, eram seus derivados, os fraquíssimos "indies"; ou se era um adepto do Heavy-Metal, e portanto, obcecado por  estabelecer limites para os artistas, com um carimbo em mãos sempre prestes a ser usado, com o dizer "datado", a demarcar o que é "hype" do que deixou de ser "hype", sem ater-se à qualidade musical em si, mas usando como critério efêmero, o piscar de olhos;

2) De onde tirou a ideia de que éramos uma banda "Heavy" ? Faltou-lhe preparo, estudo, cultura musical mais avantajada e claro, vontade de pesquisar, antes de escrever. O brasileiro padrão é mesmo "macunaímico" por excelência, Mário de Andrade tinha razão;

3) Tudo bem não ter achado a ideia da embalagem, criativa, tampouco ter percebido a sutileza tríplice do nome do álbum, mas do jeito que descreveu tais nuances, creio que ficou chato para ele mesmo;

4) Quer dizer que o "som dos anos 1970 é algo entre o Terço e o Triumvirat, e no máximo o Led Zeppelin" ? Só isso ? É o tal negócio, eu não vivi os anos cinquenta, mas tenho plena consciência que naquela década aconteceram inúmeras coisas importantes e muitos artistas surgiram. Os anos cinquenta não foram "algo entre o Elvis Presley e o Chuck Berry"... ou seja, estudar é bom, mas esse rapaz definitivamente não gostava de fazer sua "lição de casa"...

5) "Letras falando em minerais"... ora, aceito sem problema que não tenha gostado do teor dessa, e de outras letras do disco, mas tenha dó, garoto... eram citações de ruas do bairro onde a maioria dos componentes da banda residiam, apenas isso, uma homenagem. Citar isso é quase como malhar o Adoniran Barbosa, que nomeou bairros de São Paulo em suas canções, ou o Tim Maia por enaltecer as praias do Rio, do Leme ao Pontal...

6) Aceito humildemente a ideia de que esse disco deixa a desejar no quesito áudio / qualidade de gravação, e nos capítulos da minha autobiografia concernentes à sua gravação e finalização, expliquei com detalhes os motivos pelos quais ele não pôde ter ficado melhor.
Todavia, não aceito a insinuação maldosa e fora de propósito de que a execução da banda tenha sido ruim, como o rapaz escreveu, desdenhando até, de uma forma bastante deselegante, e pior, mentirosa. Primeiro, a performance da banda ou de qualquer um de nós instrumentistas, individualmente, é de alto nível nessa gravação, e a despeito das deficiências de áudio, alheias à nossa vontade, que em nada desabona-nos como músicos. Isso é uma observação que faço não com soberba; prepotência; ou presunção, mas sendo um analista crítico e testemunha ocular e participante do processo de gravação. Fora a incoerência do autor da resenha, que linhas abaixo afirmou que nós "tocávamos bem". Afinal, tocamos bem, sim ou não em sua percepção ginasiana ?
Segundo, entre tantas críticas que recebemos, essa foi a única onde um disparate desses foi escrito. Críticos renomados e consagrados no jornalismo musical brasileiro, registraram opinião frontalmente oposta a dessa rapaz, portanto, não tinha nenhum cabimento sustentar essa tese estapafúrdia. "Sonoridade de ensaio que não condiz com o conteúdo progressivo" foi de uma infelicidade atroz. Se achou divertido escrever isso em tom de corrosão intencional e maldosa, errou feio, e pelo contrário, atirou no seu pezinho "indie' ou "metaleiro", quem sabe o que esse provocador gostava de ouvir no seu "headphone" ?
E mais uma : as aspas na palavra "progressivo" desmascararam o preconceito do rapaz. Creio que seja desnecessário explicar o por quê.

7) "O excesso de clichês soa, como diremos, excessivo. Apesar disso tudo, "Nem Tudo é Razão" é uma boa canção".
Ora, tínhamos ali um redator de humor em potencial !
Deve ter achado-se um "gênio" por cunhar essa frase de efeito, usando o pleonasmo para satirizar-nos, mas nada como um dia após o outro... o que dizer ? Sua resenha é um clichê que copiou de algum ídolo seu da revista Bizz, mais preocupado em mostrar-se "brilhante" na fina ironia "Oscarwildeana", do que analisar uma obra artística com isenção. Uma pena que existam jornalistas ou simulacros de, abundando as redações de órgãos difusores culturais, com essa mentalidade destrutiva. Há maneiras dignas de escrever-se sobre pontos negativos de uma obra, isso eu aceito. Agora, crítica injusta, baseada em preconceitos idiotas e odiosos, aí eu realmente não posso dar crédito. Tomara que esse rapaz tenha crescido na carreira e adotado doravante uma postura mais profissional e preparada para resenhar discos, porque isso aí que ele assinou em 2003, foi vergonhoso para ele mesmo.


Coincidindo com a data de nossa chegada no estúdio / retiro de São José do Rio Preto, tivemos dois shows na rota, em cidades pelo caminho. Entraríamos no estúdio na segunda-feira, dia 15 de dezembro de 2003, portanto, saímos de São Paulo no sábado, dia 13, com destino a São Carlos onde tínhamos agendado uma apresentação num bar daquela cidade. Era a quarta vez que apresentávamo-nos naquela pujante cidade interiorana, marcada pelo seu aspecto universitário muito forte por abrigar uma universidade federal renomada, a UFSCAR, e um campus avançado da USP, mas que também tinha outra característica marcante : era uma cidade com muitos rockers, e bastante antenados em rock vintage / clássico, ou simplesmente "1960 / 1970", como queiram denominar. 

Portanto, tocar em São Carlos era sempre prazeroso para nós, e mesmo porque já tínhamos ali também boa amizade com os músicos de bandas da cena local e agregados que orbitavam nessa vibração retrô. Desta feita porém, em se considerando as três ocasiões anteriores em que ali apresentamo-nos, a casa que abrir-nos-ia as portas era a mais modesta, com um espaço físico bem mais tímido que os shows realizados anteriormente. Tratava-se de um estabelecimento chamado "Armazém Bar". 

Com um espaço tímido, não tinha como atrair uma grande multidão, portanto, sabíamos de antemão que seria um show quase intimista.
Suas donas não sinalizaram com nenhuma obrigação de nossa parte em ter que tocar com volume mais comedido, como geralmente acontecia em casas dessas dimensões diminutas, porém, por uma questão de lógica, sabíamos que não poderíamos tocar a vontade.
Mesmo assim, não abstemo-nos de fazer nosso show normal, sem ter que recorrer a formatos semiacústicos e improvisações desse nível, como havíamos feito em algumas ocasiões anteriores e já relatadas. Com abertura da banda amiga, "Homem com Asas", e equipamento de P.A. providenciado por eles, o soundcheck foi tranquilo, e o convívio com os amigos, prazeroso, como sempre.
Hospedamo-nos no confortável hotel pertencente a USP, a poucas quadras dali e quando voltamos para o show, a casa já estava aberta e com o público chegando. Uma coisa curiosa aconteceu antes da nossa apresentação. 

O "Homem com Asas" ainda nem havia apresentado-se, quando numa roda de conversa onde eu estava acompanhado do Luiz "Barata", um rapaz pôs-se a falar de um Site de cultura que adorava acompanhar. Falou bastante, detalhando o que mais agradava-o nessa revista virtual, e o quanto admirava o seu editor / proprietário, um agitador cultural chamado "Barata"... foi insólito, mas o rapaz não fazia nem ideia de que estava diante do próprio, em carne e osso, sem imaginar sequer que isso fosse possível.
Não suportei e interrompendo-o, apresentei-o ao Barata e o rapaz ficou tão sem graça que de prolixo entusiasmado, pôs-se a calado constrangido, numa fração de segundos. Claro, o próprio Barata tratou de quebrar o gelo e também emocionado pela demonstração espontânea de carinho, agradeceu efusivamente o apoio do rapaz ao seu site etc etc. Depois que o rapaz saiu da roda de conversa, o Barata falou-me que manifestações assim era o seu combustível para prosseguir com sua luta pró-cultura, e que estava muito surpreendido e tocado pelo ocorrido. Não era para menos e claro, isso disparou em minha mente a convicção de que embora não seja algo tão gritante quanto estar usufruindo da popularidade proporcionada pela mega exposição do mainstream, artistas underground como nós tendiam / tendem a não ter a dimensão exata do alcance do trabalho. Mas o fato, é que mesmo não estando nas emissoras de rádio e TV popularescas, atingimos muitas pessoas e espalhadas pelo Brasil afora, e agora, numa perspectiva de alcance virtual com a qual lidamos nos dias atuais, 2016, pode-se afirmar que o alcance seja de âmbito mundial. Nunca sabe-se de onde vem o apoio, mas ele vem, da parte de pessoas que acompanham-nos e apreciam nosso trabalho.

O show do "Homem com Asas" foi ótimo como sempre, pela qualidade da banda e também pela escolha de repertório sempre buscando o inusitado dentro do Classic Rock, privilegiando o "lado B" de grandes artistas consagrados, e até a menção a artistas mais obscuros, mas igualmente geniais. Muito legal isso, mas eu sempre esperava mais atitude autoral da parte deles, que mostravam-se tímidos nesse quesito, tocando uma, no máximo duas canções próprias, uma pena portanto, com todo aquele potencial.

Nosso show foi muito bom, com resposta quente do público rocker sãocarlense. A casa superlotou, mas com espaço físico limitado, ficou ali no patamar de 150 pessoas, apenas. Ao melhor estilo "turnê da barata tonta", o show do dia seguinte seria em Limeira, cidade no sentido São Paulo e não o contrário de nosso destino final que seria São José do Rio Preto. Paciência, foi o melhor que pudemos fazer, e lá fomos nós no domingo a tarde rodar 60 km para trás...

Chegamos em Limeira com tranquilidade, sob forte calor. Tocaríamos novamente no famoso "Bar da Montanha", uma casa onde já havíamos apresentado-nos diversas vezes, igualmente no passado. Desta feita porém, o show não estava muito bem divulgado, pois havia sido marcado com pouca antecedência, tentando aproveitar nossa ida para São José do Rio Preto, portanto fora um encaixe de última hora que o seu simpático proprietário, fez para acomodar-nos em sua casa, trocando a data com outra banda que já estava agendada previamente.

Pouco após o soundcheck, todos ficaram hipnotizados na imagem que o telão exibia, sintonizado num desses canais de notícias 24 h por dia. Saddam Hussein, barbudo e parecendo um mendigo, sendo mostrado num buraco, literalmente, parecendo uma vala funerária, com semblante atônito.

Estava capturado o homem que a mídia dizia ser um facínora, e do qual dava-se a impressão que queriam forjar uma imagem de louco histriônico, uma espécie de Adolf Hitler pós-moderno e pronto para ser execrado pela opinião pública. Conjecturas políticas a parte, tínhamos um show de Rock para cumprir...

Não foi um show animado e que deixasse-nos uma lembrança boa de sinergia com o público, o quanto gostávamos tanto de experimentar. Mas foi bom para os fãs da banda que nunca faltavam, incluso contingentes vindos de cidades vizinhas (as turmas de Araras; Rio Claro, Cordeirópolis...). 14 de dezembro de 2003, Bar da Montanha em Limeira / SP, com cerca de 80 pessoas na plateia. Agora era colocar o equipamento no ônibus, e rumar para São José do Rio Preto, onde nossa nave interplanetária entraria numa área ufológica, com a missão de gravar um novo álbum. Hora de aterrissar na misteriosa "Área 13"...

Junior Muelas observa a manobra do nosso ônibus para entrar na chácara / estúdio, onde gravaríamos o nosso novo álbum... acervo e cortesia de Junior Muelas

Cansados, mas animados com a perspectiva do retiro místico / ufológico e rocker, chegamos em São José do Rio Preto por volta das 7:00 horas da manhã. Nosso ônibus estacionou na beira de uma lanchonete famosa, dessas de franquias de marcas internacionais, bem na entrada da cidade e ali já avistamos um carro de onde desceram Junior Muelas e outros amigos, que aguardavam-nos para  guiar-nos até o perímetro suburbano da cidade, rumo à chácara onde estava instalado o estúdio.

Seu nome, evocava um significado bem mais terreno, mas no nosso imaginário, ganhou ares ufológicos : "Área 13". A intenção de seus proprietários ao dar-lhe tal denominação, era fazer alusão ao código telefônico da cidade de São José do Rio Preto, mas ao usar a palavra "área", fatalmente despertou para nós e para muita gente, a ideia de uma área secreta mantida por militares e cientistas, destinada ao estudo de fenômenos extraterrestres, suscitando um caldeirão enorme de especulações, teoria da conspiração etc etc. Somando-se ao fato de que nossa banda ostentava a tradição de ser próxima de motivações ufológicas, a começar pelo próprio nome que ostentávamos, claro que parecia ser uma feliz coincidência a reforçar tais conceitos. Quando chegamos ao local, apreciamos a visão da construção onde ficava o estúdio. Com aspecto de um templo místico, parecia uma loja maçônica; templo Rosa Cruz ou similar do gênero.

                         Fabio Poles em foto bem mais atual

Uma boa explicação para sua aparência bem cuidada residia no fato de que um dos seus proprietários, Fabio Poles, era arquiteto de ofício, além de músico, portanto, fora o responsável pela concepção daquela construção. Sonolentos pela longa viagem e o acúmulo de três dias na estrada e com direito a dois shows, descarregamos o equipamento e ao adentrarmos o estúdio, verificamos que as instalações eram ótimas. A sala de gravação era ampla, e a técnica, igualmente, tudo com acabamento de primeira linha e cheirando a tinta. Não seríamos os primeiros artistas a gravar ali, mas o estúdio estava ainda com astral de recém inaugurado, com uma sensação de conforto aconchegante, limpeza extrema e com isso, a atmosfera ali era excepcional para concentrar-se na gravação de uma obra artística para perpetuar-se. O segundo proprietário era velho conhecido nosso, Alberto Sabella.

Alberto Sabella em ação num show da "Estação da Luz", alguns anos depois

Muito amigo do Junior Muelas, Sabella gravitava em torno do "Hare", banda que o Muelas tinha, e que chegou a integrar, em uma formação recente, ocupando a vaga de baixista. Contudo, na verdade, ele era multi instrumentista, pois igualmente tocava bem bateria, mas de fato, sua especialidade estava nos teclados. Piloto de tecladeiras setentistas, não só era / é exímio tecladista, como apaixonado por timbres vintage e colecionador, tinha vários teclados retrô de porte em seu acervo pessoal. Alguns anos depois, Sabella seria o tecladista da excelente banda "A Estação da Luz", junto a Junior Muelas. Sabella seria um dos técnicos na nossa gravação. O outro sócio, também músico (guitarrista e baixista com militância em bandas de Heavy-Metal), chamava-se Gustavo Vasquez. Muito comunicativo e extrovertido, estabeleceu amizade instantânea conosco.

                     Gustavo Vasquez, em foto bem mais atual

Apresentados ao estúdio, ficamos com a melhor impressão possível. Não só pelas instalações físicas, mas todo o equipamento disponível era de alto padrão, com mesa de qualidade; microfones de gabarito; e paramétricos modernos. Este seria o primeiro álbum da Patrulha gravado em sistema digital, visto que no anterior, ".ComPacto", apenas no processo de mixagem e masterização havia sido dessa forma. Mas com todo o processo sendo digital, incluso a captura inicial de gravação, seria a primeira experiência e não só da banda, como para todos os componentes da banda, individualmente falando. Fomos então conhecer o sítio em si, e a casa rústica onde hospedar-nos-íamos, naquelas duas próximas semanas.

Foto acima : acervo e cortesia de Junior Muelas. Patrulha do Espaço ao vivo em Mirassol / SP, 30 de dezembro de 2001


A chácara não era gigantesca, mas tinha uma área boa, com possibilidade para ali construir-se mais edificações e estabelecer espaço para empreendimentos típico rurais, como horta; pomar; galinheiro e canil. Dava para ter um campo de futebol em dimensões reduzidas e não oficiais e uma piscina, além de uma quadra poliesportiva, tranquilamente. Tudo isso estava nos planos dos proprietários e tinham também a ideia de construir um alojamento para receber artistas como nós, que estávamos sendo hospedados, mas no padrão da edificação onde montaram o estúdio, ou seja, com arquitetura semelhante no design, e todo o conforto para os visitantes acomodarem-se bem.
Mas naquela época, a realidade ainda não era essa, e se o estúdio esbanjava conforto, as instalações de hospedagem para os visitantes / clientes, ainda eram precárias, muito improvisadas. A casinha que  serviu-nos como alojamento era muito rústica, denotando ser uma construção bastante antiga, e que em tempos remotos devia atender às necessidades da chácara, possivelmente servindo de residência para um caseiro, capataz ou seja lá a função do administrador do local. Bucolismos a parte, também tinha o lado mau desse estado de conservação, com alguns problemas pontuais que precisavam ser contornados, mas como o plano deles era demolir a casa e construir um alojamento moderno e bem acabado, com toda a infra de um pequeno hotel, pediram-nos mil desculpas, mas ali naquele momento, era o melhor que poderiam proporcionar-nos. Indo além, fizeram o possível e até o impossível para garantir-nos a melhor estada ali, promovendo pequenos consertos pontuais, trazendo eletrodomésticos de suas casas para dar-nos o máximo de conforto, e naquele calor interiorano, sem ventiladores, teria sido impossível dormir. E até TV com vídeo cassete para distrairmo-nos nas horas de descanso. Mas por ser uma construção sem acabamento e com velhos tijolos expostos; além do telhado sem laje, e com várias telhas quebradas, era inevitável que muitos insetos; aracnídeos e animais peçonhentos ali alojassem-se.

Acho que nunca havia visto tantas aranhas e insetos de várias espécies, juntos. Portanto, o temor por mordidas e / ou picadas, era grande, principalmente nos momentos de sono, durante as madrugadas, se bem que na tradição das gravações de um disco, ainda mais em se tratando de uma banda de Rock, claro que as sessões usariam grande parte da madrugada no ambiente asséptico e ultra agradável do estúdio, com ar condicionado a todo vapor e a inexistência completa de nenhum inseto sequer. Mais que isso, pequenos répteis rondavam a casinha. Cobra não vimos, mas lagartos de um porte até assustador, vimos várias vezes.

E também havia muitos pássaros, naturalmente e até primatas... havia um clã de macacos que rondava a casa, a procura de comida e claro que com nossa presença ali, sentiram o cheiro de vários alimentos que cozinhávamos e /ou a simples armazenagem de alimentos na despensa que organizamos ali. Certa dia, até, tive uma experiência sui generis, pois acordei e deparei-me com um macaquinho desses no teto, fitando-me. Acho que o sentimento era mútuo, ou seja, ele também deve ter achado muito exótico um humano sonolento ali naquele lugar... bem, antecipei-me um pouco...
Voltando a falar do primeiro dia no estúdio, o objetivo inicial era instalarmo-nos na hospedaria, e montar o set de bateria com muita calma a iniciar a captura de timbres tão somente, com os trabalhos propriamente ditos, iniciando-se somente na terça feira. E assim procedeu-se.

Uma boa nova, recebemos a equipe de reportagem de um dos jornais da cidade. O próprio estúdio havia alertado a redação do referido jornal sobre a nossa presença, e isso fazia parte de seus esforços para capitalizar mídia a seu favor, enaltecendo a capacidade do estúdio em atrair artistas de fora de São José do Rio Preto, e no nosso caso, além da fama que tínhamos no mundo do Rock, há de salientar-se que por sermos oriundos da capital de São Paulo, claro que esse fato era para ser comemorado pelo pessoal do estúdio, pois denotava ser um sinal de status para eles, atrair um artista famoso da capital, em se considerando que a oferta de estúdios em alto nível na cidade de São Paulo, era imensa. Legítima a propaganda para eles, portanto e para nós, igualmente muito legal sair numa reportagem de página inteira no jornal local. Alguns dias depois, outra reportagem no jornal concorrente usou do mesmo mote e claro que apreciamos muito a exposição para o estúdio e para a banda.


A bateria do Junior montada, e em destaque na sala de gravação do estúdio "Área 13"

A partir da terça-feira, dia 16, começamos a gravar a bateria. Ao contrário dos dois álbuns anteriores, onde graváramos as bases ao vivo, todos valendo, desta feita com mais tempo, gravaríamos com a metodologia do "um-por-um", e que particularmente prefiro.

Portanto, passamos a terça inteira gravando a bateria de todas as canções, com paradas para descanso e refeições, naturalmente. Quando sentimos que o Junior estava fatigado, paramos e o que faltou concluir, deixamos para a quarta-feira, sem nenhum atropelo.
Portanto, quando a quarta chegou, concluímos a bateria com bastante tranquilidade e mantendo uma tradição adquirida desde a gravação do álbum "Chronophagia", ou seja, a de pedir para o técnico apertar "Play & Rec" após terminar de gravar todas as músicas e assim gravar um solo de bateria.

Desta feita porém, ao contrário das ocasiões anteriores onde criou solos de total improviso, tinha em mente um arranjo e deu-se ao luxo de ensaiar um pouco antes de gravar e chegou até a usar do recurso do overdub para acrescentar algumas ideias suplementares que havia planejado. Após uma pausa para o jantar, e um bom descanso, Alberto Sabella e Gustavo Vasquez disseram-me que estavam bem dispostos, e se eu também estivesse, poderíamos começar a gravar os baixos oficiais das músicas, até onde a nossa disposição ante o cansaço permitisse. Claro que aceitei, notívago que sou e de fato, estava bem disposto. Era por volta de 23:30 horas da terça e começamos a montar o meu set de gravação. Usei meu Kit tradicional com amplificador Gallien Krueger, e duas caixas Ampeg. E meus três baixos clássicos para gravar  : Fender Jazz Bass & Fender Precision, além do Rickenbacker.

Apesar dessas músicas todas terem sido finalizadas e arranjadas em cima da hora, com poucos ensaios, todos sabiam exatamente o que tinham que gravar, definidos os arranjos pessoais de cada um. E eu não fugi a essa regra, tendo na cabeça, nota por nota, o que tinha definido fazer. Quando estava tudo pronto, os companheiros resolveram dar um passeio pelo centro de São José do Rio Preto para espairecer, pois já estávamos há três dias naquela chácara, e era compreensível que quisessem sair dali um pouco e buscar um pouco de distração urbana e noturna. Fiquei sozinho com os técnicos Sabella e Vasquez, e comecei a gravar com muita paz de espírito, e foco total.

Música após música sendo gravada, e com a minha rapidez absoluta para gravar, não eram nem três da manhã e minha participação no disco estava inteiramente cumprida. Mesmo com trocas de instrumentos e pequenas pausas para timbrar diferentemente cada um, não tivemos nenhum problema e a gravação transcorreu com muito foco e extrema camaradagem entre eu e os técnicos, se bem que quem comandou de fato foi o Sabella, pois o Vasquez operara a bateria o dia inteiro e mostrando-se cansado, apenas assistiu um pouco e retirou-se. Encerramos a sessão do baixo, e quando estávamos acabando de ouvir o resultado da captura geral de todas as canções, os companheiros chegaram, e surpreenderam-se com a notícia que meu trabalho estava encerrado, pois acharam que eu gravaria uma ou duas músicas, e deixaria a finalização para o dia seguinte.

Bem, além do uso do canal buscando o sinal das caixas do meu amplificador, também teve um canal de linha e passando por um paramétrico específico, o famoso equalizador "Avalon", que segundo os experts, realçava o sinal, auxiliando no peso e timbre vintage que eu sempre busco nas gravações de discos, com meus baixos. Quinta feira seria o dia das bases de guitarras e teclados, a hora e a vez de Hid & Schevano trabalharem.

Quinta feira e a movimentação no estúdio, logo após o café da manhã era para posicionar amplificadores e guitarras inicialmente.
O plano era gravar todas as bases de guitarra, e a seguir as bases de teclados. Tudo armado, e os trabalhos começaram.

Claro, guitarra é sempre mais complicado gravar, mesmo que o músico tenha seus arranjos bem definidos na cabeça. São muitos detalhes de equalização; uso de pedais e sobreposições feitas em overdubs, fora a performance em si. Mas os dois tinham uma capacidade absurda, e mesmo sendo mais lento o processo, normalmente, foram vencendo etapa após etapa, os seus trabalhos.

Uma particularidade desse disco, devido a forma abrupta pela qual formatamos o repertório, algumas canções tiveram suas respectivas letras concluídas durante nossa estada nessa chácara. Portanto, era até lúdico de certa forma, que o processo de criação andasse em paralelo com a finalização da produção. Tornou-se parte da rotina ver componentes da banda em momentos "off" conversando sobre as letras, trocando sugestões e anotando frases formuladas dessas conversas em cadernos pelos cantos do estúdio e da chácara.

Gravando com calma, as bases foram sendo concluídas num ritmo mais gradual, mas apreciávamos cada finalização, e com baixo e bateria gravados, as músicas com bases iam ganhando corpo e definindo-se, com ótimo resultado. Os timbres estavam sensacionais até então. Disparadamente era o melhor trabalho de estúdio que a Patrulha tinha tido até então, e ouso dizer, da carreira toda da banda.

Não só pela qualidade do estúdio, e a competência dos técnicos, mas também pelo astral dessa gravação e o bucolismo todo da chácara, portanto, nessa conjunção de fatores, era claro que refletir-se-ia no resultado sonoro do disco. Dia produtivo, mas que não deu para concluir tudo. A sexta abriria com a conclusão da gravação das bases de guitarra e prosseguiria com a mesma intenção, só que em relação aos teclados.

Na sexta e no sábado, os trabalhos intensificaram-se e as bases de guitarras e teclados estavam encerradas. No mesmo dia, começou a sessão de solos para ambos, com Hid & Schevano trabalhando forte e com muita objetividade. Empolgados, gravaram o sábado inteiro, esticando até a madrugada quase concluindo o trabalho de ambos, em termos de guitarras.

Cansados, pararam no início da madrugada, foram espairecer na cidade e claro que mereciam e precisavam desse relax. No domingo, resolvemos dar um "relax" geral e apesar disso, não foi um dia totalmente "off", porque algumas percussões foram gravadas, com apoio do Junior Muelas que trouxe vários instrumentos e com apoio do Rolando Castello Junior, gravaram com muita criatividade tais detalhes e que quando eu for comentar o disco faixa a faixa, certamente irei destacar tais participações, e que julgo serem muito boas. Aproveitando, dois detalhes também foram gravados. Marcello colocou um curto solo de flauta, e um de sax, em duas canções. A flauta era também tradicional em nossos discos, e o sax era uma novidade que passara a tocar desde 2003, e que agora incorporaria à banda, como mais um adendo enriquecedor e dentro daquela enorme versatilidade que era-lhe particular. Gargantas preservadas e aquela recomendação para ninguém abusar de bebidas geladas, pois a partir do dia seguinte, segunda-feira, mergulharíamos na parte final da gravação, dedicando-nos aos vocais solo e aos backing vocals.

 

Quando chega a hora de gravar-se voz, aí já não dá para forçar-se barras e enfrentar o cansaço. Em se tratando de organismo, gravar várias canções seguidamente, fazendo vários "takes", e muitas vezes gravando dobras, desgasta uma barbaridade e se não houver uma certa prudência pode até gerar uma lesão no cantor, muitas vezes com gravidade. Portanto, ao mesmo tempo que comemorávamos o fato de que essa gravação estava sendo feita com muita calma, não queríamos forçar nada, e se não desse para concluir a parte vocal antes do natal, marcar-se-iam sessões para janeiro, e aí dispensando a necessidade da banda estar inteira ali, e com seu ônibus e equipamento.

Outro fator que preocupava-nos nessa reta final da gravação era o fato de uma música em específico não ter sua letra ainda concluída e assim, a deixamos por último para gravar, dando-lhe tempo para ser fechada. Tratava-se de "Universo Conspirante", que teve decisiva participação do Junior em sua conclusão poética, nos estertores de nossa estada na chácara.

Aliás, nesse disco em específico, o Junior colaborou bastante com ideias nas letras, é bom registrar, ao contrário dos anteriores onde os demais, incluso eu, Luiz Domingues, contribuímos mais. Todas as vozes foram gravadas sem problemas e os backing vocals, também.
Eu participei bastante dos backing, mas não contribuí muito na elaboração dos arranjos vocais, como houvera sido no disco anterior, onde fui responsável pela maioria das ideias nesse quesito.


Curiosamente, a mixagem beneficiou-me nesse álbum, e minha voz aparece claramente, mesmo misturada às vozes de Rodrigo e Marcello, que sempre tiveram emissão muito mais forte que a minha. Conforme já relatei anteriormente, gravamos sim a música "Sr. Empresário", canção do Arnaldo Baptista, que deveria ter saído no primeiro álbum da Patrulha, mas fora descartada em 1977.
Ficou muito bem gravada, tem um "punch" e um "swing" incrível e no backing vocals, minha voz está em evidência, somando a do Marcello que conduziu o vocal solo. Mas temendo problemas com a Warner Chappell e Lucinha, esposa do Arnaldo e que gerencia sua carreira, o Junior optou por não inclui-la no álbum. Acho que pensando na questão burocrática, acertou em sua decisão, mas é uma pena, pois a gravação ficou excelente e os fãs da Patrulha iriam delirar com tal raridade. Mesmo porque, a letra é bem no estilo do Arnaldo da fase do seu LP solo, "Loki" de 1975, com muitas imagens loucas e aquela dose de cinismo / deboche que tanto encanta seus seguidores fanáticos. Quem sabe um dia essa gravação seja lançada ? Eu gostaria muito que isso acontecesse.

"Seu" Walter, nosso intrépido motorista veio buscar-nos. O ônibus ficara na chácara o tempo todo, mas ele voltara para São Paulo, pois não havia sentido em que ele ficasse ali nesses dias todos da gravação, e de fato, ele tinha seus afazeres na capital, naturalmente.
Era a quarta feira, dia da nossa partida e antevéspera do natal quando faltava gravar apenas um detalhe, a voz principal da música "Universo Conspirante", pois ainda faltavam alguns versos serem escritos. Até os backing vocals já estavam finalizados, mas faltava a voz principal, exatamente pela não conclusão da letra.

Todos prontificaram-se a tentar ajudar e nos estertores, finalmente o Junior e o Marcello acharam algumas frases que encaixaram-se com o teor do tema proposto e aí, a gravação foi feita a toque de caixa, com toda a bagagem e o equipamento da banda já dentro do ônibus, preparado para a nossa volta para São Paulo...
Incrível, não lembro-me de ter passado por uma situação semelhante em nenhum disco que gravara anteriormente, incluso todas as bandas por onde passei. Mas, tudo bem, encerramos a gravação e dispensamos assim a necessidade de marcarmos sessões extras para depois das festas. Claro, com exceção da mixagem, que forçosamente teria que ser marcada para janeiro, mas que por dificuldades de agenda do próprio estúdio que tinha fechado datas com outros clientes, ficou mesmo para o final de fevereiro de 2004.
Como último ato de nossa gravação e retiro bucólico, uma foto foi proposta retratando a banda; sua equipe; os técnicos do estúdio, Junior Muelas, e vários amigos que visitaram as gravações ao longo desses dias. Tal foto foi feita na sala de gravação, com clima de total descontração e infelizmente alguém deu a ideia infeliz de "todos" posarem fazendo um gesto obsceno, usando o famoso dedo médio. 

Sinceramente, eu não consigo entender essa mania idiota que quase todo mundo tem em estragar fotos e filmagens usando desse expediente imbecil. Qual a motivação desse ato ? Querer mostrar rebeldia ? Querer xingar a esmo ? Querer ofender a sociedade ?
Enfim, é claro que não concordo e jamais participo de palhaçadas ginasianas desse porte, aliás, se não fazia isso quando tinha 12 anos de idade, e já achava isso uma idiotice, como poderia fazê-lo ali, no alto dos 43 anos e meio de idade ? Enfim, cada um com sua motivação e consciência, mas está registrado na foto, e que lastimavelmente ilustra o encarte do álbum. Sou o único que não estou fazendo o gesto e justiça seja feita, acho que o meu amigo Junior Muelas, também não, mas não posso afirmar isso categoricamente, porque ele está com seus braços encobertos na foto. E o amigo Phil Sabella preferiu fazer sinal de "Paz & Amor". Alguns meses depois, lendo uma resenha do álbum, um crítico ironizou a foto do encarte, e eu tive que concordar com sua colocação, ainda que com vergonha por isso...
De qualquer forma, estou na extrema esquerda da foto e de braços cruzados, para acentuar a minha predisposição em contrário dessa resolução infantiloide.


Continua...

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