Pesquisar este blog

sábado, 19 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 16 - Ejetando-me da Nave - Por Luiz Domingues

Dias após o encerramento da mini temporada no Centro Cultural São Paulo, apesar do clima legal em que esses shows transcorreram, e adicionando-se a empolgação natural pela perspectiva da gravação desse material culminar num disco ao vivo, nosso ânimo acabou não mudando, internamente. O clima estava bem desgastado entre nós quatro, e sem perspectivas de mais shows, nem mesmo os elogios ao recém lançado disco, que estavam saindo nos órgãos tradicionais de imprensa escrita, segurariam a situação.
Enfim, foi muito natural que houvesse um desgaste nas relações em qualquer banda, mesmo as de sucesso mega, do âmbito internacional, aliás, é quase uma praxe, pois mesmo tendo sucesso mastodôntico, agenda lotada e milhões de fãs fiéis ao trabalho, o fator humano do desgaste psicológico ocorre.

No nosso caso, a banda era maravilhosa sob o ponto de vista artístico; tínhamos uma química absurda para criar, arranjar e executar as nossas músicas ao vivo, é bem verdade. Tínhamos também fãs do trabalho espalhados por todo o país e que respondiam de forma magnífica à nossa formação em específico, falando exclusivamente de nosso material criado nesses cinco anos em que ficamos juntos, e também gostavam muito da maneira pela qual executávamos o repertório clássico da banda em formações que precedera-nos.

Mas as dificuldades gerenciais eram imensas, pois não tínhamos o suporte de uma gravadora, mesmo que fosse pequena; não tínhamos empresário, e todo o nosso esforço gerencial era feito sob sacrifício.
Portanto, na base do duro empreendedorismo sem infraestrutura adequada, mas sobretudo movidos pela fé no Rock, e no nosso trabalho em específico, entramos com tudo em 1999, na pura obstinação de enfrentar os problemas gerenciais de peito aberto, mas os obstáculos eram terríveis e aos poucos, nossa resiliência foi sendo minada.

Diante dessa perda contínua de energia, fomos desgastando a relação pessoal, uns com os outros, e assim, como em qualquer sociedade, os empreendedores vão perdendo o foco. Uma banda de Rock não difere em nada de qualquer negócio que abra-se. É como se fôssemos quatro sócios que resolveram abrir uma papelaria; loja de roupas; pizzaria; borracharia... ou seja, enquanto empreendimento e lidando com o duro cotidiano da sociedade de consumo e sua inerente pressão, claro que ter que arcar com despesas e ter que gerar a consequente receita, é um fator que quase anula o foco artístico.

Aos poucos, os sonhos Rockers foram sendo vencidos pelas obrigações financeiras e quando isso começou a acontecer, o escape de energia começou a subtrair-nos o ânimo. Muito diferente do início, quando pensávamos nas músicas; nos shows; nos detalhes do cenário; nos incensos que faziam nossos shows terem o aroma dos shows de Rock de outrora, fomos abandonando o lado lúdico dessa viagem retrô que tanto sonhamos fazer, e perdendo a nossa essência. De quem era a culpa ? De nenhum de nós, nem mesmo da sociedade, como os mais afoitos antecipam-se sempre em acusar. O mundo é assim, gostaríamos que não fosse, e no sonho aquariano que queríamos resgatar, a mensagem do "Drop out" hippie dos anos sessenta, era nossa utopia lúdica a embalar nossa música, e nossos sonhos. Por isso, apesar de tudo o que construimos e vivemos nesses cinco anos, ficou difícil prosseguir, apesar da banda maravilhosa que formamos. Já não havia o foco; a união, a determinação obstinada dos primeiros tempos.

Da parte dos "meninos", que nessa altura já eram homens maduros, mas ainda bem jovens, e não mais garotos como no início das atividades da banda, era natural que estivessem focando em outras coisas. O próprio Marcello já ensaiava e gravava há meses com uma nova banda autoral e em paralelo, por exemplo. De minha parte, com 44 anos de idade recém completados, não era o caso de que nutrisse ilusões sobre a carreira chegar ao mainstream, pois na somatória, já estava na música há 28 anos naquela ocasião, e sabia que não era assim que funcionava. Tanto que quando saí do Pitbulls on Crack, em 1997, e o leitor mais atento vai recordar-se pois já leu sobre isso, eu saí da banda e fui montar o projeto Sidharta, completamente cônscio que estava montando uma banda radicalmente retrô, que nunca teria chance no mainstream da música brasileira, por ser absolutamente antagônica a qualquer valor que os mafiosos que dominam o show business do Brasil, professam. Portanto, já ao criar o Sidharta, minha intenção era fazer o som que gosto, simplesmente, sem preocupar-me em arriscar chegar no mundo mainstream, mostrando o material para essa gente má intencionada que domina o mercado e dá as cartas do que o povo vai consumir nas emissoras de FM; programas populares e novelas da TV. Então, quando o Sidharta fundiu-se à Patrulha do Espaço, a proposta prosseguiu e com o acréscimo de que incorporamos a história de uma banda histórica e tradicionalmente marginalizada no mainstream. Sendo assim, além do material novo ser intragável para esses malditos "formadores de opinião", nós "vestimos" o Karma de uma banda rejeitada sumariamente por essa gente, desde os anos setenta.

Sintetizando, em 2004, aos 44 anos de idade, eu já não tinha ilusões sobre isso, há muitos anos, mas, mesmo resignado em sobreviver no patamar do underground da música, achava que por formarmos uma banda de porte e qualidade artística como a nossa, e isso era inquestionável, nós merecíamos ter uma situação de estabilidade que ao menos mantivesse-nos num patamar de artista que apresenta-se regularmente nas unidades do Sesc, e não havíamos conseguido dar esse passo, infelizmente. Se tocamos várias vezes em unidades do Sesc, conforme relatei caso a caso, foram na verdade ocasiões sazonais e não caracterizaram uma entrada nesse circuito, de forma regular e sustentável. Não vou citar nomes, pois é desagradável estabelecer comparação, mas muitos artistas com história nem tão grande como a nossa, tinham tal estabilidade mediana nesse patamar que citei, e isso seria o mínimo para uma banda de nossa tradição e qualidade. Dessa maneira, com a escassez de oportunidades e sem dar esse salto visando alcançar-se ao menos essa estabilidade mediana no show business, o desgaste foi inevitável.

Então, em 6 de setembro de 2004, encontrei-me com o Junior num café perto de nossas casas, e comuniquei-lhe que tinha tomado a decisão de sair, alegando o desgaste e de fato, estava muito cansado da pressão extra musical que a banda enfrentava normalmente e já desde o final de 2003, isso estava ficando a cada dia, mais estafante em meu caso. Claro que ele chateou-se, e eu também, mas não havia outra solução nessa circunstância, e indo além, estava já estava há meses pensando seriamente em aposentar-me da música, voltando a ministrar aulas para sobreviver, mas não mais dedicando-me à uma carreira artística, sendo componente de uma banda etc etc. Alguns dias depois, ele mesmo convocou uma reunião com todos, para saber a posição do Rodrigo e do Marcello. Encontramo-nos numa padaria do nosso bairro, e os rapazes também falaram que estavam de saída e cada um pensando em novos projetos. O Marcello já estava com a cabeça voltada para essa nova banda, chamada "Carro Bomba", cujo som eu não fazia nem ideia do que tratava-se e na minha inocência, imaginei ser algo parecido com o que fazíamos na Patrulha em termos de Rock vintage, retrô. Mas não era. Quanto ao Rodrigo, ele falava que seu foco seria um disco solo, e que já estava ensaiando com dois músicos da banda "Quarto Elétrico": Thiago Fratuce no baixo (meu ex-aluno), e Ivan Scartezini (bateria). Segundo disse-nos, já estava promovendo ensaios regulares em sua residência, nesse sentido.
O Junior lamentou, mas experiente ao extremo, sabia que o desgaste era irreversível e atenuando o clima de velório que essa reunião deveria investir-se, mostrou-se resignado e comunicou-nos que já estava empreendendo esforços para ter uma agenda melhor em 2005, e que remontaria a banda com novos membros. Salientou ainda que tínhamos um compromisso para outubro, a ser realizado em São Carlos, e que não haveria meio dele montar uma banda com novos integrantes e colocá-la em condições de tocar ao vivo num tempo exíguo, portanto, consultou-nos e claro que atendemos o seu pedido e assim, fomos fazer esse último show da nossa formação, em outubro, naquela cidade interiorana de forte vocação Rocker, e onde já havíamos apresentado-nos várias vezes anteriormente. Último voo da nossa "Nave Ave"...


Consumatum est... nossa formação estava encerrada, e com ela, o sonho acalentado desde os primórdios da formação do Projeto Sidharta. A Patrulha continuaria seu voo, como sempre, e era admirável o poder de resiliência do Junior em passar por cima das adversidades, enfrentando tantas perdas, algumas até literais, caso de mortes de ex-componentes, mas mantendo a nave em pleno voo, com poucas paradas no hangar. De nossa parte, estávamos todos chateados, mas tão fatigados com a labuta acumulada, que não houve mesmo outra saída a não ser apanharmos nossos respectivos paraquedas e ejetarmo-nos da nave.

Havia o último compromisso e ele foi marcado por uma série de quebra de protocolos da parte da banda, visto que esse derradeiro compromisso investira-se de uma aura completamente diferente da nossa rotina de outrora. O mais gritante de todos, foi que não usamos o nosso ônibus, visando minimizar gastos e de fato, com a dissolução da formação, o próprio veículo perdeu sua função imediata e pouco tempo depois ele foi passado para frente, saindo de nosso domínio. Portanto, soubemos que o Junior fechou tal show com apoio local para prover um backline, e dessa forma, viajaríamos em carros particulares, levando apenas instrumentos.
Foi o que ocorreu e o Junior foi com peças essenciais de sua bateria na frente, para participar da produção local e no meu carro, seguimos no dia do show, eu; Rodrigo e Marcello, apenas. Com o carro abarrotado de instrumentos, e isso levando o mínimo, com dois baixos, quatro guitarras e três teclados...

Viagem tranquila na ida, com o clima leve entre nós três, apesar do momento de ruptura do trabalho, mas sem lamúrias. A sensação era de um certo alívio por estar deixando o stress em que tornara-se o cotidiano da Patrulha, e resignação pelo encerramento do trabalho. Havia a sensação de orgulho pelas conquistas artísticas, via reconhecimento do trabalho por fãs e críticos, e o melhor de tudo, o legado vivo, perpetuado através dos discos. Durante o percurso, em tom de pura brincadeira, falávamos que iríamos tocar no "Cazzo", referindo-nos ao "CAASO", o local onde tocaríamos e que era o Centro Acadêmico dos estudantes daquele campus avançado da USP. Bem, acho que mesmo para quem não domina o idioma italiano, é dispensável traduzir o termo chulo em questão... daí a pilhéria. Quando chegamos ao Campus da USP em São Carlos, e por nunca termos ido de carro, e sempre de ônibus, despreocupados com a logística imediata, perdemo-nos e tivemos que perguntar a um porteiro o caminho para podermos chegar ao Centro Acadêmico, popular "CAASO", e foi quando o ato falho traiu-me...
De tanto brincarmos na estrada, quando abordei o porteiro solicitando a informação, falei sério : -" por favor, pode informar-nos onde fica o "cazzo" ?
Marcello e Rodrigo explodiram em gargalhadas instantâneas e o sujeito ficou atônito, mas creio não ter entendido a ironia involuntária, e mesmo mostrando um semblante entre o indignado e o surpreso, deu a informação e foi duro para eu não rir também, e ficar sério ouvindo a orientação, e agradecer-lhe a posteriori...
Minha sorte é que o rapaz não conhecia o termo, coisa rara em qualquer quadrante do nosso estado tão influenciado pela aculturação da imigração italiana maciça por aqui, e provavelmente também, porque estava acostumado a lidar com a juventude universitária e seu inerente estado de deboche permanente dentro das dependências da instituição.

Fizemos o soundcheck com tranquilidade e tínhamos o apoio total dos amigos que tocariam conosco na noite, fazendo os shows de abertura e de vários rockers locais e ligados à universidade.
Claro que o clima não era igual, e nem poderia ser. O Junior estava focado na reformulação da banda, e claro que era legítimo o seu esforço em recrutar a nova tripulação o quanto antes para não ter que colocar a nave no hangar. Fizemos o show com bastante profissionalismo, mas claro que não era a mesma coisa. Sem os ornamentos; sem os incensos; sem a determinação em resgatar nossos ideais contraculturais em signos múltiplos, estávamos ali fazendo um bom show de Rock, mas era só isso, sem o significado que tanto marcara-nos anteriormente.

Rara foto do último show de São Carlos, em 15 de outubro de 2004.
Autor do click, desconhecido

 
Apesar dos pesares, foi bem animado para a plateia e havia um ótimo público presente, portanto, isso ajudou a não deixar nenhum resquício melancólico no aspecto interno da banda. "Homem com Asas" e "Rocha Sólida" tocaram conosco nessa noite. Havia cerca de 400 pessoas na plateia nessa noite no CAASO, o Centro Acadêmico dos estudantes da USP, Campus de São Carlos. Foi no dia 15 de outubro de 2004. Último ato da formação "Chronophágica" da Patrulha do Espaço, e a certeza de que tínhamos conquistado nosso quinhão na história dessa grande banda e por conseguinte, na história do Rock Brasileiro.

 
Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário