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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 9 - Diário de Bordo...Data Estelar... - Por Luiz Domingues

Antes de retomarmos nossos compromissos que estavam sendo agendados, uma proposta surgiu para tocarmos numa casa noturna paulistana que era Rocker, não vou dizer que não, mas observava uma orientação nada confortável ou sendo mesmo direto, inadequada para uma banda como a nossa. Tradicional reduto de admiradores do Hard-Rock dos anos oitenta, o Manifesto Rock Bar, posso afirmar tratar-se de uma casa temática, não só pela sua decoração direcionada à essa estética, quanto no visual dos seus frequentadores e de quase toda banda que lá apresenta-se regularmente. Nenhuma novidade numa cidade como São Paulo, onde existem casas temáticas as mais diversas, não era de surpreender-se que encravada num ponto do bairro do Itaim-Bibi, zona sul de São Paulo, houvesse tal casa voltada para os saudosistas dessa escola professada na década de oitenta.

Bem, sobre o Hard Rock oitentista, acho que ao longo da minha autobiografia, já expressei amplamente o que eu penso, e minha contrariedade sobre tal estética tem o peso da minha experiência pessoal de nela ter militado, a contragosto. Então, quando surgiu o convite para a Patrulha tocar, opiniões em contrário surgiram, a minha incluso naturalmente, mas ao mesmo tempo pesou o fato de que ficáramos dois meses sem shows desde a micro temporada no Centro Cultural São Paulo, e que embora já tivéssemos perspectivas de shows para breve, todos seriam em cidades interioranas de São Paulo, e um nova incursão ao sul, desta feita visitando cidades do Paraná e Santa Catarina. Portanto, como ficaríamos meses sem tocar em São Paulo, aceitamos fazer nosso show nessa referida casa.

A estrutura da casa na época ainda era precária (anos depois passou por reformas, agora contando com um palco bacana, P.A. e iluminação compatíveis com suas dimensões etc), portanto, mesmo tendo naquela época um palco reduzido e um P.A. de pequenas dimensões, era só levar o backline, divulgar e esperar por uma boa apresentação, mas não foi o que aconteceu. Infelizmente, nosso público não compareceu como deveria, pois tratava-se de um dia útil (quinta-feira), dia pouco convidativo para sair de casa, e num ambiente que não tinha tradição para o nosso específico público.
Por outro lado, o habitue da casa também não nutria simpatia por nós, naturalmente. O típico frequentador daquela casa noturna, gostava era de "Motley Crüe"; "Ratt"; "Poison"; e outras bandas dessa seara / época. E não deu outra, assim que chegamos ao local para tocar a noite, os poucos presentes pareciam estar paramentados para participar de um vídeo clip do "Dokken", ou "Quiet Riot"... ou seja, senti-me em 1984...
Claro, mesmo nas condições mais inóspitas, como em todo o show, nunca deixávamos de ter fãs da Patrulha, ainda que em número bem reduzido. Foi um show profissional, mas sem nenhuma comoção, com essa ambientação inadequada em torno de nós.
Aconteceu em 3 de outubro de 2002, com cerca de 30 pessoas na casa. Agora, tínhamos de entrar no "azulão" e partir para Londrina, no norte do Paraná.


De volta ao "azulão", finalmente voltaríamos à estrada, e desta feita o objetivo era dirigirmo-nos ao norte do Paraná, para uma nova apresentação em Londrina, cidade onde já havíamos tocado duas vezes : em 2000, e no início de 2002. Por falar nessa última apresentação, em janeiro de 2002, o produtor de tal espetáculo, um rapaz dinâmico chamado Marcelo Domingues (já disse e repito, não tem parentesco comigo), havia prometido-nos uma oportunidade melhor, visto que apresentáramo-nos numa pequena casa noturna.
O show no Valentino Bar foi sensacional, como já contei em capítulo anterior, todavia, por ser um espaço de dimensões diminutas, apesar de ter abarrotado de gente para ver-nos e ter sido um show ótimo, deixou-nos frustrados, pois ficáramos com a sensação de que se tivesse ocorrido em um lugar maior, teria comportado muito mais público. Mas a oportunidade surgiu, e Marcelo convidou-nos a participar de um festival que estava organizando, denominado "Demo Sul".

A ideia era boa : um palco de grande dimensão montado numa espécie de sítio afastado do centro da cidade, com infraestrutura boa para os artistas, e para o público, e com a presença de diversas bandas autorais novas, de vários estados e dois headliners consagrados, um em cada dia. Fomos o headliner em 12 de outubro de 2002, e no dia posterior, "Os Inocentes" fecharam a noite.
Chegamos cedo na cidade, visto que havíamos partido de São Paulo na noite do dia anterior. Ficamos hospedados num hotel próximo da tal chácara e pudemos dormir a manhã inteira com tranquilidade, refazendo as forças perdidas em mais de 500 Km que separam São Paulo de Londrina.

Fazia um calor muito forte, já antecipando os dias de verão, embora estivéssemos no início da primavera ainda. Após o almoço, fomos com toda a equipe ver a montagem do nosso backline e aguardar o soundcheck no local. Enquanto esperávamos, havia um campo de futebol disponível e mediante uma bola que a produção proporcionou-nos, fizemos um rápido "rachão" entre músicos e roadies. Bem, o soundcheck foi tranquilo, apesar de ser um palco grande e contando com um P.A. de proporção para show em estádio de futebol, pois o técnico era competente, objetivo e solícito.
Agora era voltar para o hotel e aguardar a hora de voltar...


Quando voltamos à chácara, muitas bandas programadas já haviam apresentado-se. O público era bom e a primeira impressão que tive assim que olhei para o palco, era que o som estava bem legal e a iluminação também era de um porte profissional, portanto, como primeira experiência de produção em grande âmbito, da parte do produtor Marcelo Domingues, ele estava de parabéns.

Deu para assistir o show da banda "Devacan", um pouco, vendo-os de frente, com a potência do P.A e luz, e a metade final pela coxia, já preparando-nos para o nosso show. É portanto a única que posso comentar com uma certa lembrança, e pelo que vi, gostei do trabalho deles, muito calcado em Hard-Rock setentista, notadamente o Led Zeppelin como espelho, mesclando influências de Blues e Folk music, tal como o grande Zepelim de chumbo.

Também participaram : "A Cor da Onça"; "Megafone"; "Etnia"; "Marquinhos Diet & Banda Boca de Caçapa"; "Neteibatas"; "Latuya" e o já citado, "Devacan".  Quase todas eram de Londrina, pelo que estava anunciado no programa, mas havia também uma banda de Brasília, e uma do Rio de Janeiro. Impressionante como o mercado brasileiro é cruel para bandas de Rock no underground. Analisando esses fatos em 2016, ou seja, quatorze anos depois do ocorrido, nenhuma dessas bandas citadas conseguiu ao menos ter uma projeção no subterrâneo da música profissional, que eu saiba. Claro, não posso atestar as que não vi /escutei, mas o "Devacan" tinha muita qualidade técnica, e deveria ter feito uma carreira notada ao menos no mundo underground, mas desconheço que tenha alcançado alguma projeção. Ouço falar de bandas paranaenses que chegaram muito além como o "Reles Pública"; "Feiche Clers"; "Trilho" e "Pão com Hamburguer", mas nunca vi nada sobre o "Devacan" ter prosperado, infelizmente. E muito menos das outras que participaram desse festival. Bem, conjectura chata para a causa, a parte, volto aos fatos.

Quando entramos, achávamos que o público que era grande, mas mantinha-se afastado do palco em demasiado, mesmo longe da grade de contenção e área de fotógrafos. Era inexplicável a postura do publico nesse sentido, mas não intimidamo-nos e fizemos o nosso show habitual. Digno de nota, um músico de uma das bandas que tocaria no dia seguinte, estava alucinado. Devia ter tomado algo com bastante anfetamina, pois sua postura era de loucura e eletricidade total. Tal sujeito apanhou um enorme bambu que achou em alguma parte da chácara, e ficou carregando-o de forma vexatória, talvez achando-se na posse de uma enorme bandeira que desfraldava como em estádios de futebol. Mas no auge da sua loucura, passou a adotar postura "quixotesca" e talvez imaginando ser o bambu uma enorme lança, e nossa banda, um dragão, passou a esticá-la em nossa direção de forma patética, como se quisesse atingir-nos.

Tem gente que acha isso o "maior barato", mas eu cheguei a ter dó do sujeito, fazendo aquele papel de palhaço, sendo que era bem crescidinho e até conhecido no meio Rocker de São Paulo, pois tinha tido passagem pelo Made in Brazil. Independente desse "Quixote do bambu", nosso show foi muito bom tecnicamente e arrancou aplausos. Estávamos contentes por termos participado do Festival com atração principal e eu contente por ver a iniciativa de um festival dando chance para muitos artistas com pequena expressão mostrarem seus trabalhos e terem a oportunidade de crescerem na carreira. Se não conseguiram dar passos maiores, só lamento a rudeza da realidade brasileira e é objeto de discussão para outro tipo de texto, embora a minha autobiografia esbarre nessa questão muitas vezes, pelos inúmeros artistas bons que conheci e que nunca tiveram uma chance sequer.


Uma coletânea com música das bandas participantes. A Patrulha está representada com "Terra de Minerais"

Assim foi nossa participação no Festival Demo Sul em Londrina / Paraná, no dia 12 de outubro de 2002. Cerca de 2000 pessoas estavam presentes, o que não era uma super multidão em se consideramos ser um show ao ar livre, mas também considerando que as atrações eram bandas desconhecidas e o headliner tinha sua história e curriculum, mas não aparecia no "Faustão" e novelas da Rede Globo, não foi decepcionante.

Fomos dormir tranquilos e satisfeitos, e no dia seguinte, partimos para São Paulo com a sensação de dever cumprido. Agora só teríamos show em Limeira, no interior de São Paulo, no final de outubro.

Após o show no festival de Londrina, caímos na estrada novamente, mas em direção ao interior paulista desta feita. Nosso destino seria Limeira, outra cidade em que a Patrulha tinha longa tradição de shows e fãs fiéis, desde os anos setenta. Seria uma nova apresentação no famoso Bar da Montanha, um reduto Rocker, onde éramos bem recebidos sempre pelos simpáticos irmãos proprietários e sempre tínhamos um bom público.

Resta lembrar como já disse anteriormente, que o Bar da Montanha, apesar de ser uma casa de frequência e ambientação Rocker, tinha também um público habitue sui generis, eu diria.
Eram freaks em sua maioria, mas nem todos interessavam-se pela banda em ação, parecendo ignorar a ação do artista no palco, preferindo ater-se às conversas particulares nas mesas e claro, suas bebidas. Bem, não dava para cobrar atenção de todos e assim, o negócio era tocar tranquilo, sabedores de que nossos fãs compareceriam com sua habitual animação. E assim foi, num show tranquilo, com nossos fãs fazendo uma festa danada e a viagem de ida e volta, sob tranquilidade e o nosso ônibus não dando-nos aborrecimentos. Foi no dia 27 de outubro de 2002, com cerca de 200 pessoas na plateia. O próximo compromisso seria em Santos, no litoral paulista, mas alguns dias depois.

Alguns dias antes dessa viagem a Santos, o Junior comunicou à banda que havia convidado um rapaz para viajar conosco e que ele era um Rocker da velha guarda, perfeitamente coadunado com nossos princípios etc e tal. O objetivo seria testá-lo como Roadie Manager, visto que a Claudia Fernanda sentia-se sobrecarregada e em certas circunstâncias talvez fosse mais útil trabalhando em São Paulo gerenciando a logística das turnês do que em campo, viajando conosco e perdendo tempo. Indo além, tal rapaz era já um homem maduro, na faixa etária do Junior, ali beirando os 50 anos de idade, e além de ser um Rocker, embora não músico, era poeta e web designer.

Seu nome, na verdade, um apelido pelo qual era famoso, era : "Barata". Luiz Carlos Cichetto, o popular "Barata", era um freak daqueles típicos "1960 / 1970", que vendiam livros mimeografados em porta de teatro e shows de Rock, mas que modernizara-se, e acompanhando a tecnologia, tendo tornado-se web designer e mantendo no ar um site bastante festejado com enfoque de revista cultural e com ênfase na música e poesia / literatura, chamado "A Barata". Nessa época, e considerando que as Redes Sociais ainda não haviam explodido no Brasil, seu site "A Barata" tinha uma média de 2000 acessos por dia, o que para o mundo underground podia ser considerado um número excepcional. Tudo muito bacana em termos de curriculum, mas o que eu não sabia, ao conhecê-lo finalmente no dia de irmos para Santos, era que apesar de não o conhecer pessoalmente, nós havíamos tido um contato no remoto ano de 1977... quando o Junior falou-me isso ao telefone, fiquei muito intrigado, porque tenho boa memória e lembrar-me-ia fatalmente, mas fiquei atônito com a informação !
Quando cheguei na casa do Junior, ele mesmo, Barata, ao cumprimentar-me, esclareceu tudo...

 
Assim que cheguei na residência do Junior, logo vi a Claudia Fernanda que ao avistar-me estava eufórica, dizendo-me que eu ia adorar ter o "Barata" Cichetto na equipe, porque ele era muito legal, e que disse-lhe que conhecia-me desde 1977, aumentando a minha estupefação, pois realmente não recordava-me de ter conhecido ninguém com esse nome, nessa época. Foi quando finalmente vejo-o descendo as escadas e descubro que também pela fisionomia, não recordava-me mesmo de quem tratava-se...
Feitas as devidas apresentações, finalmente o Barata esclareceu tudo quando contou-me o ocorrido.

Em 1977, paralelo as atividades da minha banda de então, o "Boca do Céu", o vocalista Laert Sarrumor que editava uma revista em quadrinhos chamada "Sarrumorjovem" (daí veio o apelido que tornou-se nome artístico dele, doravante, "Sarrumor"), resolveu montar um fã-clube da Janis Joplin, cantora que é uma de suas maiores paixões na música. Então, pediu-me para ceder meu endereço residencial para receber as correspondências de futuros membros, e nessa época a internet era só um sonho futurista no desenho dos "Jetsons", portanto, tudo girava em torno das velhas cartas enviadas pelo correio. Nesses termos, recebi algumas cartas entre 1977 e 1978, e entre elas, as de um jovem freak também apaixonado pela Janis Joplin, chamado Luiz Carlos Cichetto...
Minha boa desculpa para o esquecimento é óbvia, pois se tenho boa memória, reconhecidamente, esse fato fora efêmero ao extremo, pois o tal Fã-Clube não passou disso, e além do mais, a despeito de eu também adorar a Janis Joplin, a ideia do fã-clube era do Laert e não minha, portanto, eu lia e respondia as cartas, mas não dei muita "corda" para isso prosperar. Enfim, o fato é que ele lembrava-se de minha pessoa, mas eu não, em relação a ele...
Daí em diante, desse dia em Santos até a metade de 2004, ele viajou conosco muitas vezes e acabou tornando-se meu companheiro de banco de viagem no ônibus, onde conversamos por milhares de Km percorridos, sobre assuntos de nosso mútuo interesse e eram muitos, além da obviedade do Rock / Contracultura / 1960 - 1970, indo de literatura & cinema, às séries de TV e desenhos animados, e Palmeiras... portanto, com tantos ícones em comum, indo do Jimi Hendrix a Ademir da Guia; Jack Kerouac a Dr. Smith do "Lost in Space", claro que a amizade fortaleceu-se e foi bacana ter sua presença doravante.

Há de destacar-se a boa matéria do jornalista Lucas Tavares do Jornal "A Tribuna", de Santos, que fugindo completamente ao estereótipo do vilipêndio, muito pelo contrário, tratou a banda com reverência, evocando sua história e suas metas do presente. Avis rara no meio jornalístico mainstream, tão contaminado e comprometido com a destruição de tais valores. 

Voltando ao show desse dia, seria uma volta ao Praia Sport Bar de Santos, uma casa onde já havíamos tocado várias vezes em 2000 / 2001. Chegando na cidade, passei na banca mais próxima, ali mesmo na Praia do Gonzaga e fiquei contente em verificar que nosso show estava anunciado em dois periódicos santistas, sendo que na Tribuna, o maior jornal da cidade e região da Baixada Santista, com matéria grande, com fotos bacanas etc. Enquanto os roadies arrumavam o palco, fui a padaria da esquina e enquanto esperava na fila para pagar, vi que na minha frente estava o ex-jogador Zito, famoso por ter atuado no Santos F.C. na Era Pelé e ter sido bicampeão mundial com a seleção brasileira, em 1958 e 1962. Quando fitou-me, tomei a iniciativa de cumprimentá-lo educadamente na base do :  -"boa noite "seu" Zito", no qual ele retribuiu-me na mesma educação, mas deve ter ficado estupefato, pois na sua concepção, um cabeludo com visual de hippie, jamais deveria reconhecê-lo, mas o fato é que eu acompanho futebol com vívido interesse desde os oito anos de idade e nunca cortei esse, digamos, "vício", mesmo mergulhando num campo cultural tão diferente e de certa forma avesso ao mundo prosaico e popularesco do futebol. E nem sou santista e pelo contrário, o "seu" Zito mais atrapalhou o meu time do coração, enquanto jogou...

Xandra Joplin na frente, rodeada por Paulo Zinner (esquerda), e a banda inteira, quando do dia de sua participação gravando Backing Vocals no álbum Chronophagia, como nossa convidada, em 2000. Foto : Eduardo Donato

Enfim, voltando ao bar, já anoitecia quando encerramos o soundcheck e vi que a cantora Xandra "Joplin" entrou no recinto e encontrou-se com o Barata Cichetto que fez uma grande festa por vê-la. Outra coincidência, Barata conhecia-a de longa data, por ser entusiasta de sua performance como cantora cover da Janis Joplin, e fã da "JJ"  inveterado que era, aplaudia a fidedignidade interpretativa de Xandra em seus shows / Tributo. Nosso show ocorreu com bastante entusiasmo, levando os cento e poucos presentes ao delírio, com muitos fãs da banda presentes. Bem, já no meio da semana seguinte voltaríamos à rotina das turnês, com uma ida a Santa Catarina, para três shows em três cidades, e que renderam boas histórias.

 
Com Luiz "Barata" Cichetto integrando a comitiva, assumido função de road manager, nesta viagem a Claudia Fernanda não esteve conosco. Nosso destino : Santa Catarina, com três shows em três cidades, sendo que em duas, passaríamos pela primeira vez, ao menos em se considerando a história da nossa formação. Saímos de São Paulo na noite de uma quarta-feira, e a viagem não causou-nos problemas em relação ao ônibus.

Foi a primeira viagem longa que fizemos com a presença do Barata, visto que sua estreia como componente da nossas comitiva houvera sido na viagem a Santos, que é um percurso de apenas 78 Km de São Paulo, portanto, muito curto. Como eu costumava viajar no primeiro banco, perto do "seu" Walter, porque sou notívago, e não conseguia dormir como a maioria, passava longos trechos nas madrugadas, principalmente, conversando com nosso motorista e tomando café com ele. Mas agora, ganhava mais um companheiro de insônia e as conversas ficaram ainda mais animadas, se bem que o "seu" Walter não participasse de assuntos que não interessavam-lhe, naturalmente. 

Poeta e escritor, o Barata passou a registrar suas impressões sobre os bastidores das viagens, publicando seus relatos na forma de crônicas, que batizou de "Diário de Bordo", fazendo a óbvia alusão aos diários de bordo de embarcações e aeronaves, porém mais do que isso, remetendo ao seriado de TV "Star Trek" ("Jornada nas Estrelas"), com o clássico "Diário de Bordo", que era escrito pelo comandante da "Enterprise", "Capitão Kirk". Ali falávamos sobre Ademir da Guia; Dr. Smith; Jimi Hendrix e Tim Leary, sem cerimônias...

A capa da encadernação que fiz com os textos do "Diário de Bordo", escrito pelo poeta Luiz "Barata" Cichetto

Tal texto começou a ser publicado alguns dias depois de cada show em seu site "A Barata", e como nessa época eu nem sonhava em ter acesso a Internet, pedi para ele cópias do texto e encadernei-as, guardando-as como memorabilia importante do meu material com a Patrulha do Espaço. Sua visão era minuciosa dos bastidores e com texto coloquial e gostoso de ler, Barata legou-nos um ótimo apanhado dos bastidores, trazendo sua visão dos acontecimentos dessas viagens, com poesia, aspecto que é-lhe peculiar, naturalmente. Muitos anos depois, ele lançou um livro com a compilação dessas histórias dele como membro da equipe técnica, e observador in loco dos acontecimentos, agregando também histórias de sua percepção como fã da banda desde 1977, rememorando shows que assistiu etc etc. Chegamos em Lajes / SC já na manhã da quinta, e fomos direto ao hotel para repousar.

O preâmbulo do minucioso e poético "Diário de Bordo", escrito por Luiz "Barata" Cichetto 

 
Recebemos a visita de um rapaz representando a produção local do show, no hotel onde estávamos, assim que chegamos ao local, por volta das 16:00 horas. Fomos comunicados por ele, que uma entrevista estava agendada para uma emissora de rádio local, antes mesmo do soundcheck. Mas como estava tudo absolutamente tranquilo, sem atropelos, não haveria problema algum em cumprir tal tarefa de divulgação, e claro, era um prazer e uma boa nova poder incrementar a divulgação do show na cidade.


Eu e Rodrigo acabamos voluntariando-nos, sendo levados dessa forma, de carro para tal estúdio dessa emissora e apreciamos muito o caminho que era íngreme, e as instalações da rádio ficavam numa espécie de colina, onde vislumbramos uma visão panorâmica e sensacional da cidade.

Foto que achei na Internet, da colina citada, e em época de inverno

Pelo caminho, o rapaz foi contando-nos que no inverno, a visão dali era magnífica com verdadeiras brumas geladas, e de fato, Lajes é uma das cidades mais frias de Santa Catarina, com o termômetro marcando graus celsius abaixo de zero, com muita naturalidade.
Feita a divulgação e executando uma música na programação da emissora de nosso CD Chronophagia, fomos levados ao estabelecimento noturno onde tocaríamos naquela noite. Seu nome era Latvéria Bar.

Para quem não está habituado com a cultura Nerd / Pop das histórias em Quadrinhos e particularmente o Universo Marvel, "Latveria" é um pequeno país fictício, encravado em algum lugar da Europa, e que tem como soberano, um super vilão, o "Dr. Doom" ("Doutor Destino"), cientista genial e inimigo mortal do "Quarteto Fantástico". Ele mantém seu Reino sob um padrão de vida medieval nas vestimentas e costumes, embora disponha de tecnologia de ponta para por a cabo seus planos diabólicos de conquistas.

Bem, super bacana a intenção do proprietário em ter um bar com tais características temáticas. A casa era bem montada, demonstrando atender a jovem burguesia da cidade e já acostumados, sabíamos que teríamos poucos Rockers na plateia, com a maioria composta de playboys & patricinhas, mas isso não  desmotivava-nos em absoluto.

Visão noturna do centro da bela Lajes / SC, e o estabelecimento em que tocamos, ficava bem perto dessa Praça da Matriz.

Deu tempo para jantar tranquilamente no próprio hotel desta feita, e quando chegamos na casa para o show, ficamos contentes em vê-la abarrotada de gente. Contrariando a nossa expectativa inicial baseada em outras experiências pregressas, o público era de uma maioria Rocker e estava ali sabendo exatamente quem éramos e ansiavam por nossa performance. Enfim, foi um show elétrico que sabíamos que daria sinergia total, desde a primeira virada de bateria da música "Não Tenha Medo" arrancando uivos da plateia, denotando serem Rockers a valorizar cada detalhe, pois o Rock é assim, para quem sente-o na alma.

Várias músicas clássicas da Patrulha, e mesmo as músicas novas da Era Chronophágica, levaram ao delírio aqueles jovens e quando deixamos a casa, por volta das 4 horas da manhã, nossa sensação era maior que a do dever cumprido, porque estávamos felizes pela performance, e resultado de empatia com o público. Dia 14 de novembro de 2002, Latveria Bar de Lajes / SC, com 200 pessoas na plateia, aproximadamente. Deu para descansar bastante, acordar tarde e fazer a viagem para Concórdia com tranquilidade. Percorremos os 200 e poucos kilometros conversando animadamente, e esta turnê parecia não reservar-nos dissabores, mas só alegrias...

Chegamos em Concórdia no horário previsto, e sem nenhum problema na estrada. Dirigimo-nos primeiramente ao apart-hotel onde hospedáramo-nos por ocasião de nossa primeira visita àquela simpática cidade do oeste catarinense.

Aconchegante ao extremo, estávamos felizes por estarmos ali novamente ouvindo o reconfortante som natural do riacho que passava aos fundos, de onde uma sacada confortável dava-nos tal visão e audição paradisíaca. Após um rápido relaxamento, fomos ao "Tulipa Bar", onde fomos recebidos com festa pelas donas do estabelecimento, sempre simpáticas e hospitaleiras.

Uma rara foto desse show no Tulipa Bar de Concórdia, do acervo de Liza Bueno, que aparece na foto à esquerda, e é componente da banda "Epopeia", de Chapecó / SC

O soundcheck foi tranquilo, e ficamos contentes por ouvir a notícia de que a ultra animada turma de Rockers de Chapecó, reservara muitos ingressos, e chegaria em ônibus fretado. A noite seria quente e emocionante, certamente. Com a mesma emoção e entusiasmo que receberam-nos no show anterior, de junho, subimos ao palco e fizemos um Concerto de Rock a moda antiga, em toda sua pompa e circunstância. Super animada, a turma de Chapecó delirou do começo ao fim, e uma novidade boa, havia um contingente bom de Rockers de Concórdia, e outras cidades vizinhas, também. Se da primeira vez a turma de Chapecó tornara o show sensacional em meio a uma certa frieza da juventude burguesa de Concórdia, que lotou o bar na primeira ocasião em que ali tocamos, desta feita, havia um bom reforço local, e o show ficou ainda mais quente.

Uma novidade de improviso, o Rodrigo propôs que tocássemos "Trem", uma música do primeiro disco da Patrulha com o Arnaldo Baptista, e que havíamos tocado em algumas apresentações semi acústicas, inclusive já citadas. Não estava 100 % ensaiada agora, mas saiu direitinho e com uma novidade, o nosso roadie Daniel "Kid" subiu ao palco para tocar violão conosco. Não era novidade para nós que ele era um bom guitarrista e baixista, e que costumava fazer os testes preliminares no soundcheck, acertando timbres de baixo e guitarras. Portanto, sua participação foi muito boa e o público, principalmente o de Chapecó, que era fanático pela Patrulha, conhecendo todos os discos, delirou com uma peça rara sendo executada ao vivo, e de forma muito inesperada. Desta feita, o simpático casal Lucas e Gabriela não perdeu o ônibus fretado para a casa, conforme ocorrera no show de junho... e estavam eufóricos por ver a Patrulha do Espaço novamente. A casa estava super lotada, com cerca de 300 pessoas segundo informaram-nos as proprietárias; era o dia 15 de novembro de 2002, uma sexta-feira, e mais uma página Rocker fora cumprida com galhardia pela tripulação dessa nave. Próximo destino : Joaçaba !


 
A distância entre Concórdia e Joaçaba era muito pequena, e assim, demo-nos ao luxo de descansar até a hora do almoço no apart-hotel, e seu riacho natural que conferia-lhe aura de um spa zen.
Quando chegamos a Joaçaba no meio da tarde, constatamos que a cidade tinha uma beleza natural incrível por conta de um grande rio bem no seu centro, e pela presença de muitas montanhas íngremes, com mirantes que fatalmente atraiam turistas.

                     Vista aérea da cidade de Joaçaba / SC

Demos uma parada no hotel para acomodarmos nossas bagagens pessoais, e rumamos para o local do show, que chamava-se "Bar Ponto de Vista". Assim que começamos a subir uma montanha muito íngreme, já percebemos que o nome do estabelecimento fazia jus à sua localização, pois ficava no topo de uma dessas montanhas que circundavam a cidade e cuja vista panorâmica era espetacular.

Um dos muitos mirantes da cidade de Joaçaba / SC e que certamente devem atrair muitos turistas

Fomos muito bem recebidos pelo seu proprietário, um jovem empreendedor e logo notamos que tinha apoio familiar na administração, com seus familiares ali presentes e todos simpáticos e entusiasmados com o show. Eles estavam eufóricos com nossa presença, demonstrando respeito pela nossa história, e eu apreciei muito essa demonstração explícita e rara, eu diria. Segundo contaram-nos, a divulgação fora maciça com material gráfico, faixas e uma rádio local que só tocava Rock 24 h por dia, estava executando spots com uma vinheta contendo uma música nossa de chamariz. Bem, parecia tudo pronto para a Festa do Rock...

A casa em si era rústica, sem nenhum luxo, mas muito confortável e aconchegante. Com três patamares, tinha muitos pontos de visão privilegiada para a cidade toda lá embaixo e se à luz do dia já era de tirar o fôlego, a visão noturna devia ser incrível, também. Voltamos para o Hotel, fartamo-nos de pizzas e quando voltamos para o local, o público era muito bom, e claro, havia muitos fãs da Patrulha, incluso vindos de cidades vizinhas. Uma banda de história, mesmo estando no underground, tinha essa vantagem, naturalmente e isso era um grande incentivo para nós. O show foi quente ao extremo. Mandamos ver nosso set list tradicional e o público respondeu de forma magnífica. Sim, havia gente que não sabia exatamente quem éramos, uma praxe nesse circuito de casas noturnas e notadamente de cidades interioranas, mas o contingente Rocker tratou de deixar o clima de show de Rock, e tudo funcionou.

Aconteceu no Bar Ponto de Vista, de Joaçaba / SC, com 200 pessoas presentes, em 16 de novembro de 2002. Deixando a casa noturna já sob o silêncio da madrugada, a visão era belíssima da cidade vazia. Descansamos bastante e mais ou menos às 13 horas de domingo, 17 de novembro, colocamo-nos na estrada para voltar a São Paulo. Teríamos cerca de 800 km para enfrentar, mas sem pressa, sem forçar o ônibus, pois não tínhamos compromisso imediato em nossa cidade, e a próxima turnê dar-se-ia só a partir de 21 de novembro, em cidades do interior paulista.

Apesar do calor incrível que fazia, a viagem corria tranquila e as conversas animadas dentro do nosso ônibus, sem nenhum stress.
Contudo, quando a noite caiu e já estávamos próximos da fronteira entre o Paraná e São Paulo, a parte elétrica do carro pifou, deixando-nos sem faróis. Já estávamos adiante daquele posto onde havíamos tido pane elétrica e trocado o dínamo em viagem anterior que fizéramos ao sul do país, portanto, "seu" Walter aconselhou prosseguirmos viajando no "escuro", pois se parássemos, corríamos o risco de perdermos a ignição.

Reduzindo drasticamente a velocidade, motivado pelo perigo que era viajar a noite sem faróis, havia um segundo objetivo nessa estratégia, que era o de ganhar tempo, torcendo para amanhecer logo e assim tornar a viagem mais segura e não chamar a atenção de policiais rodoviários que se vissem-nos naquelas condições, fatalmente parar-nos-iam, fora multas e até detenção do carro, sabe-se lá...
E assim foi, comigo, Luiz Domingues; Luiz "Barata" Cichetto, e Junior ao lado do "Seu" Walter, ajudando-o com mais três pares de olhos para seguir naquela estrada perigosíssima que é a BR 116 - "Régis Bittencourt". Começou a amanhecer enfim, e respiramos aliviados ao ver os raios de sol no horizonte. Chegando em São Paulo, descarregamos o equipamento na minha residência da Aclimação, com o carro ligado e só o desligamos na garagem que alugávamos, no Cambuci, bairro vizinho. Esta foi uma turnê vitoriosa, e esse problema deu-nos um certo receio, mas não tirou o mérito da empreitada toda. Próximo destino : São José do Rio Preto / SP ...

Alguns dias depois da última turnê por Santa Catarina, estávamos novamente a bordo do intrépido "azulão", mas desta feita indo para o interior de São Paulo. Calor tórrido, de final de novembro e com a perspectiva de ficar ainda mais quente pelo fato de irmos ao sempre quente interior paulista, ao menos tínhamos a certeza de que seria quente em termos de animação, pois seriam quatro shows com ótimas perspectivas. Com nossa comitiva habitual, mas reforçados por Claudia Fernanda, e por um dos filhos do Junior, o James Castello, tínhamos também a simpática presença do poeta Luiz "Barata" Cichetto mais uma vez conosco.

Para minimizar o calor, saímos um dia antes, na noite, quase madrugada de quarta feira, 20 de novembro. De fato, na calada da noite existem os perigos inerentes da estrada, dobra-se a atenção etc, mas o frescor da madrugada, evitando o sol a pino, fez bem para todos, principalmente para o nosso ônibus, que desgastou-se muito menos. Nosso primeiro destino era São José do Rio Preto, cidade natal de nossos amigos do "Hare", banda que conhecêramos no final de 2001, e cujos membros haviam tornado-se nossos amigos. E boa nova, eles fariam a abertura do nosso show, e isso era garantia de uma ótima apresentação e sobretudo, 100 % coadunada com os nossos ideais.

Chegamos pela manhã na cidade, bem cedinho, e deu para aproveitar algumas horas de descanso no hotel. Tudo sob controle, foi possível almoçarmos num restaurante bom do centro da cidade, acompanhado de nosso amigo Junior Muelas e tranquilamente fazermos a montagem do equipamento no local da apresentação.
Tal estabelecimento era novo na cidade e prometia ser um polo de cultura para o povo riopretense, por isso estávamos contentes em estarmos ali naquele momento em que iniciava as sua atividades.
Chamava-se "Cultural Bar", mas ia além de um bar tradicional enquanto casa noturna nesses moldes, pois a despeito de ter um bar em seu complexo, a pretensão de seus proprietários era a de fazer do local um mini centro cultural multiuso, não focando apenas em apresentações musicais, mas abrindo para outras manifestações artísticas e culturais, ainda que os shows de Rock fossem o carro chefe das atividades ali produzidas.

Não seria a inauguração da casa em si, visto ter ocorrido uma semana antes com show da banda paulistana, "Velhas Virgens", mas era um clima de novidade, ainda, certamente. Não eram instalações luxuosas, mas seus proprietários haviam esforçado-se para arrumar e decorar a casa de uma forma muito agradável. Tratava-se de uma construção antiga, bem no centro da cidade, em plena Avenida Voluntários de São Paulo, famosa e importante via da cidade de São José de Rio Preto. O único senão para esse simpático estabelecimento, era a questão da enorme escadaria que havia da rua para o seu mezanino, e dessa forma, os nossos roadies sofreram uma barbaridade para levar o equipamento da banda para dentro da casa. Soundcheck feito com enorme tranquilidade e confraternização total com os amigos do "Hare", só restava-nos esperar a hora do show. Voltamos ao hotel, descansamos e arrumamo-nos com tranquilidade.

Quando chegamos novamente a casa, um fã vindo de uma pequena cidade vizinha (Guaraci), esperava-nos com vários discos da banda e entrevistou-nos para o seu fanzine. Chamava-se André Galão, e estava tão entusiasmado em assistir-nos, que sua animação contagiou-nos, e claro que era sensacional ter demonstrações de carinho desse porte. Ei-lo na foto acima, com o Junior e eu, Luiz Domingues, retratados no Jornal "Realidade Regional". 

O show do "Hare" foi ótimo e ali, mais uma vez enchi-me de esperanças quanto ao futuro do Rock brasileiro, embora olhando hoje em dia, 2016, não é por falta de talentos que lastimamos a fase péssima em que vivemos, mas exatamente pelos espaços culturais serem blindados para artistas dessa qualidade. Chegou a nossa vez, e o público Rocker de Rio Preto respondeu como esperávamos, com um calor humano total. Foi um show muito animado, honrando as tradições da banda e dos Rockers locais. Era o dia 21 de novembro de 2015, uma quinta-feira, e cerca de 100 pessoas viram-nos nessa noite. Ossos do ofício, o show do dia seguinte seria numa cidade muito próxima, mas obrigando-nos a retroagir cerca de 50 Km para trás, sendo que no dia seguinte teríamos que voltar a Rio Preto para seguir adiante e irmos para outra cidade além. Nem sempre a turnê ficava alinhada com a logística e quando aconteciam tais anomalias logísticas, nós brincávamos, dizendo que era uma "turnê da barata tonta"...

               Duas fotos mostrando a cidade de Catanduva / SP

Paciência, não sendo possível ter agendado ao contrário em relação ao show da noite anterior, lá fomos nós para Catanduva, cidade 50 Km adiante de Rio Preto, mas no sentido inverso do que teríamos que cumprir ainda. Catanduva também é uma cidade bem quente, e quando chegamos ali, o sol estava abrasador. Lembro-me que o Luiz Barata estava contente por estar ali, pois era a terra natal de sua mãe.

A casa em que tocaríamos chamava-se "Ópera Pub". Era uma casa de muros baixos, com ampla área a céu aberto e o palco ficava num local mais reservado mas não exatamente fechado, com as laterais abertas e dando-nos a visão parcial do enorme pátio ao ar livre.
Lembrou-me vagamente o The Doors Pub de Monte Alto, onde tocáramos quase um ano antes, mas era bem mais rústico e o palco e equipamento, bem piores. No quesito estrutura, estava mais próximo do V8, de São Roque, onde tocáramos no início do ano. Dei minha volta habitual para comprar jornais locais e no meio do caminho arrependi-me, pois ali não era o centro da cidade e após caminhar vários quarteirões sem achar uma banca de jornais, estava desidratando de tanto calor, quando finalmente avistei um posto de gasolina com loja de conveniência. E pior de tudo, meu sacrifício fora em vão, pois nem uma notinha havia saído nos jornais locais.

Passado esse sufoco com o calor, de volta ao estabelecimento, o soundcheck foi feito e deixou-nos claro que não seria um show confortável para nós. As deficiências de um equipamento de P.A. inadequado atrapalhar-nos-iam certamente. Resignados, demos o nosso máximo ali, e encerradas as possibilidades de melhorar a qualidade sonora, contentamo-nos com o melhor possível. Fomos levados ao hotel por uma pessoa da produção local e quando chegamos, vimos que era simples pela fachada, mas não havia problema, ali ninguém era uma diva temperamental a dar chiliques diante desse fato. Então, quando entramos...

Bem, para início de conversa, a fachada enganava, pois lá dentro, o que parecia mesmo era uma penitenciária. Cheio de corredores labirínticos, fomos sendo levados pelo funcionário do hotel para os quartos, e quando achávamos que seria uma estadia ruim, piorou quando percebemos que nossos quartos ficariam numa ala rebaixada, como se fosse um porão da construção, e que para acessá-la, tivemos que curvar as nossas cabeças para entrar num corredor num nível abaixo. Entramos nos quartos em duplas e o interior de cada um era um horror. O aspecto das paredes com a pintura descascada; vários pontos de mofo; baratas passeando alegremente pelo ambiente e o pior de tudo, um calor horripilante que não seria vencido pelo ventilador draconiano ali disponibilizado, que devia ser dos anos 1920, pelo seu design e aspecto mal conservado.

Alguns chuveiros simplesmente não funcionavam e assim, de forma solidária, organizamo-nos para usar os poucos disponíveis, atrasando o processo da preparação da comitiva. De comum acordo, resolvemos não hospedarmo-nos ali e após o show, colocarmos o equipamento no carro e partirmos imediatamente para Jales, nosso destino no sábado. Voltando para a casa noturna, quando chegamos, vimos que estava lotada. Era mais uma casa onde a maioria nem tinha ideia de quem éramos, formada pela jovem burguesia local. Clima de balada com muita menina bonita, e garotões bem aprumados descendo de carrões caros etc etc.

No entanto, como em todo show, havia os abnegados fãs locais, e alguns vindos de cidades vizinhas. Com discos de vinil e CD's da banda nas mãos, foi muito agradável para nós verificar nos seus semblantes a emoção por ver-nos entrando ali no ambiente, com alguns abordando-nos antes mesmo do espetáculo, e pedindo desculpas por não ser a maioria ali a prestigiar-nos. Ora, não tinham culpa alguma nesse aspecto, mas eram vítimas das circunstâncias, também, por estarmos numa época difícil para o Rock. Alheios a essas constatações, os jovens burgueses divertiam-se bem dentro daquela prerrogativa clássica da noite : estavam ali para embebedar-se, arrumar parceiros sexuais e nada mais. O som mecânico da casa massacrava-nos os ouvidos. Música eletrônica maçante, sem sentido artístico algum, mas tão somente barulho onomatopaico e monocórdico para entorpecer a mente, e justificar a bebedeira. Foi quando o dono da casa anunciou uma banda de abertura. Bem, vamos ver se na ausência do som mecânico monocórdico, interessam-se por humanos tocando canções conhecidas que possam cantar junto, pensamos. Mas ledo engano de nossa parte, o estranho combo de violão / voz; baixo e bateria tocando como se fosse um show intimista de barzinho, não chamava a atenção de ninguém, embora fossem bons músicos e estivessem tocando clássicos do Rock em arranjos minimalistas.

Achávamos que seria um show tradicional de abertura, com 30 ou 35 minutos no máximo, mas a apresentação desses rapazes foi alongando-se. Falando com o gerente da casa, ele comunicou-nos que queria que começássemos por volta da 1 hora da manhã, portanto, a abertura foi de quase duas horas, passando muito do limite e causando tédio generalizado, inclusive em nós que aborrecemo-nos com uma espera tão longa. Para piorar, não havia camarim, portanto, a espera era ali, sentado numa mesa em meio a balbúrdia da clientela, e o cansaço multiplicou-se. Quando entramos, os fãs da banda agitaram-se e isso deu-nos gás para fazermos nosso show com entusiasmo, apesar da canseira toda.
E assim foi, com aqueles 20 e poucos freaks agitando como se estivessem vendo-nos no palco do "Marquee" de Londres, mas o restante, 330 pessoas aproximadamente, completamente alheias e nem preocupadas em aplaudir educadamente, mas ignorando-nos retumbantemente. Isso não incomodava-nos em nada, e os vinte e poucos faziam a sua parte agitando e apreciando, e além do mais, não era a primeira vez que que deparávamo-nos com um tipo de público blasé assim.

Quando demos o último acorde, o DJ da casa não deu nem um segundo de pausa e soltou novamente no P.A. da casa, um bombardeio de "música" eletrônica. A jovem burguesia teve uma reação quase bovina ao comando, que fez-me lembrar do filme "A Máquina do Tempo"("The Time Machine"), de 1964, e baseado na obra de H.G. Wells... quem viu esse filme, há de recordar-se do sinal da sirene que hipnotizava as pessoas...
Bem, os poucos freaks presentes fartaram-se com nossa música, e artisticamente falando, era a nossa motivação maior ali, certamente.
Resolutos em viajar imediatamente para Jales, apesar do cansaço, era muito melhor do que tentar dormir e não conseguir certamente, naquele hotel insalubre...


Já estava clareando quando chegamos na cidade de Jales, quase 600 Km de São Paulo...
Quase na divisa com Mato Grosso do Sul, Jales era mais uma cidade muito quente do interior paulista, e que já havíamos visitado antes, na primeira vez que fizéramos turnê de muitos shows contínuos, em dezembro de 2001. Naquela ocasião, caso o leitor não recorde-se, desapontamos o público local ao não executarmos uma música que eles ansiavam e pediam em coro : "Olho Animal".
Desta vez, a tínhamos ensaiada no set list e não haveríamos de desapontá-los embora ela não fosse querida por pelo menos três quartos da banda, eu; Marcello e Rodrigo.

O produtor local era o mesmo rapaz que realizara o show anterior, mas desta vez alegando estar com verba mais comedida, organizou o show num local mais modesto, um salão de festas no centro da cidade, ao contrário da chácara espaçosa em que tocáramos anteriormente em 2001. Tudo bem, entendíamos a situação e não importava-nos em nada fazer a apresentação num local mais tímido.

Ficamos num hotel muito confortável e razoavelmente próximo de tal salão e pelo fato de termos chegado muitas horas antes do previsto, por não termos dormido em Catanduva conforme o cronograma da turnê, pudemos dormir até a hora do almoço, recarregando nossas baterias. Almoçamos num restaurante bacana, perto do hotel e com muita tranquilidade fomos ao salão no período da tarde para montar nosso equipamento e realizarmos o soundcheck. Tivemos sorte e azar ao mesmo tempo, quando uma súbita nuvem negra surgiu no céu e uma tempestade caiu sobre a cidade. Sorte porque foi providencial para refrescar a temperatura que era altíssima até então, mas azar porque atrasou-nos para descarregar o equipamento.

Bem, quando a chuva amenizou-se, os roadies aceleraram o processo e na base da correria, montaram tudo compensando o atraso. O rapaz não havia economizado só com o salão mais modesto, mas desta feita contratara um equipamento de P.A. muito simples, e com um técnico completamente despreparado para sonorizar um show de Rock. Devia estar acostumado a sonorizar festinhas; quermesse de igreja; comícios políticos etc, mas show musical e ainda por cima, Rock, era algo muito fora de sua realidade.

Tendo como assistente seu filho, um garoto de uns treze ou quatorze anos de idade no máximo, e tão incauto quanto ele, foi um soundcheck bastante sofrido, e que irritou a todos. Paciência, era o que tínhamos e assim o negócio era segurar um pouco na dinâmica, coisa que não era o forte da Patrulha, por sinal. Voltamos para o hotel e após o jantar muito bom naquele mesmo restaurante do almoço, e desta feita lotado de famílias com um olho no garfo e outro nos monitores de TV exibindo as novelas da Globo, arrumamo-nos e por volta da meia noite, o organizador veio buscar-nos. O salão estava bem cheio quando chegamos e a banda de abertura quase pronta para iniciar seu show. Tratava-se da mesma banda que abrira o nosso show em dezembro de 2001, chamada "Velho Lobo". Estavam em estado de comoção, pois um de seus componentes havia falecido recentemente num acidente náutico numa represa ou lago local, infelizmente, é claro.
Quase uma hora da manhã e começamos o nosso show. Os fãs urraram e vibraram como se comemorassem um gol num estádio de futebol. Apesar das más condições sonoras e uma luz deficiente, estava muito mais animado que o show anterior de 2001, não havia dúvida.

Contudo, estávamos apanhando muito do P.A. ruim, sendo operado pessimamente pelo técnico fraco, e assim, tivemos até interrupções do show para o sujeito detectar microfonias insuportáveis e coibi-las, mas nem assim, sob silêncio, ele era ágil o suficiente para detectar a frequência e apertar um simples botão de "mute". Aos trancos e barrancos fomos tocando, brigando com as microfonias desagradáveis e o show, a despeito disso, teve picos de euforia, como na inevitável "Olho Animal", que causou comoção no salão, fazendo com que cantassem com a banda em plenos pulmões. Bem, resgatamos a nossa dívida com os fãs de Jales, enfim...
Missão cumprida, fora um show difícil para nós pelas condições técnicas, mas acho que satisfizemos o público. Assim foi no dia 23 de novembro de 2002, um sábado, num evento batizado como "TNT Rock", em Jales / SP. Dormimos e após o almoço, carregamos o equipamento e entramos na estrada rumo a São Paulo. Não tínhamos mais compromissos, mas haviam dois convites formulados, que não recusamos e isso fez com que realizássemos duas paradas, atrasando bastante a volta para a capital. Primeiro, era um prêmio que queríamos dar para o nosso motorista, o "seu" Walter. Quando soube que iríamos para essa região do estado, pediu-nos para pararmos por meia hora num posto de gasolina as margens da cidade de Votuporanga, no meio do caminho entre Rio Preto e Jales, para rever familiares que não encontrava há anos.

Claro que aceitamos fazer-lhe esse agrado e esticamos tal parada em mais de uma hora, onde ele confraternizou-se com seus parentes, que eram muitos, parecia uma pequena multidão e ficamos contentes em dar-lhe esse agrado, visto que ele estava conosco em todas as viagens, desde fevereiro daquele ano, e fora a sua direção segura, ajudava-nos muito nos inúmeros problemas que tivemos, fora as ações voluntárias de manutenção que fazia no ônibus, muitas vezes indo à garagem onde ele ficava estacionado e fazendo trabalho pesado, levantando a carroceria e trabalhando no sistema de freios, embreagem e suspensão, para trocar peças etc etc. Muito feliz, até comovido ao ponto de chorar, ficou muito feliz por ver seus parentes e na situação que vivia, com poucos recursos, era natural que não tivesse meios de vê-los com constância e só assim mesmo, num arranjo de trabalho ocasional. Se dirigisse um ônibus de linha ou caminhão de carga de uma empresa, jamais teria essa regalia, mas no nosso trato que era absolutamente informal, claro que pode realizar tal momento feliz para ele. Pessoas simples, mas com aquele senso de hospitalidade e bondade tipicamente interiorano, seus familiares presentearam-nos com uma caixa de laranjas, e que eram dulcíssimas.

                                  São José do Rio Preto

E a segunda parada foi em Rio Preto, por volta das três da tarde quando o amigo Junior Muelas aguardava-nos na beira da estrada, e conduziu-nos à sua residência que tinha ares de uma chácara. Lá, sua família recepcionou-nos com um farto almoço interiorano, e muitos Rockers locais e amigos dele estavam presentes. Em clima de comunidade Hippie, a tarde foi agradabilissima com comida boa e suco de frutas colhidos no pomar da casa, e tudo ao som da ótima coleção de vinis de Junior Muelas. Foi um relaxamento tão bom, que já começava a anoitecer quando demo-nos conta que tínhamos 450 Km para encarar rumo a São Paulo. Pouco além das duas da manhã, começamos a avistar a impressionante selva de pedra da capital. Chegamos em casa com segurança, e com mais uma turnê cumprida. Na próxima semana, nova incursão ao interior paulista, mas em outro quadrante de nosso estado.

Mais uma semana e estávamos de novo na estrada, desta feita para outro quadrante do estado de São Paulo. Visitaríamos novamente Ribeirão Preto, mas também passando por Jaboticabal e Indaiatuba. Sobre Ribeirão Preto, nossa lembrança não era boa, não pelo show em si que fizéramos, mas pela tragédia do dia seguinte, com a tempestade e o verdadeiro tsunami que devastou a cidade e causou-nos muitos problemas. Desta vez nem cogitávamos que esse raio caísse novamente nas nossas cabeças, e a motivação era outra, desejando um show legal e nenhum problema no decorrer da turnê.
Mas na verdade, Ribeirão Preto foi o nosso segundo destino. Fomos primeiro para Jaboticabal, uma pequena cidade na mesma região.

                        A bucólica cidade de Jaboticabal / SP

Aprazível ao extremo, a cidade estava ensolarada e com seu típico calor tórrido, mas logo refrescamo-nos no hotel que ficava numa praça enorme e muito linda, muito bem cuidada e tipicamente interiorana, com coreto; super ajardinada e arborizada.

Entrada principal do Hotel Municipal de Jaboticabal, com sua arquitetura vintista que encantou-nos

O hotel cabe destaque também, com sua arquitetura dos anos 1920, parecendo parado no tempo, de tão bonito e conservado. Marcello e Rodrigo filmaram-no amplamente, e um dia essas imagens de bastidores vão parar no You Tube, assim espero.

A típica "Praça da Matriz" de Jaboticabal / SP, onde ficava o hotel em que hospedamo-nos e do outro lado, a casa de espetáculos onde fizemos o show

A casa onde tocaríamos ficava no outro lado da praça, e era muito bonita, exatamente por ser um casarão daqueles típicos do interior, com pé direito muito alto, janelas imensas na fachada, com amplos cômodos. Era claro tratar-se de um antiga residência de família, mas agora estava adaptada para ser uma casa noturna, embora o proprietário tenha sido feliz em preservar ao máximo a originalidade da construção. No almoço, senti que o arroz servido não assentou-me bem. Fiquei com dores estomacais no período da tarde, e abstive-me de supervisionar a montagem do equipamento, descansando no hotel, para ver se conseguia ao menos fazer o soundcheck. Daniel "Kid", nosso roadie, ficou de prontidão para passar o baixo, caso eu não conseguisse, e ele tinha habilidade para tal, por ser um bom baixista e guitarrista, também. Enquanto isso, o "seu" Walter e Luiz Barata estavam correndo pela cidade para achar uma oficina mecânica, pois na viagem, nosso motorista já havia detectado problemas na embreagem do ônibus. Era uma peça relativamente barata, mas teria que necessariamente tirar o motor fora, para fazer a troca e remontá-lo, gastando horas, e com a certeza das roupas emporcalharem-se com graxa.

Nada mais interiorano que a fonte luminosa de uma praça bem em frente a matriz da cidade...

Fim da tarde e vieram chamar-me no hotel. Meu estômago havia acalmado-se, mas ainda não estava 100%, todavia, pude ir a casa onde tocaríamos e realizei o soundcheck. Anoitecia e a temperatura ficou muito mais agradável. O dono do estabelecimento ofereceu-nos um jantar muito bem servido na área externa da casa, onde antes houvera sido um amplo quintal residencial. Nosso amigo de São José do Rio Preto, Junior Muelas veio assistir o show e trouxe amigos, rapazes e moças numa pequena comitiva de Rockers. A noite prometia.

O baixista Superb, Gabriel Costa, do "Homem com Asas" na ocasião, e hoje em dia (2016), no Violeta de Outono 

A banda de abertura nessa noite seria o "Homem com Asas", outra banda amiga que já havia aberto nossos shows pelo interior em outras ocasiões e eram nossos amigos de ideias e ideais. Muito bom e animador ter Gustavo "Gus"; Gabriel Costa & Cia. conosco nessa noitada. Quando voltamos ao hotel para o relax final / banho, vimos que a praça estava com mais gente circulando, mas a frequência estava estranha, com muitos travestis "vestidas" de forma quase indecente, e um séquito de malandros, ao estilo da periferia das grandes cidades. Nessa altura, já estávamos convencidos de que o interior estava contaminado por tais hordas urbanas, e isso não era mais exclusividade das grandes cidades, infelizmente. Quando retornamos a casa, que chamava-se "Otello", vimos que o "Homem com Asas" já estava tocando a todo vapor. Sobre a banda nada a comentar, a não ser o que já sabíamos : era ótima e se não tocavam músicas autorais normalmente, os covers que faziam eram para ouvidos privilegiados, pois escolhiam muitas músicas "lado B" de bandas clássicas, e até de bandas obscuras do Rock 1960 / 1970, coisa de, e para experts. A casa tinha um ótimo público, com muitos freaks locais, mas seguindo o padrão de casas noturnas interioranas, a maioria do público era formada por jovens bem nascidos, financeiramente falando, da sociedade local. O dono era gente boa, mas mostrava-se contrariado com o volume com o qual o "Homem com Asas" estava tocando e mandou insistentes recados para que diminuíssem-no. Sua preocupação tinha uma razão justa, visto que o casarão estava cercado de residências e certamente que seria muito improvável que a vizinhança fosse formada por admiradores das canções do "Led Zeppelin"; "Cactus" e "Budgie", entre outras pérolas, que estavam sendo executados com maestria pelos componentes do "Homem com Asas"...
Por outro lado, a clássica observação, não só para essa casa, mas para quase todas que propõe-se a realizar shows de Rock, ou seja, o dono não quer investir um centavo em estrutura de isolamento e prefere atazanar os artistas com pedidos de volume inaceitáveis para a prática corriqueira do Rock'n Roll. Bem, já ficamos avisados que ele perturbar-nos-ia com tal reivindicação e no caso da Patrulha, era difícil conter a volúpia sonora tradicional da banda...
E foi o que ocorreu, embora deva salientar que o rapaz era educado e gente boa, e se pressionava-nos, era por estar sendo violentamente pressionado, também.

Lembro-me até de uma interrupção, quando foi-nos informado que a polícia militar havia sido acionada por vizinhos, e logo após a execução da música "Robot", tivemos que dar uma parada e só voltamos para concluir o show, após alguns minutos com um clima meio estranho por conta do nervosismo instaurado. Mas o concluímos, sim, e apesar dos pesares, não chegou a estragar a noite, pois a impressão causada fora a melhor possível, e no cômputo geral, apreciamos muito a reação calorosa da plateia.
Aconteceu no dia 29 de novembro de 2002, no "Otello", de Jaboticabal, e com cerca de 350 pessoas na plateia. Voltamos para o hotel satisfeitos com o show de Jaboticabal, e só havia um problema agora : o "seu" Walter achara a peça que o ônibus necessitava, mas o conserto demorado ficara para a manhã seguinte. Ele e Luiz Barata prontificaram-se a cuidar disso e os demais, incluso eu, pudemos descansar, enfim. Eram cerca de duas da tarde quando sinalizaram que estava tudo OK para partirmos, e por sorte, o trajeto entre Jaboticabal e Ribeirão Preto era mínimo. Despedimo-nos do charmoso hotel vintista, com o sentimento bom do dever cumprido.

Com a embreagem do ônibus funcionando a contento, graças a peça nova que "seu" Walter instalara com a providencial ajuda do Luiz Barata, a viagem até o próximo destino foi muito tranquila.
Chegamos rapidamente a Ribeirão Preto e nosso objetivo seria novamente o Bar Paulistânia, mas desta feita, com a abertura da ótima banda local, "Senhor X", da nossa já amiga e bela cantora, Carla Viana. Ela em pessoa estava empenhada na produção local e esmerando-se para fazer o melhor que podia, certamente que lograria êxito, pensamos, e claro, isso animou-nos. Ficamos hospedados num hotel na mesma avenida Junqueira, onde ficáramos na ocasião anterior e de onde vimos a tragédia da enchente, já relatada em capítulo anterior. Mas desta vez, num outro hotel que era melhor categorizado, e o conforto sempre era bem vindo, logicamente.

Eu ainda não estava 100 % refeito de meu desconforto estomacal e diante desse enjoo que incomodava-me, mais uma vez fui poupado pelos companheiros e não supervisionei a montagem do equipamento. Compareci ao Paulistânia somente para o soundcheck. O equipamento estava melhor realmente em relação a ocasião anterior, e após o soundcheck, voltamos tranquilamente ao hotel. Sentindo-me um pouco melhor do meu problema estomacal, não abusei no jantar, fazendo uma refeição mais leve que os demais que "pegaram pesado" na boa comida servida no restaurante do hotel. Com sobra de tempo, alguns recolheram-se para um repouso breve, mas eu vi que Rodrigo e Luiz Barata estavam com vontade de conhecer o "Pinguim" uma famosa chopperia da cidade que tem fama nacional pela qualidade de seu produto "carro chefe".

Como não conheciam a cidade, mas eu a conhecia desde a infância, pelo fato de ser a terra natal de minha mãe e onde tenho muitos parentes, coloquei-me a disposição de ambos para levá-los ao estabelecimento. Numa caminhada rápida de quinze minutos, estávamos na famosa Praça XV de novembro, e ao lado do belo Teatro Municipal de Ribeirão Preto, entramos no badalado Pinguim.

Enquanto meus amigos testavam a qualidade do seu famoso chopp, e eu ficava no meu tradicional refrigerante, admiramos a arquitetura do estabelecimento e sobretudo o fato dele estar absolutamente lotado, e ainda não havíamos chegado nem nas nove horas da noite, denotando que a casa ficaria no seu pico, por muitas horas. Mas tínhamos trabalho pela frente e rapidamente deixamos o estabelecimento e voltamos ao hotel para os preparativos pessoais e ida da comitiva a casa de shows onde apresentar-nos-íamos.
Assistimos o show do "Senhor X" com prazer, e logo veio a nossa vez de atuar. Foi um show muito mais energético que o da última vez, e o público chegou a urrar de euforia em alguns momentos de pico. Carla Viana deu canja conosco, chamada pelo Junior, e com seu vozeirão e beleza, somou, sem dúvida.

No final do show, com "Columbia" e o seu clássico começo que era marca registrada de nossa formação, num arranjo diferente do disco original. Um Riff a la Jethro Tull e Marcello arrancando urros dos fãs ao fazer a melodia da música na flauta, antes de iniciarmos o vocal em coro... -"O Céu Azul, o Céu Azul"...
Gustavo "Gus" do "Homem com Asas" estava na plateia e subiu para cantar conosco e a festa do Rock consumou-se...
Saímos muito felizes do palco e o assédio pós show foi efusivo, com muitas capas de discos surgindo para autógrafos etc e tal, num termômetro que apontava para o sucesso, certamente.

Dia 30 de novembro de 2002, sábado, no Paulistânia Bar de Ribeirão Preto, com 150 pessoas no local, e que pareciam ser 1500 pelo calor ruidoso que produziram em sincronicidade conosco.
Chegamos tranquilos no hotel, e após seis da manhã, cumpri meu ritual e que tinha como companhia certa os roadies Samuel e Daniel, e agora o Luiz Barata também : esperávamos o café da manhã ser servido para depois irmos dormir. E que café bem servido, por sinal...
No dia seguinte, teríamos um show de choque para fazer, num festival beneficente produzido em Indaiatuba, que angariava fundos para ajudar no tratamento de doentes com Aids numa instituição local. Por sorte, era nosso caminho para São Paulo, ficando na região de Campinas.

Na residência de Carla Viana, em 30 de novembro de 2002 : Marcello; Rodrigo & Junior, em foto e click da mesma, Carla.

No domingo, tínhamos um compromisso de cunho beneficente para cumprirmos. Havíamos sido convidados a participar de um mini festival em Indaiatuba, cidade na região de Campinas, e cujo objetivo era reunir fundos para um órgão de assistência aos doentes com Aids.

Causa nobre, claro que aceitamos participar sem cachet e a única exigência que fizemos-lhes foi a de colocarem-nos num horário mais cedo, evitando ser headliner do festival, pois estávamos na última etapa de uma turnê, e cansados pelo acúmulo de dias na estrada, gostaríamos de viajar logo para São Paulo. Pedido aceito, chegamos a Indaiatuba ainda no meio da tarde do domingo.
O local era um grande ginásio de esportes e como é sabido e nem precisa ser engenheiro acústico para entender, é o pior lugar do mundo para fazer-se shows musicais, devido a sua acústica prejudicada não só pela arquitetura abaulada, mas principalmente pelo material geralmente usado nesse tipo de construção, que usa teto de zinco. Faz-se um eco infernal ali apenas com os eventos esportivos e as pessoas berrando nas arquibancadas como torcedores, portanto, qualquer sonorização ali torna-se um show de horrores com reverberação absoluta e microfonias incontroláveis.
O P.A. contratado para o evento era compatível, mas era certeza que mesmo sendo o técnico o mais competente possível, não havia milagre que tornasse o áudio inteligível, mesmo com a banda fazendo dinâmica de monges trapistas no palco.

Enfim, resignados, nossa intenção era só colaborar com a causa e dar o recado aos rockers locais, e entre eles haviam fãs da Patrulha, atraídos pela publicidade e claro que teriam de nós a melhor performance possível. O produtor estava muito agradecido com a nossa presença e convenhamos, não é todo artista que dispõe-se a fazer shows beneficentes na "faixa" total. No meio artístico / show business, existe até uma praxe que é a do "cachet beneficente", onde o artista coloca-se à disposição para ajudar causas nobres, mas cobrando um cachet de valor muito aquém de seu patamar habitual, mas nunca deixa de cobrar, pois em altas esferas, não cobrar é sinal de amadorismo.

Não era o nosso caso, pois sabedores das dificuldades da produção local para fazer o evento acontecer, qualquer dinheiro que pedíssemos, ainda que fosse uma ajuda de custo, pesaria no orçamento apertado que tinham. Muito sensibilizado pela nossa postura, o rapaz em questão, que também era músico e apresentar-se-ia com sua banda chamada "Laranja Mecânica", não mediu esforços para agradar-nos no que podia, e sendo assim, após o soundcheck, colocou-nos num hotel só para usarmos os chuveiros, e um rápido relax, e fez questão de pagar nosso jantar.
E até exagerou, pois quando soube que eu era vegetariano, e sua ideia era conduzir-nos à uma churrascaria, deu-me a opção de eu ir a uma pizzaria e quando surgiu a ideia, outros também preferiram acompanhar-me. Com duas turmas distintas, minha comitiva rumou para uma ótima pizzaria no centro da cidade, e o rapaz exagerou e antecipando-se fez um pedido absurdo de umas oito pizzas grandes, com o argumento que levássemos a enorme sobra para comermos na estrada a caminho de São Paulo, depois.

Comemos muito bem até satisfazermo-nos inteiramente, e levamos vários discos intactos na viagem para dividir com o restante dos companheiros. O show foi de choque, como é de praxe desse tipo de apresentação inserida em festivais com muitos artistas a apresentar-se. Tocamos cerca de 40 minutos, ou seja, um pouco menos que a metade habitual de nosso show, mas com bastante energia e os rockers locais gostaram muito, apesar de não haver um grande contingente no ginásio. Num ambiente daquele tamanho, que comportaria cinco mil pessoas tranquilamente, deviam ter trezentos presentes, aproximadamente. Mas a animação do público presente contagiou-nos e apesar das dificuldades sonoras inevitáveis num ginásio de esportes com teto de zinco, gostamos muito de tocar ali, e pelo fato do palco ter uma extensão grande de comprimento, esbaldamo-nos com "passeios" que geralmente não fazíamos, pelo fato de mais tocarmos em pequenas casas noturnas com estrutura de palco muito tímidas.

Desde sexta com problemas estomacais, e exagerando na pizza, não teve jeito, tivemos que parar num posto na estrada para comprar anti ácido porque meu estômago estava gritando...
Fora esse desconforto pessoal, a viagem de volta foi absolutamente tranquila e passando um pouco da meia noite, estávamos encostando o ônibus na porta da minha garagem, e descarregando o equipamento. Mais uma turnê cumprida, e com três bons shows...
Próxima parada, de volta àquele mesmo quadrante do estado, desta feita em São Carlos, cidade onde já tínhamos vínculos, certamente...


Antes de falar dos próximos shows e viagens, conto uma história curiosa, ocorrida nessa época mais ou menos, novembro e dezembro de 2002. Geralmente sabíamos que alguma reportagem, entrevista ou resenha sairia publicada na imprensa escrita, pois a abordagem dos jornalistas pressupunha isso, logicamente, ou em época de divulgação de disco, resenhas eram publicadas quase simultaneamente em diversas publicações, e nós as aguardávamos.
Vez por outra, éramos surpreendidos com alguma nota saindo sem aviso, e que descobríamos por acaso ou geralmente avisado por terceiros que haviam visto. Muitas peças do meu portfólio pessoal vieram da parte de parentes e amigos que viram-nas e doaram-me, sem que eu desconfiasse que haviam sido publicadas. Isso porque éramos artistas militando no underground da música profissional, pois artistas que estão no mainstream gozam de mordomias múltiplas que não tínhamos, como por exemplo, o apoio de uma assessoria de imprensa pessoal, e com serviço de "clipagem".
Para quem não sabe do que trata-se, digo resumidamente que "clipagem" é um serviço de investigação, onde caça-se tudo o que sai a seu respeito na mídia impressa e nos dias atuais, estendendo-se às plataformas virtuais de internet. Depende do bolso traçar meta de alcance, e existe clipagem de padrão internacional e implacável, que vai achar coisa que saia mencionando-te, em qualquer lugar do mundo, mas claro, isso é caríssimo e só grandes astros conseguem bancar. Mas uma clipagem bem mais modesta e mais barata, garante o básico que espera-se. Não era o nosso caso, e só tivemos assessoria pontual, mas sem clipagem, por alguns momentos, quando contamos com o apoio de dois jornalistas de peso escrevendo releases, casos de Luiz Chagas da revista "Isto é", que assinou o release oficial do CD Chronophagia, e Dum de Lucca, da Revista "Dynamite", que assinaria o release do álbum ".ComPacto", que lançaríamos em 2003, enfim. 

Fora disso, contávamos com os esforços do Rodrigo Hid que muitas vezes usou um pseudônimo para agir como assessor de imprensa da banda, e graças à tais ações, cavou muitas notas em jornais, certamente. Portanto, sem uma assessoria profissional, e muito menos serviço de "clipagem", algumas vezes éramos surpreendidos positivamente, e foi o que ocorreu quando olhando a banca de jornais perto de casa, confrontei-me com uma revista nova chamada "Rock Made In Brazil", e que continha uma matéria gigante da Patrulha, contando sua história até os dias atuais (2002), recheada de fotos, inclusive algumas inéditas de nossa formação.
Comprei-a naturalmente, espalhei a notícia para os demais companheiros imediatamente, e claro que gostamos muito dessa reportagem inesperada e bem escrita, por sinal. Por ser longa e tão recheada de informações precisas, só podia ter sido escrita por um jornalista que tinha esse costume de escrever longas resenhas de discos e shows, um Rocker muito bacana chamado Marcos Cruz, que era colaborador do Site / Portal Wiplash, um dos maiores do país em termos de Rock, ainda que eu ache que o carro chefe deles seja mesmo o Heavy-Metal. Marcos Cruz escrevera duas resenhas maravilhosas da Patrulha, em 2000, uma falando sobre o álbum Chronophagia, e outra, resenha de um show que assistira em Avaré, sua cidade, onde inclusive conversamos muito, pessoalmente, e eu pude expor-lhe todo o conceito com o qual essa formação da Patrulha havia sido construída. E não deu outra, a tal revista Rock Made in Brazil tinha como editor, ele em pessoa, e assim estava explicado tamanho capricho... eis as páginas de tal publicação :

























Baseando-se no texto contido nos encartes da série de coletâneas denominada : "Dossiê", com tal escrita contando toda a história da Patrulha e discografia, com exceção dos dois discos com Arnaldo Baptista que pertencem a gravadora / editora Warner, mais a resenha do álbum Chronophagia, e do show de Avaré em julho de 2000, escritas por ele mesmo, Marcos Cruz, formou assim o texto dessa extensa reportagem. E ainda introduziu uma pequena história, descrevendo a emoção de um fã de carteirinha da banda, e que também gostava de uma banda minha da década de oitenta, "A Chave do Sol", e com direito a foto do rapaz em questão, comigo.


Meu único senão foi a publicação na capa de um foto de uma formação insignificante da banda. Entendo que tivessem dificuldades técnicas para colocar uma foto melhor na capa, mas a escolha foi absolutamente infeliz, pois aquela formação, com apenas o Junior da formação original e dois rapazes que fizeram três ou quatro shows em 1998, não tinha significado histórico algum para a banda e tais músicos apenas ocuparam uma lacuna numa fase que a banda estava parada, e fazia shows sazonais e com músicos de ocasião para cumprir esporádicas datas. Se não dispunham de fotos da nossa formação, que era o presente ativo da banda na ocasião, melhor teria sido colocar uma da fase com Arnaldo ou a fase de ouro do trio clássico dos anos 1980 : Dudu; Serginho & Junior. E como plano "D", a capa de algum álbum importante da banda, menos aquela foto com aqueles rapazes que nada criaram com a banda. Enfim, ninguém é perfeito...  


Bem, foi uma grata surpresa ver tal revista nas bancas e claro, um bom reforço à nossa divulgação permanente.



Nosso próximo compromisso aconteceria no dia 6 de dezembro, quando iríamos a São Carlos, uma cidade de forte tradição Rocker, onde já havíamos apresentado-nos anteriormente com expressivos resultados, e que havíamos adquirido a confiança, certeza, eu diria, de que havíamos conquistado fãs fiéis do trabalho. Fora a questão de termos muitos amigos de bandas antenadas na nossa vibração "Chronophágica", casos de "Homem com Asas" e "Tarja Preta".
E seria com eles mesmo que contaríamos como bandas de abertura nessa noite.

O local seria um galpão de um Centro Acadêmico de estudantes da USP - Campus São Carlos, chamado CAASO, uma sigla a designar o nome de um homenageado. Era um galpão rústico, mas com um palco bem razoável, muito maior do que a maioria das casas noturnas com as quais estávamos lidando na turnê inteira de 2002, e eles tinham um P.A. de respeito e uma iluminação mais ou menos, que daria para o gasto, dando-nos a oportunidade de fazer um show muito digno, e com uma pressão sonora para lá de boa para o tamanho do salão. Ouso dizer que a capacidade ali era até demais, e que seria prudente reduzir um pouco o volume das potências que alimentavam tal P.A., para não massacrar os tímpanos do público.
Chegamos na cidade sem problemas, fazendo viagem tranquila, sem incidentes. Fomos direto para um hotel muito confortável e pertencente a própria USP e que possivelmente era um hotel escola de curso de hotelaria, desconfio, mas não tenho essa confirmação. Só sei que era muito confortável, com serviço ótimo e ficava fora do campus, mas numa rua com acesso a um dos portões, portanto, mediante uma rápida e prazerosa caminhada por dentro do campus bem arborizado, chegava-se ao tal CAASO, em menos de dez minutos.

No Caaso - Campus da USP de São Carlos, com amigos das bandas "Homem com Asas" e "Tarja Preta", na hora do soundcheck

A montagem do som após o almoço, foi extremamente tranquila e amigável, com tantos amigos dessas bandas citadas ali presentes e solícitos ao extremo para auxiliar-nos. O técnico de som também era um estudante da USP e além de ambientado com o local, foi muito rápido para microfonar tudo e estabelecer uma equalização muito boa, a dar-nos um conforto sonoro excelente na monitoração.
Voltamos para o hotel e tudo corria numa tranquilidade total, dentro do cronograma, dando-nos margem para relaxar. Um grupo de fãs veio de Ribeirão Preto e abordou-nos no hotel. Acompanhavam a Patrulha, haviam assistido-nos na semana passada em sua cidade e resolveram ver de novo, visto que São Carlos dista cerca de 80 Km apenas de Ribeirão Preto.

        Danilo Zanite, atual guitarrista da Patrulha do Espaço, 2016

Como era um show marcado por uma produção caseira, digamos assim, o Luiz Barata é que foi ser o bilheteiro, e apesar de cumprir sua função com muita boa vontade, lamentou que assim perdesse o show da banda de abertura, "Homem com Asas" e boa parte da segunda banda da noite, a também boa "Tarja Preta". Ironia do destino, das fileiras do Tarja Preta sairia o guitarrista da Patrulha que está na banda desde 2007 ou 2008, não sei ao certo, até os dias atuais, 2016, Danilo Zanite, que é ótimo músico, e muito gente boa.
Nosso show foi um delírio, eu diria. São Carlos era definitivamente uma cidade Rocker e quase todos ali eram universitários, estudando na própria USP, ou estudantes da Federal de São Carlos, a Ufscar.

Um painel de fotos da Carla Viana, publicado no Blog do Juma, meu amigo do Paraná, e que abriu-me as primeiras portas na internet para eu começar a escrever, em 2011 

Carla Viana, a vocalista ribeirãopretana de timbre grave e beleza incrível, apareceu e deu uma canja conosco, e na última música uma verdadeira "esbornia" instaurou-se, com músicos das três bandas misturando-se no palco para uma versão kilométrica e  repleta de solos de "Columbia". Mesmo acostumado a lidar com potência sonora de shows de Rock, nessa noite saí do palco com "tinitus" (aquele zumbido agudo e típico de quem suportou muita carga sonora e fica depois no silêncio ouvindo-o por tempo indeterminado após um ataque sonoro de muitos decibéis).
Sem preocupação com vizinhança, dentro do campus vazio da USP e com apenas os guardas da segurança em portões distantes, o volume foi muito grande, fora os urros dos Rockers ali presentes.
Parafraseando a música do grande guitarrista argentino, Eduardo Depose, que é autor de um clássico do repertório da Patrulha, foi uma autêntica "Festa do Rock"...
Nesse final apoteótico, víamos pessoas dançando em cima do balcão da cantina do salão e definitivamente, estavam botando os "Ya-Yás" para fora. Um dos shows mais legais que a Patrulha realizou em 2002, sem dúvida. Aconteceu em 6 de dezembro de 2002, com 250 pessoas presentes no local. No dia seguinte, iríamos a uma cidade próxima e que também já havíamos visitado em duas ocasiões anteriores : Rio Claro.









No dia seguinte, voltamos a Rio Claro, uma cidade que já havíamos visitado anteriormente. Tratava-se de uma casa que já havíamos tocado em 2001, chamada "Kenoma", mas na verdade quando tocamos anteriormente, a casa chamava-se "Monkey", numa referência ao dono do estabelecimento que atendia pelo apelido de "Macaco". Não mudara apenas o nome do estabelecimento, mas o "Macaco" havia feito uma boa reforma, inclusive mudando o posicionamento do palco e melhorando o equipamento.

O que não mudara era o espectro da casa, mais afeita as apresentações das bandas covers, e atraindo uma juventude não Rocker em essência. Tudo bem, eram o ossos do ofício, estávamos vacinados com shows assim não tão confortáveis, e havia a velha praxe : sempre apareciam rockers e fãs da banda, ainda que em menor contingente, em casas assim, frequentadas por playboys.
Não ficaríamos hospedados em hotel, pois o objetivo era voltar para São Paulo imediatamente após o show, e dali, a distância é de apenas 180 Km aproximadamente.

         A famosa praça central de Rio Claro / SP, que é imensa

Dessa forma, após o soundcheck, quase todos resolveram passear pela cidade e eu fiz o mesmo, indo a enorme Praça Central, super arborizada e ali bem perto da casa noturna em questão. Voltando e ainda sendo muito cedo, alguns foram dormir dentro do nosso ônibus, enquanto eu e nosso roadie, Samuel, preferimos ficar do lado de fora do ônibus, conversando, sentados na calçada. Foi quando percebemos a chegada de uns três ou quatro moleques de bicicleta. Não pareciam ameaçadores, mas falavam com gírias de maloqueiros, parecendo meninos carentes de favelas de grandes cidades. Um deles encostou uma bicicleta na parede e pediu-nos para tomar conta dela, enquanto ia comprar alguma coisa e voltaria a seguir. Incautos, eu e Samuel não detectamos nenhuma malandragem por trás desse aparente pedido, e dissemos-lhes que tudo bem, podia ir, que ficaríamos ali "de olho na sua Bike".

Os moleques partiram e a bicicleta ficou ali escorada na parede sem que suspeitássemos que algo estava por acontecer...
Foi quando subitamente uma outra horda de maloqueiros infanto / juvenis aproximou-se, também montados em bicicletas, e o que parecia ser o líder, mais impetuoso, abordou-nos com uma petulância incrível, usando daquela verborragia incompreensível e até engraçada por ter aquelas gírias de favelados de grandes cidades, mas com forte sotaque caipira, interiorano.

Demorou um pouco para entendermos o que o energúmeno dizia e queria, e a conversa era sobre a tal bicicleta que o outro rapaz deixara, ser supostamente "roubada", e que ele reivindicava-a.
Tomando-nos como envolvidos nesse imbróglio, ficaram ali pressionando para levarem a bicicleta embora nesse ínterim, quando finalmente o seu suposto dono chegou com seus amigos, a verborragia comeu solta entre eles, e eu e Samuca tememos pelo pior, com uma briga estourando nas vias de fato e nós ali no meio desses maloqueiros, sem ter nada com isso... só lembro-me que o mais impetuoso deles, não parava de repetir a frase :
-"vamos trocar um proceder"...
E claro que isso era incompreensível para nós, tratando-se de alguma expressão idiomática, quase um dialeto do universo paralelo em que eles viviam. O Marcello, que estava dormindo dentro do ônibus, ficou muito irritado com aqueles maloqueiros ali gritando, e saiu na janela xingando-os, mas eles nem perceberam que era com eles, e ainda e bem, pois se a bronca era entre eles, poderiam incluir-nos e partir para a depredação do nosso ônibus etc etc.
Bem, por sorte, o imbróglio era entre eles mesmo, caracterizando rixa entre gangs rivais e assim, partiram xingando-se, e deixaram-nos em paz, e se brigaram, deve ter ocorrido longe, pois os perdemos de vista. Eu e Samuel ficamos conversando sobre como o interior estava também contaminado por essa mentalidade de periferia, e simplesmente não havia mais a pacata paz interiorana, infelizmente. Alheios a essa situação bizarra e gratuita pela qual passamos, o restante da comitiva ou dormia e nem percebeu o perigo (a não ser o Marcello que irritou-se), ou estavam passeando na aprazível praça gigante do centro, ali próximo.

Bem, passado o aborrecimento era hora do Rock, naturalmente...
Apesar da casa estar completamente abarrotada por um público aparentemente não Rocker, o show foi bem quente e ao final, um assédio forte de fãs caçando autógrafos fez-nos ver que tocar naquela casa supostamente não adequada, fora ilusório. Chegando em São Paulo por volta das 4 e meia da manhã, a sensação era de cansaço, mas também de dever cumprido e satisfação pelas duas apresentações desse final de semana, que deram-nos alegria e muita sincronicidade com o público. Aconteceu no dia 7 de dezembro de 2002, no Kenoma Bar de Rio Claro, e com cerca de 300 pessoas na plateia. Próxima parada : Santo André, no Grande ABC.



A não ser que algum encaixe de última hora ocorresse, seria o último show de 2002, e assim fomos para Santo André, na região do ABC paulista, já em clima de fim de turnê, e expectativa sobre os novos ventos que 2003, trariam para a banda. A situação desse show de Santo André era a seguinte : tratava-se de um show produzido por Vania Cavalera, mãe dos irmãos Cavalera, fundadores do Sepultura, em parceria com uma motoclube bastante famoso no ABC, o "Abutres", e com apoio da Secretaria de Cultura Municipal de Santo André.

O local, era o Parque da Juventude, uma gigantesca área livre, com um palco fixo de alvenaria e enorme, preparado para abrigar shows; comícios políticos; concentrações religiosas, e festas em geral.

Chegamos cedo ao local na nossa logística, e havíamos combinamos que pelo menos um carro particular acompanhasse o nosso ônibus, para que voltássemos para São Paulo para almoçar e tomar banho, visto que no local não havia estrutura para tal, com os camarins muito simples, apenas para aguardar poucos momentos no antes e pós show, mas sem conforto para uma longa jornada. O parque em questão fica muito próximo do estádio Municipal da cidade, onde o time profissional do Santo André manda seus jogos, e também perto do "Aramaçan", um tradicional clube que tem história na realização de shows de Rock, incluso internacionais (eu mesmo havia assistido o Deep Purple ali, uma vez, em 1997).

Ainda no soundcheck, notei a presença do produtor cultural da Secretaria de Cultura de Santo André, o Lela. Conhecia-o desde 1984, quando eu estava no Língua de Trapo e desde essa época, ele criara um bordão, sempre que encontrava-me : -"estou te devendo um show"...
Isso fazendo alusão ao fato de que havia prometido um show produzido pela Secretaria, para "A Chave do Sol", minha banda em paralelo ao Língua na ocasião, e que apresentava sinais de grande ascensão. O tempo passou, atuei por outras tantas bandas e ele continuou repetindo essa afirmação sempre que encontrava-me, mas o fato é que essa data nunca aconteceu, apesar das inúmeras vezes em que procurei-o na Secretaria de Santo André, levando-lhe material de praticamente todas as bandas por onde estive (inclusive da Patrulha) e... nada...

Assim que viu-me, veio com essa clássica afirmação em tom de bordão quase humorístico, mas não falava para fazer graça, mas sim com um certo pesar por estar em dívida comigo há quase trinta anos, mas logo fui dizendo-lhe que aquele show em específico não quitava sua dívida comigo, pois o convite para participar havia sido da Vania Cavalera, portanto, ele ainda "devia-me" uma data em algum teatro ou evento produzido pela Prefeitura de Santo André. "Bonachão", concordou comigo e até no tempo do "Pedra", muitos anos depois, eu cheguei a procurá-lo, mas essa data nunca veio, e como o reinado do PT encerrou-se em Santo André, agora é que não vai acontecer, com outro secretário, e outra equipe dominando a secretaria.

                   O presidente do Motoclube Abutres, "Pateta"
 
A ideia desse festival em específico, era homenagear o presidente do moto clube Abutres, um sujeito chamado "Pateta". Outras bandas tocariam também : "Anjo da Guarda"; "Montanha", e "Caça Níqueis". Só não conhecia o "Anjo da Guarda". Haviam mais duas bandas relacionadas, mas estavam canceladas as suas apresentações. O "Montanha" era / é, uma boa banda de orientação Hard-Rock setentista, e cujos baterista, Marcelo Fortunato, fora roadie numa turnê da Patrulha, a sofrida turnê do azar em fevereiro daquele mesmo ano. Já o guitarrista, Jean, era dono de uma das melhores lojas de CD's de Santo André, onde vendi muitos discos da Patrulha e cuja fachada era pintada como a capa do segundo disco do "Captain Beyond" ("Sufficiently Breathless", de 1973), chamando a atenção entre Rockers antenados.

E quanto ao "Caça Níqueis", conhecia o trabalho deles há anos, e sabia que eram uma banda ligada em Rock'n Roll visceral e sem frescuras, muito adequada para o ambiente dos Moto Clubes e de fato, era considerada uma banda "oficial" dos "Abutres", escalada sempre em seus eventos, como nesse caso. O "Dr. Rock", aquele simpaticíssimo agitador cultural do ABC, faria a apresentação do evento e estava uma tarde ensolarada, portanto, tinha tudo para atrair uma multidão, visto que a entrada era gratuita.

Quando voltamos de São Paulo, o "Montanha" já tocava e eu gostei do som deles, que era um Hard-Rock bem setentista e competente, tocado com raça e técnica. A seguir veio o "Anjo da Guarda", que também apresentava características de Hard "setentão", e eu apreciei, assistindo da coxia. Nuvens negras começaram a aparecer no horizonte, e o panorama começou a mudar. Víamos pessoas retirando-se aos montes do Parque, na medida em que a chuva parecia inevitável, e isso aborreceu-nos pois temíamos ter um público muito reduzido quando chegasse a nossa vez, e éramos o headliner do festival.

          Capa de um CD de trabalho autoral do Caça Níqueis

Finalmente o "Caça Níqueis" entrou no palco e fez seu show cheio de energia Rocker, e com a extroversão do vocalista "Beleza", que sabia comunicar-se com o público, principalmente essa tribo de moto clube, seu principal nicho de atuação. Começou a chover, mas não chegou a ser uma tempestade como todo mundo achou que seria. Mesmo assim, claro que afugentou muita gente, infelizmente.
Quase sete da noite e finalmente entramos. Com o horário de verão, era ainda o crepúsculo, mas a chuva parara. Porém, fatalmente o grosso do público esvaíra-se e agora restava-nos tocar para um reduzido público, que chegou a ser chato, mas fomos vítimas das circunstâncias ali. A despeito disso, fizemos nosso show praticamente normal e sem importarmo-nos com o pouco público presente num ambiente que pode comportar milhares de pessoas, e com poucos gatos pingados que não temeram a tempestade, e ficaram para ver-nos. Uma equipe de cinegrafistas filmou muitos trechos desse show, e que eu saiba, editou apenas uma música e deu-nos uma cópia em VHS, na época. Trata-se de "Não Tenha Medo", música de abertura do nosso show, desde 1999. Tem uma qualidade razoável de imagem e áudio, e já está digitalizado, portanto, a qualquer momento vai ser postado no You Tube.
Aconteceu no dia 14 de dezembro de 2002, sábado, e último show do ano para nós. Pelos cálculos da Polícia Militar, cerca de 2000 pessoas estiveram ali no horário de pico, mas quando subimos, haviam cerca de 300, dando uma visão desalentadora para nós, e no final, já escuro, havia-se reduzido ainda mais, ficando apenas poucas testemunhas que não temeram a chuva e ficaram para prestigiar-nos. Agora era entrar com tudo em 2003, e com perspectiva de um disco novo saindo do forno, finalmente.


Rodrigo Hid posando como garoto propaganda do estúdio fotográfico da fotógrafa Ana Fuccia, nossa amiga, e que muitas vezes fotografou-nos ao vivo.

O ano de 2012 foi bom para a banda, não resta dúvida. O advento do ônibus próprio possibilitou a organização das mini turnês, fazendo com que nossa agenda fosse farta em alguns momentos do ano, e claro que a despeito de estarmos excursionando num padrão underground bastante sofrido, e não como gostaríamos e merecíamos, o fato é que forjamo-nos como uma banda de Rock na estrada, driblando adversidades.

Ainda tivemos muitas matérias falando do álbum Chronophagia, que repercutia vivamente dois anos depois de lançado, dando-nos a impressão de que era uma prova viva de sua força expressiva, artisticamente falando.

Isso deu fôlego para que o atraso que tivemos para lançar o segundo álbum de nossa formação, não oprimisse-nos. Com o Chronophagia ainda suscitando assunto, essa expectativa por um novo disco não foi gerada entre fãs e críticos, e dessa forma, só nós sabíamos que tínhamos uma apanhado de novas e boas canções para lançar. Foi um ano em que ensaiamos pouco também, pois o ritmo frenético de shows manteve-nos bem preparados para tocar ao vivo e como já tínhamos um álbum novo na manga pronto para ser lançado, também não preocupamo-nos em fazer novas músicas, coisa que só aconteceria novamente em 2003. Portanto, nossa meta principal para 2003, era manter o padrão da agenda, expandindo-a se possível, e lançar um novo álbum. Como último fato de 2012, um pouco antes do Natal, recebemos o convite do guitarrista Xando Zupo, para participarmos de seu álbum solo, que chamar-se-ia "Z-Sides". Nossa participação seria com duas faixas, uma autoral; e outra, uma releitura de uma banda americana setentista que todos apreciávamos, "James Gang". Claro que aceitamos o convite, e logo no início de 2003, tínhamos esse compromisso de gravação que muito honrava-nos e dar-nos-ia prazer.


Continua...

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