Pesquisar este blog

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 13 - Vida Nova, Com Show Todo Dia !! - Por Luiz Domingues



Cumprida essa estreia, o próximo passo do Língua de Trapo seria uma micro temporada no teatro do MASP (Museu de Arte de São Paulo).
Endereço chic e geralmente destinado à música erudita ou jazz instrumental, estava abrigando-nos, e eu fico admirado como os tempos mudaram para pior nesse aspecto, pois hoje em dia (2015), é impensável uma banda fazer um show num bom teatro numa terça-feira, e na sexta subsequente iniciar micro temporada em outro, igualmente renomado, com lotação esgotada !! 
Realmente, isso foi perdendo-se e a "geração balada" tomou conta, onde os shows são mero item da noitada das casas noturnas. Mas voltando ao assunto, os shows foram realizados nos dias 18, 19 e 20 de novembro de 1983, com uma desenvoltura muito maior. Acredito que já no segundo show no Teatro do MASP, estávamos bem mais seguros, e o público curtiu do primeiro ao último minuto. 
O público pagante foi excelente, 450, 550 e 600 pessoas respectivamente, para os três shows.

 
Parece utópico hoje em dia, mas após estrearmos no TUCA, e dias depois fazermos uma mini temporada no MASP,  não passou nem poucos dias e estávamos em um outro teatro (Teatro da GV - Fundação Getúlio Vargas), fazendo mais uma temporada ! 
E nesse curto ínterim, de apenas quatro dias, outras coisas aconteceram, mostrando que o Língua tinha uma agenda incrível naquela época. Por exemplo, fizemos o último show no MASP, dia 20 de novembro de 1983, um domingo, mas na terça subsequente, dia 22 de novembro de 1983, estávamos no palco do Teatro Sesc Pompeia para participarmos da gravação do programa "A Fábrica do Som". Eu já havia apresentado-me três vezes com a minha outra banda, A Chave do Sol, nesse programa e assim, foi inevitável que assim que chegasse ao palco, gritos da plateia chamando pela Chave do Sol ecoassem, e mais uma vez criasse um clima desagradável entre eu e os demais membros do Língua. Tocamos "Xingu Disco"; "Concheta" e "Je Suis Bresillien", esta última, nova do show recém estreado. Foi ao ar no dia 26 de novembro de 1983, mas não assistimos, simplesmente porque estávamos no palco da GV fazendo soundcheck para o show dessa noite. Nunca vi uma cópia dessa apresentação, infelizmente. Surgindo alguma novidade nesse sentido, prontamente acrescento ao material disponibilizado neste Blog.
Três dias depois, 23 de novembro de 1984, quarta-feira, estávamos a noite no Teatro do Centro Cultural São Paulo. O Língua de Trapo participou de uma homenagem ao compositor Adoniran Barbosa. Eram vários artistas presentes, e cada um interpretou uma canção do velho mestre. Num sorteio prévio, coube ao Língua interpretar a canção : "As Mariposa" (sic). O Laert propôs que fizéssemos uma apresentação singela, entrando no palco e cantando-a "a capella". Dessa forma, como tínhamos mesmo pouco tempo para ensaiar, foi providencial esse arranjo apenas vocal.
Lembro-me de dividirmos o camarim com artistas como Tom Zé; Renato Teixeira; Celso Viáfora; Os Demônios da Garoa; Anna de Holanda (sim, a ex-ministra da cultura); Eduardo Gudin, e outros. 
Ficou marcante para a minha memória, a presença de Anna, pois ela teve um problema, mas que passou a tempo. O Língua entrou vindo cantando da coxia, sentamo-nos em torno de uma mesa e batucando nela, fingimos estarmos num botequim cantando a música do Adoniran. Funcionou, pois o público curtiu essa simulação de malandragem boêmia. 

No dia seguinte, 24 de novembro, quinta-feira, estávamos em outra gravação para um programa de TV. Era um programa da TV Manchete, onde chegamos a tocar cinco ou seis músicas ao vivo. 
Era gravado no pátio da faculdade de música, Santa Marcelina, no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Lembro-me de nesta tarde de gravações, estar presente também o grupo Rumo, de Luiz Tatit e Ná Ozetti. Desconheço que isso tenha sido gravado por algum abnegado colecionador no videocassete. Se alguém gravou, certamente não disponibilizou no You Tube, pois nunca vi tal material postado.
Um raro recorte de jornal que possuo em meu portfólio, dessa segunda passagem minha pela banda. Neste caso, falando sobre o show novo, estreia no Tuca e continuação da turnê, pelo Masp. De novembro de 1983. Sou o sexto, da esquerda para a direita, entre o tecladista João Lucas, e o percussionista Fernando Marconi.

Da estreia no TUCA em diante, minha vida entrou num ritmo frenético. E claro que eu adorava isso !! Não ter nem um dia de folga, era tudo o que eu queria na vida... 
E nos mínimos espaços que dispunha, eu dava um jeito de ensaiar com  A Chave do Sol, pois nessa altura, estávamos praticamente acertados com o selo Baratos Afins, e dessa forma, agendamos a gravação do primeiro disco para janeiro. E vou te contar : mesmo não sendo uma banda de Rock, Pop ou coisa do gênero, o Língua de Trapo tinha um assédio de fãs, também. Claro que isso mexia um pouco com a cabeça, inevitavelmente, e lógico, eu tinha 23 anos de idade nessa época. O próximo passo foi uma nova mini temporada em teatro, mais uma ocorrida na mesma cidade, num espaço ínfimo entre uma e outra, e em três teatros de renome. Inacreditável pensar numa coisa dessas hoje em dia (e sei que já expressei esse sentimento anteriormente na narrativa), mas fico mesmo estupefato como essa realidade mudou para pior nos dias atuais.
Nota na Revista Veja sobre a temporada Tuca/Masp/GV' 83. Infelizmente, não tenho a parte do serviço escrito. Encostados no muro do cemitério São Paulo (da face da Rua Cardeal Arcoverde), da esquerda para a direita : Nahame "Naminha" Casseb; Fernando Marconi; Laert Sarrumor; João Lucas; Lizoel Costa; Sergio Gama; Luiz Domingues e Pituco Freitas. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

E assim, lá fomos nós para o teatro da fundação Getúlio Vargas, o popular Teatro da GV. Era localizado na Av 9 de julho, próximo à saída do famoso túnel de mesmo nome, no sentido bairro / centro. 
O teatro da GV era um espaço tradicionalíssimo na cidade, com um histórico de shows memoráveis da MPB e do Rock.
Confesso que fiquei um pouco emocionado por pisar naquele palco, onde assisti diversos shows nos anos setenta. Então, a temporada do Língua ocorreu entre os dias 24 e 27 de novembro de 1983.

Fotos promocionais publicadas no Jornal Folha de São Paulo, promovendo a turnê "Sem Indiretas" pelo Tuca / Masp / GV 1983, onde usamos figurinos de diversas partes do show. Eu e o baterista Nahame Casseb, usamos os chapéus de "cowboy"...acervo e cortesia de Julio Revoredo

No dia 24, uma quinta-feira, levamos um público pequeno para os padrões do Língua : apenas 40 pessoas. Na sexta, 25, mais que dobrou, com 90. Dia 26, sábado, 430 pessoas passaram pela catraca, e no domingo, dia 27, levamos 250 pessoas. Lembro-me que nessa mini temporada, equipes de reportagem de TV apareceram para cobrir com entrevistas prévias, e exibirem matérias nos telejornais. Aliás, isso era uma constante com o Língua, que tinha uma visibilidade muito boa na mídia.
Rara foto do Língua de Trapo no teatro da GV, em 1983. Com Pituco em destaque na performance, estou na linha de trás com Naminha à bateria e Serginho Gama ao seu lado. Acervo e cortesia de Pituco Freitas

Foram bons shows, embora o teatro estivesse num clima meio decadente. De fato, não passou muito tempo, e a fundação Getúlio Vargas parou de usá-lo como espaço cultural público, e ele tornar-se-ia apenas um auditório para as atividades acadêmicas da faculdade. Não havia nem um camarim estruturado mais. Improvisavam uma sala de aulas, muito ampla, é verdade, mas sem a estrutura de um camarim profissional. Uma história engraçada dessa temporada, foi protagonizada por dois membros da banda cujos nomes não citarei, evitando constrangimentos. Foi assim : da janela desse camarim improvisado, víamos o movimento na Av. 9 de julho. Num momento de espera entre o soundcheck, e o início do show (não lembro-me exatamente qual foi o dia, mas desconfio ter sido na sexta), os colegas espantaram o tédio de uma forma inusitada.
Aproveitando-se do fato da janela ser enorme, chamavam a atenção de transeuntes na calçada mediante gritos, para em seguida abaixarem as calças e mostrarem suas nádegas despidas e "coladas" ao vidro da janela. As reações eram as mais diversas, e isso provocava um ataque histérico de risos neles, e nos demais no camarim. Só resolveram parar quando um funcionário da GV apareceu, dizendo que um senhor idoso estava reclamando na portaria, que fora ultrajado etc e tal. Claro que negaram a autoria disso, e não aconteceu nada, mas foi o sinal para pararem com a palhaçada...

Essa temporada na GV foi de duas semanas, mas nesse ínterim, tivemos um show avulso na terça-feira, dia 29 de novembro de 1983, numa faculdade em Guarulhos, município da Grande São Paulo. O Língua tinha como base o público universitário e sendo assim, eram muito comuns os shows realizados nesse circuito, geralmente contratados por diretórios acadêmicos. Nesse dia, tocamos para um público eufórico, de cerca de 900 alunos que aglomeraram-se no auditório, e foi um ótimo show, a não ser por um fato inusitado ocorrido no meio do espetáculo e que acarretaria um desdobramento dramático no camarim, e posteriormente no ônibus que levou-nos dali.
Eu estava recém reintegrado na banda, e não havia percebido nada hostil entre o Laert e o percussionista Fernando Marconi. O clima parecia bom nos ensaios e nos shows, aliás, em todos que havíamos cumprido até então. Mas nesse show, quando estávamos executando o "Samba-Enredo da XXX", vi que o Laert aproximou-se dele, que estava tocando "surdão", e falou-lhe alguma coisa no ouvido, fora do microfone. Numa fração de segundos, o Fernando mudou o seu semblante de uma forma violenta e num ato de loucura, atirou sua baqueta na plateia, saindo furioso do palco. Não sei, nem nunca soube o que aconteceu, pois as informações eram desencontradas de ambos.
O show prosseguiu, e eu tenho certeza de que o público não percebeu nada, pois se alguém olhou esse detalhe, naturalmente imaginou ser uma encenação a mais entre tantas que aquela música proporcionava a todos os membros da banda, incluso o ator Paulo Elias.
No camarim, contudo, acalorou-se e a "turma do deixa disso" tratou de acalmar os ânimos. No ônibus, uma nova discussão aconteceu e o Fernando, furioso e aos berros, comunicou que estava saindo da banda. Só sei que dali em diante seguimos como um sexteto, pois nenhum percussionista novo foi colocado em seu lugar e assim, tivemos que readaptar alguns arranjos, pois o Fernando contribuía bastante com a banda, sendo um excelente músico. 
A seguir, voltamos para completar a temporada na GV.
E diante daquela agenda frenética, não havia nem tempo para absorver uma perda, como tivéramos com o Fernando. 
Dois dias depois, já estávamos de novo no palco do teatro da GV, reiniciando a temporada de duas semanas naquele espaço. 
Era o dia 1° de dezembro de 1983, uma quinta-feira. O público foi diminuto, mas nem abalamo-nos, pois sabíamos que nos dias subsequentes, esquentaria naturalmente. Apenas 50 pessoas compareceram.
 
Fernando Marconi na primeira foto e Paulo Elias Zaidan, na segunda, ambos em fotos bem mais atuais

E o Paulo Elias acumulou algumas funções do Fernando como ator também, pois além de músico, o Fernando tinha um lado performático importante nas encenações. Já no dia seguinte, 120 pessoas pagaram ingresso para assistir-nos numa sexta-feira, comprovando a nossa expectativa de aumento progressivo, e convenhamos, em pouco mais de quinze dias, havíamos feito 17 shows, coisa que só artistas popularescos, como as duplas sertanejas fazem hoje em dia, e talvez nem eles.

No sábado, tivemos um evento extra no período da tarde. Tratou-se de um show ao vivo numa praça pública, localizada na Vila Califórnia, zona leste de São Paulo. Para quem não conhece a cidade de São Paulo, explico que fica próxima à Vila Alpina; Parque São Lucas, e Vila Ema, bairros tradicionais que cercam-na. 
Nesse show, produção da prefeitura de São Paulo, tivemos apoio logístico, um equipamento digno e esse contato gratuito (o cachet era pago pela prefeitura, logicamente) com um tipo de público não acostumado a acompanhar-nos em teatros, foi muito gratificante.
Lembro-me que foi a primeira vez que ouvi a expressão "show de choque", que servia exatamente para designar um tipo de apresentação daquele porte, onde não há condições de fazer-se soundcheck, e o tempo é limitado. Com isso, o artista toca um repertório curto, e de preferência com músicas mais agitadas, para causar uma impressão impactante, aproveitando o pouco espaço que tem para mostrar o trabalho. Dessa forma, buscando um impacto rápido e contundente, estimula o público que mal conhece-o, a querer conhecê-lo, angariando possíveis novos fãs que o seguirão em shows completos pelos teatros. Fora isso, o prazer de tocar para um público carente de opções culturais, é muito gratificante. Mesmo não conhecendo o seu trabalho, dá para ver no semblante das pessoas, o deslumbramento por esse contato impensável normalmente para eles, que ficam excluídos da cultura cara que vende-se neste país, por "N" motivos, mas não desviarei o foco da narrativa para falar disso. Esse show ocorreu na tarde de 3 de dezembro de 1983, na Praça da Paz,  perante um público de 500 pessoas aproximadamente. Foi um sucesso, e o público respondeu com entusiasmo excessivo até, pois foi difícil voltarmos ao ônibus que a prefeitura viabilizou-nos para o transporte ida e volta, e os seguranças tiveram um "trabalhinho" para ajudar-nos nesse deslocamento do palco até o veículo. Dentro do ônibus, Pituco e o Laert fizeram uma brincadeira com os fãs que cercavam-nos caçando autógrafos, deixando-os confusos, pois não perceberam ser uma performance, e diante do semblante atônito deles, nós da banda ficamos numa crise de riso que durou muito tempo, e ainda rendeu muita risada no camarim da GV, na mesma noite. 
E sim, fizemos o show noturno no teatro, normalmente, com bom público de 450 pagantes, e no dia seguinte, o domingo, encerramos a temporada na GV, com cerca de 400 pagantes. Aliás, como o Laert falava nos shows : -"não vendemos ingressos ! Trocamos ingressos do show por dinheiro, o que é bem diferente..."
Finalmente tivemos uma pausa, pois os próximos shows só foram acontecer daí a 12 dias. Mas não foi exatamente férias do Língua de Trapo, pois tivemos várias reuniões nesse período, e alguns compromissos de TV; Rádio e imprensa escrita.

E entre essas reuniões, duas foram muito importantes. A primeira era a de rompimento como triunvirato de empresários que representavam-nos. Eu estava recém reingresso no grupo, mas os tripulantes antigos estavam fartos, e contaram-me que essa insatisfação decorria de acertos financeiros, e principalmente planejamento. Pensei comigo : -" como assim" ? 
Em 15 dias fizemos uma enxurrada de shows com sucesso; cachets legais; cobertura de mídia...qual a bronca ??
Então, vários Línguas falaram-me em conversas reservadas, que o antigo empresário que tinham anteriormente, era muito melhor etc e tal. E essa conversa era praticamente unânime, segundo apurei. Um membro chegou a dizer-me que se ele voltasse, aí sim o Língua deslancharia, com direito a entrada em gravadora multinacional (sonho de realização de qualquer artista naquela época) etc etc. 
Sendo assim, como membro, tinha direito a voto, mas nem que eu fosse contra, conseguiria mudar a decisão da maioria esmagadora e assim, foi resolvido a não renovação de contrato com o triunvirato de empresários, deixando o caminho aberto para convidar o antigo empresário, com quem sonhavam voltar a trabalhar. Então, numa segunda reunião, fomos em peso à casa desse empresário, para formular o pedido para que ele voltasse a trabalhar conosco. Eu apenas confiava na percepção dos demais que já conheciam-no, e nessa perspectiva, torci para dar certo, confiando que seria o melhor para a banda. Não sei precisar o dia exato em que essa reunião ocorreu. Foi seguramente no início de dezembro de 1983.
O nome dele era Jerome Vonk.
Jerome Vonk, o grande "Holandês Voador", empresário e "um de nós" 

Um rapaz jovem, "descolado", como diz-se hoje em dia, extremamente inteligente, e apesar da pouca idade, com uma admirável bagagem pessoal na música.

Holandês de nascimento, mas criado em São Paulo, falava português sem sotaque algum, pelo contrário, tinha/tem sotaque de paulistano. Poliglota e viajado, trabalhara com Claude Nobs, o organizador do famoso Festival de Jazz de Montreux / Suíça, principalmente como produtor / tradutor de artistas brasileiros na noite brasileira, tradicional naquele festival. Ele aceitou voltar a trabalhar com o Língua, apesar de ter feito uma pedida de porcentagem maior do que cobrava em sua primeira passagem, mas era algo aceitável e dentro dos padrões normais do meio. Todos comemoraram essa volta dele, e pelo que percebi, realmente tratavam-no como um membro da banda, tamanha a camaradagem que tinham com ele. Também tornei-me rapidamente seu amigo, e relatarei doravante, histórias boas sobre a sua passagem pela banda.
E falo dele, também nos capítulos de outras bandas onde toquei. 
Tem histórias do Jerome com A Chave do Sol; Pitbulls on Crack e Patrulha do Espaço. 

O primeiro cartão de visitas que todos receberam de Jerome, para ter sempre no bolso, quando fôssemos abordados por pessoas interessadas em estabelecer contato para shows.

E com a batuta nas mãos do Jerome, deu para notar inicialmente que os companheiros que antes estavam bem incomodados com o triunvirato anterior, superaram a sensação de mal estar com esse rumo gerencial da banda. Agora estavam muito mais aliviados e motivados, naturalmente trazendo maior rendimento ao trabalho.
          O produtor Claude Nobs, do Festival de Montreux

O Jerome era (é) um rapaz de cultura sofisticada. Poliglota, com gosto refinado para Classic Rock; Blues e Jazz principalmente, tinha essa experiência adquirida por ter trabalhado com Claude Nobs, no Festival de Montreaux. Por falar português fluente e sem sotaque, era homem de confiança de Claude Nobs, para lidar com os artistas brasileiros. E segundo o Jerome, os brasileiros eram os que tradicionalmente davam mais trabalho no Festival, por falta de profissionalismo, e até de educação básica nos fatores extra musicais. Dessa forma, Nobs tinha confiança em Jerome, pois mais que falar português fluente, o Jerome conhecia bem a cabecinha dos brasileiros e suas malandragens; "jeitinho", "gambiarras"...

Sob nova direção empresarial, estreamos numa nova micro temporada no Teatro Elis Regina, em São Bernardo do Campo, no dia 16 de dezembro de 1983, com um público apenas razoável de 180 pessoas. No dia seguinte, 18 de dezembro, as coisas melhoraram, com 260 pessoas passando pela bilheteria, e no domingo, dia 19 de dezembro de 1983, a bilheteria foi "gorda", com 400 pagantes. Nesses shows, lembro-me de ter tido contato direto com o dinamismo que era estar no Língua de Trapo, pois a notícia da semana era o falecimento do cantor popular, Altemar Dutra. 
Rápido no gatilho, o Língua criou um texto, e o Marcelo com aquele vozeirão de locutor, gravou uma vinheta de áudio que foi inserida especialmente para essa ocasião.
Usando a música "Happy Christmas" (The War is Over), do John Lennon, como "BG", a locução falava de um artista que "partiu" no mês de dezembro, e que sonhava com a paz, o amor etc etc. 
Aquilo ia envolvendo e induzindo as pessoas a pensarem no Lennon, mas ao final o Marcelo, falava algo como , "Adeus Altemar..." e o Teatro desabava pela surpresa inusitada. 
Nada contra o Altemar Dutra (perdão pela galhofa, inclusive), mas que a surpresa era hilariante, sem dúvida que era...

Nessa altura dos acontecimentos, com um mês tão intenso, o show estava ajeitado e decorado. Era a prova cabal de que na base da prática, realmente consegue-se fazer qualquer coisa que numa primeira leitura parecia muito complexa. Então, confiante e perfeitamente adaptado, fui começando a ter condições de criar, improvisar, à medida que sentia-me mais seguro.
O Laert e o Pituco perceberam as minhas asinhas expandindo-se, mas gostaram, pois enfim, estava adaptado, ou readaptado à banda. 
Fizemos muitos programas de rádio e TV, mas como tive o despropósito de não anotar nada em relação à isso, vou comentar logo mais sobre alguns apenas, e de forma imprecisa, sem datas corretas. E seguindo a cronologia, o próximo passo foi uma micro temporada no Teatro Lira Paulistana.
Foi a primeira experiência para mim nesse teatro, que era muito famoso em São Paulo, por abrir espaço para artistas independentes. 
Naturalmente, o Língua de Trapo era uma prata da casa para os donos do Lira, pois o primeiro LP do Língua fora gravado pelo selo pertencente ao teatro, e o espaço em si, foi um dos agentes responsáveis pelo catapultar da banda à uma condição de sucesso.
O Língua era membro do seleto grupo de artistas que dentro do Teatro Lira Paulistana, criou uma cena artística que a imprensa batizou de "Vanguarda Paulista". Além do Língua de Trapo, faziam parte dessa turma, Arrigo Barnabé; Itamar Assumpção; Grupo Rumo; Tiago Araripe; Premeditando o Breque; Paranga; Tetê Spíndola, e outros. Portanto, o Língua tinha uma história dentro daquele espaço minúsculo, porém importantíssimo para a cultura paulista / paulistana e brasileira, naquele período entre 1979 e 1986, enquanto existiu.
O Lira Paulistana ficava localizado na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Era uma porta tímida no quarteirão, em frente à praça Benedito Calixto. Perto de uma agência bancária, uma padaria, um hotelzinho pulgueiro de terceira categoria, e vários estabelecimentos comerciais que às 18:00 h, fechavam as portas.
Mas sua fama era tanta, que conferia vida noturna ao quarteirão. As filas costumavam dobrar a esquina da Rua Teodoro Sampaio com a Av. Henrique Schaumann. E o teatro tinha shows praticamente de segunda a segunda. Logo no primeiro dia, o guitarrista Lizoel Costa  disse-me : -"agora você vai conhecer as paredes que suam..."
Nota na Folha de SP, com direito à foto clicada no próprio Teatro Lira Paulistana, na mesma temporada, de dezembro de 1983. Estou indicado por uma seta feita com caneta esferográfica, tocando entre o Naminha e Lizoel Costa, e tendo o vocalista Pituco Freitas à minha frente. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

Ele tinha razão, e não exagerou, pois o vapor gerado pela respiração coletiva, fazia as paredes pingarem, literalmente. Nessa primeira micro temporada, tocamos quatro dias. Os shows aconteceram nos dias 27; 28; 29 e 30 de dezembro de 1983.
O público foi excepcional, em se considerando que o Lira Paulistana era um teatro "pocket", com capacidade mínima. Portanto, respectivamente, levamos 300 pessoas no dia 27; 320 em 28;  340 no dia 29, e 380 no dia 30.
Uma maquete mostrando como era o Teatro Lira Paulistana

O Lira era um porão, literalmente. A pequena porta na rua Teodoro Sampaio não demonstrava a quem não sabia, que ali a arte & cultura borbulhavam todas as noites. O espaço para o público era constituído de três arquibancadas de madeira, e o palco ficava muito próximo das pessoas. Ali não tinha como disfarçar nada, pois o público via tudo.
Nota da Folha de SP, desta feita usando uma foto promocional. Não tenha o serviço escrito. Sou o primeiro, da esquerda para a direita. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

Artistas que sofriam de "stage fright", não suportariam apresentar-se ali. Foi uma experiência muito legal ter esse primeiro contato com o mítico teatro, e alguns meses depois, tornar-se-ia quase um espaço permanente, de fato, pela quantidade de vezes que tocamos lá, e no futuro, seria também muito importante para a minha outra banda, A Chave do Sol.
Como se não bastasse a quantidade enorme de shows que fizemos em pouco mais de 40 dias, o Jerome encaixou-nos num show ao ar livre no Reveillon. Chamado "Reveillon no Bexiga", tratou-se de um show de choque que fizemos num palco armado na Rua Rui Barbosa, no bairro do Bexiga, em frente à tradicional cantina "C Que Sabe". Segundo estimativa da polícia militar que cobria o evento, haviam cerca de 3 mil pessoas no local. Claro, era produção da Secretaria Municipal de Cultura. Tocamos por volta das 22:00 h., e além do Língua de Trapo, apresentaram-se também o "Premeditando o Breque", e o "Paranga", para no final, como festa de Reveillon, tocasse um trio elétrico pelo resto da noite.

Mas certamente não era ninguém muito conhecido, pois nesse caso, eu me recordar-me-ia. Foi um show animado, apesar de que em shows de choque, e sem entender o contexto do trabalho do Língua de Trapo, o público não avisado tendia a não compreender de pronto a questão satírica. Ainda mais num show gratuito de rua, e em meio à dispersão natural de um Reveillon. Mesmo assim, lembro-me que foi bem legal, dando-nos a sensação de dever cumprido, e o foguetório da virada de ano, parecia comemorar o ótimo final de ano que a banda teve, com o novo show indo muito bem, e prenunciando que 1984 reservar-nos-ia muitas surpresas boas.
Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário