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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 5 - Língua de Trapo é o nome dessa Banda - Por Luiz Domingues


Após o show ao ar livre na Estação São Bento do Metrô, e por termos definido um nome para a banda, partimos para um projeto novo que dar-nos-ia novo impulso : a gravação de uma fita demo, não para levar em gravadoras, mas para vender de mão em mão nos shows, dessa forma a obter lucro para a banda, e ao mesmo tempo, tratar de espalhar o trabalho de forma mais abrangente. Além do mais, como nesses primeiros tempos raramente tocávamos com equipamento minimamente profissional, o grande trunfo de nosso trabalho estava mal explorado, isto é, as letras com forte apelo satírico; duplo sentido e com uma dose generosa de sarcasmo etc. 
Dessa forma, sentíamo-nos frustrados com essa deficiência técnica que prejudicava o entendimento de nosso trabalho, e a ideia em ter o material gravado, seria uma solução e tanto. E outro aspecto interessante e inerente à época, foi o fato de que ninguém sonhava em lançar um disco independente naquele momento. Ou você era contratado de uma gravadora, ou era considerado um artista "amador". 



Naquele ano de 1980, havia apenas dois discos lançados no mercado, de forma independente (o do tecladista, Antonio Adolfo, "Feito em Casa", que fora lançado em 1977, e o da Patrulha do Espaço, em 1980, mesmo) e assim, gerou grande polêmica, pois até ameaça de processo tais artistas sofreram, sob a estapafúrdia alegação de que "violavam os direitos exclusivos da áudio difusão da indústria fonográfica"...

Equivaleria dizer em 1888, que os escravos violavam o direito dos fazendeiros explorar suas terras sem o ônus de ter que pagar salários aos trabalhadores, portanto, a tornar a libertação, um ato antieconômico... 


Então, gravamos entre os meses de outubro e novembro de 1980, no estúdio de ensaio da banda, "Cia. Ilimitada", que atuava na noite, a tocar covers. Esse estúdio cresceu, e sendo propriedade do tecladista, De Boni, que tocou com “O Terço” nos anos 1990, e que tocava no Cia. Iltda., naquela época. Foram gravadas dezoito músicas, sob um esquema ao vivo, com pequenos overdubs, apenas. Era uma demo sem muito requinte, mas que servia aos propósitos, e cabia no modesto bolso da banda. Feito isso, pensamos numa embalagem criativa, barata, e batizamos essa fita com o nome : "Sutil Como um Cassetete". 


De volta a falar sobre a escolha do nome nova da banda, Língua de Trapo, cabe aqui uma explicação : realmente, esse nome foi escolhido por simbolizar a língua afiada, plena com corrosão ácida, para criticar através do humor, a política, sobretudo. E a ideia foi tirada de um verso da música, "Dá Nela", de Ary Barroso e Francisco Alves. 
            O grande Ary Barroso, em foto extraída da internet
 
Nessa música (interpretada pelo cantor Francisco Alves), uma marchinha de carnaval de 1930, conta-se a história de uma pessoa que tem o mau hábito de falar mal da vida alheia. E ela foi usada como vinheta na turnê do primeiro disco entre 1982 / 1983. Antecipo um pouco a cronologia, quando eu voltei ao Língua de Trapo, em outubro de 1983, e ainda peguei o final dessa turnê ("Obscenas Brasileiras"), e cheguei a estar em cena com ela, pois era a hora da apresentação da banda, onde a música servia como “background” para um texto satírico, onde cada componente era apresentado, todos perfilados em fila indiana.
E ainda a falar da marcha carnavalesca, "Dá Nela", cujo verso a citar o termo, "Língua de Trapo", que inspirou o nome da banda, devo alertar a quem for ouvi-la, que a parte cantada só começa lá pelo segundo minuto, apesar de ser uma marchinha carnavalesca, bem curta. Inacreditável tal conceito em 1930, onde o maestro arranjador tenha feito uma introdução instrumental tão longa. Certamente antecipou visionariamente o conceito, "progressivo", em quase quarenta anos...
Então, sem dinheiro e sem parentes importantes, como dizia o Belchior, criamos uma embalagem inusitada para acompanhar a fita K7 : um saco de papel de supermercado, todo amassado e com um carimbo barato, onde colocávamos o nome da banda e da demo : "Língua de Trapo - Sutil Como um Cassetete". A manufatura desse material foi lenta. A reprodução das fitas foi caseira, feita na casa do Carlos Melo, que tinha duplo deck; e a confecção das capas, xerocada e com o acréscimo de uma de uma gravata recortada de retalho, em forma de língua. Literalmente uma língua de trapo...
Programa do show "Solitário", do cantor, Pituco Freitas, realizado no Teatro Gazeta, em 8 de novembro de 1980 

Nesse ínterim, para encerrar aquela série de shows solos, desta vez foi o vocalista, Pituco, que resolveu apresentar-se. A banda que acompanhou-o foi mais elétrica, comigo no baixo; seu irmão, Pitico na guitarra (ele tinha uma bela guitarra, Gibson Les Paul, preta); Celso Mojola ao piano; e um baterista, chamado, Edson "Kiko". O show foi batizado como "Solitário", e foi realizado no Teatro Gazeta, em 8 de novembro de 1980, com um surpreendente público de cem pessoas, aproximadamente. 
Esse show ocorreu no inusitado horário das onze horas da manhã, e no mesmo dia, por volta das dezessete horas, o Língua de Trapo participou pela primeira vez de um programa de TV (sem contar o jornalismo da Band, um mês antes). Foi o programa Dárcio Campos, da TV Bandeirantes e gravado no próprio Teatro Bandeirantes, a tratar-se de um comunicador brega, que tinha um bordão ridículo : "Geração Shanti", com a mão a fazer uma saudação “vulcana” do Sr. Spock, do Star Trek...
Íamos ser submetidos a um júri, e defendemos a música "Tragédia Gramatical". Ao final, vencemos o outro concorrente por três a dois e o voto de minerva foi da cantora Elizabeth “Tibet” Queiroz. Seu comentário foi hilário : -"vou votar no Língua de Trapo, porque a letra deles é incrível, embora não diga absolutamente nada"...
Caímos na risada na hora, mas acho que ela não ligou-se na bobagem que havia dito. Nos anos noventa, já amigo dela, eu contei-lhe essa história pitoresca, e ela mostrou-se surpreendida, por não lembrar-se de nada...
Infelizmente não tenho, e desconheço quem tenha uma cópia dessa aparição, no programa, Dárcio Campos. Isso porque ninguém tinha videocassete, praticamente. Inclusive não havia disponível no mercado brasileiro, na época (só começaram a fabricar em 1982, aqui no Brasil). Talvez os mais abonados possuíssem-no, mas era raríssimo. A não ser que algum abnegado tenha gravado na época, realmente não existe esse registro.
Mas essa hipótese é remota, mesmo porque, os poucos que tinham esse aparelho, dificilmente assistiriam o programa Dárcio Campos em um sábado a tarde, e interessar-se-iam em gravar uma obscura banda, como era o Língua de Trapo naquela ocasião, convenhamos...
E tenho dúvida se a TV Bandeirantes tenha esse material arquivado. Naquela época, as fitas de vídeo tape eram importadas, e muito caras. As emissoras de TV costumavam gravar por cima, para otimizar o uso das fitas. É sabido por exemplo, que centenas de jogos de futebol foram apagados para que a TV Tupi pudesse gravar novelas, por exemplo. Por isso que o acervo de gols do Pelé é tão pequeno, infelizmente. Fora dessa improvável hipótese, só na memória, mesmo. Bem, na minha com certeza, muito provavelmente na do Laert, que tem excelente memória, e sempre foi minucioso com a preservação de tudo a respeito de sua carreira, igualmente, mas quanto aos demais... não posso garantir nada.
E mesmo ao estarmos em um ridículo programa de calouros brega, no meu caso teve um sentido especial tocar naquele palco (para o Laert, também), pois ali aconteceram shows históricos do Rock e da MPB nos anos setenta. Tive esse momento de reflexão interna, enquanto tocava. 

Após essa primeira aparição num programa de TV (com a devida ressalva que havíamos tido uma reportagem de um show ao vivo na estação São Bento do Metrô, e já relatada anteriormente), a preocupação agora, seria lançar a fita demo com um show bem feito. Mas antes disso, começamos a vender a fita com aquele acabamento caseiro, que expliquei em capítulo anterior. E foi um estouro de vendas. Praticamente a nossa Faculdade inteira comprou, e muita gente oriunda de outras faculdades; amigos; parentes, e conhecidos. 
O grande Carlos Melo (Castelo), colaborador do Língua de Trapo, desde os primórdios da banda

Lembro-me que chegou-se a um ponto, onde o Carlos não suportou a demanda em reproduzir em seu equipamento caseiro, e aí tivemos que encomendar cópias em estúdio, a encarecer um pouco a produção, mas valeu a pena pela quantidade.
Lançamos no início de dezembro de 1980. Eu saí da banda ao final de janeiro de 1981, e até quando permaneci, havíamos vendido mais de mil e trezentas fitas. Um estouro total se levarmos em conta que foi uma produção amadora, sem divulgação, e sem respaldo profissional, algum. De forma artesanal, e vendida no tète-a-tête, esse número pode ser considerado fabuloso.
Sobre a quantidade de músicas nessa fita, era enorme. Gravamos dezoito músicas, o que tornava a missão cansativa. O resultado final, ao considerar-se que fora uma gravação ao vivo, e com ambiente sem separações (a não ser alguns biombos, e portanto não evitou-se assim os vazamentos), ficou razoável. 
Em quatro canais, na mixagem foi inevitável o processo de redução. E no processo final, o estéreo armazenado sob uma arcaica fita K7, com seu indefectível chiado. Apesar disso tudo, a qualidade agradou-nos e o sucesso de vendas comprovou a aprovação do trabalho. A base do repertório foi usada posteriormente na gravação do primeiro LP oficial do Língua. Isso ocorreu em 1982, mas eu não estaria mais na banda nessa ocasião. Só voltaria em 1983...
O último show do Língua de Trapo em que atuei nessa minha primeira passagem, foi o do lançamento da fita demo, "Sutil Como um Cassetete". 

Ainda haveria uma participação em Festival, a concorrer, mas show mesmo, esse foi o último, dessa primeira passagem pela banda. Nesse show, de fato, estávamos a lançar a fita,
mas as vendas começaram para valer só no início de dezembro de 1980, pois o processo de duplicação foi absolutamente amador e caseiro, e com o estouro nas vendas, tivemos que contratar um serviço profissional. Então, nesse show, que ocorreu no dia 19 de novembro de 1980, eu já havia comunicado à banda que havia tomado a decisão em sair e o músico / jornalista (na época, ainda estudante como todos nós, da mesma Faculdade Cásper Líbero), Ayrton Mugnaini Jr. esteve presente, já a demonstrar ter tirado todas as músicas, para entrar na banda, ao substituir-me. Ele é um gênio, sendo o músico / jornalista com conhecimentos mais enciclopédicos que conheci na vida, tanto que tornou-se um grande crítico musical, logo que formou-se, ao escrever em jornais de grande circulação; revistas especializadas; programas de rádio e nos dias atuais também pela Internet em blogs; sites e plataformas virtuais as mais diversas. O show foi realizado em uma casa noturna chamada, “790”, que todo mundo chamava como "Sete nove zero", assim, separadamente, localizada no bairro do Itaim-Bibi, zona sul de São Paulo. Teve um público pequeno, com apenas trinta pessoas, mas foi em um dia útil, e além do mais, estava fora do circuito normal que o Língua frequentava, no ambiente universitário. 

Continua...

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