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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 12 - O Dia da Estreia, ou melhor...Reestreia !! - Por Luiz Domingues

Essa foi a filipeta que foi usada como plataforma de divulgação do show de estreia da nova turnê do Língua de Trapo, em 1983


E chegou o grande dia da estreia !!
Antes de falar disso detalhadamente, preciso contar coisas paralelas. Primeiro, alguns dias antes, tive que administrar o primeiro conflito Língua de Trapo x Chave do Sol. 
É que para a sorte da Chave do Sol (que ascendia a olhos vistos, graças as performances vitoriosas em duas edições do programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura), a banda recebeu o convite para participar de uma edição especial do programa, onde supostamente os artistas mais pedidos tocariam numa edição especial, numa grande festa no Circo Anhembi, no pátio do pavilhão de exposições do Anhembi. O que eu não esperava, era a data da gravação desse programa especial : 15 de novembro, dia da estreia do novo show do Língua de Trapo no TUCA...

Já tornara-se um "clima" explicar que eu tocaria no mesmo dia, e pior ainda sabendo que mesmo esforçando-me para tocar com a Chave, e ir voando para o Tuca, evidentemente estaria sujeito a atrasos, visto que não haveria nenhuma garantia de que tudo funcionasse a contento na gravação da TV Cultura.
E mesmo que tudo ocorresse dessa forma, o Circo Anhembi ficava montado no pátio do Anhembi, na zona norte, e o deslocamento até o Tuca, nas Perdizes, zona oeste, seria temerário pela questão do trânsito etc e tal...

Os "Línguas" aceitaram, pois sabiam que era importante para A Chave do Sol, e não queriam contrariar-me logo de início, mas ficaram apreensivos.
E tinham toda a razão, pois não era um show comum (e mesmo que fosse...), mas sim uma estreia de um show inteiramente novo, e onde haveria um grande público, com a presença de importantes jornalistas para cobrir o novo trabalho do Língua. Isso sem contar a imprudência em não estar tranquilo, pelo menos duas horas antes no camarim, sabendo que a parte técnica estava sob controle com meu amplificador, meu baixo afinado etc etc. Eles tinham toda a razão em preocupar-se, mas eu não poderia recusar o convite, pois A Chave do Sol estava crescendo, e não poderia perder mais essa chance na TV, com uma audiência daquelas...

O segundo aspecto em relação a este show, era o próprio teatro em si. O Tuca, era o Teatro da Universidade Católica, anexo ao campus da Pontifícia Universidade Católica. Foi um teatro histórico para São Paulo por muitos anos, com uma infinidade de peças teatrais importantes ali encenadas; shows musicais de grandes artistas da MPB; Rock, e outras vertentes musicais (o famoso show "Divino e Maravilhoso" dos Tropicalistas em 1968, só para citar um...), além de uma série imensa de palestras, congressos e eventos em geral. 

Mas aí veio a ditadura, e as manifestações estudantis no campus da PUC, começaram a ser reprimidas. Em 1977, num dos mais truculentos episódios dessa fase, o campus foi invadido pela tropa de choque da polícia militar, e o "cassetete cantou", com dezenas de feridos, inclusive alguns com muita gravidade (eu conheci uma garota que sofreu queimaduras terríveis nesse dia). 

Tempos depois, o teatro pegou fogo, "misteriosamente". Ficou anos fechado, e num esforço muito grande, finalmente, mesmo ainda não concluída a sua reforma completa, foi liberado para abrir suas portas novamente. E qual artista teria essa honra de estar no primeiro espetáculo após esse hiato ? Sim, era o Língua de Trapo, nesse show de 15 de novembro de 1983. E como agravante, ainda estávamos na ditadura, e o Língua de Trapo tinha uma imagem de "esquerdista". Boatos alarmistas diziam que haviam pessoas descontentes com a reabertura do teatro... 

Não aconteceu nada, mas mesmo enfraquecida e quase acabando, a ditadura sempre era ameaçadora no tocante ao exercício da livre expressão artística. Então, era esse o ambiente para o show, com toda a apreensão do Língua pela estreia; esse temor velado por causa do Tuca ser reaberto para o descontentamento de alguns entusiastas da ditadura vigente, e o stress a mais que eu causei, ao assumir um compromisso com outra banda, no mesmo dia da minha estreia oficial na banda. Havia, portanto, tensão no ar...

Consegui chegar em cima da hora no Tuca, após apresentar-me com A Chave do Sol, no programa da TV Cultura, "A Fábrica do Som". 

Essa parte, sob o ponto de vista da Chave do Sol, conto lá no capítulo conveniente dessa banda. 
Esbaforido, e com a adrenalina do show para 2000 pessoas que acabara de fazer, tinha que acalmar-me e entrar na egrégora do show do Língua, e com todas aquelas marcações teatrais; trocas de roupas, vinhetas etc etc. Começou o show, e a casa estava lotada. 
Não me lembro do borderô oficial, mas os 1000 lugares liberados pelos bombeiros (a casa tinha 1800 lugares, mas por motivo de segurança, os bombeiros só liberaram 1000 lugares, com a obra ainda inacabada, da reforma), estavam preenchidos.

Havia uma certa tensão no camarim, pela estreia, algumas indisposições com os empresários (naquela época, era um triunvirato formado por dois rapazes e uma moça, cujo escritório se chamava "D.D.M.", provavelmente a inicial do nome de cada um).
E claro que não apreciaram verem-me chegando em cima da hora, esbaforido e adrenalizado pelo outro show. Eis que o momento chegou, então.
Tocou o terceiro sinal da plateia; a luz apagou e começou a vinheta de super-8 qua abria o show. 
Da coxia, ainda esperando a hora de entrar no palco, já ouvíamos as primeiras risadas. No filme, havia uma colagem de cenas absurdas, protagonizadas pelos membros do próprio Língua, e vários agregados da banda, que foram usados como "atores", também.
Como já contei algum tempo atrás, não haviam cenas comigo, pois esse processo estava sendo feito há meses, e não contavam com a saída da banda, do baixista Luiz Lucas. O que fizeram de improviso, foi uma nova edição, onde o Louis Chilson cortou as cenas em que o Luiz Lucas aparecia, mas sem chance de produzir novas imagens com a minha pessoa. Esse começo era bem estratégico, pois o público já esborrachava-se de rir, quebrando qualquer tensão. Quando entrávamos no palco, o público já tinha rido muito, mas iria rir muito mais...
E antes que eu prossiga, preciso salientar que nem tive tempo para dimensionar o que eu sentia ao estar no palco com meu velho amigo Laert novamente, pois a adrenalina daquele dia foi enorme, por todos os motivos que já expus. O que foi notória, era a mudança da água para o vinho que o Língua de Trapo havia tido. Quando eu saí no início de 1981, a banda fazia pequenas apresentações sem estrutura, ou no máximo, participando como concorrente em festivais. Agora, estava no Tuca lotado, cheio de fãs do trabalho, jornalistas etc. Teve "barulho" na mídia sobre o show etc etc.
Era uma diferença brutal, e num curto espaço de tempo.
Em relação à apreensão gerada, sim, claro que havia tensão. Era uma situação que suscitava melindres por todos os lados, e tudo girando em torno de minha pessoa, infelizmente. Eu precisava estar atuando nas duas bandas simultaneamente naquela época, e é claro que isso provocava indisposições entre todos. Fora isso, realmente, haviam boatos de que o regime militar não estava contente com a reinauguração do TUCA. E o Língua de Trapo não despertava nenhuma simpatia dessa gente do "direita, volver..." 
Quando cheguei ao camarim do Tuca, estava atrasado, e logo na estreia...claro que não brigaram diretamente comigo, mas dava para sentir no ar a desaprovação geral. E nesse caso, eles tinham razão, assim como os companheiros da Chave do Sol, que também incomodaram-se com os transtorno que  causei-lhes, tendo que pedir à direção do programa "A Fábrica do Som ", para A Chave do Sol apresentar-se antes, e sair correndo como um louco...
Quanto ao trajeto, até que foi tranquilo, porque era feriado de 15 de novembro. A cidade estava vazia, e essa foi a minha sorte.
Sinceramente não lembro-me de quanto tempo demoramos para chegar. Acredito que foi menos de meia hora, e o grande problema foi mesmo ter saído atrasado do Circo Anhembi.

O set list da estreia era formado pelas seguintes músicas :
 

1) Pensamento positivo
2) Je suis bresilien

3) Amor à vista

4) Deve ser bom

5) Benzinho

6) Samba do inferno

7) Country os brancos

8) Toada da subcultura

9) Na minha boca (Puro resgate, pois era do repertório do Boca do Céu, em 1977 !!)

10) Crocodilo

11) Conspurcália

12) Samba enredo da TFP

13) Jogo sujo

 

Além dessas canções, músicas como "Concheta"; "Xingu Disco"; "Vampiro S/A"; "Régui Espiritual"; "O que é isso companheiro ?", e "Prazer", entre outras que eram bem conhecidas do público, e que faziam parte do primeiro LP, ficavam na manga, como opções de "bis", num primeiro instante, mas a partir do momento que a turnê começou, voltaram a fazer parte do set list do show, pois não dava para ficarem de fora.
Fazer um show só com canções inéditas não era confortável para o público, que tende a só gostar de músicas já absorvidas e decoradas na cabeça. E também músicas novas que funcionaram melhor, foram sendo incorporadas, como "Fado da Falência", por exemplo, onde a mise-en-scené era hilariante, e eu relatarei no momento oportuno, pois essa música só entrou algum tempo depois no set list.
Além das vinhetas de áudio disparadas, havia um elemento a mais na trupe, que era o Marcelo Lopes. Ele entrava em diversos momentos estratégicos, com intervenções sensacionais, e que levavam o público ao delírio.

Também mais para a frente, falarei sobre o papel do Marcelo, visto que tornou-se um elemento importantíssimo para que ganhássemos mais dinheiro, de uma forma inusitada...
Quando for contar sobre a temporada no Teatro Lira Paulistana, será o momento de abordar isso. 
Na foto promocional acima, sou o segundo, da esquerda para a direita, entre Fernando Marconi e Nahame Casseb. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

Voltando ao show de estreia no Tuca, digo que todos erramos em algumas marcações, por conta de ser um show totalmente novo, mas eu em específico, errei mais, pela inexperiência nesse formato de espetáculo teatralizado, onde só tocar e / ou cantar não bastava, mas era preciso uma noção "extra", de ator, para poder atuar condizentemente.
O show começava com o Marcelo Moraes fazendo locuções, ainda com o público entrando, e acomodando-se nos assentos do teatro.
Com humor e soltando brincadeiras de improviso, já arrancava as primeiras risadas. Quando as luzes apagavam-se, iniciava-se a exibição do filme Super-8, comandado pelo cineasta Louis Chilson.

O cineasta e colaborador do Língua de Trapo, Louis Chilson

As pessoas já matavam-se de rir com as cenas nonsense nele contidos, com os membros da banda, menos eu (já expliquei o porque da minha ausência), e alguns atores convidados. O público já morria de rir. Enquanto estava na metade da exibição, já entrávamos no palco e posicionávamo-nos, pois assim que terminava, tocávamos a primeira música do show. O Laert e o Pituco nem começavam a cantar e as pessoas já estavam às gargalhadas, pois nós entrávamos usando um ridículo uniforme.
O boneco "Brasilino", garoto propaganda de uma loja de móveis populares que fazia bastante propaganda na TV em São Paulo, nos anos setenta a divulgar a "Fábrica de Móveis Brasil"

Com terno verde e amarelo, parecíamos "Brasilinos". E a primeira canção era "Pensamento Positivo", uma sátira à literatura de autoajuda. E notem que em 1983, essa literatura nem tinha essa denominação, e prateleiras exclusivas nas livrarias...
Portanto, é citada a revista "Acendedor", uma publicação de pensamentos edificantes e positivos, que era / é difundida pela seita oriental, "Seicho-no-iê". 

Após o término dessa canção, uma nova inserção de Super-8 permitia-nos sair de cena, onde livrávamo-nos do ridículo terno, e voltávamos todos de branco, como verdadeiros "pais de santo". 
Com essa roupa neutra, passávamos o restante do show com a possibilidade de pequenas trocas menos radicais, facilitando o entra-e-sai do palco. Tocávamos então "Je suis Bresilien". Nessa canção que tinha típica sonoridade de música francesa, a letra era absurda, satirizando a vida de um brasileiro que vive em Paris, "trabalhando" como travesti nas ruas.
Essa foto acima, é um "still" de uma apresentação do Língua de Trapo na TV, onde o vocalista Pituco Freitas interpretava o Travesti bresilien, nas ruas de Paris... 

O João Lucas que tocava acordeon bem, pilotava-o, tirando uma sonoridade bem francesa, e usando adereços como boina e colete, ficando mesmo com jeito de músico parisiense. Os demais permaneciam com o mesmo traje todo branco, e o Naminha, baterista, também colocava uma boina e usava uma piteira enorme.



A morbidez absurda dessa letra ("Pensamento Positivo"), aliada ao sarcasmo, remete às melhores gags da "Família Adams", ou dos "Monstros", de Herman; Lily, Vovô & Cia. !!
 
"Pensamento Positivo"(Carlos Melo / Perfídias Fraudis):

Minha namorada
Eu vim te confessar
Que eu tenho câncer
No duodeno e no pulmão
Isso não é nada
Vamos comemorar
Eu tenho 15 dias de vida, coração
Olhe, minha amada
Pensamento positivo
Porque da vida já retirei o que preciso
Eu aprendi
A dar valor ao essencial
Como à uma flor
E a um bom disco do Simonal
Por isso eu peço a você
Leia o "Acendedor" da Seicho-no-iê
É melhor que CVV...

"Je Suis Bresilien"(Carlos Melo)

Je suis bresilien
Je suis bresilien
Mais j'habite a Paris
Et je travaile
Et je travaile
Como travesti

Rodo bolsinha na tour Eifell
Meu codinome é Madame Margot
Chega o freguês, levo pro hotel
15% pro gigolô
Lá no Brasil eu só bebia
Vinho Chateau du Valier
Aujord'hui bebo champagne
Como aumentou o meu michê

La politique et la prostitute
Sont tout la même chose
Vejam o exemplo do Miterrand
É socialiste mas só faz pose... 
 
A seguir, enquanto terminávamos a canção francesa, o Laert já estava preparado para voltar em cena. Ele voltava vestido de Rocker dos anos sessenta, e nós tocávamos um blues chamado "Amor à Vista". 
Nessa canção, ele colocava todos os seus gritos hippies para fora, evocando suas raízes, e eu gostava demais de tocar essa música, por várias razões :
1) Primeiro, porque era um Blues lindíssimo, muito bem composto, e como o arranjo era dramático, evocava Janis Joplin e Joe Cocker, sobretudo.
2) Era também era um momento raro, onde alheio à sátira que permeava o trabalho todo do Língua, a música era tão bonita, e tão cheia de vibrações dos sixties, que eu adorava aquela epifania até a última gota.
3) Apesar de tudo isso que citei, enquanto piada, funcionava muito bem, pois era uma letra brilhante do Laert, satirizando a mentalidade elitista, e seus preconceitos contra a classe operária, através da história de um cafetão "politizado". O desfecho da música, com o Laert dramaticamente imitando o Joe Cocker, e a Janis Joplin, era o momento onde as pessoas finalmente entendiam o significado da letra, e "rachavam" de rir.
4) E também por ser um elo remoto entre eu e o Laert, como egressos do velho Boca do Céu, de 1976.

Nós nunca falamos abertamente sobre isso, mas pairava no ar uma certa cumplicidade nossa aos entreolharmo-nos nos shows, nesse momento, e um dizer para o outro : conseguimos...
O que era um sonho utópico em 1976, estava concretizado, enfim, naqueles tantos shows de 1983-1984, pois agora lotávamos teatros, tocando e cantando bem. E o melhor de tudo, agradando o público, que saía toda noite extasiado. Mas estou me antecipando demais, falando da turnê toda. Por ora, o assunto é o show de estreia, que estou destrinchando, na narrativa.

O arranjo era bem legal da música. Com duas guitarras; piano elétrico; baixo, e bateria, fazíamos um blues intenso e muito dramático. Lembro-me que o Naminha tocava com uma garra incrível. Baixava o John Bonham nele nessa hora, tamanho o peso que ele imprimia, e ele sempre emocionava-se na sua interpretação.

A letra de "Amor à vista" :

Amor à vista (Laert Sarrumor)

Oh ! Baby, venho lhe dizer :
Você tem ganho pouco e a situação está cada vez mais difícil
Os tempos são de crise e você tem que se desdobrar (uou, uou)

Você tem que garantir nosso sustento e o de nossos filhos
Tente sair com mais encanto, com mais graça e mais brilho (uou, uou)

O desespero é geral, a fome é internacional
E nos consome pouco a pouco
Enquanto você trabalha , eu leio o jornal
E sinto pena desse mundo louco

Nas esquinas, o que mais lhe preocupa é o presente
Mas o futuro não está nada promissor
Por isso você tem que insistir
Tente calar a voz que vem do seu interior

Baby, você me ama e eu sei disso muito bem
E sei até que você sabe que eu te amo muito, também
Mas baby, você tem que faturar
Nunca esqueça, amor : que eu sou seu homem, seu cafetão, seu rufião
Ah...eu sou seu o seu gigolô !

Oh ! Baby, procure enxergar
Nós moramos em São Paulo e aqui a oposição está no poder
Mas o colapso econômico, isso ninguém pode resolver (uou, uou)

Oh ! Baby, eu votei no PT
Que é que tem ? Gente baixa também pode ter consciência
Eu acho até que todas vocês tem mais é que se unir pra evitar
nossa falência

E tem o lado social, fortalecer o movimento
E até sindicalizar
Pagar INPS e ter horário certo para o trotoar
Eu sei que o amor não se vende mas essa é a mais antiga profissão

Por isso, você tem que nos garantir
Você deve oferecer, ah ! você tem que insistir
Tente calar a voz que vem do seu interior
Baby, você me ama e eu sei disso muito bem
E sei até que você sabe que eu te amo muito também

Mas baby, você tem que faturar...
Nunca esqueça, amor : que eu sou seu homem, seu cafetão, seu rufião
Ah ! eu sou o seu gigolô ! 

Após essa catarse "bluesistica" sessentista, o clima voltava ao presente (anos 1980...), com uma música do tecladista, João Lucas.
Tratava-se de um Rock oitentista, bem New Wave, e cujo tema da letra era uma crítica aberta aos políticos, e sua sanha pelo poder.
Nessa música, o Pituco Freitas retomava o vocal, enquanto o Laert voltava aos bastidores para livrar-se do visual de Joe Cocker...
A letra da música "Deve ser Bom" era explícita, sem sutilezas e até hoje não sei como foi aprovada pela censura.

Talvez por estarmos nos estertores da ditadura, pois se fosse um pouco antes, certamente que a "Dona Solange" teria passado a famosa tesoura, ou simplesmente vetado-a. E o som, era bem embasado harmonicamente, mas com o arranjo satirizando a New Wave do início dos anos oitenta. Eu costumava tocar como o baixista do Duran Duran, exagerando na dancinha "New Wave", para satirizar aquela "onda" toda.
A seguir, a letra de "Deve ser Bom":

Deve ser Bom (João Lucas)

O meu sonho maior é ser político, bem famoso
E desfrutar de tudo o que vier
Do modo que o Brasil ainda raquítico, comatoso,
A ordem é um salva-se-quem-puder

No ato, eu emprego toda a família e os amigos
Garanto o futuro dessa gente
Isso sem sonhar c'a maravilha, não consigo,
Que é um dia ser o presidente

Tudo isso sem falar em outras mordomias e salários,
Que não menciono agora por prudência
Trabalhar, dar duro mesmo, nem um só dia, é pra otário
E ainda ser chamado de excelência

Deve ser bom processar jornalista
E se fingir caluniado
Deve ser bom taxar de comunista
Quem não for mesmo um aliado

Deve ser bom um carro oficial

Levando a gente passear
Deve ser bom a foto n
o jornal
Com "um porção" de militar


A seguir, uma vinheta de áudio, com três piadas curtas, dava-nos o tempo de sair do palco para trocar a vestimenta. Na verdade era só para acrescentar um ridículo paletó, com um corte "futurista" e cor de abóbora...voltávamos ao palco para a música seguinte que levava-nos direto à Jovem Guarda dos anos sessenta...

A próxima música era "Benzinho". Tratava-se de uma canção que levava-nos para a Jovem Guarda, com o Laert bregalizando tudo nos trejeitos, da mise-en-scené e na interpretação, sobretudo. Como já falei, entrávamos com um ridículo paletó cor de abóbora, e um corte "futurista"que suscitou dúvidas da costureira, que sempre perguntava nas provas que fazíamos : "tem certeza de que querem assim mesmo ?" Era medonho, e claro, proposital, cenicamente falando. A letra, lógico, era absurda, e ironizava a sexualidade, com analogias explícitas à política econômica da época. Eis a letra :

Benzinho (Carlos Melo / Laert Sarrumor)

Benzinho, minha sexualidade
De fato é bem pior que a do Marquês de Sade
Me dá a tua mão, que eu quero amputar
Põe aqui o teu pescoço, que eu vou guilhotinar

As formas ortodoxas de conseguir prazer
Estão mais ultrapassadas do que motor de DKW
Por isso mete bronca, não banque a demodeé

Benzinho, que louca perversão
Não posso ver Lolita, me dá logo emoção
Se sou incestuoso, mamãe é que é culpada
Quando fiz 5 anos, passou-me uma cantada

Antigamente, eu era um libertino matusquela
Minha vida mudou ao ler o fórum da Ele & Ela
Hoje pedofilia, pra mim é uma balela

Benzinho, não me julgue um palerma
Só quero te afogar num mar de sangue e esperma
Arranca a minha unha, provoca um hematoma
Como nos 120 dias de Sodoma

Em termos de sacanagem
Eu só conheço a teoria
Pois quem domina o assunto,
Principalmente a sodomia

Não sou eu nem tu, benzinho
São os ministros da economia...


O final levava o público ao delírio, pois o Laert fazia gestos para reforçar o conceito do que a política econômica fazia com, digamos, a "poupança" do povo...
Inacreditável a censura ter liberado à época, não só pelas citações de tabus morais, mas também e principalmente pela explícita provocação à equipe econômica do governo Figueiredo. Era um grande momento no show.

A seguir, vinha um samba-de-breque, daqueles bem tradicionais, estilo Moreira da Silva, velha guarda carioca etc. Chamava-se "Samba do Inferno" e brincava com a "Divina Comédia" de Dante Alighieri, fazendo piadas políticas daquele momento de 1983-1984. 

Claro, quem faz música satírica, sabe (perguntem ao Juca Chaves...), que a data de validade das músicas é limitadíssima. 

Rapidamente fica anacrônica e tempos depois, perde o imediatismo da situação. Quando é necessário explicar a piada no contexto do seu tempo, perde mesmo a graça, e fica apenas objeto de estudiosos, musicólogos e / ou preservadores / resgatadores de matéria cultural. Mas, claro, compositores como Laert Sarrumor; Carlos Melo, e Guca Domenico, entre os principais compositores do Língua, sabiam disso muito bem, e certamente não preocupavam-se com a vida curta das piadas, produzindo sempre novidades frescas ao sabor das atualidades, principalmente no mundo sociopolítico.
A interpretação desse "Samba do Inferno" era aquém das anteriores no quesito performance, figurino ou efeitos especiais. Mas a letra da música tinha seus bons momentos de tiradas políticas pertinentes à sua época.

"Samba do Inferno" (Carlos Melo - Lizoel Costa)

Um belo dia, depois do expediente
Quando eu botava no cabide o meu terno
Tive um mau súbito, morri de-repente
Indo parar nas profundezas do inferno

Passei no céu, mas resolveram me barrar
Burocracia lá no céu é o que é que há
É que eu morri sem preencher regulamento
Que dá direito a residir no firmamento

Levei cartão, ganhei status de banido
Pois me levaram direto pro purgatório

Um anjo disse: "Faça um último pedido"
Lhe perguntei onde é que fica o purgatório

Fui sem escalas lá pros quintos dos infernos
Onde Satã me fez assinar um caderno
E disse: "Nego, tudo aqui é organizado"
Teve um rebu, agora tudo é estatizado

Lá no Inferno, todo mundo come alcatra
Só dá ministro, e presidente de nação
Tá entupido de fãs do Frank Sinatra
E de apresentadores de televisão...

Tem ruas largas onde até um jato pousa
A maior delas chama Anastácio Somoza
E adivinhe quem por lá comanda a plebe
É o Adolfinho com o Xá Reza Pahlevi

Lá no inferno, as mulheres andam nuas
Mostrando tudo, até o fruto proibido
Mas seu Satã ferra com a gente, senta a pua
É que no inferno nem um homem tem libido

Ontem eu fugi pro paraíso com um sujeito
Que fez o mapa do inferno pelo jeito
Diz que é poeta e cheio dos guéri-guéri
Seu nome acho que é Dante Alighieri...
A seguir, saíamos do palco sob a deixa de mais uma vinheta, e enquanto o público continuava desopilando o fígado, tirávamos aquele paletó cor de abóbora medonho, e voltávamos ao palco usando chapéus de cowboy americano. Era um chapéu vermelho, bem espalhafatoso e claro, já arrancava risadas mesmo antes de começarmos a próxima música. Tratava-se de "Country os Brancos", um "country" satirizando o preconceito contra os índios e claro, ao final com uma cutucada na Funai, que também não sei como a censura da ditadura deixou passar. A música era de autoria do Carlos Melo e do Lizoel Costa. O Laert a cantava junto com o Pituco, e ambos entravam com revólveres de brinquedo e coldre.

"Country os Brancos" (Carlos Melo e Lizoel Costa)

Meu sonho era ir para o Velho Oeste
Dar uns tiros de pistola e de canhão
Fazer tudo que John Wayne fazia
Co'as filha dos cacique valentão

Meu sonho era ser um texano
Dos bem bacano, o xerife mais temido
Daquele que chega em casa e beija o cavalo
E na mulher, finca um tapão no pé do ouvido

Me lembro dos meus tempo de pixote
Nóis ia no cinema de domingo
Pra ver aqueles filme engajado
Dólar furado, Bat-Masterson e Ringo

O Rin-Tin-Tin era um big dum artista
Era racista, só mordia as indiarada
Porque nos filme Bang-Bang que se preza
Pele vermelha sempre vira carne assada

Tirei passaporte pro Arizona
Meu sonho era inda ser cowboy
Quando cheguei nos Estados Unidos
Fui recebido com as honras de um herói
Xerife me deu um revólver de prata

E disse :"Mata quantos índios o senhor quiser"
Porque aqui o cabra que matar mais indio
Tem por troféu a mais formosa das muié

Fui dando tiro a torto e direito
Matei uns déis indígena medonho
Casei com um muierão de sete parmo
Depois mais carmo vi que tudo era um sonho

Eu nunca fui cowboy no Arizona
Tô no Amazonas tem uns quatro mês ou mais
Num devo nada pros cowboy que tem no Texas
Pois ando armado a serviço da Funai


Os erros são todos propositais, ao estilo Adoniran Barbosa...
A seguir, todos saiam do palco, e só ficavam o Lizoel Costa e o João Lucas. Ambos estavam acostumados a satirizar duplas sertanejas, não esses bregalhões da Era pós-governo Collor, mas as duplas de raiz, tipo Tonico & Tinoco, e similares. Então, eles contavam algumas piadas carregando no sotaque, e com o Lizoel ao violão, e o João Lucas no acordeom, tocavam a música "Toada da Subcultura". O grande impacto, era que toda aquela estética caipira era usada para falar de política engajada, e tornava-se hilário abordar o tema sob essa estética prosaica. 
Um truque usado toda noite e que funcionava muito bem, era protagonizado pelo ator Paulo Elias. Ele saía do camarim pelo jeito que fosse possível em cada local, para não ser visto pela plateia, e usando roupas comuns, se infiltrava na plateia, como se fosse um espectador que chegara atrasado. No meio de uma piada contada pelos "caipiras" Lizoel e João, o Paulinho dava um berro : "essa piada é velha !!" Imediatamente o João Lucas retrucava ao microfone : "a sua mãe também é velha, mas não é todo mundo que conhece" !! O teatro vinha abaixo, numa reação esperada por todos nós, e isso era a deixa para a música começar. Quanto ao Paulinho, ele nem esperava pela resposta do João Lucas, pois sua função no sketch estava cumprida. Dessa forma, voltava imediatamente ao camarim, onde preparava-se para novos números. 

O número dos dois era muito bom, e arrancava muitas risadas do público. E também era estratégico para dar um respiro para o restante da banda. A música era de autoria do Carlos Melo e do Lizoel Costa. Essa era uma das raras músicas antigas que foram executadas no show de estreia, realizado no TUCA, em 15 de novembro de 1983.
"Toada da Sub-Cultura" (Lizoel Costa / Carlos Melo)

Nós já pensemo em assartá um banco
Pra levantar dinheiro pra comprar um carro
Nós já cansemo de andar a tranco e barranco
De andar a pé e ficar amassando barro

Nóis quer trocar nossas charrete ultrapassada
Mas nem que seje pra berganhar por um barco
Porque as muié só qué andar motorizada
Na base do automovi movido a arco

Juro por Deus, se nóis ganha na loteria
No mesmo dia nóis torra 100%
Comprando uma romisetinha bem robusta
Pra ir pra Augusta arrumar um casamento

Por Deus do céu, acho que nóis daria um braço
Pra ter uma caranga envenenada
Com tala larga e os párachoque de aço
Pra todos sábados arrumar namorada

Farol de milha e os escapamento aberto
Um toca-fitas americano bem possante
Tocando sempre aquelas musca do Roberto
De preferência "Lady Laura"e "Amada Amante"

Eu sei que iam chamar nóis de preibóizinho
De burguesinho e até de matusquela
Porque o cotovelo do invejoso dói
Ao ver preibói, ao ver um astro de novela 
Então, chegava o momento de executar "Na Minha Boca". 
Era um samba tenso, com um andamento lento e que acompanhava a agonia do cantor em transmitir a mensagem, numa interpretação brilhante do Laert, que simulava um preso político tentando expressar-se após uma sessão de tortura. Ele entrava com uma camisa-de-força, maquiado como se tivesse acabado de sair do eletrochoque e ia cantando e livrando-se da camisa. E a entrada era também chocante com ele sendo levado ao palco pelo ator Paulo Elias e pelo Pituco Freitas, vestidos como policiais supostamente à paisana, ou seja, aquele "disfarce" que mais parece uniforme de tão "bandeiroso" que é. E essa música era do repertório do antigo "Boca do Céu", o que enchia-nos de orgulho, pois era um autêntico tesouro de nossos primórdios na música.

"Na Minha Boca" (Laert Sarrumor)

Eu tenho tanta coisa pra dizer
Mas as palavras não brotam na minha boca
Eu acho que tô com medo de falar
Falar é muito difícil, que coisa louca


Eu tenho tanto medo pra falar
Mas as palavras não dizem que coisa louca
Eu acho que eu tô com muita coisa pra brotar
Brotar é muito difícil, na minha boca

Fulano falou e não se deu bem
Sicrano calou e tudo bem
Na sala, todo mundo mudo
Com medo da bala que vem à baila
E ninguém fala...

Nos primeiros versos, ele gaguejava, e ia soltando-se da camisa. 
Com semblante de " louco", acentuado pela maquiagem. Na metade para o final, cantava desenvolto, e a banda acompanhava-o gradualmente. Em princípio, tocando com o ritmo fragmentado para acentuar a questão da tortura e entrando no swing normal na parte final. Mas a verdade é : acredito que mesmo com uma mensagem praticamente explícita, não era todo mundo que percebia o seu teor e achava ser só uma música que falasse sobre manicômios, talvez uma crítica ao sistema de saúde. Eram poucos que ligavam-se que era a história de um torturado político da ditadura, tentando denunciar tal abuso. Essa era pelo teor, uma das prediletas de todos os Línguas, mas não arrancava risadas, destoando um pouco da praxe do show.

Então tocávamos um Rock. A ideia era fazer um Rock simples, estilo Rolling Stones, sem firulas e de certa forma atemporal, sem querer firmar a piada em cima da caricatura musical em si.
Chamava-se "Crocodilo" e era uma composição do Laert Sarrumor.
O objetivo era satirizar os exploradores da fauna e da flora, portanto tinha um certo caráter ecológico, mas a real intenção subliminar, era alfinetar políticos conservadores, invariavelmente contrários à reforma agrária e geralmente envolvidos com uma série de crimes ambientais. Independente do tema e da piada, eu gostava muito de tocar essa canção, pois era um momento em que mais aproximava-me do Rock, embora esse não fosse o objetivo do trabalho do Língua de Trapo. O Laert cantava-a e fazia uma performance à la Mick Jagger e o público curtia e entrava no embalo. Se por um lado era um momento de interação musical, por outro, essa pequena euforia, tirava o foco da letra, e o seu objetivo que era fazer rir, porém refletindo sobre o tema. Conforme comentarei mais para a frente, essa música foi ao ar no programa "A Fábrica do Som" em 1984, e trata-se de um dos poucos vídeos que existem no You Tube, com a minha presença na banda.

"Crocodilo"(Laert Sarrumor)

Sou do Centro-oeste, tenho muito estilo
Carango importado, bolsa crocodilo
Sou o novo rico de Goiás
Já garanti meu dia de amanhã
Comprei fazenda em Ponta Porã
Eu tiro o couro, arranco a pele, extermino, assino e dou fé

Todo mundo sabe, já deu no jornal
No Globo Repórter deu especial "Matança no Pantanal"
Mas todos tem é que cruzar os braços
Pois para o dólar, não há embaraços
Eu tiro o couro, arranco a pele, extermino e dou fé
Eu mato jacaré, eu mato jacaré...

A seguir, tocávamos um frevo, chamado "Conspurcália", de autoria do Laert Sarrumor. Nessa animada canção com ares carnavalescos, o Laert escreveu uma letra satirizando a indústria alimentícia, e a quantidade absurda de porcarias que fazem-nos comer, colocando elementos químicos abomináveis na comida industrializada, sem o menor pudor. Hoje em dia é tema na moda, com a onda ecológica que vivemos, mas em 1983, soava como algo exótico ou mesmo coisa de "hippies desfasados". Claro, em se tratando de Língua de Trapo, o tratamento sarcástico estava garantido. Lembro-me do guitarrista Serginho Gama fazendo um pequeno ritual para provocar o público. Isso foi fruto da improvisação dele, e não aconteceu no show de estreia. Foi sendo desenvolvida ao longo das apresentações, e só se consolidou durante a temporada no Teatro Lira Paulistana, meses depois. Após uma vinheta rápida, ele costumava voltar ao palco, vestindo uma camiseta do Botafogo (seu time, pois é carioca). Ele entrava com um jeito bem de "malandro carioca", tomando um refrigerante, geralmente Fanta Laranja em lata. Muitas vezes, ele oferecia às pessoas da plateia. Só por entrar com a  camiseta do Botafogo, já causava reações. Geralmente vaias e pequenas provocações, principalmente aqui em São Paulo, onde os times do Rio, são rivais históricos dos nossos. Mas mesmo com esse clima não tendo grande relação com a música, apesar da latinha de refrigerante, aliás, uma sutileza que só percebiam ao final da música, o fato é que dava um efeito legal. A música empolgava também. Lembro-me do Naminha, puxando-a na caixa e bumbo da bateria, e imediatamente contagiar o teatro. E aí, entrávamos com o instrumental todo, e o Laert a cantava em duo com o Pituco. Gostava de tocá-la, pois lembrava-me os frevos do Moraes Moreira. Uma canção bem composta, arranjada, empolgante, e claro, com letra corrosivamente satírica, no clima do trabalho todo. 

"Conspurcália"  (Laert Sarrumor) 
Há dias em que eu chego em casa
Preparo algo para comer, um lagarto me sorri, sarcástico e ferino
Um ácido corrói parte do intestino
Congelada, a carne me convida
E a salada é só inseticida
Esta comida, menina, tem anilina

Engorda o porco e faz morrer
Corantes, acidulantes
Gases, aromatizantes
Mamãe prepara a merenda com muito carinho
E assim ela encomenda a gastrite do filhinho
ue beleza, a cirrose está posta
E a sobremesa, lá-lálá-lá-lá
Esta comida, menina, tem toxina
Engorda o porco e faz morrer
É esse maldito regime, é esse maldito regime macrobiótico
É esse maldito regime, é esse maldito regime macrobiótico   

Nem preciso dizer que os versos finais tinham dupla conotação. 
"Maldito Regime", tinha esse poder de duplo sentido, cutucando a ditadura. Não era uma novidade, pois lembro-me do humorista Jô Soares, nos anos setenta, com um espetáculo denominado "Viva o Gordo, Abaixo o Regime", com essa clara intenção da dubiedade. Mas, mesmo sem ser original, a ideia na música era muito boa, e rendia muitas risadas.

E era a chegada a hora de satirizar o universo das Escolas de Samba, seus Sambas-Enredo com temas históricos, e outros maneirismos típicos desse mundo. Laert e Carlos Melo não economizaram nessa sátira, indo mexer num vespeiro muito perigoso, pois o personagem a ser homenageado nesse "samba-enredo" era um ícone da direita brasileira, fundador de uma organização ultra católica, e ligada a direita radical. Em tempos ainda de ditadura, embora abrandada, e caminhando para o final, não era de bom tom fazer uma gozação assim, mexendo com uma organização muito ativa naquela ocasião, e famosa pela sua militância forte nas ruas. Mas a letra passou na censura (inacreditável que tenha passado !!), e nós passamos a executá-la nos shows. Mais para a frente, relatarei os problemas que tivemos por conta disso. E a música era hilária... 
Laert fazia o "puxador do samba", cantando-a com todos os clichês típicos dos desfiles do carnaval, arrancando gargalhadas histéricas da plateia. O Pituco atacava de "cabrocha", dançando, ou melhor, sambando, com aqueles trejeitos todos, e reforçava o vocal no refrão. O Lizoel fazia o cavaquinho, e a ideia inicial era que todos os demais tocassem instrumentos de percussão para reforçar a batucada, dispensando o uso de baixo, guitarras e teclados. 
E o João Lucas atacava de porta-bandeira, com o ator Paulo Elias fazendo o mestre-de-cerimônias. Mas aí entrava o detalhe picante, pois a bandeira da escola era um estandarte da tal organização, igual ao que seus membros usavam nas manifestações de rua que promoviam desde os anos 1960, muito comum pelo menos aqui em São Paulo. O João entrava de terno e gravata, o que aumentava a ironia e o Paulo Elias usava uma roupa de carnaval mesmo, para dar o contraste. Ao longo dos shows, eu tive uma ideia cênica, que apresentei ao grupo e foi aceita. Inclusive essa performance que fazia se tornou tão engraçada que realmente acrescentou muito ao número, e uma vez num show no Rio de Janeiro, recebi elogios de um diretor de teatro, que pensou que eu fosse ator. Não sou, claro, mas nessa performance eu acho que convenci. Era o seguinte : como nos primeiros shows eu tocava burocraticamente um agogô, que pouco acrescentava à batucada, tive a ideia de evoluir pelo palco, tocando uma ridícula caixa de fósforos, o que era uma imensa ironia numa bateria ensurdecedora de escola de samba. 

Eu circulava como se estivesse evoluindo na avenida, fazia performance de mise-en-scené com a "cabrocha" Pituco, e às vezes imitava aqueles organizadores de desfile, que ficam gritando como se fossem treinadores de futebol, para que os integrantes não dispersem. Eu fazia essa palhaçada toda e via as pessoas cutucando-se para mostrar a minha evolução com uma ridícula caixa de fósforos, e matando-se de rir. Era um grande momento do show e claro, a cutucada na direita radical era apreciada demais pelo público predominantemente universitário e simpatizante da esquerda. O Língua teve tantos problemas por mexer com isso tudo, que após a minha saída definitiva da banda, só foi gravá-la em 1985, com mudanças radicais na letra, sob ameaça de processos pesados. Para não ofender ninguém, e não é a minha intenção, mas apenas relatar essa parte da minha carreira com o Língua de Trapo, vou reproduzir a letra suprimindo as partes que possam ser interpretadas como ofensivas àquela organização. 

"Samba-Enredo da... "xxx" (Carlos Melo / Laert Sarrumor) 

"XXX" pede passagem, pra mostrar sua bateria 
E seu passado de coragem, defendendo a Monarquia 
Salve "YYY", precursor da linha-dura 
Grande baluarte da ditadura 
Legislador da Inquisição, implacável justiceiro 
Homem de grande erudição, lia Mein Kampf no banheiro 
No tribunal de Nuremberg, defendeu o Mussolini 
Sob os auspícios do Lindenberg 
E hoje ele se preocupa com a infiltração comunista 
No Clero progressista  (e o Lefebvre) 
Levebvre, fiel companheiro, incomparável amigo, irrepreensível mentor  
Exerce completo fascínio e vai incluindo no "XXX", o genio conservador 
Digno de um poema de Ezra Pound, quer que o Brasil se transforme 
Num imenso playground 
No carnaval, a escola comemora o nascimento de "YYY" 
E a defesa da tradição, cantando esse refrão : 
Anauê, anauê, Anauê, "XXX" acabou de chegar (repete) 
E hoje sou fascista na avenida, minha escola é a mais querida 
Dos "reaça" nacional (repete) 
Plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim, plim 
Era assim que a vovó o seu "YYY" chamava...  

Bem, o "Anauê", era a saudação ritualística do partido integralista, nos anos 1930, semelhante à saudação nazista. Para os mais antenados em história, a piada era irresistível, ainda mais realçada pelos trejeitos do Laert fazendo a saudação integralista com o braço. E aqui no relato, omiti as partes possivelmente ofensivas à pessoas e organizações, colocando as onomatopeias "XXX" e "YYY", no lugar.
Encerrando o show, tocávamos uma composição do Laert, chamada "Jogo Sujo". Tinha una estrutura rítmica e harmônica bem quebrada, na onda do trabalho do Arrigo Barnabé, e uma letra cheia de jogo de palavras, evocando imagens aparentemente díspares. 

Mas na verdade, tinha seu teor político, como quase todo o trabalho da banda. Há de ressaltar-se também, que o Laert, e o ator Paulo Elias, faziam uma performance corporal para realçar a estranheza da música. Com roupas de tecido "colant" ao estilo "Polichinelo", faziam uma estranhíssima coreografia que arrancava risadas frenéticas da plateia. E deixo claro que todas as músicas que comentei e postei as suas respectivas letras, foram tocadas no set list do primeiro show dessa nova turnê, mas essa ordem, logo sofreu mudanças. Algumas músicas antigas do primeiro LP da banda, foram realojadas no set list, pois como já comentei, causa um desconforto tocar só músicas novas, e isso vale até para artistas mega conhecidos. Se os Rolling Stones tocam uma música do último CD, o público fica meio paradão, mesmo que ela seja excelente. Contudo, se tocar "Satisfaction", no primeiro compasso, o estádio desaba. É uma reação normal do ser humano, estranhar ter contato com algo novo. Depois da letra de "Jogo Sujo", sigo em frente, falando do segundo show  da turnê, em diante !  


"Jogo Sujo" (Laert Sarrumor) 

Fi-lo assim porque  
Vilipendiou-me a sua empáfia 
Quis outrossim ater 
O meu argumento a uma falácia 
Vociferante criatura 
Enredaste-me na peripécia 
E em tamanha desventura 
Joguei o teu jogo por inércia, inércia, inércia...
Fi-lo assim porque 
Vilipendiou-me a sua empáfia 
Quis outrossim ater 
O meu argumento a uma falácia 
Usaste de muita malícia 
Usaste de muita lascívia 
Foste um caso de polícia 
Deste um golpe na Bolívia / Bolívia, Bolívia...
 
Terminado o show de estreia no Tuca, recebemos amigos, e muitos fãs no camarim, e apesar de sabermos que o show tinha tido diversas falhas, principalmente no seu timing de teatro, no cômputo geral, foi uma boa estreia, e o público curtiu, apesar da enorme quantidade de músicas novas. Acrescento ainda que tocamos duas músicas como bis, "Concheta" e "Xingu Disco", que realmente levantou o público, por serem conhecidas do LP de 1982, e exaustivamente tocadas nos shows da turnê anterior, "Obscenas Brasileiras". 

Continua...

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